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segunda-feira, 27 de julho de 2020

AINDA SOBRE A DIALÉTICA E A RETÓRICA DO “NOVO NORMAL”

Recentemente pude realizar uma web-conferência sobre dialética em meu canal do You Tube (https://www.youtube.com/watch?v=NX_PAdZo9Ow&t=5187s), com a presença do músico e filósofo Laércio Correntina. Nosso mote partiu de uma das frases da música de Nelson Mota e Lulu Santos, “Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”. Extraída da bela música “Como uma onda”, apelidada por mim de “melô da dialética”.
A discussão foi ótima, demonstrando a partir da exposição de Laércio Correntina, a necessidade de conhecermos o significado da dialética, e como por meio desse conhecimento nós podemos ter uma compreensão maior da realidade. Naturalmente, quanto mais nos aprofundarmos no estudo da dialética, mais dúvidas e questionamentos surgirão em nossas cabeças. Por que essa é a essência desse método do conhecimento do mundo real.
A base do conhecimento adquirido pela dialética é a contradição. É por meio da contradição, no embate entre a ideia exposta inicialmente (tese) e da sua negação (antítese), que se pode chegar a uma nova formulação (síntese). Por isso, esses são os elementos principais do método dialético: a contradição, o choque dos contrários e a negação da negação.
Por esses princípios baseados na dialética não há absolutamente nada que não carregue em si a sua própria contradição. Ou que, uma vida sempre traz juntamente consigo os germes de sua própria destruição. É o embate entre a vida e a morte, entre o velho e o novo, entre o ser e o não ser... em uma persistente e eterna mudança. Pelo viés da dialética nada está estático, tudo está em permanente movimento. Por isso a mudança, o movimento, é sempre uma constante. O que não nos permite dizer que “nada muda”, como popularmente ouvimos sempre. Ou, e neste ponto quero polemizar mais adiante, que ao sairmos dessa pandemia que nos aflige iremos lidar com “um novo normal”. Ao afirmar isso negamos a própria maneira como se dá a vida, em nós seres humanos, na natureza em sua plenitude, e na sociedade. O que se chama de “normal” é um olhar estático de uma realidade que está sempre em movimento.
Aí reside a diferença com a lógica formal. Nesta se compreende que as coisas existem cada uma em sua individualidade, de forma que as relações se dão por meio de movimentos externos, e os acontecimentos são na verdade meras ações que obedecem a um princípio lógico em que se exclui a contradição, e que leva a busca do conhecimento por meio da indução e dedução.
A lógica dialética nos conduz à necessidade do entendimento do mundo como num processo contínuo de interligação entre as coisas. Nada se explica isoladamente, e não há acaso, existem causas que se sucedem num movimento cíclico, e isso acontece porque cada coisa carrega em si elementos que a levarão ao envelhecimento, e no choque entre o velho e o novo as mudanças advirão inevitavelmente. Tanto internamente, quanto externamente. Em um processo em que ao mesmo tempo em que as coisas se afirmam, contém em si os elementos de sua própria negação.
Isso pode parecer um olhar pessimista da realidade. Mas é simplesmente o estudo das evidências demonstradas no próprio ciclo da vida, em que se sucedem o nascimento, a infância, a adolescência, o amadurecimento, envelhecimento e morte. Isso no caso dos seres humanos. Mas o ciclo da vida acompanha todos os seres vivos. E se externamente nos deparamos com situações graves que nos levam à morte, às vezes de maneira repentina, fugindo desse ciclo natural, internamente isso se dá de forma incessante. Carregamos em cada um de nós, seres vivos, os germes de nossa própria destruição. Ou seja, existem dentro de nós um número inquantificável de células. São trilhões que nascem por dia, e um tanto aproximado que morrem. Essa relação vai se invertendo à medida em que envelhecemos e que vamos perdemos nossas defesas imunológicas, os anticorpos. Pouco a pouco esses anticorpos vão perdendo a luta que nos imuniza, e inevitavelmente envelhecemos e morremos.
Ao longo do tempo os seres humanos foram criando narrativas com base em crenças que visam justificar algo que não existe, a nossa imortalidade, para além das nossas condições terrenas. De acordo com cada cultura, em cada canto do mundo, foram surgindo seitas, mitos, divindades, religiões... com o intuito de amenizar nossas angústias em torno de algo para o qual nunca estamos preparado: a morte.
Essas angústias, em muitos casos transformadas em medos, surgiram de tentativas de amenizar nossas dúvidas quanto ao limite da vida, ou a inevitabilidade da morte, em buscas de respostas que visavam aliviar esses anseios. Mas essas tensões naturais em nossas vidas foram sendo aproveitadas por oportunistas, charlatões, que conduziram as pessoas pelo medo a aventuras terríveis, e perversões feitas em nome dessas divindades. Esse comportamento provocou genocídios, suicídios coletivos e diversas tragédias, consequências da manipulação decorrente da maneira como as pessoas lidam com a realidade.
Ao não compreender a dimensão da vida, em sua essência, e na sua materialidade, entregam-se às ilusões e se veem presas em crenças fundamentalistas que se escoram nos temores da morte e na esperança da vida para além dela. Nesses casos, perde-se a sensibilidade com o outro, e abdica-se da própria maneira de ser e se viver em sociedade. Os que agem assim fecham-se em redomas onde as verdades são afirmação dogmáticas de ideias, de crenças elaboradas no intuito de manipulação e de construção de poderes. A cegueira diante dessas visões fechadas levaram a esses resultados terríveis, quase sempre explicados em nome de suas divindades.
Ora, quando saímos do campo das questões filosóficas, em relação ao entendimento da vida e como lidamos com as realidades concretas, e resolvemos aplicar o método dialético para compreendermos como as sociedades surgem, se transformam e entram em declínio, veremos que esse método dialético nos permite entender que o sistema no qual vivemos não é eterno, porque nada é eterno, tudo tem começo, meio e fim.
