Mostrando postagens com marcador Movimento Estudantil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Movimento Estudantil. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O PODER JOVEM

Desta feita minha abordagem semanal será sobre o PODER JOVEM. Aproveito para fazer uma espécie de homenagem à minha geração, que na década de 1980 fez história, e não estou aqui me referindo ao curso que eu fiz. Mas porque efetivamente nos engajamos, fomos à luta e ajudamos a derrubar uma ditadura militar perversa que fez de 21 anos uma longa e tenebrosa noite. Nós fomos protagonistas desse processo. Por isso direciono essas palavras em primeiro lugar para meus companheiros e companheiras de luta, os que comigo participaram do movimento que criou a tendência estudantil VIRAÇÃO, mas também aos que estiveram nos embates conosco, embora divergindo em questões ideológicas e estratégias. Porque tínhamos bem claro o objetivo de derrotar um governo nefasto e criminoso, cuja prática abominável da tortura fez-se rotina nos porões e subterrâneos de seu sistema de vigilância e informação. Vigilância contra os que ousassem se opor aos seus crimes. 

E nós fizemos isso, com muita dedicação e até mesmo sofrendo consequências cruéis desse nosso engajamento, tanto em defesa de nosso país, como o que acreditámos ser o caminho para construir um outro tipo de sociedade, mais justa e igualitária: o socialismo. Combatemos o bom combate, e fomos vitoriosos, embora o que se seguiu depois não fosse necessariamente o que desejássemos. Por isso cunhei uma frase que insisto em repetir, porque pode ensinar as novas gerações: “Acreditávamos ser real, o que era um ilusão”. Me refiro especificamente, por um lado ao preconceito latente, mas submerso, existente na sociedade. E por outro lado ao equívoco de se deixar de lado a compreensão de que a nossa sociedade é construída sobre uma luta de classes, que dá a necessária dimensão da existência real das estruturas do sistema capitalista e de como ele funciona.

Minha outra homenagem é para a geração atual, esta que sofre nesses tempos de perversões e retrocessos, de ódios e de intolerâncias, num movimento que minha geração não previu, da ascensão ao poder de mentes estúpidas, de extrema-direita, defensores de ditaduras, torturadores, milícias e exterminadores de conquistas e direitos adquiridos com muita luta. Essa juventude de hoje carrega esse peso, de uma responsabilidade diferente da nossa, mas talvez de uma dimensão bem maior. Porque a minha geração pegou um movimento que estava embalado ao favor das forças progressistas, ao contrário dos dias atuais. E, em nome dessa juventude de hoje, faço a homenagem ao meu filho, IAGO MONTALVÃO OLIVEIRA CAMPOS, Presidente da combativa, representativa e destacada UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES. Evidente que falo isso com muito orgulho, por ele ser meu filho e por eu também ter sido, com muita honra, diretor dessa entidade, entre os anos 1984 e 1986, período de intensa lutas em defesa da democracia e das nossas liberdades individuais e escolhas.

O título, O PODER JOVEM, eu me apropriei indebitamente, de José Artur Poerner. Esse livro foi um dos que eu li com mais sofreguidão, lá no começo da minha militância no movimento estudantil. Ele foi para mim uma referência histórica importante, porque eu quando entrei na universidade pouco conhecia da luta da juventude. Posto que eu era um jovem alienado, como a imensa maioria daquela juventude de minha época, final da década de 1970 e começo dos anos 1980, contido pela censura e pelas repressões das estruturas militares. 

Apesar de eu ter vindo dos movimentos das comunidades eclesiais de base, naquele momento em que ingressei na universidade, meu ímpeto era mais religioso do que político. Exatamente em 1981, quando o livro de Leonardo Boff foi lançado, “O caminhar da Igreja com os Oprimidos”, eu vivia a minha transição, da militância na igreja para a militância comunista. Mas esse livro foi essencial também em minha formação e me fez manter até hoje o respeito por esse segmento progressista da igreja católica, a Teologia da Libertação. Exatamente por isso, embora tendo me tornado ateu, nunca fui de agredir ou atacar seja símbolos ou os valores religiosos. Porque eventualmente esse pode ser apropriado por pessoas sem caráter, mas existem muitos de boa fé, que conseguem se manter firmes na disputa para que as crenças não se tornem objetos de fanáticos perversos. O que, infelizmente nos tempos atuais, está acontecendo.

Mas, voltando ao PODER JOVEM. Por que da identificação de minha conversa aqui com esse livro? Naturalmente há uma relação intrínseca. Faço isso porque o que pretendo aqui é exatamente reforçar a importância do papel da juventude na luta pelos direitos sociais, contra as desigualdades, por liberdade e democracia. Por uma verdadeira democracia, não esta em que vivemos, com uma desigualdade estúpida, onde 1% da humanidade controla mais de 90% da riqueza. Isso não é democracia, é plutocracia. 

O que POERNER descreve por todo o seu livro é exatamente a essência do título, o poder da juventude. Ele vai buscar fatos históricos ainda no século XIX e adentra o século XX apontando o quanto foi importante em momentos cruciais de nossa história o papel e o engajamento da juventude. O surgimento da UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES, a gloriosa UNE, foi consequência desse protagonismo da juventude, e a partir de sua criação a organização e força da juventude se ampliou consideravelmente, tendo nas universidades os alicerces que sustentaram essas lutas. Secundadas, mas não com menos importância, pela UNIÃO BRASILEIRA DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS – A UBES.

Foram muitos momentos na história política do Brasil em que a participação da juventude, organizada, se deu com muita força e tornou-se essencial em muitas conquistas. Na luta contra o nazifascismo; em defesa do petróleo e da criação da Petrobrás; na defesa da legalidade quando na tentativa de impedir a posse de João Goulart; na oposição firme à ditadura militar, com muitas de suas lideranças sendo presas, torturadas e assassinadas; e em defesa de nossas liberdades. Sempre a juventude esteve na linha de frente, aguerrida e corajosa.

Pois bem. Esse momento terrível em que estamos vivendo, como costumamos dizer é apenas uma fase que será superada, mas isso pode ocorrer para mais ou para menos  tempo do que o desejável. E pode tornar pior uma situação que já é degradante socialmente. Afinal, temos um governo destruidor das conquistas sociais, incentivador do armamento, pusilânime com as milícias, intolerante politicamente e estimulador de ódios e preconceitos. Tudo vai depender da capacidade de reagir com indignação contagiante e rebeliões explícitas que façam como tem feito o povo chileno, e como fizemos por aqui em outras situações.

Claro que a situação exige prudência, a pandemia segue ceifando vidas e a juventude não é invulnerável. Enquanto não tivermos uma vacina não se pode subestimar a capacidade destruidora desse vírus. Deixemos essa exposição suicida para os negacionistas estúpidos. Mas está em jogo não somente testar a paciência dessa juventude. Está em jogo o seu futuro. Estamos vendo ser destruídos mecanismos sociais minimamente necessários para conter a ampliação das desigualdades. A previdência social já foi implodida, os direitos previdenciários para as novas gerações não são mais os mesmos que conquistamos com a Constituição de 1988, e até mesmo por conquistas anteriores. Os contratos de trabalho, que afetam e afetarão as novas gerações estão sendo implementados após uma reforma trabalhista que só veio para beneficiar os proprietários dos meios de produção. E para piorar, assistimos a uma destruição da estrutura educacional de nosso país, que já era frágil apesar das lutas e conquistas obtidas na primeira década deste século.

Assistimos a uma destruição talvez da mais importante estrutura de estado para a construção do futuro das novas gerações. Tudo isso a pretexto de uma guerra ideológica, cujo objetivo nada mais é do que extrair da juventude a capacidade de reação às investidas do fundamentalismo religioso, da ganância burguesa e da ânsia destrutiva dos banqueiros e latifundiários, que desejam ver seus projetos de enriquecimento sobrepondo-se perversa e criminosamente sobre uma população de pobres e miseráveis, e de uma juventude que verá seus sonhos destruídos em uma sociedade cada vez mais segregacionista e apartada.

