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sábado, 29 de setembro de 2012

"APERTE O CINTO, O PILOTO SUMIU" – O MUNDO EM TRANSE : A CRISE ECONÔMICA DESORGANIZA OS ESTADOS-NAÇÕES


Mais uma vez retomo no Blog a discussão sobre a crise econômica que afeta o capitalismo em boa parte do mundo. Principalmente entre os países mais ricos. Ainda podemos considerá-los assim, em função de suas riquezas, que determinam o Produto Interno Bruto (PIB). Contudo o agravamento da crise reduz suas reservas monetárias a um déficit que enfraquece a capacidade de quitar suas dívidas, mesmo considerando-se todas essas riquezas.
Os dados são estarrecedores, não vou listá-los aqui no corpo desse artigo, ao final irei inserir alguns links para matérias que dão números, que nos parecem consistentes, e expõe com clareza as dificuldades do sistema capitalista em seguir cambaleante na corda bamba.
Já abordei em outras oportunidades, em artigos que venho escrevendo desde quando a crise ainda estava sob um manto de esquecimento pela grande mídia, já no início desse blog. De lá para cá não se pode dizer que nada mudou. Até porque a dialética nos ensina que “tudo muda, o tempo todo, no mundo”. Embora essa seja uma frase da música de Lulu Santos, a quem eu chamo de “melô da dialética”.
Mas não é a filosofia que me chama a atenção nesse momento. Mas a economia. Ou, como pelos caminhos das contradições inevitáveis em uma lógica gananciosa e usurária, o capitalismo caminha celeremente para sua autodestruição. Conforme há mais de cem anos foi vaticinado pelo seu mais odiado inimigo: Karl Marx.
Alguns, e muitos aspiram atingir níveis de vida que os façam capazes de consumir próximos aos níveis da burguesia, duvidam dessa possibilidade. Mas não estou aqui a pregar o caos, como consequência da crise em curso. Necessariamente, contudo, o sistema precisará buscar novos mecanismos para impedir que o descontrole o faça seguir aceleradamente em direção ao abismo. E já passamos do meio do caminho.
Raciocinar como se o capitalismo fosse o fim da história, como equivocadamente alguns “filósofos” contemporâneos o fizeram, e abriram as portas do inferno para as ideias neoliberais, é se recusar a olhar para o passado, e conhecer, pela própria história, que nenhum sistema foi, nem nunca será eterno. Mas podemos voltar à poesia, e lembrar Vinícius de Morais, no “Soneto da Fidelidade”: que seja eterno enquanto dure.
Não podemos negar a capacidade, demonstrada até aqui, pelo capitalismo, que sempre conseguiu após crises graves, se reinventar. Mesmo tendo que adequar sua lógica liberal – caótica – do mercado livre, ao planejamento estatal, de cunho socializante, como foi feito no pós-depressão nos anos 30 do século XX.
Vemos no momento atual, e no cotidiano das pessoas tudo se passa como sendo uma crise econômica momentânea, como tantas outras já vividas, um embate entre as massas da população na luta por garantia de direitos trabalhistas a muito custo conquistados durante anos de lutas. Além da necessidade de defenderem a seus empregos, condição necessária para manter suas dignidades. Muitos, por vários dos países onde a crise é mais intensa, já perderam além de seus empregos, suas próprias moradias. Grécia, Portugal, Itália, Espanha, para citar onde a situação está mais grave, mas sem esquecer também os Estados Unidos e a França.
Mas a crise é estrutural. Somente podendo encontrar paralelo na Grande Depressão, chegada ao extremo com o grande “crash” da bolsa de valores de Nova Iorque, em outubro de 1929, há exatos 83 anos. Contudo, o caráter dessas duas crises são completamente diferentes, para não dizer antagônicos. A do século passado teve origem no acelerado processo produtivo, que gerou mercadorias em excesso e travou o sistema, na medida em que a população parou de gastar e passou a guardar seu dinheiro, ou poupá-lo, na medida em que suas demandas por consumo já estavam satisfeitas.
