A sociedade
brasileira, historicamente, sempre foi "racista". Isso é consequência
da formação cultural de um povo que por longo tempo aceitava como dentro da
normalidade o tratamento diferenciado a pessoas de cor negra e de classes
sociais mais pobres. Por muito tempo também, essas imposições que estavam
impregnadas nas relações sociais, eram tão marcantes, e impositivas, que
aqueles que eram vítimas do preconceito pouco reagiam, como se aquela condição
viesse determinada por algum desígnio divino.
E assim, imposto
pelas relações de classes a partir de um regime escravocrata, sob a
cumplicidade da igreja e a conformação dos fiéis, culturalmente fomos treinados
a aceitar tais diferenças como normais. Os que ousassem se bater contra a
estratificação social, que prevaleceu em nosso país desde os seus primórdios,
eram de diversas formas, segundo sua época, considerados subversivos. A reação
era violenta, porque a classe dominante temia as revoltas populares.
Do ponto de vista
científico muitos avanços em pesquisas contribuíram para derrubar vários mitos,
criados com o intuito de manter as pessoas acomodadas. O principal deles diz
respeito à teoria de que o mundo é constituído por raças, sendo algumas delas
consideradas superiores. Mais uma vez a religião foi utilizada para reafirmar essas
crenças, possibilitando que inúmeras tragédias e genocídios fossem cometidos.
As classes e “raças” inferiores não tinham o direito de se insurgirem, e se
assim o fizessem, poderiam ser eliminadas sem que isso pudesse se constituir em
crime.
Intolerancia - spaceblog |
Por vivermos em
ambientes diferentes e termos que nos adaptarmos a eles, criamos resistências
que com o tempo definem o nosso perfil, as nossas características, a nossa cor.
Também por isso cultivamos hábitos diferentes, seja na forma de nos
relacionarmos ou na maneira como nos alimentamos. O próprio DNA vai definir
nossas proximidades parentais, tornando aqueles de cada grupo mais ou menos
parecidos, o que cientificamente passou a ser conhecido como diferenças, ou
semelhanças étnicas. São etnias, e não raças, que se espalharam pelo mundo.
Afinal, somos todos componentes de uma única raça. Somos humanos.
As nossas
diferenças foram sempre objetos de manipulação, por quem buscava exercer o
controle sobre regiões e territórios ricos e estrategicamente importantes. E
isso não se deu somente em relação à dominação que o branco vai exercer,
consequência de todo o processo de colonização europeia. Antes disso, mulheres,
judeus e homossexuais, padeceram por toda a idade média, rejeitados pelos
livros sagrados que traziam em seus parágrafos e parábolas toda uma carga
negativa contra essas camadas sociais. Depois, com a expansão colonial e a
descoberta de riquezas na África e na América, os negros e os índios entraram
nessa lista.
charge_intolerancia |
O maniqueísmo,
trazido dos tempos antigos, pelos maniqueus, donde vigorou por volta do século
III, determinava a existência permanente de um antagonismo, expresso em dois
princípios irredutíveis, Deus e o bem absoluto, e o Diabo, ou o mal absoluto.
Embora perseguidos por muitos séculos, os adeptos do maniqueísmo sincretizaram
esses valores de praticamente todas as grandes religiões. Judaísmo, islamismo,
cristianismo, e até o zoroastrismo que foi uma grande influência para elas,
fundamentaram seus dogmas escorados nessa dicotomia. Construía-se a ideia de
que o mal se manifesta não somente, mas principalmente entre aqueles que não
aceitam aquela outra divindade religiosa. Isso serviu, ao longo dos séculos,
para justificar comportamentos intolerantes e guerras que passavam a serem
justificadas como santas, com objetivo de converter impuros e hereges. Daí se
origina a velha expressão: “ficar entre a cruz e a espada”.