Já falei em vídeos anteriores que vejo somente na organização social a condição de sairmos dessa triste situação. Mas dentre todas as formas de organização social, e de segmentos capazes de empunhar com força as bandeiras e instrumentos necessários para barrar essa destruição, está, como sempre esteve, a juventude, e suas entidades como a UNE  e a UBES. Infelizmente a pandemia e o distanciamento social, tragicamente, beneficia as loucuras de um governo que pouco se importa com a população, mas que se vê protegido pelo distanciamento da ira da juventude, impedida de ocupar as ruas nesse momento.

Mas quero finalizar, depois de enfatizar a importância que a juventude tem nesse processo, indicando que é fundamental usufruir daquilo que as redes sociais possibilita, para além dos algoritmos e das fake news, como forma de manter a juventude em estado de alerta, e utilizando dessas ferramentas para fortalecer as organizações estudantis, mesmo que virtualmente, para que, dessa forma, se espalhe e se acumule o sentimento de revolta contra as medidas destrutivas e restritivas que estão sendo impostas, principalmente às universidades, até com quebra de sua autonomia e democracia interna. Para que, no momento possível, essa revolta possa explodir pelas ruas, como já fizemos em outras épocas, impondo derrotas a fascistas e a uma extrema-direita defensora da barbárie que torturou e matou centenas de jovens que lutavam por seus direitos e por liberdades.

Não digo que somente a juventude será a responsável por dar uma guinada nessa situação de retrocesso político que o nosso país está vivendo. Mas ela é fundamental para inundar as ruas e praças de luta e de esperança, e restabelecer a razão em um país dominado pela estupidez, pelo ódio e pelo fundamentalismo religioso. Mais do que isso, que essa juventude possa criticamente ter a plena convicção que esse sistema, absolutamente perverso e desigual, não lhe dá garantia de futuro decente e que atenda a todas as pessoas. E compreendam, que como nós tínhamos sempre em nosso horizonte, é essencial construir a utopia, a crença de que podemos superar as loucuras geradas pelas crises sistêmicas capitalistas, e construir uma nova sociedade, para o futuro que obviamente representará o presente desta e das novas gerações.

Minha geração foi vitoriosas em nossas lutas políticas. Obtivemos muitas conquistas importantes que passamos a usufruir décadas depois da derrota da ditadura militar. Mas não pudemos ver a construção de uma estrutura social, tal qual sonhávamos, porque nesse caminhar muito daquilo que acreditávamos ser real, transformaram-se em miragens. Não pudemos ver mudanças radicais em uma estrutura social perversa, e isso possibilitou os retrocessos que nos angustiam e nos afligem. A juventude pós-pandemia não pode cometer os mesmos erros. Mas, infelizmente, a sua despolitização pode atrasar a construção de um novo caminho e a destruição desse castelo de horror no qual se transformou o governo de nosso país.

É urgente pensar como lidar com essa situação, agora e no pós-pandemia, tendo como foco a necessidade de ocupar as ruas e mais uma vez fazer ecoar o grito do PODER JOVEM, contra a tirania e o arremedo de ditadura que lunáticos implantar, e que pode se tornar uma realidade com um segundo mandato de governo que nos deixa até sem adjetivos para qualificá-lo. O futuro, que é uma construção, como nunca, está nas mãos da juventude. Que a UNE  e a UBES saibam construir uma unidade necessária entre suas diversas tendências, que seguramente se opõem a esse descalabro que aí está, e possam marchar para ocupar as ruas com organização e brandir com a ponta de seus lápis, os gritos de guerra que imponham derrotas a esse poder decrépito e desvairado que nos governa.

Evoé Juventude brasileira! Ave PODER JOVEM! Salve UNE e UBES. Organizem-se, lutem, enxerguem no horizonte a esperança, ou a velha utopia que nos ajuda a caminhar e a lutar. Por um mundo novo, por um outro mundo, onde suas gerações possam viver com dignidade.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

