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quarta-feira, 8 de julho de 2020

ALTRUÍSMO E EMPATIA – O QUE NOS FAZ EGOÍSTAS OU SOLIDÁRIOS

Em recente discurso, o presidente da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, fez um apelo emocionado e deixou uma indagação que merece toda a reflexão: “Porque é tão difícil para os humanos se unirem?”
Pois bem, esse é o assunto que trago para discussão. Embora essa temática já tivesse sido escolhida bem antes de ler sobre o desabafo do presidente da OMS, no momento em esta organização está sob pressão dos EUA e de outros países governados por políticos de extrema-direita, inclusive o Brasil. E por isso a minha abordagem vai além da análise política.
São nesses tempos de crises que se escancaram comportamentos que podem definir as condições pelas quais as pessoas se posicionam na relação com os demais. Em tipos de sociedades como a que vivemos, fundadas em elementos que nos dividem e segregam, onde os preconceitos e a intolerância, acompanhados de discursos de ódios, se somam à busca egoísta pela riqueza individual, isso fica evidente mesmo em períodos de normalidade, ou de estabilidade política e econômica. As crises só escancaram e desnudam esses comportamentos, a ponto de descobrirmos haver um alto índice de sociopatas com os quais dividimos até mesmo os espaços familiares. Isso não é genético, é cultural.
Mas precisamos entender como isso funciona. Muitas vezes nos espantamos, e ficamos indignados, com determinadas ações de indivíduos, isoladamente ou em grupos, e nos irritamos com atitudes mesquinhas, desprovidas de um mínimo sentimento de solidariedade, ou de respeito às diferenças sociais, e de origens, em relação à outras pessoas. Só que isso sempre é visto com um viés particularista. Ou seja, imagina-se ser um traço do caráter daquele indivíduo que pratica esse tipo de ato.
Sim, é verdade. Isso reflete um perfil de caráter, que se expõe em atos perversos. No entanto, não é isolado. É resultado de atitudes acumuladas em padrões de comportamentos sociais. Porque isso está ligado às condições de classe social, por um lado, e por outro lado pela assimilação de valores culturais da classe dominante, que afetam pessoas de segmentos da sociedade das camadas baixas da pirâmide social. Ou seja, mesmo entre os pobres, em cuja faixa se mostra mais presente atitudes solidárias, esse padrão de comportamento se manifesta, de forma cada vez mais intensa e com grau de radicalidade que beira o fascismo.

