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domingo, 11 de março de 2012

RÚSSIA E O IRÃ, O QUE ELES TÊM EM COMUM?

Aparentemente, nada. Mas uma breve análise geopolítica nos mostrará porque a mídia ocidental demoniza os dois personagens que estão à frente desses dois antigos grandes impérios, que exerceram fortes poderes regionais em períodos distintos da História: o russo (posteriormente União Soviética) e o persa.
Porque razão as repercussões sobre as eleições na Rússia e no Irã enfatizam o caráter corrompido do processo eleitoral nesses países? Como já disse em artigos anteriores aqui no Blog, é preciso criar na opinião pública mundial uma visão negativa desses países e de seus governantes, para que possa ser justificada qualquer medida mais beligerante que possa vir a ser tomada pelos países ocidentais. Isso faz parte de uma estratégia de guerra, mesmo que ela não ocorra. O que significa dizer que é importante que nesses países, seus dirigentes sejam sempre vistos de forma negativa, para que, assim, deixem de ser protagonistas na geopolítica de duas das regiões mais cobiçadas do mundo. Ou fragilizados o suficiente para serem eliminados ou destituídos de seus cargos.
Vamos falar sobre a Rússia. Imagens mostram revoltas do povo russo protestando contra fraudes no processo eleitoral. Mais uma vez. Isso foi feito também quando das eleições do Irã, embora poucos se lembrem. A mídia repercute opiniões de personalidades internacionais e dão vazão ás insatisfações de candidatos derrotados. Mas será que a eleição de Putin foi de fato um incômodo ao ocidente.
Logicamente que não. Basta ver os resultados. Não fosse Putin, o candidato em melhores condições de se eleger seria Guennadi Ziugnanov, do Partido Comunista Russo. O preferido dos EUA, por exemplo, ficou em quarto lugar. É evidente que o discurso de fraudes tem uma forte conotação política. A diferença foi muito grande, e todos os candidatos somados não obtiveram nem um quarto do total de eleitores (isso segundo a Comissão Eleitoral, no que é questionada pela oposição).
O que se pretende, com essa massificação da ideia de fraude eleitoral é, mais uma vez, da mesma forma que foi feito quando da eleição de Ahmadinejad, por um lado criar na opinião pública a imagem de que naquele país há um processo eleitoral corrupto, e, por consequência, fragilizar o presidente Vladimir Putin, tentando diminuir seu protagonismo na geopolítica mundial, principalmente na relação com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Logicamente que a oposição nesses países aproveitam-se da situação, mas é a ela, em cada país, que deve ser dada a possibilidade não só de questionar, mas de convencer a população de seus países de eventuais irregularidades ou até mesmo desmoralizarem seus oponentes com o intuito de ocupar espaço. Afinal, o que está sempre em jogo é o poder.
Os questionamentos que se fazem sobre a Rússia, então e em decorrência disso, parte da tentativa de desmoralizar a democracia naquele país (e vamos ver que o mesmo se repete em relação ao Irã). É bom então esclarecer, para que não paire dúvida sobre a intenção dessa análise, que o sentido da democracia é relativo, e deve ser entendido historicamente. Nem se pode, também, a rigor, acreditar que a democracia capitalista seja a mais perfeita alternativa para a humanidade. Repito, não há a mesma busca por democracia em países como a Arábia Saudita, o Bahrein (onde existe base militar dos EUA), ou não se questiona o poder nuclear de Israel. Por outro lado se apoia golpes de Estados como o que ocorreu em Honduras em 2009.
A Rússia é um país que tem em sua história experiências vividas por poucos países do mundo. Possui uma dimensão territorial imensa e uma riqueza em seu subsolo que o coloca na posição de grande potência energética. É um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo. Sua situação geográfica é tida como estrategicamente favorável à dominação e expansão de seu poder. No começo do século XX, Halford Mackinder, um dos mais importantes teórico e estrategista da geopolítica mundial, britânico, elaborou uma teoria em que considerava aquela região do Cáucaso como o eixo central do mundo, que ele denominou como o “área pivot”, ou “Heartland”. Para ele, o controle dessa região deixaria vulnerável as potências marítimas e daria ao Estado que a controlasse a possibilidade de desenvolver um enorme poder terrestre. Quem domina essa região, disse Mackinder, dominará o mundo.
O período pós-soviético traz uma complexidade natural. É uma transição difícil reflexo de uma ruptura que girou a roda da história para trás, freando toda a empolgação que existiu ao longo do século XX na eminência de uma vitória do socialismo sobre o capitalismo. A desestruturação da União Soviética levou a uma necessária readequação de todo o funcionamento do Estado, fragilizado diante de uma crise que se estendeu por mais de uma década. A rapidez com que essas mudanças foram feitas, e diante da avidez das potências ocidentais em se aproveitarem do espólio aliando-se a todo o tipo de oportunistas e falsários que passaram a controlar esse poder decadente, terminou por levar ao poder um boneco de ventríloquo, chamado Bóris Yeltsin. Porquanto esteve à frente da Rússia sua imagem serviu para criar um sentimento de enorme frustração. Seria aquilo o resultado de uma revolução histórica?
Ferido, o povo russo, tradicionalmente nacionalista, buscou se apegar a um governo forte, que pudesse ser capaz de agir duro com o ocidente quando necessário. Assim se apresentou Vladimir Putin, ex-agente da KGB, que soube se aproveitar bem de toda essa fragilidade e do sentimento do povo russo.
À medida em que se acentua a crise na Europa e Estados Unidos as ações geopolíticas expressas em imagens, reportagens e nas declarações de personagens ligadas àqueles países, vão se tornando mais corriqueiras.
As eleições russas ocorreram num momento de confronto diplomático. A Rússia, juntamente com a China, bloqueara sanções contra a Síria, cujo objetivos eram semelhantes ao que acontecera na Líbia. Por se tratar de um país estrategicamente mais importante para a Rússia, essa sanção foi rejeitada, por não obter unanimidade.
Insatisfeitos, como já estavam com o comportamento arrogante de Vladimir Putin, intensificaram-se as manifestações contrárias ao resultado eleitoral. Evidente que uma análise mais criteriosa do comportamento do Putin, poderá dar até razão a muitos de seus críticos, mas o que está por trás de todo esse embate é a disputa geopolítica envolvendo países que possuem forte aparato bélico, e situam-se em regiões de enorme importância estratégica.
Portanto, as verdadeiras razões da insatisfação com o novo “czar” moderno russo, estão muito além do que se encenam nas reportagens da grande mídia. A Rússia, com Putin, volta á cena com forte protagonismo nas disputas regionais e mundiais, e se insere em um grupo que aos poucos vai se consolidando como atores principais na mudança de rumo que está tomando a geopolítica mundial.
Mas outro grande teórico da geopolítica, e conhecido estrategista estadunidense, reforçaria a teoria de Mackinder, mas parte dela para elaborar uma nova interpretação sobre a maneira de controlar o mundo. Para ele o poder mundial estaria nas mãos não de quem controlasse o “heartland”, o coração do mundo, mas sim, por quem pudesse cercá-lo.
Nicholas Spykman, geógrafo e geoestrategista foi o responsável, com sua teoria, pela política externa adotada pelos Estados Unidos, durante toda a guerra fria. Um dos pilares de sua teoria impunha a necessidade de os Estados Unidos estabelecerem alianças que pudesse manter a então União Soviética restrita à influência do Heartland. Dessa forma, toda a sua ação geopolítica se deu no sentido de exercer o controle sobre o Rimland. Ou seja, dominar as principais nações que situavam-se no entorno do “crescente interno”, que seria a área da Eurásia que circulava o Heartland.