Foi assim que Karl Marx e Friedrich Engels buscaram entender o processo de transformação social, desde os tempos primitivos. Com a aplicação do método dialético no estudo das sociedades, e com uma visão sobre a materialidade da vida, transposta para a história das sociedades humanas, eles formaram um entendimento de que as contradições são os elementos fundamentais que levam às transformações sociais. E que cada sistema carrega dentro de si, por meio dessas contradições, os elementos de sua própria destruição.
A evolução de cada sociedade, é o momento da afirmação de um modo de produção. Com o passar do tempo, o choque entre os contrários, entendendo-se como existente classes sociais antagônicas que entram em contradições, esse sistema entra em declínio e caminha para sua destruição, sendo inevitavelmente substituído por outra formação econômica e social, com outros elementos que lhes darão sustentação.
Ao analisarem assim eles compreenderam que desde as sociedades primitivas, todas as sociedades que surgiram fundaram-se numa luta de classes, entre senhores de escravos e escravos; nobres e servos; burgueses e proletários. E, por assim ser, o capitalismo também chegará ao seu limite, na medida da intensificação de suas crises que acentuarão as suas contradições. Por isso eles propuseram a construção de um sistema onde as classes sociais não mais existissem, onde a estrutura social se baseasse na organização coletiva, na cooperação, e na distribuição da produção com base nas condições individuais e na capacidade de trabalho de cada um.
Mas isso não significa o fim das contradições. Mas tão somente a redução de condições sociais degradantes, e desigualdades vergonhosas entre quem possui o controle dos meios de produção e os que só possuem suas forças de trabalho. Jamais, enquanto houver vida, as contradições desaparecerão, seja na natureza ou na sociedade. Nesses dois casos o que sempre existirá, ao mesmo tempo, é um equilíbrio e um desequilíbrio, que decorre na existência de diferenças naturais, no caso da natureza, e sociais, quando falamos de sociedades humanas. Quando essas diferenças, ou contradições, atingem um determinado limite, forçam necessárias mudanças, o que torna esse processo uma das chamadas leis da dialética: da transformação quantitativa em qualitativa.
Portanto, as mudanças acontecem o tempo inteiro. Muito embora a rotina de nossas vidas deixe a percepção de que “as coisas não mudam”. O que ocorre é que nossas vidas, individualmente, são um sopro na comparação com o tempo de existência das sociedades e civilizações humanas, e menos ainda, quando nos referimos ao tempo geológico, de existência da terra. Por isso muitos, que não possuem a percepção dialética da realidade, imaginam que as coisas não mudam. Ou, em outro extremo, e também absolutamente equivocado, de que a história se repete. Não pode existir repetição na história, por que essa se conta no tempo, e este é irreversível. O que passou jamais pode vir a acontecer novamente.
Por tudo isso a discussão sobre se teremos um “novo normal” é puramente estimulada por uma retórica que advém da maneira como se dissemina, dentro de uma lógica formal, a compreensão que as coisas só mudam como decorrência de um fato espetacular, ou um fenômeno da natureza, ou de guerras. Mas é claro que haverá mudanças. Sim, poderá ser algo novo. Mas a dialética explica exatamente isso: o novo sempre vem, como canta o poeta Belchior.
A questão é a ausência da percepção de que as coisas estão mudando permanentemente. Porque a maneira de ver e sentir o que acontece no mundo, e em suas vidas, da maioria das pessoas, segue essa lógica formal. Evidentemente, dentro das características que marcam o sistema capitalista, após cada catástrofe, ou crises profundas, há um processo de reacomodação. O sistema se retroalimenta dessas crises e, seja por necessidade ou por conveniência dos interesses dos que controlam a riqueza e os meios de produção, as mudanças, principalmente tecnológicas, irão acontecer e o que se convencionou chamar de “novo normal” advém, na verdade, das necessárias transformações no âmbito do próprio sistema. Isso é bem descrito no livro de Naomi Klein, “A Doutrina do Choque – A ascensão do capitalismo de desastre”.
Em muitos casos, como o que vivemos atualmente, já havia uma crise sistêmica, que se estende desde o final do século XX e se acentuou a partir de 2001 e explodiu com força em 2008, quando o sistema financeiro quase quebrou, o que causaria uma forte depressão mundial. De lá para cá, a recessão econômica atingiu diversos países, variando de continente para continente, mas não havia se recuperado quando a OMS declarou situação de pandemia. Como a quarentena forçada, ou o distanciamento físico/social, era a melhor maneira de se proteger do vírus “sars cov-2”, isso paralisou a maioria das cadeias produtivas, causando uma estagnação da economia. O quadro, que era de recessão, pode chegar a tornar-se depressivo economicamente, tornando as mudanças absolutamente necessárias.
Mas isso não significa modificar as condições pelas quais o sistema capitalista organiza sua superestrutura, ou seus valores morais, culturais, jurídicos e o estilo de vida que impõe às pessoas hábitos consumistas. Pelo menos não de forma radical. No entanto, seguramente muitas mudanças ocorrerão, e mais do que isso, já estão ocorrendo, nesses poucos meses de um tempo absolutamente estranho nas vidas dos que vivem essa época.
O que vai acontecer, a partir do que virá, é impossível indicar com precisão. Os prováveis cenários, sob diversos aspectos, sociais, econômicos ou geopolíticos são de difíceis previsões. No entanto as mudanças, de fato, são inevitáveis. Só que o chamado “novo normal” não será nada mais do que uma adaptação sistêmica, capitalista, principalmente com o advento de novas tecnologias e funcionalidades, mas com as mesmas desigualdades sociais inerentes a esse modelo de formação econômica. São mudanças que se encaixarão no estilo consumista frio e desigual, com novas funções, empregos destruídos, elites perversas e ampliação da pobreza. Também não será o velho normal, mas o mesmo sistema injusto, fragmentado e segregacionista.
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(*) Para acessar o vídeo da web-conferência sobre Dialética acesse:
"NADA DO QUE FOI SERÁ, DE NOVO DO JEITO QUE JÁ FOI UM DIA" - MÚSICA E FILOSOFIA NA PANDEMIA -  https://www.youtube.com/watch?v=NX_PAdZo9Ow&t=5187s