O ALTRUÍSMO

Um dos livros mais importante em minha trajetória como professor, graduado em história e doutorado em geografia, foi “O povo do lago”[1], escrito pelo paleoantropólogo Richard Leakey e o biólogo Roger Lewin. Tendo como cenário o lago Turkana, localizado nas fronteiras do Quênia e da Etiópia, na África, onde um importante sítio arqueológico – Koobi Fora – possibilitou que inúmeros vestígios sobre nossas origens fossem descobertos, esses pesquisadores conseguiram transmitir, de forma simples, em um relato de fácil compreensão até para os mais leigos, como nos constituímos enquanto seres humanos, nossa relação com a natureza e os caminhos em direção ao futuro.
Um de seus capítulos, e no qual foco meu olhar para essa abordagem, faz referência à forma como os hominídeos, nossos ancestrais primitivos, conseguiram sobreviver em meio a ambientes inóspitos, selvagens, embora fossem mais frágeis que seus adversários em uma natureza livre, onde se impunha a força e a condição de sobrevivência adequada à capacidade adaptativa.
É importante destacar como esses autores se referem, ao contrário do que tradicionalmente se via na história, à coleta como elemento mais importante na consolidação da vida sedentária, em comparação com a caça. Porque esta não era garantia de sucesso por todo o tempo, já que nos primórdios a ausência de instrumentos eficazes impedia que os grupos humanos, notadamente os machos, retornassem ao grupo trazendo animais abatidos. A coleta, desenvolvida pelas mulheres, tornou-se, assim, a garantia de alimentos diariamente, fazendo com que surgissem também os primeiros utensílios, as sacolas, para transportá-los. Constituía-se, portanto, como sociedade de coletoras-caçadores.
Mas, tanto em relação à caça, em muitos casos somente com obtenção de carniças, ou seja, dos restos de carcaças deixadas para trás por grandes animais, como também na coleta, o elemento primordial a se destacar, e seguramente o que garantiu a sobrevivência humana, foi o altruísmo.
O altruísmo, ou essa capacidade de compartilhamento e cooperação, adquirida pelos hominídeos, se tornou o elemento mais importante para explicar a nossa sobrevivência em cenários complexos e adversos. Pode-se dizer que o altruísmo foi a condição necessária para que pudéssemos evoluir nos protegendo em grupos e nos ajudando mutuamente.
Isso em grande medida saiu do caminho natural, espontâneo e de sobrevivência, para se tornar disperso entre grupos sociais, sendo mais forte naqueles segmentos mais pobres, nas periferias das cidades, ou nas igrejas e instituições criadas por essas, na medida em que a caridade se constituía como uma maneira de amenizar os pecados individuais.
Evoluímos para formas de organizações sociais que se fundamentaram na propriedade privada da terra, e depois dos meios de produção e da escravização dos indivíduos através da necessária venda de sua força de trabalho, condição a partir do advento do capitalismo para a própria sobrevivência individual. Com essa nova formação econômica e social a cooperação e a visão coletiva foram substituídas pela busca do sucesso individual, numa sociedade marcada cada vez mais pela competição, e nos tempos globalizantes, pela competitividade.
O altruísmo além de nos garantir a sobrevivência por viver em grupo e compartilhar o fruto do trabalho oriundo da caça e da coleta, foi também um forte elemento na constituição da família, e dos sentimentos de pertencimentos não só pelo lugar, pelo território, mas pelo outro. É no princípio desse sentimento que o ser humano aprende a cuidar de seus mortos e a dar aos seus corpos um destino que não fosse aquele de deixá-los ao tempo para ser consumido por aves de rapinas. O altruísmo foi fundamental na nossa formação enquanto núcleo social-familiar.