APESAR DE TERMOS FEITO TUDO, TUDO O QUE FIZEMOS, AINDA SOMOS OS MESMOS E VIVEMOS COMO NOSSOS PAIS

“Eu não vivo do passado. O passado vive em mim”
Paulinho da Viola
Lembro-me de ter ouvido muito de meu pai uma frase que é lapidar, porque ela mostra o quanto vivemos no passado, presos a situações que se passaram em épocas diferentes, mas que insistimos em analisar com o olhar do presente. Ele costumava sempre fazer referência às minhas lutas, ou seja, à minha participação política, iniciando-se com a expressão, “no meu tempo...”.
Meu pai foi vereador na cidade de Alagoinhas (BA), teve uma participação política destacada naquela cidade. Antes de ser parlamentar era atuante no sindicato dos trabalhadores em curtumes. E, em abril de 1964, foi detido em nossa casa por soldados fortemente armados, preso e levado para uma prisão em Salvador onde ficou por cerca de 30 dias. Ele pouco nos falou sobre esse tempo em que ficou preso. Depois de solto, retornou à Alagoinhas, cassado, e abandonou a política. Embora acusado de “comunista”, ele passou ao largo dessa ideologia, e fazia parte do mesmo partido de João Goulart, o PTB de outrora, não esse de hoje.
Evidente que ele tinha uma experiência histórica, que nos orgulhava ao ouvi-lo falar a respeito. Mas que não guardava similaridade com a situação em que eu me encontrava, na década de 1980. Quase vinte anos e muita mudança na conjuntura nacional e internacional, além de alterações no comportamento da sociedade, indicava que os tempos eram diferentes. E de fato era. Vivíamos um período de intensa rebeldia, principalmente entre a juventude, e uma situação de fragilidade da ditadura militar. Era um período de exceção e de dificuldade para a atuação política e o ambiente era de crescimento das forças de esquerda e dos comunistas, embora em meio a uma divisão crescente dessas forças. O movimento estudantil reorganizava-se com muita força e participação, assim como as demais entidades sindicais e sociais de uma maneira geral. Não nos parecíamos em nada com a juventude da década de 1960, embora carregasse parte de insatisfações ainda comuns. Havia uma forte luta pelas liberdades individuais que se espalhara pelo mundo, em decorrência da reação à guerra do Vietnã e às ditaduras militares que cerceavam a liberdade em boa parte do continente americano e também na África. Vivíamos intensamente os tempos da guerra fria.
Outra diferença entre nós era do posicionamento político. Enquanto meu pai enveredou por um pensamento conservador, eu entrei e não saí do espectro da esquerda, e me mantive por todo esse tempo ligado à ideologia marxista, que se tornou base da construção de minhas ideias e formulações políticas.
Mais de vinte anos depois, me deparo com uma situação inversa, eu agora na condição de pai. Permanentemente sentido, pela perda de uma filha, logo aos dez anos de idade, e com um único filho que me restou. Ao contrário de meu pai que conviveu com seis, sendo cinco homens e uma mulher.
Mas que não se imagine isso ser suficiente para que a frase lapidar usada por meu pai, tivesse sido abandonada ou esquecida por mim. Eis que mesmo trilhando um caminho diferente de meu pai, de mentalidade mais progressista, me deparo cometendo o mesmo erro do anacronismo que sempre critiquei nele. Como tive uma atuação intensa no movimento estudantil, imagino sempre poder passar para o meu filho um pouco da minha experiência. Ora, mas já se passaram mais de 30 anos, e de um tempo acelerado e com transformações impressionantes na forma de se organizar e de viver em sociedade, principalmente devido ao forte aparato tecnológico que se desenvolveu de lá para os dias de hoje. Claro que isso não significa necessariamente que os tempos atuais sejam melhores, mas que inegavelmente é profundamente diferente.
“No meu tempo...”! Essa frase nos acompanha. Talvez porque nos espelhemos naquilo que fomos no passado, e porque desejamos que nossos filhos também nos vejam como referências. Quando temos boas referências a lhes passar. Ou porque, como diz Belchior em uma belíssima e clássica música que me aproprio aqui de uma frase que uso como título, “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
Mas, tudo bem que de minha história de luta progressista eu pouco tenha pelo que me arrepender. E meu filho trilha um caminho, parecido com o meu, mas em uma situação bem distinta, quase que completamente diferente, pelo aspecto conjuntural. Não pode caber, nesse caso, a comparação nos exemplos com os fatos presentes. Porque o mundo mudou, e muda sempre. A juventude, que carrega fortemente esse sentimento de rebeldia e de mudança, guia-se por outros valores e comportamentos. E, portanto, suas lutas diferem substancialmente da nossa, principalmente na forma, embora nem tanto no conteúdo. Contudo, insistimos em olhar o presente com as experiências do passado.
Alto lá! Não se trata de negar o passado, nem a experiência vivida, o que é uma condição para evitarmos erros e nos mirar nos acertos. Mas, se a conjuntura é completamente diferente, se os valores da sociedade são outros, se a juventude age com um comportamento bem distinto daquele do passado, provavelmente nossa forma de agir há décadas não se enquadre na maneira como eles veem o mundo e com as influências que direcionam suas ações atualmente.
Foi preciso dias, ruminando entre conflitos internos e interpretações das lutas em curso que se chocam com a radicalidade com que essa juventude está agindo, para que meus olhos se abrissem: embora com mentalidade progressista, me prendo ainda, conforme a música do Belchior, em formas conservadoras que me moldaram no passado. Um passado progressista, mas ao trazê-lo para o presente, ele se torna conservador, pois eu pretendo negar a própria realidade atual.
Travo, portanto, uma desgastante luta intestina, angustiantemente dialética, em meu próprio âmago, para me desvencilhar do olhar do passado. Isso não é fácil. Porque a vida, naturalmente, vai nos tornando conservadores. Envelhecemos, e quanto mais perto do limite de nossas vidas, mais racionalizamos nossas atitudes e nos batemos de frente com comportamentos impulsivos. Ou seja, queremos sugerir racionalidade no presente, em atos e atitudes semelhantes às que nos formaram no passado. Alguns, não. Permanecem ainda com impulsos juvenis, mas creio que muitos desses não passaram pelo processo intensivo da luta estudantil, como eu passei por seis anos. E agem na meia idade como se fossem recompor tempos não vividos. Demoram a amadurecer.
Posto isso, no entanto, não posso abdicar de tecer considerações e formular uma análise sobre esse tempo, e não sobre o comportamento radicalizado de uma juventude em luta. Porque, nesse caso, carrego um acumulo de experiência do passado que me permite uma análise do presente pelas formas de movimento com que as estratégias são estabelecidas. Além do olhar da história, do historiador.
Não vou me escandalizar com a intolerância como se ela fosse fruto apenas deste tempo. Não, ela sempre esteve presente nas sociedades, e mesmo desde os tempos iniciais das civilizações, fundadas em valores religiosos que eram impostos por quem exercia o controle do poder político. Pelos grupos, ou classes que por seu tempo, tornavam-se dominantes.
Mas não há como negar, que na medida em que uma crise de proporções mundiais se acentua, e quando há um evidente declínio do modo de produção absolutamente hegemônico mundialmente, os valores construídos a partir dele, e que constrói toda uma superestrutura fundamentada nos valores por ele disseminados, e portanto determina a cultura de uma maneira geral, se chocam com contradições saídas de seu próprio interior. De uma crise sistêmica, que abala as estruturas da sociedade, passamos a crises de valores, e, principalmente, da aceitação dos valores dominantes incapazes de justificar a degradação da sociedade construída sobre eles. Logicamente os setores dominantes, e as camadas que se situam no topo da pirâmide social, tendem nessas crises a lutarem desesperadamente para assegurarem não perder o que construíram. E passam a exigir mais ações repressivas contra possíveis medidas que lhes causem temores.