sábado, 28 de março de 2020

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR – O COVID19 E A CRISE CAPITALISTA MUNDIAL


Poucos artigos que eu escrevi neste blog foram alvos de modificações depois de publicados. Neste caso especificamente decidi atualizá-lo em função da crise que vivemos, com a disseminação do novo corona vírus, ou a doença gerada por ele, identificado pela OMS como Covid19. A intenção de, mais do que republicá-lo e atualizá-lo, é aproveitar o sentido dado a essa frase por Marx e depois tornada título de um livro por Marshall Berman, que representa a maneira como as coisas não são definitivas e estão sujeitas a transformações permanentemente. As crises, mesmo que sendo de origens diferente, mas que impactam as estruturas econômicas e sociais, e o nosso estilo de vida, impõem mudanças inevitáveis e fazem jogar por terras certezas e convicções, e, principalmente, as negações sobre o que é real, concreto e se transmuta, dialeticamente, seguindo a dinâmica da vida, em seu sentido geral.
Após essas crises, e dependendo da sua dimensão, tudo passa a seguir em um rumo distinto, diferente, alheio aos desejos dos que se julgam responsáveis pelos destinos do mundo, sustentados por riqueza e o Poder que advém daí. Deus, qualquer que seja Ele de quaisquer religião, não consegue impedir isso, e também não é capaz de conter essas mudanças, ou de nos fazer entender suas origens e para onde seguiremos, porque ele é a representação que fazemos de nós mesmos com poderes que idealizamos para nos salvar de nossos próprios erros. Mas há os incautos, que se mantém na ignorância, e se apegam às crenças para além da realidade terrena, e do que a ciência pode nos ensinar, se escondem em um mundo fictício, irreal, onde a ignorância não os permite compreender a dimensão do que está acontecendo.
Voltemos um pouco no tempo, quando se iniciava a velocidade das transformações que impunham ao mundo certezas alimentadas pela força da ideologia neoliberal e do poder da comunicação em uma escala mundial. O advento da globalização, expressão usada para se opor ao controle que alguns Estados Nacionais faziam à defesa de suas riquezas, mas cujo objetivo era acelerar a disseminação da ganância e usura capitalista por todo o mundo, e, principalmente em territórios cujas fronteiras eram até então difíceis de serem exploradas, procurou derrubar os valores de um mundo movido pela defesa do estado do bem estar social, e com a preocupação em conter desigualdades cruéis, internas e entre nações. Junto com isso, velhos valores foram tidos como ultrapassados, e novas crenças no poder do dinheiro, do neopentecostalismo individualista e da afirmação da ganância como algo bom e produtivo, terminou por impor nas mentes das pessoas uma realidade absolutamente distante de seus mundos, mas aceita pela força da ideologia e do novo mantra que dizia ser o capitalismo a última etapa da história humana. O mundo saiu da modernidade para a pós-modernidade. E esta durou menos que o instante em que um traque explode.
E, embora as forças reacionárias tentem atingir os estudos das ciências humanas, é fundamental nos aventurarmos pela história e pela filosofia, procurando fazer uma análise das mudanças pelas quais passou a sociedade moderna. “Pós-pós-moderna”, diriam alguns. Essa onda do pós, que pautou as discussões filosóficas na última década do século XX, felizmente foi-se junto com os vários tsunamis que varreram muitos lugares, inclusive aquelas duas torres chamadas de “World Trade Center”. Ou após os “subprimes” nos Estados Unidos transformarem-se em poeiras e ter jogado a economia capitalista em uma das maiores crises de sua história, perdendo apenas para o “Crash” da bolsa de Nova Iorque em 1929. Pós-alguma coisa, só no sentido figurativo.
Então, o que virou o mundo nestas duas décadas do século XXI? Bom, seria muita pretensão querer dar resposta a isso, até porque precisaríamos de muitas respostas e creio ser difícil nos aventurarmos em tamanha complexidade. Podemos dar palpites, isso podemos fazer. Mas, vejam, falamos antes em “ciências humanas”. Portanto, dar palpites, estar bem informado, não necessariamente expressa um conhecimento científico, e isso é importante termos bem claro.
O mundo das comunicações fáceis difundiu em volta do planeta várias teorias e criou vários expertises nos mais diversificados assuntos. As comunidades virtuais, chamadas redes sociais, espalharam pelo globo uma multidão de experts em entender da realidade social e geopolítica. Alimentados por meios de comunicação que replicavam análises que interessavam às grandes corporações, e aos poderes hegemônicos. As redes sociais são instrumentos de divulgação de idéias e opiniões, não podem ser convertidas em objetos responsáveis pela construção de conceitos, filosofias, teorias etc. Mas foram fundamentais para difundir esses novos valores, advindos com esse mundo “globalizado” e de idéias neoliberalizantes, conservadoras, que procuravam justificar as desigualdades sociais como decorrentes da luta meritocrática ou pelo tamanho da fé. Por isso elas foram se constituindo em importantes instrumentos de difusão acelerada dessas ideias que se libertaram da “Caixa de Pandora” com o fim da pós-modernidade (ou o que se dizia ser isso) e viraram o mundo de ponta-cabeça nas duas últimas décadas. Junto a isso, as lutas fragmentárias esgrimidas pelas esquerdas, perdidas em um mundo bipolar, que muitas vezes fugiam ao seu entendimento, pelo deslumbramento das técnicas e da velocidade das transformações. Melhor então do que a luta geral, antissistema, foi constituir lutas fragmentadas, onde cada grupo social descriminado lutava para se inserir na mesma lógica que as tornaram “minorias”. Uma situação contraditória, mas posta diante de uma encruzilhada, porque essa luta tornava-se necessária. No entanto, ela não podia estar descolada da luta mais geral, pela transformação sistêmica e uma alteração radical na sociedade.

