domingo, 8 de novembro de 2020

O QUE MUDA COM A ELEIÇÃO DE BIDEN E A VOLTA DOS DEMOCRATAS AO PODER NOS EUA – AS LIÇÕES QUE PRECISAMOS APRENDER

Como boa parte do mundo, eu também estava atento e acompanhando o processo eleitoral dos EUA. Mas diferente da maioria, toda essa confusão em torno desse formato de escolha do Presidente dos EUA não é para mim, nenhuma novidade. Embora, como tantos, eu também não conheça detalhes do que determina cada Estado internamente, já que cada um deles possui autonomia para definir os critérios eleitorais, assim como também outras definições políticas. Algo que acompanha os EUA desde a sua fundação. Ou seja, em muitas situações os estados possuem autonomia para definirem políticas, independentemente de ser questões que venham a se contrapor a regras nacionais. Essas definições acontecem por meio de plebiscitos, justamente durante esses processos eleitorais, o que torna mais difícil ainda a computação dos votos, já que a população está também se manifestando sobre outros assuntos que porventura possam estar sendo colocados para que as pessoas se manifestem, contra ou a favor. E, ao contrário do que a grande mídia apresenta, não são somente dois candidatos que disputam a presidência. Ocorre que os demais não possuem visibilidade, diante de uma estrutura política desigual.

Mas essas eleições chamaram mais as atenções do mundo, devido a conjuntura política mundial de crise, econômica e sanitária, ou vice e versa. A ascensão de Donald Trump, no poder da nação mais poderosa do mundo até aqui, embora em um processo de crise crescente em sua capacidade de se manter na liderança da hegemonia econômica mundial, empoderou movimentos de extrema direita não somente naquele país, mas por todo o mundo, inclusive no Brasil. Essa ascensão se deu por meio de estratégias absolutamente desonestas, escoradas em fake news, na manipulação grosseira dos fatos e na repetição de mentiras como tática de ação política, para desinformar e iludir as pessoas e destruir reputação de seus opositores.

Essa estratégia tem se disseminado por todo o mundo, em especial na Inglaterra, Brasil, Hungria, Polônia, Itália etc. E vem estimulando um contingente expressivo de seguidores do que se denomina de nova direita, avessa à democracia e disposta a desmoralizar a política como forma de manipular o processo eleitoral e assumirem o poder. A derrota de Donald Trump é um forte golpe nesse movimento, mas não significa a sua destruição. E a insistência em negar o resultado final do processo eleitoral nos EUA, e judicializar a disputa ainda por semanas, cumpre esse objetivo, de fomentar a confusão, a dúvida e acirrar o ódio, como instrumento do embate político, que pode chegar a consequências imprevisíveis.

Portanto, a derrota de Trump não é página virada nesse empoderamento de uma extrema-direita de novo tipo, que se expõe abertamente como assim era feito no período da ascensão do nazifascismo. É importante ainda lembrar que alguns movimentos organizados se fortaleceram nesse período de um presidente bufão, mas que nada tinha de tolo, bem ao contrário. Representou com maestria esse segmento, na linha de uma estratégia de construção do caos, para a partir da dissolução das conquistas sociais e da luta dos direitos humanos dos últimos anos, reconstruir o modelo de sociedade baseado no fundamentalismo cristão, no supremacismo branco e no nacionalismo populista isolacionista, oposto a todas as regras de boas convivências entre os estados-nações.

Tudo isso sendo feito e consolidado com a exacerbação do ódio, da intolerância, da xenofobia, do racismo e da misoginia. Comportamentos sempre presentes nas atitudes de Donald Trump, explicitamente, e disseminadas por outros chefes de estados, como Jair Bolsonaro aqui no Brasil ou Victor Orban, na Hungria. Nesse sentido a derrota de Trump, mesmo sem significar a dissolução desse movimento de extrema-direita, de uma prática disseminadora de ódio e beligerância na política, representa, sem dúvida, uma vitória para as forças progressistas de todo o mundo.

Mas, vamos ao ponto, naquilo que diz respeito a uma análise sobre o comportamento do Império, dos seus interesses e necessidades de fortalecer sua economia e resolver as enormes pendências internas que o tem colocado numa posição subalterna na disputa com o gigante chinês, que tem caminhado a passos largos para assumir a posição de maior potência econômica do mundo. Portanto, como os EUA se posicionarão diante de uma situação de grave crise econômica gerada por uma atuação desastrosa no combate à pandemia? Creio que, independente da palavra de ordem de Trump, “America First”, ter sido derrotada, já que era a base de sua campanha, não me parece que haverá uma mudança no comportamento de um governo democrata que não seja visando a recuperação de sua economia. Assim, as guerras econômicas, os bloqueios contra determinados países considerados hostis ao poder do império, tendem a continuar.

Eu me mantive discreto na observação do processo eleitoral nos EUA. Porque identifico nas políticas estadunidenses, seja com democratas, ou com republicanos, sempre uma forte agressividade em suas políticas externas, seja no tocante às questões econômicas (com os republicanos), como nas questões bélicas-militares (com os democratas), um viés agressivo para os seus interesses enquanto estado-nacional. Isso faz parte da história dos EUA, desde o começo do século XIX. Portanto, para compreender o que acontece naquele país, e que repercute naturalmente, pelo poder que ele representa, na América Latina e no mundo, é necessário conhecer a sua história, e como ela se entrelaça com a economia capitalista por todo o mundo, a partir do século XX, principalmente após a primeira guerra mundial. Se não conhecemos essa história, ficamos a nos deslumbrar com um aparato midiático fortíssimo que nos envolve, como se as decisões ali tomadas por seu eleitorado, fosse algo que influenciasse diretamente nos destinos de nosso país.

Essa é uma visão expandida pela guerra cultural imposta pelos EUA desde o final do século XIX, com o fortalecimento do Destino Manifesto, com a política do Big Stick, com o Plano Marshall, com o advento da guerra fria, a disseminação para o mundo do American Way of Life, e com a exportação dos valores cristãos pentecostais e neopentecostais, principalmente por meio da Teologia da Prosperidade. Mas nada foi mais forte e importante para a difusão desse sentimento de atração pela “democracia imperial” e pelo seu estilo de vida, do que a potente indústria do cinema, que tornou Hollywood num paraíso de deslumbramento da classe média intelectualizada brasileira. Enquanto Miami e a Disney World deslumbrava a classe média que ascendia socialmente, mas de conhecimento intelectual médio, e mais afeito às fantasias infantis ou ingênuas, mas absolutamente despolitizadas. Muito embora também com forte disseminação de seus valores culturais.