O objetivo principal, além de em algum momento exercer o controle sobre o heartland, era estabelecer um cordão em volta da União Soviética, isolando-a e expandindo o domínio geopolítico para outras áreas, como as Américas. Com a queda do socialismo e o retorno da Rússia à cena geopolítica, acelerou-se toda uma política para se exercer o controle dos governos que surgiam dos novos Estados.
Mas, tanto da fase da disputa geopolítica no contexto da guerra fria, como nos anos que se seguiram ao fim da União Soviética, até os dias atuais, permaneceu sempre presente a intenção de controlar os Estados-nações que compunham o chamado Rimland. Inclui-se aí o norte da África, a Europa e o Oriente Médio. Essa região cresceu de importância, em função da enorme riqueza ali existente, mas prosseguiu sempre também os objetivos geopolíticos determinados por Spykman, para quem era imprescindível impedir que houvesse uma aliança entre Estados do heartland e os do Rimland. Por isso, as alianças que eventualmente acontecem entre a Rússia e países como a Síria e o Irã, ameaçam o domínio geopolítico dos EUA e colocam em xeque, pela teoria do Rimland, o seu poder hegemônico sobre o mundo.
Quanto ao Irã, embora sendo um país de características distintas da Rússia, a preocupação segue na mesma direção. Não somente por ser inimigo declarado de Israel, Estado parceiro e importante estrategicamente para os Estados Unidos no Oriente Médio, mas por vir a se constituir em uma grande potência regional. Plenamente consolidada se se confirmar a sua capacidade de deter tecnologia nuclear e com uma das maiores reservas petrolíferas do mundo.
O Irã, único país não-árabe do Oriente Médio, herdeiro de um dos maiores impérios da antiguidade, se diferencia culturalmente de todos os demais que foram sacudidos por revoltas populares. Algumas das quais instrumentalizadas pelas potências ocidentais, para não perderem o controle de áreas estratégicas, principalmente as produtoras de petróleo. Mas também daqueles países que possuem fronteiras que dão acesso a canais por onde se transportam toneladas de tonéis de petróleos e gás.
O regime iraniano é extremamente fechado, e escora-se em um Conselho de Aiatolás, que mina o poder do presidente. Sua constituição submete-se a um poder maior, o religioso, e pelo que está escrito no livro sagrado dos Muçulmanos, o Alcorão.
Em última instância, as decisões mais importantes são tomadas por esse conselho. Nesse imbróglio político o grupo de Armadinejahd não é o mais conservador. Mas suas decisões necessariamente precisam estar em consonância com o que pensam os Aiatolás. Mas, quando teço essas comparações, o faço à luz de uma realidade bem específica. Afinal, não é difícil ser mais progressista do que um clero islâmico, dominado por anciãos sectários, da corrente xiita. Evidentemente, isso não faz de Armadinejahd um revolucionário. Mas não é o demônio, como traduzido pelo Ocidente.
Com um poder militar que supera o de todos os demais países do Oriente Médio, e com uma capacidade bélica que só não faz frente à Israel pelo fato do país judeu possuir armas nucleares, só resta ao Irã se igualar nessa capacidade, a fim de poder se proteger de um eventual ataque israelense.
Protegido pela China e Rússia, com o veto à resolução do Conselho de Segurança impedindo uma invasão à Síria, o que possibilitaria um cerco e um ataque ao seu território, o Irã se apressa em criar as condições para se proteger com um escudo nuclear. E caso isso se concretize, não somente estará consolidando uma posição de hegemonia regional, como também incentivará outros países a se armarem com artefatos atômicos, condição de se verem livres de ameaças de potências indesejáveis. Poderá estimular uma nova corrida armamentista, nos moldes da guerra fria, agora num mundo multipolar, só possível de ser controlado mediante uma total renovação da Organização das Nações Unidas. Mesmo assim, com grandes limitações, na medida em que o poder hegemônico dos Estados Unidos será cada vez mais questionado.
O que não é possível admitir é a insistência em criar as condições favoráveis internacionalmente para atingir os governos de determinados países, mediante um insidioso noticiário, incensando-se o fragilizado sistema “democrático” ocidental, como se fosse a panaceia que salvará a humanidade de si mesma, e desconsiderando-se as culturas e realidades complexas de sociedades que carregam tradições milenares. Aliás, o sistema eleitoral dos Estados Unidos é extremamente viciado, e muito embora existam sempre dezenas de candidatos à presidência, para dar a impressão de liberdades democráticas, na prática a disputa fica restrita a dois partidos, que se revezam sem alterar substancialmente a política de Estado, já que é forte o poder das grandes corporações a lhe controlar.
Alguns anos atrás, quando se denunciou a fraude eleitoral que garantiu a reeleição de George W. Bush, a mídia não teve a mesma reação. E busca-se insistentemente, principalmente num quadro de crescimento de uma crise econômica brutal, quando esse sistema democrático serve aos interesses daqueles que controlam o capital, dar a demonstração de que os instrumentos do Estado capitalista são suficientes para conter a sua podridão. Escondendo o fato de que esses próprios instrumentos carregam o velho vício de atender aos interesses de uma minoria que controla a riqueza e o poder.
Os governos da Rússia e do Irã não são confiáveis do ponto de vista de quem anseia por mais liberdades e justiça social. No entanto, a construção de alternativas que possam substituí-los deve partir de seu próprio povo. Muito menos cabe à mídia campanhas mentirosas, atendendo-se aos interesses geopolíticos e geoconômicos em disputas. Como se viu no noticiário do dia 10.03, quando na sequência das notícias o Jornal Nacional da Rede Globo informou que “segundo” a oposição síria, dezenas de pessoas tinham sido mortas por tropas daquele governo. No entanto, quando fez referência às mortes no Iêmen, e ao combate daquele governo com os que desafiam o regime, afirmou serem terroristas. É, portanto, acintosa a parcialidade da informação, com o intuito de criar uma opinião pública que veja como normal a invasão de alguns países, e até o assassinato de seus dirigentes. E o oposto se faz quando é do interesse das potências ocidentais, principalmente dos EUA.
Do mesmo modo, durante noticiário da Band News, neste domingo (11/05), a repórter referiu-se a mais um massacre, a morte de quinze afegãos por um soldado estadunidense, como um “incidente”, seguindo-se os tradicionais pedidos de desculpas do embaixador dos EUA naquele país. Em seguida, ao noticiar um atentado com três mortos no Paquistão, o adjetivo utilizado foi que o “crime” havia sido praticado por um homem-bomba. Ora, são dois assassinatos, crimes hediondos, e deveriam ser noticiados com o mesmo grau de indignação.
Com esses posicionamentos, o que poderíamos prever, numa situação em que no nosso país em algum momento pudesse passar por situação semelhante? Seria admissível aceitar a ingerência de outro país, a armar uma oposição que porventura não consiga atingir seus objetivos pelos meios políticos? Como, aliás, esteve prestes a acontecer no golpe militar de 1964?
A autodeterminação dos povos é um dos elementos basilares da garantia da inviolabilidade de seus territórios. Não se pode, como vem sendo feito, adotar o discurso de defesa dos direitos humanos com o claro objetivo de se exercer o controle sobre Estados que detém em seus territórios enormes riquezas minerais, ou, que possuem fronteiras e localizações regionais que têm uma enorme importância estratégica.