Isso foge ao controle. A radicalização no combate ao que se possa sugerir de novidade para confrontar esses valores arcaicos e em crise é combatida ferrenhamente, e os que defendem ardorosamente seus privilégios construídos e tentado ser mantidos em meio aos escombros dessa sociedade, passam a agir com comportamentos intolerantes, que somente espalham mais ódio e destempero a uma situação de crise intensa.
Como lidar com esse tempo, de uma transição que não aponta em direção a nenhum novo sistema que possa substituir o capitalismo? Como entender as novas formas de atuação e manifestação da juventude, em alguns casos absolutamente refratária aos mecanismos tradicionais de organização política?
Como combater a intolerância que se dissemina aceleradamente e não somente destrói relações de amizades, como também implode as famílias a ponto de gerar tragédias de ódio inominável, carnal, um filicídio? O que faz o pai matar seu único filho e se suicidar em seguida, por alimentar um rancor de anos, mas explodido numa confrontação de escolhas de caminhos, de liberdade, de necessidade de se romper o cordão umbilical, algo comum a qualquer adolescente? E, neste caso, uma escolha que se choca com o estilo de vida usual permitido pelos valores do sistema. Um comportamento anarquista que deseja confrontar toda e qualquer autoridade e ser livre das amarras institucionais que nos obrigam a viver em “ordem”, e mirando no “progresso”.
A estupidez e a idiotização das pessoas é absolutamente visível em seus comportamentos, nas opiniões que compartilham por redes sociais que se tornaram propagadores de um ódio insano. Os ataques pessoais, ofensas, injúrias, racismos, homofobia, todos os tipos de preconceitos são destilados raivosamente, temendo a nós, historiadores, que algo semelhante aconteça como nos exemplos perversos do monstruoso genocídio de Ruanda e da guerra cruenta e intolerante ocorrida na região dos Balcãs, que fragmentou a antiga Iugoslávia.
Mas, finalizo me dirigindo aos que defendem outro mundo, marcado pela tolerância e o respeito à diversidade, às crenças e às opiniões. Um mundo onde as desigualdades sociais sejam reduzidas a um limite aceitável. Combater a intolerância, com um comportamento igualmente intolerante, trará pouco sucesso à causa de construção desse novo mundo. A radicalização usada por determinados grupos que se dispõe a ir à luta, mas desconhece os limites dos desejos dos outros, mesmo que esses outros possam vir a ser convencidos da importância de suas lutas, representa igualmente uma estupidez radical estéril. Não soma, não agrega pelo convencimento, e afasta pela rispidez das formas adotadas inconsequentemente. Se o que desejamos é justiça, ela jamais se fará com irracionalidade, pois a base para que a justiça prevaleça é a razão.
Por outro lado, a forma radical expressa na intolerância da aceitação do outro, desperta o outro extremo, que ao reagir com semelhante intolerância transforma a luta geral, numa luta específica, entre extremos, que só pode despertar comportamentos fascistas, ao se fechar em suas verdades, na defesa veemente de suas opiniões como definitivas, e na violência como forma de se impor e de se sagrar vencedor nessa luta. Mas essa pode ser muitas vezes uma vitória de Pirro, e aí não há como não olhar para o passado, pois tem sido sempre assim na história.
Mas, para além das elucubrações políticas e ideológicas que eu possa fazer, existe uma realidade que se consolida, não só no Brasil, como em boa parte do mundo desde que se iniciou este século. 1. A constituição de uma diversidade de movimentos que aglutinam seus componentes organizando-se horizontalmente; 2. a negação da política;  e, 3. a aversão aos partidos políticos e a quaisquer formas de organização que represente a luta pela tomada do poder.
O primeiro item advém de concepções do século XIX, pelo anarquismo, e mais recentemente tomando a forma de movimentos autogestionários, mas que combatem os mecanismos de controle do Estado e se opõem a todas formas repressivas. Combatem, portanto, as formas tradicionais, muito embora ajam também com comportamentos intolerantes, ao não definir objetivamente seu alvo principal e rejeitar outros pensamentos que possam somar no processo de desconstrução do tipo de sociedade por eles criticada. Temem ser engolidos na sequencia de construção de outras alternativas, que para eles não devem seguir nenhum modelo e se organizar horizontalmente. Mas a questão que fica é, como chegar a isso em meio a força de um Estado e de formas de controle consolidadas e difíceis de serem desestruturadas?
Os outros dois não são novidades, mas as formas geradas pelas situações causadas por essas orientações, em circunstâncias diversas, embora parecidas, culminaram nas primeiras décadas do século XX, em regimes totalitários, expressas principalmente no fortalecimento do fascismo, e de sua face mais cruel, o nazismo. O que significa que temos em pleno século XXI, e depois de terem sido combatidos por muitas décadas, pelos dois lados da guerra fria, numa situação de intensificação de uma grave crise econômica mundial, a volta daqueles elementos que jogaram a humanidade em uma guerra estúpida, movida pelo preconceito e intolerância.
Não tenho dúvidas que a maneira de lidar com uma crise que se dissemina por todos os poros da sociedade, e radicaliza todas as formas de luta e de combate, em meio a uma intolerância crescente, é usar de formas radicais de enfrentamento, mas procurando, de todas as formas, atrair para o lado da racionalidade, com a construção de um movimento que se oponha ardentemente à perversão dessa sociedade capitalista, aqueles que nos últimos anos foram seduzidos pela deformação da notícia, pela dissimulação política e pela inversão dos valores que sempre foram defendidos pelos setores progressistas da sociedade. É inadimissível que a radicalidade se volte na forma de “fogo amigo”, e o foco do combate seja desviado, acentuando uma divisão que, lamentavelmente, sempre esteve presente nesses setores.
A juventude tem suas lutas, radicais pela forma, mas também consciente pelos objetivos a serem atingidos. Mas há uma diversidade de atuações movidas por questões ideológicas sectárias, que muitas vezes levam a embates entre si, ao invés de concentrar forças no inimigo maior e mais forte, aqueles que usurparam o poder, disseminam ódio e alimentam as forças de um setor egoísta socialmente, que se aproxima dos jovens como nunca aconteceu.
Saber lidar com essa situação, podendo cada um defender suas posições, mas visando o objetivo comum, é condição sine qua non, para que um novo tipo de democracia possa ser construído, impedindo que a intolerância se dissemine mais do que já está acontecendo. 
Por meios ainda que indefinidos, a juventude de hoje estará construindo no presente o que será o seu momento de amadurecimento pelas décadas que virão. E quiçá isso se dê, futuramente, em uma sociedade menos desigual, mais racional e tolerante do que esta em que estamos vivendo. Mas, certamente, estará convivendo com o mesmo dilema que hoje vive a minha geração, e quem sabe ainda ouvindo a canção de Belchior. Se isso for certo, que cada um e cada uma saibam lidar com seus filhos, compreendendo o tempo deles, e não o seu.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O REENCONTRO DE UMA GERAÇÃO