Procurei entender esse processo de duas maneiras, além da observação criteriosa das informações passadas pelos meios de comunicação tradicional, a grande mídia televisiva, quase sempre majoritariamente simpática aos valores estadunidenses. Por um lado, acompanhando algumas análises que para mim eram importantes, pela carga de informação e conhecimento que traziam, feitas em diversos canais do Youtube pelo professor Lejeune Mihan, sociólogo e analista internacional, profundo conhecedor da história do Oriente Médio (e, evidentemente, das políticas ali aplicadas pelos interesses rapaces dos EUA); e também procurei acompanhar as análises de Pepe Escobar, para mim um dos maiores analistas de geopolítica, que embora sendo brasileiro, vive na Tailândia, e é um dos principais correspondentes do Ásia Times e de outros veículos importantes de comunicação mundial. Uma das principais “lives” que assisti com sua participação, contou com a presença, não menos importante, de Elias Jabbour, especialista, pesquisador, com doutorado feito sobre a economia chinesa, que pode ser vista ainda pelo canal Duplo Expresso, no YouTube. Uma discussão riquíssima, que nos permite compreender as razões da forte disputa entre China e EUA, as consequências disso para o mundo, e até que ponto isso se refletiria no processo eleitoral estadunidense. Muito embora, pela complexidade embutida nessa discussão, saímos de mais de duas horas de debates com mais dúvidas do que certezas. Certamente essa é a grande riqueza da discussão, porque nos permite ir em busca de mais conhecimentos, para termos a dimensão de um problema que pode gerar, ou poderia, caso Trump se elegesse, muitos estremecimentos na geopolítica mundial. Com Bidem, provavelmente a multilateralidade reduzirá essas tensões. A ver.

Por outro lado, procurei ter uma compreensão mais aprofundada, indo além dos conflitos externos, ou até mesmo da dimensão que possui o processo eleitoral dos EUA para o mundo. Para isso organizei dois grupos de discussão em Geopolítica, cujo foco foi debater, discutir e compreender as razões da crise política que atravessa o mundo, não de agora com a pandemia, mas desde a primeira eleição de Barack Obama, com o crescente fortalecimento de setores de extrema direita, que passaram a se organizar mundialmente e a influenciar em diversas eleições, por meios de práticas pouco comum na democracia tradicional. Mas era contra essa democracia tradicional, e a chamada “velha política”, que essa guerra ideológica passara a ser travada, utilizando-se do aparato tecnológico permitido pela internet e a importância nas comunicações que as redes sociais passaram a ter. Plataformas como Facebook, Youtube, twitter, passaram a ser utilizadas com agressividade para desconstruir esse modelo de democracia tradicional ocidental, e desacreditar a política.

Escolhi três livros que nos pudessem dar a dimensão desse processo: “Como as Democracias Morrem”, “Os Engenheiros do Caos”, e “O Capitalismo se Desloca” (deixarei ao final a referência a essas obras, já citadas por mim em outros artigos e vídeos). Claro, dentre tantos outros que existem, alguns dos quais se tornaram referências para mim nesses estudos, como os trabalhos de Luis Alberto Moniz Bandeira: “Formação do Império Americano”; “A Segunda Guerra Fria”, e o mais recente, publicado dois anos antes de sua morte, “A Desordem Mundial”. São obras que nos dão a dimensão geopolítica dos interesses em jogo, na disputa do grande tabuleiro de xadrez que é o mundo.

Vivemos em um planeta onde cada vez mais as pessoas se conectam por meio de redes sociais e de sites de informação que trazem as notícias em tempo real. São uma infinidade de informações que são filtradas, e lidas superficialmente, com o intuito meramente de nos tornarmos atualizados nos acontecimentos. Mas pouco se lê, estuda e analisa o processo histórico. Por essa onda de informações rápidas e curtas as pessoas primeiramente se julgam muito informadas, e em certo sentido são; e por outro lado acumulam um arsenal de confusões ideológicas, de misturas de vieses capciosos, que não são lidos nas entrelinhas, e portanto não dão a dimensão real dos problemas, e as conexões que existem com as disputas pelo Poder, seja local, regional, nacional ou global.

O que quero dizer é que as coisas quando acontecem e passam a ter visibilidade pelo impacto que causam, elas já advêm de processos anteriores. E suas causas só podem ser entendidas com a compreensão do processo em curso desde o seu surgimento, ou seja, do conhecimento histórico.

Vejam, eu não estou me desviando do foco da discussão central: as eleições nos EUA e sua consequência para o mundo e a América Latina em especial. A questão é que a eleição de Donald Trump, e o fortalecimento dessa nova direita, que atacou fortemente a democracia tradicional e a política, com uma estratégia de disseminar o caos, aprofundar as divisões na sociedade e gerar o ódio e a intolerância, teve seu caminho pavimentado por meio de um processo que surge ainda durante o governo Obama.

Mas, para complicar essa análise, vou antecipar que o governo Barack Obama foi mais agressivo no tratamento com quem o império identificava como inimigo, e os eliminava por meio de drones; e com a destruição de governos hostis, por meio de guerras híbridas, do que o governo Trump. Ocorre que muito das políticas domésticas, na questão econômica, por exemplo, mantiveram-se alheias aos problemas cruciais que afetavam a população estadunidense, principalmente com aqueles segmentos que ficaram deslumbrados e confiantes na eleição do primeiro negro para presidente dos EUA.

As consequências de uma política externa agressiva, e de uma política interna desastrosa naquilo que era de interesse do cidadão estadunidense, possibilitou que se desenvolvesse no Estado profundo, uma desesperança com o que acreditavam que aconteceria. Por outro lado, e isso é inegável, o governo Obama correspondia mais nas questões raciais e da diversidade de gênero na sociedade. O que despertou, com muita força e ira, os preconceitos e os valores conservadores, reacionários, de uma grande parcela da população que sempre manteve o racismo presente, e a defesa conservadora de valores estabelecidos por suas crenças religiosas.

Nesse ambiente, de ampliação dos conflitos sociais, raciais e de gênero, se organizou grupos de extrema-direita que passaram a explorar esses sentimentos preconceituosos, e as frustrações pelo não alcance de suas expectativas. A explosão de revoltas e ampliação dos grupos de fundamentalistas religiosos e de supremacistas brancos, inclusive com o retorno da Ku Klux Klan, foi explorado por esses segmentos durante todo o governo Obama, e se expandiu para outras partes do mundo, até influenciando no Brexit, movimento que levou à separação do Reino Unido da União Europeia.

Esses livros que citei, usados como parte dos estudos do meu grupo de Geopolítica, nos dão a dimensão de todo esse movimento. E nos permite dizer, que, apesar da derrota de Donald Trump, a democracia liberal, ou tradicional, capitalista, não será mais a mesma. Até se olharmos o quantitativo de votos que ele obteve, que se ampliou em relação à primeira eleição, superando, inclusive, a quantidade de votos obtida por Barack Obama, até então o presidente que havia sido eleito com a maior quantidade de votos nos EUA.

A elevação da votação em Donald Trump demonstra também um crescimento e fortalecimento nessas crenças, negacionistas, e nesses valores impulsionados pela política do ódio e da intolerância e desrespeito com as diversidades.