domingo, 29 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – FINAL

UMA GUERRA SILENCIOSA: OS ESPIÕES ENTRAM EM AÇÃO

As condições para uma guerra hoje são extremamente difíceis, muito embora os motivos estejam bem visíveis. Afinal, não basta ter vontade, ou motivos, para fazer uma guerra, não estamos tratando de um jogo de vídeo game. Eu diria que no caso do Irã, a Geografia está a seu favor. Claro que ele não é um país intransponível, mas as dificuldades para atingir o seu território são reais pela complexidade de suas fronteiras. Vejam o atoleiro em que as tropas ocidentais estão metidas no Afeganistão que só tem a seu favor, exclusivamente, a Geografia.  Mas no caso do Irã as condições militares para reagir são infinitamente superiores às desse pequeno, pobre e frágil país.
Mas não é a primeira vez que um grande império se complica nos montes e cavernas afegãos. No século XIX o império britânico passou por situação semelhante, e teve que retirar seus soldados sem atingir seus objetivos. Já no século XX foi a vez da União Soviética, que também permaneceu nesse território por certo tempo, mas abandonou, no momento em que sucumbia todo o seu império. Foi derrotado pelo mesmo Talibã, com o apoio dos Estados Unidos. Desta vez, no século XXI, tem sido a vez dos EUA e das tropas da OTAN.
Considerando a gravidade de uma crise que toma uma proporção cada vez maior, conforme já analisado anteriormente, a decisão sobre o desencadeamento de uma guerra é muito difícil, por mais que na mídia e nos discursos haja uma forte radicalidade. Não que ela não possa acontecer, mas antes disso muito jogo de palavras, sanções econômicas e tentativas de acordos diplomáticos irá acontecer.
Enquanto isso se espalha pelo mundo um verdadeiro exército de espiões. É impossível afirmar com certeza, mas podemos deduzir que nunca houve tanta espionagem no mundo, nem mesmo durante a guerra fria. Tanto para atender interesses dos Estados, como também para desenvolver trabalhos que têm como objetivo coletar informações para empresas sobre as ações de suas concorrentes. A espionagem industrial cresceu muito também nos últimos anos, bem como aquela que busca obter informações privilegiadas sobre as condições de determinada empresa a fim de fazer uso no mercado financeiro, que possibilitam a um mega investidor ganhar milhões de dólares da noite para o dia. Ou agir para derrubar um concorrente.
As tecnologias são instrumentos que garantem uma enorme facilidade para as ações desses espiões. Mas a maior eficácia tem sido através do mais absoluto sigilo de identidade. Personagens múltiplos, que parecem sair dos filmes, mas que na verdade são eles que dão vida real às histórias que nos fazem ver que de fato eles existem. Há uma infinidade de literatura que relatam a vida desses personagens, alguns fictícios, como James Bond (dos filmes de 007), ou Jason Bourne (da trilogia Bourne, cujo quarto filme já está sendo finalizado e será lançado ainda este ano). Personagens cujas histórias são recheadas de disputas políticas, envolvendo altos escalões de seus governos. John Le Carré é um especialista na composição dessas histórias e personagens, foi ele próprio um agente secreto do M16, cuja carreira foi encerrada por ter seu nome divulgado em uma lista de espiões, anunciada por um agente britânico duplo, também a serviço da KGB. Isso pode ser visto no cinema atualmente, com a adaptação de um de seus livros mais antigos, num filme lançado em 2011. “O Espião que sabia demais” traz em seu enredo situações que são vistas como autobiográficas.
Em se tratando de filmes, que nos possibilitam ter uma dimensão do mundo da espionagem, e da capacidade destruidora de suas ações, um que tem sua história baseada em fatos reais mostra a caçada que se seguiu a um dos maiores atentados envolvendo países que são inimigos. “Munique”, de Steven Spielberg, narra todo o processo de caça aos terroristas palestinos, do grupo Setembro Negro, que assassinaram atletas israelenses durante as Olimpíadas de Munique, em 1972. Agentes do Mossad (serviço secreto israelense, um dos mais eficientes), com autorização expressa da então presidenta Golda Meir, iniciaram uma verdadeira caçada por vários países até encontrar e eliminar, um a um, aqueles que participaram desse atentado.
Esses filmes nos ajudam a entender o complexo mundo da espionagem, mas embora dêem um aspecto de espetacularização, o nível de sofisticação tecnológica, de preparação dos grupos e de crueldade na concretização de seus atos, eles são bem mais complicados no mundo real. Somente temos a verdadeira dimensão disso tudo quando alguns desses personagens, que vivem no submundo da espionagem, resolvem abandonar seus afazeres e denunciar essas atividades. Mas elas são por demais tão maquiavélicas e perversas que muitas são vistas como exageradas, até porque aqueles que as denunciam são postos pela mídia, a serviço dos interesses dos Estados, como fontes suspeitas ou desacreditados.
Um exemplo disso é a sequência de livros escritos por John Perkins – “Confissões de um Assassino Econômico” e “A história secreta do império americano” – ex-agente da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, cuja atividade, segundo ele narra, era desconhecida pela própria CIA. Os objetivos de suas atividades era criar dificuldades econômicas para países que não seguissem as orientações dos EUA, se falhasse nesse intuito entravam em ação os “falcões”, cuja função era então eliminar alvos importantes, chefes de Estados, principalmente, que fossem hostis à política estadunidense.
Aliando-se esse exército de espiões que agem sorrateiramente por todo o mundo, com as novas tecnologias e um espetacular esquadrão de satélites de última geração que estão prestes a causar um congestionamento no espaço, torna-se praticamente impossível dizer que alguém está imune ou protegido qualquer que seja o local onde esteja. Um retrato bem feito disso pode ser visto no filme “Inimigo do Estado”, que mostra como a ficção pode nos ajudar a compreender uma realidade que para nós, simples mortais, passa completamente despercebida.
Ainda buscando no cinema os exemplos dessas ações, o filme “Syriana” dá uma demonstração da possibilidade de eliminação de um governante desafeto dos interesses do império. Quando o provável sucessor ao comando de um país rico em petróleo, que se recusava a aceitar as imposições dos interesses corporativos estadunidense, é eliminado a partir dessas sofisticações tecnológicas. Um simples apertar de botão, em um comando situado a milhares de quilômetros de distância, nas instalações de suas agências, permite atingir um inimigo, com o auxílio de satélites, em ações que são vistas ou como acidentais ou atribuídas a grupos terroristas. Também nessas circunstâncias, vale o escrito por Yves Lacoste, “a geografia serve antes de mais nada para fazer a guerra”. As coordenadas, latitude, longitude, bem como o geoprocessamento e também o georeferenciamento, constituem-se em informações geográficas importantes, pelas quais é possível acertar um alvo com “precisão cirúrgica”, a milhares de quilômetros de distância.
Voltemos à situação beligerante em relação ao Irã. Diante das dificuldades aqui abordadas, seja em função da geografia, da crise econômica ou dos problemas existentes nas outras frentes de guerra, tem sido exatamente essas ações de espionagem que estão sendo utilizadas para impedir que o Irã possa construir armas nucleares. Desde 2010 quatro cientistas iranianos foram assassinados, dentre eles Majid Shahriari, fundador da sociedade nuclear do Irã, morto em 29 de novembro de 2010, por uma bomba magnética colocada em seu automóvel, e, mais recentemente, o cientista Mustafá Roshan, vice-diretor da usina de Natanz, que morreu em situação semelhante no começo deste ano, em 11 de janeiro.

A GUERRA DOS DRONES E A CYBERWAR (GUERRA CIBERNÉTICA).

