sexta-feira, 21 de abril de 2023

CRÔNICA DE UM PAÍS EM TRANSE... NUM MUNDO EM TRANSIÇÃO

Já não é mais tão fácil, ou talvez nunca tenha sido, produzir conhecimentos sobre a realidade vivida, ou compreender os fatos que nos cercam e nos afetam direta ou indiretamente, em um mundo conectado onde as pessoas julgam saber de tudo, por meio de informações superficiais e abstratas.

Por essa razão, e por poder ver tantas opiniões se multiplicando aceleradamente pelos canais virtuais, blogs, sites, aplicativos, de forma resumida, e acintosamente antidialética, que me recolhi à minha insignificância. Ser observador em um mundo de “gênios”, conhecedores rasos de políticas e geopolíticas, nos angustia, isso é inegável. Mas, pelo menos evitamos ser afrontados tanto pelo maniqueísmo que impera resolutamente nos tempos atuais, mais do que em outros tempos, ou não; bem como não somos alvos de “cancelamentos”, ou de ataques estúpidos, por quem só deseja ler e ouvir aquilo que quer, nesse tempo alguns anos atrás já denominado de “era da pós-verdade”.

Mas resolvi retornar, e produzir um artigo na linha de outros que já escrevi em meu blog, com um título parecido com esse que uso neste: “Crônicas de um mundo em transe”.[1] Talvez essa minha publicação possa vir a despertar alguns desses sentimentos, e eu venha a sofrer os ataques de milícias virtuais, pérfidos vigilantes da estupidez que grassa e faz reacender as fúrias neonazistas e neofacistas. Mas também posso ser afetado pela reação ferina de uma esquerda que atualmente se equilibra entre os discursos identitários e a visão maniqueísta de mundo. Numa estranha fuga da realidade e da compreensão dialética de analisar e perceber as sociedades em meio a todas as suas contradições, e do entendimento que muito nos ensinou o legado marxista, de que devemos partir da observação da totalidade das coisas, e que, por meio das análises das partes que a compõem, e da necessária vinculação entre elas, só assim, podemos compreender o todo dentro de uma visão concreta, materialista e dialética de como esse mundo foi sendo construído e da sua existência real nos tempos atuais.

Elevar alguma dessas partes a condição de elemento prioritário no enfrentamento dessa realidade social, nos impede de compreender e de ter a noção exata da existência de classes sociais, de um sistema dominado por uma dessas classes e de uma estrutura que vai muito além dos embates específicos, e deve, sempre, nos levar diretamente para a compreensão das raízes de como toda essa estrutura foi sendo construída. E, se quisermos destruí-la, e queremos, porque é abjeta em sua lógica desigual, precisamos abalar os seus alicerces, e transmitir às novas gerações as observações sobre como as colunas que sustentam todo esse arcabouço de uma sociedade perversa na consolidação e na defesa de um sistema injusto e deformado, estão construídas sobre fundamentos ideológicos rasos, frágeis, manipuladores, mas que se sustentam no medo, na fé e religiosidade das pessoas, na ganância, na usura e no individualismo que explora o trabalho alheio e sobre ele eleva suas riquezas e as transmitem por gerações e gerações, pela perversão meritocrática do direito de heranças.

 

“O MUNDO É MUITO MAIS COMPLEXO DO QUE QUEREM NOS FAZER CRER”[2]

 

A pior coisa que podemos fazer, na busca pela compreensão da realidade, é simplificarmos o olhar, ou o entendimento, de como é o mundo. Infelizmente, atravessamos um momento da história que inevitavelmente tem formado as novas gerações, onde a informação transborda como um líquido gaseificado após ser sacudido, mas que o conhecimento se dissipa como uma neblina.

Ou seja, temos muita informação, que nos são apresentadas na absoluta maioria de forma rápida e superficial, e carecemos de um conhecimento aprofundado sobre a realidade. Isso nos leva desastrosamente ao crescimento da estupidez, da idiotização e da alienação política. E, por óbvio, torna-se difícil a condução de qualquer debate, quando o expositor olha para uma plateia, ansiosa por compreender cada palavra dita por meio do acesso rápido ao Google – e agora ao ChatGPT – e a intervir com a idólatra sabedoria abstrata, ou na apostasia daquilo que lhe guiava até pouco tempo. Evidente que isso também não deixa de ser a dialética, ou a negação da negação, mas que devemos ver pelos caminhos oblíquos de uma sociedade que se guia por referências tais quais como uma biruta de aeroporto, que se deixa levar ao sabor do vento.

Mas pelo menos esse instrumento, de antanho, que sobrevive até hoje, tem a função de indicar a direção do vento. Já o sapiente ignorante se deixa levar pelas informações fáceis, aleatoriamente, em muitos casos, falsas, e se identifica com elas na conjunção com as circunstâncias de suas vidas, chatas, ressentidas, conflituosas, inexpressivas, cheias de rancores, desequilibradas, ou que se originam nas pregações dos púlpitos, mas cujas razões para explicar cada uma dessas situações não são compreendidas dialeticamente, e por isso, na busca pela razão rasa, com perdão da quase redundância, se (des)equilibram na adesão àquelas informações que lhes são mais convenientes às condições em que vive num dado momento. Dessa forma se tornam presas fáceis dos movimentos de uma extrema-direita que se dedicou nos últimos tempos a buscar nessas contradições o seu crescimento, e a adesão dessas pessoas, presas pela ignorância, pelo fundamentalismo religioso e pela alienação política.

Qual o risco no qual estamos metidos? É que essa situação não nos parece ser de uma passagem rápida. Possivelmente viveremos ainda por um bom tempo, tentando lidar com uma realidade tóxica, contaminada por discursos que inspiram o rancor, o ódio, a estupidez. A desinformação será a arma principal nas lutas políticas, principalmente por meio da destruição de reputação. Da mesma forma o uso e abuso da fé, partindo das pregações odientas de pastores sanguessugas e demais religiosos que fincam seus pés e seus valores na rigidez anacrônica de costumes ultrapassados, completamente distanciado da realidade atual.

Por esse meio, no entanto, seguirá acontecendo o recrutamento de uma população marcada pela baixa autoestima, e fragilizada por condições sociais desequilibradas, bem como pelo medo gerado pelo avanço da violência em um modelo de mundo perverso, mas onde essas pessoas se deslocam na direção de seus algozes. A compreensão de um mundo que se explica pela luta de classes sequer passa perto do entendimento da realidade como eles próprios se veem. São, assim, reféns do discurso conservador, pautado pelos costumes de eras passadas, pela hipocrisia de apóstatas que se desviam de princípios basilares do cristianismo. Estão à mercê do fascismo e do neonazismo, ou, da extrema-direita radicalizada.

