sexta-feira, 18 de setembro de 2020

IMPERTINÊNCIAS, REMINISCÊNCIAS E DEVANEIOS – E A VIDA, ELA É MARAVILHA OU É SOFRIMENTO?

Minha crônica dessa vez será diferente. O momento exige isso. Embora esteja somente atualizada. O tempo segue no ritmo de tartaruga, de repente ele se transforma num coelho. Vai ser assim. Vou falar muito por metáforas. Prestem atenção, atentamente.

Estamos numa encruzilhada. Que caminho devemos seguir? Onde está a felicidade? Quem é mais ou menos feliz? O que é ser feliz? Gostaríamos de seguir, cada um de nós, para a beira do rio, pescar, e ver o tempo passar... Ou para a beira do mar, numa praia... Quem sabe seguindo uma vida de diletantismo, de reflexões sobre a beleza das estrelas, cantamos a música de Louis Armstrong e enfatizamos para nós mesmos que este é um mundo maravilhoso... Passávamos numa livraria com ar condicionado ou nas novas temakerias que se espalhavam, para reforçar nossa vaidade intelectual... Às vezes decidíamos meter o pé na jaca para saber como o povo lida com "aquela felicidade", aquele jeito de sorrir em meio aos infortúnios. Isso, naturalmente, antes dessa situação inusitada.

Quem é mais ou menos feliz nesse mundo de tantos deuses injustos que insistem em manter o mundo desigual?

Às vezes alguns me chamam de católico enrustido, ou de ateu pra inglês ver. Vou falar claramente, e sei que muitos dos que me ouvem, ou leem, “creem”! Eu não consigo acreditar em algo que não seja perceptível, visível, real. O nome que se dá a isso é ATEU. Mas o fato de ser ateu, cristão, muçulmano, budista, adventista, macumbeiro... e etc, etc, etc, não tem nada a ver com caráter, sensibilidade, bondade... o que seja. Cada um pode ser o que é à sua maneira, o que vai definir seu caráter é o caminho que escolher. Gosto muito desta frase, do filósofo Heráclito de Éfeso: “o caminho de um indivíduo é o seu caráter”. Ela transmite um sentido dúbio. E pode ser lida também assim: “o caráter de um indivíduo é o seu caminho”. Nem sei bem como é o original. Bom, mas é em grego, então vai numa tradução livre, mantendo o sentido.

E não há somente as pessoas de bom caráter e as de mau caráter. A não ser que sejamos maniqueus, e não consigamos enxergar outras possibilidades para definir a maneira como nos portamos diante do mundo. Porque nós erramos e acertamos permanentemente. Somos capazes de gestos de enorme grandeza moral, mas podemos também cometer canalhices. Orar, rezar, não apaga o que fizemos, só nos deixa tranquilos para “pecar” novamente. Claro, não é bem assim. Quis ser irônico.

Não é o mundo que é metafísico, são as ideias dominantes e a maneira de enxerga-lo tornada verdade dogmatizada pela religião. O mundo tal como existe foi criado pelo ser humano e está impregnado de visões metafísicas, pois esta é a melhor condição para deixar as pessoas inertes, passivas, dominadas, entregues às fantasias que elas imaginam ser delas, mas que são oferecidas por aqueles que constroem este mundo seguindo seus objetivos. Sim, porque este mundo, que não é metafísico, é real, e material, adquiriu esta condição por ter sido arquitetado e edificado segundo determinados interesses.

O que se constrói daí, metafisicamente ou não, decorre de tudo isso. Fantasias, sonhos, deuses, demônios, mitos, celebridades. Nossa formação está umbilicalmente ligada a tudo isso. A um mundo que incorpora as suas próprias contradições e transforma tudo em mercadorias.

Um brinde à Baco, Deus do vinho. Baco carrega os prazeres humanos. Já que meio homem, meio Deus. Quer saber a origem da expressão “feito nas coxas?” Então conheça como se deu a gestação de Baco, numa iniciativa de Zeus para protegê-lo, visto ser ele oriundo de uma escapadela com uma mortal. Mas isso é outra história. E o prazer que Baco transmite é por essa bebida mágica.

***

Falemos dos prazeres bucólico. Isso que é a felicidade para alguns, quem já a viveu, e para mim, que mesmo interiorano nunca fui roceiro, infelizmente. Todo esse prazer, que queremos ter algum dia, essa fantasia de nos reencontrarmos com a natureza, também virou negócio. O que antes era natural virou artificial. Como dizia Milton Santos, não há mais natureza natural. E se fosse vivo ele estaria dizendo que o que era natural está sendo devastado pelo ser humano, e pelo fogo. Ou, pelo fogo espalhado pelo ser humano. Imaginem quando não houver água para apagá-los.

Quanto às certezas, não as temos. Embora tentemos sempre transmitir a impressão de que o que falamos é o definitivo. Bom, é definitivo... até que alguém prove o contrário. E isso, inevitavelmente, sempre termina acontecendo. Porque o que dizemos, o que sentimos, é condicionado pelo momento, o lugar e as circunstâncias. Quando me refiro à noção de felicidade quero dizer exatamente isso, cada um vai se sentir feliz sob determinada circunstância, mas sabemos que isso não é definitivo.

Existem os ditos populares que falam: "depois da tempestade vem a bonança", ou de que "quando a coisa tá boa demais é sinal de que alguma desgraça vai acontecer". Ou seja, as condições objetivas de cada momento é que vão definir o que significa sentir-se feliz, está satisfeito com a condição dada pelo mundo não somente para si, mas para sua família.

Minha filha, Carol: Saudades!

Eu não sou feliz, mas já fui feliz. Sou uma pessoa alegre, animada, enturmada, às vezes mal humorada, já sofri na vida dores profundas, mas não mais do que milhares de outras pessoas. Amo as pessoas que me amam, ignoro as que não gostam de mim. Sei que devo aproveitar, sempre, o momento que nós vivemos da melhor maneira possível. Procuro adotar a filosofia do “carpe diem” (Aproveite o dia, confia o mínimo no amanhã), mas não sou egoísta.

Meus momentos alegres são entrecortados com visões terríveis das condições em que vivem milhares de pessoas. Olhando para elas posso me considerar uma pessoa feliz? Mas não vou fazer voto de pobreza, e deixar de sonhar com meu sitiozinho confortável, com internet e wireless para ler o que eu quiser deitado numa rede. Algum dia, quem sabe? materializo isso.

Isso não são certezas. São convicções. E se há algum amargor no que falo, isso vem da impossibilidade, como D. Quixote de La Mancha, de encontrar mecanismos verdadeiramente adequados para lutar por tudo isso, ou contra tudo isso que está aí e nos atormenta. Daí, às vezes a amargura, a angústia... mas sei que nada do que está aí é eterno. Ou, como diz o poeta, “é eterno enquanto dure”. Inclusive nós mesmos.