Além dessas ações de agentes espiões, a tecnologia tem sido aperfeiçoada para contornar situações que eliminem a possibilidade de uma guerra. Os assassinatos seletivos, seja de suspeitos de terrorismo ou de pessoas que possuem importância estratégica em programas nucleares, são antecedidos do uso de equipamentos sofisticados, cada vez mais criados para agir sem serem notados. O intuito desses avanços na tecnologia é colocar cada vez menos soldados ou agentes em condições de serem descobertos, eliminados ou servirem como moedas de troca em situações que podem deixar o império desmoralizado.
Assim, podemos dizer que já há uma guerra em curso. Tanto pelos assassinatos que ocorrem em várias partes do mundo (e foi dessa forma que Osama Bin Laden foi eliminado), como pela ação de aviões cuja tecnologia os tornam praticamente invisíveis. Os “drones”(*), como estão sendo conhecidos, já se constituem não somente num instrumento poderoso, e marginal, de atingir alvos em territórios inimigos, como também estão se tornando o mais novo investimento bilionário da indústria de aviação, mas cuja maioria está envolvida em projetos militares.
Segundo a revista Exame, a Força Aérea dos Estados Unidos estima que ao final desta década o mercado dos drones alcance 55 bilhões de dólares, sendo que 77% dele dominado por aquele país (Revista Exame, 10.12.2012). Esses mais novos objetos de desejo da indústria militar são pequenos aviões não-tripulados,  também utilizados na agricultura para lançamentos de agrotóxicos, mas tem se constituído em uma importante arma para dar localizações precisas aos poderosos satélites, bem como alguns deles são capazes de carregar mísseis suficientes para eliminar suspeitos em qualquer parte do mundo. Uma das características mais importantes desses aparelhos é que não podem ser detectados pelos radares atualmente existentes. Mas, claro, ocorrem de serem localizados eventualmente, como aconteceu no começo deste ano. Um drone, RQ-170 Sentinel, cuja função é o reconhecimento realizado em alta altitude, foi derrubado ao violar o espaço aéreo iraniano. Capturado pelo Irã, certamente esse será desmontado possibilitando assim o conhecimento de sua tecnologia, permitindo a esse país também obter brevemente um aparelho desse porte.
Além dessas duas possibilidades de guerra silenciosa, uma outra estratégia tem buscado na internet condições para desencadear uma verdadeira batalha cibernética. Invasões de sites importantes, como já aconteceu no caso do programa nuclear iraniano, ação atribuída aos Estados Unidos e Israel, também está se constituindo em arma para sabotar projetos importantes de nações inimigas. De outro lado os hackers se reproduzem e agem contra empresas estratégicas, corporações e centrais de espionagem, como FMI e CIA. Em seu discurso de começo de ano, nos EUA, Barack Obama anunciou a redução de investimentos militares, nada que tire esse país do topo da lista dos que mais investem nessa área. Mas o que chamou a atenção foi a manutenção dos gastos, e até em alguns casos ampliação, em setores como a cibernética e as tropas especiais.
Assim, o mundo contemporâneo traz a marca da espionagem, da sabotagem e da cópia em escala planetária. A sofisticação tecnológica criada pela internet tem possibilitado tudo isso, fazendo com que uma enorme indústria de bisbilhotagem seja estruturada para capturar informações importantes e piratear conhecimentos e pesquisas relevantes, principalmente aquelas que possam ser usadas no campo da grande economia e na indústria da guerra. A privacidade dos indivíduos desaparece num enorme big brother planetário. Muitos olham para o céu quando se refere a seu Deus, pois deviam saber que lá do alto somos todos observados pelos olhares cínicos dos satélites. Mas quem nos observam não são deuses, mas tem o poder de vigiar e controlar nossas vidas.
É importante dar ênfase a eminência de uma guerra virtual, talvez já em curso, que envolve o controle da informação através da internet, e de dados sigilosos ou conhecimentos que são considerados de segurança nacional pelos Estados Unidos e outras nações. Mas o controle atualmente da internet encontra-se em mãos estadunidenses, algo que já deveria de há muito tempo ter sido questionado, mas somente agora algumas vozes se levantam, dentre elas o Brasil, para impedir que um país consiga exercer o controle e vigilância sobre o que circula no mundo pelas redes sociais. Recentemente isso se radicalizou, com a tentativa do Congresso dos Estados Unidos aprovar uma lei que impõe um rígido controle sobre a internet, com o pretexto de preservar direitos autorais de interesses das grandes corporações da indústria cultural.
As ações contra o wikileaks, com a prisão de seu fundador e a disputa judicial para extraditá-lo para os Esados Unidos, e mais recentemente a prisão dos criadores do megaupload, numa ação que envolveu a polícia da Nova Zelândia e o FBI, são uma demonstração de que uma cyber-guerra se aproxima. Como resposta vários hackers invadiram alguns sites de governos e personalidades por todo o mundo, inclusive no Brasil, e também do próprio FBI, a polícia federal estadunidense.
Em 2011, um vírus potente, denominado stuxnet, prejudicou o programa nuclear iraniano, e foi denunciado por um grupo de especialistas russos como sendo parte de um pacote de cinco armas cibernéticas, criadas por Israel e os Estados Unidos. Outro vírus, o cavalo de tróia Duqu, conectado ao stuxnet, tem o potencial de causar um enorme estrago afetando programas e roubando dados de pesquisas. Seriam essas algumas das armas conhecidas, mas que já estariam ultrapassadas, uma vez que teriam sido criadas em 2007. Atualmente outras já poderiam ter sido desenvolvidas, com muito mais poder de penetração em programas ultra-secretos.
Tudo isso nos dá uma pequena visão do que teremos pela frente no momento em que as grandes potências se depararem com um fosso cada vez mais profundo, por causa de uma crise sem perspectivas de solução em curto tempo. A eminência de perder espaço para outras nações e deixarem de controlar regiões que possuem importâncias estratégicas fundamentais para a manutenção de hegemonias econômicas e militares, deverão fazer com que mecanismos mais sofisticados sejam também utilizados, com o intuito de praticarem sabotagens e desestabilizarem governos.
Por ironia da vida, mas resultado das contradições que nos cercam e apresentam resultados que nem sempre esperamos, mas que são criadas pelas próprias condições geradas pela maneira como se constroem alternativas para fazer do mundo um lugar cada vez mais lucrativo, a globalização trouxe surpresas desagradáveis para os países centrais da economia capitalista. E o que se vê nessa segunda década do século XXI é o inverso do que se pretendia com o deslumbramento que tomou conta do mundo a partir do final da década de 1980. Países considerados de terceiro mundo, ou subdesenvolvidos, ou na melhor das alternativas, em desenvolvimento, deram um salto significativo, apoiando-se nos investimentos estatais e nas necessidades de abastecer o mundo com alimentos e um comércio diversificado de objetos essenciais no cotidiano da vida das pessoas. A Globalização destruiu a capacidade dos países ricos de geraram empregos para suas populações, na medida em que eliminaram boa parte de suas indústrias com o objetivo de ganhar dinheiro fácil explorando mão de obra nos países mais pobres. Um tiro no pé, e como já disse aqui em outro artigo, usando em seu título a frase de uma música de Geraldo Vandré: “é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dá!” (http://www.gramaticadomundo.com/2011/10/volta-do-cipo-de-aroeira-no-lombo-de.html)
Encerro aqui a “Crônica de um mundo em transe”, mas o que abordei nessas cinco partes forma um mosaico de fatos e situações que não fecham um ciclo que acompanha a crise mundial. Como disse anteriormente, com base no que aprendi do marxismo, a economia é o grande condutor da política, seja local, nacional ou mundial. Se a economia vai bem, não há tantos percalços políticos, por mais que aqueles que fazem oposição desejem que as coisas piorem, como condição para conquistarem o poder. Mas se há uma crise econômica grave, seguramente os distúrbios serão inevitáveis e os desequilíbrios financeiros afetam a ordem política. E quando é constatado que essa crise tem um caráter mundial, é inevitável que as nações que detém hegemonia na ordem geopolítica mundial procurem mecanismos, nem sempre éticos, para garantirem a manutenção do poder em suas mãos.
Então, se o presente é incerto, o que se dirá do futuro, que ainda deverá ser construído sobre os escombros de uma crise estrutural, de um sistema que tem por essência enfrentar permanentemente o dilema de viver das crises e de sobreviver a elas?
Seguimos otimistas, apesar de tudo, e dos interesses gananciosos da burguesia e dos que se aliam a ela, acreditando que o mundo será sempre melhor.



