quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

NIHIL HUMANI A ME ALIENUM PUTO! (NADA DO QUE É HUMANO ME É ESTRANHO)

Essa era a máxima preferida de Karl Marx.
Creio que ela serve para analisarmos o que se passa nas redes sociais. Sabe-se lá com que intenção, alguém (alguns) identificaram uma pessoa com o mesmo perfil do responsável pela morte do cinegrafista da Band e, em uma montagem, para dizer que as TVs estavam manipulando a informação sugerem ser aquele outro o culpado. Por estar conversando com os policiais, certamente imaginaram ser algum agente infiltrado. Ora, essa pessoa teria visto sua foto circulando na rede e já se identificou, certamente preocupado e indignado por tornar-se suspeito. Supõe-se. Essa postagem teve milhares de compartilhamento. O bizarro disso é que os indivíduos responsáveis por detonarem o explosivo, já estavam presos e são réus confessos. Os dois, identificados por vários ângulos, assumiram a responsabilidade, embora um acusasse o outro por acender o explosivo. Qual o objetivo de tentar acusar outras pessoas aleatoriamente? Claro, existem interesses escondidos. Mas talvez poucas pessoas saibam que boa parte dos perfis que existem na internet, é falsa. São os chamados "fakes". Então é melhor se informar antes de reproduzir algo que sirva a interesses escusos.
O fato é que esses comportamentos que levam alguns jovens a exacerbar em seus atos e a agirem com a mesma violência e estupidez com que agem as forças repressoras, causa um efeito colateral sério, e cria os pretextos dos quais necessitam as forças reacionárias e fascistas para limitar os direitos democráticos de manifestação, bem como criminalizar os movimentos sociais, e a exigirem governos mais duros e policialescos. Esses foram argumentos utilizados para a efetivação do golpe militar em 1964. Com essas atitudes prestam um desserviço aos que, criticamente, lutam por transformações mais radicais de forma organizada. Organização que eles repudiam, e agem de forma anárquica, sem objetivos políticos definidos.
A morte desse trabalhador, lamentável sob todos os aspectos, terminou por servir à mídia conservadora dar destaque e pressionar parlamentares para endurecer legislações contra as manifestações.
No combate que fazíamos ao regime militar, já na decadência desse poder, jamais nos faltou coragem e nunca nos sentimos intimidados ou amedrontados com todo o aparato repressor que nos oprimia e que enfrentávamos nas ruas. Sem máscaras, sem armas, num momento em que sabíamos enfrentarmos um regime fragilizado politicamente e que precisávamos do apoio da sociedade.
Repelir a sanha fascista com a mesma estupidez seria, naquele momento, contraproducente, e nos impediria de obter o apoio que necessitávamos para isolar a ditadura e trazer o apoio de toda a sociedade para a transição democrática.
Não foram poucos, e eu me incluo nessa lista, os que sofreram a brutalidade dos cassetetes, do gás lacrimogênio, dos fuzis apontados no peito, das prisões e espancamentos, e dos fichamentos nos antigos DOPS e na Polícia Federal. Sem contar as intermináveis "visitas" às delegacias. Mas agíamos de cara aberta, embora ainda fosse uma ditadura.
No movimento que realizamos em Goiânia, em 1982, contra os aumentos nos ônibus urbanos, denominado "pula catraca", quando resistimos por mais de três meses sem pagar passagens, vencemos pela resistência. Foram tantas as vezes que fomos detidos, e ônibus desviados para delegacia com dezenas de estudantes que haviam pulado a catraca, que os próprios delegados em determinado momento determinaram às empresas de ônibus que não nos levassem mais para que as ocorrências fossem registradas. E assim, muito embora tendo custado a depredação de centenas de ônibus em atos violentos, conquistamos nossos objetivos. Com organização, resistência, determinação e coragem. Sem reagirmos no mesmo nível que a repressão policial.
Essa foto que ilustra a postagem do artigo escrito para o Blog Gramática do Mundo, é do movimento que organizamos na década de 1980, quando depois de meses de "pula-catraca". Conquistamos o meio-passe. Ontem (19/02), também fruto da luta travada pela juventude estudantil, o governo do Estado de Goiás anunciou o fim da querela do passe-livre. Os estudantes podem comemorar mais uma conquista. O direito à manifestação deve ser sagrado, é a condição de pressionar dirigentes, mas, claro, dentro de um certo limite. O uso de máscara, jamais foi aceitável por nós, que travamos lutas homéricas, porque podia esconder eventualmente um provocador, elemento infiltrado disposto a jogar a opinião pública contra o nosso movimento. Mas considerar essas manifestações, mesmo as que excedem no limite do aceitável, como ato de terrorismo é um exagero abominável. O momento que vivemos é complexo, mas não há no curto prazo nenhuma ameaça à democracia. As liberdades políticas são muito mais consistentes do que nos anos de chumbo, ou mesmo nos seus estertores, nos três primeiros anos da década de 1980.
Mas, muito embora saibamos, como bons marxistas, que “a história não se repete”, a não ser como farsa, ou tragédia, podemos encontrar semelhança entre o ambiente político pré 1964 e o que estamos vivendo. A infiltração em manifestações e organizações sociais por agentes da repressão, obviamente prossegue. O grau de espionagem existente atualmente é muito maior, e cabalmente demonstrado nas denúncias feitas por Edward Snowden, analista de sistema que servia à ANS (Agência Nacional de Segurança), dos EUA. Tal qual há 50 anos, há interesse desse país, como de muitos elementos reacionários brasileiros em criar um ambiente de insegurança que leve à população, pelo medo, exigir governos mais duros e ditatoriais.
Aliás, já escrevi a respeito da inversão que se faz ao filme “V, de Vingança”. Ali, o personagem se revolta exatamente contra a manipulação feita por quem pretendia um poder forte. A violência se tornou constante, o regime refluiu no combate e o medo, ao tomar conta da população, a jogou para os braços de um ditador, que militarizou o poder estatal. Foi contra isso que “V” se insurgiu.
O que se vê pelos meios de comunicação, destacadamente nas grandes redes é uma ênfase às notícias sobre fatos violentos, e um clamor crescente da população por mais “segurança”, significando isso mais polícia nas ruas. Ou seja, enquanto nas ruas os manifestantes clamam por desmilitarização da polícia, nos bairros, principalmente os periféricos, a população exige mais polícia, para combater o que a mídia aponta como um descontrole do Estado para conter a violência. No que eu identifico como uma “geopolítica do medo” sendo maquiavelicamente implantada.
Embora a violência exista, e esteja vinculada principalmente ao tráfico de drogas, ela não é combatida em sua essência. Nem as críticas que se fazem a ela dão ênfase às contradições que fazem do capitalismo um sistema profundamente injusto e desigual.
Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.
Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.
Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.
Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.
As máscaras que assumem as frentes dessas manifestações escondem jovens desprovidos de capacidade política para entender os mecanismos que movem a sociedade. Ou meros provocadores desejosos de reeditar aqui no Brasil os mesmos gestos fascistas de 50 anos atrás, quando um golpe militar foi dado com o argumento de por fim à baderna, à desordem e a comunização do país.