Este artigo foi publicado no livro “Depois que você partiu”, uma seleção de crônicas que escrevi para suportar as saudades de milha filha, e em homenagem a ela. A primeira edição foi publicada em 2008. A segunda edição no final do ano de 2014.

Se há algo de que não se pode escapar na vida é do destino que nos envolve. Vivemos vidas separadas, entrelaçadas às vezes por momentos que não são permanentes. Eu, esposa, filhos, amigos, os colegas que compõem o nosso cotidiano no trabalho, ou nas atividades de lazer. E assim acontece com todos nós. Rompemos às vezes as rotinas que criamos para dar seguimento às nossas vidas, e quase sempre buscamos no passado lembranças que possam explicar aonde nós chegamos. Sentimos necessidade disso, pois de vez em quando surge aquela nostalgia positiva e ficamos impacientes quando demoramos a reencontrar pessoas que junto conosco fizeram história. A história de nossas vidas. Contudo, às vezes o destino faz com que os dois extremos se encontrem, formando um nó que atrela mais ainda nossas vidas, e faz de momentos felizes lembranças de tragédias que nos confundem.
A história do nosso reencontro, da geração que marcou uma época de embates estudantis durante os anos 80, começou a ser pensado em um momento trágico, da perda de um dos protagonistas dessa história. Vitimado por um Acidente Cardiovascular, algo incomum para a idade que ele tinha, mas tanto mais fatal quanto atinge os mais jovens, o nosso amigo Gilson Bueno não resistiu após uma luta pela vida que durou quase trinta dias de internação no Hospital Neurológico de Goiânia. O mesmo onde presenciei as últimas horas de meu pai, no mês de junho de 2001.
Gilson sempre foi uma pessoa extrovertida. Gozador, parecia que nunca levava as coisas a sério. Descontraído, com um temperamento que saía facilmente da alegre ironia para a irritação, Gilson era uma das figuras mais animadas do nosso grupo. Lembro-me dele não somente nos encontros de Viração, ou nos embates do movimento estudantil, mas nas constantes festas que participávamos na residência de D. Edmée, mãe de minha comadre Márcia Alencar, madrinha de Iago. A casa das Alencar (é claro que tinha também o Virgílio, mas era único em meio a uma família matriarcal, por isso a referência é às Alencar, ele que me desculpe) era um dos lugares mais agradáveis que frequentávamos, e onde sempre éramos bem recebidos. Nascida no mesmo dia e mês de minha mãe, Dona Edmeé tornou-se uma grande amiga por quem tínhamos um profundo respeito. Infelizmente, também ela já não se encontra mais entre nós.
Ali, por muitas vezes nos divertimos ao som da sanfona, do forró, das músicas de Luiz Gonzaga, e, nos finais de ano, nos tradicionais Réveillons, por elas organizados e que para mim são inesquecíveis. O Gilsinho era praticamente da casa.
A militância no PCdoB também nos aproximou, embora Gilson tivesse estudado na Faculdade Anhanguera, onde foi liderança destacada. Mas convivemos por meio das atividades eleitorais ou mesmo dos eventos e encontros do movimento Estudantil e da Viração. Mas, a militância partidária que nos reuniu também nos separou. Não definitivamente, mas passamos a não nos entender mais como antes, a partir do momento em que ele e outros velhos companheiros romperam com o PCdoB e seguiram outros caminhos, mas sempre mantendo um engajamento político.
Por um tempo isso nos distanciou. Mas aos poucos a poeira foi se assentando e conseguimos restabelecer nossa relação. Não quero entrar em detalhes dessas nossas divergências ideológicas, ou partidárias, porque conseguimos superar essas questões e também pela complexidade que envolve esse processo.
A presença de Gilson no SEBRAE, para onde foi juntamente com outro amigo, Gilvane, este alçado à condição de superintendente, garantiu essa reaproximação, na medida em que mantive minhas relações de amizades apesar dos caminhos partidários separados. Ao mesmo tempo uma amizade comum com meu compadre, Benaias, padrinho de minha filha Carol, reforçou esses contatos. Por muitas vezes juntamos nossas famílias em alegres churrascos na casa do Benaias, e ali, entre um gole e outro de cerveja, a língua do nosso amigo Gilson tornava-se mais ferina em suas ironias. Essa era uma característica sua, eterno gozador que parecia não levar nada a sério.
Gilson demonstrava ter uma vida feliz, descontraída, amorosa com sua companheira e filhas. Curtia seus momentos com os exageros comuns a todos nós, com as características daquelas pessoas que curtem os amigos e a satisfação de estar na farra com um grupo que se gosta. Ás vezes tornava-se chato nas gozações e como cada um de nós que tem seu jeito ranzinza peculiar, também tinha seus defeitos. Mas era um amigo e companheiro leal, porque também essa foi uma característica desse grupo oriundo das lutas estudantis dos anos 80. As festas sempre foram a nossa marca registrada. E, desde aquela época, uma marca presente no Gilson, e que nos lembra saudosamente, era suas “tiradas” gozadoras que lhes rendeu uma série de frases marcantes que muitos amigos até hoje não esquecem.
A morte de Gilsinho foi uma trágica surpresa. Nos fez lembrar de outros momentos tristes de perdas de amigos que faziam parte dessa geração, dentre eles Enedina, Cássio, Andréa e, um outro grande companheiro e amigo, Ciro Lisita. Todos se foram nos anos 80 e 90. Os momentos que antecederam seu sepultamento, de profunda tristeza e lamento pela perda inesperada, também foram de reencontros entre velhos amigos, que, embora separados por vários motivos e por divergências políticas, se viram envolvidos em meio a tamanho infortúnio. Naquele momento, maior do que as divergências eram os vínculos de amizade que nos ligavam e as lembranças de uma época que não queremos esquecer. Ali nos despedíamos fisicamente de nosso amigo Gilson, mas em seu último ato ele nos possibilitou começarmos a traçar os planos do que seria um grande reencontro.
A fatalidade que levou à morte de Gilson parecia nos ligar de varias formas, desde a alegria do reencontro até tecer uma teia que nos envolveria em mais dois casos de tristes partidas. Gilsinho não partiria sozinho nesses tempos de reconciliação. A Verbena e a Carol são partes de uma História que nos une a Gilson e que nos deixou momentos sofridos em meio às alegrias de conseguirmos reagrupar centenas de companheiros e companheiras de uma época marcante.
A casa de Benaias virou uma referência para esse simbolismo trágico. Nela curtimos vários encontros alegres entre churrasco e cerveja. E a presença nesses momentos de Gilsinho, da amiga Verba, e da pequena Carol, que já criava uma amizade com as filhas de Gilson e de sua companheira Patrícia. Das alegrias desses encontros de sábados e domingos para a tristeza das perdas e ausências de três figuras que marcavam nossas relações passaram-se pouco mais de um ano.
O ano de 2007 despontava como sendo um ano histórico em nossas vidas por um motivo alegre. Mas nos marcou muito mais pelas tragédias que envolveriam personagens diretamente ligados ao reencontro que nos propusemos a fazer, em memória de Gilson e dos demais companheiros de Viração falecidos em anos anteriores. Em março, quando concretizamos esse momento, jamais poderíamos imaginar que no transcurso daquele ano perderíamos a Verbena, uma das pessoas que mais se empolgaram com a possibilidade de reencontrarmos os companheiros de Viração, e que fez parte da comissão que coordenou a preparação da festa. Ainda temos na lembrança e na fotografia, o último encontro da comissão, no apartamento dela e do Orlando quando comemoramos o sucesso da festa e alguns encaminhamentos finais, como a finalização de um DVD e já discutindo a possibilidade do segundo encontro. Ali estávamos eu, Orlando, Verbena, Isalice, Héder, Chico Messias, Horácio e Geovana.
A festa de Viração foi marcante. Embora preocupados com as manifestações de possíveis divergências políticas, ou diferenças pessoais, entre ex-companheiros que por um motivo ou outro se desentenderam quanto às definições e opções partidárias, sabíamos, pelo que construímos nas décadas de 80 e 90, que o sentimento de respeito e carinho pelo esforço que fizemos para nos reencontrarmos com a história seria predominante. Ouvíamos aqui e ali algumas manifestações de intolerâncias e alguns resquícios de desavenças de tempos passados, mas nós, que assumimos a tarefa de organizar a festa tínhamos plena confiança que tudo daria certo. Apostamos durante meses na realização desse encontro e não acreditávamos, tal era a nossa empolgação, que algum problema fosse atrapalhar.
E assim aconteceu. A festa transcorreu sem nenhum problema, e de certa forma nos surpreendeu, tanto pela quantidade de pessoas presentes, como pela relação de cordialidade que prevaleceu, sem que nenhum incidente manchasse aquele momento histórico. Viração renascera em nossos corações, agora em meio a uma encruzilhada de caminhos que se tornaram escolhas de rumos para muitos daqueles que em outros tempos erguiam os punhos mediante um mesmo ideal. Houve então, um momento de respeito, pela nossa história, pela memória daqueles que partiram antes de nos reencontrarmos.
Já não éramos moços e moças empolgados com um farol distante a nos iluminar e indicar um caminho, nem tínhamos mais o mesmo ímpeto juvenil e revolucionário de antes. Um a um, claro, muitos acompanhados, chegavam pais, mães, profissionais liberais, professores, parlamentares, e um séquito de filhos e filhas, demonstrando que mais do que o tempo que fizeram nossos cabelos embranquecerem, ou simplesmente desaparecerem, trazíamos ali o futuro radiante de uma geração ousada, aguerrida, combativa.
