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domingo, 19 de maio de 2024

BREVE COMENTÁRIO SOBRE A PROPOSTA AO MOVIMENTO DOCENTE - DITA FINAL PELO GOVERNO - PARA OS REAJUSTES SALARIAIS

Mais uma vez direciono meus comentários para os colegas professores e professoras da Universidade Federal de Goiás.

Já publiquei outros artigos aqui no meu Blog, que vocês podem acessá-los, se ainda não o fizeram, que complementam este que escrevo aqui agora, com o intuito de analisar a proposta feito pelo governo para o escalonamento de nosso reajuste, e algumas mudanças em nossa carreira docente.

Inicialmente, uma pergunta básica? Quem tem medo da democracia? Digo isso porque é impressionante a quantidade de ataques de “haters”, ofensas, palavras injuriosas e tentativas de desqualificar o nosso sindicato Adufg, bem como o Proifes-Federação. Temos anotado e copiado essas atitudes bizarras de colegas, e pessoas em geral, visto que não conseguimos identificar algumas delas, porque não se restringem a quem é da UFG. Depois que baixar a temperatura, causada pela greve, iremos ver quais providencias adotaremos, dentro daquilo que a lei nos permite.

Mas em relação ao questionamento que faço, a resposta é simples. Quem tem medo da democracia é quem não consegue conviver com o contraditório, com outras ideias e propostas que não são necessariamente as suas. A forma de se contrapor a uma opinião, para quem não consegue conviver com o debate acadêmico, ou mesmo político, é mediante o uso da agressividade, do ódio, e da intempestividade em impedir que tal proposta, ou ideia, tenha prosseguimento. No computo geral, da avaliação política, chamamos isso de “fascismo”, a tentativa de calar, pela forçar quem tenha outros argumentos que contrarie determinada pessoa propensa à intolerância, autoritária e avessa à democracia. 

Dito isso, vamos ao que importa, porque o que queremos é discutir o que está posto na mesa de negociação para resolver o impasse do nosso reajuste salarial, dentre outras coisas: A proposta apresentada pelo Governo, pela terceira vez, e após reuniões e sugestões de algumas entidades.

Primeiro é necessário ter a percepção, e a compreensão política, de alguns elementos que servem como balizamento para entendermos as dificuldades impostas por conjuntura política complexa e a própria, e imperativa, postura do governo, em não apresentar nenhum percentual para nossa categoria, neste ano de 2024. Tudo isso foi agravado com a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, com forte impacto econômico não somente naquele estado, mas no Produto Interno Bruto do próprio país. Dada a relevância econômica que ele possui, tanto em termos industriais, como principalmente na agricultura e na pecuária (agroindústria).

Se já havia um forte compromisso do governo com o dito “arcabouço fiscal”, e a obsessão pelo “déficit zero” (não dá pra comentar essas questões aqui), com os últimos resultados econômicos, aliados a essa catástrofe climática (que não pode ser atribuída à natureza, mas também não cabe aqui a análise socioambiental desse desastre), nos permite ter a convicção que não haverá acréscimo por parte do governo à proposta já apresentada, no que nos foi informado que esta seria a última, e será levada no dia 27 para o acerto, ou acordo, final.

Podemos apostar, insistindo em uma proposta de índices mais elevados. Claro que isso é o desejo de qualquer docente (não estou analisando a paralisação dos TAEs, mas tão somente dos docentes). Mas podemos ficar, como no dito popular, segurando na brocha, e os negociadores do governo a retirar a escada de nossos pés, nos deixando pendurados. Assim, poderíamos chegar a um impasse e ao fechamento dessa mesa de negociação, que só poderia ser aberta novamente às vésperas do que o governo considera nossa data base, o mês de maio de 2025. Ou seja, perderíamos também o reajuste proposto para 1º de janeiro de 2025. É pagar para ver.

Mas não somos irresponsáveis. Fazemos parte de um Sindicato e de uma Federação, que há muitos anos vem priorizando as negociações, entendendo que essa forma de se chegar a um acordo pressupõe que as duas partes vão gradativamente abrindo mão de suas propostas iniciais, até chegar a um possível trato final, em que cada um vai cedendo um pouco.