Como diz um velho ditado popular: “juízo e caldo de galinha, não fazem mal a ninguém”.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

OS LOBOS DO CAPITALISMO FINANCEIRO

Sempre que me debruço sobre o teclado para escrever sobre algum filme, de imediato me vem à lembrança a trilogia de Matrix. Isso porque esse filme nos consegue levar a reflexões filosóficas sobre a realidade que vivemos, e aquela que construímos em nossos ideais. A que desejamos. Mas essa lembrança tem também a ver com o que quero dizer do filme que agora passo a analisar, “O Lobo de Wall Street”.
Eu digo, após pensar e procurar rememorar a lista de filmes que vi nos últimos anos, que este é um dos melhores que já assisti. Muito embora, e tenho convicção disso, alguns, e não são poucos, dirão que estou exagerando, e até mesmo divergirão radicalmente da minha opinião. Acho natural, tudo é uma questão de paradigma, da maneira como você vê o mundo, e de como nossos hábitos nos conduzem a escolhas bastante diversificadas. Tem até quem goste de Justin Bieber (!?). Ou os que acompanham em pay-per-view as aventuras dos(as) enjaulados(as) do BBB, cada vez mais escolhidos entre corpos “sarados” que tem por objetivo mexer com a libido e provocar os desejos sexuais de seus participantes.
Ora, mas minha referência a esse programa não destoa do que o filme de Martin Scorcese apresenta. Ganância, sexo, dinheiro, poder e drogas. Uma mistura que compõe o universo no qual os protagonistas se envolvem, e que reflete a realidade de um sistema que mergulha cada vez mais na podridão de seus valores. Ou, melhor dizendo, os universos, já que são vários mundos reais ou virtuais que definem o sistema capitalista.
Não é uma ficção. Naturalmente há um roteiro que procura em alguns momentos fazer prender o telespectador, e, portanto, exagera em alguns aspectos. Muito embora possamos dizer que a realidade é bem mais perversa, sempre, do que muitas ficções.
Em relação ao conteúdo, para mim não houve surpresas. Saí do filme com a nítida sensação de já ter visto algo semelhante. E ví. O filme de Oliver Stone, “Wall Street: Poder e Cobiça”, produzido nos anos 1980 (mesma época em que se inicia a história do filme de Scorcese) e com uma sequência que estreou às telas de cinema em 2010, retratando a crise econômica mundial que estourou em 2008. Seguramente Stone se apropriou da história de Jordan Berfort, personagem real do mundo financeiro que inspirou esses dois dos melhores diretores dos EUA. Há no filme de Scorcese, inclusive, uma citação ao mega-especulador Gordon Gekko, principal protagonista do filme de Stone.
Orgia, luxúria e ganância. Ingredientes
presentes em "Wall Street".
Mas não há surpresas em serem histórias parecidas, mesmo que a inspiração não seja a mesma. Simplesmente porque elas tratam da realidade do que acontece no mundo real do capitalismo financeiro. Expõem com toda crueza os mecanismos de funcionamento das estruturas do sistema, suas vísceras, os canais intestinais por onde transitam os excrementos que seduzem e transformam indivíduos, e os elevam à condição de “vitoriosos”, lobos, ou raposas, que transformam dinheiro virtual em riqueza material, cuja ambição cega não enxerga limites na busca interminável por mais dinheiro. Quanto mais se ganha, mais se deseja, assim como o poder. Por isso eles estão juntos, e trazem consigo de tempos bem remotos, já demonstrados na decadente sociedade romana escravocrata e concentracionista, o desejo pelo sexo e a necessidade de se fugir para outra realidade. Por isso, orgias e drogas se misturam num exibicionismo quase sempre criminoso.
Mas o crime não é somente em função desses “divertimentos”. Ele acompanha toda a trajetória daqueles que enriquecem à revelia do processo produtivo, investindo em negócios de fachadas, bombados pelas estratégias maquiavélicas de expertises, que vendem ações de empresas inexistentes, ou criadas virtualmente para iludir incautos gananciosos, sempre dispostos a verem seus dividendos se multiplicarem sem que se produzam nada.
Ganâncias de uns, usuras de outros.  As fraudes são consequências dessas misturas. E o que se vê nessas histórias, transformadas em filmes, mas contadas por personagens reais, é a realidade insofismável, embora contraditoriamente a maioria das pessoas desconheça, ou são iludidas de que são meras ficções, de que o setor do capitalismo onde mais circula dinheiro é onde se concentram as maiores atividades criminosas do sistema.
“Siga o dinheiro”. Essa frase ficou famosa, depois do igualmente famoso caso “Watergate”. Ela teria sido pronunciada pelo personagem “Garganta Profunda”, o elemento anônimo que denunciou o esquema de espionagem que levou à renúncia do ex-presidente dos EUA, Richard Nixon, em um dos maiores escândalos da história política daquele país.
Ele se aplica a qualquer situação de suspeitas de enriquecimentos ilícitos. Muito embora, para mim, todos os grandes enriquecimentos se deem ilicitamente. O filme “O lobo de Wall Street”, baseado, portanto, na história de Jordan Berfort, contada por ele mesmo, traça didaticamente os caminhos percorridos pelas grandes fortunas, que fogem de seus países de origem e encontram guarida nos famosos paraísos fiscais. A Suíça, então tida como o maior desses “esconderijos”, é o exemplo mostrado. Mas sabemos que atualmente são vários os “paraísos”, onde se lavam dinheiro do crime organizado, da corrupção, das drogas, das especulações financeiras. Inclusive o Vaticano, envolto em um escândalo que demonstra o quanto as instituições bancárias de todo o mundo estão envolvidas na lavagem de dinheiro ganho de forma ilícita, criminosa e à custa de uma realidade que demonstra que apenas 1% da população mundial concentra uma riqueza maior do que possui mais de 50% das pessoas que vivem no planeta de 7 bilhões de habitantes. A maior parte vivendo abaixo da linha da pobreza.
O “Lobo de Wall Street”, brilhantemente representado por Leonardo DiCaprio, numa atuação espetacular, é apenas um dentre muitos que fazem brotar dinheiro do nada, sem nenhum tipo de investimento produtivo. O mecanismo é a fraude, a ilusão de ser possível ganhar dinheiro fácil, o marketing que produz mitos do enriquecimento banal e a ganância, como principal peça motora do sistema capitalista.
Cena em que uma jovem se prepara
para transportar dólares para a Suíça
Ao final do filme, o personagem saído da cadeia onde passou apenas três anos, sabiamente aproveitado corrompendo seus carcereiros, passou a se dedicar a realizar palestras a ávidos “filhotes de lobos”, jovens fracassados ou desempregados, insatisfeitos e frustrados, desejosos de enriquecerem, todos eles, mediante os mecanismos fraudulentos possibilitados pelo sistema capitalista. Mesmo fim do especulador Gekko, do filme de Stone. Embora este tenha uma continuidade e portanto um novo começo, a partir da crise de 2008.
Ora, mas deixei para o final a pergunta mais interessante. Esses “lobos” atuam somente retirando dinheiro do pequeno e médio investidor? Daqueles que desejam ver multiplicado seu dinheiro poupado? Claro que não. Tão logo despontem como espertos corretores, conhecidos por fazerem surgir dinheiro do “nada”, e de vender espertamente ações de fúteis empresas, eles são contratados por megainvestidores que os transformam em peças chaves na reprodução de suas riquezas, adquiridas a partir de estratégias que falseiam a realidade e fazem valer muito além do que é real, os valores das ações de suas corporações ou de suas marcas.
Sobrevivem nessa selva, os mais espertos. Jordan sucumbiu por tentar burlar um sistema, por natureza, fraudulento. Operava à margem da “legalidade” de Wall Street. E a demonstrar claramente que pouco se importava com o dinheiro alheio, tido para ele como virtual, e a extrair ao final da burla o que ele entendia como dinheiro real, materializado e transformado na aquisição de bens, na luxúria e na permanente condição de dependente das drogas. A maior delas, isso ele também não escondia, o dinheiro. Elementos que estão sempre presentes, e que fazem com que fique bem demonstrado (para quem quiser ver, naturalmente), que todas as atividades ilícitas e criminosas se encontram na encruzilhada entre o poder e a riqueza. Para encontrar as fraudes, os grandes criminosos, onde se encontram os verdadeiros bandidos que controlam a riqueza do mundo, basta seguir o dinheiro. Lobos, raposas e leões estarão lá, se enfrentando para ver quem possui a melhor característica vencedora: a força ou a esperteza. Mas com certeza, mediante alguma ilicitude. Ou, trocando em miúdos: alguma ação criminosa.
Scorcese dirige DiCaprio e Margot
Robbie, em uma das cenas mais
provocantes do filme
Sugiro que assistam ao filme “O Lobo de Wall Streeet”. Mas os puritanos, os ingênuos, devem ir preparados. Não verão cenas de lutas corporais, sangues jorrando pelos olhos, fantasias que nos prendem nas poltronas. Não. Verão cenas fortes, drogas, sexo, palavrões, banditismo explícito, tudo aquilo que expõe um de nossos mundos. O mundo real do capitalismo financeiro. Depois disso poderão ver que queimar fusquinha, depredar agências bancárias ou sair mascarado nas ruas, sequer arranha... na verdade é um leve sopro, nas estruturas que compõem o sistema financeiro e o poder do dinheiro, concentrado nas mãos de megaespeculadores, banqueiros e das grandes corporações. Aliás, só fortalece um dos elos dessa cadeia, o das grandes seguradoras, porque incentiva a indústria do medo. Paradoxalmente, porque é assim no capitalismo, por trás delas encontram-se as grandes corporações bancárias. Elas estão habituadas a se enriquecerem mais ainda a cada desgraça, às guerras nas quais elas próprias investem para ter os países sobre controle, e até mesmo a tsunamis. Que dirá à ação de um pé de cabra!
Como vencê-los? Não sei. Só sei que não é assim.
Mas continuo acreditando que “um outro mundo é possível”. Para além do capitalismo.