(*) Atualizando: mais um suspeito de pertencer a Al Qaeda foi eliminado por um drone em 09 de fevereiro, no Paquistão: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2012/02/09/aviao-teleguiado-mata-lider-da-al-qaeda-no-paquistao.htm.

http://www.cartacapital.com.br/internacional/porque-os-eua-continuarao-usando-drones/

* 16 pessoas são mortas no Paquistão, em agosto de 2012: http://5dias.net/2012/08/20/avioes-nao-tripulados-drones/

* No Iêmen, dois indivíduos suspeitos de pertencerem a Al Qaeda são assassinados por avião não tripulado, em agosto de 2012 (Drone): http://www.passeiaki.com/noticias/drone-americano-mata-dois-supostos-terroristas-no-iemen

* Em setembro de 2012, cinco suspeitos de pertencerem à Al Qaeda são assassinados por aviões não tripulados: http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2012/09/ataque-no-iemen-mata-5-membros-da-rede-terrorista-da-al-qaeda.html


FILMES CITADOS:
(FONTE: ADOROCINEMA.COM)

1. MUNIQUE

Título original: (Munich)
Lançamento: 2005 (EUA)
Direção: Steven Spielberg
Atores: Eric BanaDaniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz.
Duração: 164 min
Gênero: Drama

Sinopse:
Em setembro de 1972, em meio às Olimpíadas de Munique, um ataque terrorista sem precedentes foi transmitido ao vivo para 900 milhões de pessoas. Um grupo palestino denominado Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica, matou 2 integrantes da equipe olímpica israelense e manteve outros 9 como reféns. 21 horas depois o ataque chegou ao fim, com todos sendo mortos. Pouco depois Avner (Eric Bana), um jovem israelense revoltado com o ocorrido, recebe de um oficial do Mossad uma ordem sem precedentes: abandonar sua esposa grávida e sua identidade para caçar e matar os 11 homens apontados pela inteligência de Israel como tendo planejado o atentado. Avner aceita a ordem e passa a liderar uma equipe de apenas 4 integrantes, extremamente talentosos. Eles passam então a viajar pelo mundo em total sigilo, na pista de cada um dos nomes de uma lista muito bem guardada.

2. SIRIANA

Título original: (Syriana)
Lançamento: 2005 (EUA)
Direção: Stephen Gaghan
Atores: George ClooneyMatt DamonAmanda Peet, Nicholas Art.
Duração: 126 min
Gênero: Drama

Sinopse:
Há 21 anos Robert Baer (George Clooney) trabalha para a CIA investigando terroristas ao redor do planeta. À medida que os atos terroristas se tornaram mais constantes, Robert nota que a ação da CIA passa a ser deixada de lado de forma a favorecer a politicagem. Com isso vários sinais de ataque foram ignorados, devido à falta de tato dos políticos para lidar com terroristas.

3. INIMIGO DO ESTADO

Título original: (Enemy Of The State)
Lançamento: 1998 (EUA)
Direção: Tony Scott
Duração: 132 min
Gênero: Ação

Sinopse:
O congressista Phillip Hammersley assassinado por um órgão do governo, logo após ter se declarado radicalmente contra uma lei que, em nome da segurança nacional, permitiria que houvesse uma total invasão de privacidade, pois na prática qualquer pessoa poderia ser monitorada pelo governo. Mas, acidentalmente, o crime filmado e o dono da gravação, vendo-se ameaçado, coloca a prova do crime na sacola de compras de Robert Clayton Dean (Will Smith), um advogado que era seu conhecido. Ele ainda tenta escapar, mas na fuga morre atropelado. Sem ter a menor noção do que está acontecendo, Robert vai para casa com a gravação e deste momento em diante sua vida se transforma em um verdadeiro inferno, pois, sem que saiba, suas roupas e objetos pessoais têm escutas, logo ele perde o emprego e todos seus cartões de crédito são cancelados. Vendo-se ameaçado, ele tenta entender tudo e continuar vivo, mas suas chances são poucas, pois está envolvido em uma trama inimaginável.

sábado, 28 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – 5ª PARTE

UMA GUERRA SERIA O CAMINHO PARA TIRAR A ECONOMIA CAPITALISTA DA CRISE?

Qual a alternativa o mundo encontrará para a falência múltipla dos órgãos do sistema capitalista, sua espinha dorsal, a estrutura financeira? Como visto na parte 4ª parte em outros momentos a saída terminou sendo guerras que afetaram todos os continentes, numa dimensão mundial. Poderá ser a guerra a saída para essa crise?
Opera Mundi - Charge:Latuff
Vamos analisar essa possibilidade. Que também pode não acontecer, por suas próprias dificuldades e pelas novas ordenações geopolíticas, com o deslocamento do eixo de importância para Ásia e América do Sul. Pelo menos uma guerra no sentido convencional.
A primeira coisa que devemos fazer quando avaliamos a perspectiva de uma guerra é olhar para um mapa, observar as fronteiras, ver com base nisso a diferença de tratamento que as grandes potências dão para determinados países, em detrimento de outros. Peguemos a situação da Líbia, e indaguemos porque o tratamento foi diferente do Iêmen (Só para recordar, Kadafi foi assassinado com o suporte da OTAN, acusado de cometer crimes contra sua população, levando a morte centenas de pessoas. No Iêmen o ditador, que precisou fugir para a Arábia Saudita, foi acusado dos mesmos crimes, mas obteve apoio da monarquia saudita, fez acordo com os Estados Unidos, obteve imunidade no parlamento iemista para não ser processado, e vai curtir um exílio nesse país). Foi nítida a diferença em relação ao Egito, onde aconteceu um golpe militar, já tratado aqui. E, porque a Arábia Saudita enviou tropas para conter as rebeliões no Bahrein? Porque existe ali uma enorme base militar dos EUA. Porque ainda não houve invasão á Síria?
Há uma série de interesses geopolíticos, que extrapolam em muito os problemas locais. Na Síria, por exemplo, há uma resistência da China e, principalmente, da Rússia em concordar com sanções contra aquele país, que mantém em seu território uma base militar russa, a única que lhe dá acesso ao Mediterrâneo. Há também uma forte influência do Irã e relações estreitas com o Hamaz (palestino) e com o Hesbollah (libanês). Existe, então, toda uma situação complexa ali, mas é exatamente toda essa complexidade que pode gerar uma guerra de repercussão mundial.
Por exemplo, houve no final do ano um contencioso entre EUA e Rússia, com declarações fortes de ambas as partes, logo após o resultado das eleições nesse país. Mas por trás dessa discussão existem outras razões para esse embate. De um lado a influência da Rússia tanto na Síria, como no apoio ao projeto nuclear iraniano, de outro as instalações de sistemas anti-mísseis que os EUA se preparavam para instalar em regiões próximas às fronteiras russas, perto dos Montes Urais, cordilheira que separa a Europa da Ásia, com o objetivo claro de se preparar para um eventual conflito com o Irã, mas que a Rússia entende como ameaça às suas fronteiras. Os russos não somente se contrapõem às instalações dessas bases, como já ameaçaram atacá-las, caso seja concretizada essa intenção.
Ou seja, já existe todo um discurso belicista, e apesar de a diplomacia por enquanto estar contendo os ânimos mais exaltados, tudo isso poderá se agravar com a continuidade e ampliação da crise econômica. Caso ela prossiga por mais um ano, sem perspectiva de saída, a hipótese de uma guerra vai se tornando cada vez mais provável.
Não acredito, contudo, que a dimensão dessa guerra seja suficiente para causar grandes transtornos ao Brasil. Pelo menos no que se refere à ações militares. Claro que uma guerra mexe com a economia mundial, e nesse aspecto o Brasil, como os demais países fora do eixo central do conflito, seriam afetados.
Mas ela deve se concentrar nessa área que é a mais atingida atualmente por diversos conflitos, desde lutas internas como de ocupações por outras nações. Eu diria que ela pode acontecer em territórios asiáticos e no Oriente Médio, em partes da África, e, a depender, atingir a Europa. O Irã, Afeganistão, Paquistão, Síria, Egito, certamente envolvendo também Israel, e, caso a Rússia se envolva em um conflito desse porte, com ações com pudessem atingir a Eurásia, então dificilmente poderíamos prever as conseqüências.