Aí entramos no porquê da eleição de Joe Biden. Comecemos por dizer que isso não necessariamente pode acontecer aqui no Brasil. Porque nos EUA, mesmo em meio a pandemia as ruas se encheram em protestos antirracistas, como consequência de uma série de fatos gerados pela brutalidade e ódio racial contido no comportamento de uma política motivada pelo supremacismo branco. Foram cruciais nas mobilizações e no resultado eleitoral, a participação combativa das mulheres, mas, principalmente, na força demonstrada pelo movimento negro, que de forma organizada impulsionaram a participação do eleitorado negro, em regiões importantes dentro do espectro eleitoral confuso das eleições estadunidenses, principalmente na Pensilvânia, onde a cidade da Filadélfia, tradicionalmente marcada por uma forte população negra, possibilitou a virada do candidato democrata.

Por fim, posto que a derrota de Donald Trump foi ampla, vencida tanto no total de votos, quanto no Colégio Eleitoral, e, claro, desejada por todos os segmentos progressistas em todas as partes do mundo, cumpre fazer uma avaliação racional, entendendo como funciona a política e os interesses dos EUA, e não cair na ilusão de imaginar que a vitória de Joe Biden venha a ser comemorada como uma conquista dos segmentos progressistas. Era o que estava em jogo, ou Trump, ou Biden. Nesse sentido, claro, comemorar a derrota de Trump é inevitável, pelo que ele representa nesse espectro politico marcado pela estupidez, pelo negacionismo, pelo ataque à ciência, e pelo apoio às pautas reacionárias, tanto dos valores tradicionais do fundamentalismo cristão, quanto dos supremacistas brancos, misóginos e racistas..

Mas é uma vitória dentro do Império, seguindo-se os seus interesses e não o que deseja os progressistas do mundo, principalmente os que aspiram pelo socialismo. Não comemoro uma saída do império na direção de superar a crise sistêmica que o atinge mortalmente. Comemoro a derrota de uma trupe perversa, estúpida, que tem ampliado suas influências em diversas partes do mundo, e tornado nossas crenças na civilização por um olhar duvidoso do futuro que aguarda as novas gerações.

No entanto, não podemos perder de vista as ações, comportamentos e políticas externas que advém de décadas, protagonizadas por estrategistas estadunidenses, e postas em práticas por governos democratas e republicanos, porque aspiram somente defender os interesses rapaces do império estadunidense, absolutamente avesso às preocupações à autonomia dos povos e à liberdade de cada estado-nação definir qual o caminho que devem seguir.

As guerras híbridas, responsáveis pela instabilidade política em dezenas de países onde os governos não seguem as diretrizes imperiais, tornaram nesses países as condições econômicas e políticas absolutamente incontroláveis, permitindo a ascensão ao poder de governos que seguem essa mesma linha agora derrotada. Porque a estratégia usada pelos seguidores de Trump, e os arquitetos do caos, segue na mesma linha das guerras híbridas patrocinadas pelos bilionários que desejam obter dividendos com a desestabilização desses governos, e, claro, porque seus vieses ideológicos se encaixam nos objetivos de destruir, ou desconstruir, políticas que ataquem os mecanismos de funcionamento do sistema capitalista e possam porventura ampliar suas influências nas sociedades. E isso faz parte, e interessa à política externa dos EUA, como tem sido há décadas, mesmo após o fim da guerra fria, e, aliás, se ampliando justamente após a queda dos países socialistas da Europa oriental e da antiga União Soviética.

Por isso, não nos iludamos. A derrota de Trump significa uma vitória importante e uma conquista de uma batalha crucial contra o neofascismo que cresce no mundo. Mas não representa vitória significativa da classe operária, dos socialistas, e muito menos da comunidade negra e pobre, sempre submetida à opressão e à condição estrutural de um sistema que para garantir os privilégios de uma minoria precisa manter a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras explorada e controlada por seus valores tradicionais conservadores.

Enfim, a luta política no Brasil é outra, e não imaginemos que os democratas estadunidenses demonstram simpatia pelos anseios anti-imperialistas que sempre marcaram a esquerda brasileira, e é uma condição necessária para garantia da autodeterminação dos povos nos países latino-americanos. Tomar as ruas, mobilizar a juventude, despertar os movimentos negros e de mulheres, e pautar uma necessária unidade popular, é condição sine qua non para realizarmos aqui no Brasil os objetivos estratégicos que poderão impor uma derrota aos partidos tradicionais e aos movimentos conservadores, hipócritas e porta-vozes de políticas perversas, misóginas, racistas e preconceituosas. Unidade e luta, é o que nos possibilitará reverter o quadro político brasileiro, e não a ilusão por uma disputa no coração do Império. Não é a democracia deles, muito mais parecida com uma plutocracia, embora semelhante a nossa, que desejamos salvar. Mas uma democracia verdadeiramente popular que precisamos construir.


FONTES:

Links:

Lejeune Mirhan - https://www.brasil247.com/authors/lejeune-mirhan

Pepe Escobar - https://www.brasil247.com/authors/pepe-escobar

Especial: Pepe Escobar & Elias Jabbour respondem: estamos no Séc. da China? - https://www.youtube.com/watch?v=7E0oxYDnHLU

Publicações:

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. 4ª Edição.

­­­_________________________. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

_________________________. A Desordem Mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

DOWBOR, Ladislau. O Capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Edições SESC, 2020.

EMPOLI, Giuliano Da. Os Engenheiros do Caos. São Paulo: Vestígio, 2020.

LEVITSKY, Steven, ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

 


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O PODER JOVEM

Desta feita minha abordagem semanal será sobre o PODER JOVEM. Aproveito para fazer uma espécie de homenagem à minha geração, que na década de 1980 fez história, e não estou aqui me referindo ao curso que eu fiz. Mas porque efetivamente nos engajamos, fomos à luta e ajudamos a derrubar uma ditadura militar perversa que fez de 21 anos uma longa e tenebrosa noite. Nós fomos protagonistas desse processo. Por isso direciono essas palavras em primeiro lugar para meus companheiros e companheiras de luta, os que comigo participaram do movimento que criou a tendência estudantil VIRAÇÃO, mas também aos que estiveram nos embates conosco, embora divergindo em questões ideológicas e estratégias. Porque tínhamos bem claro o objetivo de derrotar um governo nefasto e criminoso, cuja prática abominável da tortura fez-se rotina nos porões e subterrâneos de seu sistema de vigilância e informação. Vigilância contra os que ousassem se opor aos seus crimes. 

E nós fizemos isso, com muita dedicação e até mesmo sofrendo consequências cruéis desse nosso engajamento, tanto em defesa de nosso país, como o que acreditámos ser o caminho para construir um outro tipo de sociedade, mais justa e igualitária: o socialismo. Combatemos o bom combate, e fomos vitoriosos, embora o que se seguiu depois não fosse necessariamente o que desejássemos. Por isso cunhei uma frase que insisto em repetir, porque pode ensinar as novas gerações: “Acreditávamos ser real, o que era um ilusão”. Me refiro especificamente, por um lado ao preconceito latente, mas submerso, existente na sociedade. E por outro lado ao equívoco de se deixar de lado a compreensão de que a nossa sociedade é construída sobre uma luta de classes, que dá a necessária dimensão da existência real das estruturas do sistema capitalista e de como ele funciona.