PS: Em 2010 fiz um minicurso na UFG, no Instituto de Estudos Socioambientais (IESA), onde sou professor, chamado “Decifrando o Sistema Capitalista: Crises econômicas e o poder das grandes corporações financeiras”. Como parte da metodologia utilizei a exibição de documentários e filmes, produzidos como consequência da crise de 2008. À exceção de “Wall Street – Poder e Cobiça (1). Mas ao final do curso assistimos e debatemos sua continuação, “Wall Street, o dinheiro nunca dorme”, no Cine Lumiére, por época do seu lançamento. Depois disso outros filmes trataram do assunto. O ganhador do Oscar em 2010, como melhor documentário, “Trabalho Interno”; “Grande demais para quebrar”; e, um filme que mostra os bastidores da decisão que garantiu que o tesouro estadunidense investisse bilhões de dólares em instituições quase falidas, para salvar o sistema financeiro mundial, “Margin Call – O dia antes do fim”. Agora em 2013, com o acréscimo de alguns desses filmes, darei continuidade a esse curso, provavelmente no mês de abril. Um bom momento para conhecermos os “lobos de wall street” e também da Avenida Paulista.

SINOPSE E FICHA TÉCNICA DO FILME: O LOBO DE WALL STREET
Não recomendado para menores de 18 anos 
Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores. É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer.
Título original: The Wolf of Wall Street
Ano de produção: 2013
Dirigido por: Martin Scorsese
Gênero: Biografia , Drama , Policial
Nacionalidade: EUA

(http://www.adorocinema.com/filmes/filme-127524/)

sábado, 18 de janeiro de 2014

"ROLEZINHO": VAMOS PASSEAR NO SHOPPING?

Depois de um longo tempo sem novas postagens aqui no Blog, me atrevo a escrever uma nova crônica sobre as transformações que acompanham o nosso cotidiano. Não tenho a pretensão de abordar tudo, seria demais. Mas vou mirar em dois temas que me parecem ser os que mais têm estado presente nos noticiários dos grandes meios de comunicação. O medo e os “rolezinhos”. Como o medo está presente no fenômeno “rolezinho”, comecemos por este.
Muitas análises sociológicas têm sido feitas, embora algumas delas tentando encontrar explicações ideológicas que não estão presentes nesses movimentos. Não são manifestações de protestos. Não são sequer manifestações. Pelo menos num primeiro momento. Evidentemente tomaram outro rumo diante da repercussão e do tratamento que lhes foi dado. E também pelo inusitado e inesperado do próprio fato, já que “ameaça” a tranquilidade dos templos de consumo capitalista, talvez a mais bem elaborada forma de atrair consumidores surgida com a globalização.
Diante disso, como tem ocorrido no Brasil desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece-se de imediato um paradoxo entre liberdade e intolerância, entre pobreza e riqueza, entre luxo e miséria. Os que lidam com os meios de comunicação, ou aqueles que produzem artigos para blogs, como faço aqui, e, principalmente as redes sociais, compartilham suas e outras opiniões e de imediato o debate espalha-se como um rastro de pólvora acesa.
As notícias hoje, se espalham em frações de segundos. Mas, além de notícia, o conhecimento do fato e as reações a ele, criam novos movimentos por outras partes do país. Isso facilitado pela padronização que o capitalismo criou em suas formas de atrair consumidores. Logicamente os mais abastados, os que podem frequentar e gastar nesses templos.  Assim, novos “rolezinhos” se espalham pelas capitais brasileiras, deixando em polvorosa quem pensou nesses ambientes como locais seguros e distantes da pobreza.
Mas estamos nos esquecendo de algo. Quando esses shopings surgiram tornaram-se atrativos para adolescentes de classe média, então apelidados, sabe-se lá porque, de “mauricinhos” e ‘patricinhas”. Paquerar, se exibir, ostentar roupas com marcas de grifes famosas, ou simplesmente por falta de melhores opções de onde se juntarem. O país vivia uma falta de carência de espaços que possibilitassem aglutinar esses jovens e propiciar diversão com segurança.
Mas o país mudou ao longo desses anos, melhor dizer nesse novo século. A ampliação da classe média, como consequência de políticas sociais e de governos com focos diferenciados, se não melhorou a proporção entre pobres e ricos, cujo fosso permanece enorme, garantiu com que uma grande quantidade de pessoas ampliasse o percentual daqueles que se incluem nas camadas médias da população. Ou seja, aquela parcela que tem condições de consumir produtos anunciados por todo o mundo, marcas de grandes corporações, apetrechos tecnológicos, e principalmente roupas e tênis de grifes.
No entanto, consumir esses produtos não quer dizer, necessariamente, inclusão social. De fato. Os chamados “emergentes” não são aceitos pela classe média tradicional e pela velha e arrogante elite brasileira (muito embora esse seja um fenômeno que ocorre também em outros países). O Brasil passou a conviver com um fenômeno contraditório, melhorava suas condições socioeconômicas (apesar ainda de muito distante do desejável), mas se deparava com um ódio de classe impertinente, incensado por meios de comunicação que viam por terra seus projetos de manutenção de determinados políticos adequados a esses perfis e a seus interesses mesquinhos e ideologicamente conservadores.
Por todos esses anos alimentou-se um sentimento de negatividade diante de conquistas importantes, acentuou-se a política do medo e o “complexo de vira-latas” que se reproduz em postagens idiotas nas redes sociais. Apesar dessas melhorias atingirem uma parcela importante da população a forma como a grande mídia retratou nesses anos o país e o menosprezo pelos avanços obtidos criava uma sensação, no inconsciente coletivo, que nada melhorava. Do ponto de vista sociológico isso emperrava a auto-estima das camadas que melhoravam suas condições de vida. O medo do endividamento, permanentemente enfocado nos vários noticiários das grandes redes de TV, mantinha essas pessoas na velha insegurança que sempre lhes perseguiam. Afastavam-nas, assim, mesmo que inconscientemente, das convivências com o mundo de cima. Quando alguns, mais eufóricos e ousados, atreviam-se a romper a fronteira que delimita os campos sociais, eram vistos com desdém e o perverso preconceito de classe. Tornou-se comum observar os estilos das pessoas, seus hábitos, jeitos de se vestirem, gostos musicais, e isso, no dia-a-dia das pessoas, e aí de uma maneira geral, tornou-se piada, gozações, “zoeiras”, comuns em locais de trabalho, lazer e nas redes sociais. A velha estratégia de dissimular o preconceito e fazer com que até mesmo as potenciais vítimas desses preconceitos riam deles próprios.
Estranhamente, até pelas ações de políticas públicas, passou-se a combater com mais veemência o preconceito “racial”, assim como cresceu também o combate aos crimes de homofobia. Medidas importantes foram tomadas para que isso acontecesse, e felizmente tem feito mudar comportamentos, apesar dos ressentidos direitistas religiosos e fascistas de todos os tipos, que persistem na intolerância. Mas são cada vez mais em números reduzidos, apesar do poder que ainda possuem.
Mas o estranhamento se dá pelo fato de paralelo a isso viesse se fortalecendo o preconceito social, com a ampliação da barreira existente em determinados ambientes, no caso específico os “shopping centers”. Muito embora tivessem surgido alguns de “perfis populares”, onde se vendem efetivamente as mesmas marcas que os mais elitizados. Mas sempre foi nítida a desconfiança que perseguia principalmente jovens de classes menos abastadas, que se aventuravam a passear nesses templos luxuosos. Isso inibia alguns de os frequentarem, somente se arriscando ou com a família ou em pequenos grupos. Nesse último caso, mantendo-se sobre eles uma vigilância permanente.
Daqui eu pulo para os “rolezinhos”, cujo significado é dar uma voltinha, passear. Ora, as últimas manifestações ocorridas no Brasil não podem ser esquecidas quando analisamos esse novo fenômeno que preocupa os Shoppings, e a burguesia, naturalmente. Juntemos as duas coisas e o que teremos é o resultado de um verdadeiro “empoderamento” por parte do que podemos classificar como comunidades de jovens que se reúnem nas redes sociais. Assim como se espalharam pelo país os vários chamamentos para as manifestações que mobilizaram principalmente os jovens, por todos os Estados brasileiros, nas grandes e médias, e até pequenas cidades, o fenômeno se repete com os “rolezinhos”.
Mas há algo que se disseminou pelas periferias das grandes cidades. O chamado “funk ostentação”, que se espalhou a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ao contrário do “funk social”, aquele se caracteriza por aderir ao estilo de vida das elites, e de buscar ostentar os mesmos produtos de marcas famosas, carros de luxo etc. Os artistas que produzem as músicas desse estilo e são badalados até mesmo pela burguesia e classe média alta, conseguem penetrar em ambientes elitizados. Mas os jovens da periferia, adeptos desse movimento sempre tiveram dificuldades até mesmo de frequentar os shoppings onde pudessem ostentar ou adquirir esses produtos. Não viveriam como iguais, mas desejavam se mostrar como tais.
Os mesmos mecanismos adotados para mobilizar para as manifestações, inclusive dos black blocks, passaram a ser usados para encher esses templos de consumo, não para combater qualquer tipo de discriminação ou de preconceito, muito menos para levantarem a bandeira do fim da propriedade privada e do socialismo. Mas para ocuparem o que é para eles de direito. Se antes, andar em pequenos grupos os tornavam alvos dos seguranças, que os monitoravam permanentemente, agora, com os “rolezinhos”, essa sensação de empoderamento se compara com a força com que essa mesma juventude se insurgiu contra a violência policial nas manifestações. Assim, encher os shoppings, mediante a mobilização via rede social os tornaram mais do que visíveis, deram a eles o poder que é comum quando o ser humano se junta (e naturalmente sempre acontece descontrole e oportunistas, mesmo se em minoria). Em se tratando de jovens, ávidos por ocuparem espaços de seus desejos e que sempre lhes foram negados, a “zoeira” toma uma dimensão incontrolável. Afinal, onde está escrito que é negado passear com sua turma no shopping?
Como essa pergunta não encontra resposta, e estando sendo proibidos de “passear”, os rolezinhos, aí sim, viraram atos de protestos e se disseminam muito mais rapidamente. Como contê-los? Eis aí uma boa pergunta para ser respondida por aqueles que criam seus próprios mecanismos de destruição. No século XIX, um impertinente barbudo já havia alertado para isso. E dizia que o capitalismo seria vítima de suas próprias contradições.

