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quinta-feira, 19 de julho de 2012

SÍRIA, UMA BATALHA GEOPOLÍTICA. O ALVO É O IRÃ.


Escaldados pelo resultado da intervenção da OTAN na Líbia, Rússia e China resolveram endurecer suas posições e dificultar as tentativas dos EUA e demais aliados ocidentais - com uma forte propaganda midiática – de repetir a mesma estratégia na Síria. Desde o mês de fevereiro várias resoluções têm sido apresentadas no Conselho de Segurança e todas rejeitadas, por não obter unanimidade entre seus membros. Rússia e China opuseram-se a todas elas, pois poderiam dar o pretexto para uma invasão à Síria, como ocorreu na Líbia.
Conselho de Segurança da ONU
Como já abordei aqui em outras oportunidades, inclusive na 5ª parte de “Crônica de um mundo em transe” (http://www.gramaticadomundo.com/2012/01/cronica-de-um-mundo-em-transe-5-parte.html), a Síria é a última pedra de dominó, cuja queda irá possibilitar um cerco ao Irã, permitindo aos aliados ocidentais atingirem o território daquele país pelo mediterrâneo. Claro, considerando que o Iraque garantiria passagem para tropas aliadas atingir fronteiras iranianas (o que não é certo). Há que se considerar também o fato que é através desse país que a Rússia consegue monitorar o Mediterrâneo, com a base militar de Tartur, ali instalada, a única da marinha que ele possui fora de seu território.
Tudo isso decorre também das dificuldades de se utilizar o estreito de Ormuz, em função também das seguidas ameaçadas do Irã em fechá-lo, bem como, mesmo que isso não ocorra, pela facilidade de os mísseis iranianos atingirem embarcações que tentarem utilizar aquela rota. Há pouco tempo esse país realizou algumas manobras militares, algumas com mísseis potentes, capazes de atingir Israel e todas as bases militares dos EUA no Oriente Médio, outras no próprio estreito. Somente este ano várias manobras militares foram feitas nessa área estratégica para qualquer conflito ali na região. O objetivo é nitidamente intimidatório, de mandar recados para EUA e Israel, com o intuito de demonstrar sua capacidade em suportar qualquer ataque por aquele istmo. Embora isso não signifique poder de fogo suficiente para conter a ferocidade do império.
Oleodutos tentam reduzir a importância
estratégica do estreito de Ormuz
As notícias de que o governo sírio estaria atacando a população, repetidas infinitas vezes, constroem a mesma verdade, seguindo a lógica goelbesiana, que alterou o perfil de Kadafi, de aliado ocidental, a “um tirano sanguinário assassino de seu próprio povo”. Assim, seu assassinato foi recebido com naturalidade, e merecimento, em função da propaganda insidiosa, insistentemente, que o transformou em um monstro cuja morte tornou-se merecida. É assim que as multidões são preparadas para a aceitação de assassinatos seletivos e agressões aos direitos humanos.
Pode-se ver em fatos escabrosos como atentados a bombas, que tem tirado a vida de centenas de pessoas. As informações são dadas como sendo atos da oposição contra o ditador, quando em outras circunstâncias seria dito como sendo atentados terroristas. Como sempre, terroristas são somente aqueles que praticam violência contra os aliados do império. Da mesma forma, informações não confirmadas, ditas cegamente porque à distância, dão falsas impressões, e muitas vezes tem como fonte informantes ligados aos grupos que se encontram em guerra aberta contra o governo, o que indica claramente uma parcialidade suspeita.
Atentado ao Ministério
da Defesa da Síria
A constatação da parcialidade e manipulação com que as notícias são dadas sobre a guerra na Síria, não implica na defesa do regime de Bachar Al Assad. Mas é um alerta sobre as novas estratégias adotadas pelos EUA, de não intervir diretamente naqueles países cujos governantes não participam de seu círculo de confiança. As ações de agentes para insuflar revoltas, a antiga estratégia de contaminar a economia desses países, a presença dos falcões – assassinos especializados do serviço de inteligência ligado diretamente ao Pentágono – e, a ciberguerra, que inclui desde a contaminação com vírus poderosíssimos, até a sofisticação dos aviões não tripulados, os drones. De forma sutil, mantém-se a velha estratégia de apoiar golpes de estados, o que já foi tentado em vários países do continente americano, dando certo em Honduras e mais recentemente no Paraguai, mas fracassado na Venezuela, na Bolívia e no Equador.
Assim, a mídia prepara a opinião pública para que o destino de Bashar al-Assad seja semelhante ao de Kadafi e ao de Sadam Hussein. Mas esconde o que está por trás da insistência, e seguramente, da ação de agentes infiltrados entre os opositores sírios, em derrubar aquele regime. Depois do objetivo alcançado, as notícias sobre tais países caem no esquecimento, e as destruições causadas por essas medidas deixam de ser manchetes. O resultado da queda da Líbia e da maneira como internamente  tem sido perseguidos antigos aliados de Kadafi, com torturas e assassinatos seletivos, denunciados pela ONG “Médicos Sem Fronteiras”, que decidiu, por isso, abandonar o país, deixou de se tornar notícia. Recentemente, uma eleição faudulenta não foi suficiente para unir o país, nem para forçar dezenas de grupos paramilitares que recusam-se a entregar suas armas e controlam partes do território, esfacelando o que antes era uma nação.
