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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – PARTE III – GIGANTE COM PÉS DE BARRO.

Recomposto o governo após a reeleição de Lula da Silva em 2006, e com um crescimento num ritmo vertiginoso, bem acima da média mundial, poderia se pensar que no segundo mandato haveria uma preocupação em sanar os problemas gerados por uma sangria apelidada de “mensalão”, que expôs a política e aumentou o descrédito com os que representam a população. Mas, apesar da reeleição, aparentemente tranquila do presidente, a eleição do parlamento continuou sendo um contraponto, com uma maioria conservadora, e repleta de representantes da burguesia, dos latifundiários, do setor financeiro. Seguramente esse quadro levou o governo a não propor ações concretas que pudessem barrar atitudes como as que tinham sido denunciadas e maculavam as instituições políticas brasileiras. Além do mais, havia um clamor progressista por mudanças estruturais em diversos setores, bem como uma necessidade de democratizar os meios de comunicação.
Nada disso foi feito. E o que se via era uma euforia com os índices positivos na economia, que, se por um lado retirava da miséria absoluta boa parte da população brasileira, por outro, ampliava a concentração de riqueza nas mãos de uma burguesia que entrava na onda da globalização e procedia a uma intensa fusão de grandes empresas. Os bancos, jamais ganharam tanto dinheiro com nas duas primeiras décadas do século XXI. Havia incoerências visíveis na maneira como se dava o desenvolvimento brasileiro, e perdia-se a oportunidade de se ampliar as conquistas, num ambiente que era favorável, malgrado a contradição criada com um parlamento conservador e um presidente progressista.
A descoberta do Pré-Sal, uma enorme reserva de petróleo em águas profundas surgiu como uma grande esperança. Diante da capacidade tecnológica da Petrobrás comemorava-se esse potencial e a certeza que o Brasil entraria no grupo dos maiores produtores de petróleo. Mas, e aí a dialética é implacável a identificar as contradições. O petróleo tem sido ao longo da história do capitalismo tal qual foi o ouro no período da exploração colonial. O território que se vê contemplado com essa enorme riqueza, passa também a correr o risco de ser objeto de cobiça dos países imperialistas, notadamente, e isso é absolutamente visível nos últimos tempos, os Estados Unidos. Praticamente toda a instabilidade do Oriente Médio, onde se concentra enormes reservas de petróleo, se deve à disputa desse produto que se constitui na principal fonte energética da civilização industrial a partir do começo do século XX. Mas não somente no Oriente Médio, como também em alguns países do Norte da África, bem como aqui bem perto de nós, na Venezuela.
Para comprovar isso, e não por mera coincidência, poucos meses depois do anúncio da existência dessa enorme reserva petrolífera em costas brasileiras, os EUA deslocaram para próximo do limite das águas territoriais do nosso país sua Quarta Frota, comando naval que tem por objetivo vigiar as águas do Caribe e do Atlântico. Como sempre, o argumento utilizado pelos governos estadunidenses tem sido o de combater o narcotráfico, pretexto que faz com que essa guerra seja uma espécie de “cavalo de Tróia”, para que seus estrategistas e espiões monitorem e tenham informações sobre a capacidade dos países em se desenvolver e vir a tornarem-se oponentes no controle da economia da América.
A partir daí a Petrobrás se tornou, mais do que já era, um alvo prioritário na espionagem estadunidense. Mas, um dos grandes erros dos governos Lula/Dilma foi a negligência em relação a essa questão. Era preciso fortalecer o Estado brasileiro com mecanismos de proteção sobre as ações de espionagens, seja com contraespionagens, seja por meio de fortalecimento dessa estrutura para se proteger das ações rapaces imperialistas.
Ora, um dos erros foi manter uma grande corporação estadunidense como responsável pela segurança da Petrobrás. Uma corporação fortemente envolvida com ações complexas na guerra contra o Iraque, que já fora comandada por ninguém menos do que Dick Cheney, vice-presidente dos EUA durante os governos de George W. Bush. No ano de 2008 a Halliburton esteve envolvida num incidente bastante suspeito no interior do estado do Rio de Janeiro. Um roubo de dados da Petrobrás, contidos em dois discos rígidos de computadores que estavam sendo transportados, juntamente com outros equipamentos, por essa empresa.[1] Poucos detalhes se souberam desse roubo de informações estratégicas, mas o episódio, pouco explorado pela imprensa brasileira, e sem muitos comentários do governo demonstra que já desde o começo as notícias sobre o pré-sal atraíam os interesses estrangeiros.[2] No entanto, não se reforçou a principal agência de espionagem brasileira, substituta do famigerado SNI. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) deveria ter sido colocada na posição de um forte protagonismo na investigação e defesa de questões relevantes para a segurança nacional. Mas o governo optou por investir na Polícia Federal, o que era necessário, mas abdicando de reforçar uma área de segurança num momento em que país se tornava alvo da cobiça internacional. Isso traria consequências nefastas, e seria um dos fatores a desequilibrar e desestabilizar o governo brasileiro mais adiante.
O governo Lula negligenciou um elemento essencial, o fortalecimento do Estado Nacional. Certamente contaminado pelos problemas gerados a partir de tempos sombrios comandados pelos militares, durante uma ditadura que nos trás terríveis lembranças, não compreendeu a necessidade de proteger o país da cobiça das grandes corporações que comandam os governos das principais potências. Como exemplo disso foi a nomeação para o Ministério da Defesa de um ex-ministro da Justiça no governo FHC, Nelson Jobim, e que foi mantido no cargo por Dilma Roussef após sua eleição, onde permaneceu por um ano. A nomeação de Celso Amorim, no entanto, apesar de sua postura mais progressista e com conhecida competência no trato das relações internacionais, o que naturalmente lhe qualifica como estrategista, não significou mudança necessária para fazer com que as Forças Armadas brasileiras adquirissem uma feição mais preocupada com a defesa nacional e que pudesse estar atenta aos movimentos visando desequilibrar o governo brasileiro, como já vinha ocorrendo em situações parecidas por diversos países que tem no petróleo uma forte riqueza. Vide as “revoluções coloridas” nos países da Eurásia, na Venezuela com as constantes tentativas de golpe de Estado para destituir Hugo Chávez, e, mesmo os rumos tomados com a chamada “primavera árabe”, identificada desde o início com tentativas de desestabilizar países importantes estrategicamente na rota internacional do petróleo e gás.