EMPATIA, SIMPATIA E ALTERIDADE

O altruísmo nos legou a empatia, algo que se manteve no ser humano, homens e mulheres, imbuídos do sentimento de poder sentir as dificuldades e os sofrimentos da outra pessoa, e, mais do que isso, saber compreender suas escolhas, seu jeito de ser, de colocar-se no seu lugar sem querer que esta assimile seu modo de ser e de pensar.
“A empatia implica a capacidade de nos posicionarmos no lugar do outro para compreendermos a sua realidade interna, independentemente da pessoa em questão, de estarmos ou não de acordo com ela ou de simpatizarmos ou não com ela. A empatia genuína está ao serviço da comunhão emocional, da aceitação e do respeito pelo outro e pela sua realidade, o que implica uma atitude de não julgamento e de despojamento de preconceitos do próprio”[2]
Empatia não é sinônimo de altruísmo, embora sejam palavras próximas uma da outra, porque, afinal, elas significam a necessária compreensão do entendimento com o outro. Se o altruísta se dispõe a ajudar, sob quaisquer circunstâncias, um semelhante por ver que há uma fragilidade que precisa ser apoiada, e ele pode fazer isso, a empatia garante que isso seja feito sem que se queira modificar o jeito de ser daquele indivíduo. A empatia significa que temos a capacidade de ajudar as pessoas independente de conhecê-las, ou de ter afinidades com ela, compreendendo o seu jeito de ser e se colocando no lugar desse outrem, mesmo sendo diferente de você, ou que pense diferente.
Uma pessoa que tenha empatia consegue sentir a dor da outra pessoa, buscando se colocar no lugar dela, e não tentando transferir para ela o seu jeito de lidar com aquela dor, procurando imaginar como essa pessoa está se sentindo nas condições dela, com as percepções e compreensões que ela tenha. É o transpor-se para o lugar do outro, sem querer trazê-lo para a maneira de você pensar. Isso é comum nas perdas de entes queridos. O sentimento de uma pessoa é único, a dor é irreparável e intransferível. Mas as vezes muitas pessoas, por suas crenças e fé, tentam transferir isso e procuram confortar o outro à sua maneira de ser e de ver aquele sentimento.
Nesse ponto é preciso encontrar a verdadeira relação que se estabelece. Se alguém não se coloca no lugar do outro e busca expressar um sentimento de carinho, solidariedade e respeito, e extrai isso de dentro de si por uma relação construída com base na amizade, o que temos é uma simpatia.
“Podemos entender a simpatia como um sentimento de afinidade com determinada pessoa, que leva o indivíduo a estabelecer uma harmonia no encontro com ela. Simpatizamos com amigos e com as pessoas com quem partilhamos afinidades, interesses e valores e nas quais reconhecemos alguma compatibilidade e complementariedade com o nosso funcionamento”.[3]
São portanto duas situações diferentes, em que uma requer uma relação construída por afinidades, ou mesmo uma característica própria de determinada pessoa que transborda em gentileza e deseja compartilhar esse sentimento, o que denota simpatia; e na outra situação, de empatia, uma transposição da condição e do seu jeito de ser e sentir, para outra pessoa que não necessariamente você a conheça, mas sente a necessidade de ajudá-la, ou de compreendê-la em suas posições, colocando-se no lugar dela, entendendo as circunstâncias na qual ela vive e aceitando a maneira dela viver e pensar. Nem sempre, pois, uma pessoa simpática tem empatia. Por que sua gentileza e afabilidade é uma característica própria que essa pessoa tenta transferir para o outro, mas ela pode ser incapaz de demonstrar sensibilidade com as condições em que o outro vive e aceitar a maneira como o outro é.
Entre esses dois sentimentos seria importante incluirmos outro, a alteridade. Esse é o sentimento que garante a aceitação do outro do jeito que ele é, por suas escolhas, por mais que seja diferente de você. A alteridade é o que nos garante respeito pelas diferenças e, por extensão, esse sentimento nos possibilita sermos tolerantes.
A empatia faz com que você se coloque no lugar da outra pessoa; a alteridade é a garantia de que respeitaremos aquela pessoa por mais diferente que ela seja de nós, ou para nós; e simpatia é o que nos faz ser afável e querido pela nossa amabilidade, por uma característica pessoal.