Inquisição - condenação das "bruxas |
O dogma, e seus
valores inamovíveis, que constitui a espinha dorsal dessas religiões, sempre
carregou preconceitos de outras épocas, aceitas como princípios e valores que
não podem ser contrariados. E as mulheres sempre foram as principais vítimas
dessas intolerâncias, submetidas aos papéis mais inferiores e à condição de
submissão diante do poder autoritário do homem. Isso muda, aos poucos, com o
passar do tempo, na medida em que aqueles grupos sociais submetidos ao
preconceito conquistam vitórias e obtém, mediante lutas de décadas, leis que
lhes favoreçam. A partir daí, preconceitos e atos de intolerância ora
escondem-se em comportamentos hipócritas, ora assumem-se de formas violentas e
fatais.
Com o advento do
capitalismo essas intolerâncias assumem novos contornos. A burguesia necessitava
romper com os valores culturais que vigorou por toda a idade média, e mesmo
antes. Para isso era preciso não somente agir com dureza contra a nobreza
decadente, mas também contra a instituição religiosa que determinava regras que
a impediam de consolidar o seu poder dominante, naquele momento em ascensão.
Por isso a divisão que surgiu no cristianismo foi um fator importante para a
consolidação de novos preceitos dogmáticos.
O Estado
capitalista assumiu a condução não somente das questões econômicas, mas também
dos novos valores baseados, pelo menos em teoria, na liberdade, igualdade e
fraternidade. Teoricamente também, os credos religiosos deveriam se submeter a
esse novo poder estatal e a uma carta constitucional que deveria ser laica, a
fim de garantir os preceitos democráticos, que deveria atender a todos
indistintamente.
Na prática as
coisas não aconteceram assim. Por trás das leis permaneciam resquícios de
hábitos que continuavam impregnados naqueles valores milenares, e se ampliavam
com uma nova lógica que determinava as diferenças a partir da capacidade do
indivíduo de acumular riqueza. Assim, além das mulheres, homossexuais, negros,
índios, também os pobres passavam a se constituir em alvos de intolerância, por
se deslocarem para aqueles lugares que oferecessem as melhores alternativas de
sobrevivência.
geografiaetal.blogspot - imigrantes |
A luta em defesa
da democracia prevaleceu em meio a muitas, sacrifícios e conquistas,
principalmente como decorrência da derrota do nazismo e do fascismo, que em
certo momento da história simbolizaram esse ambiente de acirramento das
intolerâncias. Mas, sempre que uma determinada sociedade entrava em crise,
sintomas crescentes de comportamentos intolerantes reacendiam e tornavam-se
mais frequentes. E isso atingiu o auge, nesses novos tempos inaugurados com a
chamada globalização e o crescente individualismo. Como em outras épocas a
religião volta a se destacar, introduzindo novos valores, agora com a marca da
“teologia da prosperidade”, por força do crescimento das igrejas neopentecostais.
Em algumas
sociedades impera a contraposição aos “valores ocidentais”, e opõe cristãos x
muçulmanos, muçulmanos x judeus, e mesmo no Ocidente, cristãos protestantes x
católicos. Em todas elas, carregando dogmas seculares, se mantém e se acirram
com as crises, a reação contra ateus, homossexuais e a preocupação em não dar
às mulheres a plena condição de decidir sobre seu corpo. As mulheres sempre
foram vítimas de preconceitos em todas as religiões.
intolerancia - presoporfora.blogspot |
Mas, então, o que
explica o fato de mesmo após de tantas conquistas e leis tais preconceitos e
atos intolerantes permanecerem? Em minha opinião a religião é um fator
preponderante. Nesta nova etapa da vida humana, século XXI, potencializada pela
mais perversa delas, a religião do capital. Essa, nos dias de hoje
definem o fascismo moderno, acentuado nesses anos de globalização neoliberal,
cujos alicerces se sustentam no individualismo, no egoísmo e na ganância.
O mesmo capital
que se torna a causa que motiva guerras religiosas, seja na disputa por
territórios sagrados, de enorme riqueza mineral, ou pela ferrenha disputa pelos
dízimos de milhões de ingênuos seguidores de pretensos apóstolos divinos. A
religião do capital impregnou a sociedade e fez aumentar a intolerância
religiosa, porque quanto mais a disputa pelo dinheiro seja o fator primordial,
mas se tem a necessidade de defendê-lo e ampliar constantemente a possibilidade
de maiores ganhos.