Nos problemas políticos internos faltou iniciativa e coragem para tratar de reformas que eram cruciais para que determinadas políticas de Estado fossem concluídas e que outras fossem tornadas leis, que pudessem manter com consistência mudanças estruturais necessárias para fortalecer o país e consolidar as ações contra as desigualdades sociais. A incapacidade política da presidenta eleita Dilma Roussef de lidar com um campo político absolutamente conservador, interesseiro e oportunista ficou evidente em seu governo. Mas para a sua eleição faltou ao governo Lula, mesmo que consideremos toda a complexidade da política brasileira, em suas nuances regionais, também capacidade de articulação que pudesse garantir uma maior representatividade progressista na eleição de 2010, formando uma composição parlamentar que pudesse garantir uma maioria adequada às necessárias reformas que não foram feitas: política, tributária e nos meios de comunicação, dentre outras. Os partidos de esquerda foram incapazes de, durante os anos do governo Lula, transmitir à população que as conquistas que estavam projetando o país internamente e internacionalmente, se deviam a decisões que confrontavam os poderes tradicionais. Aqui entra um aspecto elementar numa democracia: a luta ideológica.
Nitidamente a luta ideológica foi perdida pela esquerda, apesar da vitória nas eleições da sucessora de Lula da Silva. A política ampla, conforme a regra necessária para ter aprovadas matérias importantes no parlamento resvalou para os rincões do país que se fortaleciam economicamente devido às medidas do governo de forte aquecimento do mercado interno e valorização do salário mínimo. As concessões feitas a políticos conservadores, a conveniente aliança com partidos fisiológicos e a incapacidade de compreender que se devia levar a cabo a luta ideológica, terminou por manter o desequilíbrio no Congresso, fragilizando as forças progressistas dificultando a consolidação das políticas que estavam mudando a cara do país.
É preciso observar, como uma necessária compreensão do que aconteceu no país que culminou nas “jornadas de junho” em 2013, e na sequente desestabilização da política brasileira, o crescimento do movimento evangélico brasileiro, notadamente os de feição neopentecostal. Seguramente esse é um elemento a considerar que comprova a absoluta ausência de um necessário debate que criasse na população a compreensão sobre as razões que transformaram suas vidas e que levaram a uma grande mobilidade social, tirando milhões da pobreza absoluta e transferindo centenas de milhares de famílias da classe C para a B, criando o chamado grupo dos “emergentes”. A obsessão pelo consumo crescente, a propaganda das maravilhas tecnológicas ao fácil alcance, a possibilidade de acesso ao ensino superior, e aquisição da casa própria, todas essas conquistas foram adequadamente capturadas por segmentos religiosos, e vistas como consequência da fé. Ao mesmo tempo, e beneficiado por esse discurso, se ampliou consideravelmente a bancada evangélica, fortalecendo uma visão conservadora que contribuiu para o enfraquecimento da presidenta num momento crucial da disputa política. A disputa ideológica foi travada com furor por esse setor.
Mas esse aspecto da luta ideológica não se resume à captura pela religião, dos elementos da ação política. Faltou também a necessária proteção, aos que participam dessa luta e concebem  com clareza as disputas que existem, consolidando por meio do fortalecimento da organização popular mecanismos que protegesse o governo quando se tornasse necessário. Para isso, era preciso jamais se afastar da velha concepção histórica inserida nos estudos sociológicos por Marx e Engels, da existência de uma luta de classes renhida nas sociedades que se constituíram desde a antiguidade pelos diversos modos de produção que vigoraram desde há dois milênios.
A ideia do fim da luta de classes foi inserida no imaginário político pós-globalização, com a destruição dos regimes existentes em diversos países, liderados pela União Soviética, que enfraqueceu o socialismo. Juntamente com a teoria do fim da história, rapidamente desmoralizada pela intensificação dos conflitos após o ataque ao World Center, em 11 de setembro de 2001, a crença no fim da luta de classes tomou corpo e não foi devidamente rebatida pela esquerda que assumiu o poder e o comando dos governos de países importantes, como o Brasil.
Mas isso não foi regra, e principalmente diversos países latino-americanos, como Venezuela, Bolívia e Equador, conseguiram criar condições para demonstrar a necessidade da organização popular diante de uma luta de classes que permanecia, e, evidentemente, permanece enquanto houver desigualdades sociais aos níveis do que existem atualmente no mundo. Principalmente num mundo de crescente centralização de poder nas mãos de poucas corporações financeiras e industriais, e de controle da riqueza por poucos grupos familiares que se perpetua por meio de heranças. Esse aspecto, da fragilização ideológica e da negligência diante da luta de classes, seria também mais um elemento a jogar por terra todo o esforço feito para consolidar uma política focada na melhoria das condições da população mais pobre. E permitiu que essas pessoas, num momento de crise do governo que lhes garantiu importantes conquistas, lhes dessem as costas, e sucumbisse ao discurso reacionário que desconstruía todos os avanços inegavelmente transformadores da realidade brasileira por 12 anos.
Uma das ações fragilizadas pela negligência de considerar a necessidade de fortalecer segmentos da população que precisavam das políticas do Estado, e que permitiriam segurança na vida econômica e possibilitaria um reforço na defesa ideológica do governo, foi a Economia Solidária. Surgido no governo FHC e fortalecido no primeiro governo Lula, principalmente com a indicação do economista Paul Singer para a sua coordenação, terminou por ficar restrito às sombras, e não teve o destaque merecido, que garantia microcréditos a populações de baixa renda. Ao mesmo tempo faltou compreender a importância de investir no cooperativismo e no associativismo, como condição para garantir que houvesse um desenvolvimento com sustentabilidade para as camadas mais pobres por todo o interior brasileiro. Essa seria uma das condições de forjar um segmento fortemente convencido da necessidade de manter governos populares, além de não alimentar ilusões sobre as derrotas para as camadas baixas, caso governos liberais voltassem a assumir o poder.