Cabe a cada um a iniciativa de buscar esses caminhos, ou seguir com a construção adequada aos vários significados que vamos dando, de acordo com a escolha de vida que fazemos, ou das direções que na encruzilhada optamos por seguir. Ou – o que não é uma escolha – como lidamos com as tragédias que o acaso produz e fazem com que, independente dos caminhos que existam à nossa frente, tenhamos que superar as adversidades. Isso termina por se tornar parte do cotidiano da vida. Assim é o que acontece, vivemos para superar adversidades.

Por falar em deuses, ou em Deus... A minha verdade, já que estamos numa época da pós-verdade, onde cada um acredita no que deseja acreditar. Que seja assim. Temos Deus dentro de nós. Ele está no coração de cada um. Ou melhor, pode estar. É dele, do coração, que emanam todos os sentimentos, numa íntima e dialética relação com o cérebro. E o que temos não nos foi dado, foi construído... Ou, às vezes, conquistado, tomado, arrancado.

E o coração pulsa, acelera seus batimentos no ritmo da intensidade emotiva: ódio, amor, inveja, raiva... saudades! Sigamos no ritmo da música: “Bate, bate, coração, dentro desse velho peito, você já está acostumado a ser maltratado a não ter direito”.

Na vida são muitas as impertinências. Mas ser impertinente é meio chato. O que escrevo aqui, diferente de outras crônicas, é como um desabafo, uma contrariedade com a vida e na aversão a como os deuses que criamos constroem um mundo desigual e acomodado. E de como nos desiludimos no caminhar dessa vida com as perdas que arrancam pedaços no coração. É nele que se encontra o poder da divindade, o sentimento do mundo, a frustração da dor, a angústia da impotência humana diante da irreversibilidade da morte. É dele que em alguns momentos extraímos um pouco da nossa impertinência.

“Mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que vem do coração”! E seguimos no ritmo da música, para ouvir o coração.

Será que é ele quem comanda nosso cérebro? Quem sabe?

“As águas deságuam para o mar, meus olhos vivem cheios d´água, chorando, molhando o meu rosto de tanto desgosto, me causando mágoa. Mas meu coração só tem amor, e amor tivera mesmo pra valer, por isso a gente pena, sofre e chora coração... E morre todo dia sem saber.”

Às vezes, em alguns momentos, cada um de nós se torna um pouco (ou muito) impertinente.

Me sinto assim neste momento. Mas...

“Bate, bate, bate coração, não ligue deixe quem quiser falar. Porque o que se leva dessa vida coração, é o amor que a gente tem pra dar”.

E a vida segue, dialeticamente. Às vezes maravilha. Noutras vezes, sofrimento.

Mas, como dizia Louis Armstrong, com sua voz tonitruante, “este é um mundo maravilhoso”. O problema é o que nós estamos fazendo com ele.

Perdoem-me as minhas impertinências, as reminiscências e os meus devaneios. 


Quem gosta de poesia e MPB deve ter percebido que usei frases aqui de várias músicas. Vamos lá. Bora dar os créditos a quem de direito, merece:

 

Soneto da Fidelidade – Vinícius de Moraes

Bate Coração – Antonio Barros e Cecéu – Elba Ramalho

Canção da América – Milton Nascimento e Fernando Brandt

O que é o que é? - Gonzaguinha

What a Wonderful World – Louis Armstrong

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O EFEITO BORBOLETA! OU A TEORIA DO CAOS APLICADA À POLÍTICA BRASILEIRA

Muitos, provavelmente, já ouviram falar do “Efeito Borboleta”. Pelo menos já devem ter ouvido ou lido sobre essa expressão. Um número menor de pessoas vinculará isso à “Teoria do Caos”. Mas, seguramente quem gosta de cinema já deve ter assistido algum filme com essa temática. Inclusive com esse mesmo nome “O Efeito Borboleta”, que se repetiu, uma, duas, três vezes... com esse nome ou com outros, mas abordando esse tema.

Por outros caminhos também se tenta compreender a dimensão do tempo, e o eterno sonho humano de se transportar para épocas passadas, ou para o futuro. “Feitiço do Tempo”, com um roteiro inteligente, imagina um indivíduo preso à sua estressante rotina, em um dia que se repete irritantemente.

“De volta para o futuro”, iconicamente mantém um séquito de apreciadores (eu dentre eles) dos mistérios do tempo que se foi, e que se vai. E neste ainda se pode identificar também um pouco do “efeito borboleta”, e como resultado uma infinidade de hipóteses, na tentativa de modificar o passado. Ou seja, o efeito que uma possível mudança de um fato passado pode desencadear uma sucessão de eventos no presente, e afetar o futuro. Ou o que poderá vir a ser o futuro. Um fato, desconexo ou provocado, pode produzir situações inesperadas, mas o que seria dos fatos seguintes se esse acontecimento fosse modificado? Seria possível isso acontecer? E se acontecesse, poderia afetar todo o curso da história humana dali em diante?

Vou tentar desvendar esse mistério, porque certamente vocês estão se indagando por que razão venho agora a falar de “Efeito Borboleta”, “Teoria do Caos” ou “Feitiço do Tempo”.

Retornemos no tempo, não fisicamente, mas resgatando da história fatos acontecidos que com um pouco de reflexão e razão, poderiam ter seguidos por outros caminhos. Me refiro às eleições de 2014 e o comportamento adotado pela oposição de não aceitação do resultado eleitoral.

O efeito borboleta se refere a identificação de algum fenômeno, mesmo que aparentemente sem importância, que possui o poder de alterar todo o curso da natureza ou da sociedade humana. Indistintamente, em qualquer parte do mundo, como afirmou o matemático e meteorologista, autor da teoria que expressou essa denominação: “poderia o bater da asa de uma borboleta causar um tornado no Texas?” (Edward Lorenz, 1972).

De uma indagação à comprovação, se deu quando Lorenz percebeu, ao usar uma formulação matemática para aplicar em cálculos de padrões climáticos. Numa primeira vez ele usou seis casas decimais após a vírgula 0,000001, ao refazer optou por usar uma quantidade menor de casas decimais (0,0001). Mas o resultado o surpreendeu. Muito embora a mudança não significasse grande coisa, aparentes insignificantes zeros depois da vírgula, os resultados foram bem diferentes. Isso o fez perceber que sistemas complexos possuem comportamentos altamente sensíveis provocando mudanças em todo o sistema. Nascia, assim, a teoria do caos.