O que está colocado agora na mesa de negociação, para ser fechada no dia 27, não é o que queríamos inicialmente. Mas também não é a proposta inicial do governo. Este manteve o ano de 2024 sem reajuste (concedendo somente aumento nos benefícios), mas trouxe na segunda proposta uma antecipação da validade do reajuste, de maio para janeiro de 2025, acrescendo o percentual inicial de 4,5 para 9,0%. Reduziu de 4,5 para 3,5% em maio de 2026, mas isso não tem muito impacto na somatória, devido a antecipação da validade do reajuste para janeiro de 2025, quatro meses antes da proposta original (maio de 2025). 

No prosseguimento das negociações os representantes do governo aceitaram elevar os valores para as classes de entrada (o que vai beneficiar também os professores substitutos), além do aumento de 4,0% para 4,5 e 5,0%, respectivamente nos anos de 2025 e 2026, nos nossos “steps”, ou o aumento que temos automaticamente em nossos salários (preenchendo-se os requisitos, naturalmente) entre cada degrau de nossa carreira. O que impacta também na somatória final no comparativo entre como estávamos no começo deste governo, até o último ano dessa gestão (2026).

Síntese das propostas do Governo Federal, entre 2023 e 2026
Fonte: GOV.BR (2023, 2024, 2024b)
Extraído do artigo do Prof. Tadeu Arrais (ver em www.adufg.org.br)

Defendemos a aceitação dessa proposta, para evitar ficarmos sem nada e sermos forçados a negociar mais uma vez no começo do próximo ano. E não somos irresponsáveis de imaginar que um movimento grevista, aprovado somente com 5 votos de diferença, possa ter fôlego em permanecer por mais tempo. Até porque não usamos da greve como um instrumento político para confrontar governo, nem muito menos para termos algum tipo de protagonismo político. Nosso objetivo é garantir que, em meio a negociações tensas, mas que não tínhamos desde o governo Dilma, possamos chegar a um acordo que nos permita diminuir boa parte de nossas perdas salariais. Para que, em um novo governo, e já na elaboração do orçamento para 2027, possamos garantir outros reajustes, quando podemos zerar essas perdas e avançarmos para termos aumentos reais. A depender do caráter desse governo, a ser eleito. 

Até lá, deverão permanecer abertas as mesas setoriais, e a luta por recomposição orçamentária nas universidades e melhoria de trabalho, tanto para docentes como para técnicos administrativos, que travam sua luta em paralelo. Da mesma forma, uma universidade bem servida de dotação orçamentária, e de gestão democrática, nos possibilita discutir sobre onde internamente devemos investir mais. Nesse ponto, a participação estudantil é fundamental, dado a suas reivindicações serem pertinentes na defesa de melhoria das condições para que possam estudar e permanecer em uma universidade que possibilite os retornos necessários para uma formação completa, em todos os sentidos.

A luta continua, e é permanente.

(*) Acesse também o canal @ROMUCAPESSOA no YouTube: 

https://youtu.be/uYExj8BfISI

quarta-feira, 1 de maio de 2024

DOCENTES DA UFG EM GREVE POR TEMPO INDETERMINADO

Quero me dirigir por meio deste artigo em meu Blog Gramática do Mundo, especialmente aos docentes da UFG, professoras e professores, tanto aos que participaram do plebiscito que definiu pela greve por tempo indeterminado, quanto aos que não participaram por alguma razão.

Após comunicado que será feito à reitoria, obedecendo os trâmites jurícos que são exigidos, a data marcada para o início da greve é dia 07 de maio.

Temos na UFG 2.124 docentes em atividade. Destes 1.575 são filiados ao Adufg-Sindicato, além de 800 aposentados. O resultado do plebiscito indica a ausência de 873 colegas que não opinaram sobre a greve. Trocando em miúdos o percentual dos que votaram a favor da greve é 29,47%.

Mas, do ponto de vista legal, estatutário e democraticamente legítimo, o que importa é o quantitativo de 50%+1, dos votantes, que definiu o resultado do plebiscito, além de considerarmos uma participação significativa para os padrões do movimento em nível nacional. É nisso que pelo aspecto legal temos que nos mirar e focar a luta. Muito embora essa matemática do número de votantes seja importante, porque nos indica a necessidade de dialogarmos ainda com colegas que não votaram, porque, naturalmente, devem obedecer à decisão democrática, não importando o resultado, diferença ou não votantes. Além de também nos indicar o caminho pelo qual devemos seguir, estrategicamente, na condução do movimento, atentando para algumas diferenças em relação ao modelo de organização que tínhamos anteriormente.