Manifestação de apoio ao governo
Seguindo a mesma estratégia, somente recentemente as informações tomaram o foco pretendido. Há alguns dias a grande mídia passou a dizer que havia uma guerra civil na Síria. Ora, esse conflito já poderia ser considerado guerra civil desde o ano passado (e assim eu afirmei eu meus artigos). A empulhação de acordos que deveriam ser aceitos entre partes não passou de “mis-em-scéne”, pura embromação, a fim de passar para as pessoas desinformadas que assistem esses noticiários de que haveria uma relutância por parte do regime sírio. Ora, o cessar-fogo era puro conto da carochinha. Os rebeldes desde o começo estão sendo armados – e com armas sofisticadas – pelos países ligados à Otan, sob o comando dos EUA. Boa parte deles composta de mercenários, que atuam desde o começo das revoltas e outros são grupos que respondem na síria pela franquia da Al-Quaeda. Além de grupos ligados à irmandade muçulmana, que na Síria adotaram um comportamento diferente do que tiveram no Egito.
Nos últimos dias, sem que se possa haver qualquer comprovação, ou exemplo de que algo já tenha acontecido relacionado ao fato, os meios de comunicação estão noticiando que o governo sírio “irá” utilizar armas químicas, e já cogitam ação de bombardeios da OTAN com o intuito de “destruir essas armas”. Descaradamente repetem a mesma estratégia utilizada para justificar a invasão do Iraque, mesmo se, depois de centenas de milhares de mortes ocasionadas com a invasão daquele país, nada tenha sido provado da existência de “armas de destruição de massas”. Agem como se as pessoas esquecessem facilmente das farsas que se escondem por trás dessas notícias.
Opositores do regime sírio
Tal qual ocorreu em relação ao Iraque, e mais recentemente no caso da Líbia, a mídia cria toda uma preparação, forjando uma opinião pública que seja favorável a uma nova invasão repassando informações, não comprovadas, que são obtidas de fontes não confiáveis, pois são opositores do regime sírio. Mas são nítidas as manipulações das informações.
Isso que reafirmo aqui nesse artigo eu já havia escrito em fevereiro, só estou atualizando. Seguramente muitas ações violentas e repressões brutais estão ocorrendo na Síria há mais de um ano, são fruto não tão somente de manifestações da população, mas da ação de grupos opositores armados no que podemos identificar como uma guerra civil ocorrendo naquele país.
Desta feita, com interesses geopolíticos em jogo, e até em função do radicalismo gerado pelas declarações da secretária de estado Hilary Clinton, por conta de suspeitas de fraude no processo eleitoral, a Rússia se recusa a aprovar resoluções que dê o pretexto para novos ataques da OTAN, como ocorreu na Líbia. E nisso é seguido pela China, demonstrando que nesse tabuleiro de xadrez já é nitidamente conhecida a posição de cada uma das peças que compõe o jogo. Os interesses são enormes, e todos estão ligados á geopolítica do Oriente Médio e tem como objetivo principal atingir o Irã. Aquilo que é manipulado na informação midiática, e pouco entendido pelo público, constitui-se na principal batalha disputada em território sírio, mas também no Conselho de Segurança.
Base russa de Tartur, no Mediterrâneo
imagem do Google
Como a demonstrar as dificuldades que a Rússia criará para impedir a mesma estratégia utilizada na Líbia, dois de seus navios, liderados pelo Porta-aviõesAlmirante Kuznetsov, aportaram em sua base militar no Mediterrâneo, em território Sírio, desde o dia 9 de janeiro deste ano. Essa é a única base que os russos possuem e que lhes dão certo poder de manobra no mar Mediterrâneo e facilita contatos com países do Oriente Médio.
Se de um lado torna-se difícil emplacar qualquer nova Conselho de Segurança que possa abrir caminho para ataques da OTAN, por outro cresce a impaciência de Israel, que passa a ver dificuldades para um possível ataque ocidental ao Irã. Caso não se dê rapidamente a queda do governo Sírio, impossibilitando um cerco seguro ao Irã, a tendência é que Israel resolva atacar o país persa, acreditando que o tempo beneficia os iranianos, dando-lhes condições de aperfeiçoar sua capacidade de lidar com a energia nuclear. O receio de que o país dos Aiatollahs construa artefatos atômicos, já que possui mísseis com capacidade de deslocá-los a centenas de quilômetros, tem muito mais a ver com a hegemonia geopolítica naquela região do que por um possível ato tresloucado de seus dirigentes.
Enfim, é isso que está em jogo. E é absolutamente abominável, embora compreensível, já que as grandes corporações da mídia têm também interesses por trás desse conflito, a forma como as notícias são passadas, repetitivas ad nausean, tentando formar no meio da opinião pública internacional, as justificativas que tornariam aceitáveis mais um ato de agressão militar, que não tem nada a ver com preocupações humanitárias.