UM MUNDO EM CRISE

É difícil afirmar qual o momento em que uma crise de grandes proporções não tenha afetado o mundo. Melhor seria dizer que nos dois últimos séculos ele está permanentemente em crise, com picos de agravamento em ação cíclica. Primeiro é bom lembrar que o sentido desta palavra vai mudando ao longo da história humana, sendo que etimologicamente, originando-se do grego Krinein ou krisis, tinha o sentido de “julgar, avaliar, decidir, separar”, transmutando-se por todo esse tempo, até ser usado na época moderna pela medicina, passando a representar um momento decisivo de uma situação de doença grave entre a cura e a morte (cf. dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa).
Na abordagem econômica essa palavra ganha a conotação de um sentido semelhante, demonstrando o auge de contradições que impõe uma “enfermidade” em uma formação econômico-social, forçando mudanças substanciais e até mesmo substituição de formas de produção. Segue-se, como decorrência, as alterações dos valores que são construídos sobre os pilares das estruturas econômicas, a substituição de hábitos, costumes, tradições. A cultura, enfim, transforma-se fazendo surgir novos elementos que darão à sociedade uma nova feição, acompanhando, sempre, a forma como está estruturada as suas bases, seu jeito de produzir. E outras idéias, impostas pelas novas classes dominantes, substituirão as antigas no controle ideológico da sociedade.
Nossa percepção de mudanças acompanha as situações peculiares, particulares. Observamos o nosso redor, aquilo que nos diz respeito especificamente, o dimensionamos à totalidade, e identificamos no cotidiano elementos que gradativamente vão substituindo comportamentos antigos. Quando novas atitudes passam a se impor – às vezes de forma imperceptível – é um sinal de que os valores existentes até então enfraqueceram-se. Isso quase sempre acontece quando, pelas formas econômicas, os relacionamentos vão se deteriorando e forçando as mudanças.
O período em que os antigos costumes começam a se chocar com essas novidades que vêem surgindo, acompanhando os estremecimentos na base econômica, passou a ser denominado como crítico, ou de crises na sociedade. As forças do novo quase sempre se impõem, mas não antes de criar a sensação de que estamos em meio a um caos. A História irá nos mostrar que esse período é na verdade uma transição entre o velho e o novo, alterando estruturas sociais e formulando novos valores culturais.
Nesse aspecto uma importante referência é a produção intelectual de Milton Santos, falecido em 2001. Esse intelectual baiano, doutor em Geografia, e premiado internacionalmente, falava frequentemente que estamos vivendo uma época de transição, naquilo que ele caracterizou como período técnico-científico-informacional. E acrescentava, que os que vivem em meio à essas transformações não conseguem perceber que estão em meio à uma transição sistêmica, que é longa e traz consigo mudanças superestruturais. As idéias, a cultura, vão sendo pouco a pouco afetadas por essas transformações e geram um conflito, um caos, que representa exatamente o início da crise que definirá os novos rumos da sociedade. Isso sempre se dá localizadamente, depois se expandindo para outros lugares, até atingir praticamente toda a humanidade.