POR QUE ESSES SENTIMENTOS IMPORTAM EM NOSSO TEMPO

Ao olharmos para trás e analisarmos cada momento da história, veremos sempre desigualdades, riquezas acumuladas em meio a muita pobreza, o controle do poder por uma minoria e a política de pão e circo para aplacar a ira da maioria e mantê-la inerte. Mas o que nos faz diferente a cada uma dessas épocas, comparando grosso modo com a nossa maneira de viver nos dias de hoje? Seguramente vamos encontrar respostas diferentes e análises sociológicas e filosóficas que destoam uma da outra, mas que na junção delas podemos encontrar coerência. Principalmente se identificarmos sob qual olhar, dimensão ideológica, essa análise está sendo feita.
O olhar que tivermos desse espectro que nos rodeia indicará o tipo de sentimento que nutrimos, o grau de empatia que carregamos e se nos portamos, ou não, de maneira altruísta. A simpatia transita livremente entre essas situações. E a alteridade, normalmente vem acompanhada da empatia e do altruísmo.
O sistema capitalista é incapaz de potencializar esses sentimentos – empatia, altruísmo, alteridade – entre as camadas mais ricas da sociedade. Porque a base do enriquecimento, com raras exceções, embora elas existam, é a usura, a ganância e o egoísmo. A caridade, ou filantropia, advém de um sentimento religioso, uma condição criada pelos dogmas cristãos para transmitir a sua máxima de “amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Isso perpassou ao longo de séculos, milênios, mas se mantém dentro desses princípios até os dias de hoje. E os seus atos representam muito mais um alívio para a alma de um cristão, ou quem pratica o espiritismo, do que uma reparação diante das condições de miséria que tantos se encontram. Tanto que você pode, e deve, ser caridoso, mas jamais pode se atrever a defender a distribuição da riqueza a fim de reduzir as desigualdades sociais.
Mas, há exceção, naturalmente. Aos que assim se comportam restará o uso, tornado “pejorativo”, do termo “comunista”. Cuja palavra advém, aliás, de “comum união”, ou “comum unidade”, muito dito e difundido nos primórdios do cristianismo, entre as comunidades pobres. Isso levou a uma frase de indignação e espanto, do arcebispo católico pernambucano, D. Hélder Câmara (1909-1999), diante da hipocrisia e falta de empatia da sociedade: “Quando dou comida aos pobres me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”.
O altruísmo e a empatia são elementos que compõe a natureza da forma de viver solidariamente, em distribuir o produto do trabalho como ele foi feito e desenvolvido em cooperação, por meio de trocas e de respeito mútuo à condição de ser de cada um.
Alguém que destila o ódio, arrota intolerância, destrata os mais fragilizados socialmente e não aceita a condição de ser do outro, não possui o mínimo de empatia. Se é um governante, então, essa característica fica visível em seus atos governamentais, nas ações e políticas que se opõe à aceitação dessas diferenças e de maneira de viver que sejam distintas daquelas padronizadas culturalmente por uma sociedade abjeta (por ser hipócrita) e desigual. Esse indivíduo, escolhido pelo próprio povo para lhe representar, traduz o comportamento e os valores culturais de quem o escolheu.
E isso nos desafia a compreender as razões pelas quais as pessoas pobres, que vivem em ambientes horríveis, insalubres, despossuídas de qualquer condição humana digna, se apega aos sentimentos que são opostos às suas condições nessa sociedade. E como aqueles que se apegam ao deus do cristianismo se opõem a tudo que originalmente fez nascer uma das maiores religiões do mundo, a busca por um mundo solidário e de comum união?
Seria incompreensível se não soubéssemos que esses valores são adquiridos, por meio de instrumentos culturais, pela religião, pelas condições de existência dessas pessoas, fragilizadas e entregues a messianismos e charlatanismos. A escolha advém desses mecanismos ideológicos que os conformam e extraem de si aqueles elementos que podiam fazer a diferença e os levarem para uma luta que mirasse uma sociedade fundada no cooperativismo, no solidarismo, na empatia, na alteridade e no altruísmo. Nem sempre a lógica funciona nesses casos, não estamos tratando de ciências exatas, mas de ciências humanas, da sociabilidade e dos instrumentos que nos cerceiam e nos amarram enquanto cidadãos coletivos.
Quero finalizar com duas frases que cito sempre. Uma de Heráclito de Éfeso, filósofo da antiguidade que primeiro soube apresentar a maneira dialética de olhar o mundo: O CARÁTER DE UM INDIVIDUO É O SEU CAMINHO. Compreendendo que o caráter é moldado pelos valores que são incorporados à sociedade por mecanismos criados pela classe dominante.
Ou podemos romper com esses valores e seguir por outro caminho. Isso vai depender do caráter que construirmos em nós mesmos. Aí servirá a frase dita por Karl Marx: "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência". Daí porque adquirir consciência de classe é tão importante. Por aí traçamos nosso caminho, e o nosso destino.
O que nos leva a constatar que nem tudo se resume a uma questão de caráter.




NOTAS:

[1] LEAKEY, Richard e LEWIN, Roger. O Povo do Lago. Brasília: Editora UnB, 1996.
[3] IDEM

OUÇA TAMBÉM O TEXTO EM VÍDEO NO MEU CANAL NO YOU TUBE:

https://www.youtube.com/watch?v=acTmtps9wvc&t=3s

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

QUE SEJAM FELIZES OS DIAS QUE VIRÃO! VAMOS INVENTAR UM 2018, COM SOLIDARIEDADE, PAZ, TOLERÂNCIA, AMIZADE E AMOR!