Mas é provável que o fim do governo sírio seja o mesmo dos demais países do Oriente Médio que não sobreviveram às revoltas populares e as ações de agentes infiltrados em grupos opositores. Recentemente, em um debate do qual participei, considerei equivocado o título dado a ele: “Porque o governo da Síria não cai?”. Achei que seria melhor utilizar, “Porque o governo da Síria demora a cair?”. Isso porque considero que está em jogo um poder estratégico imprescindível para os interesses do império e dos seus aliados. A Síria, sob o governo de Bashar al-Assad é um empecilho a esses objetivos, por suas relações com o Irã e pelo apoio que sempre deu aos palestinos e aos grupos Hamas e Hebollah. Ademais, talvez seja o regime sírio, a despeito de todas as críticas, o que melhor garante uma certa liberdade às minorias étnicas e religiosas dentre todos os demais da região. E essa constatação não impede de reconhecermos um caráter ditatorial nesse regime, algo não muito diferente de todos os outros países do Oriente Médio.
Oriente Médio, uma região
em permanente disputa
É possível, sim, que o regime de Al-Assad não resista. E isso não se deve somente a uma possível organicidade da oposição, ou de uma rejeição popular ao governo. Mas porque todos os esforços das potências ocidentais têm sido para fortalecer esses opositores. A estratégia dos EUA para essa região, desde que começaram as revoltas árabes, tem sido de se postar ao lado dos revoltosos e municiá-los de armamentos suficientes para derrubar qualquer governo. Muito embora os regimes anteriores fossem seus aliados. Além das ações de agentes espiões com a posterior entrada em ação de aviões não tripulados, seja para ações militares (como assassinatos seletivos) ou para obter informações sigilosas, com aparelhos que não podem ser facilmente detectados por radares. A não ser os mais sofisticados.
Mas, caso se concretize a tomada da Síria pelos rebeldes, com o apoio da OTAN a serviço do império, somente aumentará mais ainda a instabilidade na região, somando-se mais um estado caótico, como decorrência das intervenções que se tornaram hábito neste século. Iraque, Afeganistão, Líbia, Egito, Iêmen, e agora a Síria, deixam de ter governos títeres, mantendo à força regimes de poucas liberdades políticas, e passam a conviver com instabilidades decorrentes de governos fracos que mal conseguem desarmar insurgentes que atuam dominando territórios nas fronteiras desses países.
As condições para uma nova guerra, de proporções incalculáveis seguem sendo criadas. Embora seja difícil prever se isso de fato acontecerá, não resta dúvida que as jogadas políticas caminham nessa direção, e deixam claro que esse é o objetivo das grandes potências ocidentais. A Síria não é o alvo final. Assim como a Líbia foi invadida para se dominar o petróleo daquele país, possibilitando o embargo do petróleo iraniano, a queda do regime sírio tem como objetivo conter o fortalecimento do Irã, cuja capacidade de produzir armas nucleares o tornaria praticamente inatingível no Oriente Médio e o transformaria numa potência regional com condições de controlar a região detentora das maiores reservas de petróleo do mundo.
Disso tudo podemos dizer que as informações repassadas pela grande mídia, não passam de grandes mentiras, versões falsas disparadas a esmo para todo o mundo com o intuito de justificar ataques seletivos e o contrabando milionário de armamentos para grupos rebeldes. Como sempre, a guerra se constitui em um grande negócio, mais ainda nesse momento de profunda crise econômica, com economias estagnadas e desempregos crescentes. O dinheiro sujo, seja de narcotráficos, prostituição e, principalmente, da guerra, tornam-se o meio mais fácil para abastecer mercados falidos pela corrupção na política e nas grandes corporações.
Interesses geopolíticos em jogo -
insightgeopolitico.com
A ânsia desses países em aprovar resoluções que facilite um ataque a Síria não tem nada a ver com defesa de população ou de direitos humanos, a história está aí a comprovar isso. Somente interessa os objetivos estratégicos visando o controle de uma das regiões com maior reserva da matriz energética mais importante do mundo. É o dinheiro, o grande poder e a política que comandam as ações. Então, quem quiser se informar sobre o que acontece nesses conflitos, deve fugir do convencional, desligue-se da informação manipuladora e mentirosa da grande mídia. Em grande parte, essas informações bombásticas sobre tais conflitos tem também o objetivo de desviar as atenções da enorme crise que afeta o capitalismo e que tem levado à falência as economias das maiores potências capitalistas. Uma guerra sempre é motivo para tentar salvar economias falidas. As corporações agem como abutres nas carniças, disputando politicamente a reconstrução de países devastados pelos bombardeios. 