Naturalmente isso viria a demonstrar a imprevisibilidade do futuro, na medida em que qualquer pequena mudança no transcurso de um processo histórico levaria a situações inesperadas que surgiriam em um efeito cascata, impossível de ser controlado. E essas mudanças ocorrem sempre, de forma imponderável ou mesmo provocadas. Mas em nenhuma das situações se pode prever que o resultado seja o desejado.

Por assim dizer, o bater das asas de uma borboleta gerando um efeito catastrófico do outro lado do mundo, corresponderia a situações que indicam haver uma sintonia aleatória entre fenômenos que acontecem por todos os cantos, que de alguma maneira, em algum momento, terão suas correspondências identificadas. Por menores que sejam, esses fenômenos têm o poder de influenciar alterações substanciais, e se não são pressentidos podem levar a descontroles na natureza ou na sociedade.

Mas o caos não necessariamente significa desordem. É resultado de sucessivas ações aparentemente descoordenadas, mas em muitos casos previsíveis, que irão modificar a ordem, alterando-a em direções inesperadas e gerando resultados que se opõem ao inicialmente pensado originalmente. Por ser, assim, imprevisível, pode se transformar em algo de difícil retorno ao caminho aparentemente natural, e o seu controle, pelas aberrações que podem gerar, tende a demorar muito no tempo, provocando grandes reveses.

Enfim, quero assim dizer que o Brasil está passando pelas consequências do “efeito borboleta”. Mas não teria sido somente em um momento, mas em uma sequência de fatos, inesperados, que nos trouxeram para uma situação de caos político e social.

Um primeiro momento teria sido a manutenção da presidenta Dilma Roussef como candidata à reeleição. Inegavelmente o nome do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva seria o candidato capaz de amenizar um estremecimento político que nas vésperas da eleição já apresentava os sintomas sísmicos do que viria a acontecer caso ela se reelegesse. Em isso acontecendo, uma sucessão de fatos se acelerou nos colocando numa espiral, bem no olho de um furacão.

O segundo momento, que possibilitou mais uma reviravolta surpreendente se deu com a ação isolada e irresponsável de um indivíduo que nutria um ódio místico pelo candidato Jair Bolsonaro, e daí a facada dada quase na reta final de uma campanha altamente polarizada se tornou como um definidor daquele resultado eleitoral, com a eleição de um nome completamente inexpressivo na política brasileira, um outsider de comportamento claramente identificado como de extrema-direita. O resultado absolutamente imprevisível para uma política brasileira onde a extrema-direita sempre permaneceu no limbo.

Ora, o que pretendo tecendo esses paralelos, entre o “efeito borboleta”, a teoria do caos e a política brasileira? Evidente que isso se aplica também à geopolítica internacional, e a qualquer país em particular. Mas nosso caso é com o Brasil, e é o que importa olhar agora, mesmo sabendo que não estamos numa bolha.

O que pretendo confrontar com os fatos acontecidos é que nem todos são, ou foram, inesperados. Decorreram de ações mal aplicadas, análises feitas a partir de círculos restritos sem conjunção com outros fatores globais e mesmo internamente. Um exemplo: anos antes da pirueta dada na política brasileira pelo golpe institucional que derrubou a presidenta Dilma, já se espalhava pelo mundo, e em alguns casos na América Latina, uma guerra híbrida, mecanismo pelo qual agentes externos financiam e preparam grupos especializados em fomentar revoltas e desestabilizar governos. Faltou se precaver contra isso. E a guerra híbrida foi aplicada aqui no Brasil a partir de junho de 2013, se intensificando durante a Copa do Mundo em 2014.

Quando analisamos os estudos realizados por Lorenz, que identificou o que ele chamou de “efeito borboleta”, verificamos que determinados fatos, quando acontecem de forma inesperada, imprevista, provocam efeitos que terminam agindo como uma onda magnética, influenciando outros fatos e gerando um efeito cascata. Mas a questão é: há possibilidade de se evitar esse destino trágico, oriundo de uma espécie de negligência com os vários cenários possíveis de ocorrer em um dado momento? É verdade que em algumas situações não, mas em outras, sim, é possível evitar que determinados acontecimentos fujam ao controle de quem está no comando.

O segundo caso analisado aqui pode ser incluído nessa possibilidade de uma quase inevitabilidade. O ataque contra o candidato da extrema-direita, e o deixou numa condição de fragilidade da saúde que poderia tê-lo levado a morte, o fortaleceu na medida em que se afastou de debates e o efeito gerado foi de uma comoção de parcela da população que não consegue identificar o perfil ideológico dos candidatos e se apegam a uma espécie de sebastianismo tupiniquim. Esse fato poderia ter sido evitado caso houvesse uma preocupação da segurança que o protegia. Mas e se isso fosse algo desejado? Infelizmente essa é uma questão de difícil resposta. Ficamos, neste caso, com o chamado “efeito borboleta”, e o caos que tomou conta do estado brasileiro como consequência dessa eleição.

Mas, é possível reverter determinada situação, identificada como responsável por ações aleatórias geradas por esse efeito? Seguramente não será voltando no tempo, visto que isso é absolutamente impossível, muito embora seja o sonho eterno do ser humano. Como visto nas ficções que tratam dessa temática, seja em livros ou filmes, as tentativas de refazer os fatos passados sempre terminam por levar a situações diferentes, inusitadas e em alguns casos muito piores, gerando efeitos catastróficos não somente na vida dos personagens. Daí o “efeito borboleta”, estudado por Lorenz, e a “teoria do caos”, por onde se identifica rumos inesperados com efeitos, com perdão da redundância, caóticos.

E o que fazer quando se pressente o equívoco de decisões que geram tais efeitos? Não se pode deixar de olhar para o passado, obviamente, pois as análises dos possíveis erros estão lá atrás. Necessariamente eles terão que ser estudados a fim de se corrigir os rumos. Mas a repetição na identificação desses erros, em algumas situações de forma provocativa a fim de gerar desgastes políticos, e acusações sobre responsabilidades de atos equivocados, não podem se constituir numa estratégia de disputa visando recompor espaços perdidos. Esse comportamento só contribuirá para fortalecer quem se beneficiou de tais erros.

O essencial, a partir da identificação equilibrada desses erros, é estabelecer uma estratégia que mire nas consequências desses atos, e possibilite desligar o modo aleatório que se tornou o condutor de uma política fundada no caos. Porque o efeito gerado por tais distorções, que no presente tem afundado a democracia e desmoralizado a política, passou a se constituir numa estratégia daqueles que ascenderam o poder por esses mecanismos disfuncionais.

Isso parece simples. Na medida em que, se não é possível consertar o passado, e o futuro é uma construção, é com o foco no que está acontecendo no presente que se pode estabelecer uma estratégia coerente, cujo objetivo deve ser conter os estragos gerados pelos desequilíbrios que podem ser identificados como “efeito borboleta”, responsáveis pela situação caótica que se transformou o mundo, e especificamente o Brasil.

