terça-feira, 31 de março de 2020

56 ANOS DO GOLPE MILITAR NO BRASIL - Os militares, a ideologia de segurança nacional e a ação guerrilheira no Araguaia

Por Romualdo Pessoa*
Artigo publicado na Revista Princípios (SP), nº 129, março 2014


Mesmo ao fim da Guerrilha, as políticas adotadas seguiram as linhas definidas pela Ideologia de Segurança Nacional, inclusive nos conflitos que se intensificavam a partir do final dos anos 1970 entre posseiros e grileiros

A estrutura militar do Estado brasileiro e a doutrina de segurança nacional
A crise política brasileira, causada pela renúncia do então presidente Jânio Quadros, em 1961, gerou uma instabilidade institucional e reações nas Forças Armadas que culminou, em 1964, com a deposição do vice que o sucedeu, João Goulart. A Doutrina de Segurança Nacional foi, além do elemento motivador da intervenção militar, a questão basilar que esteve por trás de todas as políticas que foram implementadas, principalmente após 1968, quando o regime assumiu declaradamente as feições de uma ditadura, e toda a sua estrutura estatal foi organizada baseada nos conceitos formulados nas escolas militares.
É preciso considerar os diferentes motivos que originaram o golpe, que se confundem entre questões econômicas nacionais e elementos da geopolítica mundial, com a guerra fria em curso, opondo socialismo x capitalismo, e a construção de valores de cunho nacionalistas conservadores que envolviam civis. Mas todo o seu arquétipo foi montado a partir da Escola Superior de Guerra, tendo à frente seu mais conhecido ideólogo, o general Golbery do Couto e Silva.
Todo o poder político, notadamente os setores estratégicos, e aí compreendendo esse termo vinculado ao conceito de segurança nacional, permaneceram sob o controle dos militares. O planejamento estratégico formulado por Golbery, que pode ser avaliado em livro publicado pela Editora da Universidade de Brasília (SILVA, 1981), tem toda a sua preocupação centrada na “segurança nacional”. Destaco um pequeno trecho desse livro que expõe com clareza essas ideias.
“Limitemo-nos, pois, ao âmbito mais restrito da política de segurança nacional, aquela já tantas vezes definida como visando a salvaguardar a consecução dos objetivos vitais permanentes da Nação, contra quaisquer antagonismos tanto externos como internos, de modo a evitar a guerra se possível for e empreendê-la, caso necessário, com as maiores probabilidades de êxito” (Ibidem, p. 22).
É bem verdade que nos discursos elaborados desde o começo do movimento golpista, dizia-se que o objetivo era ceder a condução política para os civis e retomar o processo democrático no rumo por eles considerado o correto. Nitidamente com o objetivo de garantir com certeza que o Brasil estaria ao lado dos Estados Unidos contra o perigo comunista que encontraria guarida no governo Goulart.
Mas, todos esses fatos se modificaram a partir de 1968. Com a aplicação do Ato Institucional nº 5 e, logo no ano seguinte, com a doença do general--presidente Costa e Silva, não se permitiu a posse do vice-presidente Pedro Aleixo (2). Assumiu, logo em seguida ao afastamento do então presidente, uma Junta Militar composta pelos ministros: Aurélio de Lira Tavares, do Exército; Augusto Rademaker, da Marinha; e Márcio de Souza e Melo, da Aeronáutica. Essa Junta Militar escolheu posteriormente, dois meses depois, o novo presidente, aquele em cujo período de governo se intensificarão a repressão e o endurecimento do regime, ao caracterizar mais destacadamente uma ditadura sangrenta: o general Emílio Garrastazu Médici.
Fortaleceu-se a partir de então, todo o aparato construído com base na Ideologia da Segurança Nacional, que já funcionava desde 1964, mas que recebeu os maiores investimentos a partir desse período, espalhando o terror e impedindo qualquer tipo de manifestação da sociedade civil organizada.
Os que ousaram enfrentar esse aparato militar foram caçados, presos, torturados e assassinados nos porões dessa estrutura, nas sombras de quartéis e delegacias de polícias civil, militar e federal, todas elas enquadradas no organograma do Sistema Nacional de Segurança (Figura 01), comandado a partir do SNI, por um ministro-chefe militar, general obviamente. 
Nas palavras do então coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles, “(...) o Estado ditatorial era como um polvo negro com tentáculos. A sua cabeça era o Sistema Nacional de Informações (Sisni), alimentado por outros órgãos de informação como o SNI, CIE (Exército), Cenimar (Marinha) e Cisa (Aeronáutica)” (3).
Além disso, por todos os ministérios e órgãos públicos, incluindo universidades, funcionavam as Divisões de Segurança e Informações (DSIs). E os Departamentos de Operações de Investigações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODIS). Ainda havia a Polícia Federal, e até mesmo a estrutura das polícias militares, fato que persiste até os dias de hoje, foi concebida para incorporar esse sistema – e indiretamente estavam vinculadas ao controle da cabeça dessa estrutura.
Segundo Gaspari (2002, p.159),
“Em setembro de 1974 havia no SNI vinte oficiais do Exército”. “Dessa lista de vinte sócios fundadores do SNI saíram um presidente da República (Figueiredo), dois chefes do Serviço (Figueiredo e Octavio Aguiar de Medeiros) e dois chefes da Polícia Federal (Newton Leitão e Moacyr Coelho). Outros cinco (Newton Cruz, José Luiz Coelho Netto, Edmundo Adolpho Murgel, Mario Orlando Ribeiro Sampaio e Geraldo Araujo Ferreira Braga) chegaram ao generalato e tornaram-se destacados chefes nos serviços de informação do regime” (Apud APGCS/HF).
O SNI era o cérebro de um sistema montado desde o golpe de 1964 para manter o controle do poder político e o domínio do Estado brasileiro, nas mãos dos militares. Era a espinha dorsal do regime militar, e ela estava sob o comando e o pulso firme dos oficiais generais, na presidência da República e no Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA).
“Pela estrutura logística, o SNI ficou entre os dez mais bem equipados serviços de informações do mundo. Seu poder de alavancagem política foi superior ao da CIA, do Intelligence Service, ou mesmo da KGB” (Idem, p.169).
Naturalmente, toda essa estrutura contava com o apoio civil, inclusive e principalmente, nas DSIs. Mas o comando estava com os militares. Inclusive na Operação Bandeirante (OBAN), tida como uma prova do envolvimento de grandes empresários, portanto civis, na “condução do regime” (sic).
A OBAN foi gestada dentro do Sistema Nacional de Informação, e também ela não fugiu ao controle dos generais que estavam em seu comando. Assim como a malfadada Operação Condor, montada por esse sistema de informação e repressão brasileiro que se espalhou por outros países da América Latina, com o apoio da CIA (Figura 02). Constituía-se, assim, um regime militar, que se tornou uma ditadura violenta e descontrolada. Contando com o apoio e a participação de elementos da sociedade civil.
Portanto, do início (1964) ao fim (1985) o comando do regime sempre esteve nas mãos dos militares, das suas mais altas patentes, e toda a condução da política seguia-se às estratégias definidas pela DSN (Doutrina de Segurança Nacional) executadas pela estrutura militar-repressiva.