Minha outra homenagem é para a geração atual, esta que sofre nesses tempos de perversões e retrocessos, de ódios e de intolerâncias, num movimento que minha geração não previu, da ascensão ao poder de mentes estúpidas, de extrema-direita, defensores de ditaduras, torturadores, milícias e exterminadores de conquistas e direitos adquiridos com muita luta. Essa juventude de hoje carrega esse peso, de uma responsabilidade diferente da nossa, mas talvez de uma dimensão bem maior. Porque a minha geração pegou um movimento que estava embalado ao favor das forças progressistas, ao contrário dos dias atuais. E, em nome dessa juventude de hoje, faço a homenagem ao meu filho, IAGO MONTALVÃO OLIVEIRA CAMPOS, Presidente da combativa, representativa e destacada UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES. Evidente que falo isso com muito orgulho, por ele ser meu filho e por eu também ter sido, com muita honra, diretor dessa entidade, entre os anos 1984 e 1986, período de intensa lutas em defesa da democracia e das nossas liberdades individuais e escolhas.

O título, O PODER JOVEM, eu me apropriei indebitamente, de José Artur Poerner. Esse livro foi um dos que eu li com mais sofreguidão, lá no começo da minha militância no movimento estudantil. Ele foi para mim uma referência histórica importante, porque eu quando entrei na universidade pouco conhecia da luta da juventude. Posto que eu era um jovem alienado, como a imensa maioria daquela juventude de minha época, final da década de 1970 e começo dos anos 1980, contido pela censura e pelas repressões das estruturas militares. 

Apesar de eu ter vindo dos movimentos das comunidades eclesiais de base, naquele momento em que ingressei na universidade, meu ímpeto era mais religioso do que político. Exatamente em 1981, quando o livro de Leonardo Boff foi lançado, “O caminhar da Igreja com os Oprimidos”, eu vivia a minha transição, da militância na igreja para a militância comunista. Mas esse livro foi essencial também em minha formação e me fez manter até hoje o respeito por esse segmento progressista da igreja católica, a Teologia da Libertação. Exatamente por isso, embora tendo me tornado ateu, nunca fui de agredir ou atacar seja símbolos ou os valores religiosos. Porque eventualmente esse pode ser apropriado por pessoas sem caráter, mas existem muitos de boa fé, que conseguem se manter firmes na disputa para que as crenças não se tornem objetos de fanáticos perversos. O que, infelizmente nos tempos atuais, está acontecendo.

Mas, voltando ao PODER JOVEM. Por que da identificação de minha conversa aqui com esse livro? Naturalmente há uma relação intrínseca. Faço isso porque o que pretendo aqui é exatamente reforçar a importância do papel da juventude na luta pelos direitos sociais, contra as desigualdades, por liberdade e democracia. Por uma verdadeira democracia, não esta em que vivemos, com uma desigualdade estúpida, onde 1% da humanidade controla mais de 90% da riqueza. Isso não é democracia, é plutocracia. 

O que POERNER descreve por todo o seu livro é exatamente a essência do título, o poder da juventude. Ele vai buscar fatos históricos ainda no século XIX e adentra o século XX apontando o quanto foi importante em momentos cruciais de nossa história o papel e o engajamento da juventude. O surgimento da UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES, a gloriosa UNE, foi consequência desse protagonismo da juventude, e a partir de sua criação a organização e força da juventude se ampliou consideravelmente, tendo nas universidades os alicerces que sustentaram essas lutas. Secundadas, mas não com menos importância, pela UNIÃO BRASILEIRA DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS – A UBES.

Foram muitos momentos na história política do Brasil em que a participação da juventude, organizada, se deu com muita força e tornou-se essencial em muitas conquistas. Na luta contra o nazifascismo; em defesa do petróleo e da criação da Petrobrás; na defesa da legalidade quando na tentativa de impedir a posse de João Goulart; na oposição firme à ditadura militar, com muitas de suas lideranças sendo presas, torturadas e assassinadas; e em defesa de nossas liberdades. Sempre a juventude esteve na linha de frente, aguerrida e corajosa.

Pois bem. Esse momento terrível em que estamos vivendo, como costumamos dizer é apenas uma fase que será superada, mas isso pode ocorrer para mais ou para menos  tempo do que o desejável. E pode tornar pior uma situação que já é degradante socialmente. Afinal, temos um governo destruidor das conquistas sociais, incentivador do armamento, pusilânime com as milícias, intolerante politicamente e estimulador de ódios e preconceitos. Tudo vai depender da capacidade de reagir com indignação contagiante e rebeliões explícitas que façam como tem feito o povo chileno, e como fizemos por aqui em outras situações.

Claro que a situação exige prudência, a pandemia segue ceifando vidas e a juventude não é invulnerável. Enquanto não tivermos uma vacina não se pode subestimar a capacidade destruidora desse vírus. Deixemos essa exposição suicida para os negacionistas estúpidos. Mas está em jogo não somente testar a paciência dessa juventude. Está em jogo o seu futuro. Estamos vendo ser destruídos mecanismos sociais minimamente necessários para conter a ampliação das desigualdades. A previdência social já foi implodida, os direitos previdenciários para as novas gerações não são mais os mesmos que conquistamos com a Constituição de 1988, e até mesmo por conquistas anteriores. Os contratos de trabalho, que afetam e afetarão as novas gerações estão sendo implementados após uma reforma trabalhista que só veio para beneficiar os proprietários dos meios de produção. E para piorar, assistimos a uma destruição da estrutura educacional de nosso país, que já era frágil apesar das lutas e conquistas obtidas na primeira década deste século.

Assistimos a uma destruição talvez da mais importante estrutura de estado para a construção do futuro das novas gerações. Tudo isso a pretexto de uma guerra ideológica, cujo objetivo nada mais é do que extrair da juventude a capacidade de reação às investidas do fundamentalismo religioso, da ganância burguesa e da ânsia destrutiva dos banqueiros e latifundiários, que desejam ver seus projetos de enriquecimento sobrepondo-se perversa e criminosamente sobre uma população de pobres e miseráveis, e de uma juventude que verá seus sonhos destruídos em uma sociedade cada vez mais segregacionista e apartada.

Já falei em vídeos anteriores que vejo somente na organização social a condição de sairmos dessa triste situação. Mas dentre todas as formas de organização social, e de segmentos capazes de empunhar com força as bandeiras e instrumentos necessários para barrar essa destruição, está, como sempre esteve, a juventude, e suas entidades como a UNE  e a UBES. Infelizmente a pandemia e o distanciamento social, tragicamente, beneficia as loucuras de um governo que pouco se importa com a população, mas que se vê protegido pelo distanciamento da ira da juventude, impedida de ocupar as ruas nesse momento.