A crise atual, contudo, tem suas raízes na acentuada ganância, a obsessão crescente pela acumulação de riqueza a níveis de uma competição que termina por concentrar cerca de 50% de toda a riqueza offshore do mundo nas mãos de 0,001% das pessoas (essa é a riqueza produzida mundo afora). Isso dá em torno de pouco mais de 90.000 pessoas, que controlam, em espécie cerca de 9,8 trilhões de dólares. E menos de dez milhões de pessoas acumulam todo o volume de dinheiro em espécie existente no mundo, cerca de 21 trilhões de dólares, a maioria escondidas em paraísos fiscais.
Cartaz do Movimento
Occupy Wall
Street
Corresponde ao 1% duramente criticado pelo movimento “Occupy Wall Street”. Esses dados constam de um estudo da Tax Justice Network (Rede para a justiça tributária), coordenado por James S. Henry, ex-economista chefe em McKinsey & Co, autor do livro The Blood Bankers (Os banqueiros ensanguentados). Essas informações estão no artigo da jornalista Sarah Jaffe, e traz muito mais dados estarrecedores sobre a maneira como esses sanguessugas deslocam trilhões de dólares por paraísos fiscais para fugirem de taxações ou outras medidas que afetem essa vergonhosa acumulação. Insiro o link para o artigo da jornalista ao final desse texto.
Essa é a característica principal da crise atual. O sistema se depara com as dificuldades para controlar a fuga de capitais, sem controle, pelo mundo, em busca de países que não exercem nenhum tipo de fiscalização sobre depósitos feitos em seus sistemas financeiros. A jornalista cita Cingapura e a Suiça, mas a quantidade é maior, e envolve até mesmo o banco do Vaticano, onde recentemente alguns documentos foram divulgados após o mordomo do papa se apropriar desse material. Por esses dias ele está sendo julgado por esse “delito”, mas os órgãos da mídia informam sobre o julgamento, mas a grande maioria omite a real razão pela sua quase inevitável condenação. Trata-se de um banco, como tantos outros, que se dedica a lavar dinheiro até mesmo do tráfico de drogas
Recentemente a Receita Federal brasileira passou a considerar inclusive os Estados Unidos, numa lista de países com “regimes fiscais privilegiados”. Uma maneira diplomática de chamá-los de “paraísos fiscais”. Além dos EUA, recentemente foram incluídos em uma lista de 65 países, Luxemburgo, Uruguai, Dinamarca, Países Baixos, Espanha e Malta. Mas eles já eram considerados nessa tipificação de crime fiscal para o qual a punição é praticamente impossível, em uma lista internacional e mais abrangente.  (veja a lista completa neste site: http://www.financialsecrecyindex.com/2011results.html)
Frankfurt - Alemanha
Esses trilhões encontram-se distribuídos pelo mundo, escondidos das tributações de seus países de origem, enquanto os Estados ampliavam seus endividamentos para salvar o sistema financeiro de uma bancarrota que ainda ameaça o horizonte capitalista. Não solucionaram o problema e ampliaram a gravidade da crise, porque restam agora medidas desesperadas e arrocho sobre os trabalhadores para tentar cobrir os rombos gerados por essa matemática irresponsável e uma ganância criminosa.
Países como a França, na fila de países cuja quebradeira é inevitável (já tem comprometido com dívidas 91% do seu PIB), têm tomado medidas aparentemente radicais. No caso desse país, com um governo tido socialista. As medidas aumentam os impostos sobre as grandes empresas e taxam em até 75% os cidadãos mais ricos. Mas são medidas inócuas, porque há cerca de um ano o volume do dinheiro deslocado para esses paraísos fiscais cresceram substancialmente à medida que a crise se acentuava e as multidões e os movimentos sociais ocupavam as ruas protestando com aquele 1% que concentra a maior parte da riqueza mundial. Além do que, por meio “legal”, muitos desses milionários têm transferido suas residências, ou o centro de seus escritórios financeiros, para outros países europeus onde essas medidas não correm o risco de serem tomadas, como por exemplo, o Reino Unido, ou para alguns desses paraísos fiscais como a Suíça e o principado de Mônaco. Até jogadores, uma das peças mais utilizadas para lavagem de dinheiro, foram atingidos por essas medidas, cuja insatisfação foi demonstrada por uma dessas “celebridades”, Cristiano Ronaldo, cujo salário milionário entra em choque com uma sociedade altamente endividada e com quase metade dos jovens desempregados, a Espanha. Outro jogador, o brasileiro Hulk, cuja negociação bateu recorde mundial, tem sofrido discriminação na Rússia, por conta não somente dos valores negociados, mas também pelo alto salário que lhe é pago.