Simples de se identificar o que fazer. A questão é como fazer isso se o caos afeta também setores da esquerda e boa parte dos liberais e os levam por caminhos paralelos, que podem prolongar desesperadamente uma conjuntura política absolutamente fora dos padrões estabelecidos pela democracia liberal. Não há consenso quanto a estratégia a ser adotada, porque tudo se prende às teias dos mecanismos eleitorais e dos objetivos particularistas da disputa do Poder.

Isso pode nos levar a um dilema: se nos próximos cinco anos não for possível reverter esse ambiente político, e recompor os mecanismos democráticos fortemente afetados por uma nova forma de se disputar o poder, absolutamente fora das regras tradicionais (limitadas para as camadas sociais desfavorecidas, mas ainda assim as menos piores nos limites de uma sociedade capitalista), como sempre aconteceu historicamente os recursos que restarão se fundamentarão em desobediência civil, confrontos armados, guerra civil e a propagação de milícias revolucionárias ou não.

Será ainda tempo de conter o “efeito borboleta”? Ou o caos se prolongará até o limite que a sociedade pode suportar? A equação para isso não é meramente matemática.


NOTAS:

(*) Para mais informações sobre o “efeito borboleta”:

Efeito borboleta: o que é e como está presente em nossas vidas - https://www.hipercultura.com/o-efeito-borboleta-em-nossas-vidas/

O que é a teoria do caos e como ela pode afetar sua vida - https://www.hipercultura.com/o-que-e-a-teoria-do-caos-e-como-ela-pode-afetar-sua-vida/

O Efeito Borboleta existe mesmo? - https://gizmodo.uol.com.br/efeito-borboleta-real/

A crise do capitalismo e o efeito borboleta - https://outraspalavras.net/sem-categoria/a-crise-do-capitalismo-e-o-efeito-borboleta/


terça-feira, 25 de agosto de 2020

AS ORIGENS DA INTOLERÂNCIA E O FASCISMO MODERNO

A sociedade brasileira, historicamente, sempre foi "racista". Isso é consequência da formação cultural de um povo que por longo tempo aceitava como dentro da normalidade o tratamento diferenciado a pessoas de cor negra e de classes sociais mais pobres. Por muito tempo também, essas imposições que estavam impregnadas nas relações sociais, eram tão marcantes, e impositivas, que aqueles que eram vítimas do preconceito pouco reagiam, como se aquela condição viesse determinada por algum desígnio divino.

E assim, imposto pelas relações de classes a partir de um regime escravocrata, sob a cumplicidade da igreja e a conformação dos fiéis, culturalmente fomos treinados a aceitar tais diferenças como normais. Os que ousassem se bater contra a estratificação social, que prevaleceu em nosso país desde os seus primórdios, eram de diversas formas, segundo sua época, considerados subversivos. A reação era violenta, porque a classe dominante temia as revoltas populares.

Do ponto de vista científico muitos avanços em pesquisas contribuíram para derrubar vários mitos, criados com o intuito de manter as pessoas acomodadas. O principal deles diz respeito à teoria de que o mundo é constituído por raças, sendo algumas delas consideradas superiores. Mais uma vez a religião foi utilizada para reafirmar essas crenças, possibilitando que inúmeras tragédias e genocídios fossem cometidos. As classes e “raças” inferiores não tinham o direito de se insurgirem, e se assim o fizessem, poderiam ser eliminadas sem que isso pudesse se constituir em crime.

Intolerancia - spaceblog
Mas a ciência desmontou essa farsa, tornada uma arma política para dominar povos mais fracos. Raças não existem. Os povos se diferenciam por seus ambientes, pela necessidade de adaptação a situações diversas e adversas, o que os tornam diferentes. Isso quer dizer que todos os seres humanos carregam em sua formação biológica as mesmas características impressas no DNA, com pequenas diferenças que nos distingue uns dos outros.

Por vivermos em ambientes diferentes e termos que nos adaptarmos a eles, criamos resistências que com o tempo definem o nosso perfil, as nossas características, a nossa cor. Também por isso cultivamos hábitos diferentes, seja na forma de nos relacionarmos ou na maneira como nos alimentamos. O próprio DNA vai definir nossas proximidades parentais, tornando aqueles de cada grupo mais ou menos parecidos, o que cientificamente passou a ser conhecido como diferenças, ou semelhanças étnicas. São etnias, e não raças, que se espalharam pelo mundo. Afinal, somos todos componentes de uma única raça. Somos humanos.

As nossas diferenças foram sempre objetos de manipulação, por quem buscava exercer o controle sobre regiões e territórios ricos e estrategicamente importantes. E isso não se deu somente em relação à dominação que o branco vai exercer, consequência de todo o processo de colonização europeia. Antes disso, mulheres, judeus e homossexuais, padeceram por toda a idade média, rejeitados pelos livros sagrados que traziam em seus parágrafos e parábolas toda uma carga negativa contra essas camadas sociais. Depois, com a expansão colonial e a descoberta de riquezas na África e na América, os negros e os índios entraram nessa lista.

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Mas a igreja permanece entre as instituições mais importantes para reforçar uma série de estigmas. E isso se reforçou, na medida em que a concentração das pessoas nas cidades aumentava, o número de templos se reproduzia aceleradamente e um verdadeiro poder intimidatório, armado, tornava as diversas igrejas, principalmente da religião cristã e muçulmana, verdadeiros instrumentos de dominação mediante o controle das consciências, mas também com um aparato militar poderoso a deflagrar guerras santas contra os que se opusessem a aceitar a influência e o poder de uma delas.

O maniqueísmo, trazido dos tempos antigos, pelos maniqueus, donde vigorou por volta do século III, determinava a existência permanente de um antagonismo, expresso em dois princípios irredutíveis, Deus e o bem absoluto, e o Diabo, ou o mal absoluto. Embora perseguidos por muitos séculos, os adeptos do maniqueísmo sincretizaram esses valores de praticamente todas as grandes religiões. Judaísmo, islamismo, cristianismo, e até o zoroastrismo que foi uma grande influência para elas, fundamentaram seus dogmas escorados nessa dicotomia. Construía-se a ideia de que o mal se manifesta não somente, mas principalmente entre aqueles que não aceitam aquela outra divindade religiosa. Isso serviu, ao longo dos séculos, para justificar comportamentos intolerantes e guerras que passavam a serem justificadas como santas, com objetivo de converter impuros e hereges. Daí se origina a velha expressão: “ficar entre a cruz e a espada”.