Sorridentes, alegres e felizes por aquele momento, e uma satisfação incontida em todos ali presentes. De repente, dissiparam-se as divergências, o respeito ao passado falou mais forte e vivemos uma noite de alegria e nostalgia. O momento marcante se deu quando foram exibidas as imagens que havíamos acumulados nos meses de preparação da festa, fotos de fatos que marcaram época, e as homenagens àqueles companheiros e companheiras cujas vidas foram ceifadas anos antes.
Havíamos realizado algo que muitos julgavam impossível, e não somente reconciliar momentaneamente antigos companheiros como tivemos entre nós convidados que nos anos 80 eram nossos adversários políticos, mas que hoje convivemos bem com eles e nos respeitamos com nossas escolhas políticas. Assim, o retorno àquela época estava completo. Empolgados, já planejávamos ali mesmo a próxima festa, de modo a multiplicar o número dos presentes. Naquele momento nós já não tínhamos mais dúvida de que isso era plenamente possível.
Aquela festa repercutiu por muito tempo. Em seguida, passamos a realizar vários pequenos encontros, que tinham como objetivo manter acessa a mesma empolgação, além de discutirmos a finalização do DVD com imagens da festa.
Em meio a isso se somariam algumas surpresas desagradáveis. A primeira delas me envolveu diretamente, e a Celma, mas também aos demais amigos, pela amizade e por estarmos nos encontrando constantemente, e mais uma vez ao compadre Benaias. A Carol adoeceu e o que aparentava ser uma simples virose complicou-se, levou-a ao hospital onde permaneceu durante dez dias, nos deixando assustados e profundamente preocupados. Com sua saída do hospital nos sentimos aliviados, e marcamos um encontro para registrar nossa alegria com a sua recuperação. Isso se deu em minha casa, e junto conosco e outros amigos lá estava a amiga Verbena, por quem a Carol tinha uma grande simpatia.
Mas, lamentavelmente, 2007 não transcorreria com as mesmas expectativas como aquelas geradas pelo nosso reencontro. Outros encontros, desta vez trágicos, marcariam este ano que terminou fatídico para alguns de nós. Em agosto uma notícia nos pegou de surpresa, nossa amiga Verbena, que trazia em seu ventre o fruto de um desejo acalentado por vários anos junto com seu companheiro e nosso velho amigo Orlandinho, fora internada às pressas com uma infecção mal diagnosticada. Em pouco tempo, 24 horas depois, mais uma tragédia se abateu sobre nós, Verbena partira de nosso meio fazendo dissipar toda aquela onda de alegria que nos envolvera nos últimos meses. Em meio a dor que se abatia sobre Orlando e ao desespero em que amigos e parentes se entreolhavam perplexos eu me lembrava da felicidade da Verbena, em nossa casa, comemorando conosco a recuperação da Carol pouco mais de dois meses antes.
Verbena foi também uma personagem destacada nos anos da Viração. Estudante de História da UCG, chegou a ser presidenta do Centro Acadêmico, sempre demonstrou firmeza  na defesa de nossas bandeiras e destacava-se pela tranquilidade com que lidava com as adversidades e  por uma descontração que lhe era peculiar. O riso fácil e o jeito brejeiro mesclavam-se com uma serenidade e tornava fácil a ela envolver as amizades. Essas mesmas características marcaram sua presença na presidência do Centro de Seleção da UFG, cargo que ocupava até o dia de sua morte. E foi assim, como esse jeito envolvente, que ela conquistou a simpatia daqueles que estavam sob a sua coordenação. Verbena se foi em um momento que demonstrava não somente capacidade intelectual – poucos anos antes ela havia se tornado doutora – mas por demonstrar também uma competência gerencial, comprovada na maneira diferente com que ela transformou aquela unidade da UFG em pouco tempo. Grande amiga e companheira foi uma perda inestimável, que nos deixou profundamente abalados.
Procuramos dar todo o apoio ao nosso amigo Orlando, que perdera não somente sua amada companheira, mas também o bebê, que eles tanto sonharam em ter. Assim, por semanas prosseguimos tentando encontrar respostas para algo que não pode ser explicado, oferecendo nossa solidariedade a um amigo que foi um dos mais ativos e empolgados pela realização do reencontro de nossa geração.
Mas esse apoio se deu também por parte de alguém que queria retribuir ao carinho que recebeu enquanto esteve doente. Lembro-me de um dia, quando fui chamado pelo Horácio, amigo e cunhado do Orlando, para nos encontrarmos com ele, juntamente com suas irmãs, em um bar no Jardim América, para que pudéssemos distraí-lo, em meio a tanta tristeza. Ao saber aonde eu iria, imediatamente a Carol se dispôs a ir comigo. Imediatamente eu a fiz saber que ia a um bar onde não havia espaço para crianças, ao que ela me respondeu: “mas pai, eu quero ir para ver o Orlandinho”.
E a vida me reservava uma tragédia ainda maior, que acabaria por unir os fios daquela teia que nos envolvia a todos, e, principalmente, ligavam ao Gilson, a Verbena, ao Orlando, ao Benaias, a mim, a Viração. Uma nova internação da Carol e a identificação de uma doença perversa se deram em um curto tempo, três dias, no mês de dezembro, sem que houvesse chances para que minha pequena pudesse reagir e lutar por sua vida conosco. Carol partiu no dia 13 de dezembro, e quis o destino que as duas pessoas que fosse até nossa casa nos dar essa trágica notícia, estivessem ligadas por laços de amor e amizade a essas três personagens: Orlandinho, que meses antes vivera ele próprio o mesmo desespero, e a Cláudia, por quem a Carol se afeiçoara tanto, e que também se tornou grande amiga do Gilsinho e da Verbena.
Infelizmente 2007 não deixaria em nós a lembrança alegre de nosso reencontro como momento mais marcante. Porque as tragédias, as perdas, as partidas de pessoas queridas que tanto amamos, deixam muito mais presentes em nós as marcas e cicatrizes de infortúnios e infelicidades do que as alegrias pelo reencontro de grandes amigos.  Esses amigos e amigas, certamente estarão novamente juntos em outros encontros, falaremos mais uma vez de alegrias e tristezas, mas os que partiram, pessoas que compartilhavam conosco esses momentos deixarão apenas a lembrança e a saudade em nossos corações e mentes. Já não os veremos mais. Os nossos planos de reencontros os terão somente na tela a embalar nossos lamentos, como assim estiveram em março aqueles que partiram antes.
Gilsinho, Verbena e Carol, conseguiram fazer com que nos mantivéssemos mais unidos, e, é assim que eu penso, compreendendo melhor o valor das amizades. Ao longo de menos de dois anos, entre perdas e reencontros, pusemos à prova alguns desses valores, quebramos barreiras que nos distanciavam por mesquinharias políticas, e percebemos que não precisamos ser todos iguais no viver e no pensar para mantermos firme uma velha e boa amizade. Só precisamos ser mais tolerantes.
Certamente, passados os momentos de dor e tristezas profundas, suas lembranças serão fortes motivos para prepararmos os próximos reencontros.
E como a nos mostrar que a vida é essa somatória de momentos contraditórios, de difícil relação com a morte e da aceitação das perdas, mas também de situações felizes que envolvem aos que estão ao nosso redor, presenciamos também o nascer de uma nova geração. Nesse período pudemos acompanhar o nascimento do neto de uma grande companheira, que também esteve conosco na preparação do reencontro dos viracionistas. A nossa “jovem” amiga Izalice tornou-se avó. Nascera o filho da Marília, esta uma bela garota fruto de uma relação com outro amigo e companheiro viracionista, Eugênio, mas que o tempo se encarregou de encerrar, deixando sementes que simbolizam o eterno ciclo da vida. Chegou também para animar o cotidiano dessa nossa “velha” amiga, também ela, como todos nós, envolvida em meio a infortúnios e alegrias.
Vidas que vão, vidas que vêm. E assim seguimos convivendo com alegrias e felicidades, e com momentos tristes por nossas perdas, sem querer nos conformar com a única certeza que temos: que um dia, inevitavelmente, a morte virá. Celebramos a vida efusivamente, embora nem sempre saibamos aproveitá-la bem, já a morte não somente nos tira pessoas queridas, e às vezes seremos nós mesmos, como deixa nossa vida mais vazia, pela ausência de quem preenchia parte de nosso cotidiano.
Não devemos parar por isso. Essa é uma frase difícil de dizer quando se perde alguém querido, principalmente uma filha. Mas é a vida. E ela segue numa rotina ao nosso redor que parece não ter sido desfeita, as pessoas, nossos amigos e amigas, continuam cumprindo o roteiro traçado por seus destinos. Talvez isso seja o pior momento quando tentamos nos recuperar dessas tragédias. Pensamos em nossa filha que se foi, nos amigos que também partiram, e olhamos para aquela criança que nasceu há pouco tempo radiando felicidade, e só nos resta conviver com um grande dilema: sentir tamanha perda e lembrar sempre de nossa filha, compartilhar a dor dos amigos que também perderam pessoas queridas, e viver a vida que segue adiante, diferente para nós, mas seguindo a rotina ao nosso redor, e até em alguns casos com mais alegrias. E como para tudo há um tempo certo que segue em direção ao seu fim, é preciso aproveitar esses momentos alegres com muita intensidade.
E como um eterno recomeço, já imagino um novo reencontro de Viração, torcendo para que tragédias semelhantes não marquem esse período, mas sabendo que essa é uma expectativa absolutamente incerta. Mas, fica uma certeza, de que a única coisa que nos deve parar é a morte, e, até que isso aconteça, devemos cumprir em vida nosso destino.
“Carpe diem quam minimum credula postero”*