A luta de classes, disfarçada da luta política, seria, então, o elemento fundamental que garantiu aos setores conservadores, por meio do poder da grande mídia, sequestrar os desejos de multidões que por vários meses ocuparam as ruas em enormes manifestações que demonstravam a insatisfação com diversas atitudes políticas, embora a maioria fosse de cunhos locais e regionais. As “jornadas de junho” representavam a guinada destruidora da política, da democracia, das esperanças, e desarticulou o governo da presidenta Dilma, indeciso sobre quais medidas a serem tomadas para fazer com que as vozes das ruas não afetassem a governabilidade. Mas a proposta mais lúcida da presidenta naquele momento foi combatida por alguns setores da esquerda, e solenemente ignorada por outros: a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para proceder a reformas essenciais na política e no Estado brasileiro.
Na base social de sustentação do governo, os sindicatos e as centrais de trabalhadores e trabalhadoras agiam por um lado corretamente, ao tentar por meio de negociações obter melhorias para as categorias. Por outro, se esfacelavam numa divisão pela hegemonia na condução das lutas e, em alguns casos, se caracterizavam como uma espécie de peleguismo oficial, ao não confrontar ideologicamente os interesses empresariais que vigoravam e prevaleciam nas decisões do parlamento e também em algumas medidas tomadas pelo próprio governo, embora com impactos reduzidos, mas que iam pouco a pouco retirando direitos trabalhistas. Nitidamente o governo dava com uma mão e tirava com outra, realizando reformas que não resolviam os problemas fiscais do Estado, mas afetavam os trabalhadores, principalmente nas questões de aposentadorias. Essa ambiguidade ajudaria a fragilizar a defesa da presidenta no momento de forte pressão no período posterior à eleição de 2014. Mas o pior estaria por vir.
O governo Dilma Roussef, que sucedeu Lula da Silva manteve políticas sociais importantes, que garantiram empoderamento de setores por muito tempo marginalizados na sociedade brasileira. No entanto, a crise que rondava o país e já estava disseminada por todo o mundo adentrou fortemente em nossa economia. Os investimentos feitos por programas que dependiam fortemente de recursos do Estado, na saúde, na educação, no combate à pobreza, na aquisição de casa própria, seriam fortemente impactados com a redução drástica da arrecadação, como consequência do desequilíbrio na balança comercial. A dependência do país em uma economia baseada na exportação de commodities (minérios, agronegócio) terminou por ser fatal na queda da economia, reduzindo a capacidade de arrecadação fiscal.
Na tentativa de garantir que o nível de emprego não seria afetado, o governo isentou uma série de produtos, de carros a máquinas de uso doméstico, focando em cadeias produtivas que eram fundamentais para isso. Ledo engano, imaginar que a burguesia industrial, principalmente com a crise batendo às portas, estaria preocupada com a situação dos trabalhadores. A consequência disso foi uma queda maior na redução da arrecadação, tornando praticamente impossível escapar da crise. Os gastos do governo, situados num patamar elevado, seriam drasticamente afetados pela queda nas receitas, agravando a crise fiscal, somente possível de ser solucionada mediante a adoção de medidas que aumentassem os impostos. A saída se apresentava por meio de um imposto que já vigorara antes, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Mas somente a perspectiva disso acontecer, gerou uma forte reação no setor empresarial e, agregado aos interesses externos, dos EUA, que desejavam desestabilizar o governo e impedir o retorno de Lula da Silva, levou a oposição a uma forte reação, impulsionada pela derrota nas eleições que garantiu a reeleição de Dilma Roussef. A CPMF age também como um elemento fiscalizador, e praticamente não permite que nenhum cidadão escape da receita federal e da sonegação, talvez o elemento principal no rombo das contas públicas por muito tempo. Os empresários, do campo e da cidade, já sabiam desde sempre quem deve pagar o pato. Isso se veria nos anos seguintes.
Na política e na economia a marolinha se transformaria num tsunami e o país passaria a conviver com um quadro político instável, que mudaria por completo a rota que estávamos seguindo. O Brasil entrava num caminho perigoso, mas que não se diferia do que acontecia no resto do mundo. Apesar da melhoria na vida dos brasileiros, das ações afirmativas, da redução da pobreza, do investimento na educação e na saúde, de política de governo focada no combate às desigualdades sociais, faltou consistência nos alicerces do país que se estava construindo. Os erros foram capitais nesse sentido. Nosso sonho se transformava em pesadelo.
A seguir, na última parte dessa análise, abordaremos as razões por trás do impeachment da presidenta Dilma, as denúncias de corrupção e o caos político que abalou nossas melhores esperanças.


NOTAS:
[1]Polícia Federal investiga furto de dados sigilosos da Petrobras - https://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/02/14/ult23u1166.jhtm
[2] Estrategista militar vê 4ª Frota como ameaça real ao pré-sal - http://www.contee.org.br/noticias/msoc/nmsoc387.asp
(*) LEIA TAMBÉM:
1 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA: A LUTA DE CLASSES REDIVIVA – PARTE I
2 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – PARTE II – NA SOMBRA DA LUA CHEIA.
3 - O MUNDO NÃO É PLANO. DESCONSTRUINDO A PÓS-MODERNIDADE
  https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2017/08/o-mundo-nao-e-plano-desconstruindo-pos.html

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – CAPITALISMO, UM SISTEMA FINITO (PRÓLOGO)

Em janeiro de 2012 escrevi uma série de artigos para este blog, que intitulei “Crônica de um Mundo em Transe”[i]. Foram seis artigos, ou cinco partes e um final. Mas não houve um fechamento definitivo, até porque a última parte, em que analisei uma nova etapa da guerra travada pelo Império, denominada “guerra ao terror”, com a substituição de tropas por um serviço de inteligência, espionagem, mais efetivo e sofisticado tecnologicamente, posto em prática com a introdução de uma novidade surgida da indústria da guerra e que predomina atualmente em diversas áreas por todas as partes do mundo: o uso dos drones. A partir dos anos seguintes, esse aparato tornou-se mais sofisticado e os assassinatos “cirúrgicos”, de enormes efeitos colaterais, dizimaram um número indefinido de vítimas, “terroristas” ou não. Isso me fez insistir na análise de como as ações desenvolvidas intensivamente para destruir e desestabilizar os inimigos do império por todo o mundo, onde isso fosse possível, tornaria a humanidade mais vulnerável e espalharia ódio e intolerância de forma indiscriminada. De lá para cá o mundo mudou, e para pior. E, ao invés de reduzir as guerras, ampliou-as e deu poder aos grupos sectários, disseminando mais ainda ações terroristas, que não ficaram restritas ao Oriente Médio e África, mas que atingiu duramente a Europa e até mesmo os EUA, apesar de todo aparato repressivo e de vigilância.