Os desafios para quem lê, estuda e analisa o que está acontecendo no Brasil e no mundo, com um olhar estratégico, dentro de uma metodologia que prime pela compreensão dialética da realidade, são enormes. Porque as gerações atuais não têm mais a paciência de se aprofundar nos temas necessários ao entendimento da complexidade do mundo. São premidas por um tempo marcado pelo excesso de informação e a necessidade de ler sobre muitas coisas em um curto período. É a geração Tik-Tok.

 

O DESAFIO DE ENFRENTRAR A REALIDADE, NUMA ÉPOCA DE PÓS-VERDADE

 

Como alterar isso? Esse é o dilema. Ou seja, é preciso explicar as coisas com clareza, mas com objetividade, sem ser prolixo, mas também sem ser superficial. Encontrar a medida exata para chegar a uma pedagogia consistente, que prenda a atenção dessa geração não é tarefa fácil. Pois que não podemos renunciar ao aprofundamento nas questões objetivas, que nos levam a compreender as complexidades de um mundo confuso. Este meu texto, por exemplo, já extrapolou, pelo tamanho, o limite da paciência dessas novas gerações. Espero que, com essas provocações, os que estiverem lendo se sintam provocados para chegar até ao final.

Já as pessoas mais velhas, sucumbem ao medo, potencializado pelo uso que alguns pregadores fazem da religião. Saudosos de um tempo em que a violência não era tão explícita, ou que estavam distantes de suas realidades, as gerações mais antigas são induzidas por velhos discursos, como se a mudança nos costumes não pudesse ser responsabilizada pelas crises sistêmicas e mudanças no comportamento humano, cada vez mais insensíveis e desprovido de empatia. Mas, contraditoriamente, ao agir dessa maneira, terminam por seguir na direção do mesmo comportamento em que criticam, e são alimentados pelo discurso do ódio e da intolerância. Só que eles não têm essa percepção, seduzidos por essa estratégia perversa, pela qual a extrema direita conseguiu se aproveitar da alienação, do medo, da crença e da fé dessas pessoas.

Enquanto isso, os segmentos mais politizados se apegam a discursos identitários como bandeiras principais de suas lutas, se distanciam da compreensão de que a construção desse mundo se deu como base na expropriação dos sentimentos, e do desconhecimento da realidade. E que, os discursos preconceituosos, machistas e misóginos, representam, em realidade a conjunção de diversos fatores, que explicam como é, como surgiu e como foi se revelando em toda a sua perversão o sistema capitalista, trazendo marcas de um passado perverso, principalmente (como sempre) para as mulheres. E se é verdade que essas questões estão enraizadas numa construção de estruturas e instituições que mantém permanentemente um desequilíbrio social e uma sociedade etnicamente desigual em suas oportunidades e respeito aos diferentes, como acredito que seja, o fundamental é a compreensão de como isso se estruturou, como essa sociedade foi edificada, como esses valores se incorporaram nas mentes das pessoas, dentro de uma noção de abrangência de como tudo isso foi construído. Uma noção de totalidade, e um entendimento dialético das contradições que fundamentam, inclusive, esses comportamentos que as lutas identitárias combatem, com justeza e com justiça.

Mas, como se diz no ditado popular, que é necessário cortar o mal pela raiz, a luta nessas particularidades, descoladas de uma visão de totalidade e compreensão das origens dessas desigualdades, apresenta-se de forma incorreta, muito embora ser necessária. Ocorre que discurso e palavras de ordens, ditas sem o necessário processo educativo, de demonstração das raízes dessas perversidades, só alimentam as concepções reacionárias, que se protegem nos discursos hipócritas de falsos líderes e mitos desequilibrados, desviando as atenções para uma pretensa defesa de valores conservadores, reproduzidos de livros ditos sagrados e escritos há milênios.

Enfim, a defesa de valores conservadores, que inspiram a extrema-direita, bem como as lutas identitárias, que têm mobilizado setores mais à esquerda, se constituíram no embate mais visível desses tempos, denominada – com a minha contrariedade – de “guerra cultural”. Por paradoxo, mas não assim se nos aprofundamos no entendimento da composição e das mentes das pessoas que formam a nossa sociedade, esse caminho nos levou a um tempo em que vivemos o crescimento de uma extrema-direita raivosa e, por consequência de sua ascensão ao Poder até recentemente, a propagação e organização de ideias neonazistas, seduzindo parcela significativa da juventude.

Ao direcionar para o campo da “cultura”, o que é ideológico, a extrema-direita fez um movimento estratégico que emparedou a esquerda, e levou a essa polarização praticamente inédita dentro da realidade política brasileira em tempos democráticos. Como, pelo relato feito, o tempo é de informações fúteis, simplificadas, resumidas e, na maioria das vezes, falseadas, o caminho ficou pavimentado para que nosso país se visse às voltas de uma transformação radical na política, com duas décadas em um curto século em que transitamos da esquerda à extrema-direita, e de volta a uma esquerda escorada em segmentos da centro-direita e centro-esquerda, numa necessária composição para retirar o nosso país do limbo em que se encontrava.

 

A ESPERANÇA, NUMA REALIDADE TÓXICA

 

Não posso dizer, em minha compreensão, que as perspectivas são boas, mas não desejo me azedar em um pensamento pessimista, de que as coisas não irão melhorar. Para isso, sigo a máxima que sempre procuro repetir, do saudoso Ariano Suassuna: “O pessimista é um chato; o otimista um tolo. Melhor mesmo é ser um realista esperançoso”.

Mas, adepto da dialética como melhor metodologia para compreender o mundo real, tenho a percepção que estamos vivendo um período de transição, com dificuldade de entendermos para onde e qual tipo de sistemas podemos construir, na substituição do caquético e perverso capitalismo. Até sabe-se lá por quantas gerações, essa será uma transição lenta e marcada por muitas guerras, porque essa tem sido a alternativa para potências em crises: a economia de guerra, com a intensificação do comércio de armas cada vez mais sofisticadas. Os trabalhadores e trabalhadoras sofrerão com a redução de seus salários, como efeito do aumento de mão de obra disponível no mercado, como consequência do avanço de novas tecnologias, da robotização e da inteligência artificial. Portanto, será um mundo com fortes tensões e embates, que precisam ser direcionados para um enfrentamento de classes. É inadmissível que os mais pobres e as camadas médias baixas se coloquem em lados opostos, quando pela lógica sistêmicas são peças descartáveis pela burguesia e pelos novos ricos rentistas. Será assim no mundo... e será assim também no Brasil.