sábado, 28 de abril de 2012

CRISES POLÍTICAS E ECONÔMICAS AFETAM OS PAÍSES CAPITALISTAS DE DIFERENTES MANEIRAS

murall.com.br
No começo do ano, mais especificamente no mês de janeiro, escrevi uma série de artigos que denominei CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE. Eles foram divididos em cinco partes, mais o final. Relendo cada um deles eu posso afirmar que modificaria pouca coisa. Tanto no comportamento de países que mundo adentro encontram-se em uma grave crise financeira, quanto na situação brasileira, que persiste com os mesmos temas mobilizando a política e a opinião pública. Mudam-se os personagens, mas mantém-se os mesmos motivos que deixam os países paralisados em meio às suas próprias contradições. Ou àquelas que são inerentes à própria estrutura do sistema capitalista. Como o acesso a essas postagens foi pequeno, até pela data em que elas foram inseridas no Blog, entre o final de 2011 e o começo de 2012, resolvi destacar partes e fazer uma nova postagem. Clicando nos links quem se interessar pode ir direto para uma das crônicas listadas.

A CRISE ECONÔMICA E AS REVOLTAS NO MUNDO – EUA, EUROPA E PAÍSES ÁRABES
Crises sempre acontecem em nossa vida, na sociedade, na natureza. Mas o capitalismo vive das crise. Aliás, ele depende das crises. Ele se retroalimenta delas, a expressão correta é essa, pois as crises são criadas pelas próprias e inevitáveis contradições do sistema, mas na maioria das vezes são nelas que são buscadas a sua salvação. Eu costumo citar muito o livro de uma jovem economista canadense, conhecida ativista contra as desigualdades sociais, chama-se Naomi Klein. O título é “A Doutrina do Choque – A ascensão do capitalismo de desastre”. Neste livro ela mostra como em determinadas circunstâncias a crise, que normalmente acontece no capitalismo, é potencializada para, a partir de determinada desgraça, ou um acontecimento muito complexo, as forças que agem no sistema, as grandes corporações e/ou os conglomerados financeiros, possam usufruir daquele desastre e obter dividendos financeiros e econômicos.
(...)
Assim devemos compreender os acontecimentos do mundo em 2011. Eles são parte de uma história de limites atingidos pela forma de funcionamento do sistema capitalista mundial. Não podem ser analisados isoladamente, estão todos enredados num processo gerado pelo auge de contradições motivadas pelas condições de uma escalada gananciosa de um mundo onde os donos do capital se deslumbraram com as facilidades de fabricarem dinheiro, não somente real, mas numa virtualidade de um jogo financeiro que não mede conseqüências. A usura os joga numa tarefa de produzirem ganhos cada vez mais ambiciosos, à custa do sacrifício da maioria população cada vez mais excluída do sistema, embora em algumas partes ainda seduzidas pelo vírus do consumismo e do estilo de vida construído pela ambição capitalista. Mas nada disso esconde a concentração absurda da riqueza e deixa a cada dia mais claro a impossibilidade de essa lógica representar a perspectiva do futuro da humanidade.
O BRASIL, EM MEIO À CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
Vimos na primeira parte desse artigo, como a crise econômica tem afetado os países centrais da economia capitalista, como conseqüência dos fracassos causados por um sistema financeiro que atingiu seu limite especulativo e ganancioso. Mas, na contramão dessa situação, países cujas economias emergiram na última década se deparam com situações diferentes, e atingem níveis satisfatórios de crescimento.
Vamos analisar a situação do Brasil, ela está equilibrada do ponto de vista econômico. Nos últimos anos, por questões relacionadas a programas sociais, bolsa família, e até mesmo pelo aumento do salário mínimo (cujo salto foi de uma média de 56 dólares no último ano do governo FHC, para 345 dólares atualmente, e,pasmem, a economia não quebrou, como se atemorizava na época), uma série de ações do Estado, de incentivo que tem sido concedido objetivando transferir rendas, elevou algumas pessoas das camadas sociais mais de baixo e as inseriu acima da linha da pobreza, com capacidade de consumo.
UM MUNDO DOMINADO PELAS CORPORAÇÕES
As Corporações nos dias de hoje comandam o capitalismo, em todo o mundo. Então, aquilo que nós chamávamos antes de multinacionais, hoje com aquisições e fusões de todos os tipos o que existem são megas corporações, ou conglomerados que ainda envolvem bancos. E são tão poderosas que algumas delas possuem riquezas maiores do que o PIB da grande maioria dos países. Assim, quando elas entram em um determinado país e investem alto, torna difícil para esse país depois agir, se tiver interesse em ver-se livre delas ou caso queiram impor algum tipo de restrições, porque passa a depender dos seus lucros para sua arrecadação.
(...)
Essa onda de indignação com a corrupção pode terminar na legalização dos lobbies Já existe projeto no Congresso Nacional à espera de ser votado no plenário, e é aí que os honestos terão dificuldades de atuar. Não vai beneficiar a honestidade, nem os governos mais sérios, eles se tornarão reféns dos lobbies. Vai favorecer os mais conservadores, pois impedirá que se veja o que de fato acontece. É diferente, porque hoje o país tem uma controladoria, que fiscaliza, e uma mídia que é livre e que mostra, aliás, mais do que devia, porque age como um partido político. O que pode acontecer é piorar, porque os lobbies agem não somente no Congresso Nacional, mas em todas outras áreas em que eles precisam de apoio para satisfazer os interesses de suas corporações, inclusive na mídia e no judiciário.
Mas essa é uma característica do sistema, a maneira como ocorrem as eleições possibilita isso, e a própria estrutura do Estado e os interesses que existem seguindo a lógica gananciosa e usurária que fundamenta o capitalismo impele sempre isso para adiante. Ele muda sua forma, altera suas características, aplica um verniz de moralidade, como nos EUA e em países europeus, mas não a essência, e essa se baseia sempre na busca permanente pelo controle do poder, para dominar cada vez mais fortemente a economia e o sistema financeiro.
TERÁ O CAPITALISMO ATINGIDO O LIMITE DE SUAS CONTRADIÇÕES?
Nós sabemos que o corpo humano pode sobreviver por tempo indeterminado pela medicina, com a falência de seus órgãos, ligado a aparelhos que o mantém em estado vegetativo. Ou, na melhor das hipóteses, um coma profundo, do qual de alguma maneira poderá ser despertado. O capitalismo não morreu, está em crise, podemos até dizer que está em coma, tal qual um corpo humano, à beira do seu limite, mas do qual pode se recuperar. Ir, além disso, talvez seja um otimismo exagerado, para aqueles que a ele se opõem. Mas isso faz parte de sua própria condição existencial, conforme já abordei na primeira parte. Poderá – ou não – sucumbir a mais essa crise. E dentre as várias alternativas possíveis, sempre se poderá contar com a possibilidade de uma guerra de dimensão mundial. Não seria a primeira, nem a segunda vez que isso ocorreria. A guerra, sim, é uma saída, embora já não tanto como fora no século XX, em função de novas ordenações da geopolítica mundial. Mas, vamos analisar sob essa perspectiva.
(...)
Essa anarquia, e toda a confusão propiciada pela ganância que movimenta o sistema capitalista, é a própria geradora de todas as crises que acontecem, e que analisamos aqui, bem como também essa que o mundo está atravessando atualmente. A diferença desta das demais é que ela está atingindo muito fortemente todo o sistema financeiro, e assim afeta perigosamente a espinha dorsal do sistema. Porque ela foi gerada internamente e ele não encontra mecanismos de refinanciar os bancos que estão envolvidos. A situação difere de 2008, quando ela estourou. Porque naquele momento o Estado bancou os rombos dos bancos e seguradoras, obviamente ampliando seus endividamentos internos, já que necessariamente precisavam produzir créditos, “cash”, suficientes para evitar uma quebradeira que derrubaria todo o sistema financeiro mundial. 
UMA GUERRA SERIA O CAMINHO PARA TIRAR A ECONOMIA CAPITALISTA DA CRISE?