Não sei o que dizer do que será. Resta-me analisar o que já não é mais. Assim, na reconstrução do passado, que me pode dar a compreensão dos erros e acertos do tempo que se foi, posso melhor inventar o meu futuro. 2018, e o que mais vier.
Repito aqui, os mesmos desejos de anos anteriores, pois eles são permanentes, apenas envelhecemos um ano a mais.
Seguramente uma das coisas boas em minha vida nesses últimos anos foi a força para criar e consolidar este Blog. Gramática do Mundo, como já disse, um nome quase emprestado do historiador francês, Fernand Braudel, que criou sua Gramática das Civilizações, representou para mim muito mais do que eu pretendia que se fosse inicialmente. Transformou-se em um fórum de debate bem provocativo, como sempre fui, e sou, em minha peculiaridade, mas sempre de maneira positiva e propositiva. Através desse estímulo pude reencontrar minhas forças. E, embora as marcas do passado não cicatrizem, aprendemos a conviver com elas, e com nossas dores. Às vezes, contraditoriamente, elas nos estimulam.
Em 2018, já completando 23 anos como professor na UFG, pretendo redefinir meus objetivos. Não necessariamente,  ano novo, vida nova. Até porque o tempo é contínuo, nós, seres humanos foi quem criamos uma lógica que se impôs pela religiosidade e foi adaptada pelos interesses consumistas sistêmicos. Já não vivemos numa universidade em que a experiência conta mais do que os arroubos juvenis. Hoje vale mais a fria imposição contabilista do novo produtivismo. Sou um péssimo competidor nesse ambiente que ajudei a construir, mas que se alenta com a fluidez, e com a rapidez que caracteriza esse tempo perverso e cada vez mais insensível e individualista. A Universidade é tão somente um reflexo disso. Os idealistas não tiveram forças suficientes para influenciar nessas transformações. Ou sucumbiram ou foram derrotados.
Dedicar-me ao blog é um alento, embora academicamente seja negligenciado. Como procurei afirmar no parágrafo anterior, pouco valem nossas idéias e posições firmadas a respeito de questões que nos envolvem cotidianamente. Nos é imposto a necessidade de sempre nos referenciarmos àquilo que já foi dito, vale, portanto, o argumento da autoridade, e cada vez menos a autoridade do argumento. Mas esse blog  cumpre um papel importante para mim, para além das preocupações meramente acadêmicas, e se transformou numa catarse a aliviar os meus tormentos, de fazer libertar do fundo da minha intimidade todas as angústias motivadas pela perda de minha filha, Ana Carolina. Através do Gramática do Mundo, e tentando ainda fragilmente seguir o lema da filosofia antiga, exposta inicialmente em um poema de Horácio, no século I, antes da Era Cristã, com a expressão Carpe Diem, não me preocupo em viver obcecado com o futuro, mas buscar a compreensão do presente, de forma a vivê-lo em toda a sua intensidade.
Essa máxima permanece a guiar as minhas atitudes e a maneira como concebo a vida, embora com uma concepção materialista. Sem jamais querer eliminar as minhas memórias, as lembranças, mesmo tristes, que me marcaram e me conduziram ao presente. Bloqueei por algum tempo lembranças trágicas da internação de minha filha, até o dia fatídico da sua morte. Mas, desde 2013, principalmente após a defesa de meu doutorado – talvez algo que eu ainda devesse a ela – recuperei essas imagens, mesmo que doídas, mas já conseguindo sentir a sua presença permanentemente ao meu lado, em nossos momentos de alegrias. Carregarei para sempre suas lembranças, mas não imaginem que para mim isso significa sofrimento. São saudades, repletas de amor.