Mas quero finalizar, depois de enfatizar a importância que a juventude tem nesse processo, indicando que é fundamental usufruir daquilo que as redes sociais possibilita, para além dos algoritmos e das fake news, como forma de manter a juventude em estado de alerta, e utilizando dessas ferramentas para fortalecer as organizações estudantis, mesmo que virtualmente, para que, dessa forma, se espalhe e se acumule o sentimento de revolta contra as medidas destrutivas e restritivas que estão sendo impostas, principalmente às universidades, até com quebra de sua autonomia e democracia interna. Para que, no momento possível, essa revolta possa explodir pelas ruas, como já fizemos em outras épocas, impondo derrotas a fascistas e a uma extrema-direita defensora da barbárie que torturou e matou centenas de jovens que lutavam por seus direitos e por liberdades.

Não digo que somente a juventude será a responsável por dar uma guinada nessa situação de retrocesso político que o nosso país está vivendo. Mas ela é fundamental para inundar as ruas e praças de luta e de esperança, e restabelecer a razão em um país dominado pela estupidez, pelo ódio e pelo fundamentalismo religioso. Mais do que isso, que essa juventude possa criticamente ter a plena convicção que esse sistema, absolutamente perverso e desigual, não lhe dá garantia de futuro decente e que atenda a todas as pessoas. E compreendam, que como nós tínhamos sempre em nosso horizonte, é essencial construir a utopia, a crença de que podemos superar as loucuras geradas pelas crises sistêmicas capitalistas, e construir uma nova sociedade, para o futuro que obviamente representará o presente desta e das novas gerações.

Minha geração foi vitoriosas em nossas lutas políticas. Obtivemos muitas conquistas importantes que passamos a usufruir décadas depois da derrota da ditadura militar. Mas não pudemos ver a construção de uma estrutura social, tal qual sonhávamos, porque nesse caminhar muito daquilo que acreditávamos ser real, transformaram-se em miragens. Não pudemos ver mudanças radicais em uma estrutura social perversa, e isso possibilitou os retrocessos que nos angustiam e nos afligem. A juventude pós-pandemia não pode cometer os mesmos erros. Mas, infelizmente, a sua despolitização pode atrasar a construção de um novo caminho e a destruição desse castelo de horror no qual se transformou o governo de nosso país.

É urgente pensar como lidar com essa situação, agora e no pós-pandemia, tendo como foco a necessidade de ocupar as ruas e mais uma vez fazer ecoar o grito do PODER JOVEM, contra a tirania e o arremedo de ditadura que lunáticos implantar, e que pode se tornar uma realidade com um segundo mandato de governo que nos deixa até sem adjetivos para qualificá-lo. O futuro, que é uma construção, como nunca, está nas mãos da juventude. Que a UNE  e a UBES saibam construir uma unidade necessária entre suas diversas tendências, que seguramente se opõem a esse descalabro que aí está, e possam marchar para ocupar as ruas com organização e brandir com a ponta de seus lápis, os gritos de guerra que imponham derrotas a esse poder decrépito e desvairado que nos governa.

Evoé Juventude brasileira! Ave PODER JOVEM! Salve UNE e UBES. Organizem-se, lutem, enxerguem no horizonte a esperança, ou a velha utopia que nos ajuda a caminhar e a lutar. Por um mundo novo, por um outro mundo, onde suas gerações possam viver com dignidade.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O CORONAVÍRUS E O IMPACTO DA CRISE NAS CONTRADIÇÕES DO SISTEMA CAPITALISTA

Foram muitas, ao longo da história, as epidemias, ou ações de vírus e bactérias que causaram temor em governantes e insegurança na população neste e em outros séculos. Peste bubônica, cólera, varíola, sarampo, poliomielite, dengue, zika, chicungunha etc, colocaram, e ainda colocam, à prova a capacidade dos estados saberem lidar com essas doenças, em meio a circunstâncias que apontam em outra direção, como decorrência do sucateamento do sistema de saúde e redução a cada ano maior dos percentuais necessários para atender as necessidades mínimas do combate não somente aos microrganismos causadores dessas doenças, mas as condições nas quais eles encontram o campo ideal para agirem e se proliferarem. Além de, aqui no Brasil, o estabelecimento de uma lei que criou um teto – limite – aos gastos públicos, trava qualquer possibilidade de modernização e ampliação da rede pública de saúde, como também da educação, das políticas sociais e do desenvolvimento científico e tecnológico.

Por outro lado, no intervalo de tempo de um século, outras formas de crises colocaram a prova não somente o sistema, mas a capacidade de superar as dificuldades das próprias pessoas. Se as crises epidêmicas deixaram rastros de absolutos caos econômicos, outras decorrentes de desequilíbrios estruturais, ou até mesmo das consequências daquelas, estremeceram os alicerces do capitalismo: a grande depressão de 1929 e a crise dos sub-primes de 2008.

No entanto, nos baseando no que ocorreu após a grande depressão, que se inicia no final de 1929 e atravessa toda a década de 1930, até desembocar na segunda guerra mundial, houve uma transformação radical na sociedade, um aumento considerável do papel do Estado na solução dos problemas econômicos e sociais, e da garantia de emprego para a população, bem como levou a mudança de hábitos, nesse caso quebrado pelo advento da guerra, que pode também ser incluída dentre as consequências dessa crise de proporções mundiais, mas cujos efeitos foram mais fortes nos EUA e na Europa.

Embora tenha havido um forte impacto nas estruturas do sistema capitalista, esse não foi tão intenso a ponto de paralisar as estruturas produtivas como consequência de uma imposição externa, aparentemente casual. Mas isso pode ser cientificamente demonstrada em suas causas fundamentais, como sendo inerentes ao próprio sistema, visto que isso decorre da forma como a sociedade está organizada em grandes cidades, assim como pela destruição acelerada da biodiversidade do planeta.

Tentemos fazer uma comparação, com os devidos cuidados para não incorrermos em anacronismos, entre a grande depressão, tendo como causa o excesso de produção do sistema e a redução do consumo, sem, contudo, ter havido forçosamente uma paralisação da economia, já que essa se deu na sequência da elevação produtiva; com o que temos hoje, numa dimensão muito maior, já que a paralisia do processo produtivo se deu forçosamente por meses, como necessidade para conter o poder viral.

Nessas circunstâncias, de uma absoluta impossibilidade das cadeias produtivas funcionarem adequadamente, e uma semiparalisia no sistema afetando a quase totalidade das empresas, o que se pode observar é um impacto muito mais forte na estrutura do sistema capitalista em comparação com o que ocorreu na depressão de 1929, ou mesmo na mais recente explosão de crise, em 2008, com a quase quebra do sistema financeiro mundial.

Isso poderia jogar por terra toda e qualquer iniciativa de gerir a economia com base nas receitas neoliberais, pois só se poderia conter um caos de dimensão planetária, com os estados investindo maciçamente na economia, fortalecendo as empresas, dando suporte aos micro e pequenos empreendedores, e garantindo fortes investimentos em infraestruturas por todo o país, como elemento gerador de empregos, tal qual foi feito na grande depressão, seguindo-se as orientações keynesianas.