QUAL É O MAIOR PESADELO DOS EUA?

O Irã hoje não é o maior problema dos Estados Unidos, nem a Coréia do Norte (com quem o governo dos EUA tentam uma solução pacífica, negociando apoio econômico em troca de eliminação do potencial nuclear). O grande pesadelo dos EUA, em minha opinião, não é o Irã, sem querer diminuir toda a disputa geopolítica, com o intuito de impedir que esse país detenha hegemonia naquela região. Entendo que o Paquistão é a peça que pode atrapalhar um possível xeque-mate nesse jogo de xadrez que significa uma guerra. Há uma aliança tênue, entre esses dois países, mas a desconfiança é mútua, os paquistaneses não confiam nos estadunidenses, mas o oposto também é verdadeiro. 
Mas essa é uma situação conflituosa que deverá se manter sob controle por algum tempo, mas não tenho dúvidas que em algum momento vai explodir. Por enquanto o alvo é o Irã. Mas caso ocorra uma guerra de maior dimensão, certamente o Paquistão Irá se envolver. Mas não podemos prever o que acontecerá. Porque esse é um dos países que possuem armas nucleares e com uma fronteira completamente instável, com atuações de grupos guerrilheiros talibãs afegãos, mas também aliados paquistaneses desse grupo. E por outro lado uma outra fronteira com parte em litígio, com a Índia, com quem disputa o controle da Caxemira há décadas, inclusive já tendo ocorrido vários conflitos entre os dois exércitos.
Mas nesse momento o que está em jogo é a necessidade de impor limites ao Irã,  a fim de evitar que haja naquela região um país com forte hegemonismo a rivalizar com Israel, eterno aliado dos EUA. Principalmente por se tratar também de um país riquíssimo em petróleo e com um histórico cultural que já o acompanha há milênios, desde o Império Persa, podendo complicar a influência que os estadunidenses sempre tiveram por ali, contando com seu velho aliado, a Arábia Saudita.
Um olhar bem focado em movimentações de guerra, seguindo os interesses de cada país, e forçando uma imaginação com base em estudos de geopolítica e de estratégias, podemos decifrar boa parte dos movimentos que vão acontecendo seguindo-se aos acontecimentos da chamada “Primavera Árabe” (cuja denominação já critiquei aqui na primeira parte).
Vamos listar primeiro as pedras que foram movidas, mas sem serem deslocadas dos lugares. Egito, Baherein, Iemen. Embora com problemas comuns aos demais países, inclusive  tratando-se também de ditaduras as reações populares não foram suficientes para alterar, até agora, o jogo do poder. Manteve-se, de certa maneira, a influência da Arábia Saudita, principal porta-voz dos EUA naquela região. Mas, se olharmos bem as riquezas de todos os países e de suas fronteiras, conseguiremos decifrar alguns enigmas que se escondem por trás dos discursos de combate às ditaduras. A retirada do Kadafi do poder cumpria o objetivo de garantir um mercado de petróleo confiável, na eminência de uma guerra contra o Irã. As medidas adotadas pela Comunidade Européia nesta semana confirma isso. Jamais a Europa tomaria uma decisão de boicotar o petróleo iraniano se o mercado de petróleo líbio não tivesse sob seu controle.
Imagem: orbum.org
Uma primeira peça do xadrez foi movida. A outra é a Síria. Também aliada de Teerã, e com fronteiras com o Iraque, a Síria garante acesso ao Irã, através do Iraque pelo Mediterrâneo, o que permitiria um cerco, fechando-se pelo outro lado por território Saudita e o Golfo Pérsico. Restaria ao Irã somente o fechamento do Estreito de Ormuz, mas a outra ponta desse istmo, no entanto, está sob controle de aliados sauditas, os Emirados Árabes e Omã. Nos últimos dias noticiou-se a intenção dos Estados Unidos em criar uma grande base militar marítima no Golfo Pérsico, aliás, é bom que se diga que não foram cortados recursos financeiros para esses investimentos militares. Há que se considerar também o fato de boa parte do contingente que atua nessa e em outras bases e ações militares estadunidense, ser de empresas militares privadas, uma característica que tem se acentuado nos últimos anos, embora tenha havido também um pequeno corte orçamentário para esse setor.
Portanto, enquanto o povo grita e luta, com toda razão e justamente, na ruas, nos bastidores do tabuleiro geopolítico as peças que são mexidas tem como objetivo a preparação de uma guerra, enfim, do controle do grande Poder.
Assim, a probabilidade de ocorrer uma guerra de dimensão mundial é por ali, pelo Oriente Médio. E o objetivo é conter a crescente influência iraniana, e impedir que esse país adquira capacidade de produzir armas nuclear. Sua influência já envolve Síria, Líbano (Hesbolah), Palestina (Hamaz) e até mesmo o Iraque, que possui uma maioria xiita, embora sem ser seguidora dos Ayotalahs, mas que pode sob determinadas circunstâncias ampliar o circulo de interesses iranianos dentro de seus objetivos de tornar-se uma potência hegemônica no Oriente Médio, disputando essa condição com a Turquia que também tem ampliado sua influência naquela região.
É claro que pelas circunstâncias atuais, de um país destruído por uma guerra absurda e fragilizado em sua capacidade de defesa, o Iraque tenderá inicialmente a permanecer neutro. Mas será submetido a fortes pressões dos EUA para garantir que tropas aliadas cruzem seu território para atingir a fronteira iraniana. Embora essa pressão, e mesmo com o velho sentimento nacionalista que provavelmente seja a única herança de Sadam Hussein, uma parte de seu governo e da população tenderá a apoiar o Irã por suas vinculações religiosas. Não podemos esquecer que o Iraque hoje é um país mais dividido do que era quando da invasão dos Estados Unidos, entre Xiitas, Sunitas e Curdos.
Outra fronteira complexa para se atingir o Irã é pelo lado do Afeganistão. Tem sido por ali que muitos combatentes talibãs fogem das tropas da OTAN e dos EUA, com a cumplicidade do governo iraniano, a fim de dificultar o combate contra os grupos guerrilheiros. Certamente, nas condições de ainda existir uma guerra em curso em território afegão, essa é uma situação extremamente complicada. Os EUA teria que primeiramente estabelecer um acordo de paz com os talibãs, algo que já está ocorrendo sorrateiramente, e em segundo lugar, forçar um outro acordo para que suas tropas possam chegar àquela fronteira. Algo atualmente absolutamente improvável.
Restaria, além da fronteira marítima, através do Golfo Pérsico, o acesso pelo Turcomenistão. Um país que já fez parte da antiga União Soviética, cuja população tem, em sua maioria, adeptos da religião muçulmana. O país se abriu pouco para o Ocidente, e também seria pouco provável que ele pudesse abrir suas fronteiras para dar acesso a tropas ocidentais com intuito de atacar o Irã. Dificilmente a Turquia permitiria que um ataque fosse preparado a partir de seu território, até porque esse país tem também sérios problemas com os curdos, povos apátridas divididos entre seu território e o Iraque. E de outro lado ainda existe uma fronteira complexa para os turcos, com a Síria, à beira de uma guerra civil. Compõe-se assim um quadro de dificuldade para se estabelecer um cerco militar ao Irã.
No meio de tudo isso, fazendo fronteira com a Síria, está o Estado de Israel. Que vive uma situação muito delicada, apesar de possuir um potencial bélico enorme, detendo armas nucleares, mas a cada ampliação das revoltas árabes e das possibilidades de mudanças que ocorrem naquela região, deixam Israel cada vez mais isolado. Isso só aumentou com a decisão da Unesco em aceitar o Estado da Palestina entre seus membros. O que motivou retaliação por parte dos Estados Unidos, com cortes de recursos, e também de Israel e Grã-Bretanha. Isso vai levar a determinada situação para Israel que a melhor saída também seria uma guerra, que pudesse redefinir o quadro geopolítico na região.
Existe nessa região, um verdadeiro arsenal de problemas, confusões e contradições. E do ponto de vista de uma situação de crise, que afeta inclusive as grandes potências, é um teatro, um palco armado, para que aconteça uma guerra e dê uma reoxigenada no sistema capitalista mundial... ou empurrá-lo de vez para o abismo.
Continua...


