domingo, 5 de julho de 2015

O BRASIL DIANTE DO ENIGMA DA ESFINGE : DECIFRA-ME, OU TE DEVORO!

Estamos vivendo um momento político carregado de enormes contradições, o que, aliás, não é novidade na vida, muito menos na política. Para introduzir o assunto, apontemos algumas raízes da confusão. O PSDB que surgiu das entranhas do PMDB, aglutinando o que havia de progressista à época naquele partido (década de 1980), optando pela social democracia de estilo europeu, se vê hoje como coadjuvante das ações de setores fascistas e da direita mais raivosa e preconceituosa, tanto no DEM, como no PMDB. Mas também abriu as portas para elementos desse tipo em suas fileiras. O que era social democracia virou uma agremiação insonsa, sem passado e sem futuro. 
O PT, também de origem social democrata, com posturas sempre progressistas, rendeu-se ao pragmatismo político típico de quem chega ao poder e tudo faz para não perdê-lo. Abdicou de embates ideológicos mais profundos, passou a negar a luta de classes e imaginou poder seduzir a burguesia jogando o jogo sujo que sempre caracterizou a classe dominante capitalista.  Ou as classes dominantes.  Cedeu aos setores empresariais, compactuou com as falcatruas das grandes empresas e corporações, alimentou o veneno dos grandes latifundiários do agronegócio e inchou as burras dos banqueiros. Da mesma maneira, abriu as portas ao fisiologismo e perdeu quadros importantes que mantinham posturas coerentes com sua história.
O resultado desse "samba do crioulo doido", para usar uma expressão usada pelo famoso humorista e político Sérgio (Stanislaw) Ponte Preta,[1] popularizada na música cantada pelo Quarteto em Cy, e Demônios da Garoa, é que tornou-se impossível prever para onde aponta as mudanças políticas no Brasil, uma vez que esses dois mais importantes partidos perderam completamente suas identidades, muito embora ainda possuam em suas fileiras e em seus programas elementos que os identificam.
O trágico disso tudo, para aqueles que lutaram por um país progressista e apto a disputar o protagonismo da geopolítica regional e mundial, é verificar que estamos à beira de um precipício, e em vias de marcharmos para a eleição de governantes comprometidos com o fundamentalismo religioso, com ameaças reais e já em curso, de fragilizar o estado de direito e com adoção de uma legislação fascista, marcada pela intolerância e ataque às liberdades individuais.
O retrocesso já está acontecendo, além da ameaça permanente de impeachment que paira sobre a cabeça da presidenta Dilma Roussef.  E pelo grau que atingimos, uma das formas de conter essa degringolada seria apostando numa volta à razão desses dois principais partidos. Algo absolutamente difícil, devido ao abismo que se criou entre eles, fruto dos embates travados nos últimos anos e pela deformação de suas fileiras, principalmente no PSDB, onde setores de direita passam a ter atuação destacada, principalmente no Congresso Nacional. Ao contrário, o que se vê é setores do PMDB flertando com o PSDB com o intuito de aplicar um golpe mortal, destituindo a presidenta e apostando num governo do insosso Michel Temer. Para delírio da direita.
Se a análise que aqui faço for correta, e diante da impossibilidade de se concretizar um reencontro desses dois partidos com os seus passados, só restará aos setores progressistas prepararem se para um embate duro, semelhante ao que o país viveu durante o período da Constituinte, em meados da década de1980. 
Nas últimas semanas tem sido articulada uma frente que visa aglutinar os partidos progressistas, ou, além disso, até mesmo parlamentares ou militantes que se sintam desconfortável com os rumos políticos de seus partidos. Isso por si só, representa um fracasso, embora a medida seja necessária e importante.  Pois demonstra que os rumos que seguíamos foi bloqueado, e os desvios que se apresentam à nossa frente nos encaminham para uma região pantanosa ou abissal. Mas, evidente, não se pode ficar parado diante do que se avizinha e dos retrocessos em curso, por isso a iniciativa é louvável, e quiçá possa seguir adiante e se fortalecer.