“Colha o dia, confia o mínimo no amanhã
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses
darão a mim ou a você, Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia
não brinque. É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.
Se muitos invernos Jupiter te dará ou se este é o último,
que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.
Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo
reescale suas esperanças. Mesmo enquanto falamos, o tempo ciúmento
está fugindo de nós. Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.”*

                             "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC)



(*) A publicação deste artigo no blog se deve ao fato de estarmos reorganizando mais um encontro dessa geração de lutas, que fez história na década de 1980. O III Encontro de Viração acontecerá no próximo mês de junho e será mais um momento aprazível para reencontrarmos companheiros e companheiras, camaradas, amigos e amigas, e revivermos momentos saudosos de nossas lutas políticas, das festas, e dos embates no movimento estudantil. Será momento até mesmo de reencontrarmos os nossos opositores, que também serão convidados. E de relembrarmos com saudades daqueles que partiram e não estão mais entre nós. E, como será o III Encontro, os dois outros serão também muito lembrados, bem como será o momento de relembrar que minha filha esteve presente, esbanjando alegria, no primeiro deles, em 2007, ano de seu falecimento. Como esquecer?...



sexta-feira, 7 de março de 2014

BOTANDO OS PINGOS NOS “IS”

Legenda: Ego-Sistema
Aproveitando o longo feriado carnavalesco, e estando definitivamente afastado dessa festa momesca desde que perdi minha filha, em 2007, resolvi ser mais um seleto espectador de uma enorme diversidade de filmes para todos os gostos, na Mostra “O Amor, a Morte e a Paixão”. Pudemos ver por aqui, nos sertões brilhantemente intelectualizados dos cerrados goianos, antes que paulistas e cariocas, sempre à frente dos principais lançamentos cinematográficos de qualidade, uma enorme gama de filmes premiados em diversos festivais do mundo, incluindo Cannes, Berlim e o Oscar.
A mostra, competentemente organizada pelo curador Lisandro Nogueira, atual presidente da Cinemateca Brasileira (http://www.cinemateca.gov.br/) e os Cinemas Lumiére/Bouganville, tem como parceiros a ADUFG-Sind e o SINTEGO. Por isso temos a satisfação de entre um e outro filme podermos trocar opiniões sobre diversos assuntos com amigos e colegas. Numa época caracterizada por uma intensa complexidade e pela profusão de rebeldias, focadas em reivindicações locais, ou em interesses geopolíticos globais, pauta é o que não falta para os debates entre amigos e colegas. Além dos temas abordados em filmes carregados de polêmicas e roteiros que trazem toda essa complexidade e nos brindam com a possibilidade de debatermos intensamente.
Num desses encontros, fui interpelado por alguns amigos. Espantavam-se com as postagens e comentários que frequentemente insiro nas redes sociais. Diziam que eu estava erroneamente defendendo o governo “petista”, o que consideravam um absurdo.
Tenho comigo, sempre, que uma boa amizade não se perde para a política. Por isso mantenho convivências harmoniosas com amigos que circulam entre todos os setores e/ou partidos políticos. Particularmente, mantenho minha filiação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ao qual tenho ligação desde meus tempos de movimento estudantil. Aliás, desde quando entrei na Universidade em 1980. Naquele ano ingressei no Centro Acadêmico de História, participei do meu primeiro Congresso da UNE, e fui “recrutado” para o movimento comunista. Minha militância sofreu oscilação ao longo dos anos. Afastei-me de Goiânia, fui dar aulas numa Faculdade em Araguaína, retornei à Goiânia, fiz mestrado na UFG e no ano em que o finalizei ingressei na Universidade Federal de Goiás como docente. Primeiro como professor substituto e no ano seguinte como efetivo. Era o ano de 1995.
1981: Av. Tocantins, 7 de setembro.
Greve nacional dos estudantes.
Embora as reminiscências da vida tenham freado o meu ímpeto revolucionário, que me impulsionou na minha juventude, mantive ideologicamente minha proximidade com os valores que construíram uma visão de mundo, pautada firmemente nas teorias e experiências do marxismo, da dialética e do materialismo. Essas mesmas agruras me fizeram mais tolerantes, e pelo apoio e solidariedade recebidos em momentos difíceis de minha vida, quando da perda de minha filha, compreendi que as barreiras existentes entre concepções diferentes de mundo, já que são muitas as ideologias que nos cercam, não podem destruir uma amizade. O que era difícil antes, poder dialogar com aqueles que enxergavam o mundo por um paradigma diferente do meu, tornou-se uma prática comum, simplesmente porque mantive como prioridade nessas relações a defesa da amizade.
Mas, e aqui entro no mérito da questão, isso nunca significou para mim, abrir mão de determinados princípios, valores construídos com convicções e referendados pelo que eu sempre experimentei no cotidiano de uma vida vivida com dificuldades, e com uma trajetória de superação de problemas sociais, que nas décadas de 1970 e 1980 eram infinitamente maiores do que as que conhecemos nos dias de hoje. In-com-pa-rá-veis. Não somente pelo anacronismo no qual incorreríamos, mas pela própria realidade sentida no cotidiano de ontem e de hoje. Para além da certeza que temos da necessidade de prosseguirmos nas mudanças, objetivando, naturalmente, aquilo pelo qual sempre defendi enquanto concepção revolucionária de mundo: por fim às desigualdades sociais e às absurdas e injustas concentrações de riquezas nas mãos de uma minoria.
Ocorre que a interpelação que gerou essa iniciativa, de produzir um texto, partiu, e sempre tem partido em outras ocasiões, de antigos militantes de esquerdas, amigos hoje que no passado ou militavam nas mesmas fileiras partidárias ou eram adversários, defensores de ideias mais sectárias e radicais do que as que eu defendia. Pelo menos no discurso, na aparência. Em minha opinião, naturalmente.
Mais interessante, para analisarmos buscando a ajuda não somente dos clássicos marxistas que sempre nos orientavam ideologicamente, mas, quem sabe, incluirmos aí um pouco das concepções freudianas, é saber que os ataques mais virulentos partem de antigos militantes de correntes que antigamente compunham o Partido dos Trabalhadores. Agora duramente criticado.
Quero dizer, no entanto, que comungo de algumas das críticas feitas por esses colegas, quanto aos rumos tomados por aqueles que, outrora esquerdistas radicais, transformaram-se quando da ascensão ao Poder. Creio ser essa quase que uma tendência natural, infelizmente. Pelo choque do que significa gerenciar o Estado, na concepção mais geral, em que se incluem todas as estruturas burocráticas administrativas; ou pela sedução que acompanha o Poder e que desperta os piores sentimentos, dentre eles a vaidade, a arrogância e o oportunismo. É difícil ser refratário a eles, mas é possível resistir. Com a firmeza ideológica.
Amigos e amigas desde tempos
de militância estudantil. Juntos
para além das divergências políticas
Mas divirjo pelo viés conservador, e pelo ódio que carrega e deforma boa parte dessas críticas. Muitas delas parecendo muito mais buscar uma justificativa para uma escolha, de mudança dos paradigmas que os fazem enxergar outra visão de mundo, do que visando as ausências de ações que executem aqueles velhos princípios pelos quais lutaram em décadas passadas.
Principalmente, porque no afã de encontrar uma justificativa para suas novas escolhas, à direita, cegam-se, ou fingem não ver as transformações pelas quais passou o nosso país desde os intensos anos de luta contra a ditadura até os dias atuais. Principalmente, e isso é inegável, até mesmo por avaliadores internacionais e entidades que reconhecem programas que transformaram a realidade de milhões de brasileiros, a partir do começo do século XXI. Algumas mudanças, inegavelmente, se iniciaram no governo de Itamar Franco, com a estabilidade monetária e a criação do Plano Real, prosseguiram lentamente durante o governo Fernando Henrique Cardoso, mas com um viés nitidamente neoliberal, mas foram expandidas e potencializadas durante os governos Lula/Dilma.
Não restam dúvidas, que muitas das bandeiras pelas quais lutávamos estão longe de terem sido implementadas. Auditoria sobre as dívidas brasileiras; reforma agrária; controle sobre o capital estrangeiro; fim das privatizações; salário mínimo conforme exige a Constituição; salário dos professores ao nível de outros profissionais de carreiras do Estado brasileiro; ensino público, gratuito e de qualidade. Etc, etc, etc...
Mas a política brasileira impõe dificuldades para transformações radicais, na medida em que se torna necessário a composição com forças políticas conservadoras, majoritárias no Congresso Nacional onde a esquerda se reduz a um mínimo de um quinto do quantitativo de parlamentares ali presentes.
Nada disso, contudo, é capaz de frear o ímpeto conservador e raivoso daqueles amigos que optaram por seguir um novo curso em suas vidas. Compreendo o rigor de suas críticas, e o ódio que transcende a racionalidade do discurso, como uma justificativa para suas novas escolhas. O que para mim é desnecessário, pois ao longo dos anos, conforme disse anteriormente, fui sabendo separar a relação de amizade com as escolhas ideológicas dos amigos.
Pode ser que em determinado momento da vida política do país tenhamos que fazer outras escolhas. Sabemos como isso acontece por conhecermos processos históricos e políticos de países onde a luta sectária atingiu o ápice e levou a embates violentos separando velhos amigos, e até mesmo famílias. Torço para que o Brasil esteja livre de seguir por esses caminhos traumáticos. Mas o discurso do ódio, disseminado pela classe média, pelos setores conservadores e pela grande mídia corporativa, tem se intensificado na medida em que se aproximam os dias de debates eleitorais. E as estratégias adotadas por países em crises, como EUA e algumas potências europeias fragilizadas economicamente, de gerar instabilidades em países estrategicamente importantes para voltar a contar com governos que lhes sejam confiáveis, e poderem aplicar as receitas neoliberais, fazem com que a situação fuja do controle de muitos desses governos mais progressistas. Isso pode também acontecer por aqui.
Mas apontar esses riscos, ou considerar os avanços obtidos no campo social, soa para esses antigos companheiros como defesa do “jeito petista de governar”. O que significa dar vazão a todos os ataques feitos por esses setores midiáticos.
Porquanto eu possa ter crítica à ausência de iniciativa no atendimento de reivindicações históricas, e até mesmo seculares, como no caso da Reforma Agrária, à manutenção de uma política econômica de viés neoliberal, com elevação das taxas de juros a níveis estratosféricos, ou à covardia em se recusar a atacar com firmeza o monopólio da informação e não conter os desvarios de uma mídia golpista, que tende a repetir o papel que desempenhou durante o golpe militar de 1964, não me vejo como replicador de ataques que poderia levar o país a um retrocesso político. Principalmente do ponto de vista do atendimento das questões sociais.
EU NÃO VIVO DO PASSADO, O PASSADO VIVE EM MIM.
Anos atrás escrevi um texto, publicado aqui mesmo no Blog, em que eu descrevia a minha trajetória política e encerrava a militância, ou o engajamento partidário tal qual eu fizera até um momento crucial em minha vida. A partir dali, lutando para superar uma depressão causada por uma perda inestimável, compreendia que o caminho que eu deveria trilhar seria aquele que profissionalmente eu tinha escolhido: a Universidade.
Não quero dizer que haja incompatibilidade entre militar ativamente na política e ser um professor universitário. Mas eu não me prendia às questões de compatibilidade, e sim de escolhas.
Contudo, muito embora sinalizando com a possibilidade de eventualmente poder contribuir em funções do Estado, em setores estrategicamente ligados à minha área de atuação, eu abdicava da militância. Mas, em nenhum momento afirmei que abria mão de minhas concepções políticas e ideológicas, daquelas que me guiaram por três décadas e pelas quais eu mantinha, e mantenho profundas afinidades.
Isso, naturalmente, me leva sempre a analisar a política dialeticamente, e compreendendo os embates que despontam no Brasil e no mundo, seguindo-se a lógica irrefutável apresentada por Karl Marx: a luta de classes. Tentada ser encerrada nos anos 1990, auge do avanço neoliberal pelo mundo, quando muitos intelectuais, antes defensores das análises marxistas, “bateram em retirada”, e esconderam-se covardemente nas abordagens de cotidiano e das migalhas da história.
Esse momento que vivemos, de pressão conservadora e de ações provocativas com o intuito de gerar instabilidades políticas pelos setores que não conseguem retomar o poder dentro do processo democrático tradicional, mas ao mesmo tempo de insatisfações crescentes de uma massa que aprendeu que pode querer, e quer mais do que tem sido lhe garantido, cria um divisor de águas. A minha verve marxista, revolucionária, embora diletante e não mais militante, fala mais alto. Parto da análise dialética das contradições, do choque dos contrários e da luta de classes e me defino como dantes. Assumo com prazer o lado onde sempre me mantive, ao longo de quatro décadas.
Por isso, ao escrever o artigo citado[1] recorri a uma frase de Paulinho da Viola que ele diz no DVD “Meu Tempo é Hoje”: “Eu não vivo do passado, o passado vive em mim”.
Mantive-me ao longo desses últimos anos distantes das agitações políticas, mas não me desvinculo de minha ideologia. Até porque no meu cotidiano convivo com alguém que herdou essa verve revolucionária, às vezes sem a devida temperança (como era também o meu estilo), meu filho, que segue meus passos, mas com passadas mais largas do que as que eu dei. Não me comporto como antes, reconheço, talvez um pouco conservador ou mais conciliador, mas sabendo distinguir com base naquilo que aprendi ao longo de meus melhores momentos de embates políticos, o que é o joio e o que é o trigo.
Documentário que apresenta
vários fatos acontecidos
no mundo
Isso é suficiente para delimitar meu campo. Por mais que eu tenha que ser tolerante nas críticas vociferantes e carregadas de ódios, inexplicáveis, de alguns de meus amigos, elas jamais serão suficientes para me convencer de mudar o rumo do meu destino. Não que seja porque ele tenha sido “traçado na maternidade”, mas porque sempre soube, na vida, e no que aprendi ideologicamente, em qual lado eu deveria me situar na luta de classes. Mais do que uma questão de escolha, é principalmente de origem social. Se estivesse na Venezuela, certamente eu seria bolivariano. Para desespero desses meus amigos.
Mais farei um convite aos mais próximos. Assistirmos juntos, tomando um bom vinho aos filmes: “O declínio do Império Americano”[2] e “As Invasões Bárbaras”[3]. Teremos assuntos para além da revolução, ou dos golpes “suaves” de Estado que se espalham pelo mundo.