sábado, 28 de dezembro de 2013

QUE SEJAM FELIZES OS DIAS QUE VIRÃO. VAMOS INVENTAR UM 2014 COM SOLIDARIEDADE, AMIZADE E AMOR

Fotomontagem: Célia Regina
Não sei o que dizer do que será. Resta-me analisar o que se foi. Assim, na reconstrução do passado, que me pode dar a compreensão dos erros e acertos do tempo que se foi, posso melhor inventar o meu futuro. 2014, e o que mais vier.
Repito aqui, os mesmos desejos do ano passado, pois eles são permanentes, apenas envelhecemos um ano a mais.
Seguramente uma das coisas boas em minha vida nesses últimos anos foi a força para criar e consolidar este Blog. Gramática do Mundo, como já disse, um nome quase emprestado de Fernand Braudel que criou sua Gramática das Civilizações, representou para mim muito mais do que eu pretendia que se fosse inicialmente. Transformou-se em um fórum de debate bem provocativo, como sempre fui, e sou, em minha peculiaridade. Através desse estímulo pude reencontrar minhas forças, me dedicar ao doutorado, e enfim, concluir mais uma etapa de minha vida profissional. Ter me tornado doutor, em 2013, foi mais do que uma satisfação, encaro como uma superação, diante dos anos passados sofridos e dilacerados pelo falecimento de minha filha.
Por essa razão, ter me dedicado ao doutorado, produzi pouco para o blog neste ano que passou. Bem menos do que nos anos anteriores, quando ele se transformou numa catarse a aliviar os meus tormentos.
Enquanto pude me dedicar ao blog ele cumpriu esse papel, de fazer com que eu pudesse libertar do fundo da minha intimidade todos as angústias motivadas pela perda de minha filha, Ana Carolina. Através do Gramática do Mundo, e tentando ainda fragilmente seguir o lema da filosofia antiga, exposta inicialmente em um poema de Horácio, no século I, antes da Era Cristã, com a expressão Carpe Diem, não me preocupo em viver obcecado com o futuro, mas buscar a compreensão do presente, de forma a vivê-lo em toda a sua intensidade.
Fotomontagem: Célia Regina
Essa máxima permanece a guiar as minhas atitudes e a maneira como concebo a vida. Mas sem jamais querer eliminar as minhas memórias, as lembranças, mesmo tristes, que me marcaram e me conduziram ao presente. Bloqueei por algum tempo lembranças trágicas da internação de minha filha, até o dia fatídico da sua morte. Mas, neste último ano, 2013, principalmente após a defesa de meu doutorado – talvez algo que ainda eu devesse a ela – recuperei essas imagens, mesmo que doídas, mas já conseguindo sentir a sua presença permanentemente ao meu lado, em nossos momentos de alegrias.
Por isso essa minha mensagem de transição entre dois momentos simbólicos (2013-2014), construídos seguindo uma lógica que interessa ao consumismo capitalista, mas que inegavelmente também se constitui em um momento de confraternização, e de expiação de todos os nossos problemas, eu quis produzi-la aqui. Transformo, assim, todos os meus seguidores e eventuais leitores, em personagens de minha vida, com os quais estabeleço abertamente, por essa ferramenta espetacular que é a internet, momentos de franca discussão ideológica e intelectual, bem como compartilho todos os meus sentimentos pela perda irreparável que me consumiu e me consumirá pelo resto da minha vida. 
Continuo recebendo, principalmente nas minhas postagens mais sofridas, nas datas que mais me lembram da Carol, mensagens de amigos, e até mesmos de pessoas anônimas para mim, que só conheço pela internet, e foram e têm sido fundamentais para a recomposição de meu caminho. São, seguramente, estímulos para a superação das adversidades e me ajudam a viver a vida como expressado na filosofia antiga, nessa loucura do mundo moderno.
Isso nos dá também a convicção de que a solidariedade só precisa ser praticada, porque muito embora tenhamos a sensação de que vivemos em um mundo cruel, as pessoas, em sua maioria, têm sim, sensibilidade e expressam ainda isso de várias formas. O velho altruísmo que salvou a espécie humana em épocas primitivas permanece, ainda que hibernado pelos tempos individualistas como resquícios do neoliberalismo, e do próprio capitalismo. Mas em certos momentos ele se manifesta e desperta o lado sensível dos indivíduos, homens e mulheres.
2013 foi, mais uma vez, um ano de superação. Mesmo envolto nas leituras e redação de minha tese de doutorado, segui repensando os comportamentos que me acompanharam por vários anos, e que somente um choque em nossas vidas é capaz de nos fazer parar para refletir. Embora agora doutor, seguirei sendo eu mesmo, um pouco melhor da minha “ranzizesse” privada, apesar de mais velho. Mas isso diz respeito aos defeitos que cada um de nós possui e compõe a nossa personalidade. Mas adquiri uma capacidade maior de compreender os dramas e fragilidades da vida humana. Até pela acumulação de conhecimentos que busquei no estoicismo, somando-os à minha visão de mundo, baseada na dialética materialista e pela experiência adquirida da vida. E, pela minha pesquisa, com o contato com o povo simples, humilde e hospitaleiro do Sul do Pará.
Não sou partidário de princípios doutrinários, segundo os quais o sacrifício é um fator essencial para que o sentimento humano se realize. Não temos que, necessariamente, buscarmos o sofrimento a fim de termos nossos “pecados” expiados. Mas é inegável que ele nos trás um choque de uma realidade da qual não esperamos experimentar. Construímos nossos mundos (assim como nossos deuses) de acordo com o que queremos, e esquecemos que não podemos querer aquilo que é inusitado, ocasional. O inevitável pode nos trazer surpresas para as quais não nos preparamos, e da fragilidade de uma vida aparentemente perfeita, desfazem-se sonhos e ilusões de futuros construídos quase que moldados por fantasias que nos são impostas por mecanismos exteriores à nossa vontade.