Por isso do que trato aqui é de reconstrução.  Numa realidade absolutamente adversa, pois a "opinião pública", se tornou adepta e defensora das pautas reacionárias, abrindo espaço para retirar dos sarcófagos sicofantas que até então encontravam-se no limbo, recuados, preparando suas oferendas para que demônios os ajudassem a levar o país para o caos.  Não foi preciso demônios para isso. A crise era eminente, e sistêmica, e o governo ignorava que seria impossível passarmos ao largo dela imune.
O tsunami que atingiu o capitalismo em 2008 deixou aos escombros a maioria dos Estados Nação, notadamente aqueles que rasparam fundo seus tesouros para livrar suas corporações financeiras de uma possível hecatombe, o que poderia varrer todo o sistema financeiro de maneira global. Com raras exceções, mas que mesmo assim tiveram seus crescimentos reduzidos. 
O Brasil surfou bem na onda da crise, por causa de uma forte demanda interna, aquecida por programas sociais e incentivos do Estado. Mas a redução das exportações, como consequência da crise internacional, afetou o desempenho econômico brasileiro, agravado pelo pessimismo criado por uma mídia que ao mesmo tempo omitia a dimensão da crise, criando na opinião pública a sensação de incompetência do governo federal independente dos problemas mundiais. Tudo isso se complicou com as denúncias de corrupção envolvendo a maior empresa brasileira e uma das maiores do mundo no campo da pesquisa e prospecção de petróleo. Devidamente explorado pela mídia e setores oposicionistas, como deveria ser esperado.
A junção da crise econômica mundial com a crise política brasileira teve acrescido outro ingrediente, o descontrole das contas públicas, levando à necessidade de um ajuste que afetou praticamente todos os avanços obtidos nos últimos anos.
A partir daí a caixa de Pandora[2] foi aberta e deixou-se retida a esperança, acabrunhada e reprimida, sem perspectiva de se manifestar diante do pessimismo produzido pelos arautos do caos e perversores da humanidade. 
É preciso agora resgatá-la, libertar a esperança antes que seja limitada e aprisionada, senão como uma ditadura, mas com uma enorme probabilidade da ascensão de um regime totalitário baseado em fundamentalismos religiosos fundado em um fascismo moderno. 
Mais do que um enfrentamento político o que é preciso fazer é se bater de frente, em um confronto ideológico, corajoso e imprescindível, demarcando campos e esclarecendo a população sobre os riscos que se escondem por trás das ações demagógicas de raposas que se disfarçam de pastores, com perdão do trocadilho.
Naturalmente o rumo em que eu iniciei esse artigo se desfaz, simplesmente porque os que seriam os protagonistas principais, pela força que detinham, perderam-se em meio às suas crises identitárias. Ainda podem colaborar, mas no momento não se apresentam como alternativas para nos conduzir a um outro patamar, com novos posicionamentos políticos, diante da complexidade da atual crise. No caso do Partido dos Trabalhadores, a existência de uma liderança inegavelmente ainda com forte influência em meio às camadas populares, talvez não seja suficiente para refazer seu caminho.
Não basta, nas atuais circunstâncias eleger um ungido para impedir a vitória da direita raivosa. É preciso mais do que isso, até porque é preciso garantir que não haja golpe a té lá. Torna-se fundamental resgatar a credibilidade da esquerda, reconstruir a esperança e apresentar elementos seguros, para a população, que o caminho percorrido até aqui não pode ser bloqueado por comportamentos retrógrados e elitistas. Retornar ao meio do povo, no entanto, implica em convencê-lo que as medidas tomadas pelo governo não lhes afetará. Uma tarefa bastante difícil, devido ao que se propõe o ajuste fiscal, além das taxas estratosféricas dos juros, com a adoção de um remédio que fatalmente levará à UTI o enfermo.