ALÉM DO BEM E DO MAL

“Nesses pontos limiares da história exibem-se – justapostos quando não emaranhados um no outro – uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e, de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor”. Isso é Nietzsche (1882), citado por Marshall Berman, no livro do qual se originou o título deste texto (embora a frase seja originalmente de Marx). E a discussão que o motivou, e da qual Berman procura analisar, é a respeito das transformações que aconteciam no século XIX e a crise que possibilitou o advento da modernidade burguesa.
As relações de produção capitalista já tinham se iniciado alguns séculos antes, e explodia na sociedade européia as mudanças culturais que precisavam se impor, acompanhando as transformações econômicas. O choque entre valores antagônicos, de uma época que se desfazia e de outra que despontava. O velho e carcomido pensamento medieval se via sob um fogo cruzado das idéias burguesas que se impunha e já do seu contrário, as teorias socialistas que refutavam a burguesia ainda no processo de consolidação de seu poder político.
Já naquela época vamos encontrar situações parecidas com as que vivenciamos nos dias atuais, compreendendo bem, para não cairmos no anacronismo, que estamos falando de momentos bem distintos da história da humanidade. Contudo, as características pertinentes a uma crise de choques de contradições geradas por mudanças sócio-econômicas, são bastante parecidas. E segue-se mais uma citação de Berman, extraída da obra de Nietzsche:
“Nada a não ser novos ‘porquês’, nenhuma fórmula comunitária; um novo conluio de incompreensão e desrespeito mútuo; decadência, vício, e os mais superiores desejos atracados uns aos outros, de forma horrenda, o gênio da raça jorrando solto sobre a cornucópia do bem e do mal; uma fatídica simultaneidade de primavera e outono”.
Impactava-se, assim, numa época de espetaculares transformações, de espírito revolucionário, um rico choque de contradições, mas também de esfumaçamento de certezas que se chocam e colidem com novidades que ainda não estavam definitivamente provadas. Em meio a uma dialética incontrolável, a meu ver transparecendo o óbvio, explodiam ódios, rancores, expectativas, anarquia, luta de classes... a modernidade despontava entremeada com a esperança de superação de um horror que ficava para trás, e de desconfiança pelo que poderia repetir, diante de um vazio de proposições fúteis e individualistas.

MAIS DO MESMO

Vivemos agora algo parecido. Sem desconsiderarmos o fato de estarmos em uma época completamente distinta, mais de um século depois do advento da modernidade, continuamos nos deparando com situações parecidas. Talvez com uma novidade, analisando-se um pouco superficialmente as duas épocas. É provável que mais do que nunca em uma época se ignore tanto a História (assim como as ciências de uma maneira geral) como agora. Digo a História como processo, não esse fragmento de fatos estudados isoladamente, como se as coisas acontecessem desconectadas e fosse possível analisar casos do cotidiano sem a compreensão de suas origens e de como as contradições forçam as mudanças.
A geração que inicia o século XXI na adolescência, e acredito pela maneira como aprendem as coisas, imaginam estarem vivendo em um mundo que começou agora. Desconhecem todas as contradições que nos movem, erguem palavras de ordem completamente anacrônicas, acreditam piamente que os problemas do mundo é fruto do conflito entre o bem e o mal, e assumem defesa de causas conservadoras como se as mesmas fossem revolucionárias. Isso foi impulsionado ideologicamente pelos meios de comunicação, e adequados pelas novas tecnologias que nos faziam sucumbir aos espetáculos da nova onda cibernética que os tiravam do mundo real e os fixavam na virtualidade da matrix.
Como a incorporarem, mesmo que ingenuamente, o discurso neopentecostal, tem o olhar fixado no futuro, desprendidos do presente, e na perspectiva de alcançarem conquistas por reivindicações singelas, aparentemente radicais. São elementos que compõem a própria maneira como o sistema se retroalimenta. Drogas, marginalidade, alienação, apoliticismo (que não necessariamente é alienação), religiosidade, obsessiva vontade de enriquecer a qualquer custo, preconceito, liberalismo sexual, frustrações com o fracasso... tudo são questões que mantém o sistema seguindo em sua lógica normal. E convivendo com isso há mais de um século. Mas mudando no formato e adequando-se por esse novo meio técnico-científico-informacional.
A aparente ebulição da sociedade, expressa de várias formas e potencializadas pelas redes sociais, não carrega em si nada de novo, a não ser no uso dessas novas tecnologias e do cyberworld. Mas, ao contrário da época em que a modernidade desponta, compreendendo isso no sentido filosófico do termo, nos dias atuais há uma completa indiferença em relação à existência de classes sociais distintas, e à luta que é travada entre elas. No momento silenciosa, mas com o aprofundamento das crises, a exemplo do que acontece em alguns países árabes e europeus, e na observância das soluções que se apresentam para elas, vai claramente sendo definido os campos em disputas. As medidas radicais tomadas para superar os problemas e impedir o agravamento dessas crises, são sempre para proteger os meios de produção, a riqueza dos grandes investidores e o patrimônio real ou virtual (porque o dinheiro passou a se fundamentar na opacidade) dos grandes banqueiros e especuladores.
Enquanto isso se marcha contra tudo, menos contra aquilo que é, em essência, responsável pelas condições que tornam a sociedade insegura e refém de seus medos e individualidades. Muito embora todo um aparato repressivo seja mobilizado para conter isso, por uma necessidade de não se perder o controle do Poder bem como para se impor a autoridade, não são essas as formas de lutas, nem o conteúdo que as movem, que irão fazer com que a burguesia perca o seu sono.
O que dizia Marx, no século XIX, mas com um conteúdo extremamente atual, e irônico em relação às lutas e combates ideológicos travados pela burguesia, se aplica a movimentos  que se apresentam com idéias avançadas, mas de conteúdos conservadores, que nos dias atuais imaginam travarem uma luta revolucionária:
“Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes de chegarem a ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (...) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos” (Manifesto Comunista, 1848. Citado por Berman, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar – A aventura da Modernidade. Cia das Letras, 1993, p. 20).