http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2012/01/cronica-de-um-mundo-em-transe-5-parte.html
A primeira coisa que devemos fazer quando avaliamos a perspectiva de uma guerra é olhar para um mapa, observar as fronteiras, ver com base nisso a diferença de tratamento que as grandes potências dão para determinados países, em detrimento de outros. Peguemos a situação da Líbia, e indaguemos porque o tratamento foi diferente do Iêmen (Só para recordar, Kadafi foi assassinado com o suporte da OTAN, acusado de cometer crimes contra sua população, levando a morte centenas de pessoas. No Iêmen o ditador, que precisou fugir para a Arábia Saudita, foi acusado dos mesmos crimes, mas obteve apoio da monarquia saudita, fez acordo com os Estados Unidos, obteve imunidade no parlamento iemista para não ser processado, e vai curtir um exílio nesse país). Foi nítida a diferença em relação ao Egito, onde aconteceu um golpe militar, já tratado aqui. E, porque a Arábia Saudita enviou tropas para conter as rebeliões no Bahrein? Porque existe ali uma enorme base militar dos EUA. Porque ainda não houve invasão á Síria?
UMA GUERRA SILENCIOSA: OS ESPIÕES ENTRAM EM AÇÃO
Considerando a gravidade de uma crise que toma uma proporção cada vez maior, conforme já analisado anteriormente, a decisão sobre o desencadeamento de uma guerra é muito difícil, por mais que na mídia e nos discursos haja uma forte radicalidade. Não que ela não possa acontecer, mas antes disso muito jogo de palavras, sanções econômicas e tentativas de acordos diplomáticos irá acontecer.
Enquanto isso se espalha pelo mundo um verdadeiro exército de espiões. É impossível afirmar com certeza, mas podemos deduzir que nunca houve tanta espionagem no mundo, nem mesmo durante a guerra fria. Tanto para atender interesses dos Estados, como também para desenvolver trabalhos que têm como objetivo coletar informações para empresas sobre as ações de suas concorrentes. A espionagem industrial cresceu muito também nos últimos anos, bem como aquela que busca obter informações privilegiadas sobre as condições de determinada empresa a fim de fazer uso no mercado financeiro, que possibilitam a um mega investidor ganhar milhões de dólares da noite para o dia. Ou agir para derrubar um concorrente
Encerro aqui a “Crônica de um mundo em transe”, mas o que abordei nessas cinco partes forma um mosaico de fatos e situações que não fecham um ciclo que acompanha a crise mundial. Como disse anteriormente, com base no que aprendi do marxismo, a economia é o grande condutor da política, seja local, nacional ou mundial. Se a economia vai bem, não há tantos percalços políticos, por mais que aqueles que fazem oposição desejem que as coisas piorem, como condição para conquistarem o poder. Mas se há uma crise econômica grave, seguramente os distúrbios serão inevitáveis e os desequilíbrios financeiros afetam a ordem política. E quando é constatado que essa crise tem um caráter mundial, é inevitável que as nações que detém hegemonia na ordem geopolítica mundial procurem mecanismos, nem sempre éticos, para garantirem a manutenção do poder em suas mãos.
Então, se o presente é incerto, o que se dirá do futuro, que ainda deverá ser construído sobre os escombros de uma crise estrutural, de um sistema que tem por essência enfrentar permanentemente o dilema de viver das crises e de sobreviver a elas?
Seguimos otimistas, apesar de tudo, e dos interesses gananciosos da burguesia e dos que se aliam a ela, acreditando que o mundo será sempre melhor

sábado, 3 de dezembro de 2011

REVOLTAS NOS PAÍSES ÁRABES – CRISE NO ORIENTE MÉDIO (UM BREVE RESUMO)