A crise econômica mundial se intensificou, tornou-se cada vez mais crônica, porque é de origem estrutural, e disseminou uma onda de perversidade gerada pela necessidade das classes dominantes retomar o curso dos acontecimentos, de forma a reestruturar o capitalismo e tentar tirá-lo de uma das piores crises de sua história. Tudo isso alimentou uma reação conservadora, potencializada pelas redes sociais, onde cada um individualmente, se sentindo uma voz “libertadora” em meio a uma multidão virtual, descarrega sua opinião apolítica, anti-política, políticamente incorreta, e absolutamente estúpida. São minhas impressões, feitas a partir de análises geopolíticas, mas sustentadas por uma ótica que me coloca em contraposição com os mecanismos criados pelas forças que dominam os mercados, as corporações, e as políticas que definem os rumos loucos de um mundo em transe.
Minhas análises decorrem de leituras acuidadas, de concordâncias com diversas opiniões[ii] manifestadas em blogs, revistas, livros e em documentários produzidos nos últimos anos, e muitos premiados, que retratam com bastante fidelidade o desequilíbrio na política mundial, provocado por uma estratégia que se dissemina há décadas, desde o começo da guerra fria, mas que nos últimos anos atingiu o limite da estupidez. Como já disse em outros escritos neste blog, apesar de toda a loucura existente por trás das ações geopolíticas dos EUA e seus aliados, houve uma nítida intencionalidade em cada uma delas, no sentido de desestabilizar dezenas de países, por meio de provocações de insurgências internas com o consequente esfacelamento de seus governos. Em alguns casos, a guerra civil foi fomentada quando alguns governos resistiram às pressões populares, insufladas por movimentos organizados financiados por ONGs e alguns grupos que surgiam seguindo-se uma estratégia de deslocar o protagonismo dos partidos e tornar a política desmoralizada. Sem a capacidade política de estabelecer acordos, a regra que se segue é a guerra. E isso se dá de diversas maneiras, desde o enfrentamento bélico, gerador de destruição acelerada, como aconteceu na Síria; ou por meio da disseminação entre a população da desesperança, da descrença e da propagação do ódio e intolerância, tornando o país ingovernável, nos dois casos.
O desequilíbrio que atinge o mundo, decorre de uma crise que teve seu ápice entre os anos de 2008 e 2010, mas que não pôde ser solucionada até hoje, gerando uma onda de insatisfação por todo o mundo e possibilitando que discursos ultranacionalistas antiglobalizantes apresentem como alternativas personagens anti-políticos, ou de comportamentos populistas e fascistas. A derrota da política dissemina-se para além das fronteiras e desconhece os poderios econômicos dos países por onde ela se espalha.
A partir de 2010 uma série de revoltas, fomentadas propositadamente afetaram diversos países, mas também ocorreram como decorrência da forma com que a crise econômica afetou cada um deles. Havia um clima de insurgência latente que potencializou essas ações. O aumento de desemprego, que afeta primordialmente as camadas mais jovens, na medida em que se fecham as possibilidades de acesso ao mercado de trabalho por aqueles que estão se habilitando, mas que não detém experiência para serem aproveitados numa realidade em que muitos devidamente especializados estão sendo dispensados de seus empregos. Seguramente essa foi uma das razões que levou a uma explosão de manifestações por países do norte da África e estendeu-se por todo o Oriente Médio. Mas a espontaneidade foi apenas no início dessas revoltas, a partir do momento em que se disseminaram entraram em cena outros atores, com objetivos bem definidos, desestabilizar governos situados estrategicamente, ou por seus governos serem reticente às políticas do Império e de seus aliados.
Na América Latina, que nas duas últimas décadas tinha dado uma guinada à esquerda, com a escolha pela população de governos progressistas que se dirigiam para uma outra direção, distanciando-se dos EUA e aproximando-se da China e da Rússia afetando o espectro geopolítico regional, esse desequilíbrio não ocorreu como consequência da crise econômica, embora ela fosse latente. Mas pelas disputas do poder local, estimuladas pelos interesses dos EUA em retomar sua influência nesses países. A estratégia, nesses casos, foi fomentar a desestabilização por meio de uma forte influência na política, fortalecendo os partidos conservadores e segmentos religiosos neopentecostais; potencializando movimentos ditos independentes, que cumpriram o papel de desmoralizar a política; e, por meio de espionagem cibernética a identificação dos vícios historicamente consolidados no controle do poder. Assim, neste último caso disseminou no Brasil, em especial, uma espetacular investigação, iniciada, segundo Edward Snowden, pela vigilância na maior estatal brasileira, além dos principais personagens da política, blindando aqueles que sempre estiveram alinhados ideologicamente com os interesses estratégicos estadunidenses.
Mas a Europa não ficou imune a todas essas mudanças. Ela foi afetada não somente pela crise econômica que diretamente influenciou cada um dos países do bloco europeu, mesmo que de forma distinta no começo, mas que no último ano se ampliou voltando novamente a atingir o sistema financeiro, estremecendo o poderio dos principais bancos, principalmente na Itália e na Alemanha. Ao mesmo tempo, os efeitos colaterais das guerras travadas naqueles países que foram desestabilizados pela estratégia citada anteriormente levaram a uma das maiores migrações da história, com o deslocamento de centenas de milhares de pessoas oriundas principalmente daqueles países onde os governos foram derrubados ou estavam em vias de serem, causando uma falência quase total nos Estados.
Para completar as vicissitudes de futuros imprevisíveis, o “brexit”, com a saída da Grã-Bretanha da União Européia, numa decisão inesperada da população, tanto quanto a eleição de Donald Trump nos EUA. Inesperada, ma non troppo! São posições que refletem uma insatisfação com os rumos em que a economia e a política andam tomando, em cada um desses países, em particular, e no mundo, de uma maneira geral. O que se espera ainda, para os próximos meses, é uma guinada ainda mais à direita, com as eleições que virão, que já sentem a repercussão da derrota do establishment estadunidense, que apostara tudo na candidatura da Hilary Clinton, inclusive praticamente toda a grande mídia daquele país.
