domingo, 15 de novembro de 2015

O ATENTADO EM PARIS E OS MONSTROS E MONSTRUOSIDADES GERADOS POR ESTRATÉGIAS PERVERSAS

Há uma guerra no Oriente Médio. Há muito tempo. Promovida por grandes potências visando desestabilizar governos com interesses estratégicos. Desde 2001, no pós 11 de setembro, a estratégia dos EUA e aliados foi de derrubar governos de diversos países. Sete, segundo o general Wesley Clark.[1] A loucura disso tudo, além do absurdo de se intervir em países de forma violenta, foi a estratégia de se deflagrar uma “guerra ao terror”, como se fosse possível, numa guerra convencional, atingir inimigos invisíveis. Inimigos esses gerados por um comportamento geopolítico, não somente da desestabilização dos governos, mas da geração de uma quantidade enorme de pessoas vitimadas por essas ações, de radicalidades crescentes na mesma proporção do ódio contra os que invadiam seus territórios e destruíam suas vidas. Nesse ambiente horrível, de bombardeios, destruições e humilhação de povos, germinaram e se fortaleceram grupos sectários, que se espalharam por toda a região, potencializando-se com a chamada “primavera árabe”, tornada um inverno tenebroso. Al Qaeda, Talibã, Al Nusra e ISIS, ou Estado Islâmico, são criaturas geradas por estratégias burras, ou não. Provavelmente, como diz o general, elas tenham sido criadas intencionalmente, com o propósito de gerar o caos numa região rica em petróleo, onde a democracia, seguramente, tornaria esse produto algo a ser fortemente controlado por um estado nacional forte. Houve loucura nessa estratégia.
Os armamentos adquiridos pelos grupos sectários que usam da barbárie e do terror não são de tudo roubados. Boa parte foram conseguidos pelo financiamento dos países ocidentais (inclusive os EUA), além da Arábia Saudita aos grupos que lutavam (e ainda lutam) contra o governo sírio, entre esses a Al Qaeda e o Estado Islâmico. Esses recursos foram enviados (e continuam sendo) através das monarquias árabes aliadas (Arábia Saudita, Qatar etc.). Por todo esse tempo ouvimos que os trabalhos dos jornalistas estavam sendo impedidos por ação do ditador sírio. Na verdade, eram esses grupos sectários que estavam sequestrando jornalistas, muito embora alguns , de fato, tenham encontrado dificuldades criadas pelo governo sírio, o que sempre acontece em meio a uma guerra. Sabe-se que pelo menos mais vinte jornalistas estão desaparecidos. Há pouco tempo, por uma estranha intervenção do governo do Qatar um desses jornalistas foi solto, demonstrando uma influência desse país com os grupos terroristas que agem na Síria. Enfim, esse crescimento de ações de barbáries, assassinatos e execuções em massa, e o fortalecimento desses grupos sectários, são efeitos colaterais das guerras promovidas pelos EUA, seja diretamente por meio de intervenções (Iraque e Afeganistão), ou indiretamente, por meio do apoio a esses agrupamentos (Líbia e Síria). O Estado islâmico, assim como os Talibãs, são criaturas pérfidas criadas para se constituírem em instrumentos a serviço de interesses estratégicos dos EUA no Oriente Médio desde o período da guerra fria. Para melhor conhecimento dessas estratégias estúpidas aconselho a leitura do livro de Moniz Bandeira, "A Segunda Guerra Fria".[2]
Logo após o EI controlar boa parte dos territórios sírios e iraquianos, os EUA, e até mesmo a Alemanha, defenderam o envio de armas para o Iraque, a fim de ajudar no combate ao grupo sectário do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (o comércio de armamentos bélicos é sempre uma boa saída para a crise econômica). Ou seja, depois de armá-los para derrotar o governo sírio, pretendem agora armar os que se opõem a eles para derrotá-los(?). Talvez não haja mesmo outra coisa a fazer, já que enviar tropas incorreria na morte de soldados, impactando na opinião pública. Mas o e feito colateral, esperado e inesperado, fortaleceu um monstro.
No entanto, as potencias ocidentais não assumem suas responsabilidades nesses erros crassos, de estratégias absolutamente malsucedidas, e de escolhas completamente erradas. Como porta-voz, uma mídia enviesada desinforma a população, criando comoções em tornos de atentados que ocorrem em territórios europeus, e ao mesmo tempo ignora a brutalidade como essas violências se abatem corriqueiramente contra países asiáticos, no Oriente Médio e na África.
Atentado no Líbano em 12/11.
pouca repercussão e nenhuma comoção
Dois dias antes dos ataques de Paris mais de cinquenta libaneses foram mortos em um ataque terrorista assumido pelo mesmo Estado Islâmico, e mais de duzentas pessoas ficaram feridas. Não houve comoção nem ninguém usando as cores da bandeira libanesa no facebook. Houve uma tragédia, um crime abominável e monstruoso, patrocinado por grupos intolerantes e fascistas. Mas os cidadãos franceses não podem ser tratados de maneira diferente dos libaneses, líbios, iraquianos, afegãos, paquistaneses, somalis, sudaneses... essa comoção ocidental esconde as origens desses monstros. Portanto, é preciso mais indignação mas que ela não seja guiada pela seletividade da grande mídia.
A França está pagando o preço de dominação e guerras imperialistas,  o seu povo torna-se vítima dessas estratégias de dominação e espoliação. Esses monstros foram criados por Estados Unidos e Europa. A maioria dos mortos por atentados terroristas estão no oriente médio e África. Mas tragédias nesses lugares só se tornam notícias quando seus povos, cansados de tanta violência, fogem para a Europa. Mesmo assim somente 10% deles vão para os países europeus. A maioria vive refém, em campos de refugiados, nas fronteiras de seus próprios países.
Repercussão dos atentados terroristas
em Paris -  13/11
Destruíram o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, agora a Síria. E de cada um desses países saíram os grupos que estão assassinando pessoas no Oriente Médio, África, Ásia e Europa: ISIS, Al Qaeda, Talibã, Al Nusra e tantos outros. A perversidade desses grupos é algo monstruoso e horrível. Mas eles foram criados para derrotar os que eram (e são) considerados inimigos dos EUA e dos países europeus. A estratégia para combatê-los, depois de tê-los criados, continua equivocada. Pois enquanto eles bombardeiam por cima, e matam indiscriminadamente, o EI e a Al Qaeda recrutam parentes das vítimas desses bombardeios por baixo. Essa loucura não terá fim sem uma estratégia diferente, sem combates por terra, com o apoio da Síria, Irã, Iraque e Turquia, e deveria ser a ONU a comandar essa coalizão.
Ao mesmo tempo, não se pode atribuir essas loucuras ao Islamismo de forma genérica. Também no cristianismo existem setores fundamentalistas que adotam comportamentos fascistas e radicais no ataque a costumes que fujam de seus dogmas. Basta ver as mudanças que estão fazendo no congresso nacional. São os fundamentalistas que estão presentes em todas as religiões, assim como na direita e até mesmo na esquerda.
"Quem com ferro fere, com ferro será ferido". Colonialismo, arrogância, humilhação, apoio a grupos sectários para derrotar seus inimigos, seguindo a lógica absurda de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", a disputa por territórios estratégicos para os interesses imperialistas, tudo isso, e muito mais, criaram essas aberrações e possibilitaram essas ações terroristas. A religião, como sempre, é também um elemento motivador dessa estupidez, controlada por um fundamentalismo cego e tresloucado. O Brasil, certamente, não está no alvo dessas ações pois envolvem aqueles países que se dedicaram em sua história a explorar as riquezas de outros povos.
Dois milhões de sírios vivem em
fronteiras com países vizinhos em
campos de refugiados.
Enfim, esses atentados são absolutamente condenáveis sob todos os aspectos, mas a história não pode ser esquecida em momentos de grande comoção. O que está se vendo é uma guerra. Mas contra inimigos que só se fortaleceram desde 11 de setembro de 2001. E, como sempre tem acontecido desde então, só aumenta o número de civis mortos seja na Europa, como na Ásia, Oriente Médio e África. E que não se esqueça: o número de mortes no Oriente Médio é infinitamente superior a esses de Paris.
E já que o Facebook disponibilizou cores da França para ser usadas em fotos do perfil, porque não disponibilizar também cores de países onde há décadas sistematicamente acontecem atentados e genocídios, e em alguns casos o próprio estado desapareceu? Somália, Sudão, Iêmen, Afeganistão, Iraque, Líbia, Palestina, Líbano, Síria... e a Argélia, por sua história de resistência ao imperialismo francês, e Ruanda, cujos facões utilizados para massacrar quase um milhão de ruandeses por seus próprios compatriotas, foram repassados por franceses. "Je suiz" todos eles. Solidariedade a todos os povos, inclusive os franceses (e qualquer um outro vítima do terror de grupos ou de estados), vítimas de terrorismos, invasões de seus territórios, genocídios, barbárie, guerras e intolerância seculares.
A Paz é a unica saída. Mas, com respeito à soberania das nações e às escolhas políticas dos povos de cada país. E, acima de tudo, que a ONU tenha voz e seja protagonista nesse processo, ao invés de um mero instrumento controlado por poucas potencias.
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Vejam a seguir uma entrevista com o linguísta estadunidense, Noam Chomski, na TV Nacional Portuguesa em maio de 2015, sobre as origens do terrorismo no Oriente Médio.