Por um tempo terei que reduzir minha capacidade de acompanhar os acontecimentos e produzir textos para o blog. Estou empenhado em finalizar no prazo exigido pela editora, as correções e atualizações em meu livro sobre a Guerrilha do Araguaia, que terá sua 2ª edição lançada no começo do próximo ano, quando se completam 40 anos do início desse movimento guerrilheiro, ocorrido aqui no Brasil, no Sul do Pará e Norte do Tocantins.
Resolvi, então, fazer uma seleção dos artigos que escrevi ao longo desse ano, sobre as crises nos países árabes, e também sobre a crise econômica. Em minha opinião, como vocês poderão ler em alguns artigos, uma decorre da outra e, portanto, podem ser vistas a partir da visão de uma crise que já vem se arrastando desde 2008. Ou mesmo de alguns anos antes disso.
Não mudei nada nos textos. Acredito que no geral as análises se mantêm atualizadas com as motivações que geraram essas revoltas. Os interesses das potencias ocidentais são visíveis, em função das diferenças de tratamento entre os países. Pode-se comparar, por exemplo, as ações da OTAN na Líbia, e as diferenças de tratamento em relação ao Iêmen; assim como a pusilanimidade no caso do Egito, onde ocorreu um golpe militar silencioso, sob os auspícios dos países europeus e EUA. Já no tratamento da Síria, diferente de como estão tratando das repressões recentes no Egito, o que se deseja é uma imediata ação militar. Até então bloqueada pelos BRICs, tendo à frente Rússia e China.
É evidente a tentativa de se tomar iniciativas em determinadas situações (na Líbia, pelo petróleo, e na Síria pela posição estratégia e por suas fronteiras com Israel), e em outras se recorre até mesmo à  Arábia Saudita (caso do Iêmen e do Bahrein). Péssimo interlocutor, quando a questão é a democracia, pois se sabe do poder autocrático e ditatorial que emerge da Casa de Saud, há décadas, sucessivamente, acompanhando a transmissão de poder hereditariamente naquele país.
Não se pretende negar o grau de autoritarismo que prevalece há muitos anos nesses países. A luta por democracia e liberdades políticas seguramente são mais do que justas e de uma necessidade de mudança eminente naquela região. Mas, as hipocrisias reinam na mídia e nos pronunciamentos de porta-vozes das autoridades ocidentais, ou até mesmo em seus próprios depoimentos. Há, em verdade, uma ferrenha disputa geopolítica pelo controle de uma das regiões mais estratégicas do mundo. Os discursos em defesa da democracia que embalam esses depoimentos não passam de tergiversações, para justificar ações que garantam elevar ao poder governos que mantenham sintonia com os interesses das potências ocidentais.
Contudo, corre-se o risco de o tiro sair pela culatra. Frase usada para explicar quando uma estratégia fracassa e ocorre uma ação inversa aos objetivos iniciais. No caso do Egito, já se tem os resultados eleitorais que garantem à Irmandade Muçulmana, através do Partido da Liberdade e Justiça ampla maioria entre os eleitos. Na Líbia e na Tunísia, provavelmente o governo seguirá a Sharia, código baseado nas leis islâmicas. No Marrocos, embora fora da rota das revoltas, as eleições também garantiram vitória ao partido islâmico, mesmo sem maioria, sendo que isso ocorre pela primeira vez. Esse será o mesmo caminho da Síria, com a provável queda de Bashar Al-Assad.
Isso significa que, embora alimentando muitas dessas revoltas, as potências ocidentais em breve se depararão com o mesmo tipo de problema que estão enfrentando na relação com o Irã. Ressalte-se que nos últimos anos, a maioria dos governos que foram depostos eram ditaduras que mantinham governos com participação de cristãos (como no caso do Iraque), ou que não seguiam a Sharia (como no caso da Líbia), e da mesma forma pode-se dizer em relação a Síria.
O que se depreende de toda essa crise, e do cerco que se forma em torno do Irã, com o objetivo de isolá-lo, é a eminência de uma guerra de proporções imprevisíveis. Espero que esses textos contribuam para colocar um pouco de verdade em um noticiário profundamente tendencioso. O maniqueísmo e a demonização, até mesmo de antigos aliados ocidentais, escondem interesses mesquinhos e geopolíticos, com a população desses países constituindo-se em meros instrumentos nas mãos sequiosas de poder e riqueza de muitos dos países que se encontram envolvidos e até o pescoço com uma enorme crise econômica.
Não há, portanto, o mínimo sentido se usar a expressão “primavera árabe”, em comparação com o que ocorreu na Europa a partir da década de 1940 (século XIX) e que foi chamada de “primavera dos povos”. O que se viu no século XIX, foi uma série de movimentos revolucionários por vários países europeus e a derrota do poder absolutista, renascido com a Santa Aliança. Depois desses movimentos a burguesia assume definitivamente a condição de classe dominante, e começa a consolidar o sistema capitalista. Não há parâmetros de comparação entre as duas situações, portanto o uso dessa expressão é enganador, e mais um arranjo midiático para confundir a opinião das pessoas.
Eis os links para os artigos.
AS REVOLTAS ÁRABES E CRISE NO ORIENTE MÉDIO

segunda-feira, 13 de junho de 2011

REVOLTA POPULAR NOS PAÍSES ÁRABES – SÍRIA, IÊMEM, BAHREIN: O QUE OS DISTINGUEM DA SITUAÇÃO NA LÍBIA?

A questão é, antes de qualquer coisa, porque nesse triângulo (Síria-Iêmen-Bahrein) o tratamento dado pelos países imperialistas, através de seu braço armado, a OTAN, é diferente do que acontece em relação à Líbia?
É claro que a maioria dos leitores saberá a resposta, já tratei inclusive aqui mesmo no Blog quais os interesses que estariam por trás dos ataques da OTAN. O petróleo, em primeiro lugar, e os fundos financeiros vultosos, fazem da Líbia um alvo a ser disputado.
Mas quero partir dessas indagações para reforçar um sentimento que espero se estenda rapidamente por todos aqueles que são amantes da paz e se indignam com as injustiças patrocinadas pelas grandes potências.
Quando mergulhamos nos bastidores da grande política e fazemos uma leitura geopolítica, vamos desvendando “mistérios” que só podem ser vistos assim se ficarmos presos às informações transmitidas pelos grandes meios de comunicação. Enfim, não há mistérios. O que existem são interesses estratégicos que tornam um determinado país objeto de disputa por todos os meios possíveis. A guerra é o último deles, o definitivo, principalmente quando analisamos as forças militares no conflito.
Os ataques da OTAN na Líbia, escorado em uma resolução da ONU (embora indo bem além do que determina a resolução), extrapolam qualquer justificativa dada em nome de uma pretensa defesa da população civil. Os ataques têm sistematicamente atingido civis, bem como alguns alvos atacados estão completamente longe da principal área do conflito, demonstrando que os objetivos vão muito além daquilo propagado pelas grandes potências. A real intenção tornou-se destituir, e se possível, assassinar Muammar Kadhafi.
Como no caso do Iraque, quando centenas de milhares de civis foram mortos desde o começo da guerra, também na Líbia a hipócrita defesa de combater crimes contra a humanidade, esconde o massacre de pessoas situadas no meio do fogo cruzado. Ou até mesmo usadas como escudos humanos. Nessa situação, os ataques da OTAN, não se diferenciam das ações dos comandados por Kadhafi, nem também dos atos violentos dos rebeldes, que também se voltam contra aqueles que defendem o regime do ditador Líbio.
Conforme analisamos no começo do conflito, a Líbia caminha para uma divisão em seu território. Consolidam-se, assim, os interesses ocidentais, na medida em que a parte do país rica em petróleo ficará sob o comando dos rebeldes, com o controle da região conhecida como Cyneraica, tutelados pela OTAN, e tendo como centro mais importante a cidade de Benghazi. Por trás disso, logicamente, os Estados Unidos, buscando assim compensar a parcial perda do controle do Egito.
A região tripolitânia, provavelmente continuará sob o comando de Kadhafi, mas sem nenhuma riqueza que a torne expressiva, embora com a maior parte da população. Um novo emirado petrolífero de um lado, e uma “Somália árabe” do outro, e a multiplicação dos problemas, principalmente ligados aos grandes deslocamentos de população para a Europa. E, provavelmente, com o governo líbio dando apoio aos grupos terroristas, para se vingar do Ocidente, a menos que Kadhafi seja assassinado, como já tentou várias vezes os bombardeios da OTAN.