Ao mesmo tempo em que o mundo estremece, com crises incontroláveis por todos os lados, e deixa os estados-nação sem alternativa para conter as insatisfações geradas por essas situações, ampliam-se sentimentos de intolerância, de xenofobia, de comportamentos fascistas e neo-nazistas, inclusive o fortalecimento de partidos que defendem esses posicionamentos. As redes sociais disseminam muito mais rapidamente essas atitudes agressivas e reforçam na sociedade um sentimento de aversão ao outro que age, pensa e se comporta de maneira diferente dos padrões conservadores e/ou religiosos.
Tudo que ocorre são consequências nefastas da falência de um processo de globalização que prometeu uma coisa, mas que o resultado foi bem diferente. O deslumbramento com a rapidez com que se davam os negócios e os deslocamentos de mercadorias pelo mundo, escondia o essencial; o fim das fronteiras só fez ampliar a concentração da riqueza. Nesse período, que corresponde a cerca de trinta anos, desde as últimas décadas do século passado, e das primeiras deste século, o sistema despertou sua face cruel, e a ganância se apresentou como o verdadeiro motor que movimenta o capitalismo, tendo a usura como coadjuvante. Nunca, em toda a história da humanidade, indivíduos se esforçaram tão intensamente para tornar-se cada vez mais ricos, sem que houvesse um limite para atingir. Ao mesmo tempo, disseminou-se como uma cultura entre as pessoas comuns, estimuladas por dogmas criados a partir desses valores, de que o enriquecimento seria uma dádiva possível a todos, desde que fossem fiéis aos princípios do sistema, impulsionados por sofismas que desvirtuavam crenças religiosas milenares.
Naturalmente, uma tentativa de reestruturação do sistema, como se pretendeu com a globalização neoliberal, necessitaria de vir acompanhada por verdades ditas insofismáveis. O convencimento deveria ser um elemento fundamental, e crucial, a fim de consolidar entre as pessoas a fé inabalável na existência de um único caminho para a humanidade: o capitalismo. E a condição de se tornar vitorioso, ou vitoriosa, seria incorporar esse espírito, despertar os desejos inerentes à lógica capitalista e inebriar-se no consumismo desenfreado. Entramos numa era de ilusões vãs, e em lugar dos sonhos bucólicos a humanidade optou pela distopia, transformando a sociedade num ambiente opressivo, onde a necessidade de competir, e de se destacar em meio à intensa disputa pelo sucesso, nos legou a depressão como a doença do século, e, como consequência, uma era de intolerância, violência, racismo e estupidez se disseminaram aceleradamente pelo mundo, e destacadamente no Brasil, potencializado pela disputa política e pelo lamaçal de corrupção que desvendou uma parte de como funciona as relações de poder na falida democracia. Mas talvez democracia não seja mais o nome adequado para identificar o regime que norteia e conduz a política no capitalismo. Melhor seria considerar que vivemos em uma plutocracia. Ou numa cleptocracia. Qual será o fim dessa história? Porque haverá um fim, isso é certo, embora não possamos dizer em que momento preciso. Afinal, até mesmo o capitalismo é um sistema finito. Como todos os outros.



[ii] ANDERSON, Perry. A Política externa norte-americana e seus teóricos. São Paulo: Boitempo, 2015
BANDEIRA, Luis Alberto. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013
 __________________. A Desordem Mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016
ESCOBAR, Pepe. Império do Caos. Rio de Janeiro: Revan, 2016
HARVEY, David. 17 Contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O CAPITALISMO E UMA CRISE DE LONGA DURAÇÃO - DO BREVE SÉCULO XX À ACELERAÇÃO DO SÉCULO XXI

Nunca, em nenhuma época, vivemos acontecimentos de forma tão acelerada e intensa. Milton Santos, que morreu há 15 anos, afirmava em sua obra que analisa o processo da globalização, que vivemos um tempo de transição, que se prolongaria tanto mais quanto se tornasse mais difícil encontrar-se alternativas para superar e substituir um sistema em crise crônica.
Há alguns meses escrevi no Blog um texto, apresentando uma série de artigos em que analisava a atual conjuntura política, e no último parágrafo sintetizei essa situação, de uma transição em lenta agonia, já que as perspectivas de novos caminhos se apresentam numa absoluta incógnita.
“Estamos em meio a uma luta de classes encarniçada, a uma grave crise econômica e, também, em meio a uma transição de um sistema que atingiu seu auge, e consequentemente os limites de suas contradições. Mas, para onde vamos, ainda é uma incógnita, o que só torna a transição mais complexa e mais suscetível a conflitos, enfrentamentos políticos, religiosos e guerras de proporções mundiais. Quando o velho insiste em sobreviver e o novo demora a surgir, em se tratando de formações sociais, temos diante de cada um que vive esses momentos, uma longa, violenta e perigosa transição. Resta-nos a resistência para que dentre os caminhos propostos não nos deparemos com retrocessos, nem nos encaminhemos para um abismo”.
Crise: década de 1970
O século XXI já começou embalado por fatos que deixou a todos inseguros sobre o que aconteceria nos anos seguintes. Percebido que o “bug do milênio” não passava de um temor carregado de tolices, e espetacularizado por uma mídia que se especializou em criar o medo do imponderável de forma estúpida, pior do que as crenças nas divindades vingativas, os atos de 11 de setembro de 2001 demonstrou que algo pior estaria por vir. O que ruiu naquele dia não foi somente duas torres, e a trágica perda de milhares de vidas humana, vítimas do ódio alimentado pela irracionalidade de podres poderes. Ali se sentiu estremecer a estrutura econômica de um sistema que já estava claudicante desde os anos 1980, ainda como consequência de uma crise gestada na recomposição dos preços do petróleo, no bojo da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Se o século XX foi intitulado pelo brilhante historiador Eric Hobsbawm, como o breve século, e um dos mais violentos da história, este tem tudo para ser um longo século, porque será arrastado por uma crise de duração prolongada, e quiçá não seja entremeado também por conflitos de dimensão mundial. Registre-se que outro intelectual, um economista, Giovanni Arrighi, já se referira ao século XX, como um longo século, porque foi buscar no entendimento de como a formação dos impérios foi essencial para a consolidação do sistema capitalista, efetivado exatamente no século anterior. O longo, ou o breve século XX, pela abordagem do historiador ou do economista, ambos marxistas, representam uma análise da formação histórica do capitalismo e dos sobressaltos de uma complexa economia, que só vai tornar esse sistema eficaz e vitorioso na segunda metade daquele século.