Seria preciso haver um retorno ao estado de bem estar social, desmontando por completo todo esse aparato de reforma que pode levar a uma quase destruição do Estado naquilo que o torna mais essencial, a sua importância nas políticas sociais, principalmente com a necessidade de criação de uma renda mínima para populações carentes, a ser mantidas pelo Estado. Muito embora o auxílio emergencial, aprovado pelo Congresso Nacional tenha aberto um caminho nessa direção, criando um dilema a ser resolvido por um governo ultra direitista e com uma política econômica radicalmente neoliberal.

O isolamento social, o distanciamento das pessoas e o enclausuramento em circunstâncias as mais diversas, tem causado fortes impactos, a depender da condição social e da dimensão habitacional onde cada família vive. Certamente, o pós-quarentena trará novos comportamentos sociais. Em primeiro lugar porque a crise imporá uma necessidade do estabelecimento de relações mais solidárias, em função do aumento da miséria e a disseminação da pobreza; em segundo lugar porque esse distanciamento já está gerando diversas reflexões sobre as formas como temos vivido em sociedade até então, com um distanciamento entre os próximos, e uma proximidade entre os distantes. Será preciso repensar aquilo que nos transformou enquanto sociedade com o advento de novas tecnologias e das redes sociais, bem como dos mecanismos criados pela competição a qualquer custo e a necessidade de se garantir o primeiro lugar como condição de se ver inserido nos mecanismos inclusivos do sistema.

Precisamos resgatar aquilo posto pelo geógrafo Milton Santos em uma de suas últimas obras, e seguramente a de maior leitura: Por uma outra globalização. Não creio que devamos culpar a globalização pela disseminação do vírus, até porque outros vírus se disseminaram pelo mundo com alto grau de letalidade, embora não com a velocidade deste. Claro que nosso estilo de vida, nos últimos anos se acentuou muito fortemente pela forma como se deu a globalização, com o esvaziamento acelerado do campo e o crescimento exponencial das cidades, bem como uma forte destruição da nossa biodiversidade. Mas a globalização não é um sistema. Ela é apenas uma forma pela qual o sistema ampliou seu poder de contaminação da ganância, da usura, do acesso às novas tecnologias e das desigualdades sociais. No entanto esses são elementos inerentes ao sistema capitalista, em sua forma perversa, como descrito por Milton Santos como uma das etapas, ou seja, da globalização como perversidade. (SANTOS, 2001)

Cumpre-nos enfatizar o aspecto final de seu livro, quando ele defende ser possível uma outra globalização, que possa primar pela solidariedade e pela necessidade de as pessoas por todo o mundo se ajudarem mutuamente, de forma a reduzir as desigualdades sociais. Porque não veremos, por mais que desejemos, o fim do capitalismo como consequência da disseminação da Covid19, muito embora isso amplie consideravelmente as suas contradições.

Ainda teremos um processo lento e doloroso, de ampliação da crise, da miséria, do aumento das desigualdades sociais, da violência, da perseguição aos que lutam contra essas condições perversas, e o poder concentrado nas mãos dos representantes das grandes corporações, principalmente as financeiras, que podem sair dessa crise mais fortes e concentradas, na medida em que terão fortes injeções de recursos financeiros por meio dos estados, como já está acontecendo e como aconteceu em 2008. Assim, suas garras tendem a se ampliar, através da aquisição de empresas em estado falimentar, possibilitando as suas recuperações mediante a destruição de empregos, como se deu no final da década de 1980 na Europa e nos EUA, principalmente. Aqui no Brasil a reforma da legislação trabalhista já garante aos empresários as condições para imprimirem regras mais flexíveis, já que as garantias dos direitos dos trabalhadores foram fragilizadas, beneficiando as empresas em detrimento da força de trabalho.

Mas, será possível fazer com que os rumos sejam outros? A partir daqui o que nos resta é deduzir, com base naquilo que nossa experiência pode permitir, e nos conhecimentos históricos que nos remetem a momentos, senão iguais, mas muito parecidos, cujas crises chegaram ao ápice, à exaustão da economia.


CRIAR NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÕES, À MARGEM DO ESTADO


Isso inevitavelmente vai levar a uma mudança substantiva no poder político, tanto maior quanto mais próximas estejam os processos eleitorais nos países. Atentando-se para um elemento que pode ser motivador de reforçar governos de viés autoritário, de extrema-direita, que em essência representam a tentativa de implementação de projetos totalitários, como aliás já ocorre em alguns países, por meios de medidas profundamente antidemocráticas.

Mas o mundo pós-pandemia não será muito diferente do que já estava em curso. Uma guinada conservadora, cujas concepções reacionárias e anti-democráticas se espalharam por meio de manipulações, fake-news e o despertar de sentimentos por muito tempo contidos. Frustrações, ressentimentos, decepções, fracassos, perda de perspectivas diante de realidades sociais perversas, raiva pela política e desesperança.

O desemprego tem aumentado, e necessitará da intervenção do Estado. Isso sendo feito por um governo ultra conservador, tenderá a ampliar entre as camadas mais pobres a ilusão do acesso a programas sociais que não virão acompanhados de medidas que lhes garantam emprego e dignidade, mas que surtirá o efeito de fortalecer um falso populismo, e poderá estender por mais um governo, políticas antissociais, fortemente focadas no atendimento das benesses e privilégios das classes dominantes, na destruição de diversos biomas e suas transformações em pastos e agricultura, e submissão vergonhosa aos interesses dos EUA. Colocará também os segmentos progressistas num dilema, fruto das contradições, que é ter que defender um programa social mais forte para as camadas mais baixas economicamente da sociedade e ver o governo Bolsonaro se fortalecer com isso.

O que vai estar em jogo nos próximos meses pós-quarentena será a capacidade da sociedade não se abater com esse confinamento, e as organizações sociais e associações comunitárias conseguirem disputar contra o poder discriminatório do estado e das igrejas neopentecostais, o protagonismo no envolvimento das populações periféricas, apontando para elas a necessidade de seguir por um caminho de construção de relações solidárias e de comum união. Combatendo fortemente a intolerância, o ódio e a mentira, elementos que tem causado fraturas na sociedade e não nos permite proceder a debates produtivos sobre o caminho que precisamos trilhar e a escolha do melhor modelo de desenvolvimento que consiga eliminar vergonhosas desigualdades sociais. 

Há uma estratégia por trás da insistência em desconstruir a política e gerar desesperanças nas pessoas. É uma arquitetura perversa e invertida, que aposta na destruição das relações sociais, na dependência espiritual por meio do medo e do controle de suas crenças, e, do ponto de vista das estruturas sociais o foco, nitidamente é transformar a sociedade no caos, e de suas cinzas implementar políticas completamente opostas àquelas que colocaram o Brasil no topo das nações com mais avanços democráticos e sociais na primeira década do século XX.