O combate à guerra revolucionária e a identificação do “inimigo interno”
A ideologia da segurança nacional, que direcionou as políticas públicas durante o regime militar brasileiro, teve suas bases ideológicas firmadas nos EUA, onde a doutrina que a sustentava foi criada pelos geopolíticos daquele país. Suas ações eram direcionadas para a proteção daquelas áreas consideradas estratégicas pelos estadunidenses e para manter, ou construir, regimes políticos que lhes fossem favoráveis.
A partir da década de 1960 inúmeros programas e ações foram aplicados no sentido de reforçá-los, e, também, apoiar os militares na aplicação de golpes de Estado contra governos que porventura ameaçassem estabelecer relações políticas com países da chamada “Cortina de Ferro”, ou os países socialistas, inclusive a China.
E, na América, com a pequena ilha de Cuba, que após um processo revolucionário alinhava-se com a União Soviética e a transformava em alvo principal no continente americano. No âmbito da Guerra Fria, os militares da “Sorbonne brasileira” optaram por firmar compromissos com a geopolítica estadunidense, fosse por pragmatismo político ou pela preservação dos valores da civilização ocidental-cristã. “No Brasil, consequentemente, a geopolítica serve de firme suporte para a bipolaridade e a adesão da Nação à luta anticomunista no interior da segurança nacional” (COMBLIN, 1978, p. 30).
Três conceitos, segundo Coblin (1978), compõem a espinha dorsal da Doutrina de Segurança Nacional: “A guerra generalizada, a guerra fria, e a guerra revolucionária” (Op. cit., p.33).
A partir do conceito de “guerra revolucionária” os militares brasileiros se uniram às formulações ideológicas estadunidenses para construir um ideário semelhante ao daqueles, e que será responsável por construir, no Brasil, uma estrutura de segurança nacional implacável, que se estendeu nos momentos de maior radicalidade contra os grupos de esquerda lhes faziam oposição, muitos dos quais sem optarem pela luta armada.
Definido o inimigo externo, os estrategistas da “Segurança nacional” passaram a identificar em todos os processos de lutas na América Latina a presença do comunismo. Procuraram construir uma estratégia contrarrevolucionária considerando não haver distinções entre os vários tipos de guerras. Fossem de libertação, guerrilhas, subversão, terrorismo. Para eles, tudo eram “fases diferentes de um único processo, o da guerra revolucionária” (COMBLIN, 1978, p. 44).
Passaram a ver a guerra revolucionária mecanicamente, de forma maniqueísta e dentro dos princípios da bipolaridade. Buscavam combatê-la mediante a utilização de técnicas semelhantes utilizadas pelo inimigo, na crença de que obteriam, assim, as mesmas possibilidades de sucesso. O que significava, necessariamente, ganhar o apoio do povo. Segundo Comblin (Op. cit., p.44), esse teria sido o principal erro cometido no combate aos guerrilheiros do Vietnã e que seria também aplicado no continente americano.
Fechados em suas concepções de Segurança Nacional, e ao considerarem que a população da América Latina e do terceiro mundo não possuíam nenhuma afinidade em sua história com o ideário comunista, menosprezavam o processo histórico de seus países e a violência que se abatia por séculos contra esses povos.
A estratégia deveria, portanto, se basear em técnicas que fossem capazes de superar os soviéticos. Os guerrilheiros e “subversivos” que lutavam as guerras revolucionárias eram vistos como meros instrumentos de Moscou, e para derrotá-los era suficiente estabelecer o controle da população, tirá-la da influência desses grupos, impedir que a propaganda revolucionária encontrasse respaldo entre a população e isolar os combatentes, para poder destruir toda a sua organização.
Por essa compreensão, seria natural que todos os que porventura simpatizassem com a luta guerrilheira fossem considerados inimigos. Espelhando-se nas lutas anticolonialistas que se espalhavam pelo mundo, onde os grupos de libertação nacional obtinham apoio da União Soviética, os estrategistas militares que criaram a Doutrina de Segurança Nacional procuraram aperfeiçoar as técnicas adotadas nessas lutas, e o exemplo mais marcante é a da guerra de libertação da Argélia. Buscaram as mesmas táticas, como estratégia para uma contrarrevolução.
O mais importante seria, então, o trabalho de inteligência que identificasse e localizasse o inimigo, e isso deveria ser feito anteriormente ou paralelo ao combate que se travava, de forma a transformar em alvo todos os simpatizantes e grupos favoráveis à causa revolucionária.
Em seguida trata-se de detectar todos os membros da subversão. As técnicas são as mais variadas: presença permanente em toda parte: nos locais de trabalho, de transporte, de recreio; prisões rápidas, informações. Principalmente informações. Nessa guerra, a arma decisiva é a informação. Ela é necessária através de quaisquer meios. Os revolucionários sabem o que os espera. A tortura é a regra do jogo.
Se a inteligência é um dos polos da guerra contrarrevolucionária, o outro polo é a ação psicológica. Trata-se de manter o povo afastado de qualquer contato com a subversão. Existem, com essa finalidade, técnicas de organização da população (...) formação de brigadas, propaganda para controlar qualquer crítica. Finalmente, existe o que se denominou, nos Estados Unidos, a ação cívica militar: encontram-se equivalentes em toda parte, na América Latina: os exércitos seguem fielmente as receitas. A ação cívica militar nasceu por iniciativa de Kennedy (COMBLIN, 1978, p. 46).
Todo esse processo identificado nesse estudo de Joseph Comblin, que traça uma radiografia da Ideologia de Segurança Nacional, pode ser atestado empiricamente a partir dos estudos das estratégias adotadas no combate à Guerrilha do Araguaia, bem como na maneira como os Planos de Ação do regime militar foram impostos para a região sul do Pará, e para toda a Amazônia.
Mesmo ao fim da Guerrilha, as políticas adotadas seguiram as linhas definidas pela Ideologia de Segurança Nacional, inclusive nos conflitos que se intensificavam a partir do final dos anos 1970, entre posseiros e grileiros.
Muitos dos relatórios dos órgãos de segurança, disponíveis e obtidos junto ao Arquivo Nacional, demonstram que, para além do Movimento Guerrilheiro, e até o período de transição, entre o fim do regime militar e o novo governo civil da chamada “Nova República”, o que movia as ações dos órgãos do Estado militar brasileiro eram as concepções que fundamentaram todo o ideário da ditadura militar, inspiradas nessa ideologia.
Tratava-se, ainda, de identificar como “inimigo interno” aqueles que se opunham ao regime vigente e procuravam “subverter” a ordem estabelecida, fundada nos valores “cristão-ocidentais”. Seguindo-se esses preceitos, tornava-se essencial separar os “subversivos” do meio do povo, e combatê-los implacavelmente, como representantes do “comunismo internacional”.
Incluíam-se dentre esses, padres e missionários, que seguiam a linha da Teologia da Libertação e buscavam orientar-se, segundo essa doutrina, por uma “opção preferencial pelos pobres”, lema que eles adotavam, dando apoio aos camponeses e posseiros na luta pela terra.
Sobre todos eles os rótulos de subversivos e terroristas eram usados com frequência, e a estratégia utilizada para afastá-los do povo, e que num primeiro momento deu certo, era, portanto, a utilização dos meios disponíveis na estrutura do Estado que possibilitariam atender à população em áreas em que havia fortes carências de assistência pública.
O que deveria ser feito de forma permanente passava a ser feito ocasionalmente, obedecendo aos interesses estratégicos, que fazia parte da preparação dos militares no combate contrarrevolucionário, no âmbito da ideologia que os moviam.
Um dos pontos dessa estratégia foi a ação cívico-militar, formulada em suas origens nos Estados Unidos. Ela foi aplicada em vários momentos, durante e depois da Guerrilha do Araguaia, na região sul do Pará, denominada “Operação Cívico Social” (ACISO) (4).
A ação cívica é uma defesa contra a subversão: é ação preventiva e é também uma resposta. Os militares são chamados a assumirem tarefas públicas para o bem-estar da população (estradas, edifícios públicos), serviços de saúde pública, serviço social etc. Em suma a ação cívica consiste em tomar em mãos as tarefas de um governo. Graças à idealização dessa “ação cívica”, os militares se convencem de que só eles são capazes de organizar o desenvolvimento de seu país (COMBLIN, 1978, p.143).
Assim, desde a política específica através de ações para combater iniciativas consideradas subversivas, bem como no intenso conflito que atraiu as atenções para os problemas existentes na Amazônia Oriental, toda a estratégia utilizada pelos governos militares obedeceu à Ideologia de Segurança Nacional. E, por ela, os ferrenhos combates contra os guerrilheiros transformaram-se, ao final da Guerrilha, em perseguições, prisões, torturas e assassinatos de lideranças camponesas, padres da teologia da libertação e comunistas por todo o sul do Pará e o norte do Tocantins, por toda a área conhecida como “Bico do Papagaio”, uma das regiões brasileiras de maior concentração de luta e resistência à ditadura militar, à pistolagem e ao poder do grande latifúndio.
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*Romualdo Pessoa Campos Filhos é graduado e mestre em História, doutor em Geografia pela Universidade Federal de Goiás. Professor adjunto efetivo desta instituição, atua na área de Geopolítica. É autor dos livros: Guerrilha do Araguaia, a esquerda em armas, e Araguaia: Depois da guerrilha outra guerra. Publicados pela Editora Anita e Fundação Maurício Grabois.
O primeiro livro pode ser baixado em formato ebook:


NOTA DO AUTOR – Desde quando iniciei a minha pesquisa sobre a Guerrilha do Araguaia, em 1992, entendi que somente seria possível compreender o que havia levado os guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) a se embrenharem nas matas do Araguaia buscando o fio da meada, ou seja, as origens do golpe militar de 1964. Até por uma questão metodológica, da aplicação da dialética materialista na conjuntura histórica brasileira daquele período. Recentemente, concluí mais uma parte desta pesquisa, encerrando um doutorado defendendo uma tese onde analiso a região do Araguaia no período posterior à Guerrilha, a “Operação Limpeza”, que procurou sumir com os corpos dos guerrilheiros e de camponeses mortos no conflito, a pistolagem e sua relação com a estrutura montada pelo major Curió, a rede de espionagem que se criou na região, o seu QG montado a partir de Serra Pelada e a perseguição e assassinatos de lideranças comunistas, padres e camponeses. Este artigo é originado da segunda parte desse trabalho. Em abril o livro "Araguaia: Depois da guerrilha, outra guerra - A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia da Segurança Nacional (1975-2000), será lançado pela Editora Anita Garibaldi e Fundação Maurício Grabois.
Notas
(1) Araguaia: Depois da Guerrilha, uma outra guerra – A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia de Segurança Nacional. Tese de doutorado em Geografia, defendida em novembro de 2013 no Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, orientada pela professora doutora Celene Cunha M. A. Barreira.
(2) O Congresso Nacional inclusive já aprovou uma lei, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, de nº 12.486, de 12 de setembro de 2011, que “inclui o nome do cidadão Pedro Aleixo na galeria dos que foram ungidos pela Nação Brasileira para a Suprema Magistratura”.
(4) Ver CAMPOS FILHO, 2012, p.153: “Procurando abranger toda a área conflagrada, a Operação ACISO levou para a região médicos e dentistas, distribuiu remédios e vacinas em grandes quantidades, patrulhou estradas, legalizou posses, doou terras através do Incra, e ainda perseguiu pistoleiros e grileiros”.

Fontes consultadas
CAMPOS FILHO, Romualdo Pessoa. Guerrilha do Araguaia, a esquerda em armas. São Paulo: Anita Garibaldi/FMG, 2012.
CARNEIRO, Ana & CIOCCARI, Marta. Retrato da repressão política no campo – Brasil 1962-1985 – Camponeses mortos, torturados e desaparecidos. Brasília: MDA, 2010.
CASTRO, Therezinha de. Geopolítica: princípios, meios e fins. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1999.
COMBLIN, Pe. Joseph. A ideologia de segurança nacional – O poder militar na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
GASPARI, Elio. As ilusões armadas (I) – A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SILVA, Golbery do Couto e. Conjuntura política nacional e o Poder Executivo & Geopolítica do Brasil. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1981.
____________. Planejamento estratégico. Brasília: Editora UnB, 1981.

sábado, 28 de março de 2020

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR – O COVID19 E A CRISE CAPITALISTA MUNDIAL