O CORONA VÍRUS E A NOVA CRISE NO CAPITALISMO

O desafio é o que fazer agora, numa circunstância de agravamento da crise capitalista por um vírus de uma letalidade relativa, mas de uma aceleração de contágio aceleradíssima, o que tem feito com que praticamente toda a estrutura do sistema produtivo capitalista esteja travada? A ganância, bem descrita no filme “Wall Street, poder e cobiça”, no discurso de Gordon Greco a acionistas de uma empresa que ele acabara de adquirir para fracioná-la e vendê-la, na lógica marcante que se tornou uma marca dessas transformações no capitalismo neste século, independente da destruição de milhares de empregos, bem como a maneira como se passou a ganhar dinheiro no cassino global das bolsas de valores, interligadas em tempo real, tornou-se a face real e perversa de uma época marcada pela aceleração contemporânea.
O novo corona vírus forçou um cavalo de pau no capitalismo. Isso é como se uma peça importante da engrenagem tivesse se soltado de uma Ferrari, ou de uma Mercedes, a 300 quilômetros por hora numa corrida de Fórmula 1. E a seguir essa máquina tivesse ficado presa na “zebra” da pista, impossibilitada de se deslocar sozinha, senão com um impulsionamento externo. Apesar de uma comparação meio grosseira, o que tento apontar é a absoluta impossibilidade de o capitalismo conseguir se livrar dessa crise sem a utilização do principal mecanismo que o tornou um sistema mundial: o Estado. Demonizado em época de neoliberalismo, e tornado mínimo pela destruição de seus mecanismos de aparato social, constituído por décadas pós-segunda guerra como necessidade para disciplinar a concentração de riqueza e o aumento das desigualdades sociais.
Apesar disso, da extrema necessidade de intervenção do Estado para evitar falências em larga escala de um considerável número de empresas, a demissão em massa de trabalhadores e trabalhadoras e atendimento às camadas que se situam abaixo da linha de pobreza, a recessão, e quiçá uma forte depressão econômica que afetaria todo o mundo é um forte possibilidade. Assim, se confirma o que iniciamos colocando nesse artigo, das mudanças que necessariamente acontecem em tempos de crise. Confirmando a máxima no título desse artigo, na exploração já dita de uma frase extraída do Manifesto Comunista, elaborado por Karl Marx e Friederich Engels, a solidez do capitalismo neoliberal se esfumaça e ameaça valores consideráveis em sua lógica perversa, o individualismo, a usura, o egoísmo... E fortalece, pelas próprias consequências do que virá após o combate a esse vírus, a necessidade de se construir novas relações, fundadas na solidariedade, cooperação e sensibilidade social. Caso contrário as sociedades se depararão com revoltas sociais em larga escala, tensões violentas com depredações e saques, por quem necessita viver e não medirão esforços para buscar seus direitos.
O que vimos nos últimos anos, de ascensão de governos insensíveis socialmente, muitos escorados em comportamentos estúpidos e de viés autoritários, de extrema-direita, como no caso brasileiro, certamente não seguirá adiante nas próximas escolhas eleitorais. Essa crise perversa será um caminho para que nos livremos da perversão de governos inconsequentes, com nítidos desprezos pela vida humana e somente preocupados em servir ao capital, à grande burguesia urbana e rural, e as corporações industriais, comerciais e/ou financeiras.
Apesar de tudo isso, e de termos que nos prepararmos até mesmo psicologicamente para as mudanças que virão dessa pandemia, nos resta neste momento cuidarmos da vida ameaçada pela celeridade do contágio desse vírus. O isolamento é uma necessidade, mas certamente nos despertaremos dessa quarentena cientes de que é preciso mudar o protagonismo nas sociedades. Tirarmos das mãos dos ricos, insensíveis com a miséria e desigualdades sociais, e transferirmos para comunidades onde as pessoas possam agir em comum união, respeitando-se mutuamente, e confiando na afirmação do solidarismo e do cooperativismo com forma de nos unir e nos prepararmos para tempos muito difíceis, com participação efetiva de um estado que vise o bem estar social. A ganância, usura e o individualismo devem ser combatidos, e que os valores perversos neoliberais se desmanchem esfumaçados pela força da resistência do povo e da afirmação da humanidade.