O desafio é como resistir a isso, sem que os segmentos progressistas se coloquem numa postura eterna de defesa, em função dos ataques perversos por meio de desconstrução de reputações, de lawfares (o uso e manipulação de leis para perseguir opositores) e fake-news. É preciso reforçar os alicerces dos movimentos sociais, das associações comunitárias e organizações não governamentais. Mas acima de tudo, é preciso ter a clareza que a democracia tradicional está sob ataques, não porque essa tenha solucionado os problemas cruciais e as desigualdades criadas pelo sistema capitalista, mas porque nas duas décadas do século XXI políticas de inclusões sociais se ampliaram, garantiram inserções de segmentos por muito tempo oprimidos em patamares mais elevados na estrutura social e empoderaram setores secularmente discriminados, fazendo elevar suas vozes e os fazendo se assumirem e se destacarem, sobrepondo-se às amarras impostas por uma sociedade hipócrita e conservadora.

E se a velha democracia está sendo  carcomida, por dentro, pelos próprios beneficiários de suas artimanhas, é preciso encontrar outras formas de se implementar as políticas e até mesmo de questionar até que ponto nos levará a nossa paciência em achar que esse estado, dominado por uma burguesia estúpida, banqueiros gananciosos, latifundiários exterminadores da vida, e uma classe média alta empedernida, insensível e idiotizada, conseguirá solucionar os problemas graves geradores de desigualdades sociais que pode nos levar para uma guerra civil planetária. 

Talvez não tenhamos tempo para esperar que esse estado, ilusoriamente, seja capaz de atender aos nossos mais banais e simplórios desejos. E pensemos, o quanto antes, ser melhor elaborarmos uma estratégia que bote abaixo essas estruturas, o quanto mais rápido melhor, embora isso possa demorar décadas. A crise da pandemia pode acelerar esse processo... ou não. Dependerá do caminho que o povo seguirá. Em sendo assim, talvez seja melhor criar as condições para destruir esse estado, e sobre seus escombros construir novas relações sociais de produção, baseadas na cooperação, no comunitarismo e no socialismo. 

Não creio que as eleições possam ajudar, muito embora seja um caminho forçosamente necessário. Mas as transformações sociais, se desejamos construir algo novo, não deverão seguir na ilusão do caminho institucional. É preciso criar novas formações, contrapondo-se às estruturas do poder político do estado capitalista, dominado pelas corporações. Como numa espécie de ações em paralelo e desobediências civis, por um lado; e por outro lado reforçando-se o caminho das organizações populares, gerando uma dualidade de poderes, que possa assim desorganizar as forças tradicionais conservadoras e se instaure poderes comunitários locais. Isso é urgente, antes que as milícias assumam essa condição de controle sobre as comunidades, alinhando-se, como já estão, com o poder militar e uma estrutura de estado corrompida.

Os desafios estão postos, já nos iludimos bastante, o mundo virtual se assume como uma miragem que nos fornece o ópio. O mundo real é profundo, perverso e desigual, e o fosso que se abre e se amplia, suga para o fundo das profundezas a desesperança e o melhor que a juventude e os trabalhadores poderiam oferecer, com consciência política, para construir caminhos por onde possamos materializar as nossas utopias. Resgatemos as esperanças, e construamos nas periferias das grandes e médias cidades, e no grande sertão interiorano, organizações comunitárias que se estruturem à margem do Estado, com moedas próprias e formas de estruturar o poder que tenha na organização do povo, e nos conselhos comunitários, os pilares para a construção de um estado socialista.

Rebeldia e ofensividade, não a defensiva eterna, é o que nos fará acreditar ser possível construir um outro mundo. E, como dizia Lênin, “Sonhos, acreditemos neles, com a certeza de realizarmos, escrupulosamente, as nossas fantasias”.



(*) Esse texto é uma versão atualizada e ampliada de parte de um artigo publicado na Revista de Geografia da UEG, Eliseé:

Campos Filho, R. (2020). A peste, a gripe espanhola e a covid19 – geografizando as pandemias pelo mundo. Élisée - Revista De Geografia Da UEG9(1), e912014. Recuperado de https://www.revista.ueg.br/index.php/elisee/article/view/10301 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

IMPERTINÊNCIAS, REMINISCÊNCIAS E DEVANEIOS – E A VIDA, ELA É MARAVILHA OU É SOFRIMENTO?

Minha crônica dessa vez será diferente. O momento exige isso. Embora esteja somente atualizada. O tempo segue no ritmo de tartaruga, de repente ele se transforma num coelho. Vai ser assim. Vou falar muito por metáforas. Prestem atenção, atentamente.

Estamos numa encruzilhada. Que caminho devemos seguir? Onde está a felicidade? Quem é mais ou menos feliz? O que é ser feliz? Gostaríamos de seguir, cada um de nós, para a beira do rio, pescar, e ver o tempo passar... Ou para a beira do mar, numa praia... Quem sabe seguindo uma vida de diletantismo, de reflexões sobre a beleza das estrelas, cantamos a música de Louis Armstrong e enfatizamos para nós mesmos que este é um mundo maravilhoso... Passávamos numa livraria com ar condicionado ou nas novas temakerias que se espalhavam, para reforçar nossa vaidade intelectual... Às vezes decidíamos meter o pé na jaca para saber como o povo lida com "aquela felicidade", aquele jeito de sorrir em meio aos infortúnios. Isso, naturalmente, antes dessa situação inusitada.

Quem é mais ou menos feliz nesse mundo de tantos deuses injustos que insistem em manter o mundo desigual?

Às vezes alguns me chamam de católico enrustido, ou de ateu pra inglês ver. Vou falar claramente, e sei que muitos dos que me ouvem, ou leem, “creem”! Eu não consigo acreditar em algo que não seja perceptível, visível, real. O nome que se dá a isso é ATEU. Mas o fato de ser ateu, cristão, muçulmano, budista, adventista, macumbeiro... e etc, etc, etc, não tem nada a ver com caráter, sensibilidade, bondade... o que seja. Cada um pode ser o que é à sua maneira, o que vai definir seu caráter é o caminho que escolher. Gosto muito desta frase, do filósofo Heráclito de Éfeso: “o caminho de um indivíduo é o seu caráter”. Ela transmite um sentido dúbio. E pode ser lida também assim: “o caráter de um indivíduo é o seu caminho”. Nem sei bem como é o original. Bom, mas é em grego, então vai numa tradução livre, mantendo o sentido.

E não há somente as pessoas de bom caráter e as de mau caráter. A não ser que sejamos maniqueus, e não consigamos enxergar outras possibilidades para definir a maneira como nos portamos diante do mundo. Porque nós erramos e acertamos permanentemente. Somos capazes de gestos de enorme grandeza moral, mas podemos também cometer canalhices. Orar, rezar, não apaga o que fizemos, só nos deixa tranquilos para “pecar” novamente. Claro, não é bem assim. Quis ser irônico.

Não é o mundo que é metafísico, são as ideias dominantes e a maneira de enxerga-lo tornada verdade dogmatizada pela religião. O mundo tal como existe foi criado pelo ser humano e está impregnado de visões metafísicas, pois esta é a melhor condição para deixar as pessoas inertes, passivas, dominadas, entregues às fantasias que elas imaginam ser delas, mas que são oferecidas por aqueles que constroem este mundo seguindo seus objetivos. Sim, porque este mundo, que não é metafísico, é real, e material, adquiriu esta condição por ter sido arquitetado e edificado segundo determinados interesses.