[1] http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2013/01/a-encruzilhada-os-proximos-anos-do.html
[2] O Declínio do Império Americano (Le Déclin de l'Empire Américain), de Denys Arcand. Canadá, 1986, Cores, 101 min. Com: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal. O que pensam realmente as mulheres dos homens? De que é que falam quando eles não estão presentes? E os homens, de que falam? Enquanto Rémy, Pierre, Claude e Alain, professores na faculdade de História, preparam um jantar requintado, as suas companheiras, Dominique, Louise, Diane e Danielle, treinam-se num ginásio. Os homens falam sobre as mulheres, as mulheres sobre os homens. Estas duas conversas põem em evidência as mentiras de uma época e mostram que cada um deles procura a felicidade individual a qualquer preço. Fantasias, tentação, desejo, indiscrições, infidelidade, confissões são os ingredientes do argumento. "O Declínio do Império Americano" (1986), de Denys Arcand, que foi um dos maiores sucessos do cinema canadiano e foi apresentado na Quinzena dos Realizadores em Cannes. Disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=DVxnkiMqZak
[3] As Invasões Bárbaras (Les invasions barbares) – É um filme franco-canadense de 2003 realizado por Denys Arcand. Direção: Denys Arcand. Prêmios: Oscar de melhor filme estrangeiro. Elenco: Rémy Girard, Marie-Josée Croze, Stéphane Rousseau. Considerado um dos melhores filmes de 2003, "As Invasões Bárbaras" é um filme raro. Emocionate sem ser piegas e ao mesmo tempo moderno. O diretor Denys Arcand promove o reencontro dos amigos de "O Declínio do Império Americano" dezoito anos depois. Eles estão juntos novamente para se despedir do divorciado Rémy, abatido por um câncer raro. A reunião é promovida por seu filho yuppie. Sensível, envolvente, com um humor afinadíssimo e muito inteligente, "As Invasões Bárbaras" ganhou dois prêmios no Festival de Cannes: Melhor Roteiro e Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), além de ser Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Fonte: filmesdecinema. Disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=jATYBTQ4Z9c