[1] Nessa entrevista de 02 de Março de 2007, o General Wesley Clark, aposentado de 4 estrelas do Exército dos EUA e Comandante Supremo Aliado da OTAN durante a Guerra do Kosovo, relata um encontro com militares do Pentágono e a conversa que se estabeleceu a respeito da guerra no Oriente Médio: https://www.youtube.com/watch?v=sCDRWEpz5d8

[2] BANDEIRA, Luiz Aberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. São Paulo: Civilização Brasileira, 2013.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A GREVE... O ANDAR DA CARRUAGEM... E O PRECIPÍCIO!

“É salutar e estrategicamente importante, mantermos o movimento coeso, centrado nessas duas reivindicações (o reajuste e o repasse de verbas para a universidade), até que sejam encerradas as negociações, que provavelmente ocorrerá até 31 de agosto. Feito isso, podemos aí, em Assembleia, ou/e por meio de consulta eletrônica (já que é um instrumento estatutário de nosso sindicato), a fim de ampliar a participação dos docentes, dizer se aceitamos ou não a proposta final, e, em seguida, decidirmos pelo fim, ou não, do movimento grevista”.
Com essas palavras, um chamamento à racionalidade do movimento em função de posições radicalmente antagônicas, encerrei meu artigo, publicado no Blog Gramática do Mundo na última semana de agosto (http://www.gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/08/a-greve-na-ufg-e-o-andar-da-carruagem.html).
Nele eu teci críticas ao comportamento adotado por aqueles que não desejavam greve, e ansiavam por rapidamente botar fim ao movimento; e pelos que desejam greve ad infinitum, sem preocupação com o tempo que o movimento perdurará, o que alguns chamam de “greve até o fim do mundo”.
Não pretendo, absolutamente, adotar um comportamento arrogante. Não me coloco como senhor da verdade, até porque não acredito em verdades absolutas. Mas, me exponho sempre, e assim me caracterizei desde que criei este blog, apresentando minha opinião para debate, com analises que considero, naturalmente, as mais corretas dentro de uma determinada realidade. Procuro sempre ser coerente entre atos e opiniões. Por isso, e pelo que aconteceu entre a data que publiquei o texto citado e esta última semana, é que decidi complementar aquele artigo, com a análise que se segue.
SOBRE O QUE É SER RESPONSÁVEL NUMA GREVE
Nossa última assembleia se iniciou com intervenções questionando a responsabilidade na deflagração da greve. Particularmente me vi criticado, uma vez que defendi nas primeiras assembleias a necessidade de entrarmos em greve, como resposta aos cortes de verbas nas universidades, bem como para mostrarmos nossa insatisfação com a proposta de fatiamento de nosso reajuste por longos quatro anos, em um momento de grave crise fiscal, política e econômica.
Com a perspectiva de as negociações se encerrarem no dia 31 de agosto, prazo definido nas mesas de negociações entre federações, sindicatos e o Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão, naturalmente a greve se colocava, sim, como um instrumento radical de pressão, já que nossa categoria é incapaz de se movimentar de outras maneiras. Vivemos na Universidade as rotinas de nossos espaços restritos, nos laboratórios aos quais estamos ligados, sobre nossas pesquisas ou dos aspectos relativos àquilo que diz respeito particularmente a cada um. O questionamento sobre a realidade que nos cerca e que nos envolve cada vez mais, na medida em que tudo se conecta, constitui-se tão somente em um bate-papo de corredores ou nos intervalos de almoço. Não se debate com profundidade os problemas da Universidade. Há uma aceitação passiva das decisões administrativas e das políticas adotadas pelo governo. Sequer as conhecemos em profundidade. Deixamos isso a cargo dos nossos representantes nos conselhos universitários, mas pouco lemos a respeito do que se decide. Ou seja, nosso futuro na universidade pouco importa, a não ser quando aperta no bolso.
Essas questões, e a normalidade que nos cerca e da qual nos habituamos, já me motivaram a escrever alguns artigos em meu Blog. Entendi que a paralisação, de uma maneira ou de outra deveria servir não somente para pressionar o governo às vésperas de finalizar as negociações sobre nosso reajuste, mas também para fazer com que os colegas despertassem da letargia que tem afetado a universidade há muitos anos. Acostumamos-nos com as melhorias que inegavelmente aconteceram e perdemos a capacidade de perceber o abismo adiante de nós.
Claro que há outras motivações por parte de alguns colegas que veem a greve também como instrumento de desgaste político do governo, ou como um mecanismo para ampliar influência de grupos políticos entre os professores, além de conquistar espaços na disputa sindical, principalmente na tentativa de fazer o nosso sindicato retornar à influência da Andes. Nada, contudo, que não esteja dentro do jogo das disputas democráticas. Pelo menos dentro dos limites do permitido. Se é aceitável, somente a força de cada lado, dentro do processo de eleições sindicais, irá dizer.