Vê-se assim, o desespero tomar conta das populações desses países, que veem as taxas de desemprego despencarem a níveis alarmantes. A estagnação econômica e o desemprego, ou vice-versa, essa é uma terrível relação dialética, afetam duramente a vida das pessoas, e um grande percentual se vê sem nenhuma perspectiva. Vivem dependendo de seguros pagos por Estados que já não tem de onde retirar mais recursos. Mas isso só endivida mais ainda esses países, que, como consequência só tem como alternativas aumentar impostos, o que leva a mais desemprego e reduz perigosamente a capacidade de o país produzir e, logicamente, consumir. Essa é a enorme contradição de um sistema que sempre dependeu das crises para ampliar as concentrações nas mãos dos que controlam os meios de produção. E mais recentemente, consequência da globalização, dos que vivem de investimentos de riscos no sistema financeiro. Riscos que afetam não somente seus capitais investidos, mas, principalmente, toda a sociedade.

Madri - Espanha
A situação é tão grave que a Espanha, país onde o índice de desemprego ultrapassa 25% (só para se ter uma ideia, aqui no Brasil esses percentual caiu a 5,5% segundo as mais recente informações do IBGE). Sendo que desse total a juventude é a mais sacrificada, com cerca de 40% dos jovens desempregados. Números que só se ampliam, na medida em que mais jovens entram nessa faixa, em uma idade que buscam seus primeiros empregos, mas não há oferta sequer para os que já tem experiência e aceitam qualquer salário.

A revista Samuel (http://revistasamuel.uol.com.br/), nova publicação que ainda não está á venda nas bancas de todos os Estados brasileiros, traz este mês uma reportagem sobre a situação de uma grande quantidade de casais, que sob os efeitos da crise terminam por se separem. Mas a mesma crise cria um perigoso constrangimento, porque só faz derrubar a autoestima das pessoas. É o que a matéria chama de “Coabitação indesejada - convivência forçada ”, ou a situação desses casais que, embora já separados, são forçados a conviverem sob o mesmo teto, como forma de dividirem despesas. Ficam, inclusive, impossibilitados de venderem imóveis quando são de suas propriedades, pois a desvalorização é crescente, na medida em que não existem demandas para eles, o que faz seus preços despencarem.
Paris - França
Mesmo na França, onde o governo resolveu taxar grandes fortunas, medidas também são tomadas para conter as despesas do Estado, levando a demissões em massa de funcionários públicos. Essas situações tem se espalhado por toda a Europa e Estados Unidos, e ameaçam se deslocarem para todos os continentes, na medida em que o sistema capitalista funciona cada vez mais em rede. Por isso se acentuam as medidas protecionistas em muitos países, como o Brasil, e veem os mais desenvolvidos, em crise aguda, reclamarem agora contra esses possíveis protecionismos. Quando por muito tempo foram os países periféricos que sempre reclamaram das altas tarifas alfandegárias impostas pelos países ricos aos seus produtos.
É fácil entender isso. Na medida em que a crise torna-se mais acentuada, os países “desenvolvidos” veem suas dificuldades serem ampliadas, e a capacidade produtiva reduzem-se consideravelmente. Mais grave, contudo, é a redução do potencial de consumo do mercado interno, em seus países, como decorrência do aumento crescente do desemprego. Restam como alternativa a exportação de seus produtos, que encontram um forte bloqueio nos países em desenvolvimento, agora com as indústrias sendo beneficiadas por medidas do Estado adotadas com o intuito de aumentar a competitividade e, logicamente, dificultar o crescimento das importações.
Mas, apesar de estarmos analisando um sistema em crise, como uma consequência de contradições que são inevitáveis em meio a uma lógica usurária e gananciosa, isso não significa dizer que os ricos estão em crise. Como dito anteriormente, aqueles que controlam a riqueza mundial mantém suas obsessões de acumular dinheiro e propriedades ao limite, menosprezando as desgraças que os cercam. E poucas são as medidas que podem ser adotadas dentro daquilo que não afronta o liberalismo capitalista. Aquelas que são necessárias, e condição para fechar um ciclo irremediavelmente já em seu final, só são possíveis no âmbito de Estados fortes, e com governos populares que tenham coragem suficiente de confiscar grandes fortunas e por fim ao direito de herança.