Então, na medida em que tomamos da extrema-direita o controle do Estado brasileiro, é mister que isso se mantenha pelo menos por mais uma década, ao tempo em que a prioridade deve ser trabalhar na conscientização de um enorme contingente de pessoas que foram seduzidas pela mentira, pelo medo e pelo ódio. Politizar essas pessoas pela qualificação de suas capacidades críticas de compreensão da realidade e pela necessidade de aglutinação em entidades, associações e sindicatos que lutam por seus direitos. Demonstrando que os representantes da extrema-direita, por seus atos óbvios, representam aquela camada social dominante que os exploram e se enriquecem mesmo em meio às piores crises.

A esquerda não deve disputar entre si esse processo com o afã de recrutar pessoas somente dentro de suas visões dogmáticas do mundo. É preciso amplitude, organicidade e unificação de setores que carregam um mesmo objetivo, a construção de uma sociedade em que se possa viver pelo bem comum, na consolidação de um estado de bem-estar social, no caminho do socialismo, evitando-se repetir os erros que o capitalismo e a burguesia prometeram corrigir, quando hipocritamente levantaram-se a bandeira de “igualdade, fraternidade e liberdade”. O que se viu foi a construção de um mundo em que os muros se multiplicaram, onde 1% controla mais da metade da riqueza mundial.

Sejamos “realistas esperançosos”, mas jamais defensores de sociedades fraturadas e de governos autoritários. Lutemos pela verdadeira democracia, não somente focada no direito de votar, mas onde a riqueza construída pelo trabalho possa ser distribuída de acordo com as necessidades de cada família, daqueles trabalhadores e trabalhadoras que efetivamente constroem o que se convencionou chamar de Produto Interno Bruto. Defendamos a democracia do PIB, e dessa forma estaremos pavimentando nosso caminho para um futuro razoável e mais solidário, que bote um fim à pobreza e a miséria. Alguns dirão que isso é utopia, mas recordo a fala de Eduardo Galeano, que sempre lembrava de uma frase que ele diz ter visto em um muro, de que a utopia é um ponto distante, e quanto mais nos direcionamos em direção a ele, mas ele se distancia. Concluindo, por isso, que a utopia nos serve para que não paremos de caminhar. Em direção àquele ponto distante que imaginamos como sendo uma sociedade mais humana, sensível, empática, e baseada na comum união.



[2] Yves Lacoste – A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

DEPOIS DA TEMPESTADE... O temor dos trovões ignora que os raios já fizeram os estragos

Escrevi esse artigo depois do primeiro turno das eleições de 2022. Reitero aqui o que disse, e insisto que não há uma estratégia da esquerda para conter esse viés conservador e fascista que se impõe em nosso país. Com o quadro eleitoral dessas eleições municipais, podemos afirmar que a reeleição do presidente Lula em 2026 está sob forte ameaça. A menos que a esquerda mude o rumo, reforce a organização entre os trabalhadores, nas periferias das cidades (dominada pelo neopentecostalismo) e, principalmente, entre a juventude. Ao mesmo tempo que retorne à critíca visceral sobre as desigualdades sociais geradas e mantidas pelo capitalismo, e procure estabelecer uma estratégia que leve em conta a totalidade do funcionamento de nossa realidade, procurando fugir de bolhas que somente isolam a esquerda e compreendendo o conservadorismo que impera na sociedade a partir, principalmente, de uma base religiosa reacionária. Se não fizermos isso, estaremos sujeitos à mesma punição imposta à Sísifo, condenado pelos deuses, segundo a mitologia grega, por não cumprir o prometido. (Outubro de 2024)


Nas primeiras horas da segunda-feira pós-eleitoral, em que alguns festejam em meio aos escombros de uma tempestade conservadora, reacionária, refleti comigo mesmo, no afã de tentar convencer os que lerem ou ouvirem o que tenho aqui a dizer, que nem sempre a experiência de anos de militância consegue acompanhar com serenidade e coerência as mudanças conjunturais da sociedade.

Eu me consumo aqui em meio a uma ressaca, ou como se eu tivesse sido massacrado em uma luta de MMA e ganhado por pontos o primeiro round. Isso para mim reflete o resultado eleitoral desse Brasil profundo, de mentalidades arcaicas, dominadas por sicofantas, farsantes, falsários e pilantras. Mentalidades que se apegam a uma espiritualidade canhestra, de comportamentos desajustados do ponto de vista da ética e do respeito humano, mas que se apegam aos discursos moralistas hipócritas de fariseus acanalhados, pérfidos sugadores de massa cerebral, de gente frágil, alienada, ressentida por uma realidade da qual não compreende em sua dinâmica e se apega ao discurso que lhe amedronta do púlpito ensandecido, pela viralidade de pregações que apostam no medo, na alienação e no desespero.

Mas do lado em que eu sempre me postei, temos feito o certo? Adotado estratégias que, ao longo dos últimos anos, tentem entender o que se passa pela cabeça de cada um desses indivíduos que se juntam e compõem o que conhecemos como sociedade brasileira? Ou será que nas últimas décadas não nos afastamos da realidade e nos metemos em bolhas, de onde falamos e gritamos para nós mesmos, sem que isso ecoe pelos cantos por onde a hipocrisia campeia e da forma como sempre consolidou comportamentos dantescos, violentos, misóginos, machistas e oportunistas?

Não quero parecer arrogante, como se possuísse o dom da verdade e que minhas palavras fossem as únicas a iluminar essas trevas que nos cercam. Reconheço minha pequenez nesse ambiente de disseminação de “verdades incontestáveis” espalhadas celeremente pelas redes sociais, com milhões de visualizações. Aqui, sei que falo e me comunico com algumas dezenas, de amigos e amigas que comungam das minhas ideias, mas nem sempre me dão o crédito necessário a ponto de dividir essas opiniões com muitas outras pessoas. Percebo que os que me leem, refletem, às vezes concordam, mas deixam de lado palavras que não se escoram em princípios de autoridades. Algo que se tornou muito comum entre as pessoas mais esclarecidas. É preciso citar expressões e falas de eminências intelectuais para ser ouvido e acreditado.

Me permiti ao longo deste ano refluir em meu ímpeto de produzir artigos para o meu blog e meu canal no YouTube. Percebi que o alcance era muito restrito e o conteúdo estava repetitivo, porque, com perdão da arrogância, em minhas análises eu já havia apontado o diagnóstico daquilo que nos carcomia enquanto sociedade, e como os cérebros humanos se deterioravam.