(*) Publicado originalmente em 2011, atualizado e ampliado em 28 de março de 2020, segunda semana de quarentena em função da pandemia do Covid19.

sábado, 9 de julho de 2011

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR

Resolvi nesta postagem me aventurar pela filosofia, tentando fazer uma análise da sociedade atual. “Pós-pós-moderna”, diriam alguns. Essa onda do pós, que pautou as discussões filosóficas na última década do século XX, felizmente foi-se junto com os vários tsunamis que varreram muitos lugares, inclusive aquelas duas torres chamadas de “World Trade Center”. Ou após os “subprimes” nos Estados Unidos transformarem-se em poeiras e ter jogado a economia capitalista em uma das maiores crises de sua história, perdendo apenas para o “Crash” da bolsa de Nova Iorque em 1929. Pós-alguma coisa, só no sentido figurativo.
Então, o que virou o mundo nesta década inicial do século XXI? Bom, seria muita pretensão querer dar resposta a isso, até porque precisaríamos de muitas respostas e não me sinto capaz de me aventurar em tamanha complexidade. Posso dar palpites sobre alguma coisa... Bingo! Eis a questão, é sobre isso que quero falar. O mundo das comunicações fáceis difundiu em volta do planeta várias teorias e criou expertises nos mais diversificados assuntos. Eis-me aqui, a dar também os meus palpites.
Mas não estou me referindo às comunidades virtuais, chamadas redes sociais. Repito o que já disse em outros textos, elas são instrumentos de divulgação de idéias e opiniões, não podem ser convertidas em objetos responsáveis pela construção de conceitos, filosofias, teorias etc. As redes sociais apenas as reproduzem. E vão se constituindo por isso em importantes instrumentos de difusão acelerada dessas idéias, as quais pretendo abordar, que se libertaram da “Caixa de Pandora” com o fim da pós-modernidade (ou o que se dizia ser isso) e viraram o mundo de ponta-cabeça nas duas últimas décadas.
UM MUNDO EM CRISE
É difícil afirmar qual o momento em que uma crise de grandes proporções não tenha afetado o mundo. Melhor seria dizer que ele está permanentemente em crise. Primeiro é bom lembrar que o sentido desta palavra vai mudando ao longo da história humana, sendo que etmologicamente, originando-se do grego Krinein ou krisis, tinha o sentido de “julgar, avaliar, decidir, separar”, transmutando-se por todo esse tempo, até ser usado na época moderna pela medicina, passando a representar um momento decisivo de uma situação de doença grave entre a cura e a morte (cf. dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa).
Na abordagem econômica essa palavra ganha a conotação de um sentido semelhante, demonstrando o auge de contradições que impõe uma “enfermidade” em uma formação econômico-social, forçando mudanças substanciais e até mesmo substituição de formas de produção. Segue-se, como decorrência, as alterações dos valores que são construídos sobre os pilares das estruturas econômicas, a substituição de hábitos, costumes, tradições. A cultura, enfim, transforma-se fazendo surgir novos elementos que darão à sociedade uma nova feição, acompanhando, sempre, a forma como está estruturada as suas bases, seu jeito de produzir. E outras idéias, impostas pelas novas classes dominantes, substituirão as antigas no controle ideológico da sociedade.
Nossa percepção de mudanças acompanha as situações peculiares, particulares. Observamos o nosso redor, aquilo que nos diz respeito específicamente e o dimensionamos à totalidade, e identificamos no cotidiano elementos que gradativamente vão substituindo comportamentos antigos. Quando novas atitudes passam a se impor – ás vezes de forma imperceptível – é um sinal que os valores existentes até então enfraqueceram-se. Isso quase sempre acontece quando, pelas formas econômicas, os relacionamentos vão se deteriorando e forçando as mudanças.
O período em que os antigos costumes começam a se chocar com essas novidades que vêem surgindo, acompanhando os estremecimentos na base econômica, passou a ser denominado como crítico, ou de crises na sociedade. As forças do novo quase sempre se impõem, mas não antes de criar a sensação que estamos em meio a um caos. A História irá nos mostrar que esse período é na verdade uma transição entre o velho e o novo, alterando estruturas sociais e formulando novos valores culturais.
Sempre tenho como referência Milton Santos, a quem dediquei um de meus últimos post, e ele falava frequentemente que vivemos uma época de transição, naquilo que ele caracterizou como período técnico-científico-informacional. E acrescentava, que os que vivem em meio à essas transformações não conseguem perceber que estão em meio à uma transição sistêmica, que é longa e traz consigo mudanças superestruturais. As idéias, a cultura, vão sendo pouco a pouco afetadas por essas transformações e geram um conflito, um caos, que representa exatamente o início da crise que definirá os novos rumos da sociedade. Isso sempre se dá localizadamente, depois se expandindo para outros lugares, até atingir praticamente toda a humanidade.
ALÉM DO BEM E DO MAL
“Nesses pontos limiares da história exibem-se – justapostos quando não emaranhados um no outro – uma espécie de tempo tropical de rivalidade e desenvolvimento, magnífico, multiforme, crescendo e lutando como uma floresta selvagem, e, e de outro lado, um poderoso impulso de destruição e autodestruição, resultante de egoísmos violentamente opostos, que explodem e batalham por sol e luz, incapazes de encontrar qualquer limitação, qualquer empecilho, qualquer consideração dentro da moralidade ao seu dispor”. Isso é Nietzsche (1882), citado por Marshall Berman, no livro do qual peguei o título deste texto (embora a frase seja originalmente de Marx). E a discussão que o motivou, e da qual Berman procura analisar, é a respeito das transformações que aconteciam no século XIX e a crise que possibilitou o advento da modernidade burguesa.