Mas há um forte diferencial, a tornar longa essa transição. No começo do século XX, uma parte considerável da humanidade acreditava ter ao seu alcance uma alternativa para substituir o sistema capitalista, embora este só tivesse se espalhado por todo o mundo naquele momento, efeito da expansão imperialista. Mas já era visível, principalmente com a grande depressão, que o capitalismo sobrevivia às custas de contorcionismos cada vez mais mirabolantes, salvo em seu extremo, na década de 1930, por uma teoria que tomou emprestado do socialismo, o planejamento e a forte ação estatal, e por uma guerra que destruiu e fez se tornar necessário a reconstrução de uma Europa devastada, que se tornou o laboratório para o keynesianismo e a sobrevida do capitalismo. Mais do que uma sobrevida, o capitalismo foi turbinado pelas novas possibilidades encontradas com as teorias que garantiram o “welfare state” e transformou os EUA no maior credor do mundo.
No entanto, os anos dourados que impulsionaram a economia mundial até a década de 1970 baseava-se fundamentalmente em princípios liberais tradicionais, cujo foco principal era a produção e a circulação de mercadorias, a curta e longa distância. Muito embora seus fundamentos inspirarem-se no livre mercado, todo o seu impulso contou sempre com a intervenção do estado. Isso se intensificou com o keynesianismo, e, por outro lado, com os movimentos nacionalistas nos processos de lutas anticolonialistas. A existência de uma forte corrente pró-socialismo manteve esse comportamento nas medidas econômicas que vigoraram até o final dos anos 1970. Os anos 80 puseram em xeque a tendência natural do capitalismo: seu caráter marcadamente expansionista.
Com as economias esgotadas, naquela que ficou conhecida como “a década perdida”, restou aos estados hegemônicos apressar a derrubada dos países socialistas, envolvidos internamente com o esgotamento de um modelo que não conseguiu se expandir para garantir condições de vida que se aproximasse das melhorias conquistadas pelas populações dos países europeus, cujas economias foram injetadas pelo Plano Marshall no pós-guerra.
No fim da década, a queda do socialismo e, principalmente, após a dissolução da União Soviética, o caminho abriu-se para uma reestruturação no capitalismo. Seja mediante uma expansão em direção ao leste europeu, e até mesmo penetrando nas fronteiras caucasianas e na Rússia, ou disseminando pelo restante do mundo a necessidade de desregulamentação da economia, reduzindo a intervenção do Estado na economia e derrotando as políticas nacionalistas protecionistas naqueles países periféricos, ou então vistos como subdesenvolvidos. Pela nova lógica que se disseminava, o nacionalismo e o excesso de intervenção do Estado eram fatores para manterem essas economias fragilizadas.
Esse processo tem sido analisado com mais intensidade na última década. No entanto, muito embora as vozes críticas da globalização, e das políticas neoliberais, fossem sistematicamente desqualificadas, desde o início desse processo já se analisavam as terríveis consequências de políticas econômicas cujo foco era tão somente atender os interesses dos que controlavam o dinheiro, e buscavam novas formas de garantir a acumulação, mediante medidas que facilitassem a circulação do capital e sua aplicação ao redor do mundo.
A partir de então, e numa rapidez estonteante, escorados em novas tecnologias, o dinheiro circulou o mundo com mais liberdades, e se multiplicaram as aquisições e fusões de grandes empresas, levando à concentração da riqueza de forma ainda mais visível. Proporcionalmente reduziu-se o percentual daqueles que concentravam a maior parte dessa riqueza. Ou seja, um número cada vez menor de pessoas, passava a controlar uma quantidade cada vez maior de dinheiro. O oligopólio passou a caracterizar essa nova etapa, e o poder das grandes corporações assumiu uma dimensão espantosa.
A ganância atingiu todos os recantos do planeta numa força impressionante. Ideologicamente houve uma mudança na maneira de entender o liberalismo, mas isso foi facilmente disseminado com um marketing violento, por meio da imprensa, do cinema, das propagandas. Tornou-se uma verdade absoluta render homenagem ao sucesso da globalização. Praticamente não se falava mais de outras alternativas ao capitalismo, e os que ousavam enfrentar o “pensamento único” eram vistos como vozes que pregavam teorias ultrapassadas, e, aproveitando o sucesso dos “blackbusters” de Spielberg, apelidados de “jurássicos” e afrontados ironicamente.
Mas os protagonistas do sistema tomaram um rumo semelhante ao jogador viciado que não consegue abandonar a banca de jogo, presos pela cobiça. Tão rápido quanto os avanços tecnológicos, foram os mecanismos inovadores nas formas de se ganhar dinheiro fácil, através das oportunidades com que se podia investir em empresas por meio de bolsas de valores 24 horas por dia, em todos os cantos do planeta. Principalmente naqueles países mais frágeis, cujas pressões das organizações globais encarregadas de padronizar as políticas econômicas, se davam mais facilmente, como decorrência dos comportamentos submissos das elites locais. Os juros extremamente elevados criaram portos seguros para investidores usuráveis, e eram garantidos pelas pressões exercidas pelas governanças globais, que impediam qualquer tipo de controle sobre os recursos investidos e dificultavam a adoção de medidas que taxassem seus investimentos no mercado especulativo, sem nenhuma preocupação com as condições econômicas desses países. O “rentismo” passou a se constituir na mais nova forma de se acumular dinheiro, uma nova característica do capitalismo, e criou um novo tipo de burguesia, mais preocupada com as oscilações das bolsas de valores do que com a capacidade de consumo para investimentos produtivos.