Mas esse é exatamente o grande problema. Tentar descobrir qual é o limite do aceitável de uma greve na Universidade. Aqui me refiro a essa luta específica, de momento, nossa greve que já dura quase dois meses. É claro que não se pode, de forma inconsequente, levar uma paralisação até ao extremo de prejudicar um semestre letivo e, assim, adiar por seis meses a formação dos nossos alunos. Muito menos, é aceitável o estrangulamento da universidade, por inanição. Contraditório, já que criticamos o comportamento de governos que, ao não nos atender, estariam apostando no enfraquecimento dessa instituição. Pelo menos muitos acreditam nisso. Ocorre que a política é, principalmente por nossas bandas, extremamente instável. Quando se imagina haver certa tranquilidade institucional, a disputa pelo poder descamba para um processo autofágico, e se exige, para além da democracia, a rotatividade dos partidos no poder. Mas essa é outra discussão, embora seja uma das razões da crise.
O fato objetivo, para não nos perdermos em subjetividades, é que o momento político brasileiro é, nesse momento, extremamente crítico. Uma crise econômica internacional, um descontrole fiscal que fez com que pela primeira vez fosse enviado ao Congresso Nacional um orçamento deficitário, e uma crise política que vem acompanhada de radicalidade na disputa pelo poder, mas também da visibilidade de velhos esquemas corruptos que tradicionalmente corroem as estruturas do Estado brasileiro e já desde muito denunciado, mas somente agora investigado e punido: uma crise moral e ética enfraquecem a política, o governo e nos deixa em meio a uma ambiente de incertezas.
Como diz um velho ditado popular, é impossível extrair água de uma pedra. E não me refiro às rochas porosas que são características dos aquíferos. O que quero dizer é da impossibilidade de conseguirmos resultados positivos e vitórias dentro daquilo que desejamos e reivindicamos, em meio a um ambiente de caos fiscal e de intensa crise política que corrói o Estado brasileiro, a ponto da atual presidenta da República correr o risco de sofrer um impedimento para concluir o seu mandato. Afinal, golpes institucionais se tornaram práticas corriqueiras em diversos países latino americanos, e os exemplos mais concretos são os de Hondura e do Paraguai. Embora se tenha tentado também isso na Argentina, na Bolívia, no Equador e na Venezuela por diversas vezes.
Mas também, para contrariar o slogan de um comediante que se tornou deputado federal, “pior do que está, pode ficar”. Nós, que estamos há mais tempo na universidade, sabemos o que pode nos aguardar em um governo conservador. Os mais novos deveriam recorrer à história, e assim saberiam o quanto a Universidade sofreu com políticas conservadoras, excessivamente neoliberais, nos anos 1990 e anteriores. Assim, estrategicamente, o melhor que o movimento docente pode fazer é adotar a tática de recuar momentaneamente, para poder acumular forças e torcer para que a situação econômica do país melhore. Não deve nos interessar o “quanto pior melhor”, tão repetido pela presidenta, mas que, na política é algo permanente na linha política daqueles que estão na oposição e fora das mordomias do poder. Muito embora também faça parte de iniciativas tresloucadas de grupos sectários de extrema esquerda, que, nesse particular, aproxima seus discursos aos interesses e objetivos da extrema direita. O caos como objetivo, facilitaria a aglutinação de novos “combatentes”.
Um passo atrás, dois à frente. Essa deve ser a estratégia inteligente que devemos adotar. Encerrarmos a greve e manter negociações visando uma reformulação em nossa carreira. Além da necessidade de discutirmos e debatermos com intensidade, o que não temos feito, os rumos e destinos da universidade, a meu ver, completamente invertido com o abandono da graduação e a preocupação excessiva e determinante para o financiamento dessas instituições, nas melhorias das notas dos cursos de pós-graduação.
Nesse sentido podemos falar de responsabilidades. Com o conhecimento de nossas possibilidades, do entendimento da complexidade da realidade econômica, fiscal e política do país e da preocupação com o futuro, nos cabe tomar uma decisão coerente com nossa capacidade de discernimento. É o momento de encerrarmos o movimento grevista, mas de continuarmos nossa luta pela garantia dos repasses necessários à universidade e de melhorias em nossa carreira em um curto espaço de tempo, no máximo até 2017.
Mas os professores não podem, simplesmente, votar pelo fim da greve e voltar a acomodar-se, como se nada tivesse acontecido, e a destilar as frustrações contra os que estão à frente de nossa entidade. A força que podemos ter depende do fortalecimento de nossas instituições que nos representam enquanto uma categoria, o sindicato e a federação. Não basta nos contentarmos com gratificações e bolsas obtidas por meio de projetos de pesquisas e de extensão. Isso é provisório, e farão falta mais adiante, na medida em que se incorporam aos nossos gastos e estilo de vida. É preciso estarmos presentes na discussões sobre nossa carreira, defender melhorias em nossas condições de trabalho e cobrarmos da reitoria manifestação firme em defesa de nossa autonomia, uma luta antiga mas que parece distante das preocupações dos colegas professores.

Enfim, o que acredito ser uma atitude responsável é, além de encerrarmos a greve, sabermos que nossas conquistas futuras estão umbilicalmente ligadas ao nosso envolvimento nas discussões sobre os destinos da nossa universidade, e da universidade pública e gratuita de maneira geral. Fora isso, outras atitudes, movidas pelo discurso extremo e radical ou pela acomodação e insensibilidade diante dos problemas que é de todos, só nos empurrarão em direção ao precipício.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

QUAL A CREDIBILIDADE DA AGÊNCIA DE "RATING", STANDARD & POOR'S?