A SÍRIA

De todos esses países talvez o caso mais emblemático seja o da Síria. Com uma revolta sufocada pela força, não muito diferente do que tentou fazer Kadhafi, sua situação é mais pela localização geográfica, estratégica, já que não possui petróleo como a Líbia. Aliada do Irã, do Hesbollah e do Hamas, e com um conflito fronteiriço com Israel desde 1967 quando perdeu as Colinas de Golâ, a Síria tem adotado uma política contraditória, aliando-se à Turquia, mas estabelecendo relações com Israel mais confiável do que os demais países. Pelo menos até o início dessas revoltas.
Talvez por isso, claro e também pela ausência de recursos minerais estratégicos em seu território, os EUA se mantenha aparentemente eqüidistante. O receio é que a mudança que venha a ocorrer ali seja para pior.
Contudo, são grandes também as probabilidades de agentes estadunidenses e israelenses estarem fomentando a revolta, aí com outra estratégia que é a de logo em seguida impor um nome para comandar o país que se mantenha fiel aos interesses ocidentais e de parceria com Israel, para suprir a perda de um governo aliado, com a queda do ditador egípcio.
No começo deste mês, quando se completaram 44 anos da guerra entre Israel e os países árabes, que terminou com a ocupação das Colinas de Golâ, a faixa de Gaza e a península do Sinai, manifestações na fronteira com Israel terminou com um conflito violento e a morte de 14 palestinos e outras dezenas de feridos. Israel acusou o governo sírio de tentar forçar uma invasão das fronteiras com o objetivo de desviar a atenção das manifestações que se intensificam em seu território. Mas na verdade a anexação das Colinas de Golã constitui-se em uma agressão condenada pela ONU e jamais destituída por Israel.
Em 1981, quando uma lei aprovada no Parlamento israelense tornou as Colinas de Golâ parte do território israelense, o primeiro ministro Menahen Begin afirmou que jamais Israel cederia aquele território, considerado um elemento vital para a segurança do país. As resoluções da ONU tornaram-se letras mortas, e jamais foram respeitadas por Israel. Embora até hoje a ONU não reconheça essa anexação nenhuma medida prática foi tomada para punir o Estado israelense, diferente das ações sempre imediatas que recaem sobre os Estados Árabes que porventura contrariem os interesses imperialistas, principalmente dos EUA.
A fronteira Israel-Síria, certamente é o elemento a ser destacado no embate que está sendo travado internamente na Síria. Até então, mesmo sem recuperar parte de seu território, o presidente sírio Bashar Al Assad, tem estabelecido uma relação diplomática com Israel. Mas quanto maior for a pressão sobre o seu governo, e caso confirme-se a presença de agentes israelenses a fomentar as revoltas, seguramente as Colinas de Golâ irão se tornar alvo estratégico para acirrar os sentimentos nacionalistas.
Talvez essa seja a razão principal para os EUA, através da OTAN, adotar um comportamento diferenciado em relação à Síria, apesar da crescente repressão sobre os movimentos sociais naquele país. Tudo isso pode mudar, no entanto, se o governo sírio começar a perder o controle da situação. Então para evitar uma guerra civil que afete Israel a tendência será da extensão dos bombardeios. Mas essa iniciativa certamente será bloqueada no Conselho de Segurança da ONU, já que dificilmente a China e a Rússia apoiariam resoluções que autorizem a OTAN a atacar alvos sírios.

O IÊMEN

Mais do que no caso da Síria, talvez o Iêmen seja o melhor exemplo das hipocrisias que comandam as grandes políticas internacionais ditadas pela ONU, mas desavergonhadamente manipuladas pelos Estados Unidos.
Desde o começo das manifestações naquele país que a resposta do governo foi violenta. Há mais de trinta anos no poder, o presidente Ali Abdullah Saleh, em nenhum momento manifestou a vontade de ceder à pressão das ruas. Diferente do Egito, quando a população ocupou a praça Tahrir, o ditador iemenista reagiu com truculência e expulsou à força os manifestantes das ruas negando-se a estabelecer qualquer diálogo.
Um dos países mais pobres daquela região, o Iêmen também tem uma posição estratégica por sua localização na entrada do Golfo de Adén, que dá acesso ao Mar Vermelho. Outrora também aliado dos Estados Unidos no combate aos suspeitos de pertencerem à Al Qaeda, o governo dificilmente conseguirá sustentar-se sem a ajuda dos parceiros ocidentais. Embora reagindo com ferocidade às manifestações, nada indica que a atitude das potências ocidentais serão as mesmas que as tomada contra a Líbia. Seguindo-se a lógica hipócrita dos discursos humanitários, os olhos que se voltam para o Iêmen não cintilam a cor do petróleo.
Nos últimos dias ampliou-se consideravelmente o conflito, tomando o rumo de uma guerra civil. Grupos tribais acirraram seus descontentamentos com a postura de Ali Abdullah Saleh e partiram para o confronto armado. Na tentativa de ocupação do Palácio do Governo, o ditador iemenista foi ferido e teve 40% de seu corpo queimado, deixando momentaneamente o país sem rumo, indo tratar-se na Arábia Saudita.
Informações dão conta que rebeldes ligados a Al Qaeda já teriam tomado o controle da cidade de Zinjibar, na região sul do país. Esses últimos acontecimentos mostram a dimensão do problema que está se constituindo como consequência da absoluta ausência de alternativa confiável para substituir o ditador. Por essa razão a OTAN não age da mesma maneira que em relação à Líbia, dando uma clara demonstração que os interesses verdadeiros não têm nenhuma relação com preservação de população civil ou com preocupação humanitária. Os interesses são nitidamente oportunistas e a defesa da “democracia”, cumpre tão somente o objetivo de resguardar o controle ocidental sobre um ponto estratégico importante.