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MADE IN USA: COMO FABRICAR GUERRAS PARA CONTORNAR CRISES

“Por que o cão balança o rabo?
Porque o cão é mais esperto do que o rabo.
Se o rabo fosse mais esperto, balançaria o cão”.

Os Estados Unidos inegavelmente constitui-se na maior potência militar do planeta. Isso o torna, ainda por várias décadas, capaz de ameaçar e intimidar a maioria dos países. Embora sempre exista algum governante mais ousado, a testar sua capacidade bélica, é improvável que optando por fazer uma guerra ele venha a ser derrotado em função dessa capacidade. Mas, como ocorre em duas das guerras das quais ele está à frente, no Iraque e no Afeganistão, suas derrotas podem ocorrer nas estratégias e táticas adotadas. Em função, principalmente, da capacidade de resistência de grupos insurgentes guerrilheiros.
Seguramente a crise econômica atual, tem suas raízes também nos gastos militares absurdos, condição para manter uma estrutura bélica espalhada por todos os continentes, bem como a manutenção dos atuais fronts de batalhas citados.
Mas a guerra, enquanto um componente importante da política, é a continuidade desta por meios violentos, como dizia o teórico e estrategista Carl Von Clauzewitz (Da Guerra, Ed. UnB), tem servido não somente para dominar territórios ricos em fontes energéticas ou de localizações estratégicas importantes. A guerra é também um instrumento para desviar o foco de crises eventuais, seja de governos (política) ou por problemas econômicos.
Quando na semana passada ouvi a notícia da descoberta de um mirabolante plano, envolvendo o governo do Irã e um marginal de um cartel de drogas (apresentado como um informante da CIA), pressenti cheiro de fumaça no ar. A armação, a meu ver, era nítida, por vários elementos que não  analisarei aprofundadamente, mas indicarei alguns artigos que fazem isso. E me chamou a atenção, mais uma vez, o fato disso se dar num momento crucial da crise econômica, nos Estados Unidos e na Europa, antecedendo a uma marcha que envolveria dezenas de países, inclusive os EUA, denominada de “Marcha dos Indignados”, contra o sistema financeiro mundial, o capitalismo e a absurda concentração de riquezas naquele país e em todo o mundo.
geopolíticadopetroleo.wordpress.com
Imediatamente lembrei-me de um filme que eu havia assistido tempos atrás e corri para a locadora, a fim de relembrar-me da trama armada para desviar a opinião pública de um escândalo envolvendo o presidente dos Estados Unidos. Embora ficção, o roteiro apresenta relação entre a história e o tema do filme, citando, por exemplo uma ação estadunidense contra um país centroamericano, situado no Caribe. No ano de 1983 os Estados Unidos invadiram Granada, depuseram e prenderam o então primeiro-ministro Bernard Coard, após um golpe deste contra o anterior, Maurice Bishop. Por trás disso tudo disputas geopolíticas envolvendo Cuba e URSS. A operação, que durou pouco mais de dois meses, teve o sugestivo nome de “Fúria Urgente”.
A citação é feita no transcurso de uma discussão entre um “marqueteiro”, chamado para ajudar o governo a sair de uma enrascada que seria explorada pela mídia num período pré-eleitoral, e um produtor de cinema, contratado para preparar uma encenação espetacular para desviar as atenções da mídia e da opinião pública. A invasão daquele país, embora eminente, teria sido planejada às pressas para desviar a atenção do atentado em Beirute, algumas semanas antes, que culminou com a morte de 241 fuzileiros dos Estados Unidos.
O nome do filme é “Mera Coincidência”(*), título em português  que não apresenta nenhuma semelhança com o original: “Wag the dog”. Mas é aí, no título original, que está a relação com a frase que cito na introdução desse artigo, e que foi extraída dos créditos iniciais do filme. Refere-se exatamente à esperteza utilizada pelos que, na política, possuem os mecanismos para criar fatos e gerar a tão propalada “opinião pública”, que nada mais vem a ser do que as estratégias adotadas entre dois poderes, ou seja, o poder político e o midiático. Seja por meio de uma notícia burlesca, facilmente assimilada por uma mídia atraída pelo sensacionalismo, ou mesmo pelo controle direto dos meios de comunicação, que fazem o jogo da manipulação de forma consciente, por questões ideológicas.
Certamente a distribuidora do filme no Brasil buscou outros elementos do enredo para traduzir o título. Porque o escândalo que irromperia a mídia e corria o risco de causar um estrago na campanha eleitoral do atual presidente dos EUA teria sido um assédio sexual, cometido por essa autoridade que teria abusado de uma estudante no salão oval da Casa Branca. Embora produzido antes do caso Mônica Lewinsk, o filme foi lançado no Brasil posteriormente a esse fato. Ressalte-se que anos antes, mesmo durante a campanha eleitoral, Bill Clinton já havia sido acusado de assédio sexual.
Para desatar esse nó, que poderia levar à derrota do então presidente – agora me refiro ao enredo do filme – esses dois personagens, o marqueteiro e o produtor de filmes de Hollywood, bolam uma história mirabolante:  deflagração de uma guerra contra a Albânia, em função da ação de grupos terroristas naquele país, e que ameaçavam a integridade dos Estados Unidos (os fantasmas de sempre).
A justificativa para a escolha da Albânia é hilária, mas sintetiza o menosprezo que há na política externa dos Estados Unidos com a população de alguns países, notadamente aqueles mais pobres. “Por que a Albania?” pergunta a assessora ao marqueteiro. “O que você sabe sobre eles? Você conhece algum deles? Parecem instáveis, encrenqueiros... Você conhece alguns albaneses? Quem confia neles?”
Assim, a Albania é momentaneamente alçada à condição de centro do terrorismo internacional, e além dos perigosos terroristas poderia estar sendo preparada uma bomba nuclear. Aí, parodiando o título em português, não é uma mera coincidência. Para completar a ironia recai também sobre a capacidade do povo americano (sic) de se indignar. “Quem vai resmungar? O povo americano? O que viram da guerra do golfo? Só o bombardeio a um prédio. Poderia ser uma maquete”.
Parte-se então para a montagem de cenas produzidas em estúdio que pudesse ser apresentada à população como sendo uma guerra. Todos os elementos são explorados, como num filme, para chocar, emocionar e revoltar. E assim é feito. Uma guerra virtual com todos os seus componentes apresentados como se fosse real. Aos poucos, utilizando da estratégia da manipulação da informação, a população vai esquecendo-se das notícias do escândalo e quando começa a haver questionamento da existência real da guerra seus roteiristas confundem mais ainda a população com a criação de um falso herói. Um combatente que teria ficado detido nas mãos do inimigo. Mediante o uso de certos simbolismos esse herói é construído, sem existir, e comove a opinião pública. Não vou entrar em mais detalhes para não contar partes interessantes e surpreendentes do filme, para que os leitores do blog possam assisti-lo. Mas cito um detalhe importante: o elenco é de primeira.