Estamos tal qual um indivíduo posto em um enorme labirinto. Falta-nos o fio de Ariadne[3] que nos garanta encontrar a saída com segurança. Até porque o governo brasileiro está longe de ter a coragem que tem apresentado o governo grego, batendo-se de frente contra a poderosa troika, que vem a ser o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, e evitando persistir em políticas econômicas mais danosas aos cidadãos gregos.
Ademais, o partido que dá sustentação à presidenta, encontra-se acuado, encostado na parede por conta da incompetência em saber lidar com as enormes adversidades existentes na sociedade brasileira, potencializadas pelas manifestações populares desde 2013, alimentadas pela direita e por setores estrangeiros vinculados às grandes corporações internacionais, principalmente aos Estados Unidos. Mas, inegavelmente, por ter-se enredado nas mesmas contradições, como dito anteriormente, o que significaria ter que cortar na própria carne e refazer-se. Convenhamos, para um partido que está no poder isso significa uma tarefa extremamente difícil, praticamente impossível.
Daí porque a frente de esquerda que está sendo articulada pode vir a representar uma válvula de escape para uma situação sem muitas alternativas. Com isso pode-se pensar numa estratégia voltada para recuperar a credibilidade junto às camadas populares e à juventude, mas não sem adotar uma postura aguerrida, ofensiva e disposta a elevar o tom dos embates ideológicos, única condição de retomar o caminho de esquerda que na primeira década deste século transformou a América Latina.
Se vai ser possível seguir esse caminho é difícil saber. Mas, retomar as ações que sempre caracterizaram a esquerda brasileira e ter coragem de adotar atitudes firmes frente à ofensiva reacionária, já podem significar passos importantes para reverter a situação atual, e, acima de tudo, reconquistar apoio popular. Caso contrário, o golpe que está sendo gestado desde o começo do ano será concretizado, jogando o país em um enorme retrocesso e certamente em um maior acirramento da política no Brasil. Tempos sombrios estão a nos ameaçar.



NOTAS
[1] Para entender melhor o significado da expressão, e a composição de Stanislaw Ponte Preta, recomendo o texto no link a seguir: http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S23.0275.pdf
O Samba do Crioulo Doido: a carnavalização do samba-enredo e da História oficial do Brasil. Profa. Dra. Dislane Zerbinatti Moraes – USP.
[3] “Conforme a mitologia Teseu, um jovem herói ateniense, sabendo que a sua cidade deveria pagar a Creta um tributo anual, sete rapazes e sete moças, para serem entregues ao insaciável Minotauro que se alimentava de carne humana, solicitou ser incluído entre eles. Em Creta, encontrando-se com Ariadne, a filha do rei Minos, recebeu dela um novelo que deveria desenrolar ao entrar no labirinto, onde o Minotauro vivia encerrado, para encontrar a saída. Teseu adentrou o labirinto, matou o Minotauro e, com a ajuda do fio que desenrolara, encontrou o caminho de volta. Retornando a Atenas levou consigo a princesa”. (Desenrolando o fio de Ariadne: http://www.unicamp.br/~hans/mh/fio.html)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

PARA SEMPRE NA MEMÓRIA (RELEMBRANÇAS)

 24 de junho de 2015. Completaram-se 14 anos da morte de meu pai (2001). Foi em seu velório, em meio à dor que eu sentia, que fiquei sabendo da morte de outro baiano ilustre, na mesma data. Este um conhecido cidadão do mundo: Milton Santos. Com esse artigo homenageio Milton Santos, por sua dimensão histórica-geográfica mundial, e por extensão, meu pai, cujo papel político se restringiu ao seu Estado e a sua sempre querida cidade natal, Alagoinhas, onde foi vereador por quatro mandatos(*).

Meu pai, Romualdo, com minha
mãe, Maura. Foto de 1991
Meu pai faleceu no mesmo dia que meu Milton Santos. Romualdo Pessoa Campos, também baiano, vereador por 16 anos pelo PTB, na cidade de Alagoinhas, e por várias vezes secretário  da mesa diretora do legislativo daquela cidade, até ser preso em 1964 e ter desistido da política, tornando-se funcionário público do DNER até se aposentar. A altivez e o orgulho pelo seu trabalho alimentavam uma esperança de que o nosso país desse certo pelo esforço de cada um, como ele fazia.