Poucos artigos que eu escrevi neste blog foram alvos de modificações depois de publicados. Neste caso especificamente decidi atualizá-lo em função da crise que vivemos, com a disseminação do novo corona vírus, ou a doença gerada por ele, identificado pela OMS como Covid19. A intenção de, mais do que republicá-lo e atualizá-lo, é aproveitar o sentido dado a essa frase por Marx e depois tornada título de um livro por Marshall Berman, que representa a maneira como as coisas não são definitivas e estão sujeitas a transformações permanentemente. As crises, mesmo que sendo de origens diferente, mas que impactam as estruturas econômicas e sociais, e o nosso estilo de vida, impõem mudanças inevitáveis e fazem jogar por terras certezas e convicções, e, principalmente, as negações sobre o que é real, concreto e se transmuta, dialeticamente, seguindo a dinâmica da vida, em seu sentido geral.
Após essas crises, e dependendo da sua dimensão, tudo passa a seguir em um rumo distinto, diferente, alheio aos desejos dos que se julgam responsáveis pelos destinos do mundo, sustentados por riqueza e o Poder que advém daí. Deus, qualquer que seja Ele de quaisquer religião, não consegue impedir isso, e também não é capaz de conter essas mudanças, ou de nos fazer entender suas origens e para onde seguiremos, porque ele é a representação que fazemos de nós mesmos com poderes que idealizamos para nos salvar de nossos próprios erros. Mas há os incautos, que se mantém na ignorância, e se apegam às crenças para além da realidade terrena, e do que a ciência pode nos ensinar, se escondem em um mundo fictício, irreal, onde a ignorância não os permite compreender a dimensão do que está acontecendo.
Voltemos um pouco no tempo, quando se iniciava a velocidade das transformações que impunham ao mundo certezas alimentadas pela força da ideologia neoliberal e do poder da comunicação em uma escala mundial. O advento da globalização, expressão usada para se opor ao controle que alguns Estados Nacionais faziam à defesa de suas riquezas, mas cujo objetivo era acelerar a disseminação da ganância e usura capitalista por todo o mundo, e, principalmente em territórios cujas fronteiras eram até então difíceis de serem exploradas, procurou derrubar os valores de um mundo movido pela defesa do estado do bem estar social, e com a preocupação em conter desigualdades cruéis, internas e entre nações. Junto com isso, velhos valores foram tidos como ultrapassados, e novas crenças no poder do dinheiro, do neopentecostalismo individualista e da afirmação da ganância como algo bom e produtivo, terminou por impor nas mentes das pessoas uma realidade absolutamente distante de seus mundos, mas aceita pela força da ideologia e do novo mantra que dizia ser o capitalismo a última etapa da história humana. O mundo saiu da modernidade para a pós-modernidade. E esta durou menos que o instante em que um traque explode.
E, embora as forças reacionárias tentem atingir os estudos das ciências humanas, é fundamental nos aventurarmos pela história e pela filosofia, procurando fazer uma análise das mudanças pelas quais passou a sociedade moderna. “Pós-pós-moderna”, diriam alguns. Essa onda do pós, que pautou as discussões filosóficas na última década do século XX, felizmente foi-se junto com os vários tsunamis que varreram muitos lugares, inclusive aquelas duas torres chamadas de “World Trade Center”. Ou após os “subprimes” nos Estados Unidos transformarem-se em poeiras e ter jogado a economia capitalista em uma das maiores crises de sua história, perdendo apenas para o “Crash” da bolsa de Nova Iorque em 1929. Pós-alguma coisa, só no sentido figurativo.
Então, o que virou o mundo nestas duas décadas do século XXI? Bom, seria muita pretensão querer dar resposta a isso, até porque precisaríamos de muitas respostas e creio ser difícil nos aventurarmos em tamanha complexidade. Podemos dar palpites, isso podemos fazer. Mas, vejam, falamos antes em “ciências humanas”. Portanto, dar palpites, estar bem informado, não necessariamente expressa um conhecimento científico, e isso é importante termos bem claro.
O mundo das comunicações fáceis difundiu em volta do planeta várias teorias e criou vários expertises nos mais diversificados assuntos. As comunidades virtuais, chamadas redes sociais, espalharam pelo globo uma multidão de experts em entender da realidade social e geopolítica. Alimentados por meios de comunicação que replicavam análises que interessavam às grandes corporações, e aos poderes hegemônicos. As redes sociais são instrumentos de divulgação de idéias e opiniões, não podem ser convertidas em objetos responsáveis pela construção de conceitos, filosofias, teorias etc. Mas foram fundamentais para difundir esses novos valores, advindos com esse mundo “globalizado” e de idéias neoliberalizantes, conservadoras, que procuravam justificar as desigualdades sociais como decorrentes da luta meritocrática ou pelo tamanho da fé. Por isso elas foram se constituindo em importantes instrumentos de difusão acelerada dessas ideias que se libertaram da “Caixa de Pandora” com o fim da pós-modernidade (ou o que se dizia ser isso) e viraram o mundo de ponta-cabeça nas duas últimas décadas. Junto a isso, as lutas fragmentárias esgrimidas pelas esquerdas, perdidas em um mundo bipolar, que muitas vezes fugiam ao seu entendimento, pelo deslumbramento das técnicas e da velocidade das transformações. Melhor então do que a luta geral, antissistema, foi constituir lutas fragmentadas, onde cada grupo social descriminado lutava para se inserir na mesma lógica que as tornaram “minorias”. Uma situação contraditória, mas posta diante de uma encruzilhada, porque essa luta tornava-se necessária. No entanto, ela não podia estar descolada da luta mais geral, pela transformação sistêmica e uma alteração radical na sociedade.