Agora o ADUFG é um Sindicato, com abrangência para todo o Estado de Goiás, incluindo aí além da Universidade Federal de Goiás, a Universidade Federal de Jataí e a Universidade Federal de Catalão, que pelo que rege nosso estatuto têm a autonomia para decidirem se entram, ou não em greve. No caso do plebiscito ao qual me refiro e aos encaminhamentos que devemos fazer, diz respeito à UFG.

Mas o que nos diferencia hoje, da forma como lidamos com greves no passado? Exatamente o fato de sermos um Sindicato local, e, portanto, não estamos vinculados a um “sindicato nacional”. Até porque, nossa vinculação estatutária é ao PROIFES- Federação. E isso diz muito sobre a forma como será conduzido o nosso movimento grevista. Para além do que esperneia setores de oposição, o que faz parte da democracia.

Mas a diretoria do Adufg-Sindicato não irá abrir mão da condução da greve, e muito menos da definição quanto às formas de encaminhamentos das questões diretamente ligadas ao movimento. Afinal, foi para isso que fomos eleitos, e estamos atentos e refratários a qualquer tentativa golpista de usurpar nossos comandos. Seguiremos conduzindo as ações de conformidade com nossa prática política, aprovada pela maioria dos sindicalizados, professoras e professores, que elegeram nossa diretoria. 

Outro fator nos diferencia de momentos passados. Estamos hoje vinculados a uma Federação, o Proifes, e não mais ao Andes, pelo simples fato que somos tão sindicato quanto aquele que se diz “nacional” embora não seja. Portanto, pela própria organização nossa, não teremos “Comando de Greve Local”, visto que as ações aqui na UFG serão organizadas e dirigidas pela diretoria do Adufg-Sindicato. Da mesma forma, não enviaremos representante a nenhum “Comando Nacional de Greve”, visto que a forma de organização da Federação é diferenciada. Mas teremos, sim, por indicação da diretoria, representação nossa em Brasília, além dos diretores da Adufg que já fazem parte do Conselho de Representantes, outras pessoas que possam contribuir nos encaminhamentos necessários junto ao PROIFES e aos demais sindicatos que fazem parte da Federação, alguns dos quais em universidades que também definiram por entrar em greve.

É importante salientar que não paramos as negociações. Por meio do Proifes-Federação foi encaminhado na terça-feira (31/04), um ofício ao Ministério de Gestão (MGI), uma nova proposta, que avança em relação ao que o governo apresentou, com indicação de um percentual de reajuste em 2024, e modificação também para os anos seguintes. Isso pode ser verificado por meio do site do Proifes Federação, acessando link: https://proifes.org.br/proifes-entrega-ao-governo-nova-contraproposta-de-reajuste-e-reestruturacao-de-carreira-do-magisterio-superior-e-ebtt/.

Assim, refirmamos nossa prática democrática de negociar, e garantiremos nossa paralização, conforme decisão da categoria por meio da maioria dos votantes no plebiscito, e seguiremos firmes na luta, de conformidade com o que nos foi delegado pelo conjunto das professoras e professores da UFG, entre os que estão em atividades e os que já se aposentaram, e que mantém suas filiações ao Adufg-Sindicato. Tão logo recebamos resposta do governo, por meio da mesa de negociação, chamaremos imediatamente a Assembleia Geral, para definir sobre a aceitação ou não da proposta, e, naturalmente, continuidade ou não da greve.

A LUTA CONTINUA!!


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A GREVE NA UFG... E O ANDAR DA CARRUAGEM!