Por isso, quero me expressar relembrando o que já estava escrito em um desses textos, e pelo que se poderá ver, a quem tiver paciência de chegar ao final, que nada do que estamos passando é surpreendente, porque já estava em curso há anos, em um processo de transformação de uma realidade social que invertia o caminho que pensávamos estar em fase de construção, por um viés progressista. Nos enganamos. Nos fechamos em bolhas, falando para nós mesmos, com discursos virulentos identitários, como se isso fosse suficiente para o convencimento de mentes conservadoras e reacionárias. Despertamos com força o ódio, e vimos ser naturalizada uma violência que é parte de uma estrutura que compõe, com as fissuras que se ampliam, um sistema putrefato, carcomido, mas que no auge de sua crise torna mais perverso e insuportável suas contradições.

Deixamos de procurar entender os mecanismos de funcionamento desse sistema, e o embate que existe nele por meio da luta de classe, e nos prendemos a lutas corporativas, setorizadas, invertendo qualquer lógica de compreensão revolucionária e transformadora, que nos aponta a necessidade de travar uma luta que aglutine todos os setores, ao invés de segmentá-los. Caímos na armadilha da globalização, por onde a segmentação e a separação se constituiu num elemento forte para a consolidação da lógica individualista que se espalhou pelo mundo desde o final do século passado. Abrimos, assim, o caminho para a ação de missionários, comerciantes da fé, que se espalharam pelos rincões perdidos desse país, e pelas periferias abandonadas, e constituíram formas de organização que estavam na origem de nossas organizações revolucionárias: as células.

O ressentimento, a revolta, o medo, a sensação de abandono, a pobreza crescente, tudo isso, jogou multidões nas garras desses oportunistas, e prenderam as pessoas num ambiente de controle moral e de costumes arcaicos. Retrocedemos séculos e vimos ser transportados para o mundo atual os valores de uma idade média e de uma antiguidade onde deuses e demônios disputavam as mentes frágeis de pessoas ignorantes e desconhecedoras da realidade. Onde se encontravam esses valores? Onde sempre estiveram, em ditos "livros sagrados", cientificamente incomprováveis, historicamente falseados e absurdamente citados anacronicamente.

A planitude do mundo se apresentou em toda a sua plenitude, repleto de estupidez, ignorância e de visões fantasmagóricas e estapafúrdias. Como no filme “A Vila”, vivemos em uma realidade construída, falseada, dominada pelo medo e pelo temor de sermos punidos por entidades vingativas que nos controlam: "Aquelas de Quem Não Falamos". Por isso me inspirei no livro “O mundo assombrado pelos demônios”, de Carl Sagan, para escrever um dos meus últimos artigos, que passo em seguida a me referir, espero que não parem por aqui, e observem o que publiquei em meu blog em maio de 2021...


(*)  CENÁRIOS SOMBRIOS E UM MUNDO SEM RUMO – BIOPODER, FASCISMO E HIGIENISMO (Artigo publicado no Blog Gramática do Mundo. Link de acesso: https://gramaticadomundo.blogspot.com/2021/05/cenarios-sombrios-e-um-mundo-sem-rumo.html

(**) Veja também pelo Canal Romucapessoa, no YouTube: https://youtu.be/Iazk6TiaCHI


sexta-feira, 24 de junho de 2022

ADUFG SINDICATO – MUDAMOS O JEITO DE CAMINHAR

Estamos em reta final do processo eleitoral para escolha da nova diretoria da ADUFG-Sindicato. Isso acontece em meio a uma situação caótica, do ponto de vista da nossa realidade nacional, e nas questões relacionadas à nossa área de atividade. Nunca a educação foi tão vilipendiada como no governo atual, e se tivemos tempos sombrios durante os últimos anos do governo Fernando Henrique Cardoso, este momento agora supera aquele, porque os cortes dos recursos para as universidades, bem como para as pesquisas, e as ciências de uma maneira geral, chegaram a níveis exorbitantes, nos colocando no fundo do poço.

Estamos lidando com um governo negacionista, anti-ciência, que deseja destruir a universidade com o seu sentido laico, democrático e autônomo. Sufocá-la economicamente e destruir o pouco que existe de autonomia é outro objetivo, quando se recusa a nomear reitores e reitoras eleitos pela comunidade universitária.

Entendemos que existem formas de lutas diferentes, de acordo com cada momento. Na atual circunstância compreendemos que precisamos unir forças para derrotar esse governo no processo eleitoral em curso. Embora saibamos que o seu caráter anti-democrático e autoritário nos impõe também a necessidade de estarmos atentos para golpes contra o processo eleitoral, como aconteceu nos Estados Unidos. O ataque às urnas eletrônicas e as suspeitas infundadas e sem provas ao sistema eleitoral é um sinal dado de que a estupidez pode querer se impor, visto que as pesquisas dão a indicação que a maior parte da população rejeita um novo mandato desse indivíduo que é o comandante em chefe da tropa destruidora das universidades brasileiras e das próprias condições socioeconômicas do nosso país.

Portanto montamos uma chapa para concorrer às eleições da Adufg com o perfil de combatividade e compreendendo que nossa luta se dará em dois momentos. Relatei o primeiro, derrotar esse governo. Num segundo momento, na perspectiva de um governo que não tenha o viés autoritário deste, precisaremos unir força, combatividade e capacidade de diálogo. A racionalidade se torna um elemento forte, num momento que será de reconstrução do estado brasileiro, carcomido pelos cupins que dele se apoderaram.

Será fundamental no próximo governo que aliemos essas duas características combatividade e capacidade de negociação. Mas seja qual for o governo eleito, nosso limite de paciência está estourado. Portanto, queremos um sindicato que saiba negociar, mas que na hora precisa chamará os colegas professores e professoras para uma luta maior, mais renhida e radical. Esperamos não chegar a isso, porque as greves nas universidades representam também muitos transtornos para nossos trabalhos cotidianos. Por isso o diálogo e a negociação se fazem absolutamente necessários.

E é o que temos feito. Por essa razão construímos um caminho diferente daquele tradicional, onde as vozes iniciais sempre se davam no sentido de estimular as paralisações com pautas longas em que não havia espaço para diálogo, era oito ou oitenta. Isso nos levou a anos sem conquistas consideráveis.

Foi a criação de uma Federação, e a transformação de várias sessões sindicais em sindicatos autônomos, que possibilitou que quebrássemos com esse comportamento sectário, aparentemente combativo, mas cuja radicalidade impedia que avançássemos em discussões que poderiam resolver nossas pendências.