Converso com minha companheira, Celma, sob óticas diferentes de ver a vida. Ela, sempre otimista, construiu toda a sua resistência à tragédia que nos abateu, buscando espiritualmente forças que traduzisse sentimentos de solidariedade e de um pensar positivo que vê ao longe, além do momento em que estamos, e constrói positivamente um futuro de esperança. Assim ela vai lidando com os projetos que o Instituto Ana Carol tem construído e, principalmente o que já se tornou uma realidade consistente, a Bordana, Cooperativa de Bordadeiras a consolidar essas certezas construídas com o olhar para adiante.
Não tento desconstruir os sonhos, mas parto de outra perspectiva. A de que o que imaginamos ser a construção de um futuro nada mais é do que a realização do presente. Dialeticamente, ele vai sendo tecido, e termina por concretizar algo que foi pensado. Mas o que seria desse “futuro” se no presente não tivéssemos construído as bases das mudanças? Ademais, não há futuro, pois o que idealizamos como sendo isso, ao imaginarmos tê-lo construído, ele já se torna presente. E, como o tempo não para, em frações de segundos já se torna passado.
Digo isso para afirmar que são as realizações do presente que possibilitam aos nossos pensamentos se concretizarem. Contudo, nada do que se constrói hoje, ou do que se imagina construir, está livre do acaso. Mas, como não podemos ficar pensando no acaso, assim como não faz sentido a obsessão pela morte, devemos pensar sempre em viver toda a intensidade do presente. Abstraindo o egoísmo e o individualismo, logicamente. Afinal, a nossa vida não se realiza isoladamente. E, principalmente, procurarmos viver cultivando a honestidade e a solidariedade.
Assim, 2014 se construirá a cada dia. Por isso, a mensagem que quero passar é a de que cada ano novo só se completa em seu final, até lá ele simplesmente é a somatória de dias, semanas e meses. E cada um de seus dias, deve ser vivido em seu tempo, na duração que lhe foi dada por essa espetacular e indecifrável condição que adjetivamos como vida. E, ao final, ele soma-se à nossa própria história.
Então, não nos basta pensar no ano de 2014. E sim na construção dele, a partir da vivência ativa e intensiva de cada dia, separadamente. Viver um dia por vez, ao invés de nos perdermos em angústias e desesperos do que fazer depois de amanhã. Isso parece óbvio, mas estranhamente não é visto dessa maneira.
Mas alguns dirão que isso é utopia. Que é ilusão se imaginar preso apenas ao que acontecerá a cada dia, na medida em que isso acarreta um efeito em sequência e, seguindo a própria lógica da vida, impõe naturalmente o pensamento no que se seguirá.
Isso também é verdade. Mas aí reside a beleza, a incógnita e o segredo da dialética. A vida em sua mais perfeita contradição. Pela qual não conseguimos jamais compreendê-la por completo, nem vivê-la a cada momento. Pois que ela nada mais é do que uma tridimensionalidade que nos cerca: vivemos o presente, a partir de coisas que construímos do passado e que seguiremos levando adiante, naquilo que se traduz como o futuro.
Que 2014 seja assim, então, para cada um de nós. Cheio de saúde, alegria, amor e fraternidade. Que a solidariedade jamais deixe de estar conosco cotidianamente, por mais que tenhamos em nossas ideologias o sentimento de que tudo que está aí deve ser mudado na construção de um mundo novo.
Tudo bem. Mas as pessoas que vivem a sofrer, por uma condição de sujeição à lógica irracional deste mundo, têm direito a superar seus sofrimentos. Não devemos esperar as pessoas morrerem na miséria para tomar isso como exemplo de que o sistema é injusto. Devemos condená-lo, mas salvando as pessoas... e não somente as matas, as árvores, os animais. Somos nós, seres humanos, que damos sentido a este mundo. Embora contraditoriamente sejamos nós também os responsáveis pela aceleração de sua destruição. Enfim, devemos lutar pela vida. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” (Che).
Que 2014 inspire solidariedade, amizade e amor. Que construamos um novo mundo a partir de nossos próprios exemplos. Que não nos limitemos à crítica, pela crítica, mas que apresentemos alternativas concretas para realizarmos o sonho das pessoas viverem seus presentes com dignidade. E façamos isso também com nós mesmos. Que consigamos viver intensamente cada dia, cada momento, e nos coloquemos um desafio: de a cada dia que conseguirmos superar, aumentar o número de amigos e amigas que nos cercam.
Quem sabe assim atingiremos nosso objetivo de inventar um 2014 que corresponda ao que desejamos para cada um de nós em particular, e para todos coletivamente.
E o façamos tornar-se realidade.


Carpe diem!
“Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati. seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero”.
“Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será, sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu, ou seja o último este, que contra a rocha extenua o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã”.
 "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC) 


(*) A idéia central desse texto eu construí no final de 2011. Adaptei-o em algumas partes para torná-lo atual a mais um momento de transição em nossas vidas. Um feliz ano novo aos leitores e leitoras do blog Gramática do Mundo e aos meus amigos e amigas do Facebook. Que possamos continuar lutando pela construção de um mundo melhor.  E que em 2014 possamos avançar muito nessa direção. Um forte abraço.