Enfim, esses fatos, tanto o filme que não reflete propriamente um absurdo, como a notícia envolvendo uma trama internacional gerada pelo governo iraniano, são roteiros de uma mesma lógica estratégica adotada desde há muito pelos Estados Unidos. Embora não somente por este país.
No caso do Irã, isso se repete desde a revolução dos Ayatollahs, ou dos turbantes, que derrubou o Xá Reza Pahlevi, então aliado dos EUA. Mas potencializado desde que se descobriram as movimentações iranianas para adquirir a capacidade de enriquecer urânio, meio caminho andado para produzir bombas nucleares. Juntem-se a isso os interesses geopolíticos que opõe, na região do Oriente Médio, Israel de um lado e Arábia Saudita do outro, com objetivos semelhantes, derrotar os xiitas islâmicos que estão à frente do governo iraniano.
Sintomaticamente, na notícia, aparentemente fabricada, o plano seria para assassinar o embaixador saudita em Washington. E, naturalmente, a reação dos representantes da Casa de Saud, foi imediatamente intempestiva, cobrando explicações do governo iraniano, porque supostamente envolvia a guarda republicana daquele país. Aliás, esta sempre envolta em polêmica porque está diretamente ligada ao conselho dos Ayatollahs, não necessariamente subordinadas ao presidente Marmud Ahmadinejad.
Tudo parece ser mais uma grande farsa das agências de espionagem estadunidense. Mas desta vez, ao que tudo indica, não emplacará como uma informação passível de permitir uma reação bélica, apesar de acirrar os ânimos dos países citados, à espera de uma chance para deflagrarem uma guerra contra o Irã. Apesar dos discursos beligerantes e surpreendentemente radicais nessa questão, tanto do presidente Barack Obama, quanto, principalmente, da Secretária de Estado, Hilary Clinton.
Não vou entrar mais a fundo nessa análise porque li recentemente dois artigos que dão conta de explicar as tramas por trás dessa suspeita notícia e cito-os aqui para o leitor do blog. O artigo de Clóvis Rossi (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/991104-a-mal-contada-historia-do-complo.shtml), na Folha de São Paulo deste domingo (16/10) e o artigo de Pepe Escobar, no site Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18692).
Não pretendo também aqui neste texto entrar na análise sobre o regime iraniano. Espero poder em breve, assim como fiz em relação aos demais países do Oriente Médio envolto em revoltas, escrever um artigo abordando a importância geopolítica do Irã, suas complicadas fronteiras e as divergências com Israel e com a Arábia Saudita, estas ainda não inteiramente explicitadas, mas insufladas nos bastidores pelos Estados Unidos.
Farei também uma abordagem do regime iraniano e as absurdas restrições às liberdades individuais, principalmente em relação às mulheres, impostas pela rigidez com que os ayatollahs interpretam o Alcorão. E na oportunidade farei também uma comparação com a Arábia Saudita, identificando as razões porque essas mesmas restrições não são alvos da indignação ocidental, em comparação com as tentativas de demonização das ações iranianas, embora devessem ser semelhantes às da monarquia saudita, que impõe medidas semelhantes e, ao contrário do Irã, sequer existem eleições democráticas. Também já nem sei dizer qual o sentido de democracia, em função de determinadas eleições, tanto lá quanto no ocidente, já que fraudes e o poder do dinheiro são determinantes.
O que quero com essa postagem é exatamente abordar um dos elementos centrais que me motivou a criação deste blog, desconstruir certas informações, plantadas na mídia para desviar as atenções das pessoas de situações mais graves em curso, ou até mesmo justificar ações belicistas.
No caso citado, a abordagem que faço decorre de uma análise pessoal. Considero que o crescimento da crise econômica e o aumento da gravidade da situação nos Estados Unidos, aliado a um movimento popular que começa a incomodar com a ação do “Occupy Wall Street” é o elemento motivador. Não por acaso, segundo minhas convicções, a notícia do suposto plano para assassinar o embaixador saudita foi divulgado poucos dias antes das grandes manifestações programadas para um dia de jornadas de protestos em todo o mundo, denominado “United for Global Change”.
Essas manifestações, ocorridas no dia 15 de outubro, e que mobilizaram manifestantes por 83 países do mundo, não focam somente no ataque á crise econômica, mas também à própria lógica gananciosa do sistema que criou uma disparidade absurda, onde 1% das pessoas controlam mais de 50% da riqueza mundial. São críticas ao sistema financeiro, às grandes corporações e ao capitalismo. 
Em alguns países, como na Itália, a população radicalizou nos protestos, acontecendo muitos confrontos policiais num ato que reuniu mais de 200 mil pessoas. A manifestação aconteceu também em mais de 900 cidades, irradiada a partir de Wall Street, em algo inédito na crítica à maneira desigual como funciona o sistema capitalista e só comparável às manifestações pela paz às vésperas da segunda guerra ao Iraque, em 2003.
São situações que marcam uma conjuntura complexa, e uma realidade mundial de conseqüências imprevisíveis. Do que posso imaginar, pelo que acompanho pela história e nas análises geopolíticas, poucas conclusões me restam além de acreditar na possibilidade de as potências mundiais em crise criarem uma situação de beligerância, que possa levar restrições justificadas por uma necessária economia de guerra.
Ou seja, avalio como de difícil solução a atual crise, na medida em que um verdadeiro nó górdio foi dado nas finanças mundiais com as sucessivas quebradeiras de grandes bancos e a impossibilidade de os Estados arcarem com isso. Restando a guerra, como já aconteceu em outras épocas, para que as grandes potências possam retomar o controle da economia e as corporações possam lucrar com as reconstruções do pós-guerra. Isso justificaria o ataque ao tesouro de alguns países, que na periferia caminham a passos largos para superar a hegemonia que até agora se encontra nas mãos dos Estados Unidos e de alguns de seus aliados estratégicos na Europa.
São dúvidas, questionamentos, apoiados na realidade do presente e no que a história conta do passado. Prever o que pode acontecer é um exercício profético, não tem bases científicas, mas, da mesma maneira como se tentou criar uma guerra a partir de uma montagem hollywoodiana, como no filme citado, também exercito, quem sabe, uma capacidade roteirista, para imaginar uma guerra sendo preparada para cumprir a sina gananciosa dos que detém o poder hegemônico mundial. Pelo menos até agora. E se isso acontecer, teremos forças para impedir?


(*) Ficha do filme:
Título no Brasil:  Mera Coincidência
Título Original:  Wag the Dog
País de Origem:  EUA
Gênero:  Comédia
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento:  1997
Direção:  Barry Levinson
Elenco:
Dustin Hoffman ... Stanley Motss
Robert De Niro ... Conrad Brean
Anne Heche ... Winifred Ames
Willie Nelson ... Johnny Dean
Kirsten Dunst ... Tracy Lime
Woody Harrelson ... Sergeant William Schumann