Assim reconstruímos nossa carreira. Foi essa capacidade de articulação e negociação que possibilitou reformar nossa carreira, com dois saltos importantes, a passagem de adjunto para associado; e de podermos atingir a condição de titular. Antes, chegar a titular só era possível por meio de um concurso quando abria vaga. Hoje qualquer colega pode chegar a essa condição pelo tempo de trabalho na universidade, seguindo-se a critérios que apontem sua história, analisem o seu desempenho e sua produtividade, seja com um memorial ou com uma tese. Esses avanços foram possíveis mediante uma mudança forte, com a criação da Federação Proifes, com nossa transformação em sindicato e iniciativa de buscarmos negociações, sem bloquear nenhum espaço de diálogo. E é assim que imaginamos que será na retomada de um novo governo com perfil democrático.

Por tudo isso, é preciso eleger uma diretoria da Adufg Sindicato que mantenha nossa entidade nessa direção, com autonomia, protegendo nosso patrimônio, compreendendo o caráter diverso e as várias concepções que existem dentro da universidade, e, acima de tudo, com capacidade de diálogo e determinação para lutar. Sim, isso é tudo que a Adufg tem feito nessas últimas décadas. E com sucesso.

Ora, por que rechaçamos o falso discurso de mudança que propõe a oposição? Porque em primeiro lugar ele é superficial, visa confundir e tenta desconstruir todo o trabalho feito até aqui. Essa prática é corriqueira em discursos de oposição. Mas nos últimos anos, o que vimos nesse país com esse discurso de “renovação”, de “mudança”, feito de forma abstrata, negando as conquistas e tentando impor rótulos, foi uma destruição do que se tinha construído e o caos nas relações políticas e sociais, bem como o desmonte de uma estrutura de estado que ainda estava se consolidando.

Mudança se faz mesclando a experiência adquirida pelo tempo, com a renovação, possibilitando o acesso ao movimento de novas pessoas, dispostas a seguir naquele caminho que se demonstra correto. É assim que a CHAPA 1 se apresenta, com uma composição que tem metade de seus membros com alguma passagem pelo sindicato, e outra metade que nunca estiveram em alguma diretoria. Ao mesmo tempo, a diversidade de gênero, com a participação de seis professores e seis professoras. E o que nos une, fortalecer a Adufg Sindicato e ir à luta, sem trégua, em defesa da universidade e dos nossos direitos.

Lembro uma parte de um poema de Thiago de Mello, em que ele diz: “Não tenho um caminho novo. O que eu tenho de novo é o jeito de caminhar”. E foi exatamente isso o que fizemos há duas décadas, mudamos nosso jeito de caminhar. Que resultou vitorioso em importantes conquistas para nós. Agora, seguimos em frente, com muita luta, para recuperarmos nossas perdas salariais e defender nosso espaço de trabalho, que também é um patrimônio de nossa sociedade, do estado brasileiro: a universidade pública e gratuita.

Por isso, não se esqueça, não podemos ver nosso sindicato ser mais uma vez transformado em uma seção de um sindicato nacional. Nem muito menos cair no radicalismo sectário que impede negociações e conquistas importantes.

Para isso vote... CHAPA 1 – ADUFG PRA FRENTE, DEMOCRÁTICA E DE LUTA!!!

ELEIÇÕES DIAS 28 E 29 DE JUNHO


quinta-feira, 2 de junho de 2022

UM GRITO DE ALERTA: ESTÃO MATANDO AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS FEDERAIS BRASILEIRAS

"As Universidades não podem parar. Para que possamos parar os ataques daqueles que desejam destruir as Instituições Federais de Ensino, públicas e gratuitas".

As universidades públicas, de enorme importância estratégica para o nosso país e os estados brasileiros, assim como os Institutos Técnicos e Tecnológicos, sempre viveram numa batalha constante contra propostas perversas seja de cobranças de mensalidades, ou tentativas de enfraquecer suas estruturas. Desde aquelas políticas de viés neoliberais, que nos atormentam há décadas e são implementadas, ora abertamente, ora de forma sutil, com reformas que nos afetam e retiram direitos conquistados.

Mas nunca tivemos sob um ataque tão perverso quanto o que nos têm dirigido esse atual governo. Numa cruzada do que tem sido chamado de “guerra cultural”, que atinge principalmente a área de humanidades, como também com o negacionismo, e um horror anticientífico que causa enormes danos à toda sociedade e impacta diretamente na vida dos brasileiros e brasileiras. E o estrangulamento financeiro, que atinge as instituições como um todo.

Como sempre, e em reação a esse comportamento visceral perverso, de um governo medíocre e que aposta no anticientificismo, no negacionismo e na ignorância, essas instituições de ensino superior, públicas e gratuitas, se veem diante de propostas que saem das catacumbas, porque redivivem quando os setores conservadores se fortalecem. Mais uma vez volta à tona discussões sobre, por exemplo, o pagamento de mensalidades, em propostas abertas e absurdas, como aquelas que aparecem maquiadas de “justiça social”, seja à direita, ou a quem se apresenta pretensamente como de esquerda.

Afora isso, que ouvimos falar desde décadas e décadas de histórias de nossas lutas contra as destruições de nossa instituições superiores de ensino e pesquisa, temos também a nos incomodar e consumir o impacto de anos de ausência de reposição salarial, numa defasagem absurda em nossos pagamentos pelo trabalho árduo que desenvolvemos e de importância estratégica para o país.

Com uma inflação galopante, e na casa de dois décimos, uma carestia que só tem paralelo com as crises econômicas do século passado, vemos gradualmente, e ano a ano, nosso poder de compras ser reduzido dramaticamente. Situação que afeta de maneira mais perversa os colegas professores e professoras aposentados. Isso depois de reformas feitas que impactaram nossos destinos, como tem sido as reformas previdenciárias.

Enfim, temos uma caçamba de motivos para nos revoltarmos e nos insurgirmos com todas nossas forças contra esse governo e suas políticas destruidoras das universidades, institutos federais, e de toda a educação pública, como se vê pelos cortes em fundos setoriais da educação, imprescindíveis para a destinação de recursos para estados e municípios.