No entanto, o sistema não se recuperara por completo da crise iniciada na década de 1970. Muito embora a globalização se apresentasse como a consolidação definitiva do capitalismo, o rumo que o mundo tomou, com o crescimento da ganância e a redução do controle sobre a economia, abriu rombos que deixou incertezas e muitas dúvidas sobre a capacidade de recuperação. Mas isso só era visto por um grupo pequeno de economistas, ou de ativistas políticos ideologicamente avesso ao capitalismo, suas credibilidades eram postas em xeques e suas críticas não eram repercutidas pela grande imprensa.
Tudo se tornou visível, após esse período de inebriamento e crescente ganância, quando em 2008, rendendo-se aos fatos a grande mídia noticiou ao mundo o que alguns economistas já alertavam, sem serem ouvidos: o sistema financeiro estava à beira do “crash”. A quebradeira acontecia e arrastava a economia em meio a escombros de um tsunami econômico e social, de proporções imprevisíveis.
O ponto fora da curva teria sido as especulações feitas por meio de hipotecas no mercado imobiliário estadunidense. Mas esse foi apenas um fator, outros já vinham causando fissuras na estrutura do capitalismo. Desde os ataques ao World Trade Center, aos gastos milionários com as invasões do Iraque e Afeganistão, e a desastrosa “guerra ao terror”, além dos vai-e-vem no preço dos barris de petróleo, tudo isso e mais outros motivos, se juntaram a absoluta falta de controle de um sistema que perdeu a capacidade de  se contentar com os lucros obtidos a partir de investimentos produtivos, e se transformou em um verdadeiro cassino global, e, como em todas situações que envolvem jogo, somente os donos das bancas lucram, ou um ou outro afortunado que aposta quantias elevadas e conhecem os mecanismos de burlar o sistema.
Segue-se a esse absoluto descontrole da forma de funcionamento do sistema capitalista, toda uma série de acontecimentos que acompanha um novo modelo posto em prática nas últimas décadas, de maior intensidade nos mecanismos perversos de gerar desigualdades. O vale tudo, causado pela intensidade de um comportamento individualista, gerado pela onda da oportunidade e da competência, consolidada na meritocracia, tornou a sociedade adepta de um comportamento mais frio, pragmático e focada no sucesso a qualquer preço. Os exemplos pinçados numa realidade absolutamente diferente, são apresentados como sinônimo de dedicação e esforço do trabalho e da inteligência.
Antecedeu-se a toda uma nova formulação de comportamentos um receituário ideológico, adredemente vinculado ao caminho para o bem-estar individual e familiar, que se disseminou via ideologia neoliberal, cujos discursos se fundamentava nas questões postas no parágrafo anterior, e se espalhou pela grande mídia e nas igrejas neopentecostais. Nestas, a “teologia da prosperidade” procurou inculcar nos indivíduos a crença secular, pregada por alguns setores do protestantismo, notadamente os de origem estadunidenses, de que pela dedicação à fé e aceitação da ordem, se atingiria o sucesso, sendo este a recompensa da fidelidade como uma resposta divina, a prova de ser Deus fiel a quem lhe é fiel. O oposto às pregações do cristianismo primitivo, surgido como questionador das injustiças, da cobiça e da usura.
Por todos esses anos, deste novo século, escandalosamente acontecia o contrário do que se propagandeava com a globalização. A concentração de riqueza atingiu um patamar escandaloso diante de uma realidade desigual e ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. E a pobreza, em larga escala, que se concentrava nos países pobres, espalhou-se pelos países mais desenvolvidos, como consequência do deslocamento de fábricas, a extinção de empregos e o aumento do número de moradores de ruas, ou da favelização.
Embora tenha havido uma pequena recuperação, nos dois últimos anos, ela está longe de representar uma saída para a crise, e em muitos casos, a retomada do nível de empregos está relacionado à busca de novas alternativas individuais, formal ou informal, ou a reabsorção de muitos desempregados em um mercado de trabalho cujo valor da mão de obra decaiu consideravelmente. Boa parte dos que retornaram à atividade laboral, o fizeram em outras funções, sendo forçados a aceitarem salários bem inferiores aos que possuíam anteriormente.
Mas, com a financeirização do sistema capitalista, e uma nova classe de novos ricos decorrente do deslocamento do centro gerador de lucros, já não tanto no setor produtivo, mas principalmente em negócios especulativos do mercado de ações, as condições econômicas acentuaram a concentração de rendas, e quanto mais lucravam, mais essa nova burguesia se tornava insensível e mais gananciosa.
Os Estados tornaram-se, então, reféns de um número cada vez menor de empresas, concentradas em processos inexplicáveis de fusões, consolidando um novo ciclo econômico, baseado nos oligopólios, no poder concentrado de grandes corporações e de poucas famílias de bilionários.
No entanto, isso não seria possível, apesar da violência como essas transformações se deram, principalmente passando por cima das soberanias dos países mais pobres, e agressivamente controlando suas economias, se não houvesse um processo de verdadeira lavagem cerebral nas pessoas, de convencimento sobre o final definitivo da humanidade nas hordas do capitalismo. Todas as armas foram utilizadas para isso, e naqueles países onde as políticas não atendiam a esses interesses houve uma verdadeira guerrilha midiática, a desacreditar outras alternativas que estivessem sendo construídas, fora da ordem estabelecida pelas governanças globais e pelo Consenso de Washington.
Desestabilizar governos que contraditavam essas verdades absolutas neoliberais, passou a ser uma estratégia a substituir as velhas intervenções militares. Os golpes de estado tornaram-se legitimados pela multidão cega, posta nas ruas pelas propagandas das corporações midiáticas, e, absolutamente alienadas quanto à realidade de uma crise sistêmica e mundial. A cegueira ideológica e o efeito manada constituiu-se em uma nova arma, para impedir que, mesmo em crise, a hegemonia do poder central neoliberal fosse ameaçada. Muito embora esteja em franca decadência, este centro, os EUA, mantém-se ainda como uma forte economia e, principalmente, com um poder bélico inatacável, a não ser por tresloucados militantes sectários a buscarem o paraíso para seus atos de “coragem” explosivas.
Mas, como na expectativa de Marx, considerando-se uma realidade em crise e a ampliação de suas contradições, não pode ser menosprezada a possibilidade de que elas ocorram internamente. Isso já é possível de se verificar no caos em que vivem algumas dessas sociedades, seja pelo constante medo de ações terroristas, ou pelas próprias loucuras gestadas internamente em ações que podem transformar alguns desses países, em especial os EUA, em ambientes de permanente terror, decorrente de confrontos alimentados pela luta de classes e pelo grau crescente de intolerância étnica, de cor, às escolhas sexuais e aos estrangeiros.