No final do mês de junho, ao participar da primeira assembleia convocada pela Adufg para discutir as propostas apresentadas pelo governo, em relação ao nosso reajuste salarial, e diante de uma política já em curso, de cortes de verbas, me posicionei sem vacilação pela necessidade de construirmos uma forma de pressão em um momento importante, estratégico, de negociações com o Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). Sem nenhuma outra perspectiva de mobilização, que não fosse a greve, imaginava ser esse o melhor mecanismo de pressão, que pudesse fazer com que os nossos negociadores tivessem um poder maior na mesa de negociação. Embora desgastado, este governo, nem qualquer outro, se sente confortável diante de um movimento paredista de professores universitários.
Naquele momento indicamos a greve para o começo de julho, garantindo a finalização do semestre e evitando maiores prejuízos, principalmente para os estudantes. E assim aconteceu. Numa assembleia bastante representativa, uma das maiores da história da UFG, conseguimos aprovar por ampla maioria a permanência na greve, somando o nosso movimento ao de dezenas de outras universidades ou campis.
Três semanas depois que análise é possível fazer desse processo? Certamente não tenho a pretensão de obter unanimidade na opinião daqueles que lerem este artigo. Até porque serei bastante crítico com determinados comportamentos que impregna em nossas relações. Uma espécie de esquerdismo, doença infantil que não perdoa nem professores universitários. Parafraseando Lênin.
Para mim, objetivamente, nosso movimento teria como foco duas reivindicações básicas: um percentual adequado de reajuste salarial e a garantia de fim do contingenciamento dos recursos destinados às universidades. Só isso já seria suficiente para travarmos uma batalha com o governo federal, diante de uma situação política extremamente delicada e com um rombo nas contas públicas, que gerou a necessidade de um ajuste fiscal fortemente recessivo. E, diante de algo bastante grave, compreensível para quem está acompanhando a situação do mundo pós-2008: uma grave crise econômica, sistêmica, que se espalha pelo mundo, e agora atinge a China, até então praticamente imune aos solavancos do sistema capitalista. Obviamente, este não é um quadro favorável a uma negociação de reajustes salariais para o serviço público, principalmente quando a receita para fazer o bolo vem acompanhada de fortes doses neoliberais, impondo rígidos cortes às despesas públicas.
O meu entendimento, como estudioso da realidade geopolítica mundial, e estando acompanhando ano a ano o desenrolar dessa crise, era que a necessidade de forçarmos um acordo melhor para o nosso reajuste, se deve exatamente à compreensão de que os anos que virão serão bem piores do que este, pelo menos em termos de flexibilidade do governo em nos conceder reajustes salariais. Ademais, é inadmissível aceitarmos de braços cruzados cortes tão profundos no orçamento de nossa universidade. Isso afetaria, e afetará, caso se concretize, nossa capacidade de desenvolvermos o melhor de nosso trabalho, sob todos os aspectos.
Não endosso o discurso de que estamos no caos, naturalmente, pois não estamos, e os últimos dez anos foram de melhorias nas estruturas das universidades e em nossas condições de trabalho. Até mesmo, embora alguns discordem, na melhoria em nossas carreiras. Contudo, os cortes feitos pelo governo federal, segundo exposição apresentada pelo reitor Orlando Amaral na Assembleia Universitária, nos deixariam com um montante de recursos semelhante ao que a universidade recebia antes da expansão levada a cabo pelo Reuni. Obviamente, nessas condições, senão um caos pelo menos uma situação de dificuldades fará com que nossas condições de trabalho retrocedam, trazendo péssimas lembranças de situações dos anos FHC, de absoluto abandono de nossas universidades. Isso não podemos aceitar, mesmo que o governo diga que é algo passageiro, decorrente dos desajustes fiscais.
Mas a crise não é passageira, ela é sistêmica, duradoura e global. A Educação, nessas e em quaisquer circunstâncias, assim como o investimento em ciência e tecnologia, não podem ser submetidos a cortes de recursos. Isso significará, certamente, conter os pequenos avanços que tivemos e perdermos a oportunidade de consolidar nossa condição de país emergente e apto a atingir o clube das cinco maiores economias do mundo. Mesmo considerando-se uma realidade de crise grave que afeta a economia mundial. Em pleno auge da crise, em 2009, o presidente dos EUA, Barack Obama, aumentou de 2,66 para 3% do PIB os investimentos nas áreas de Ciências e Tecnologia. Cortes nessas áreas são fatais, e representam um enorme retrocesso em qualquer processo de desenvolvimento.