O que fazer, então, diante dessa agonia que nos atormenta e de propostas que nos ameaçam enquanto instituições sólidas e forjadas para objetivos firmados no tripé: ensino, pesquisa e extensão? De natureza pública, gratuita e de qualidade? E, principalmente quando vemos ameaças sobre nossas carreiras e o definhamento de nossos ganhos salariais, vistos com absoluto desdém nas políticas voltadas para nossa área pelo governo Bolsonaro. A destruição das Instituições Federais de Ensino é um projeto deste governo que nos atormenta, não governa e tem por prática a destruição das instituições que mais servem à sociedade, principalmente aos segmentos mais fragilizados. Os ataques às políticas de cotas, às comunidades tradicionais, ao conhecimento científico que por meio dessas instituições promovem pesquisas essenciais para o desenvolvimento econômico e social de nosso país, é mais do que uma comprovação disso que estou falando e daquilo que estamos vivenciando.

Nos resta gritar! Mais do que gritar, é preciso reagir. Mas reagir de forma que não travemos nenhuma “Batalha de Pirro”, e que nossa luta não nos enfraqueça enquanto instituição, mas que nos fortaleça internamente, mostre para a sociedade nossa importância e aponte a necessidade de fazermos uma real oposição à um governo anti-educação, anti-ciência e absolutamente insensível aos problemas sociais.

Infelizmente temos um problema crônico em nossa categoria, a dificuldade de mobilização. De certa forma é compreensível, porque nosso tempo é completamente preenchido por atividades que somos obrigados a desenvolver, cada vez em quantidade maior, pelas imposições do sistema que são garantidores não só de nossas progressões, mas até mesmo da destinação dos recursos para as nossas unidades. Não à toa, somos submetidos a doenças causadas por estresses profundos, decorrentes de acúmulos de atividades e de pressões sobre nós, feitas de diversas maneiras. Até mesmo pela essência de nossas formações, que terminam nos opondo em diversas questões, criando ambientes tóxicos e adversos para nossas convivências.

 Termina ficando sob a responsabilidade de nossas entidades, e daqueles que as dirigem, a condução desse processo, que nos fortalece pouco, pela falta de pessoas suficientes para demonstrar nossa força. Nesse compasso, em termos de UFG, temos procurado fortalecer nossa entidade, dando-lhe robustez e ampliando os caminhos pelos quais nossos colegas podem recorrer para o atendimento ou acompanhamento de suas reivindicações. A ADUFG não parou, mesmo em meio à pandemia, se mostrando assertiva e combativa em diversos momentos.

Mas é preciso muito mais do que isso. É necessário uma participação mais efetiva, que possa a vir ser elaborada estrategicamente por meio do Conselho de Representantes, com a disposição em cada unidade de colegas que se revezem a cada semana no atendimento aos chamamentos da entidade para estaremos presentes em atividades, principalmente em Brasília.

Por fim aparece a possibilidade de greve, que se espalhe e se desenvolva no âmbito nacional, como forma definitiva de pressão sobre o governo. Esse caminho tem sido muito desgastante para nós. Primeiro porque paralisa a universidade (em termos, porque a paralisação sempre se restringe à graduação) e isso acaba por concretizar um desejo desse governo de ver nossos espaços esvaziados; segundo porque diante de um governo que nitidamente declarou uma guerra cultural às universidades não teríamos nenhum canal de interlocução; e terceiro porque esse governo está pouco se lixando para se estamos em greve ou não, porque não há sensibilidade com nossas reivindicações, e usará a nossa paralisação para nos desgastar perante  a sociedade.

Em função disso o que nos cabe é manter mobilizações permanentes, ocuparmos os espaços midiáticos com textos e artigos que apontem para os desmandos desse governo na área de educação e os riscos para o país com o enfraquecimento dessas instituições e da redução de recursos para seu funcionamento e para a ciência em geral. E fortalecer nossa estrutura organizacional, com mais protagonismo do Conselho de Representantes, e por meio dele uma maior ligação com as unidades, podendo por aí traçar uma estratégia que garanta a presença, sempre, de colegas de todas as unidades, em um revezamento permanente, como numa guerra de movimento, ou numa guerra de guerrilhas, por meio de fustigamentos e ações diárias que desgastem o governo e nos dê visibilidade perante a sociedade.

Ou seja, digo de maneira direta e objetiva: a greve não nos ajuda, nos desgasta e enfraquece a universidade perante a sociedade. Embora este seja um mecanismo de luta que jamais podemos descartar. A qualquer momento, no limite, e sabedores de que há possibilidades de pressão e interlocução no governo, principalmente que contemos com o apoio da sociedade, o movimento grevista se torna, sim, uma opção de luta construída para nos garantir vitória e não para tornar nossa derrota mais dolorosa. Porque se sabe como se entra numa greve, mas não sabemos nem como, nem quando sairemos dela. Saber como sair é crucial a partir de nossa estratégia e do resultado de nossa luta e de nossa força, saber quando sair depende da questão anterior, e é absolutamente indefinido. Até porque muitas vezes terminamos por nesses momentos finais vivermos entremeados com querelas políticas internas ao movimento, que só nos atrapalham. Falo isso especificamente em relação ao movimento docente, visto que os técnicos administrativos travam também outra luta renhida, com mais perdas, inclusive, do que a nossa, e possuem atividades e estratégias diferentes.

Uma coisa, no entanto, é certa: se aquietar não pode fazer parte de nossos planos. Lutar, e demonstrar a importância que temos, e a necessidade de valorização do nosso trabalho, de nossas competências e das instituições superior de ensino, é o que deve nos unir e o que nos resta fazer.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

CENTENÁRIO DO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL – FLORESCE A ESPERANÇA!

Em cem anos de existência deste que é o mais antigo partido do Brasil, e um dos mais antigos do mundo, vivi, até aqui, 42 anos na militância, na luta, na defesa do socialismo e de uma sociedade mais justa, menos desigual e mais igualitária. Claro que em algumas circunstâncias, e em alguns de nós, o ímpeto se reduz, afinal, já não carregamos mais a força da juventude. Mas jamais perdemos a vontade de permanecer lutando por aquilo que consideramos a sociedade ideal e verdadeiramente democrática. Na comemoração deste centenário, que se deu em grandes atos no Rio de Janeiro e por todos os estados brasileiros, aqui em Goiás alguns de nós, militantes, fomos homenageados. Poderiam ser mais, muito mais. O que nos honra estar entre os escolhidos. 

Denise Carvalho, em ato na Praça Universitária
no começo dos anos 1980, à frente da Juventude
Viração, que depois viria a ser a UJS.