STANDARD & POOR'S PAGARÁ MULTA DE US$ 1,37 BILHÕES POR SEU PAPEL EM CRISE
Esta notícia não é de hoje. É de fevereiro deste ano.
Mas os mesmos editores do G1 não relembrarão disso que eles mesmos publicaram. E diz respeito a processos contra a Agência Standard & Poor's, a mesma que acaba de rebaixar a nota do Brasil. Ela foi condenada nos EUA por esconder e omitir informações sobre grandes bancos que estavam praticamente quebrados. Para mais informações sugiro que assistam o documentário, premiado com o oscar em 2010, INSIDE JOB. Disponível no Vímeo.
Entenda qual é o papel dessas agências e suas relações com os grandes bancos e corporações multinacionais. É fundamental entendermos qual o papel dessas empresas dentro da lógica de funcionamento do sistema capitalista. Evidentemente ele está relacionado aos interesses dos grandes especuladores do sistema financeiro internacional. Não se trata somente de defender tais investidores, mas também de enfraquecer momentaneamente empresas estratégicas importantes, facilitando suas aquisições ou de suas ações. Esses "abutres", se servem de tais avaliações de "riscos", aproveitam situações de crises, ou as acentuam intervindo nas crises, e lucram cada vez mais. Os efeitos colaterais não são pequenos, e abalam cada vez mais toda a estrutura do capitalismo e não somente do país "rebaixado", pois geram instabilidades e inseguranças na população. Contudo, o que importa para esses especuladores é o lucro imediato e o controle de poder em estados-nações importantes, que venham a facilitar seus enriquecimentos. Mesmo que à custa do crescimento da concentração de rendas e do empobrecimento da grande maioria das pessoas.

Não se trata de negar as crises, elas são da própria essência do sistema capitalista, mas de compreender como alguns poucos setores se aproveitam para lucrar ainda mais, e como eles potencializam as crises, de forma a criar um pessimismo crescente na população ao mesmo tempo em que, sub-repticiamente, esses "abutres" agem para obter altos dividendos com o desespero que se espalha, principalmente entre as camadas médias e pequenos proprietários.
Leia também este artigo:

Vejam esse artigo de Paul Krugman, publicado em 2011, no portal UOL:

Standard & Poor's não tem credibilidade para avaliar dívida dos EUA

Andrea Comas/Reuters
Para entender todo o furor em torno da decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor's de rebaixar os títulos da dívida do governo dos Estados Unidos, é preciso que se leve em consideração duas ideias aparentemente (mas não realmente) contraditórias. A primeira é que os Estados Unidos não são de fato mais aquele país estável e confiável que era no passado. A segunda é que a própria Standard & Poor’s tem ainda menos credibilidade; esta agência é a pior instituição à qual alguém deveria recorrer para receber opiniões sobre as perspectivas do nosso país.
Comecemos pela falta de credibilidade da Standard & Poor’s. Se existe uma única expressão que melhor descreve a decisão da agência de classificação de risco de rebaixar os Estados Unidos, esta palavra é chutzpah (cara de pau) – tradicionalmente definida pelo exemplo do jovem que mata os pais e depois suplica por clemência pelo fato de ser órfão.
O grande déficit orçamentário dos Estados Unidos é, afinal de contas, basicamente o resultado da queda econômica que se seguiu à crise financeira de 2008. E, a Standard & Poor’s, juntamente com as outras agências de classificação de riscos, desempenhou um papel importante no que se refere a provocar aquela crise, ao conceder classificações AAA a papeis lastreados em hipotecas que acabaram se transformando em lixo tóxico.
E a má avaliação não parou aí. É notório o fato de a Standard & Poor’s ter dado ao Lehman Brothers, cujo colapso provocou um pânico global, uma classificação A no mês em que aquele banco faliu. E como foi que a agência de classificação de risco reagiu depois que a instituição financeira de nota A foi à falência? Ela emitiu um relatório no qual negava ter cometido qualquer erro.
Então, são essas as pessoas que agora decretam que os Estados Unidos da América não são mais dignos de crédito?
Mas esperem, essa história fica ainda melhor. Antes de rebaixar os papeis da dívida dos Estados Unidos, a Standard & Poor’s enviou um esboço preliminar do seu novo relatório ao Departamento do Tesouro. Os funcionários do departamento identificaram rapidamente um erro de US$ 2 trilhões nos cálculos da Standard & Poor’s. E o erro era daquele tipo que nenhum especialista em orçamento poderia cometer. Após discussões, a Standard & Poor’s admitiu que estava errada – e rebaixou os Estados Unidos assim mesmo, após remover uma parte da sua análise econômica do relatório.
Conforme eu explicarei daqui a pouco, não se deveria dar muito crédito, de qualquer maneira, a tais estimativas de orçamento. Mas o episódio não gera exatamente confiança na avaliação da Standard & Poor’s.
De forma mais geral, as agências de classificação de risco jamais nos proporcionaram qualquer motivo para que nós levássemos a sério as suas avaliações sobre solvência nacional. É verdade que nações que declararam moratória geralmente foram rebaixadas antes que isso acontecesse. Mas em tais casos as agências de classificação de risco estavam simplesmente seguindo os mercados, que já haviam repudiado esses devedores problemáticos.
E, nos casos raros em que as agências de classificação de risco rebaixaram países que, como os Estados Unidos neste momento, ainda gozavam da confiança dos investidores, essa decisão por parte delas se revelou consistentemente equivocada. Vejamos, particularmente, o caso do Japão, que foi rebaixado pela Standard & Poor’s em 2002. Bem, nove anos depois o Japão ainda consegue pegar dinheiro emprestado livremente e a juros módicos. De fato, na última sexta-feira, a taxa de juros sobre os títulos de 10 anos do Japão era de apenas 1%.
Portanto, não existe motivo para levar a sério o rebaixamento dos Estados Unidos ocorrido na sexta-feira passada. As últimas pessoas em cuja avaliação deveríamos confiar são os analistas da Standard & Poor’s.
No entanto, os Estados Unidos têm de fato grandes problemas.
Esses problemas têm muito pouco a ver com a aritmética orçamentária de curto prazo ou mesmo com a de médio prazo. O governo dos Estados Unidos não está tendo problemas para pegar dinheiro emprestado para cobrir a sua dívida atual. É verdade que nós estamos acumulando dívida, sobre a qual teremos que pagar juros. Mas se fizermos de fato as contas, em vez de ficarmos repetindo os números enormes com voz sinistra, descobriremos que até mesmo déficits muito elevados no decorrer dos próximos anos terão um impacto pequeno sobre a sustentabilidade fiscal dos Estados Unidos.
Não, o que faz com se tenha a impressão de que os Estados Unidos não são confiáveis não é a matemática orçamentária, mas sim a política. E, por favor, não vamos repetir as declarações usuais de que ambos os lados são culpados. Os nossos problemas são quase que inteiramente provocados por um dos lados – eles são causados, especificamente, pelo crescimento de um extremismo de direita que está preparado para criar crises repetidas em vez de ceder um centímetro sequer em relação às suas exigências.
O fato é que, no que se refere à economia básica, os problemas fiscais de longo prazo dos Estados Unidos não devem ser tão difíceis assim de se resolver. É verdade que uma população em processo de envelhecimento e o aumento dos custos dos serviços de saúde provocarão um aumento mais rápido - sob as atuais políticas - dos gastos do que das receitas tributárias. Mas os Estados Unidos têm custos com saúde bem mais elevados do que os de qualquer outra nação desenvolvida, e impostos muito baixos segundo os padrões internacionais. Se nós pudéssemos nos aproximar, ainda que parcialmente, das normas internacionais nessas duas frentes, os nossos problemas orçamentários seriam resolvidos.
Então, por que é que não podemos fazer isso? Porque temos neste país um movimento político poderoso que gritou “comitês da morte” ao se deparar com tentativas modestas de utilização mais efetiva das verbas do Medicare, e que preferiu que nós corrêssemos o risco de uma catástrofe financeira do que concordar com a cobrança de um único centavo em impostos adicionais.
O verdadeiro problema enfrentado pelos Estados Unidos, mesmo em termos puramente fiscais, não é determinar se nós cortaremos um trilhão aqui ou um trilhão ali do nosso déficit. O problema é saber se os extremistas que estão atualmente bloqueando qualquer tipo de política responsável podem ser derrotados e marginalizados.
http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/paul-krugman/2011/08/09/standard--poors-nao-tem-credibilidade-para-avaliar-divida-dos-eua.htm
Tradutor: UOL