24 de junho, dia de São João, tão lembrado pelos nordestinos. Um dia para ficar para sempre guardado na minha memória.
Um, cidadão do lugar, incorporado na força dos lentos, baiano do interior, embora quase anônimo me alimentou o orgulho de ser seu homônimo. O outro, também baiano, cidadão do mundo (embora ele não gostasse dessa expressão), esgrimindo na força de seus argumentos, de suas criações e elaborações intelectuais a esperança de um outro mundo, de uma outra globalização. E a morte, a igualá-los na eternidade do meu pensamento, na afinidade dos meus sonhos, na consolidação das minhas crenças, e na afirmação das certezas de que embora curta a nossa vida nessa imensidão de tempo que gesta e desenvolve a humanidade, vale a pena lutar, mesmo sendo ela, a morte, a única certeza do porvir. Mas ela não deve nos desanimar, e sim nos reconfortar, na medida em que escapemos da nossa individualidade e possamos transferir nossos sentimentos humanistas para a construção de uma utopia, sem a qual a nossa existência não teria sentido.

MILTON SANTOS: DA BAHIA PARA O MUNDO
CIDADÃO DO MUNDO
Conheci Milton Santos, em 1996 no Simpósio realizado na USP em sua homenagem: “O mundo do cidadão - cidadão do mundo”. Tempo suficiente para aprender a respeitá-lo e admirá-lo, e a me tornar leitor ardoroso de seus textos e livros.
Também baiano, como ele, formado em História, com pós-graduação nessa mesma área, entrei na Universidade Federal de Goiás em um concurso realizado no curso de Geografia, em 1995 para ministrar aulas de Formação Econômica e Social, também dentro da minha área de formação. Ao final do primeiro ano eu tinha uma firme convicção da importância dessa disciplina, por ser ela fundamental para o entendimento da relação tempo-espaço. Afinal, nada se dá fora do tempo, nem ocorre no vazio, senão num determinado espaço. Além da fundamental compreensão de que nada acontece isoladamente, somente este ou aquele fato podendo ser explicado dentro de um processo que aponte as causas e nos dê a dimensão de um presente que nada mais é do que a somatória de tempos passados. A junção e conjunção de espaços que se transformam num acumulo incessante de novos objetos, gerados por outros, que, outrora novos, foram envelhecidos pelo tempo.
Milton Santos passou a ser um referencial para um redirecionamento das minhas dimensões intelectuais. Primeiro, por uma iniciativa própria, senti a necessidade de buscar nas leituras da Geografia a condição necessária para me dar a compreensão de que eu estava ali para ajudar na formação de Geógrafos. Nada mais justo, e coerente, que procurasse aliar os meus conhecimentos historiográficos, à noção e dimensão do pensar geográfico. Senão me perderia num emaranhado de conceitos e categorias, vendo-os de maneira formal, como se vê habitualmente no senso comum, e banalizando a importância do conhecimento geográfico para o entendimento das relações humanas. É preciso bem mais do que uma mera análise da superfície terrestre; dos cursos dos rios; dos afluentes das margens esquerdas e das margens direitas; da localização cartográfica; das capitais e de seus estados; dos tipos de solo e da qualidade da água. Questões importantíssimas para entender o todo que abrange o nosso planeta, mas insuficientes se desconsiderarmos o principal elemento de ligação: o ser humano, razão primeira e última da existência de todo conhecimento, pois é por ele que todo o saber é gerado.
GEOGRAFANDO O HUMANO
O viés humano da Geografia transportava-a, do sentido estrategicamente imposto por séculos, desde os seus primórdios, que visava facilitar (e guardar) a localização de fronteiras dos nascentes Estados absolutistas, ou desde já o desenvolvimento cartográfico para tal fim, objetivando encontrar mercadorias e mercados, para uma visão mais ampla e racional, no entendimento de que era preciso inseri-la como uma ciência humana.