Na sessão de homenagens fomos representados por uma grande liderança, com quem tive o prazer de lutar lado a lado em um dos momentos mais radiantes do movimento estudantil goiano na década de 1980. Ao ouvir o discurso de Denise Carvalho, que em outros tempos se destacou como presidente do DCE-UFG, da UEE-GO, como vereadora, deputada estadual e secretária de ciência e tecnologia, e se mantém coerente em suas escolhas e na defesa de seus ideais, não tive dúvidas de que deveria publicá-lo neste blog, espaço que quase sempre compartilho meus textos, alguns intimistas, outros políticos e geopolíticos. Mas o discurso elaborado e lido por Denise, expõe com brilhantismo e competência tudo aquilo pelo qual escolhemos ser e a correção daquilo que escolhemos defender.

Por essa razão segue abaixo uma memória precisa, histórica, política e relevante desses tempos em que, entre altos e baixos, jamais paramos de lutar e desejar transformar esse mundo e o nosso país. A luta continua!

 

PRONUNCIAMENTO À SESSÃO ESPECIAL EM HOMENAGEM AOS 100 ANOS DO PCdoB

Por: Denise Aparecida Carvalho

Sala das sessões: Assembleia Legislativa de Goiás

 

Denise Carvalho, em pronunciamento durante
homenagem aos 100 anos do PCdoB

Coube-me a grandiosa e difícil tarefa de falar em nome dos homenageados e homenageadas nesta solenidade histórica. Sempre esperei conseguir viver esta comemoração, mas nunca imaginei que aqui chegaria nas atuais circunstâncias: 1º. que as condições do país seriam tão desafiadoras, pautadas pelo medo e ódio, pelo neofascismo, pela ferocidade do imperialismo rentista, pelo profundo obscurantismo, pela consolidação do capitalismo de vigilância e outras mazelas mais; 2º. que seria chamada a representar pessoas tão diversas e também tão relevantes à sociedade goiana e às lutas libertárias de nosso povo. Peço de antemão que me perdoem se meu tom for excessivamente pessoal e não suficientemente analítico. Trilhando há 16 anos os caminhos da Cultura de Paz e há 4 anos nos passos do Colégio Internacional de Terapeutas, assumi também um outro olhar que entendo ser complementar ao que desenvolvi nos muitos anos de minha imersão nos sentidos e práticas do PCdoB. Aprendi neste novo caminho que as palavras que unem dialeticamente o analítico e o sintético, ao serem ditas na inteireza e falarem sobre nossa própria experiência, talvez possam reverberar em outros corações. Assim espero que o façam.

Minha opção pelo PCdoB veio com a descoberta do lema da sociedade sem classes que os comunistas almejam que diz assim: “DE cada um segundo sua CAPACIDADE e A cada um segundo a sua NECESSIDADE”. Que coisa maravilhosa! Entendi logo a sintonia disso com minha formação cristã e pensava: “que incrível um mundo abundante e justo assim, onde todos têm acesso a tudo e ninguém quer ter mais que o outro!” E o melhor: seria possível construí-lo aqui mesmo na Terra! Para chegar lá haveríamos de percorrer um longo caminho, cumprindo uma transição chamada Socialismo, onde o Trabalho seria o fator primordial para a justa distribuição das riquezas. Mas lá na frente, o que almejávamos, era a sociedade sem classes, de equidade, harmonia e solidariedade. Eu pensava muito sobre o comunismo e como seria necessário cultivarmos DESDE JÁ este novo Ser Humano, liberto das ideias tóxicas da sociedade capitalista e patriarcal, capaz de criar e viver em uma sociedade livre da opressão. Certamente não conseguiríamos nós mesmos alcançá-la, mas o importante era o novo sentido que estas ideias ofereciam à existência humana. A palavra “camarada”, para mim, era uma expressão carregada de significados e ungida neste espírito mais elevado. Era como dizer “reconheço em você um irmão, uma irmã de propósito”, referência a uma fraternidade mundial, guiada por um sonho comum realizável.   

Também agíamos muito diante dos desafios concretos cotidianos. Logo as lutas estudantis me envolveram, a luta democrática tomou as ruas e, nesta toada, acabei me tornando liderança popular e a representante dos comunistas no parlamento por 14 anos, 12 deles aqui nesta casa. Cheguei aqui como a primeira deputada estadual comunista, 43 anos depois de Abrão Isaac Neto ter tido o mandato cassado em 1948 pela ditadura Vargas.

Mas pulei demais no tempo... vamos voltar lá aos anos 80 em um episódio vivido no aniversário de 60 anos do Partido. No 25 de março de 1982, passamos o dia todo pendurando bandeiras, vendendo a Tribuna Operária pelas ruas do centro da cidade e fugindo da polícia pois o Partido era ilegal. Aos 19 anos de idade, com um barrigão de 9 meses de gestação, cheguei em casa por volta das 10h da noite e às 11h já estava no hospital em trabalho de parto. O Fred nasceu pouco depois das 10 da manhã do dia 26. 

1982, véspera da eleição do DCE-UFG

Antes de terminar o resguardo veio o convite do Partido para que eu participasse de um “ativo” de mulheres em SP e lá fui eu, com o bebê de 23 dias nos braços, animadíssima para conhecer o maior comunista do Brasil: João Amazonas! Gente, eu nunca tinha conhecido alguém que com tão poucas palavras e tanta inteligência era capaz de pontuar questões complexas e ao mesmo tempo se expressar com tanta convicção e gentileza. Ele afirmava que a “questão da mulher” era essencial aos comunistas, que não era um assunto a ser tratado apenas no socialismo, mas desde já pela sociedade e pelo Partido. Entre os dias 25 de março e 20 de abril de 1982 vivi uma das mais ricas experiências de minha existência como comunista, mãe e feminista!

Sinto muita falta de João Amazonas. Com sua voz pausada e firme, sabia colocar limites ao mesmo tempo em que acolhia e ensinava com grande humildade. Foi um visionário! Em 1989, Lula dizia que quando tinha apenas 3% das intenções de voto, só duas pessoas acreditavam em sua vitória: ele e João Amazonas. No início dos anos 90, eu propus conceder-lhe o título de cidadão goiano por esta casa e ele relutou muito em aceitá-lo. Detestava manifestações de elogio à sua pessoa, que achava deseducativas, vaidosas.

Com muito custo consegui convencê-lo de que seria importante para o Partido e prometi que os elogios seriam todos ao coletivo e nunca à sua pessoa. De fato, aquela sessão ajudou bastante a enfrentarmos o massacre ideológico que sofríamos com o fim da URSS. De 1989 a 1992 vivemos anos de intenso bombardeio anticomunista por todo o planeta e muitos partidos se apressaram em mudar seus nomes e símbolos no esforço para sobreviverem à avalanche midiática. Parecia que os sonhos de uma nova sociedade ruíam com o muro de Berlim e que a esperança jamais brotaria novamente naquele solo devastado.