O que se constrói daí, metafisicamente ou não, decorre de tudo isso. Fantasias, sonhos, deuses, demônios, mitos, celebridades. Nossa formação está umbilicalmente ligada a tudo isso. A um mundo que incorpora as suas próprias contradições e transforma tudo em mercadorias.

Um brinde à Baco, Deus do vinho. Baco carrega os prazeres humanos. Já que meio homem, meio Deus. Quer saber a origem da expressão “feito nas coxas?” Então conheça como se deu a gestação de Baco, numa iniciativa de Zeus para protegê-lo, visto ser ele oriundo de uma escapadela com uma mortal. Mas isso é outra história. E o prazer que Baco transmite é por essa bebida mágica.

***

Falemos dos prazeres bucólico. Isso que é a felicidade para alguns, quem já a viveu, e para mim, que mesmo interiorano nunca fui roceiro, infelizmente. Todo esse prazer, que queremos ter algum dia, essa fantasia de nos reencontrarmos com a natureza, também virou negócio. O que antes era natural virou artificial. Como dizia Milton Santos, não há mais natureza natural. E se fosse vivo ele estaria dizendo que o que era natural está sendo devastado pelo ser humano, e pelo fogo. Ou, pelo fogo espalhado pelo ser humano. Imaginem quando não houver água para apagá-los.

Quanto às certezas, não as temos. Embora tentemos sempre transmitir a impressão de que o que falamos é o definitivo. Bom, é definitivo... até que alguém prove o contrário. E isso, inevitavelmente, sempre termina acontecendo. Porque o que dizemos, o que sentimos, é condicionado pelo momento, o lugar e as circunstâncias. Quando me refiro à noção de felicidade quero dizer exatamente isso, cada um vai se sentir feliz sob determinada circunstância, mas sabemos que isso não é definitivo.

Existem os ditos populares que falam: "depois da tempestade vem a bonança", ou de que "quando a coisa tá boa demais é sinal de que alguma desgraça vai acontecer". Ou seja, as condições objetivas de cada momento é que vão definir o que significa sentir-se feliz, está satisfeito com a condição dada pelo mundo não somente para si, mas para sua família.

Minha filha, Carol: Saudades!

Eu não sou feliz, mas já fui feliz. Sou uma pessoa alegre, animada, enturmada, às vezes mal humorada, já sofri na vida dores profundas, mas não mais do que milhares de outras pessoas. Amo as pessoas que me amam, ignoro as que não gostam de mim. Sei que devo aproveitar, sempre, o momento que nós vivemos da melhor maneira possível. Procuro adotar a filosofia do “carpe diem” (Aproveite o dia, confia o mínimo no amanhã), mas não sou egoísta.

Meus momentos alegres são entrecortados com visões terríveis das condições em que vivem milhares de pessoas. Olhando para elas posso me considerar uma pessoa feliz? Mas não vou fazer voto de pobreza, e deixar de sonhar com meu sitiozinho confortável, com internet e wireless para ler o que eu quiser deitado numa rede. Algum dia, quem sabe? materializo isso.

Isso não são certezas. São convicções. E se há algum amargor no que falo, isso vem da impossibilidade, como D. Quixote de La Mancha, de encontrar mecanismos verdadeiramente adequados para lutar por tudo isso, ou contra tudo isso que está aí e nos atormenta. Daí, às vezes a amargura, a angústia... mas sei que nada do que está aí é eterno. Ou, como diz o poeta, “é eterno enquanto dure”. Inclusive nós mesmos.

Cabe a cada um a iniciativa de buscar esses caminhos, ou seguir com a construção adequada aos vários significados que vamos dando, de acordo com a escolha de vida que fazemos, ou das direções que na encruzilhada optamos por seguir. Ou – o que não é uma escolha – como lidamos com as tragédias que o acaso produz e fazem com que, independente dos caminhos que existam à nossa frente, tenhamos que superar as adversidades. Isso termina por se tornar parte do cotidiano da vida. Assim é o que acontece, vivemos para superar adversidades.

Por falar em deuses, ou em Deus... A minha verdade, já que estamos numa época da pós-verdade, onde cada um acredita no que deseja acreditar. Que seja assim. Temos Deus dentro de nós. Ele está no coração de cada um. Ou melhor, pode estar. É dele, do coração, que emanam todos os sentimentos, numa íntima e dialética relação com o cérebro. E o que temos não nos foi dado, foi construído... Ou, às vezes, conquistado, tomado, arrancado.

E o coração pulsa, acelera seus batimentos no ritmo da intensidade emotiva: ódio, amor, inveja, raiva... saudades! Sigamos no ritmo da música: “Bate, bate, coração, dentro desse velho peito, você já está acostumado a ser maltratado a não ter direito”.

Na vida são muitas as impertinências. Mas ser impertinente é meio chato. O que escrevo aqui, diferente de outras crônicas, é como um desabafo, uma contrariedade com a vida e na aversão a como os deuses que criamos constroem um mundo desigual e acomodado. E de como nos desiludimos no caminhar dessa vida com as perdas que arrancam pedaços no coração. É nele que se encontra o poder da divindade, o sentimento do mundo, a frustração da dor, a angústia da impotência humana diante da irreversibilidade da morte. É dele que em alguns momentos extraímos um pouco da nossa impertinência.

“Mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que vem do coração”! E seguimos no ritmo da música, para ouvir o coração.

Será que é ele quem comanda nosso cérebro? Quem sabe?

“As águas deságuam para o mar, meus olhos vivem cheios d´água, chorando, molhando o meu rosto de tanto desgosto, me causando mágoa. Mas meu coração só tem amor, e amor tivera mesmo pra valer, por isso a gente pena, sofre e chora coração... E morre todo dia sem saber.”

Às vezes, em alguns momentos, cada um de nós se torna um pouco (ou muito) impertinente.

Me sinto assim neste momento. Mas...

“Bate, bate, bate coração, não ligue deixe quem quiser falar. Porque o que se leva dessa vida coração, é o amor que a gente tem pra dar”.

E a vida segue, dialeticamente. Às vezes maravilha. Noutras vezes, sofrimento.

Mas, como dizia Louis Armstrong, com sua voz tonitruante, “este é um mundo maravilhoso”. O problema é o que nós estamos fazendo com ele.

Perdoem-me as minhas impertinências, as reminiscências e os meus devaneios. 


Quem gosta de poesia e MPB deve ter percebido que usei frases aqui de várias músicas. Vamos lá. Bora dar os créditos a quem de direito, merece:

 

Soneto da Fidelidade – Vinícius de Moraes

Bate Coração – Antonio Barros e Cecéu – Elba Ramalho

Canção da América – Milton Nascimento e Fernando Brandt

O que é o que é? - Gonzaguinha

What a Wonderful World – Louis Armstrong