O corte dos recursos, mais o pífio percentual de reajuste já seriam mais do que suficiente para não ficarmos parados. Isso em termos de decisão a tomar, naturalmente, porque o que fizemos fui justamente parar por completo a UFG. Mas, diante da realidade, que nos é dura e cruel em termos financeiros, ou seja, das dificuldades de caixa do governo brasileiro, as perspectivas não são as melhores possíveis. Tudo indica que a proposta alternativa a ser apresentada ao final na mesa de negociação não contemplará nossas expectativas e não deverá sequer chegar perto das perdas que teremos com a inflação deste ano.
Certamente poderemos repetir uma frase atribuída a diversos autores, desde Rui Barbosa a Bob Marley: “Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado”. Evidentemente que isso não é um consolo, mas não podemos viver uma normalidade de aparência, nos fecharmos em uma redoma e nos silenciarmos. Fingir que não existe uma crise que também nos afeta.
Contudo, há um outro lado dessa moeda. O fato de eu estar convencido que essas reivindicações e situações já demandam um esforço enorme para conseguirmos vitórias, diante dos elementos expostos até aqui, existem outras pessoas, colegas professores, que imaginam estar vivendo uma crise pré-revolucionária, e que a greve pode vir a ser um caminho para mudanças estruturais. Em função disso, e por acreditarem piamente nessa possibilidade, definem uma pauta de reivindicações que seria capaz de alterar por completo nosso modelo de universidade. Dessa forma, acrescentam como palavra de ordem a conduzir o movimento grevista, de que a nossa greve não tem data para acabar.
Isso é um suprassumo da irracionalidade. Não se elabora planos de mudanças estruturais para serem aprovadas em uma greve, cujo motivo para sua deflagração foi explicitamente focado em dois pontos de pautas bem definidos. Até porque, dentre os professores que aprovaram a entrada na greve, muitos, certamente, não concordam com as propostas de universidade que são expostas nas discussões de calorosos debates quase intermináveis, nas reuniões do comando local de greve.
Assembléia dos professores (Agosto),
 dirigida pela UFG. Uma das maiores já
realizadas na universidade.
Aliás, eis outro mecanismo anacrônico, persistido nessa greve, muito embora seja uma criação de uma estrutura sindical que não existe mais para nós da UFG. Desde que nos transformamos em sindicato, e o registro sindical já foi publicado no Diário Oficial da União, adquirimos autonomia e deixamos de ser uma seção sindical de um sindicato nacional. Os comandos de greves eram constituídos em outra realidade, e as representações locais eram deslocadas para Brasília onde, ali, o comando nacional era dirigido por diretores do sindicato nacional. Numa flexibilidade democrática, talvez excessiva, e anacrônica, a mesa da última assembleia optou por criar um comando, que seria composto por representante de todas as unidades, mais diretores do sindicato e por essa entidade deveria ser dirigido.
Mas o democratismo foi mais além, e optou-se por uma rotatividade na coordenação do comando, e este passou a se considerar uma entidade, naturalmente bancada pelos recursos do sindicato. Alheio às questões legais, embora em acordo com o sindicato, optou-se por criar um fundo de greve (algo que deveria ser feito em assembleia, e com percentuais pagos também por não filiados), e a partir daí o que se tem aprovado para investimento com esses recursos, inclusive informativos, segue uma tendência ideológica que não tem representação e aceitação majoritária no âmbito da comunidade universitária. Uma estratégia recorrente em todas as greves, diante do silêncio e passividade da maioria dos professores que possuem visões diferentes tanto da realidade política brasileira, quanto do modelo de universidade que se propõe construir a partir dessas mobilizações.
Foge-se, assim, das duas questões centrais, dos elementos essenciais que motivaram essa paralisação, conforme abordado na primeira parte deste artigo. E, como a participação nessas reuniões terminam por restringir-se a um pequeno número de professores, os mais engajados politicamente, obviamente que os encaminhamentos dados refletem a posição majoritária, quase sempre exclusivista, que abomina o pluralismo e acredita que tudo se decide no voto da maioria presente. Mesmo que essa maioria seja efêmera e não representativa do que pensa o conjunto dos professores e professoras.
O ápice disso foi a decisão do comando de rebelar-se contra a decisão da diretoria da Adufg-Sindicato, que, acertadamente, optou por cancelar uma assembleia marcada para esta semana, por não haver nenhum elemento novo nas negociações que a justificasse. Naturalmente, é necessário haver uma nova proposta do governo, para que a mesma possa passar pelo crivo da categoria. Sem isso, uma assembleia ficaria presa à polarização entre os que querem continuar a greve, e os que desejam o retorno às atividades. Mas, há os que se extasiam com esse excesso de assembleísmo, e por essa razão chamaram uma reunião, em paralelo, certamente para poder aprovar extensas pautas reivindicatórias, e, assim, fazer valer o objetivo de manter a greve indefinidamente, para além da discussão em torno de uma possível nova proposta a ser apresentada, que nem de longe atenderia os devaneios de quem confunde alhos com bugalhos.