Prof. Romualdo Pessoa

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

OS ÚLTIMOS MOMENTOS DA PEQUENA CAROL (DEZEMBRO DE 2007)*

Última foto da Carol -
Novembro de 2007
Quando minha filha começou a tossir e a ter sua respiração alterada (ela sempre sentia isso quando adoecia) logo me preocupou. A mim, a Celma, também sua Vó Maura (a Vó Maria José mora em Araguaína, e também ficava de lá preocupada), a Domícia. Todos nós ficávamos muito apreensivos quando esses sintomas apareciam. Principalmente depois dos dez dias que ela ficara internada, no mês de julho
Levamo-la em sua pediatra, Dra. Mônica, que a acompanhava desde o seu nascimento. Ela também foi a pediatra do Iago. Um exame dos pulmões, que ela solicitou, diagnosticou uma bronco-pneumonia. A dra. não sentiu isso auscultando sua respiração. Mas na mesma hora ela ligou para a pneumologista que tinha acompanhada Carol durante a internação. Trocaram idéias sobre o remédio a ser medicado e, se a suspeita era pneumonia, mesmo incipiente, o indicado seria usar um antibiótico. Também ficou acertado um horário para que a pneumologista pudesse avaliar o quadro da Carol pessoalmente.
Diferente do vírus, a bactéria – no caso a causadora da pneumonia – deve sempre ser combatida por antibiótico. Na primeira internação da Carol, ela também tomara antibiótico, mas por não se ter um diagnóstico definitivo das razões de sua doença. Em sendo vírus, somente a reação dos anticorpos em seu organismo é capaz de derrotá-lo, o que exige muito repouso, hidratação e transfusão de sangue se o quadro requerer, para que o organismo se fortaleça o suficiente para reagir ao vírus.
Apesar desses encaminhamentos, e do tratamento que foi passado para Carol, com base na existência de um início de pneumonia, era visível o enfraquecimento da minha pequena. E tornava-se mais evidente o seu quadro de enfraquecimento, palidez e cansaço. Os sintomas eram básicamente os mesmos que fizeram com que ela fosse internada em julho.
Preocupados, já estava marcada uma consulta com uma médica nutróloga – tentávamos fazer com que Carol se alimentasse melhor do que rotineiramente fazia -, solicitei a ela que fizesse um pedido para realização de um exame de sangue, também porque eu já tomara a iniciativa de buscar informações sobre um bom infectologista, para marcar uma consulta. Todo o receio nosso era que o quadro de julho se repetisse.
Fizemos um exame, hemograma completo, e diante de tamanha preocupação, mesmo sendo leigo tive a curiosidade de observar os resultados. É possível ter uma dimensão do problema, de maneira superficial, na medida em que os índices de referências acompanham os resultados do exame. O que vi me preocupou mais ainda. Tinha quase certeza de que estava se repetindo o quadro da internação anterior e isso era tudo o que não gostaríamos de ver acontecendo. Até mesmo porque, naquele momento houvera uma suspeita de leucemia.
Devemos ressaltar que, embora tendo recebido alta do hospital, quando de sua internação em junho, ela não teve alta médica, porque o seu quadro era ainda de debilidades, e até porque o médico queria confirmar o diagnóstico a partir de um acompanhamento permanente. Com isso, continuamos a realizar, a pedido do médico, os exames de sangue completos, mês a mês. Até outubro, quando os índices sanguíneos atingiram a normalidade e só assim ela teve alta médica. Ela estava ansiosa por duas razões, primeira poder continuar jogando seu esporte preferido, o Badminton; segundo, porque ela teria que fazer uma apresentação de ginástica rítmica em sua escola, na semana do aniversário de Goiânia.
Juntei todos os exames de sangue (hemograma) que ela fizera, desde o período anterior à sua internação em julho, organizei por ordem de data em uma tabela, item a item, até o último realizado antes da consulta de dezembro (07/12/2007) e enviei-os por e-mail a alguns amigos médicos, solicitando que eles pudessem dar uma opinião sobre o que poderia estar acontecendo com minha filha. Mais uma vez começava tragicamente uma alteração em seu quadro sanguíneo, com uma queda brusca das plaquetas e uma elevação dos leucócitos. A palidez dela se acentuava, a falta de ânimo, dificuldade de se alimentar e uma fraqueza que nos angustiava e nos deixava desesperados.
Mas minha filha impressionava por seu comportamento. Ela se mantinha com uma expressão de conformidade, sem reclamar da doença. Às vezes ficava impaciente, mas a cada vez que perguntávamos como ela estava se sentindo, sua voz frágil respondia: “bem”! Apesar disso, nós sabíamos que havia algo errado e que nos parecia ser bem grave. Tínhamos dificuldade em acreditar que pudesse ser leucemia, mas essa já era uma hipótese levantada mesmo que de forma cuidadosa pelos médicos, tantos os colegas quanto os profissionais que a acompanhava.
Começamos a acreditar nessa possibilidade quando, após a levarmos ao laboratório para uma nova bateria de exame de sangue, desta vez solicitado pelo infectologista na penúltima consulta (07/12), fomos alertados, pelo médico responsável pelo laboratório, da gravidade da situação da Carol. Estávamos em casa quando recebemos uma ligação do laboratório. Pediam-nos que levássemos novamente Carolina para repetir os exames. Ela tinha feito os exames na sexta-feira pela manhã, e esse contato se deu à tarde do mesmo dia. Preocupados levamos ela imediatamente ao laboratório, ainda na sexta-feira, ao cair da tarde.  Já começávamos a ficar abatidos, e repetia-se também a triste rotina dos exames de sangue em dois bracinhos cujas veias eram quase imperceptíveis (quando ela esteve internada em julho contou mais de 40 picadas de agulha para fazer os exames necessários).  Quando chegamos ao laboratório fomos conversar com o médico que, atenciosamente, explicou a necessidade da contraprova. Eles consideravam grave o quadro apresentado nos exames e disse que se fosse mantido aquele diagnóstico nós deveríamos trabalhar com a hipótese de realizar exames na medula. Apresentando informações científicas o que ele queria em verdade dizer era que o resultado do exame apontava para um quadro de leucemia. O mundo começou a girar em nossas cabeças. Dentro de nós, pai e mãe, sentíamos plenamente a gravidade do quadro de nossa querida filha, e iniciava naquele momento horas e dias de angústias e desespero.
Em um momento de descontração, necessário naquela circunstâncias, até mesmo para que ela não se entregasse à passividade, lembro-me de um fato que jamais vou esquecer, pelo inusitado e pela situação em que nos encontrávamos. Herança dos hábitos de meu pai, sempre carrego comigo um pente de bolso. Nesse dia, ao pegar a carteira deixei-o cair na entrada do laboratório. Ao chegar em casa fui procurar o pente e não o achei, foi quando a Carol disse tê-lo visto no chão. Eu disse: “minha filha, porque você não me avisou?”. E ela respondeu: “Ah, pai não acredito que você ia pegar aquele pente do chão”. Foi um dos poucos momentos de descontração dela, em meio ao cansaço e à fraqueza que aumentava a cada dia. Quando retornamos à tarde para o exame da contra-prova lá estava o pente, abaixei-me e peguei-o sob o olhar repreensivo dela. Fiz aquilo para acentuar a descontração e foi bom ter feito, ela passou uns dois dias rindo disso. Tenho o pente guardado até hoje, e espero jamais perdê-lo. Será sempre um objeto a despertar a lembrança dos últimos momentos de minha filha.
O fim de semana foi angustiante, depois até nos perguntávamos se não teria sido melhor que ela já tivesse sido internada desde aquele momento. Em casa, víamos sua fragilidade aumentar, e o cansaço tornava sua respiração difícil fazendo com que constantemente tivéssemos que aplicar aerosol para amenizar a situação.
No sábado fomos realizar outro exame. Uma ultrasonografia, solicitada pelo infectologista para verificar a situação do fígado, rins e baço. Como da vez anterior, da crise provocada pelos vírus, esses órgãos já estavam ficando bastante inchados. Retornamos para casa e aguardamos para o segundo exame com o infectologista. Isso aconteceu ás 13 horas da segunda-feira. Logo após olhar atentamente os exames ele nos disse que era necessário a internação imediata da Carol e acreditava não ser um problema afeito à sua especialidade. Segundo ele tratava-se um problema originado no sangue e que, portanto, ela devia estar sob os cuidados de um hematologista.