O capitalismo já se iniciara alguns séculos antes, mas ainda explodia na sociedade européia as mudanças decorrentes de outro tipo de cultura que precisava se impor, acompanhando as transformações econômicas. O choque entre valores antagônicos, de uma época que se desfazia e de outra que despontava. O velho e carcomido pensamento medieval se via sob um fogo cruzado das idéias burguesas que se impunha e já do seu contrário, as teorias socialistas que refutavam a burguesia ainda no processo de consolidação de seu poder político.
Já naquela época vamos encontrar situações parecidas com as que vivenciamos nos dias atuais, compreendendo bem, para não cairmos no anacronismo, que estamos falando de momentos bem distintos da história da humanidade. Contudo, as características pertinentes a uma crise de choques de contradições geradas por mudanças sócio-econômicas, são bastante parecidas. E segue-se mais uma citação extraída da obra de Nietzsche:
“Nada a não ser novos ‘porquês’, nenhuma fórmula comunitária; um novo conluio de incompreensão e desrespeito mútuo; decadência, vício, e os mais superiores desejos atracados uns aos outros, de forma horrenda, o gênio da raça jorrando solto sobre a cornucópia do bem e do mal; uma fatídica simultaneidade de primavera e outono”.
Impactava-se, assim, numa época de espetaculares transformações, de espírito revolucionário, um rico choque de contradições, mas também de esfumeamento de certezas que se chocam e colidem com novidades que ainda não estavam definitivamente provadas. Em meio a uma dialética incontrolável, a meu ver transparecendo o óbvio, explodiam ódios, rancores, expectativas, anarquia, luta de classes... a modernidade despontava entremeada com a esperança de superação de um horror que ficava para trás, e de desconfiança pelo que poderia repetir, diante de um vazio de proposições fúteis e individualistas.
MAIS DO MESMO
Vivemos agora algo parecido. Sem desconsiderarmos o fato de vivermos em uma época completamente distinta, mais de um século depois do advento da modernidade, continuamos nos deparando com situações parecida. Talvez com uma novidade, analisando-se um pouco superficialmente as duas épocas. É provável que mais do que nunca em uma época se ignore tanto a História como agora. Digo a História como processo, não esse fragmento de fatos analisados isoladamente, como se as coisas acontecessem desconectadas e fosse possível analisar casos do cotidiano sem a compreensão de suas origens e de como as contradições forçam as mudanças.
A geração que inicia o século XXI na adolescência, e acredito pela maneira como aprendem as coisas, imaginam estarem vivendo em um mundo que começou agora. Desconhecem todas as contradições que nos movem, erguem palavras de ordem completamente anacrônicas, acreditam piamente que os problemas do mundo é fruto do conflito entre o bem e o mal, e assumem defesa de causas conservadoras como se as mesmas fossem revolucionárias.
Como a incorporarem, mesmo que ingenuamente, o discurso neopentecostal, tem o olhar fixado no futuro, e na perspectiva de alcançarem conquistas por reivindicações singelas, aparentemente radicais. São elementos que compõem a própria maneira como o sistema se retroalimenta. Drogas, marginalidade, apoliticismo (que não necessariamente é alienação), religiosidade, obsessiva vontade de enriquecer a qualquer custo, preconceito, liberalismo sexual... tudo são questões que mantém o sistema seguindo em sua lógica normal. E convivendo com isso há mais de um século.
A aparente ebulição da sociedade, expressa de várias formas e potencializadas pelas redes sociais, não carrega em si nada de novo, a não ser no uso dessas novas tecnologias. Mas, ao contrário da época em que a modernidade desponta, compreendendo isso no sentido filosófico do termo, nos dias atuais há uma completa indiferença em relação à existência de classes sociais distintas, e à luta que é travada entre elas. No momento silenciosa, mas com o aprofundamento das crises, a exemplo do que acontece em alguns países árabes e europeus, e na observância das soluções que se apresentam para elas, vai claramente sendo definido os campos em disputas. As medidas radicais tomadas para superar os problemas e impedir o agravamento dessas crises, são sempre para proteger os meios de produção, a riqueza dos grandes investidores e o patrimônio real ou virtual dos grandes banqueiros e especuladores.
Enquanto isso se marcha contra tudo, menos contra aquilo que é, em essência, responsável pelas condições que tornam a sociedade insegura e refém de seus medos e individualidades. Muito embora todo um aparato repressivo seja mobilizado para conter isso, por uma necessidade de não se perder o controle do poder bem como para se impor a autoridade, não são essas as formas de lutas, nem o conteúdo que as movem, que irão fazer com que a burguesia perca o seu sono.
O que dizia Marx, no século XIX, mas com um conteúdo extremamente atual, e irônico em relação às lutas e combates ideológicos travados pela burguesia, se aplica a movimentos  que se apresentam com idéias avançadas, mas de conteúdos conservadores, que nos dias atuais imaginam travarem uma luta revolucionária:
“Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes de chegarem a ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (...) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos” (Manifesto Comunista, 1848. Citado por Berman, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar – A aventura da Modernidade. Cia das Letras, 1993, p. 20).