Por isso essa minha mensagem de transição entre dois momentos simbólicos (2017 - 2018), construídos seguindo uma lógica que interessa ao consumismo capitalista, apesar da crise econômica no Brasil e no mundo, mas que inegavelmente também se constitui em um momento de confraternização, e de expiação de todos os nossos problemas, eu quis produzi-la aqui. Transformo, assim, todos os meus seguidores e eventuais leitores, em personagens de minha vida, com os quais estabeleço abertamente, por essa ferramenta espetacular que é a internet (muito embora sempre sob ameaça de controle), momentos de franca discussão ideológica e intelectual, bem como compartilho todos os meus sentimentos pela perda irreparável que me consumiu e me consumirá pelo resto da minha vida, mas que aprendi a conviver com ela, superar a dor e encarar a realidade. Também as dores da vida social são terríveis, convivemos com elas diariamente, direta ou indiretamente, e não podemos viver eternamente numa caverna a olhar infinitamente para dentro de si próprio, senão esquecemos como são as coisas por aí afora, no mundo real que nos cercam e nas quais estamos envolvidos.
Continuo recebendo, principalmente nas minhas postagens mais sofridas, nas datas que mais me lembram da Carol, mesmo dez anos depois de sua morte, mensagens de amigos e amigas, e até mesmos de pessoas anônimas para mim, que só conheço pelas redes sociais, e foram e têm sido fundamentais para a recomposição de meu caminho. São, seguramente, estímulos para a superação das adversidades e me ajudam a viver a vida como expressado na filosofia antiga, nessa loucura do mundo moderno.
Isso nos dá também a convicção de que a solidariedade só precisa ser praticada, porque muito embora tenhamos a sensação de que vivemos em um mundo cruel, as pessoas, em sua maioria, têm sim, sensibilidade e expressam ainda isso de várias formas. O velho altruísmo que salvou a espécie humana em épocas primitivas permanece, ainda que hibernado pelos tempos individualistas como resquícios do neoliberalismo, e do próprio capitalismo e de algumas religiões que fogem aos próprios valores que as constituíram. Mas em certos momentos esse altruísmo se manifesta e desperta o lado sensível dos indivíduos, homens e mulheres. Talvez nesses últimos anos, além dessa palavra, uma outra devesse ser mais analisada, e mais do que isso, o que ela representa devesse ser aplicado: alteridade. Em tempos marcados pela intolerância, resgatar o altruísmo e aplicar mais alteridades em nossas relações, certamente nos ajudará a construir uma força capaz de refazer nosso mundo. Não vai ser fácil.
2017 foi, mais uma vez, um ano de crise, desta feita marcado pelo crescimento do ódio e da intolerância na relação com o outro e com o desrespeito com as diferenças. Sempre envolto nas leituras geopolíticas, que me ajudam a interpretar o mundo, e a nossa situação específica, no caso do Brasil, segui repensando os comportamentos que me acompanharam por vários anos.  Por vezes um choque, uma tragédia, em nossas vidas, torna-se capaz de nos fazer parar para refletir. Tendo não mudar minha personalidade, diante das adversidades e das cargas negativas que nos cercam, alimentadas por uma mídia insana e oportunista.  Procuro sempre seguir sendo eu mesmo, um pouco melhor da minha “ranzizesse” privada, apesar de mais velho e agora tendo ultrapassado a barreira dos 60 anos. Sim, tornei-me neste 2017, sexagenário, com muito orgulho, prazer, dores, tristezas e alegrias. 