Inquisição - condenação das "bruxas
Por toda a idade média acusações contra os que não seguiam os credos da religião dominante serviam como pretexto para condenações de bruxarias, heresias, e outros argumentos que tinham o intuito de forçar a aceitação daqueles valores religiosos. Sempre em plena harmonia com os interesses da classe dominante naquela e em cada época. Guerras e execuções monstruosas expunham os comportamentos intolerantes, da não aceitação das diferenças, e, principalmente, da livre escolha de cada um sobre a maneira de ver o mundo e de se comportar perante ele. O que era "permitido estava nos limites do que era tolerado pelas crenças religiosas, do apego a valores culturais escritos em milenares livros sagrados, em condições históricas e sociais completamente distintas.

O dogma, e seus valores inamovíveis, que constitui a espinha dorsal dessas religiões, sempre carregou preconceitos de outras épocas, aceitas como princípios e valores que não podem ser contrariados. E as mulheres sempre foram as principais vítimas dessas intolerâncias, submetidas aos papéis mais inferiores e à condição de submissão diante do poder autoritário do homem. Isso muda, aos poucos, com o passar do tempo, na medida em que aqueles grupos sociais submetidos ao preconceito conquistam vitórias e obtém, mediante lutas de décadas, leis que lhes favoreçam. A partir daí, preconceitos e atos de intolerância ora escondem-se em comportamentos hipócritas, ora assumem-se de formas violentas e fatais.

Com o advento do capitalismo essas intolerâncias assumem novos contornos. A burguesia necessitava romper com os valores culturais que vigorou por toda a idade média, e mesmo antes. Para isso era preciso não somente agir com dureza contra a nobreza decadente, mas também contra a instituição religiosa que determinava regras que a impediam de consolidar o seu poder dominante, naquele momento em ascensão. Por isso a divisão que surgiu no cristianismo foi um fator importante para a consolidação de novos preceitos dogmáticos.

O Estado capitalista assumiu a condução não somente das questões econômicas, mas também dos novos valores baseados, pelo menos em teoria, na liberdade, igualdade e fraternidade. Teoricamente também, os credos religiosos deveriam se submeter a esse novo poder estatal e a uma carta constitucional que deveria ser laica, a fim de garantir os preceitos democráticos, que deveria atender a todos indistintamente.

Na prática as coisas não aconteceram assim. Por trás das leis permaneciam resquícios de hábitos que continuavam impregnados naqueles valores milenares, e se ampliavam com uma nova lógica que determinava as diferenças a partir da capacidade do indivíduo de acumular riqueza. Assim, além das mulheres, homossexuais, negros, índios, também os pobres passavam a se constituir em alvos de intolerância, por se deslocarem para aqueles lugares que oferecessem as melhores alternativas de sobrevivência.

geografiaetal.blogspot - imigrantes
Muitas vezes estranhos àqueles ambientes essas pessoas tornavam-se malquistas por representarem ameaças aos indivíduos nascidos no lugar. Os estilos de vida diferentes, a cor da pele, e até mesmo as diferenças religiosas, passaram a definir uma nova lógica maniqueísta, que levou a guerras mundiais, com crimes coletivos aterradores. Mesmo quando as razões principais eram econômicas, as religiões estavam presentes, definindo comportamentos e acirrando ódios, quando em tese deveriam ser o oposto. Apesar das exceções, de quem seguiam preceitos éticos e de tolerância. Esses, se descobertos, seriam igualmente eliminados.

A luta em defesa da democracia prevaleceu em meio a muitas, sacrifícios e conquistas, principalmente como decorrência da derrota do nazismo e do fascismo, que em certo momento da história simbolizaram esse ambiente de acirramento das intolerâncias. Mas, sempre que uma determinada sociedade entrava em crise, sintomas crescentes de comportamentos intolerantes reacendiam e tornavam-se mais frequentes. E isso atingiu o auge, nesses novos tempos inaugurados com a chamada globalização e o crescente individualismo. Como em outras épocas a religião volta a se destacar, introduzindo novos valores, agora com a marca da “teologia da prosperidade”, por força do crescimento das igrejas neopentecostais.

Em algumas sociedades impera a contraposição aos “valores ocidentais”, e opõe cristãos x muçulmanos, muçulmanos x judeus, e mesmo no Ocidente, cristãos protestantes x católicos. Em todas elas, carregando dogmas seculares, se mantém e se acirram com as crises, a reação contra ateus, homossexuais e a preocupação em não dar às mulheres a plena condição de decidir sobre seu corpo. As mulheres sempre foram vítimas de preconceitos em todas as religiões.

intolerancia -
presoporfora.blogspot
E isso explica toda a violência que se mantém até os dias de hoje. Ora, de onde são retirados todos os ódios que se dirigem aos mesmos alvos de tantos séculos? As piadas, os constrangimentos, as brutalidades, se disseminam com a mesma estupidez de sempre, mas vêm carregadas de novos estigmas. Novos na forma, antigos no conteúdo, pois seguem a mesma lógica. Mulheres continuam sendo agredidas, embora leis cada vez mais duras sejam criadas; homossexuais são atacados, espancados e assassinados, e tanto quanto as mulheres são impedidos de definir o que fazer de seus corpos, e de suas escolhas sexuais; pobres, são vistos como ameaças a jovens que se julgam no direito de determinar quem deve se dar bem nos vários lugares, cidades, estados ou nações; e os ateus, cujo crime é buscar ver  a vida na compreensão de que a explicação para tudo o que nos cerca encontra-se na própria biodiversidade em plena transformação desde milhões de anos e de que a crença em um deus é uma das mais perfeitas criações humanas.

Mas, então, o que explica o fato de mesmo após de tantas conquistas e leis tais preconceitos e atos intolerantes permanecerem? Em minha opinião a religião é um fator preponderante. Nesta nova etapa da vida humana, século XXI, potencializada pela mais perversa delas, a religião do capital. Essa, nos dias de hoje definem o fascismo moderno, acentuado nesses anos de globalização neoliberal, cujos alicerces se sustentam no individualismo, no egoísmo e na ganância.

O mesmo capital que se torna a causa que motiva guerras religiosas, seja na disputa por territórios sagrados, de enorme riqueza mineral, ou pela ferrenha disputa pelos dízimos de milhões de ingênuos seguidores de pretensos apóstolos divinos. A religião do capital impregnou a sociedade e fez aumentar a intolerância religiosa, porque quanto mais a disputa pelo dinheiro seja o fator primordial, mas se tem a necessidade de defendê-lo e ampliar constantemente a possibilidade de maiores ganhos.