UM MUNDO EM CRISE

É difícil afirmar qual o momento em que uma crise de grandes proporções não tenha afetado o mundo. Melhor seria dizer que nos dois últimos séculos ele está permanentemente em crise, com picos de agravamento em ação cíclica. Primeiro é bom lembrar que o sentido desta palavra vai mudando ao longo da história humana, sendo que etimologicamente, originando-se do grego Krinein ou krisis, tinha o sentido de “julgar, avaliar, decidir, separar”, transmutando-se por todo esse tempo, até ser usado na época moderna pela medicina, passando a representar um momento decisivo de uma situação de doença grave entre a cura e a morte (cf. dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa).
Na abordagem econômica essa palavra ganha a conotação de um sentido semelhante, demonstrando o auge de contradições que impõe uma “enfermidade” em uma formação econômico-social, forçando mudanças substanciais e até mesmo substituição de formas de produção. Segue-se, como decorrência, as alterações dos valores que são construídos sobre os pilares das estruturas econômicas, a substituição de hábitos, costumes, tradições. A cultura, enfim, transforma-se fazendo surgir novos elementos que darão à sociedade uma nova feição, acompanhando, sempre, a forma como está estruturada as suas bases, seu jeito de produzir. E outras idéias, impostas pelas novas classes dominantes, substituirão as antigas no controle ideológico da sociedade.
Nossa percepção de mudanças acompanha as situações peculiares, particulares. Observamos o nosso redor, aquilo que nos diz respeito especificamente, o dimensionamos à totalidade, e identificamos no cotidiano elementos que gradativamente vão substituindo comportamentos antigos. Quando novas atitudes passam a se impor – às vezes de forma imperceptível – é um sinal de que os valores existentes até então enfraqueceram-se. Isso quase sempre acontece quando, pelas formas econômicas, os relacionamentos vão se deteriorando e forçando as mudanças.
O período em que os antigos costumes começam a se chocar com essas novidades que vêem surgindo, acompanhando os estremecimentos na base econômica, passou a ser denominado como crítico, ou de crises na sociedade. As forças do novo quase sempre se impõem, mas não antes de criar a sensação de que estamos em meio a um caos. A História irá nos mostrar que esse período é na verdade uma transição entre o velho e o novo, alterando estruturas sociais e formulando novos valores culturais.
Nesse aspecto uma importante referência é a produção intelectual de Milton Santos, falecido em 2001. Esse intelectual baiano, doutor em Geografia, e premiado internacionalmente, falava frequentemente que estamos vivendo uma época de transição, naquilo que ele caracterizou como período técnico-científico-informacional. E acrescentava, que os que vivem em meio à essas transformações não conseguem perceber que estão em meio à uma transição sistêmica, que é longa e traz consigo mudanças superestruturais. As idéias, a cultura, vão sendo pouco a pouco afetadas por essas transformações e geram um conflito, um caos, que representa exatamente o início da crise que definirá os novos rumos da sociedade. Isso sempre se dá localizadamente, depois se expandindo para outros lugares, até atingir praticamente toda a humanidade.

ALÉM DO BEM E DO MAL

“Nesses pontos limiares da história exibem-se – justapostos quando não emaranhados um no outro – uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e, de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor”. Isso é Nietzsche (1882), citado por Marshall Berman, no livro do qual se originou o título deste texto (embora a frase seja originalmente de Marx). E a discussão que o motivou, e da qual Berman procura analisar, é a respeito das transformações que aconteciam no século XIX e a crise que possibilitou o advento da modernidade burguesa.
As relações de produção capitalista já tinham se iniciado alguns séculos antes, e explodia na sociedade européia as mudanças culturais que precisavam se impor, acompanhando as transformações econômicas. O choque entre valores antagônicos, de uma época que se desfazia e de outra que despontava. O velho e carcomido pensamento medieval se via sob um fogo cruzado das idéias burguesas que se impunha e já do seu contrário, as teorias socialistas que refutavam a burguesia ainda no processo de consolidação de seu poder político.
Já naquela época vamos encontrar situações parecidas com as que vivenciamos nos dias atuais, compreendendo bem, para não cairmos no anacronismo, que estamos falando de momentos bem distintos da história da humanidade. Contudo, as características pertinentes a uma crise de choques de contradições geradas por mudanças sócio-econômicas, são bastante parecidas. E segue-se mais uma citação de Berman, extraída da obra de Nietzsche:
“Nada a não ser novos ‘porquês’, nenhuma fórmula comunitária; um novo conluio de incompreensão e desrespeito mútuo; decadência, vício, e os mais superiores desejos atracados uns aos outros, de forma horrenda, o gênio da raça jorrando solto sobre a cornucópia do bem e do mal; uma fatídica simultaneidade de primavera e outono”.
Impactava-se, assim, numa época de espetaculares transformações, de espírito revolucionário, um rico choque de contradições, mas também de esfumaçamento de certezas que se chocam e colidem com novidades que ainda não estavam definitivamente provadas. Em meio a uma dialética incontrolável, a meu ver transparecendo o óbvio, explodiam ódios, rancores, expectativas, anarquia, luta de classes... a modernidade despontava entremeada com a esperança de superação de um horror que ficava para trás, e de desconfiança pelo que poderia repetir, diante de um vazio de proposições fúteis e individualistas.

MAIS DO MESMO

Vivemos agora algo parecido. Sem desconsiderarmos o fato de estarmos em uma época completamente distinta, mais de um século depois do advento da modernidade, continuamos nos deparando com situações parecidas. Talvez com uma novidade, analisando-se um pouco superficialmente as duas épocas. É provável que mais do que nunca em uma época se ignore tanto a História (assim como as ciências de uma maneira geral) como agora. Digo a História como processo, não esse fragmento de fatos estudados isoladamente, como se as coisas acontecessem desconectadas e fosse possível analisar casos do cotidiano sem a compreensão de suas origens e de como as contradições forçam as mudanças.
A geração que inicia o século XXI na adolescência, e acredito pela maneira como aprendem as coisas, imaginam estarem vivendo em um mundo que começou agora. Desconhecem todas as contradições que nos movem, erguem palavras de ordem completamente anacrônicas, acreditam piamente que os problemas do mundo é fruto do conflito entre o bem e o mal, e assumem defesa de causas conservadoras como se as mesmas fossem revolucionárias. Isso foi impulsionado ideologicamente pelos meios de comunicação, e adequados pelas novas tecnologias que nos faziam sucumbir aos espetáculos da nova onda cibernética que os tiravam do mundo real e os fixavam na virtualidade da matrix.
Como a incorporarem, mesmo que ingenuamente, o discurso neopentecostal, tem o olhar fixado no futuro, desprendidos do presente, e na perspectiva de alcançarem conquistas por reivindicações singelas, aparentemente radicais. São elementos que compõem a própria maneira como o sistema se retroalimenta. Drogas, marginalidade, alienação, apoliticismo (que não necessariamente é alienação), religiosidade, obsessiva vontade de enriquecer a qualquer custo, preconceito, liberalismo sexual, frustrações com o fracasso... tudo são questões que mantém o sistema seguindo em sua lógica normal. E convivendo com isso há mais de um século. Mas mudando no formato e adequando-se por esse novo meio técnico-científico-informacional.
A aparente ebulição da sociedade, expressa de várias formas e potencializadas pelas redes sociais, não carrega em si nada de novo, a não ser no uso dessas novas tecnologias e do cyberworld. Mas, ao contrário da época em que a modernidade desponta, compreendendo isso no sentido filosófico do termo, nos dias atuais há uma completa indiferença em relação à existência de classes sociais distintas, e à luta que é travada entre elas. No momento silenciosa, mas com o aprofundamento das crises, a exemplo do que acontece em alguns países árabes e europeus, e na observância das soluções que se apresentam para elas, vai claramente sendo definido os campos em disputas. As medidas radicais tomadas para superar os problemas e impedir o agravamento dessas crises, são sempre para proteger os meios de produção, a riqueza dos grandes investidores e o patrimônio real ou virtual (porque o dinheiro passou a se fundamentar na opacidade) dos grandes banqueiros e especuladores.
Enquanto isso se marcha contra tudo, menos contra aquilo que é, em essência, responsável pelas condições que tornam a sociedade insegura e refém de seus medos e individualidades. Muito embora todo um aparato repressivo seja mobilizado para conter isso, por uma necessidade de não se perder o controle do Poder bem como para se impor a autoridade, não são essas as formas de lutas, nem o conteúdo que as movem, que irão fazer com que a burguesia perca o seu sono.
O que dizia Marx, no século XIX, mas com um conteúdo extremamente atual, e irônico em relação às lutas e combates ideológicos travados pela burguesia, se aplica a movimentos  que se apresentam com idéias avançadas, mas de conteúdos conservadores, que nos dias atuais imaginam travarem uma luta revolucionária:
“Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes de chegarem a ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (...) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos” (Manifesto Comunista, 1848. Citado por Berman, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar – A aventura da Modernidade. Cia das Letras, 1993, p. 20).