Lisboa - Portugal
Quando as crises, causadas por essas contradições atingem o seu limite, e deixam o sistema sem alternativa para contorná-las, os que controlam a produção se encarregam de apressarem na redução de seus gastos com os trabalhadores, demitindo-os, ou reduzindo seus salários. Enviam suas riquezas para paraísos fiscais, investem em ações e papéis no mercado financeiro, adquirem mercadorias de valor incomensurável, como obras de artes, e dividem suas fortunas entre seus herdeiros. Fogem das responsabilidades pela crise e não admitem reduzir seus lucros. Embora sempre contrários aos gastos do Estado para salvaguardar as populações mais pobres, recorrem a este para conter as quebradeiras de suas empresas e bancos, sob o argumento de que o sistema financeiro não pode quebrar, ou de que é a condição de manter o emprego dos trabalhadores.
Esse círculo vicioso, e criminoso, porque os resultados são sempre perversos para os mais pobres e desprotegidos, compõe um mosaico que reflete as contradições. Uma colcha de retalhos que simboliza os constantes remendos por que tem passado o sistema capitalista desde quando ele se torna mundial. Aos trabalhadores resta manifestarem-se nas ruas indignados, fazendo valer o que Karl Marx diz ao final do Manifesto Comunista, escrito em meados do século XIX, que esses já não têm mais nada a perder, a não ser as suas cadeias.


INDICAÇÕES DE LEITURAS:
1. Seis coisas que devemos saber sobre os 21 trilhões acumulados pelos mais ricos. http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/09/seis-mais-ricos-mundo-trilhoes-paraisos-fiscais.html
2. Não é a Grécia, é o capitalismo, estúpido: http://correiodobrasil.com.br/nao-e-a-grecia-e-o-capitalismo-estupido/268765/
4. As aves de rapina aplaudem a Espanha moribunda: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20997
5. A supremacia das finanças, uma usina de pobres: http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=9955
7. Crises políticas econômicas afetam os países de diferentes maneiras: http://www.gramaticadomundo.com/2012/04/crises-politicas-e-economicas-afetam-os.html
8. Sobre a crise econômica e a manipulação da informação: http://www.gramaticadomundo.com/2011/12/sobre-crise-economica-mundial-e.html


FILMES:
1. O CORTE (França - 2004), Direção: Costa Gavras - Bruno Davert (José Garcia) é um executivo francês, que perde seu emprego. Dois anos depois ele continua desempregado, o que o leva ao desespero. Decidido a recuperar o antigo cargo, ele decide matar seu atual ocupante e todos os candidatos da empresa em que trabalhava com potencial para ocupá-lo.
2. GRANDE DEMAIS PARA QUEBRAR (EUA – 2011), Direção: Curtis Hanson - A trama gira em torno do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry “Hank” Paulson (William Hurt, ganhador do Oscar), do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke (Paul Giamatti, ganhador do Emmy pelo seu papel em “John Adams”, da HBO), e do presidente do Banco Central de Nova York, Timothy Geithner (Billy Crudup), que junto com funcionários do governo, integrantes do Congresso e os presidentes das maiores empresas do mundo, tentaram salvar a economia norte-americana do colapso.