PAUL KRUGMAN

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A GREVE NA UFG... E O ANDAR DA CARRUAGEM!

No final do mês de junho, ao participar da primeira assembleia convocada pela Adufg para discutir as propostas apresentadas pelo governo, em relação ao nosso reajuste salarial, e diante de uma política já em curso, de cortes de verbas, me posicionei sem vacilação pela necessidade de construirmos uma forma de pressão em um momento importante, estratégico, de negociações com o Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). Sem nenhuma outra perspectiva de mobilização, que não fosse a greve, imaginava ser esse o melhor mecanismo de pressão, que pudesse fazer com que os nossos negociadores tivessem um poder maior na mesa de negociação. Embora desgastado, este governo, nem qualquer outro, se sente confortável diante de um movimento paredista de professores universitários.
Naquele momento indicamos a greve para o começo de julho, garantindo a finalização do semestre e evitando maiores prejuízos, principalmente para os estudantes. E assim aconteceu. Numa assembleia bastante representativa, uma das maiores da história da UFG, conseguimos aprovar por ampla maioria a permanência na greve, somando o nosso movimento ao de dezenas de outras universidades ou campis.
Três semanas depois que análise é possível fazer desse processo? Certamente não tenho a pretensão de obter unanimidade na opinião daqueles que lerem este artigo. Até porque serei bastante crítico com determinados comportamentos que impregna em nossas relações. Uma espécie de esquerdismo, doença infantil que não perdoa nem professores universitários. Parafraseando Lênin.
Para mim, objetivamente, nosso movimento teria como foco duas reivindicações básicas: um percentual adequado de reajuste salarial e a garantia de fim do contingenciamento dos recursos destinados às universidades. Só isso já seria suficiente para travarmos uma batalha com o governo federal, diante de uma situação política extremamente delicada e com um rombo nas contas públicas, que gerou a necessidade de um ajuste fiscal fortemente recessivo. E, diante de algo bastante grave, compreensível para quem está acompanhando a situação do mundo pós-2008: uma grave crise econômica, sistêmica, que se espalha pelo mundo, e agora atinge a China, até então praticamente imune aos solavancos do sistema capitalista. Obviamente, este não é um quadro favorável a uma negociação de reajustes salariais para o serviço público, principalmente quando a receita para fazer o bolo vem acompanhada de fortes doses neoliberais, impondo rígidos cortes às despesas públicas.
O meu entendimento, como estudioso da realidade geopolítica mundial, e estando acompanhando ano a ano o desenrolar dessa crise, era que a necessidade de forçarmos um acordo melhor para o nosso reajuste, se deve exatamente à compreensão de que os anos que virão serão bem piores do que este, pelo menos em termos de flexibilidade do governo em nos conceder reajustes salariais. Ademais, é inadmissível aceitarmos de braços cruzados cortes tão profundos no orçamento de nossa universidade. Isso afetaria, e afetará, caso se concretize, nossa capacidade de desenvolvermos o melhor de nosso trabalho, sob todos os aspectos.
Não endosso o discurso de que estamos no caos, naturalmente, pois não estamos, e os últimos dez anos foram de melhorias nas estruturas das universidades e em nossas condições de trabalho. Até mesmo, embora alguns discordem, na melhoria em nossas carreiras. Contudo, os cortes feitos pelo governo federal, segundo exposição apresentada pelo reitor Orlando Amaral na Assembleia Universitária, nos deixariam com um montante de recursos semelhante ao que a universidade recebia antes da expansão levada a cabo pelo Reuni. Obviamente, nessas condições, senão um caos pelo menos uma situação de dificuldades fará com que nossas condições de trabalho retrocedam, trazendo péssimas lembranças de situações dos anos FHC, de absoluto abandono de nossas universidades. Isso não podemos aceitar, mesmo que o governo diga que é algo passageiro, decorrente dos desajustes fiscais.
Mas a crise não é passageira, ela é sistêmica, duradoura e global. A Educação, nessas e em quaisquer circunstâncias, assim como o investimento em ciência e tecnologia, não podem ser submetidos a cortes de recursos. Isso significará, certamente, conter os pequenos avanços que tivemos e perdermos a oportunidade de consolidar nossa condição de país emergente e apto a atingir o clube das cinco maiores economias do mundo. Mesmo considerando-se uma realidade de crise grave que afeta a economia mundial. Em pleno auge da crise, em 2009, o presidente dos EUA, Barack Obama, aumentou de 2,66 para 3% do PIB os investimentos nas áreas de Ciências e Tecnologia. Cortes nessas áreas são fatais, e representam um enorme retrocesso em qualquer processo de desenvolvimento.
O corte dos recursos, mais o pífio percentual de reajuste já seriam mais do que suficiente para não ficarmos parados. Isso em termos de decisão a tomar, naturalmente, porque o que fizemos fui justamente parar por completo a UFG. Mas, diante da realidade, que nos é dura e cruel em termos financeiros, ou seja, das dificuldades de caixa do governo brasileiro, as perspectivas não são as melhores possíveis. Tudo indica que a proposta alternativa a ser apresentada ao final na mesa de negociação não contemplará nossas expectativas e não deverá sequer chegar perto das perdas que teremos com a inflação deste ano.
Certamente poderemos repetir uma frase atribuída a diversos autores, desde Rui Barbosa a Bob Marley: “Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado”. Evidentemente que isso não é um consolo, mas não podemos viver uma normalidade de aparência, nos fecharmos em uma redoma e nos silenciarmos. Fingir que não existe uma crise que também nos afeta.
Contudo, há um outro lado dessa moeda. O fato de eu estar convencido que essas reivindicações e situações já demandam um esforço enorme para conseguirmos vitórias, diante dos elementos expostos até aqui, existem outras pessoas, colegas professores, que imaginam estar vivendo uma crise pré-revolucionária, e que a greve pode vir a ser um caminho para mudanças estruturais. Em função disso, e por acreditarem piamente nessa possibilidade, definem uma pauta de reivindicações que seria capaz de alterar por completo nosso modelo de universidade. Dessa forma, acrescentam como palavra de ordem a conduzir o movimento grevista, de que a nossa greve não tem data para acabar.
Isso é um suprassumo da irracionalidade. Não se elabora planos de mudanças estruturais para serem aprovadas em uma greve, cujo motivo para sua deflagração foi explicitamente focado em dois pontos de pautas bem definidos. Até porque, dentre os professores que aprovaram a entrada na greve, muitos, certamente, não concordam com as propostas de universidade que são expostas nas discussões de calorosos debates quase intermináveis, nas reuniões do comando local de greve.
Assembléia dos professores (Agosto),
 dirigida pela UFG. Uma das maiores já
realizadas na universidade.