O lugar, o território, o espaço, a paisagem, as cidades, o urbano e o rural; a cultura, as tradições, enfim a busca de conhecimentos não mecanicamente estabelecidos, mas numa interação dialética que aponta claramente as relações entre o planeta e a sociedade, visualizando as “heranças sociais materiais e o presente social”[1]. Sem se limitar, contudo, à simples constatação de uma determinada realidade, mas procurando soluções que dêem conta de resolver os problemas da imensa maioria da população.
A Geografia mudou, num percurso oposto àquele tomado pela História. Enquanto aquela buscava abranger o todo numa abordagem dialética, encontrando no marxismo os elementos basilares para o entendimento da racionalidade e das contradições que moviam as sociedades humanas, o conhecimento histórico tomava outro rumo, caracterizando-se pela fragmentação. A História fragmentara-se e aprofundara-se no localismo, no cotidiano e nas mentalidades, e à medida que aprofundava-se em suas especificidades, afastava-se do presente e da noção de totalidade, mesmo procurando evitar os riscos do anacronismo.
Apesar de Braudel, que soube trabalhar brilhantemente as noções de espaço e espacialidade, e via tempo-espaço como inseparável, o enfoque dialético que ligará os restos do passado à inexorabilidade das explicações do presente, transfere-se para a Geografia, aproximando-a cada vez mais da sociologia, da filosofia, da economia e da própria história.
E ninguém melhor do que Milton Santos soube compreender o momento da Geografia, direcionando seus olhares para o fazer, na maneira como o homem no presente constrói o seu futuro sobre os restos do passado. Vendo nas técnicas, e em seus usos, as respostas para o entendimento das complexas relações sociais, como “um dado fundamental da explicação histórica, já que a técnica invadiu todos os aspectos da vida humana, em todos os lugares”.[2] Mas, mesmo com tais considerações, ele via a vida “não como um produto da técnica, mas da política, a ação que dá sentido à materialidade”[3]
Surpreendentemente, se considerarmos os direcionamentos dos fatos históricos das duas últimas décadas do Século XX, a produção intelectual do professor Milton Santos avançou na contramão de idéias hegemônicas que procuravam colocar-se como esclarecedoras e definidoras de um fatalismo, que nos impunha a crença em um fim do qual não poderíamos escapar. A “globalização” colocava-se como inevitável, e a sociedade futura como um deslumbramento da vitória do “livre-mercado” sobre o “leviatã”, inoperante máquina do Estado a entravar o progresso. Não somente o neoliberalismo despontava como o ápice das liberdades, como o pós-modernismo surgia para por fim à uma época que se caracterizou pela consolidação dos Estados-Nações e que alcançou seu auge, e também os limites de suas contradições, com o Welfare-State. A crise do socialismo dava um ar de déjà-vu, de estancamento de uma utopia cujo “fracasso” só confirmava a convicção de ser o capitalismo e a economia de livre-mercado o futuro incontestável da humanidade.
Não foi essa a análise que fez Milton Santos em 1993, momento máximo da euforia neoliberal, no 3° Simpósio Nacional de Geografia Urbana, realizada no Rio de Janeiro, quando apontava as principais tendências dos anos 90:
“Na hora atual, e para a maior parte da humanidade a globalização é sobretudo fábula e perversidade: fábula porque os gigantescos recursos de uma informação globalizada são utilizados mais para confundir do que para esclarecer: a transferência não passa de uma promessa. (...) Perversidade, porque as formas concretas dominantes de realização da globalidade são o vício, a violência, o empobrecimento material, cultural e moral, possibilitados pelo discurso e pela prática da competitividade em todos os níveis. O que se tem buscado não é a união, mas antes a unificação”.[4]
Contudo, apesar da acidez das suas críticas quanto ao processo da globalização, da destruição de valores e do encolhimento do indivíduo à superficialidade de suas relações, gerado pelo enorme poder da massificação midiática, Milton Santos apontava na contradição de ser este mundo três em um só, o elemento motivador da crença de que a globalização não passa de uma percepção enganosa onde se impõe a informação, alicerçada na produção de imagens e do imaginário. “O primeiro é o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização”[5].