3. WALL STREET, O DINHEIRO NUNCA DORME (EUA – 2010). Diretor: Oliver Stone - Nesta continuação do filme dirigido por Oliver Stone nos anos 1980, o personagem Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, sai da prisão após cumprir pena por negociar ações com informações privilegiadas. Sua liberdade coincide com a fase inicial da crise do subprime, que começou nos Estados Unidos e contagiou o resto do mundo. O filme retoma parte das discussões da história anterior, sobre os limites e riscos do capitalismo selvagem defendido intensamente por Gekko. (Exame.com)
4. INSIDE JOB - TRABALHO INTERNO (EUA – 2010). Diretor: Charles Fergusson - Inside Job é um documentário em cinco partes, dirigido pelo cineasta Charles Ferguson, premiado com o Oscar em 2011. Trata-se de uma investigação e relatos sobre a crise financeira que começou no fim da década passada. A primeira parte, “Como chegamos até aqui”, conta como a indústria financeira nos EUA foi regulada entre 1940 e 1980. Em seguida, “A Bolha” explica o que aconteceu entre 2001 e 2007, durante o boom imobiliário no país. Na terceira parte (“A Crise”), o filme relembra o que aconteceu propriamente entre o fim de 2007 e 2008, quando os problemas financeiros vieram à tona. As duas últimas partes falam sobre os desdobramentos da quebra de importantes bancos e a situação mais recente da economia no país. (Exame.com)
5. MARGIN CALL - O DIA ANTES DO FIM (EUA – 2011) – Diretor: J. C. Chandor - Margin Call retrata 24 horas na vida de personagens-chave em um banco de investimentos nos Estados Unidos. A ação se passa nos estágios iniciais da crise mundial que começou em 2008. O analista Peter Sullivan (interpretado por Zachary Quinto) acessa informações financeiras que comprovam a queda da empresa e se vê diante de complexas decisões éticas e profissionais. (Exame.com)´
6. CAPITALISMO, UMA HISTÓRIA DE AMOR (EUA – 2009) – Diretor: Michael Moore - Michael Moore apresenta uma análise de como o capitalismo corrompeu os ideais de liberdade previstos na Constituição dos Estados Unidos, visando gerar lucros cada vez maiores para um grupo seleto da sociedade, enquanto que a maioria perde cada vez mais direitos.

sábado, 28 de abril de 2012

CRISES POLÍTICAS E ECONÔMICAS AFETAM OS PAÍSES CAPITALISTAS DE DIFERENTES MANEIRAS

murall.com.br
No começo do ano, mais especificamente no mês de janeiro, escrevi uma série de artigos que denominei CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE. Eles foram divididos em cinco partes, mais o final. Relendo cada um deles eu posso afirmar que modificaria pouca coisa. Tanto no comportamento de países que mundo adentro encontram-se em uma grave crise financeira, quanto na situação brasileira, que persiste com os mesmos temas mobilizando a política e a opinião pública. Mudam-se os personagens, mas mantém-se os mesmos motivos que deixam os países paralisados em meio às suas próprias contradições. Ou àquelas que são inerentes à própria estrutura do sistema capitalista. Como o acesso a essas postagens foi pequeno, até pela data em que elas foram inseridas no Blog, entre o final de 2011 e o começo de 2012, resolvi destacar partes e fazer uma nova postagem. Clicando nos links quem se interessar pode ir direto para uma das crônicas listadas.

A CRISE ECONÔMICA E AS REVOLTAS NO MUNDO – EUA, EUROPA E PAÍSES ÁRABES
Crises sempre acontecem em nossa vida, na sociedade, na natureza. Mas o capitalismo vive das crise. Aliás, ele depende das crises. Ele se retroalimenta delas, a expressão correta é essa, pois as crises são criadas pelas próprias e inevitáveis contradições do sistema, mas na maioria das vezes são nelas que são buscadas a sua salvação. Eu costumo citar muito o livro de uma jovem economista canadense, conhecida ativista contra as desigualdades sociais, chama-se Naomi Klein. O título é “A Doutrina do Choque – A ascensão do capitalismo de desastre”. Neste livro ela mostra como em determinadas circunstâncias a crise, que normalmente acontece no capitalismo, é potencializada para, a partir de determinada desgraça, ou um acontecimento muito complexo, as forças que agem no sistema, as grandes corporações e/ou os conglomerados financeiros, possam usufruir daquele desastre e obter dividendos financeiros e econômicos.
(...)
Assim devemos compreender os acontecimentos do mundo em 2011. Eles são parte de uma história de limites atingidos pela forma de funcionamento do sistema capitalista mundial. Não podem ser analisados isoladamente, estão todos enredados num processo gerado pelo auge de contradições motivadas pelas condições de uma escalada gananciosa de um mundo onde os donos do capital se deslumbraram com as facilidades de fabricarem dinheiro, não somente real, mas numa virtualidade de um jogo financeiro que não mede conseqüências. A usura os joga numa tarefa de produzirem ganhos cada vez mais ambiciosos, à custa do sacrifício da maioria população cada vez mais excluída do sistema, embora em algumas partes ainda seduzidas pelo vírus do consumismo e do estilo de vida construído pela ambição capitalista. Mas nada disso esconde a concentração absurda da riqueza e deixa a cada dia mais claro a impossibilidade de essa lógica representar a perspectiva do futuro da humanidade.