Denise e novas lideranças do PCdoB
e da UJS

O imperialismo decretava-se eterno e o mundo engolia o engodo, mas nós não! Como uma pequena comunidade viva em meio a um país continental, ergueu-se o corajoso PCdoB dizendo em alto e bom tom: “o Tempo não para, o Socialismo vive!” Que orgulho desta brava resistência! Sem ferramentas para fazer frente à mídia hegemônica, em uma época em que não existiam as redes sociais, debatíamos o tempo todo e como podíamos, nas tribunas parlamentares, em nossos jornais, com megafones nas ruas, nas salas de aulas, nas feiras livres e até dentro dos ônibus. Nas campanhas um bom tempo das reuniões populares era usado pra explicarmos o nome do partido. 

O que inicialmente era um desafio, por fim ajudava a elevar o nível de consciência política do povo. O PCdoB emergia assim como força pensante e desenvolvedora do marxismo. Seus intelectuais orgânicos em sua Revista Teórica, a “Princípios”, mostraram-se capazes de explicar com rigor científico as causas daquele fenômeno mundial, as insuficiências das primeiras experiências socialistas e de apontar alguns caminhos para a não repetição dos erros.

Romualdo Pessoa e Celma Grace
e a homenagem recebida

Hoje, 30 anos após o fim da Guerra Fria aqui estamos nós, vivendo intensamente a mesma encruzilhada: OU o socialismo OU a barbárie. Só que agora esta última é menos hipotética e já sentimos seu hálito podre em nossas nucas e seus coturnos sujos a chutar as nossas portas. No cristianismo este monstro tem outro nome e é anunciado, com muito simbolismo no Apocalipse de João, através dos Quatro Cavaleiros portadores da Guerra, da Peste, da Fome e da Mortandade desenfreada.

O que vivemos hoje? Será este o triste fim da existência humana na Terra? Ainda há caminho para nossa salvação? Os comunistas não se rendem ao fatalismo e buscam saídas pela ciência, pela economia política, pela ética, pelas artes, pelo diálogo com sabedorias ancestrais e continuam acreditando que sim, a humanidade pode encontrar novos caminhos.

Vi na semana passada na TV a notícia de que mais de 80% dos brasileiros vivem para pagar dívidas com os bancos e lembrei-me do Ladislau Dowbor a ensinar no Instituto Paulo Freire sobre a “Pedagogia da Economia: a Era do Capital Improdutivo” e como estamos destruindo o planeta para favorecer uma extrema minoria. É insano!

Mas afinal, Que Fazer? Hoje a urgência é conter a extrema direita com seu programa ultraliberal, sua sanha autoritária e obscurantista, sua escalada de violência, para podermos fazer avançar a democracia política e econômica. Desde a retomada dos direitos políticos de Lula em abril do ano passado renovou-se em nosso povo esta Esperança. Temos força potencial para vencer a grande batalha eleitoral deste ano, mas ela ainda não está ganha. A amplitude das alianças não é empecilho para as mudanças profundas que a reconstrução do país requer, ao contrário, é necessária.

Ato pela legalidade do PCdoB. Na foto
João Amazonas, José Duarte, Elza Monerat,
Haroldo Lima e Aldo Arantes (1985)

Novamente ouço João Amazonas nos ensinando sobre a relação dialética entre Radicalidade e Amplitude: “AMPLIAR RADICALIZANDO E RADICALIZAR AMPLIANDO”, ele dizia. Perfeito! Mas não nos iludamos, ganhar a eleição é só um passo. O trabalho de reconstrução nacional será árduo e conflituoso, exigirá muita força, clareza, paciência e perspicácia. Nada parecido com um mar de rosas. O desmonte foi grande e rápido, a consciência democrática está bastante fragilizada, as instituições muito distorcidas e a perversidade à solta por todos os cantos do país. Se nos anos 80 o espírito da democracia estava em alta e o desafio era a remoção do entulho autoritário, hoje a necropolítica é forte e fomenta um entulho ainda mais tóxico, entranhado em nossas águas, nossas matas, nosso solo e em boa parte da sociedade. O estrago estrutural promovido por estes vendilhões da pátria é enorme e vai dar um trabalhão libertar o nosso povo de tantas sombras. 

Mas sei que coragem e determinação não nos faltam. Lula resistiu por quase dois anos nas masmorras de Curitiba e nos deu exemplo. Dilma resistiu a um golpe cruel e misógino e nos deu exemplo. Os acampados de Curitiba nos deram exemplo, as Margaridas em marcha nos dão exemplo, o MST que semeia novas formas de viver nos dá exemplo, a comunidade universitária que não se rende nos dá exemplo, as comunidades tradicionais nos dão exemplo de sabedoria, as comunidades urbanas organizadas nos dão exemplo de solidariedade, milhões de artistas por todo país nos dão seus exemplos e talentos... e nosso povo vai aos poucos se levantando e mostrando seu lado sadio, o lado daqueles que acreditam na vida, no bem e no belo.

O PCdoB apresenta um lema neste centenário: FLORESCE A ESPERANÇA. Gostei muito, ainda mais por sua sincronicidade com o tema do Calendário “Mandalas da Esperança” que fizemos para 2022. Neste, propomos “semear” a esperança este ano. Os comunistas vão adiante e já a veem florescer. Creio que aqui o movimento comunista, apoiado na rica história de seu primeiro século no Brasil, já projeta para o próximo o PCdoB+100. E para isso precisaremos de muita paciência, Paz e Ciência, a “ciência da paz”, que tem seus próprios métodos. Também precisamos estar “cientes da paz” que já possuímos, para que ela possa florescer. Uma sociedade desenvolvida não é aquela que produz de forma predatória muitas riquezas, mas sim aquela que as distribui com justiça, cuidando de sua gente e de seu equilíbrio ambiental. 

Agradeço mais uma vez a honra de poder deixar aqui este depoimento e estas impressões sobre tantas coisas e agradeço ainda mais pela escuta de vocês. É um forte sinal de nosso amadurecimento. O momento é de muito desapego e de colocar-nos a serviço de coisas bem maiores que nossa própria existência.

Encerro com um trecho do Poema Invictus de William Henley, que muito inspirava Mandela e desejo que também nos inspire. Ele diz assim:

 

“Por ser estreita a fenda, eu não declino

Nem por pesada a mão que o mundo espalma,

Eu sou o senhor do meu destino,

Eu sou o capitão de minha alma”

 

Boa caminhada, camaradas!

Vida longa ao Partido Comunista do Brasil!

Goiânia, 04 de abril de 2022.