Aliás, eis outro mecanismo anacrônico, persistido nessa greve, muito embora seja uma criação de uma estrutura sindical que não existe mais para nós da UFG. Desde que nos transformamos em sindicato, e o registro sindical já foi publicado no Diário Oficial da União, adquirimos autonomia e deixamos de ser uma seção sindical de um sindicato nacional. Os comandos de greves eram constituídos em outra realidade, e as representações locais eram deslocadas para Brasília onde, ali, o comando nacional era dirigido por diretores do sindicato nacional. Numa flexibilidade democrática, talvez excessiva, e anacrônica, a mesa da última assembleia optou por criar um comando, que seria composto por representante de todas as unidades, mais diretores do sindicato e por essa entidade deveria ser dirigido.
Mas o democratismo foi mais além, e optou-se por uma rotatividade na coordenação do comando, e este passou a se considerar uma entidade, naturalmente bancada pelos recursos do sindicato. Alheio às questões legais, embora em acordo com o sindicato, optou-se por criar um fundo de greve (algo que deveria ser feito em assembleia, e com percentuais pagos também por não filiados), e a partir daí o que se tem aprovado para investimento com esses recursos, inclusive informativos, segue uma tendência ideológica que não tem representação e aceitação majoritária no âmbito da comunidade universitária. Uma estratégia recorrente em todas as greves, diante do silêncio e passividade da maioria dos professores que possuem visões diferentes tanto da realidade política brasileira, quanto do modelo de universidade que se propõe construir a partir dessas mobilizações.
Foge-se, assim, das duas questões centrais, dos elementos essenciais que motivaram essa paralisação, conforme abordado na primeira parte deste artigo. E, como a participação nessas reuniões terminam por restringir-se a um pequeno número de professores, os mais engajados politicamente, obviamente que os encaminhamentos dados refletem a posição majoritária, quase sempre exclusivista, que abomina o pluralismo e acredita que tudo se decide no voto da maioria presente. Mesmo que essa maioria seja efêmera e não representativa do que pensa o conjunto dos professores e professoras.
O ápice disso foi a decisão do comando de rebelar-se contra a decisão da diretoria da Adufg-Sindicato, que, acertadamente, optou por cancelar uma assembleia marcada para esta semana, por não haver nenhum elemento novo nas negociações que a justificasse. Naturalmente, é necessário haver uma nova proposta do governo, para que a mesma possa passar pelo crivo da categoria. Sem isso, uma assembleia ficaria presa à polarização entre os que querem continuar a greve, e os que desejam o retorno às atividades. Mas, há os que se extasiam com esse excesso de assembleísmo, e por essa razão chamaram uma reunião, em paralelo, certamente para poder aprovar extensas pautas reivindicatórias, e, assim, fazer valer o objetivo de manter a greve indefinidamente, para além da discussão em torno de uma possível nova proposta a ser apresentada, que nem de longe atenderia os devaneios de quem confunde alhos com bugalhos.
Não entro no mérito das propostas, porque tenho concordância com boa parte delas. Só não vejo coerência, nem considero correto instrumentalizar a greve, extrapolando uma pauta específica, principal motivação da categoria para a definição de qual momento deve-se encerrar a paralisação. As demais questões podem, e devem, ser discutidas permanentemente no cotidiano das atividades na Universidade e no âmbito de um congresso universitário, que deve, contudo, ser convocado e organizado institucionalmente, envolvendo governo, todas as universidades e as entidades que representam os três segmentos, professores, estudantes e servidores técnicos administrativos.  Devemos discutir uma reforma universitária abrangente, que possa modificar o atual modelo de universidade, ou crie outros modelos, adaptados a uma nova realidade vivida pelo país, que requer uma excelência em termos de ampliação da pesquisa, de avanços na ciência, tecnologia e inovação. E, principalmente, corrigir as distorções que transformaram a graduação na parte manca do tripé: ensino, pesquisa e extensão.
Assembléia Universitária reuniu mais
de 2000 pessoas, entre professores,
servidores e estudantes.
Não estou propondo, portanto, silenciar as discussões sobre os vários problemas que nos afetam. Só considero inadequado vinculá-los nesse momento à nossa pauta de reivindicação, pois isso tornaria a greve infinita, na medida em que não há nenhum movimento por parte do MEC no sentido de fazer essa discussão. E, do ponto de vista estratégico, é um erro dar tamanha ampliação a um movimento deflagrado com uma pauta específica centrada em dois pontos: salários e repasse de verbas para a universidade.
Por outro lado, e por fim, é desanimador verificar um movimento que tem por objetivo encerrar a greve sem que tenhamos respostas concretas sobre a negociação em curso. A ponto de, na última semana, termos observado manifestação de satisfação de alguns colegas com o fim da greve na UFRJ. Ora, a uma semana da definição do governo, sob pressão, sobre qual percentual será definido na mesa de negociação, encerrar a greve na maior universidade pública brasileira, naturalmente enfraquece o movimento e faz o governo refluir num eminente recuo de sua proposta. Foi com grande decepção que tomei conhecimento da decisão da assembleia dos professores naquela universidade, mas pior ainda foi ver movimentações entre nós, na UFG, para que o mesmo pudesse acontecer por aqui.
Como disse, e por isso escrevi esse artigo, não defendo uma greve por tempo ilimitado. Contudo é absolutamente incorreto, e joga contra um eventual sucesso da própria categoria, procurar encontrar pretexto para encerrarmos esse movimento antes da definição quanto ao percentual que sairá da, ou das, mesas de negociações (com o MEC e o MPOG). É evidente que isso joga a favor do governo, que terá informações da fragilidade do movimento e não fará nenhum esforço em alterar sua proposta inicial.
Prof. Orlando Amaral, reitor da UFG
expõe as dificuldades com os cortes
no orçamento.
Há, e acredito que em alguns de forma honesta, uma preocupação sobre as consequências de tal paralisação sobre o futuro de nossa universidade. Penso, contudo, que mais prejudicial que essa paralização é o a absurdo corte que deixará a universidade com o orçamento anterior ao Reuni, em uma instituição que cresceu de forma espetacular e nos colocou entre as maiores universidades brasileiras, além do desanimo que nos acometerá com o arrocho salarial que será inevitável nos próximos anos. É evidente que a greve causa transtornos, e, dependendo do tempo empurrará o final do semestre para dezembro ou janeiro. Mas, diferente da maioria, a UFG finalizou o seu primeiro semestre e isso amenizará mais os prejuízos, já que não precisaremos de nenhum recesso para ajeitar calendário, nem será preciso suspender o semestre letivo.
Por isso, é salutar e estrategicamente importante, mantermos o movimento coeso, centrado nessas duas reivindicações, até que sejam encerradas as negociações, que provavelmente ocorrerá até 31 de agosto. Feito isso, podemos aí, em Assembleia, ou/e por meio de consulta eletrônica (já que é um instrumento estatutário de nosso sindicato), a fim de ampliar a participação dos docentes, dizer se aceitamos ou não a proposta final, e, em seguida, decidirmos pelo fim, ou não, do movimento grevista.
Nos dois casos, em extremos diferentes, podemos usar um usual ditado popular, muito antigo e citado até hoje: “prudência, e caldo de galinha, não faz mal a ninguém”.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A PATRIA EDUCADORA, A CRISE E A UNIVERSIDADE