O BRASIL, EM MEIO À CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
Vimos na primeira parte desse artigo, como a crise econômica tem afetado os países centrais da economia capitalista, como conseqüência dos fracassos causados por um sistema financeiro que atingiu seu limite especulativo e ganancioso. Mas, na contramão dessa situação, países cujas economias emergiram na última década se deparam com situações diferentes, e atingem níveis satisfatórios de crescimento.
Vamos analisar a situação do Brasil, ela está equilibrada do ponto de vista econômico. Nos últimos anos, por questões relacionadas a programas sociais, bolsa família, e até mesmo pelo aumento do salário mínimo (cujo salto foi de uma média de 56 dólares no último ano do governo FHC, para 345 dólares atualmente, e,pasmem, a economia não quebrou, como se atemorizava na época), uma série de ações do Estado, de incentivo que tem sido concedido objetivando transferir rendas, elevou algumas pessoas das camadas sociais mais de baixo e as inseriu acima da linha da pobreza, com capacidade de consumo.
UM MUNDO DOMINADO PELAS CORPORAÇÕES
As Corporações nos dias de hoje comandam o capitalismo, em todo o mundo. Então, aquilo que nós chamávamos antes de multinacionais, hoje com aquisições e fusões de todos os tipos o que existem são megas corporações, ou conglomerados que ainda envolvem bancos. E são tão poderosas que algumas delas possuem riquezas maiores do que o PIB da grande maioria dos países. Assim, quando elas entram em um determinado país e investem alto, torna difícil para esse país depois agir, se tiver interesse em ver-se livre delas ou caso queiram impor algum tipo de restrições, porque passa a depender dos seus lucros para sua arrecadação.
(...)
Essa onda de indignação com a corrupção pode terminar na legalização dos lobbies Já existe projeto no Congresso Nacional à espera de ser votado no plenário, e é aí que os honestos terão dificuldades de atuar. Não vai beneficiar a honestidade, nem os governos mais sérios, eles se tornarão reféns dos lobbies. Vai favorecer os mais conservadores, pois impedirá que se veja o que de fato acontece. É diferente, porque hoje o país tem uma controladoria, que fiscaliza, e uma mídia que é livre e que mostra, aliás, mais do que devia, porque age como um partido político. O que pode acontecer é piorar, porque os lobbies agem não somente no Congresso Nacional, mas em todas outras áreas em que eles precisam de apoio para satisfazer os interesses de suas corporações, inclusive na mídia e no judiciário.
Mas essa é uma característica do sistema, a maneira como ocorrem as eleições possibilita isso, e a própria estrutura do Estado e os interesses que existem seguindo a lógica gananciosa e usurária que fundamenta o capitalismo impele sempre isso para adiante. Ele muda sua forma, altera suas características, aplica um verniz de moralidade, como nos EUA e em países europeus, mas não a essência, e essa se baseia sempre na busca permanente pelo controle do poder, para dominar cada vez mais fortemente a economia e o sistema financeiro.
TERÁ O CAPITALISMO ATINGIDO O LIMITE DE SUAS CONTRADIÇÕES?
Nós sabemos que o corpo humano pode sobreviver por tempo indeterminado pela medicina, com a falência de seus órgãos, ligado a aparelhos que o mantém em estado vegetativo. Ou, na melhor das hipóteses, um coma profundo, do qual de alguma maneira poderá ser despertado. O capitalismo não morreu, está em crise, podemos até dizer que está em coma, tal qual um corpo humano, à beira do seu limite, mas do qual pode se recuperar. Ir, além disso, talvez seja um otimismo exagerado, para aqueles que a ele se opõem. Mas isso faz parte de sua própria condição existencial, conforme já abordei na primeira parte. Poderá – ou não – sucumbir a mais essa crise. E dentre as várias alternativas possíveis, sempre se poderá contar com a possibilidade de uma guerra de dimensão mundial. Não seria a primeira, nem a segunda vez que isso ocorreria. A guerra, sim, é uma saída, embora já não tanto como fora no século XX, em função de novas ordenações da geopolítica mundial. Mas, vamos analisar sob essa perspectiva.
(...)