Em contrapartida, mas também marchando lado a lado com os interesses religiosos seculares, a disputa pelo poder, a política, e a crescente radicalidade de discursos xenófobos (de aversão ao estrangeiro), moralistas e preconceituosos. Na disputa pelo poder, o grande Poder, as grandes corporações midiáticas, entram com sua parcela considerável de culpa, ao posicionar-se ao lado de partidos e de políticos que assumem comportamentos fundados na intolerância. E a razão clara disso sempre foi conter a ascensão de personagens populares que não estivessem diretamente vinculados às elites secularmente dominantes.

Isso se expressou não somente nos períodos eleitorais, mas na aversão às políticas de inclusão social que buscavam minimamente resgatar dívidas causadas por esses valores culturais dominantes e preconceituosos. As políticas de cotas tornaram-se alvos de articulistas conservadores e políticos reacionários. Os velhos sicofantas religiosos arrepiaram-se e afiaram seus discursos, tentando impor a todos suas velhas crenças com base na meritocracia.

homofobia
Com isso a radicalidade do discurso preconceituoso e intolerante construiu nos templos, nas redações, nas escolas, nas ruas estressantes e perigosas para esses segmentos, os novos fascistas, remanescentes de práticas seculares, tão estúpidos, hipócritas e criminosos quanto todas as demais épocas da história. E, muito embora a época moderna traduza-se pelos avanços de leis democráticas, a dependência da decisão de uma justiça refém também de valores conservadores e moralistas, e presa aos interesses da elite dominante, reforçava a velha sensação de impunidade que mantém as cadeias abertas apenas para os pobres.

Ainda no âmbito da justiça, esses fascistas modernos se municiaram não somente de velhas crenças, mas também na impunidade que o dinheiro proporciona, nas brechas da lei e no que nos mostra o censo carcerário, onde 70% não completou o primeiro grau e cerca de 10% é analfabeto. Ou seja, se a cadeia é feita para o pobre, o que impede neo-fascistas e neo-nazistas oriundos de famílias ricas, de agirem contra o que eles consideram escória?

O fascismo moderno não aparece espontaneamente na cabeça de jovens. É fruto de teorias preconceituosas e de instrumentos sociais que criam e reforçam valores que se baseiam na intolerância, na não aceitação das diferenças, e na liberdade de as pessoas definirem suas opções sexuais. Como na atitude bisonha e estúpida de um deputado pastor que pretendia criar medidas que desfizesse a condição de ser dos homossexuais. Como se uma lei pudesse conter as escolhas sexuais de qualquer pessoa. A não ser numa sociedade totalitária, controlada por um governo fascista.

Tudo isso sempre fez parte de dogmas que permanecem sendo instigados de forma instrumental em templos, tabernáculos, igrejas e mesquitas de todo o mundo, muito embora não se constitua em regra geral nem tenha relação com a fé individual, de cada pessoa, com sua legítima crença e liberdade de acreditar no que lhe convier. É algo construído pela religião, e os que controlam as igrejas, e por esses meios se apropriam da fé do povo.

São teorias também que fundamentam programas partidários que representam setores econômicos dominantes e a classe média alta, branca, mas que pelo reforço ideológico religioso dissemina-se indistintamente por todas as demais classes sociais, apontam para perigosos caminhos, se refletem de forma mais agressivas em alguns países, que se expandiram na medida do crescimento da crise econômica mundial e que tende a se ampliar com a pandemia da Covid19, juntamente com o medo e insegurança que afetam as pessoas.

A consolidação de direitos, e de medidas legais contra o preconceito é bem recente no Brasil. Data da elaboração da Constituição de 1988, juntamente com a criação de instrumentos de punição, como o Ministério Público, instituições que surgiram e se fortaleceram, algumas sem vínculos diretos com o Estado, mas também com a criação de Ministérios, Secretarias e delegacias, voltadas para a defesa dos direitos humanos e das mulheres. Mas essas estruturas e leis não estão sobrevivendo à nova onda conservadora, moralista e perversa que se instalou em nosso país desde a última eleição, reabrindo feridas antigas e destilando ódios e preconceitos, em nome da “família cristã” e de um deus perverso, elitista, criado por pessoas pérfidas e de mau-caráter. A marca desse fascismo dos tempos atuais está se impregnando mais fortemente na sociedade, e deixarão feridas que irão demorar a cicatrizar.

Como na vida nada é eterno, esse será mais um período que será superado, muito embora com sacrifícios, lutas de classes e processos intensos de confrontação seja política ou por meio de violência revolucionária. Pois é assim que se tem escrito a história da humanidade e as transformações sociais. Isso é inevitável.

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(*) Esse artigo é uma adaptação do original publicado neste Blog em 2012:

https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html

sábado, 15 de agosto de 2020

O DESPERTAR DAS BESTAS (3ª PARTE)

O-despertar-da-besta-1969- José Mogica Marins

Em dezembro de 2019 escrevi neste blog o segundo artigo, com o mesmo título acima, em que analiso as transformações que aconteceram no Brasil na segunda década deste século. Uma análise que venho fazendo já há muito tempo, em outros textos que podem ser aferidos numa simples pesquisa sobre o que já publiquei relacionado à política brasileira e ao “cavalo de pau” que aconteceu na geopolítica mundial nesse período. Enfim, essa loucura toda não estava restrita somente ao Brasil.

Mas 2020 nos traria muito mais surpresas. Despertadas, as bestas infernizaram, literalmente, a política brasileira. Jamais se viu em nossa história política atos tão tacanhos, comportamentos impressionantemente estúpidos e uso de expressões chulas, feitas e ditas por um dirigente político alçado ao maior cargo de nossa república. No entanto, nos espantaríamos mais saber que existia, e existe, dentre os mais de 200 milhões de habitantes desse país, um quantitativo inacreditável de pessoas que não somente apoiam esses comportamentos, como garantem a sustentação de um governo absolutamente irresponsável. Reforçam, assim, atitudes que facilmente nos permitem avaliar os traços de caráter dos que atualmente comandam o estado brasileiro.

Ora, se entendemos ser fácil definir os traços de caráter dos que estão à frente do Poder, achincalhando a nossa frágil república, como é possível explicar tantos seguidores a lhes dar apoio e a compartilhar, por meio das redes sociais, atitudes que podem ser consideradas desprezíveis?