Contudo, se essa é uma possibilidade a estremecer os alicerces de alguns desses países, por outro lado a crise desperta antigas rixas, na disputa por espaços que garantam a hegemonia em um tempo fragmentado e de poderes cambaleantes. O temor histórico do avanço do urso em direção à Europa, algo já temido desde o começo dos séculos XX e assim alertado por um dos proeminentes geopolíticos britânicos, Sir Halford Mackinder, reacende agora com uma força ameaçadora, diante das estrepolias estratégicas de um ex integrante do serviço secreto soviético, a temida KGB onde chegou até o posto de coronel: Vladimir Putin.
Como a reportar os períodos que antecederam as duas grandes guerras mundiais, e, sintomaticamente, esses períodos foram marcados por crises econômicas estruturais (1905-1914 e 1930-1937). A primeira de característica expansionista, uma crise gerada pelo crescimento do capitalismo e pela disputa dos grandes impérios pelo mercado mundial. A segunda, de caráter recessivo, que irrompeu numa terrível depressão que afetou quase de morte o sistema capitalista.
Desta feita, diante de uma crise que já se prolonga há mais de uma década, velhas rivalidades retornam, mas o significado dessas estratégias é o mesmo, despertar o caráter destrutivo do sistema, identificado pela economista Naomi Klein, como de “Capitalismo de desastre”, pelo qual as guerras e as catástrofes são colocadas na conta de ótimas oportunidades para reconstruir um mundo devastado e recuperar economias centrais.
Enquanto isso se dissemina pela sociedade os sintomas de um ambiente criado ao sabor dessas grandes disputas, dos podres poderes, das formas de desenvolvimento que definem as relações sociais. Momentos de crises são oportunos para o surgimento de comportamentos radicalizados, a defender ou a defenestrar os governos que comandam os estados. Porque, tal qual argumenta a historiadora estadunidense, Ellen Wood, a burguesia conseguiu gerar uma cultura em meio ao povo que a torna onipresente nos momentos de crises. O povo, em sua revolta contra as condições que o mantém refém de economias recessivas, ou diante de situações em que lhe é negado a mínima dignidade de sobrevivência, com desemprego crescente, ataca de forma violenta os que governam, e o Estado, mas não se volta com a mesma virulência contra a classe que detém o controle da riqueza, dos meios de produção. Falta-lhe consciência para transformar um sentimento de ódio pelas injustiças, em razões que transforme as estruturas sociais.
Violência em larga escala, comportamentos intolerantes contra as liberdades individuais, tentativa de controle dos desejos, criminalidade tratada somente como desvio de caráter e não como uma patologia social, disrupção familiar, ódio étnico e preconceito contra as diferenças, de sexo, cor e formas do corpo, definido por valores e padrões estabelecidos pela classe dominante, tudo isso se choca e explode em tempos de crise.
Sem enxergar alternativas para um sistema cambaleante o sintoma invisível é o de uma longa transição, em que o novo demora a despontar, e o velho, já desgastado, joga as últimas cartadas num jogo viciado, enxergando no caos as poucas possibilidades de reestruturação. Como há milênios, nas longas guerras em que os que morrem são os que não possuem as riquezas, constroem-se impasses a fim de preservar privilégios, ou de ampliá-los, ao fim de destruições perversas.
Mas seja pela guerra, ou pela própria forma injusta de concentrar riquezas e distribuir miséria, a morte é uma frequentadora contumaz nos territórios pobres e periféricos. E, no entanto, como a cegar os que são induzidos ideologicamente a acreditar na crença da fatalidade capitalista, o próprio povo anseia por se ver protegido pela segurança armada a serviço da classe que lhe oprime. E este mesmo povo se distingue esculhambando-se enquanto pobres, e entronizando por meio de deslumbramentos doentios, os que despontam e enriquecem, pelos mecanismos ditos “meritocráticos”. É como concordar com um veredito decidido antes de qualquer crime, pois que senão pela recusa da própria existência, negada como real, e pela aceitação virtual de uma improvável ascensão de uma pirâmide cujo topo se limita pela riqueza, mas, principalmente, pela origem de classe.
Este mundo maravilhoso, assim cantado na magnífica voz de Louis Armstrong, “com o brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite”, só garantirá a efetiva liberdade quando a opressão de classe desaparecer, e as desigualdades abissais não sirvam para definir critérios de caráter entre as pessoas. Só assim podemos acreditar que os bebês que vão nascer, “irão aprender muito mais do que eu jamais vou saber”. E esse algo mais, talvez seja a velha capacidade de poder dividir o que produzimos, mediante o velho altruísmo, qualidade que nos fez sobreviver em nosso processo de adaptação à ambientes inóspitos, e garantiu a sobrevivência, até aqui, da raça humana. Assim, una, etnicamente diversa, somente vista como várias pela capacidade adquirida em sistemas perversos, que impõe a poucos o controle da vida de muitos, tornando-os diferentes embora iguais.
Quando superarmos os milênios que nos separaram da nossa capacidade altruística, voltaremos a ser humanos, e a vivermos no mundo cantado por Armstrong. Aí poderemos dizer: “What a wonderful world”.
Isto é possível!


REFERÊNCIAS:
ARMSTRONG, Louis. What a wonderful world. https://www.youtube.com/watch?v=oGmRKWJdwBc
ARRIGUI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2012
HOBSBAWM, Eric. O breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 2008
MACKINDER, Halford. O Pivô geográfico da história. São Paulo: Geousp, Espaço e tempo, nº 29, pág. 87-100, 2011.
SANTOS, Milton Santos. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2011.
PIKETTI, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014
WOOD, Ellen Meiksins. O Império do Capital. São Paulo: Boitempo Edtorial, 2014.
http://www.defesanet.com.br/otan/noticia/22863/OTAN-determina-reforco-militar-no-leste/
http://informacionaldesnudo.com/mapa-cuales-son-los-paises-mas-endeudados-del-mundo/

* Este artigo foi publicado em julho de 2016 com o título: "Cronicas de um mundo em transe - Atingimos o auge das contradições?"