O CORONA VÍRUS E A NOVA CRISE NO CAPITALISMO

O desafio é o que fazer agora, numa circunstância de agravamento da crise capitalista por um vírus de uma letalidade relativa, mas de uma aceleração de contágio aceleradíssima, o que tem feito com que praticamente toda a estrutura do sistema produtivo capitalista esteja travada? A ganância, bem descrita no filme “Wall Street, poder e cobiça”, no discurso de Gordon Greco a acionistas de uma empresa que ele acabara de adquirir para fracioná-la e vendê-la, na lógica marcante que se tornou uma marca dessas transformações no capitalismo neste século, independente da destruição de milhares de empregos, bem como a maneira como se passou a ganhar dinheiro no cassino global das bolsas de valores, interligadas em tempo real, tornou-se a face real e perversa de uma época marcada pela aceleração contemporânea.
O novo corona vírus forçou um cavalo de pau no capitalismo. Isso é como se uma peça importante da engrenagem tivesse se soltado de uma Ferrari, ou de uma Mercedes, a 300 quilômetros por hora numa corrida de Fórmula 1. E a seguir essa máquina tivesse ficado presa na “zebra” da pista, impossibilitada de se deslocar sozinha, senão com um impulsionamento externo. Apesar de uma comparação meio grosseira, o que tento apontar é a absoluta impossibilidade de o capitalismo conseguir se livrar dessa crise sem a utilização do principal mecanismo que o tornou um sistema mundial: o Estado. Demonizado em época de neoliberalismo, e tornado mínimo pela destruição de seus mecanismos de aparato social, constituído por décadas pós-segunda guerra como necessidade para disciplinar a concentração de riqueza e o aumento das desigualdades sociais.
Apesar disso, da extrema necessidade de intervenção do Estado para evitar falências em larga escala de um considerável número de empresas, a demissão em massa de trabalhadores e trabalhadoras e atendimento às camadas que se situam abaixo da linha de pobreza, a recessão, e quiçá uma forte depressão econômica que afetaria todo o mundo é um forte possibilidade. Assim, se confirma o que iniciamos colocando nesse artigo, das mudanças que necessariamente acontecem em tempos de crise. Confirmando a máxima no título desse artigo, na exploração já dita de uma frase extraída do Manifesto Comunista, elaborado por Karl Marx e Friederich Engels, a solidez do capitalismo neoliberal se esfumaça e ameaça valores consideráveis em sua lógica perversa, o individualismo, a usura, o egoísmo... E fortalece, pelas próprias consequências do que virá após o combate a esse vírus, a necessidade de se construir novas relações, fundadas na solidariedade, cooperação e sensibilidade social. Caso contrário as sociedades se depararão com revoltas sociais em larga escala, tensões violentas com depredações e saques, por quem necessita viver e não medirão esforços para buscar seus direitos.
O que vimos nos últimos anos, de ascensão de governos insensíveis socialmente, muitos escorados em comportamentos estúpidos e de viés autoritários, de extrema-direita, como no caso brasileiro, certamente não seguirá adiante nas próximas escolhas eleitorais. Essa crise perversa será um caminho para que nos livremos da perversão de governos inconsequentes, com nítidos desprezos pela vida humana e somente preocupados em servir ao capital, à grande burguesia urbana e rural, e as corporações industriais, comerciais e/ou financeiras.
Apesar de tudo isso, e de termos que nos prepararmos até mesmo psicologicamente para as mudanças que virão dessa pandemia, nos resta neste momento cuidarmos da vida ameaçada pela celeridade do contágio desse vírus. O isolamento é uma necessidade, mas certamente nos despertaremos dessa quarentena cientes de que é preciso mudar o protagonismo nas sociedades. Tirarmos das mãos dos ricos, insensíveis com a miséria e desigualdades sociais, e transferirmos para comunidades onde as pessoas possam agir em comum união, respeitando-se mutuamente, e confiando na afirmação do solidarismo e do cooperativismo com forma de nos unir e nos prepararmos para tempos muito difíceis, com participação efetiva de um estado que vise o bem estar social. A ganância, usura e o individualismo devem ser combatidos, e que os valores perversos neoliberais se desmanchem esfumaçados pela força da resistência do povo e da afirmação da humanidade.


(*) Publicado originalmente em 2011, atualizado e ampliado em 28 de março de 2020, segunda semana de quarentena em função da pandemia do Covid19.