Todos nós temos nossos defeitos que cada um de nós possui e compõe a nossa personalidade, obviamente junto com as nossas qualidades. Mas adquiri uma capacidade maior de compreender os dramas e fragilidades da vida humana. Até pela acumulação de conhecimentos que busquei no estoicismo, somando-os à minha visão de mundo, baseada na dialética materialista e pela experiência adquirida da vida. 
Não sou partidário de princípios doutrinários, segundo os quais o sacrifício é um fator essencial para que o sentimento humano se realize. Não temos que, necessariamente, buscarmos o sofrimento a fim de termos nossos “pecados” expiados. Mas é inegável que ele nos trás um choque de uma realidade da qual não esperamos experimentar. Construímos nossos mundos (assim como nossos deuses) de acordo com o que queremos, e esquecemos que não podemos querer aquilo que é inusitado, ocasional. O inevitável, ou o imponderável, pode nos trazer surpresas para as quais não nos preparamos, e da fragilidade de uma vida aparentemente perfeita, desfazem-se sonhos e ilusões de futuros construídos quase que moldados por fantasias que nos são impostas por mecanismos exteriores à nossa vontade.
Converso com minha companheira, Celma, sob óticas diferentes de ver a vida. Ela, sempre otimista, construiu toda a sua resistência à tragédia que nos abateu, buscando espiritualmente forças que traduzisse sentimentos de solidariedade e de um pensar positivo que vê ao longe, além do momento em que estamos, e constrói positivamente um futuro de esperança. Assim ela vai lidando com os projetos que o Instituto Ana Carol tem construído e, principalmente o que já se tornou uma realidade consistente, a BORDANA, Cooperativa de Bordadeiras a consolidar essas certezas construídas com o olhar para adiante.
Não tento desconstruir os sonhos, mas parto de outra perspectiva. A de que o que imaginamos ser a construção de um futuro nada mais é do que a realização do presente. Dialeticamente, ele vai sendo tecido, e termina por concretizar algo que foi pensado. Mas o que seria desse “futuro” se no presente não tivéssemos construído as bases das mudanças? Ademais, não há futuro, pois o que idealizamos como sendo isso, ao imaginarmos tê-lo construído, ele já se torna presente. E, como o tempo não para, em frações de segundos já se torna passado.
Digo isso para afirmar que são as realizações do presente que possibilitam aos nossos pensamentos se concretizarem. Contudo, nada do que se constrói hoje, ou do que se imagina construir, está livre do acaso. Mas, como não podemos ficar pensando no acaso, assim como não faz sentido a obsessão pela morte, devemos pensar sempre em viver toda a intensidade do presente. Abstraindo o egoísmo e o individualismo, logicamente. Afinal, a nossa vida não se realiza isoladamente. E, principalmente, procurarmos viver cultivando a honestidade e a solidariedade.
Assim, 2018 se construirá a cada dia. Por isso, a mensagem que quero passar é a de que cada ano novo só se completa em seu final, até lá ele simplesmente é a somatória de dias, semanas e meses. E cada um de seus dias, deve ser vivido em seu tempo, na duração que lhe foi dada por essa espetacular e indecifrável condição que adjetivamos como vida. E, ao final, ele soma-se à nossa própria história.
Então, não nos basta pensar no ano de 2018. E sim na construção dele, a partir da vivência ativa e intensiva de cada dia, separadamente. Viver um dia por vez, ao invés de nos perdermos em angústias e desesperos do que fazer depois de amanhã. Isso parece óbvio, mas estranhamente não é visto dessa maneira.
Mas alguns dirão que isso é utopia. Que é ilusão se imaginar preso apenas ao que acontecerá a cada dia, na medida em que isso acarreta um efeito em sequência e, seguindo a própria lógica da vida, impõe naturalmente o pensamento no que se seguirá.
Isso também é verdade. Mas aí reside a beleza, a incógnita e o segredo da dialética. A vida em sua mais perfeita contradição. Pela qual não conseguimos jamais compreendê-la por completo, nem vivê-la a cada momento. Pois que ela nada mais é do que uma tridimensionalidade que nos cerca: vivemos o presente, a partir de coisas que construímos do passado e que seguiremos levando adiante, naquilo que se traduz como o futuro.
Que 2018 seja assim, então, para cada um de nós. Cheio de saúde, alegria, amor, amizade, tolerância e fraternidade. Que a solidariedade jamais deixe de estar conosco cotidianamente, por mais que tenhamos em nossas ideologias o sentimento de que tudo que está aí deve ser mudado na construção de um mundo novo.