A Pátria educadora está em crise. Inegável. Por um lado superdimensionada pela mídia, que há cerca de um ano repete incessantemente informações negativas, mesmo quando em algum momento existam notícias positivas. De outro lado, contudo, uma verdadeira carreta descontrolada desce ladeira abaixo, sem freio, atropelando indiferente aquele que a negue. Me desculpem a ironia (ou a heresia) no uso de uma paráfrase a partir de um trecho da música de Chico Buarque e Pablo Milanez.[1] Seria cômico, se não fosse trágico. Neste caso, da crise política, apimentada pela interminável investigação da Operação Lava Jato, que tende a piorar quando começar a prisão de alguns políticos.

Quando falo dimensionada, me refiro, primeiro, ao fato de que existe uma crise econômica, sistêmica, e de uma situação de absoluto descontrole fiscal, decorrente de descompasso entre arrecadação e gastos do estado brasileiro. Um problema de governança das suas finanças. Contudo, estamos longe da situação econômica, que levou o país praticamente à bancarrota, “salvo” mediante uma intervenção do Fundo Monetário Internacional, após três empréstimos para cobrir os rombos de um Estado praticamente falido, com um endividamento externo enorme e que cresceu na medida em que se tornou necessário recorrer aos empréstimos do FMI. Falido, sem fundos de reserva, passamos a ser geridos pelas políticas impositivas neoliberais. Para saldar partes desses empréstimos o país entrou numa onda de privatizações, acompanhadas de muitos enriquecimentos ilícitos daqueles que estiveram por trás desse processo.

Estamos bem longe disso. Embora, como dantes, a corrupção tenha se mantido, crônica e sistêmica, seguindo-se o pecado original colonial. Mas o país possui em um endividamento interno que corresponde a pouco mais de 60% do PIB, enquanto alguns países europeus já ultrapassaram os 100%, com alguns chegando a 130%. As reservas internacionais brasileiras em dólares passam da casa das três centenas de bilhões,[2] marca ultrapassada neste mês de agosto, em meio à “intensa crise”. O Brasil é o quarto maior credor da dívida pública estadunidense, só superado por China, Japão e Bélgica. A soma de dólares que o Brasil tem aplicado em títulos da dívida daquele país ultrapassa os 200 bilhões de dólares.

Mas não vou me estender na citação de dados sobre como há um descompasso entre o que se diz da “crise”, e o que há de fato. Claro que não desconsidero uma realidade de uma crise sistêmica internacional, que empurra todos os países ao endividamento e coloca o crescimento de seus PIBs ao nível de zero, quando muito chegando a 1%. Já nem vale mais citar Espanha, Portugal, Itália e a Grécia. Esses agora estão, segundo a mídia, na lista dos que estão se “recuperando”. Pura falácia. Estão em uma nova etapa da crise, submetidos a remédios dolorosos impostos pela “troika” europeia, baseado em arrocho fiscal, salarial e cortes em benefícios sociais.

Essa introdução, no entanto, se torna importante, principalmente depois de termos realizado uma assembleia de professores da UFG, uma das mais representativas dos últimos anos. Reafirmamos por uma maioria visível, sem a necessidade de contagem dos votos, a necessidade de mantermos uma greve, recém-iniciada. Contudo, uma sucessão de intervenções de professores que se opunham ao movimento grevista, claro em seus direitos de se manifestarem assim, tinham como foco a crise do governo federal, e o argumento de que não é possível entrar em um movimento grevista em um momento de enorme fragilidade do governo federal.

Não nego, em absoluto, a difícil situação em que vive o governo federal, acossado por um tresloucado direitista que está no comando da Câmara dos Deputados e um séquito de oportunistas, uma oposição que não aceita o resultado das urnas e pretende, pelo golpe institucional, como ocorrido em Honduras e no Paraguai, e tentado na Venezuela e Bolívia, tomar o poder. E por uma mídia que há muito se tornou a principal organização que antagoniza o governo federal, assumido publicamente pela própria presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), ainda no ano de 2010.[3] Foi uma senha para que praticamente todos os grandes veículos de comunicação do país passasse a sistematicamente fustigar o governo federal.