terça-feira, 24 de março de 2020

MEU BLOQUEIO, O NOVO CORONA VÍRUS E COMO VEJO ESSA PANDEMIA

Eu criei o Blog Gramática do Mundo para me livrar de uma ansiedade que me acompanhava, e ainda me acompanha, como consequência da perda de minha filha para uma doença terrível, a leucemia. Mas tem um período do ano que encontro muitas dificuldades de me debruçar sobre um teclado e fazer aquilo que me propus, com a criação do blog, mas também algo que gosto muito de fazer desde quando estudava no colegial: escrever.
Tenho muita facilidade para isso, muito embora eu fuja do esquematismo acadêmico e da necessidade de inserir infindáveis citações. O problema é que, por eu trabalhar numa universidade, isso é como tentar fugir do Covid19. Praticamente impossível, a menos que você se isole. E na verdade é exatamente isso que acontece. Pelo menos dentro dos padrões que é exigido para que tenhamos uma pontuação desejada em nossos relatórios acadêmicos. Não consegui me enquadrar nesse modelo, mas isso é uma necessidade para as novas gerações de professores/pesquisadores. Não quero, no entanto, entrar aqui nessa discussão, algo que já fiz em outros artigos passados, principalmente quando estive na disputa pela reitoria da UFG.
Prefiro escrever meus artigos em forma de crônicas, pois foi assim que idealizei esse blog. Retomando o meu raciocínio inicial, quando eu falava da dificuldade em produzir textos nos começos de ano, isso se deve às datas que remontam ao falecimento de minha filha, a ligação com um período de intensidade das festas de finais de ano e de datas de aniversários.
Este ano, no entanto, a situação tomou outra proporção. Como estudioso e professor de Geopolítica estive acompanhando desde o começo a proliferação desse vírus. Me preparando para montar o meu plano de aulas da disciplina Geopolítica Contemporânea, e sintonizado com as notícias principalmente que opunha a grande disputa comercial, e geopolítica, entre China e EUA, me deparei com o despontar de um vírus, que podia ser uma arma biológica/bacteriológica, mas que, como ocorreu em outras épocas (Ebola, Corona I...), poderia indicar um forte impacto na economia mundial, na medida em que isso se iniciava pelo país que hoje é o motor da economia do mundo, independente de o vírus ter sido fabricado, ou não. Sim, porque essa dúvida me acometia, e se assim fosse não seria novidade. Eu poderia citar diversos exemplos, mas também não é esse o foco desse artigo.
Me limitei a compartilhar postagens, artigos analíticos, que faziam referência ao vírus e suas consequências, bem como às estultices que eram ditas por alguns dos - piores - “líderes” mundiais, ou seja, presidentes de países importantes, como o dos EUA, do Brasil, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha. No entanto, embora com toda a clareza da gravidade eu não conseguia elaborar um artigo que pudesse transmitir a visão crítica que eu tinha, e naturalmente, por meus estudos, permitiam compreender a gravidade do problema. Confesso, sem ainda compreender toda a dimensão do quão grave seria a disseminação desse vírus.
Como tantos, no começo imaginei que ficaria mais restrito à China, e que se seguiria uma crise entre as duas maiores potências do mundo, com acusações mútuas de responsabilidades. Isso está acontecendo, mas em outro patamar da situação. Quem quer que seja que tenha criado esse vírus (deixando claro que cientistas já afirmam que esse não é um vírus criado em laboratório) não tinha a dimensão do seu poder de disseminação e de destruição das estruturas sociais, da economia e dos Estados.
A partir de determinado momento a minha ausência do meu blog se deu mais porque começou a surgir uma enxurrada de artigos sobre o assunto, por vieses bem diferentes, e foi crescendo gradativamente à medida em que se percebia esse poder destruidor da doença causada pelo vírus. Sempre que imaginava escrever me deparava com um artigo que expunha boa parte do meu pensamento, o que me fazia compartilhá-lo e me dar por satisfeito.
Entre o bloqueio que naturalmente me acomete em finais de ano, e o desespero crescente com o aumento da epidemia (que ao meu ver demorou a ser considerada pandemia pela OMS, creio que para evitar um colapso no sistema financeiro), fui tão somente replicando análises que eu julgava conveniente e adequada para a compreensão desse problema.
Um pouco aliviado desse bloqueio, embora tenso e ansioso por conta da situação em que estamos vivendo, em uma quarentena que nos deixa isolado e torna nossas relações mais virtuais, procuro aqui entender não somente a maneira como olho para tudo que está acontecendo à nossa volta, e no mundo, como também analisando alguns artigos que, creio, extrapolam na abordagem das causas que geraram essa situação. Naturalmente a origem do problema é o Corona Vírus, mas a forma de sua disseminação se dá em função da maneira como vivemos nos dias de hoje, tanto em cidades abarrotadas de gente, aos milhões, como também pela facilidade de interconexão das pessoas por todo o globo, tornado mais acentuado pela globalização.
Mas o problema não é a globalização. Até porque ela é parte de um processo que se inicia com as revoluções comerciais, quando as navegações possibilitam aos europeus atingirem todos os pontos do planeta e iniciarem um processo amplo de comercialização. Da mesma forma, mais acentuadamente, a busca por matéria-prima impôs aos grandes impérios correr para a África e América Latina, a fim de garantir a produção industrial que fazia o mundo diferente no final do século XIX, num momento denominado por Lênin, de Imperialismo. Mas cada um desses momentos seguiam um curso praticamente inevitável de ampliação dos contatos entre os territórios habitados, por toda parte do mundo, e a partir das revoluções burguesas transformados em Estados-Nações. Isso não se deu de maneira rápida, mas ao longo de pelo menos três séculos, até se consolidar ao final da primeira guerra mundial.
Desde as revoluções comerciais até o momento em que surge o adjetivo “globalização”, como uma das formas encontradas por escolas de economia de países chaves na estrutura do capitalismo mundial, o que havia como uma própria necessidade de aceleração sistêmica era um forte crescimento do comércio entre nações. Originando daí o termo “internacional” (entre nações). Esse movimento segue seu curso também para o movimento dos trabalhadores, mudando o foco do objetivo desses contados entre nações em ritmos crescentes. Com a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, transformada depois na Internacional Comunista, a frase marcante final do documento que lança esse movimento e se transforma no texto mais lido do mundo depois da bíblia, elaborado por Karl Marx e Friederich Engels foi/é: “proletários de todos os países, uni-vos” (O Manifesto Comunista). Assim, enquanto a burguesia propugnava pelo estreitamento das relações entre as nações e o encurtamento da distância para as mercadorias além-fronteiras, as lideranças socialistas pregavam a necessidade de a classe operária se internacionalizar, no sentido da aliança de classes e da unificação para combater a exploração capitalista.