No mesmo momento fizemos um contato com o hematologista que a estava acompanhando desde sua última internação, acertamos a internação no Instituto Ortopédico de Goiânia (IOG), onde havia uma unidade do INGOH (Instituto Goiano de Oncologia e Hematologia). Mesmo não sendo aquele hospital e unidade hematológica do seu hematologista, ele não impôs dificuldade, concordando com o local e dizendo que daria o acompanhamento necessário. Como lá já existia uma hematologista da confiança do médico infectologista, a Carol passou então a ser acompanhada pelos dois, o que consideramos positivo apesar do hospital não ser adequado ao tratamento de criança. Mas ela ficou internada em uma unidade do INGOH e recebeu o tratamento necessário.
A internação dela se deu na segunda-feira mesmo, portanto, ao final da tarde. Ficamos preocupados porque nosso plano de saúde só garantia o atendimento em enfermaria e ela foi encaminhada para uma que tinha como companhia duas senhoras, o que dificultava minha presença tornando necessário um sobre-esforço da Celma, visto que eu não poderia passar a noite com ela. Fiz alguns contatos, inclusive junto à direção do plano de saúde, alertando para a gravidade do quadro dela e tentando encontrar uma forma de transferi-la para um apartamento. A resposta do Plano de Saúde foi imediata e positiva. Contudo nos esbarramos em outra dificuldade: não havia apartamento disponível. Mas no dia seguinte, até mesmo em função do seu estado, ela foi transferida para uma sala especial do INGOH, adequada para o tratamento oncológico.
Quando cheguei em casa, após deixar Celma e Carol no Hospital fui dar a notícia para minha mãe, que estava morando conosco e era super-apegada à Carolina e à Domícia, nossa secretária do lar e que trabalha conosco desde o nascimento de nosso primeiro filho, Iago. Portanto cuidava também da Carolina desde que ela nasceu e as duas se gostavam muito. Eu tentava me  segurar, para não dar a impressão que não estava acreditando em sua recuperação. De fato eu acreditava que teria minha filha de volta, mesmo que com dificuldades para um tratamento de uma doença terrível como a leucemia, que eu já passava a considerar uma hipótese provável. Mas lutava também contra pensamentos furtivos que insistiam em me levar para o desespero de quem vê a filha à beira da morte. Consegui transmitir a notícia com tranqüilidade. Minha mãe recebeu aparentemente bem, ela fervorosamente católica, sempre se apega à sua crença para acreditar no melhor, mesmo que esse melhor seja em última instância definido por Deus. Isso de certa forma a confortava naquele momento. O pior ela viria a sentir posteriormente, no retorno à uma rotina que já não mais contaria com a presença daquela figurinha que estava sempre presente ao lado dela. Da mesma forma reagiu a Domícia, com um grau maior de apreensão, agravando a sua situação emotiva quando viria saber da ida da Carol para a UTI.
Já era terça-feira e os novos exames de sangue feitos ali mesmo comprovaram a gravidade da situação da Carol. Imediatamente ela passou a receber transfusão de sangue, sua imunidade caía assustadoramente, o cansaço aumentava e os médicos passavam a demonstrar temor com possíveis sangramentos. Ainda nesse mesmo dia eles consideraram a necessidade dela ir para um hospital que tivesse uma Unidade de Terapia Intensiva adequada para uma criança de sua idade.
Lembro-me bem quando recebi um telefonema da Celma dizendo que os médicos consideravam a hipótese dela precisar ir para uma UTI. Eu estava em meu serviço, na Universidade, e imediatamente senti um forte aperto no coração, não pude conter minhas emoções e após desligar o telefone desabei em um choro convulsivo. Passou rapidamente por minha mente um filme me lembrando de dois casos recentes envolvendo um amigo de longa data, Gilson Bueno, que ficou quase trinta dias na UTI e não sobreviveu a um AVC, e a uma grande amiga e colega da Universidade, Verbena Lisita, que contraiu uma bactéria e teve que ser internada às pressas em uma UTI. Também não sobreviveu, vindo a falecer pouco mais de 24 horas depois de ser internada. Lembrei-me também de meu pai, que após uma luta desesperada contra o câncer, e no final dessa luta ter passado 28 dias internado, também não sobreviveu após ser transferido para uma UTI. Acompanhava-me, portanto, péssimas lembranças sobre Unidades de Terapias Intensivas, embora sendo essa uma unidade de tratamento para melhor acompanhar o paciente em estado grave. Não foi o que aconteceu em três situações que envolviam pessoas queridas, sendo uma delas o meu pai. Era natural que a minha reação fosse de desespero, temor e medo do que estava por vir.
Mesmo considerando não ser urgente a transferência para a UTI, os médicos julgaram necessário buscar um hospital onde existisse esse tipo de unidade voltada para o atendimento de crianças. Iniciou-se, então, um contato com o Hospital da Criança visando uma mudança imediata de hospital. Contudo, mais um problema nos deixaria angustiado. Não havia leito disponível no Hospital da Criança, nem enfermaria, nem apartamento. Embora ainda não fosse necessário a UTI percebia-se o agravamento da situação da Carol primeiro porque a transfusão não estava recompondo as taxas sanguíneas a sua normalidade, mas já fazia-se necessário o uso constante do oxigênio em função da falta de ar que ela estava sentindo.
A partir da terça-feira o quadro agravou-se mais aceleradamente, a falta de ar fez-se acompanhar por uma dor permanente que ela reclamava em seu braço direito, na altura do ombro. Provavelmente já era um dos sintomas apresentados pela doença, ainda não diagnosticada. Na quarta-feira pela manhã o médico nos comunicou que havia conseguido uma vaga em enfermaria no Hospital da Criança. Isso nos deixou mais tranqüilos, embora apreensivos com a possibilidade dela ter que ir para UTI.
Tentávamos anima-la, mas ela estava sentindo muito incômodo com a máscara de oxigênio, e nos preocupava o aumento da ânsia de vômito, o receio ela que viesse acompanhado de sangramentos. A máscara prejudicava também seu cabelo, já alguns dias sem poder lavá-lo. E isso também a incomodava. Fui ao supermercado comprar shampoo para que ela pudesse lavar o cabelo, algumas presilhas para mantê-lo preso e água mineral. Equivocadamente, pela pressa comprei água com gás. Como era típico da Carolina, ela não perdoou e reclamou da minha distração. Lamentavelmente ela não faria mais uso desses objetos, por isso, jamais esquecerei o que comprei naquele dia para ela.
Providenciamos através do plano de saúde uma ambulância para transferi-la de hospital. Mas ela precisava ainda realizar mais alguns exames, desta feita na medula óssea, para identificar se a causa mesma da sua doença era a leucemia. Essa transferência ficou para o período da tarde e isso permitiu que eu pudesse levar o Iago, seu irmão, para visitá-la. Ele ainda não tinha ido ao hospital desta vez. Ao mesmo tempo, acertamos com a médica um exame de sangue no Iago, para testar a compatibilidade da medula óssea, já tentando prevenir para a necessidade de transplante, caso desse positivo o exame de Leucemia. Nesse dia, além da visita do Iago, ela recebeu também outras visitas, dentre elas a do seu tio Bosco. Para ele, ao contrário do que dizia para nós, ela disse que não estava se sentindo bem. Mas, mesmo assim, conseguiu dar aquela que seria a sua última risada, quando o Iago imitou os personagens do programa humorístico “Bofe de Elite” e brincou com o fato de ter tantas coisas no quarto para ela comer e como ela não comia, ele iria pegar. Ficamos felizes por vê-la sorrir, mas seria seu último sorriso.
Enquanto ela era transferida para o Hospital da Criança eu levei o Iago para realizar o exame de compatibilidade. Depois a Celma me disse que já na ambulância Carolina virara-se para ela e fez um comentário sobre mim, dizendo que agora eu ficaria satisfeito porque lá havia uma máquina de café. Ela sempre se lembrava de quando estivera internada no mês de junho e do meu vício de tomar café. Quando era meus momentos de ficar com ela eu sempre me afastava por alguns minutos, e ela já sabia: eu me dirigia à entrada do hospital para pegar um cafezinho numa máquina automática de café expresso. Lembro-me também que, antes de sair com Iago virei-me para ela e lhe disse: “força minha guerreira, você vai sair dessa”. Ela balançou a cabeça e deu um sorriso triste, cansado. “Quem você gostaria de ser nesse momento, a Mulan ou Pocahontas?”, insisti, tentando levantar seu ânimo. Ela respondeu: “Mulan”. Fiquei satisfeito com a escolha, dei-lhe um beijo e saí apressado, para que ela não percebesse meu estado emotivo.