Tudo bem. Mas as pessoas que vivem a sofrer, por uma condição de sujeição à lógica irracional deste mundo, têm direito a superar seus sofrimentos. Não devemos esperar as pessoas morrerem na miséria para tomar isso como exemplo de que o sistema é injusto. Devemos condená-lo, mas salvando as pessoas... e não somente as matas, as árvores, os animais. Somos nós, seres humanos, que damos sentido a este mundo. Embora contraditoriamente sejamos nós também os responsáveis pela aceleração de sua destruição. Enfim, devemos lutar pela vida. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” (Che).
Que 2018 possa nos inspirar tudo isso, mas não vai ser fácil, diante dos momentos complexos e carregados de ódio que vivemos. Mas temos que lutar pela construção de um novo mundo a partir de nossos próprios exemplos. Que não nos limitemos à crítica, pela crítica, mas que apresentemos alternativas concretas para seja realizado o sonho das pessoas viverem seus presentes com dignidade. E façamos isso também com nós mesmos. Que consigamos viver intensamente cada dia, cada momento, e nos coloquemos um desafio: de a cada dia que conseguirmos superar, aumentar o número de amigos e amigas que nos cercam. E os entendamos em suas peculiaridades, em suas diferenças e os respeitemos assim, sem necessariamente compactuar com comportamentos agressivos, intolerantes, preconceituosos. Isso desfaz amizades, são inaceitáveis, ignora a alteridade, destrói-se o altruísmo e brutaliza as relações humanas. São comportamentos que devem ser combatidos, a fim de construirmos um mundo novo. Sim, acredito que um outro mundo é possível.
Certamente os desafios que temos pela frente não são fáceis. O novo ano não será fruto do que imaginávamos construir positivamente em 2017 e no ano anterior. Algumas coisas, necessárias para isso, fugiram do nosso controle e se perderam em meio á perversão de um governo insensível, corrupto e focado nos interesses dos mais ricos. Mas devemos lutar, sempre, acreditando que a vida pode ser vivida de forma plena, sem esquecer que não vivemos sós e que os muros não nos protegem, simplesmente escondem uma realidade que nos oprime, que precisa mudar, mas da qual é impossível fugir.
Essa vontade de lutar, que, particularmente, pude recompor nos últimos anos, deve estar imbuída do sentimento de que a transformação deve ser coletiva. Pensar somente em mim, não vai ajudar a construir o mundo melhor e mais solidário. Meu tempo de vida não é longo, o de nenhum de nós é, comparando-se ao tempo da história humana, e mais do que isso, se compararmos ao tempo de existência da terra. Portanto, se temos que lutar por algo que valha a pena, que isso se traduza em uma conquista que seja plena para a humanidade. Ao contrário do que se possa pensar, e é assim que vejo, isso não se contradiz com o lema que sugeri lá atrás. Carpe Diem! Significa que devemos aproveitar o momento, confiar o mínimo possível no amanhã, mas o que proponho na junção desses dois desejos é, ao mesmo tempo em que lutamos por um mundo melhor, viver a vida com serenidade, desprendimento, vivacidade, respeito, honestidade e compreensão. Se queremos aproveitar cada momento, podemos também plantar sementes daquilo que imaginamos ser o melhor, para cada um de nós, individualmente, e para todos e todas coletivamente.
Quem sabe assim atingiremos nosso objetivo de inventar um 2018 que corresponda ao que desejamos. Mas, além disso, construir um futuro que possa refletir o presente que idealizamos.
E o façamos tornar-se realidade.
Feliz 2018!! Um brinde à construção de um mundo novo. “Sonhos, acredite neles, com a condição de realizar escrupulosamente a nossa fantasia” (Lenin).
Carpe Diem!


“Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero”.
“Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será, sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu, ou seja o último este, que contra a rocha extenua o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã”.
 "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC) 




(*) A idéia central desse texto eu construí no final de 2011. Adaptei-o já por diversas vezes em algumas partes, e o faço mais uma vez para torná-lo atual a mais um momento de transição em nossas vidas. Um feliz ano novo aos leitores e leitoras do blog Gramática do Mundo e aos meus amigos e amigas do Facebook. Que possamos continuar lutando pela construção de um mundo melhor.  E que em 2018 possamos avançar muito nessa direção. Um forte abraço.