Essa anarquia, e toda a confusão propiciada pela ganância que movimenta o sistema capitalista, é a própria geradora de todas as crises que acontecem, e que analisamos aqui, bem como também essa que o mundo está atravessando atualmente. A diferença desta das demais é que ela está atingindo muito fortemente todo o sistema financeiro, e assim afeta perigosamente a espinha dorsal do sistema. Porque ela foi gerada internamente e ele não encontra mecanismos de refinanciar os bancos que estão envolvidos. A situação difere de 2008, quando ela estourou. Porque naquele momento o Estado bancou os rombos dos bancos e seguradoras, obviamente ampliando seus endividamentos internos, já que necessariamente precisavam produzir créditos, “cash”, suficientes para evitar uma quebradeira que derrubaria todo o sistema financeiro mundial. 
UMA GUERRA SERIA O CAMINHO PARA TIRAR A ECONOMIA CAPITALISTA DA CRISE?

http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2012/01/cronica-de-um-mundo-em-transe-5-parte.html
A primeira coisa que devemos fazer quando avaliamos a perspectiva de uma guerra é olhar para um mapa, observar as fronteiras, ver com base nisso a diferença de tratamento que as grandes potências dão para determinados países, em detrimento de outros. Peguemos a situação da Líbia, e indaguemos porque o tratamento foi diferente do Iêmen (Só para recordar, Kadafi foi assassinado com o suporte da OTAN, acusado de cometer crimes contra sua população, levando a morte centenas de pessoas. No Iêmen o ditador, que precisou fugir para a Arábia Saudita, foi acusado dos mesmos crimes, mas obteve apoio da monarquia saudita, fez acordo com os Estados Unidos, obteve imunidade no parlamento iemista para não ser processado, e vai curtir um exílio nesse país). Foi nítida a diferença em relação ao Egito, onde aconteceu um golpe militar, já tratado aqui. E, porque a Arábia Saudita enviou tropas para conter as rebeliões no Bahrein? Porque existe ali uma enorme base militar dos EUA. Porque ainda não houve invasão á Síria?
UMA GUERRA SILENCIOSA: OS ESPIÕES ENTRAM EM AÇÃO
Considerando a gravidade de uma crise que toma uma proporção cada vez maior, conforme já analisado anteriormente, a decisão sobre o desencadeamento de uma guerra é muito difícil, por mais que na mídia e nos discursos haja uma forte radicalidade. Não que ela não possa acontecer, mas antes disso muito jogo de palavras, sanções econômicas e tentativas de acordos diplomáticos irá acontecer.
Enquanto isso se espalha pelo mundo um verdadeiro exército de espiões. É impossível afirmar com certeza, mas podemos deduzir que nunca houve tanta espionagem no mundo, nem mesmo durante a guerra fria. Tanto para atender interesses dos Estados, como também para desenvolver trabalhos que têm como objetivo coletar informações para empresas sobre as ações de suas concorrentes. A espionagem industrial cresceu muito também nos últimos anos, bem como aquela que busca obter informações privilegiadas sobre as condições de determinada empresa a fim de fazer uso no mercado financeiro, que possibilitam a um mega investidor ganhar milhões de dólares da noite para o dia. Ou agir para derrubar um concorrente
Encerro aqui a “Crônica de um mundo em transe”, mas o que abordei nessas cinco partes forma um mosaico de fatos e situações que não fecham um ciclo que acompanha a crise mundial. Como disse anteriormente, com base no que aprendi do marxismo, a economia é o grande condutor da política, seja local, nacional ou mundial. Se a economia vai bem, não há tantos percalços políticos, por mais que aqueles que fazem oposição desejem que as coisas piorem, como condição para conquistarem o poder. Mas se há uma crise econômica grave, seguramente os distúrbios serão inevitáveis e os desequilíbrios financeiros afetam a ordem política. E quando é constatado que essa crise tem um caráter mundial, é inevitável que as nações que detém hegemonia na ordem geopolítica mundial procurem mecanismos, nem sempre éticos, para garantirem a manutenção do poder em suas mãos.
Então, se o presente é incerto, o que se dirá do futuro, que ainda deverá ser construído sobre os escombros de uma crise estrutural, de um sistema que tem por essência enfrentar permanentemente o dilema de viver das crises e de sobreviver a elas?
Seguimos otimistas, apesar de tudo, e dos interesses gananciosos da burguesia e dos que se aliam a ela, acreditando que o mundo será sempre melhor