Nos artigos anteriores analiso as conjunturas políticas em dois momentos. Do golpe institucional de 2016, contra a presidenta Dilma Roussef, que levou ao poder o seu vice Michel Temer, político de perfil oportunista, que ascendeu a esse cargo como resultado do jogo político brasileiro tradicionalmente manchado por um presidencialismo de coalizão corrompido, no qual a esquerda sucumbiu estimulada pelo pragmatismo político;[1] ao resultado inesperado, mas consequência de uma série de situações criadas por erros dos próprios governos de esquerda, mas principalmente pela guerra híbrida que se desenrolou também aqui no Brasil, impulsionado de maneira decisiva pela grande mídia, que gerou como resultado um personagem do baixo clero político do Congresso Nacional, absolutamente inexpressivo em suas duas décadas de “atuação” parlamentar e transformou a nossa política em um mosaico estilo franksteniano. Ou pelo menos deixou bem nítido que esse problema de caráter pode não ser exceção, e possibilitou o despertar das bestas. O significado dessa expressão eu explico no segundo artigo.[2]

No entanto, mais do que um comportamento que identifica as características do perfil de indivíduos reacionários, sem caráter e absolutamente desprovidos de qualquer empatia, o que se desenvolviam eram mecanismos construídos por uma estratégia planejada, onde a estupidez e a disseminação do ódio percorriam por caminhos psicossociais, e encontravam na outra ponta uma quantidade grande de pessoas aptas a assimilarem todos os engendramentos perversos de ações e atos que adequaram ao século XXI práticas utilizadas em outros momentos da história que culminaram em genocídios, ditaduras, fratricídios, racismo, homofobia, xenofobia, feminicídio e outras perversidades. Em meio a tudo isso, o uso da fé como componente forte a manipular e incorporar o ódio por meio de valores tradicionais milenares, transpostos de uma era para outra anacronicamente, a repetir dogmas que em outros tempos possibilitaram perseguições, julgamentos morais, inquisição e assassinatos impiedosos por questões de escolhas ideológicas.

É preciso, no entanto, que saibamos compreender a dimensão exata de porque houve uma mudança tão radical no comportamento da população, que em menos de uma década passa a assumir escolhas e posturas tão diferentes, indo de um extremo a outro no espectro político brasileiro. E, também como se deu a reação a esse comportamento por parte dos segmentos de esquerda e dos setores mais intelectualizados da sociedade, tanto nas universidades, quanto na área cultural. Ao mesmo tempo, a necessária compreensão de como a conjuntura se altera rapidamente, não somente como consequência de ações políticas, mas por outro fator que passa a afetar todo o mundo, e completa uma realidade caótica que já se delineara com essas mudanças políticas. Mais do que o despertar das bestas, o que se viu foi um verdadeiro cenário apocalíptico, pior do que a humanidade já vira na Idade Média, com a peste bubônica, e no começo do século XX, com o vírus influenza, gerador da “gripe espanhola”.

A Covid19, gerada por uma mutação de um velho conhecido, batizado agora de Sars Cov-2, trouxe desorganização sistêmica, confusão pandêmica, recessão econômica com um freio em boa parte das cadeias produtivas e ajudou a disseminar um caos político que, em parte já estava em curso, por meio da estratégia que transformou a política brasileira. Embora não atingindo somente o Brasil, a pandemia gerou situações caóticas principalmente naqueles países cujos governantes assumiram o poder apostando no caos, desconstruindo a política e desmoralizando a democracia.

Sobre isso já fiz algumas abordagens e escrevi artigos tanto nesse blog quanto em revistas eletrônicas. Quero me concentrar nos resultados gerados pelo caos social e econômico, e o revés político que tem particularidades que merecem ser devidamente estudadas. A estratégia do caos, nítida no comportamento do governo Jair Bolsonaro é evidente, apesar de uma estabilizada momentaneamente em suas falas desconexas e aparentemente estúpidas, principalmente desde que o Supremo Tribunal Federal abriu investigação contra grupos de extrema-direita, fascistas, que fizeram da mentira uma arma e das redes sociais mísseis a mirar instituições e adversários políticos. Assim como devido à crescente investigação sobre o mal feitos de seus filhos, até a prisão de um velho aliado, e verdadeiro capataz, administrador de um séquito de assessores fantasmas de toda sua família. Até o “cercadinho” dos horrores, em frente à residência oficial, se desfez, alterando o comportamento que até então era de bravatas, bazófias e estultices, devidamente compartilhadas.

Em meio a tudo isso, uma indiferença fria e desumana aos milhares de brasileiros e brasileiras mortos vítima de uma doença para a qual ainda não existe vacina, e o governo a trata de maneira insignificante, com desdém impressionante. Escorado num auxílio econômico emergencial, que tem chegado a dezenas de milhões de pessoas, em muitos casos, com um valor bem acima do que era pago pelo Bolsa Família, embora abaixo das necessidades das famílias de pessoas pobres e desempregadas, o que se viu foi uma inversão na curva de impopularidade que o ameaçava nos últimos meses.

Não era uma mudança impossível de se prever. É sabido que todo governante se mantém com popularidade mediante ações que atendam a situações extremas do povo em condições adversas. Esse é um aspecto, que teve também seus momentos de glórias nos governos de esquerda, quando da investigação do “mensalão” e uma situação econômica que favorecia o governo, reelegeu o presidente Lula e impulsionou a candidatura de Dilma Rousseff, até uma virada como consequência dos descontroles fiscais e equívocos cometidos nas políticas de desonerações para beneficiar setores importantes da economia brasileira. Como sempre, principalmente em sociedades marcadas por desigualdades vergonhosas, a dependência do Estado faz com que o sabor das escolhas políticas, principalmente entre os mais pobres, esteja condicionado às circunstâncias das políticas econômicas.

A crise econômica potencializada pelo Covid19, a confusão política protagonizada pela família Bolsonaro et caterva, o medo do desemprego, as fake-news a gerar um vôo cego em boa parte da população em relação à essa doença, a insensatez, insensibilidade e perversões de todas as formas, espalharam na sociedade um efeito dispersivo, um comportamento aleatório, que evidentemente, só poderia beneficiar os que viam, e veem, no caos, o caminho para se imporem no comando político do estado brasileiro.

Enquanto isso o comportamento dos setores de esquerda, mesmo das camadas mais intelectualizadas, e dos setores culturais, embora mantivessem o espírito de combatividade que lhes é peculiar, pecou por agir seguindo a onda aleatória e sucumbindo à estratégia do caos. Adotou os mecanismos de enfrentamento que eram utilizados pelo bolsonarismo, transformando a política em um nonsense, caindo na armadilha de ir para um enfrentamento, nitidamente numa postura defensiva, tendo como base a ironia, a negação dos erros cometidos e a indiferença em relação ao poder religioso evangélico, tradicional e reacionário, que se escondia por trás de líderes-pastores travestidos de políticos, camaleões, que se infiltraram nos governos anteriores, mas que mantinham um projeto de poder entrelaçado com suas pregações nos púlpitos.