O BAHREIN

O Bahrein é um pequeno ponto no Golfo Pérsico. Uma monarquia, como tantas que existem na região e esbanjam prazerosamente o ambicioso líquido fóssil. O petróleo comanda a riqueza e a abundancia do reino, aliado aos elevados investimentos na indústria do turismo, forte componente para a circulação de boa parte do dinheiro sujo do ocidente. No jargão do noticiário policial, um pequeno país, mas uma grande lavanderia. Como de resto outros emirados e até principados, como o de Mônaco na Europa, cumprem esses objetivos.
Esses interesses, aliados à posição estratégica do Bahrein, também faz com que o tratamento dado ao Ocidente seja diferente do que acontece em relação à Líbia. Afinal, essa minúscula ilha abriga uma base militar dos Estados Unidos, e onde se concentra a 5ª Frota, com a presença de mais de 2.000 soldados estadunidenses que vivem no complexo militar quase no centro de Manama, capital do país.
Seguindo-se à sequência das revoltas árabes, a população xiita ocupou as ruas, manifestando-se contra o estilo truculento e antidemocrático da monarquia de origem sunita. Ocorre que a maioria da população é xiita, e como acontece na maioria desses países islâmicos, onde o componente religioso é fortíssimo, há sempre uma diferenciação no tratamento dado àquelas correntes religiosas que não compõem as estruturas do poder do Estado.
As repressões às manifestações foram violentas provocando a morte de um número incalculável de pessoas que dormiam em barracas na Praça Pérola, na verdade uma rotatória onde existia um monumento que terminou por se tornar um símbolo da rebelião. Existia, porque após a expulsão truculenta dos manifestantes, o governo do Bahrein ordenou a demolição do monumento. O local se constituiu num espaço simbólico, semelhante à Praça Tahrir no Egito, com a diferença de a repressão ter se dado de maneira muito mais brutal.
Esse comportamento ditatorial, não somente não levou à mesma reação como ocorreu na Líbia, como bem ao contrário, fez com que a Arábia Saudita deslocasse um contingente militar para ajudar a monarquia a reprimir sua população. Em seguida, o Conselho de Cooperação do Golfo, entidade que concentra os produtores de petróleo daquela região responsável por praticamente metade das reservas mundiais de petróleo existente no subsolo, manifestou seu apoio ao governo do Bahrein.

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS?

Absolutamente, as atitudes são coerentes com os objetivos e os interesses em jogo. Não há defesa de “democracia”, nem muito menos preocupação humanista, o que está em jogo é a manutenção do poder nas mãos de setores que sejam subservientes às potências imperialistas ocidentais.
O nome do jogo é o petróleo, além da riqueza financeira daqueles países. Mas principalmente a  necessidade de controlar aqueles que possuem uma localização estratégica imprescindível para os objetivos geopolíticos nessa região, que por muito tempo ainda será uma das mais importantes para garantir o domínio de reservas minerais fundamentais aos interesses dos países imperialistas e pelo controle da hegemonia militar e econômica nas mãos dos Estados Unidos.
A defesa humanitária, justificativa para a resolução de intervenção militar na Líbia, ou que eventualmente possa vir a acontecer, caso a situação fuja do controle em alguns desses países, não passa de discurso hipócrita a esconder as verdadeiras intenções.
As revoltas árabes permanecem ainda uma incógnita. Dificilmente levará aqueles países à almejada democracia, talvez a exceção seja o Egito, possivelmente, mas indecifrável como o enigma das pirâmides, já que partidos islâmicos podem obter maioria nas eleições.
Mas poderemos estar nos deparando com uma nova forma de dominação imperialista em uma região historicamente sempre disputada e colonizada pelo Ocidente. Eu diria que um novo colonialismo poderá se corporificar com a ascensão de novas formas de governo, ou, em alguns casos, com países esfacelados e dominados por forças tribais incontroláveis, a exemplo do Afeganistão e Iraque.
Agora, precisamos estudar e analisar os próximos passos a serem dados pelo Governo israelense, e a possibilidade dessas revoltas forçarem as fronteiras complexas que cercam aquele país. Se essas preocupações se concretizarem, possivelmente o conflito poderá entrar em uma nova fase, não excluindo a possibilidade de mais uma guerra entre Israel e alguns desses países envolvidos em conflitos, incluindo-se aí os palestinos. Certamente Israel está se preparando para isso.
Por fim, como sempre gosto de fazer, indico um filme que pode ajudar a entender os interesses que existem por trás do jogo geopolítico e a absoluta falta de ética e decência na condução dessas disputas pelo poder e pelas riquezas minerais: Syriana – A indústria do Petróleo, filme em que George Clooney ganhou Oscar de ator coadjuvante. Preste atenção no discurso de um dos personagens que representa uma espécie de elegia à corrupção, essência dos objetivos em disputa. Não se admire com os exageros que possam existir no filme, na verdade eles são mais amenos do que na realidade.