Em contrapartida,
mas também marchando lado a lado com os interesses religiosos seculares, a
disputa pelo poder, a política, e a crescente radicalidade de discursos
xenófobos (de aversão ao estrangeiro), moralistas e preconceituosos. Na disputa
pelo poder, o grande Poder, as grandes corporações midiáticas, entram com sua
parcela considerável de culpa, ao posicionar-se ao lado de partidos e de
políticos que assumem comportamentos fundados na intolerância. E a razão clara
disso sempre foi conter a ascensão de personagens populares que não estivessem
diretamente vinculados às elites secularmente dominantes.
Isso se expressou
não somente nos períodos eleitorais, mas na aversão às políticas de inclusão
social que buscavam minimamente resgatar dívidas causadas por esses valores
culturais dominantes e preconceituosos. As políticas de cotas tornaram-se alvos
de articulistas conservadores e políticos reacionários. Os velhos sicofantas
religiosos arrepiaram-se e afiaram seus discursos, tentando impor a todos suas
velhas crenças com base na meritocracia.
homofobia |
Ainda no âmbito da
justiça, esses fascistas modernos se municiaram não somente de velhas crenças,
mas também na impunidade que o dinheiro proporciona, nas brechas da lei e no
que nos mostra o censo carcerário, onde 70% não completou o primeiro grau e
cerca de 10% é analfabeto. Ou seja, se a cadeia é feita para o pobre, o que
impede neo-fascistas e neo-nazistas oriundos de famílias ricas, de agirem
contra o que eles consideram escória?
O fascismo moderno
não aparece espontaneamente na cabeça de jovens. É fruto de teorias preconceituosas
e de instrumentos sociais que criam e reforçam valores que se baseiam na
intolerância, na não aceitação das diferenças, e na liberdade de as pessoas
definirem suas opções sexuais. Como na atitude bisonha e estúpida de um
deputado pastor que pretendia criar medidas que desfizesse a condição de ser dos
homossexuais. Como se uma lei pudesse conter as escolhas sexuais de qualquer
pessoa. A não ser numa sociedade totalitária, controlada por um governo
fascista.
Tudo isso sempre fez parte de dogmas que permanecem sendo instigados de forma instrumental em templos, tabernáculos, igrejas e mesquitas de todo o mundo, muito embora não se constitua em regra geral nem tenha relação com a fé individual, de cada pessoa, com sua legítima crença e liberdade de acreditar no que lhe convier. É algo construído pela religião, e os que controlam as igrejas, e por esses meios se apropriam da fé do povo.
A consolidação de
direitos, e de medidas legais contra o preconceito é bem recente no Brasil. Data
da elaboração da Constituição de 1988, juntamente com a criação de instrumentos
de punição, como o Ministério Público, instituições que surgiram e se
fortaleceram, algumas sem vínculos diretos com o Estado, mas também com a criação de
Ministérios, Secretarias e delegacias, voltadas para a defesa dos direitos humanos e das mulheres. Mas essas
estruturas e leis não estão sobrevivendo à nova onda conservadora, moralista e
perversa que se instalou em nosso país desde a última eleição, reabrindo
feridas antigas e destilando ódios e preconceitos, em nome da “família cristã”
e de um deus perverso, elitista, criado por pessoas pérfidas e de mau-caráter. A
marca desse fascismo dos tempos atuais está se impregnando mais fortemente na
sociedade, e deixarão feridas que irão demorar a cicatrizar.
Como na vida nada é eterno, esse será mais um período que será superado, muito embora com sacrifícios, lutas de classes e processos intensos de confrontação seja política ou por meio de violência revolucionária. Pois é assim que se tem escrito a história da humanidade e as transformações sociais. Isso é inevitável.
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(*) Esse artigo é uma adaptação do original publicado neste Blog em 2012:
https://gramaticadomundo.blogspot.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html
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