Não entro no mérito das propostas, porque tenho concordância com boa parte delas. Só não vejo coerência, nem considero correto instrumentalizar a greve, extrapolando uma pauta específica, principal motivação da categoria para a definição de qual momento deve-se encerrar a paralisação. As demais questões podem, e devem, ser discutidas permanentemente no cotidiano das atividades na Universidade e no âmbito de um congresso universitário, que deve, contudo, ser convocado e organizado institucionalmente, envolvendo governo, todas as universidades e as entidades que representam os três segmentos, professores, estudantes e servidores técnicos administrativos.  Devemos discutir uma reforma universitária abrangente, que possa modificar o atual modelo de universidade, ou crie outros modelos, adaptados a uma nova realidade vivida pelo país, que requer uma excelência em termos de ampliação da pesquisa, de avanços na ciência, tecnologia e inovação. E, principalmente, corrigir as distorções que transformaram a graduação na parte manca do tripé: ensino, pesquisa e extensão.
Assembléia Universitária reuniu mais
de 2000 pessoas, entre professores,
servidores e estudantes.
Não estou propondo, portanto, silenciar as discussões sobre os vários problemas que nos afetam. Só considero inadequado vinculá-los nesse momento à nossa pauta de reivindicação, pois isso tornaria a greve infinita, na medida em que não há nenhum movimento por parte do MEC no sentido de fazer essa discussão. E, do ponto de vista estratégico, é um erro dar tamanha ampliação a um movimento deflagrado com uma pauta específica centrada em dois pontos: salários e repasse de verbas para a universidade.
Por outro lado, e por fim, é desanimador verificar um movimento que tem por objetivo encerrar a greve sem que tenhamos respostas concretas sobre a negociação em curso. A ponto de, na última semana, termos observado manifestação de satisfação de alguns colegas com o fim da greve na UFRJ. Ora, a uma semana da definição do governo, sob pressão, sobre qual percentual será definido na mesa de negociação, encerrar a greve na maior universidade pública brasileira, naturalmente enfraquece o movimento e faz o governo refluir num eminente recuo de sua proposta. Foi com grande decepção que tomei conhecimento da decisão da assembleia dos professores naquela universidade, mas pior ainda foi ver movimentações entre nós, na UFG, para que o mesmo pudesse acontecer por aqui.
Como disse, e por isso escrevi esse artigo, não defendo uma greve por tempo ilimitado. Contudo é absolutamente incorreto, e joga contra um eventual sucesso da própria categoria, procurar encontrar pretexto para encerrarmos esse movimento antes da definição quanto ao percentual que sairá da, ou das, mesas de negociações (com o MEC e o MPOG). É evidente que isso joga a favor do governo, que terá informações da fragilidade do movimento e não fará nenhum esforço em alterar sua proposta inicial.
Prof. Orlando Amaral, reitor da UFG
expõe as dificuldades com os cortes
no orçamento.
Há, e acredito que em alguns de forma honesta, uma preocupação sobre as consequências de tal paralisação sobre o futuro de nossa universidade. Penso, contudo, que mais prejudicial que essa paralização é o a absurdo corte que deixará a universidade com o orçamento anterior ao Reuni, em uma instituição que cresceu de forma espetacular e nos colocou entre as maiores universidades brasileiras, além do desanimo que nos acometerá com o arrocho salarial que será inevitável nos próximos anos. É evidente que a greve causa transtornos, e, dependendo do tempo empurrará o final do semestre para dezembro ou janeiro. Mas, diferente da maioria, a UFG finalizou o seu primeiro semestre e isso amenizará mais os prejuízos, já que não precisaremos de nenhum recesso para ajeitar calendário, nem será preciso suspender o semestre letivo.
Por isso, é salutar e estrategicamente importante, mantermos o movimento coeso, centrado nessas duas reivindicações, até que sejam encerradas as negociações, que provavelmente ocorrerá até 31 de agosto. Feito isso, podemos aí, em Assembleia, ou/e por meio de consulta eletrônica (já que é um instrumento estatutário de nosso sindicato), a fim de ampliar a participação dos docentes, dizer se aceitamos ou não a proposta final, e, em seguida, decidirmos pelo fim, ou não, do movimento grevista.
Nos dois casos, em extremos diferentes, podemos usar um usual ditado popular, muito antigo e citado até hoje: “prudência, e caldo de galinha, não faz mal a ninguém”.