Quando surge, o termo globalização tem um objetivo estratégico e ideológico. Era para se contrapor ao que o mundo ocidental capitalista pregou ao longo de décadas, afirmando que os países socialistas pregavam o isolamento e impediam a sua população de transitar livremente. Evidente que essa situação foi causada por um bloqueio, fruto da estratégia adotada no pós-guerra, saído dos escritos de um estrategista estadunidense, Nicolas Spykman (nascido na Holanda e se naturalizado estadunidense), que buscava impor o isolamento aos países socialistas. O que já tinha ocorrido no pós-primeira guerra, com o chamado “cordão sanitário”, vai acontecer de forma mais eficaz após a segunda guerra mundial, com a teoria do Himland e a estratégia da contenção. Assim, o mundo socialista ficou isolado, e se isolou também como uma defesa aos ataques que sofriam e para se proteger das ações geradas pela nova estratégia adotada pelos EUA e seus aliados europeus.
Quando desabam as estruturas dos países socialistas, principalmente da antiga União Soviética, o termo globalização passa a sugerir a vitória do capitalismo, naquilo que é da sua essência desde os primeiros escritos dos principais teóricos liberais, quando propuseram a livre circulação de mercadorias: “Laissez-faire, laissez-passer, le monde va de lui-même” (deixai fazer, deixar passar que o mundo anda por si mesmo). Ideologicamente essa terminologia passa a ter um significado forte para o capitalismo, a burguesia, e para os seus intentos, que foram aplicados e tornados efetivos para os seus interesses, malgrado todos os resultados maléficos para as pessoas que não possuem patrimônio, riquezas pessoais e não fazem parte do pequeno grupo daqueles que controlam os meios de produção. Mas sempre foi assim, desde a revolução comercial, da internacionalização com o advento do imperialismo e da globalização. O que muda, além do tempo e das condições como isso vai se desenvolver, são as transformações tecnológicas que possibilitam o encurtamento das distâncias e o aumento das relações entre os estados nações, com deslocamento acelerado do dinheiro, das mercadorias e das pessoas.
Mas é equivocado atribuir ao Corona Vírus a denominação de “vírus da globalização”. Porque ao meu ver a globalização entrou em outra fase, em que a oposição feita a ela hoje parte daqueles países que elegeram governantes de extrema-direita, com viés autoritários e de defesa de um nacionalismo extremo e isolacionista, que mais se assemelha aos objetivos propostos pelo nazi-fascismo, e o estabelecimento de uma política fechada com um estado forte para atender aos interesses da classe dominante, das grandes corporações e da burguesia financeira, na concessão de benefícios e benesses.
Ademais, não é a primeira vez, nem a última que um vírus, ou bactérias, se disseminam pelo mundo. Hoje de forma mais acelerada, como já disse, pela facilidade de deslocamento das pessoas. Mas populações aborígenes na América foram dizimadas por vírus de gripes, isso bem relatado no livro de Jared Diamond, “Armas, germes e aço”. Assim como a peste bubônica se espalhou intensamente pela Europa, eliminando um terço da população europeia. Ou uma das mais perversas epidemias, a “gripe espanhola”, que no âmbito da primeira guerra mundial matou dezenas de milhões de pessoas, espalhando para o mundo a primeira versão do vírus influenza.
Mas é correto afirmar, essa é minha opinião, que esse e tantos outros vírus e bactérias que disseminam entre nós, em nosso corpo e externamente, espalhando-se e nos contaminando em nossas relações sociais, são consequências do estilo de vida criado pelas estruturas de um mundo capitalista que concentra uma quantidade enorme de pessoas em cidades, em muitos casos com péssimas estruturas de higienes para a maioria das pessoas e destrói aceleradamente a biodiversidade do planeta. Sendo, portanto, assim, causado pelo sistema capitalista, em sua perversidade gananciosa e usurária, e com o advento da globalização pelo uso de políticas cada vez mais antissociais, denominadas de “neoliberais”, pelas quais o Estado não deveria interceder no controle da economia. Contrapunha-se assim, principalmente aquele estado fundado nos preceitos do “Walfare State” (estado de bem estar social), que mesclavam a partir de teorias keynesianas políticas de mercado com o controle e planejamento estatal, de forma a garantir uma sustentabilidade social que possibilitasse ao consumo não ser travado, agindo como um mecanismo de impedir as recessões econômicas, e caso isso ocorresse, que as populações mais pobres não ficassem mais fragilizadas.
A destruição do Estado e sua redução ao mínimo que atendia ao interesse dos empresários e corporações, deixando a população entregue à esses mecanismos pérfidos gananciosos, retirou do poder estatal a possibilidade de lidar com mais eficácia com pandemias e tragédias que abalam as populações de uma grande cidade, de uma região, de um país ou do mundo todo. Apesar da criação de organismos que surgiram com o fim de proteger essas camadas, nos últimos anos o que se viu foi exatamente a destruição dessas estruturas, a partir da eleição desses governos de extrema-direita, mas embalados pelas teorias neoliberais. A junção dessas duas perversidades é que nos deixa nessas condições de fragilidades no enfrentamento dessas tragédias, que ao passar seus picos, seguem afetando as populações pobres, tornando-se normalidades na lógica cruel dos mecanismos de concentração de riqueza capitalista.
A Covid19 não é uma doença da globalização. É uma doença do Estado mínimo, das pérfidas políticas neoliberais da redução de recursos para setores importantes como saúde, educação e desenvolvimento cientifico e tecnológico. Neste último caso sendo investidos recursos somente naqueles setores responsáveis pela disseminação da guerra e da busca por medicamentos que não reduzem as doenças, mas as tratam como forma de enriquecer grandes corporações e uma burguesia insensível e igualmente perversa. Seu combate deve se dar no âmbito daquelas lutas preconizadas pelo movimento dos trabalhadores do século XIX, em palavras de ordem e desejos de transformações ainda atuais: trabalhadores de todo o mundo, uni-vos.
O que virá depois do Novo Corona Vírus é impossível dizer, embora possamos deduzir com base naquilo que já conhecemos da história (“A história é um profeta, com o olhar voltado para trás. Pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será” – Eduardo Galeano). Mas ai entra a geopolítica, para, com base na análise das estratégias adotadas no combate ao vírus, das suas consequências na economia mundial e na forma como algumas lideranças governamentais sairão dessa crise, procurarmos saber como as peças do xadrez mundial serão mexidas, alterando, ou não, a ordem mundial estabelecida atualmente tendo como grande potência hegemônica os EUA. O que virá depois de tudo isso, ainda não pode ser dito, mas é possível imaginar, e para isso nossos estudos e pesquisas tornam-se importantes, para que nossas análises não se prendam ao olhar dos acontecimentos fugidios, fluídos, mas da identificação de quem saberá lidar melhor com esse problema e gritar primeiro: xeque-mate!!
Voltarei a esse assunto, na sequência, sempre olhando para adiante, com um olhar bem atento ao que acontece à nossa volta. Acho que rompi o bloqueio. Voltarei, e quando retornar provavelmente o novo epicentro da doença deverá ser os EUA. Em seguida o Brasil e daí para a África, talvez em sua etapa mais perversa na destruição das pessoas. Vamos acompanhando, em quarentena, e torcendo para estarmos errados em nossas previsões mais sombrias.