A esquerda abdicou do debate ideológico e transformou as redes sociais em ambientes tóxicos, tal qual a direita já vinha fazendo há anos. A ponto de se disseminar um outro efeito, causado pelas lutas identitárias, de uma já chamada “cultura do cancelamento”, pelo qual se atinge quem porventura cometer algum deslize no trato das questões relacionadas à essas lutas, mesmo que sendo progressista e de esquerda. Até mesmo setores do movimento anarquista, libertário, também alinhado com as lutas populares, passaram a tecer críticas ao movimento antifascista, em meio a denúncias de dossiês sendo feito pelo Ministério da Justiça contra esses movimentos, para serem repassados à Agência Brasileira de Inteligência, e até mesmo sendo entregues a autoridades estadunidenses. Ou seja, para onde é possível a população olhar e enxergar uma luz no fim do túnel, que não seja de uma locomotiva vindo em sua direção?

Isso explica, em parte, o inesperado resultado da pesquisa Datafolha, publicada no dia 13.08, dando indicativas de um crescimento da aceitação do governo Bolsonaro, em praticamente quase todos os segmentos sociais. Em alguns desses segmentos, principalmente entre os mais pobres, com pico elevado de aumento da popularidade, de um presidente que se caracteriza por banalizar a política e fazer do ridículo o elemento condutor de seus comportamentos.

Não há acasos na história. Para tudo existem explicações e causas que nos ensinam como se dão os processos de transformações sociais, as crises econômicas e o caos político, que sempre leva estados a situações de enfrentamentos entre classes sociais, processos revolucionários ou ascensão de governos autoritários e de viés fascista. Como numa guerra, se não houver um enfrentamento organizado, com uma estratégia adequada a fazer do combate ao inimigo resultados promissores e vitórias parciais e definitivas, também na política jamais se obterá sucesso se não houver planejamento nas ações, com objetivos bem delineados e aglutinação de forças que se sobreponham ao poder adversário e imponham sucessivas derrotas. Nenhuma vitória será possível se não houver essa conjunção de fatores, e, principalmente, a adoção de atitudes, ações e proposições coerentes, que consigam levar à população uma confiança capaz de reverter os caminhos pelos quais ela está seguindo. Caso contrário, o adversário, mesmo apostando no caos, na ignorância e na estupidez, se sagrará vitorioso nesse embate de forças para conquistar apoio político e desencadear um processo de virada no espectro político no país.

Charge - Para além dos cérebros

Não me parece que, neste momento, a esquerda esteja conseguindo fazer isso. Pois não consegue se unificar, não possui uma estratégia adequada, os vícios da hegemonia na disputa do poder se mantêm como freio à qualquer aliança possível, e a ilusão eleitoral como saída dessa situação. É evidente, que em se tratando de uma democracia capitalista, o processo eleitoral é determinante. Mas ele não pode ser visto como um instrumento de transformação, senão como consequência das transformações que possam ser feitas a partir da organização e conscientização das massas populares e das camadas trabalhadoras. É o contrário do que está sendo feito, quando se busca obsessivamente por mandatos que possam influenciar a forma da população se comportar politicamente.

Infelizmente, as organizações sociais e entidades de trabalhadores transformaram-se em clubes de simpatizantes de causas, que embora justas, não agregam senão aqueles que já são militantes e/ou os que possuem uma postura crítica e de esquerda. Isso não é suficiente. As periferias das grandes cidades, e as pequenas cidades, estão sendo tomadas por forças conservadoras, neopentecostais, que destroem a capacidade crítica das pessoas, e as aprisionam em valores que são geradores de ódios e intolerância.

É claro que essa indiferença das pessoas em relação à importância de suas participações em sindicatos e associações, não se deve somente a erros de estratégia da esquerda. Mas também foi algo construído ao longo de tempo, com medidas cerceadoras contra essas entidades, mudanças que implicaram em reduzir suas finanças e leis que pulverizaram o sindicalismo, de forma a possibilitar sua divisão. Embora essa fratura tenha sido aceita por muitos da própria esquerda, como desejada, a fim de cada partido poder possuir uma central sindical como instrumento de suas lutas.

Restou à juventude manter sua unificação em torno de suas entidades nacionais, nos âmbitos secundaristas, universitário e pós-graduandos. Malgrado as diferenças que existem ideologicamente em seus meios, o que não é um problema em si, desde que as divergências não ajudem mais o inimigo do que à suas causas. Porque é a essa juventude que recairá o peso maior tanto das consequências dessas políticas nefastas que estão destruindo o estado brasileiro, e a educação como principal alvo, como também porque terá que sair dela, da juventude, a força que poderá fazer com que o futuro do nosso país não seja na direção de um estado fascista, guiado por uma sharia cristã neopentecostal a se contrapor a uma constituição laica e progressista.

Evidente que a esquerda brasileira não é um monolítico. Como também a direita não é. Mas a coesão quase sempre se dá quando uma conjunção de interesses, que mirem em objetivos coletivos e em prol da sociedade, se sobrepõe à posturas hegemônicas, individualistas, com preocupações focadas meramente na ampliação de suas organizações e que se imponha sobre vaidades de líderes que se cegam, e mantem a cegueira como uma doença transmissível para os seus seguidores, que passam a agir truculentamente contra os que não sigam as suas concepções políticas e interesses eleitorais.

Não pretendo carregar aqui o baú da verdade absoluta. São apenas visões, críticas, que acumulei ao longo desses anos, expressos em artigos críticos já publicados aqui neste blog, e que podem ser revistos, claro atentando-se para as datas em que foram escritos. Mas o que desejo é, mais do que querer ser lido compulsivamente, o que do alto de minha pequena modéstia sei ser impossível, é desabafar em relação à uma conjuntura que me aborrece, me intranquiliza e me deixa frustrado depois de quatro décadas de lutas, imaginando poder ver na minha velhice uma parte do nosso caminho pavimentado na direção de uma sociedade menos desigual, tolerante, crítica, avessa ao autoritarismo, defensora do livre debate e da aceitação das ideias divergentes e das concepções e posturas diferentes, como uma condição de ser humano.

Como já escrevi em outros momentos, o futuro não existe. Ele é uma construção do presente, que pode dar certo ou errado a depender dos ensinamentos adquiridos pelo passado. No momento, infelizmente, o futuro é sombrio, tendo como referência as condições em que estamos vivendo. Mas é evidente que é possível mudar, as mudanças estão em nossas mãos. No entanto, isso só será possível se aquelas pessoas que assim desejam, compreenderem que é necessário alterar o curso da história, e que isso só será capaz de acontecer, se mudarem também seus comportamentos, adotarem estratégias coerentes e criarem novas condições para que o nosso futuro possível seja melhor do que o presente.

Por fim, para não deixar a poesia de lado, insiro os versos de uma música de Caetano Veloso, que se encaixa bem nesse momento:[3]

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos, e perdem os verdes... Somos uns boçais. Será que nunca faremos senão confirmar, a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será que será que será que será, será que essa minha estúpida retórica, terá que soar, terá que se ouvir, por mais zil anos?”