Depois do exame feito fui para casa deixar o Iago para em seguida ir ao Hospital da Criança, deixar algumas coisas que era preciso transferir, objetos pessoais da Carolina. Quando estava me dirigindo para lá recebi uma ligação da Celma. Havia ficado no outro hospital sua sandália. Deixei os objetos lá e fui imediatamente buscar porque era uma sandália que havia sido presenteada pela avó e ela sentiria bastante sua perda. Não tive dificuldade em achá-la. Mas quando retornei já não encontrei mais minha filha no leito da enfermaria. A mãe me aguardava, sem muita ação, e com o olhar abatido me avisou que ela teve que ser transferida para a UTI, porque se agravara o quadro respiratório. Não tínhamos o que fazer, mas no peito comprimia uma dor que relutava em despontar. Brigávamos internamente entre o otimismo necessário, de quem não quer acreditar que a morte vá vitimar uma criança e o pessimismo de quem vive traumatizado por experiências negativas de UTIs., e, claro, por ver uma filha nossa submetido a um tratamento médico que é visto como a última tentativa de se escapar de um quadro de intensa gravidade.
É doloroso lembrar em detalhes de cada momento de angústia que passamos, mas desde a sua entrada na UTI até o momento em que a morte a levou de nós, vivemos as horas, minutos e segundos mais desesperadores e doloridos de nossas vidas. Porque, diferente de antes, não podíamos mais acompanhar nossa filha, o horário em UTI para visita é bastante rigoroso e não é permitido acompanhamento. Foram 24 horas de medo, angústia, tensão e desespero. Quando saíamos recebemos visitas de alguns amigos. Um deles médico, colega de UFG e professor no Hospital das Clínicas, outra era jornalista da ADUFG, mas tinha um irmão médico que trabalhava também naquele hospital, e em seguida chegou também uma médica e colega da UFG, também professora do Hospital das Clínicas, que já havia sido contactada por amigos da Associação dos Docentes da UFG, da qual eu já havia sido presidente. Foi dito a ela da gravidade da doença de minha filha e ela gentilmente se dispôs a vê-la na UTI. Quando ela se encontrou conosco, juntamente com esses outros amigos, mostrei a tabela com todos os exames que havia organizado. Ela foi bastante direta, embora cuidadosa ao falar. Mas foi clara ao dizer da gravidade da doença da Carol, e quando dissemos saber da possibilidade de ser leucemia ela nos disse que era 99% as chances disso ser confirmado. Mas ela ficou admirada com o quadro apresentado pelos exames e reconheceu que eles indicavam, de fato, que a situação dela em junho apresentava todos os indicativos de virose. E se espantou com a maneira como se deu a recuperação, diferente da leucemia.
Fomos para casa naquele dia sentindo o chão abrir-se aos nossos pés. Não adiantava ficarmos no Hospital, pois não poderíamos estar ao seu lado. Foi uma longa noite em que temíamos pelo toque do telefone. Por mais que lutássemos internamente para pensarmos sempre numa superação daquela situação por parte de nossa filha, era inevitável que também pensássemos no pior.
Na manhã seguinte nos dirigimos para o hospital. Em casa ficaram apreensivos, minha mãe, Iago e Domícia. Quando chegamos ao hospital tentamos entrar para vê-la, mas não nos foi permitido, devido à rigidez do horário de visita em UTI. A responsável pelo setor disse que somente no horário estabelecido poderíamos visita-la: às 12:30, e somente por meia-hora. Perguntei se a Avó e o padrinho também poderiam vê-la, ela respondeu que somente em caso de extrema gravidade.
Não nos conformamos. Embora o boletim da noite anterior indicasse um quadro estável, precisávamos ver nossa filha. Tentamos por vários caminhos antecipar a visita. Àquela altura já tínhamos ao nosso lado uma grande quantidade de amigos, além dos tios dela, meus irmãos. O irmão da Celma estava viajando. Tivemos também como apoio importante, em vários sentidos, o pessoal da ADUFG, inclusive tentando nos ajudar a encontrar uma maneira de entrarmos na UTI, através do contacto com a direção da Unimed e por meio dela a direção do Hospital. Depois de vários contatos, por diversos meios, conseguimos autorização para ver nossa pequena Carol, mas o quadro que observamos não gostaria de descrever. Falamos com ela, mas, sedada e com tubos de oxigênio, sua capacidade de nos compreender era muito pouco. Mas sentimos que ela reagia a nossa presença, tanto que nos foi solicitado para evitar que ela não se emocionasse, pois isso faria com que ela ficasse muito inquieta e a prejudicasse. Quando saíamos, a responsável pelo setor virou-se para mim e me disse: “agora, se o sr. quiser pode trazer a avó e o padrinho”.
Essa frase foi suficiente para que o mundo desmoronasse sobre minha cabeça. Descemos da UTI em prantos, o quadro que vimos e a frase dita nos indicava que nossa filha teria poucas chances de sobrevivência. Decidi não mais subir, não queria aquela imagem permanentemente em minha cabeça. Aquele foi um dos dias mais longos de minha vida. A Celma ainda subiu outras vezes, junto com o padrinho, além de outros colegas médicos e enfermeiras. A expressão de cada um que voltava da visita confirmava a gravidade da situação. Quando um amigo médico, com o qual eu sempre trocava opinião sobre o quadro dela, voltou da UTI após vê-la e ao invés de conversar comigo encostou-se em uma coluna e ficou em silêncio fui conversar com ele. Perguntei o que ele achava da situação e a única coisa que me lembro dele ter respondido foi que precisávamos torcer para que ela não tivesse sangramento pelo pulmão, pois ela correria o risco de afogar-se em seu próprio sangue.
Decidi, naquele momento, que deveria vê-la. Fiz isso, juntamente com a Celma ao cair da noite. Passava das 19 horas quando subimos à UTI para aquele que seria o último contato com nossa filha em vida. Já sabíamos, então, que sua doença era mesmo a Leucemia, de um tipo raro. O diagnóstico chegara até nós no meio da tarde, pela confirmação do laboratório. Na mesma tarde ficamos sabendo que o exame de compatibilidade do sangue do Iago deu negativo. Nesses casos, embora o irmão seja o que tem maior probabilidade, o percentual é de em torno de 25% de que isso ocorra. Os médicos já haviam nos explicados quais seriam os procedimentos: primeiro, a Carol teria que sair da UTI, em seguida seria necessário uma recomposição de seus níveis sanguíneos, para depois iniciar um tratamento quimioterápico e nos dedicarmos à busca de um doador compatível de medula para proceder a um transplante. Após essa fase, havendo o transplante, o acompanhamento necessário para verificar se haveria ou não rejeição. E o acompanhamento para o resto da vida.
Vimos nossa filha viva pela última vez às 19:30 do dia 13 de dezembro. Descemos abatidos e fomos convencidos pelos colegas de que nada adiantaria ficarmos ali, que deveríamos ir para casa descansarmos. Concordamos e chegamos em casa ainda com a imagem de sofrimento da Carol na UTI. Procuramos disfarçar a emoção para deixarmos minha mãe, Iago e Domícia mais tranqüilos. Mais tarde, por volta das 23 horas, imediatamente após eu haver terminado de jantar – a Celma estava na Igreja participando de uma novena dedicada à Carol, a pedido da nossa vizinha Eunice – chegaram dois amigos, a Cláudia, uma grande amiga e também médica que sempre nos ajudava a entender os exames, e o Orlando, um companheiro de longas datas e que havia pouco tempo perdera sua esposa e nossa amiga, Verbena. Eles se encarregaram de nos transmitir uma notícia que nenhum amigo gostaria de dar a outro. Nossa filha não resistira e se foi, tendo como causa de óbito insuficiência respiratória. Não sei dizer como me senti. Não sei dizer como me sinto. Não sei o que aconteceu à minha volta. Só sei que um pedaço de meu corpo foi dilacerado. Um vazio tomou conta de mim, as lágrimas demoraram a sair, e a única coisa que eu conseguia dizer era que eles estavam de brincadeira comigo. Mas infelizmente era verdade, uma brutal, cruel e estúpida verdade. Um filho se foi diante da impotência de seus pais. Não tínhamos como salvá-la, mas eu daria minha vida para isso. Assim é que deve ser, os pais darem a vida pelos filhos, afinal, é isso que fazemos desde o momento em que nasce nosso primeiro filho, passamos a viver em função deles. Deixa de ser a MINHA vida e passa a ser a NOSSA VIDA.

No dia 13 de dezembro de 2007 perdemos um pedaço de nós mesmos. Carolina se fora em vida, e nossas vidas jamais serão como antes.

(*) Esse texto fez parte do livro que publiquei em dezembro de 2008, um ano depois da morte de minha filha. Originalmente o título dessa crônica foi “Última internação da Carol”. O título do livro, já esgotado, é: “DEPOIS QUE VOCÊ PARTIU”.