Discordo quando, no entanto, essa situação seja apresentada como um empecilho para travarmos uma luta e termos perspectiva de mudar uma proposta, absolutamente inaceitável, apresentada pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, diante de uma inflação que só neste ano irá corroer mais do que ele pretende nos oferecer para o próximo ano. Evidentemente que há contradições em nossa carreira. O degrau do Adjunto IV pra Associado I, gerou uma enorme disparidade, uma diferença que supera a de Associado IV para Titular. Com isso, deixa em uma zona de conforto quem está em vias de passar para Associado, ou quem porventura acabou de deixar de ser Adjunto IV. Isso, por si só, independente do percentual de reajuste proposto, cria uma diferença que se reflete no ânimo de uma parte dos professores. Além daqueles que, naturalmente e democraticamente, divergem da necessidade de haver greve na universidade como forma de pressão. Esses, consideram inócuos esses movimentos.

Aqui eu quero pontuar algumas divergências em relação à essa interpretação. Mas devo primeiro dizer porque fui contra a greve em 2012 e porque a defendo neste momento. Ao contrário dos argumentos utilizados para tentar nos convencer da inutilidade de entrarmos em greve, utilizando uma análise que tenta enxergar na fragilidade do governo a dificuldade de um possível entendimento que melhore a proposta salarial que nos é oferecida, penso que é exatamente numa situação de um governo fraco politicamente que se faz necessário nos unirmos, lutarmos e, no momento adequado, que julgo ser este, radicalizarmos em uma greve. Outras categorias estão fazendo isso, os setores conservadores também pressionam o governo e tentam anular suas ações. Ou mostramos nossa força, ou seremos esquecidos.

Diferente da situação de 2012, quando havia disposição do governo para o diálogo, e estávamos em meio a uma negociação que caminhava para nos ser favorável. Como de fato o foi. Muito embora eu não negue que a greve naquele momento terminou por favorecer as negociações. Mas as condições eram outras, e exatamente por isso vivemos uma situação oposta nos dias de hoje, pelo fato de termos, ao contrário de outras categorias, obtido um acordo bem mais favorável do que aquele que lhes foi concedido, e nessa lista incluem os nossos valorosos colegas servidores técnicos administrativos. Ocorre que nuvem sombrias pairam sobre nossas cabeças, e os próximos anos serão muito difíceis, pelo arrocho proposto pelo governo e o descontrole inflacionário que ameaça aquela recomposição. Portanto, devemos ir até onde pudermos, a fim de pressionarmos por um aumento nesses índices percentuais propostos.

Também não desejo, nem devemos, negar os avanços que houve nos últimos doze anos, com investimentos na educação bem superiores às décadas anteriores. É visível, aos que estão há mais tempo na universidade, as melhorias que foram obtidas, principalmente a partir do REUNI. Os problemas da expansão, e da preocupação quantitativista em detrimento do qualitativo é outra discussão que devemos fazer, mas, creio, em outro momento.
Mas, também, ao contrário do que alguns daqueles que defendem a greve disseram, deve haver, sim, um limite para o nosso movimento. Nossa greve não pode ser aeternum. E ela pode sim, ter um momento determinado para o seu final. E isso não significa ter data marcada, mas, simplesmente porque ela se esgotará na medida em que for fechada a mesa de negociação e, principalmente, acabar o prazo para o governo encaminhar para o Congresso a Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Alguém poderá argumentar que aí nossa pressão será sobre o Congresso Nacional. Mas essa seria uma proposta estapafúrdia. Como nos manter em uma greve em que o governo fecha as negociações e passamos a depender de um Congresso entregue à disputa visceral com o Palácio do Planalto? Podemos fazer isso sem que haja greve, e, pelo próprio resultado do que aconteceu com os servidores do judiciário, sua aprovação não significará a aceitação por parte da presidenta, e o veto será inevitável. Por isso, acredito que há um limite para o nosso movimento, e ele se esgotará quando não mais for possível haver espaços para negociação.

E não é nenhum demérito dizer isso. O que fazemos com a greve é pressão, e não motivos para desgastar o governo. O desgaste é consequência dessa e de outras paralizações e da própria crise na qual o governo se meteu. Cabe a ele, diante do quadro político vigente, avaliar se terá forças para suportar uma greve de professores que tende a se ampliar até o final de agosto. A longa duração do movimento, sem perspectivas, fará com que esse desgaste caia sobre nós.

O que não podíamos era ficar de braços cruzados diante de uma realidade que se tornará dolorosa para a maioria de nós a partir do próximo ano. Se é que de certa medida já não está nos afetando e diminuindo nosso poder de compra. Principalmente àqueles professores que se encontram em início de carreira, como adjuntos, e os professores aposentados. A existência de uma cláusula no acordo, como proposto pelo governo, não é condição de repor nossas perdas, é atirar a esmo.

Por isso a greve se fazia necessária. Não podemos aceitar de braços cruzados uma proposta que sequer repõe as perdas geradas pela inflação, isso vai significar achatamento salarial e jogará por terra tudo que conquistamos em 2012.

Quanto ao fato de gerarmos, com isso, um desgaste enorme para a universidade e um prejuízo aos estudantes, eu precisaria de um espaço semelhante ao que já escrevi até aqui. Minha visão de universidade eu já expus em dois outros artigos aqui em meu blog. Na verdade a maioria dos professores se entregam a uma normalidade dentro de um ambiente que desconsidera os problemas mais gerais, e alguns procuram fugir deles. Não tenho certeza de que a greve ajude a discutir isso, penso até que não. Mas não vai ser a paralisação que trará prejuízos à universidade. Eles já existem nas concepções de universidade e na opção individual em uma competição imposta pelos critérios que valorizam mais a pós-graduação.

O nosso movimento, ao meu ver, não tem por objetivo rediscutir a universidade, nem mesmo forçar um desgaste do governo. Eu, particularmente, estarei em qualquer barricada que seja erguida para defender a normalidade democrática e contra as tentativas de golpes. Mas temos que mostrar nossa insatisfação ao governo com sua proposta risível de reajuste que nos é oferecido, e tentar forçar que nas mesas de negociações esse percentual seja aumentado. O que desejamos ainda é mostrar ao governo que um slogan não pode ser apenas um instrumento de marketing. Se esse país pretende ser, de fato, uma pátria educadora, não pode menosprezar a importância que nós professores temos nesse processo. Lutamos por nossa dignidade.




NOTAS:
[1] Canción por la unidad de Latino America.
[2] https://www.bcb.gov.br/?RP20150804