Assim, direcionou seus últimos escritos na contraposição do discurso hegemônico, caracterizado como “Consenso de Washington”, e se tornou uma das vozes mais importantes na abordagem do processo que atravessa a humanidade nas últimas duas décadas do século passado. “Ao contrário do que se disse antes, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. (...) O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes”.[6]
Acreditando na força do pobre e do lugar, Milton Santos enfatizava, utilizando-se de uma expressão da professora Maria Adélia de Souza, que “todos os lugares são virtualmente mundiais”,[7] o próprio sentido da globalidade corresponderia a uma maior individualidade, e nessa relação unicidade-totalidade acreditava que tornava-se necessário encontrar os novos significados do mundo atual redescobrindo o lugar.
Aos pobres ele concedia a primazia de situar-se num ponto de intersecção com o futuro. Acreditava que o distanciamento ao totalitarismo da racionalidade transformava as imagens do conforto, da modernidade tecnológica, em miragens para aqueles que por não estarem inseridos nessa aceleração contemporânea, nesse mundo da profusão de sempre novos objetos, eram por ele caracterizados como “homens lentos”. E por assim ser, por escaparem dessa ventura vedada aos ricos e às classes médias, é que os pobres podem esquadrinhar as cidades e ver na diversidade a necessidade de transformação.
FILOSÓFO DA GEOGRAFIA
“Trata-se, para eles, da busca do futuro sonhado com carência a satisfazer -carência de todos os tipos de consumo, consumo material e imaterial, também carência do consumo político, carência de participação e de cidadania. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abundância do outro e entrevisto, como contrapartida, nas possibilidades apresentadas pelo Mundo e percebidas no lugar”.[8]
Como afirmou o geógrafo e ex-presidente da SBPC, Aziz  Ab’Saber, Milton Santos foi um filósofo da Geografia. Procurou incorporar a crítica aos seus estudos geográficos num crescente resgate da concepção humanista, fundamentada na dialética marxista e no existencialismo sartriano. E assim, ele se impôs perante a Geografia mundial, e no Brasil se tornou um dos mais citados intelectuais das três últimas décadas. Para confirmar a exceção, numa regra caracterizada pela formação cultural dominada por uma elite branca e “estrangeirizada”, a sua cor negra não foi barreira para que se consolidasse como uma das vozes altissonantes da universidade brasileira, e de nossa cultura de uma maneira geral. Autoridade que lhe permitia, inclusive, cobrar coerência de seus colegas de Academia, e a ser duro nas críticas à apatia em que vivia a universidade.
No seu último escrito, um artigo publicado pelo jornal Correio Braziliense, afirma que “por definição, vida intelectual e recusa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás, é um traço distintivo entre os verdadeiros intelectuais e aqueles letrados que não precisam, não podem ou não querem mostrar, à luz do dia, o que pensam. (...) A apatia ainda está presente na maior parte do corpo professoral e estudantil, o que é sinal nada animador do estado de saúde cívico dessa camada social cuja primeira obrigação é constituir, como porta-voz, a vanguarda de uma atitude de inconformismo com os rumos atuais da vida pública”[9].
***
Quando escrevi esse artigo minha filha ainda estava viva. Em 2007 ela também se foi, para ficar para sempre na memória. Certamente a palavra que usei no parágrafo anterior – reconfortar - passou a ter um peso maior com a morte dela. Sigo tentando, mas é muito difícil, afinal, embora seja mais fácil nos conformarmos com a morte de nossos pais, pela ordem natural quando chegada a velhice - assim imaginamos – é diferente quando perdemos um filho ou uma filha. Mas, sim, a morte não pode desanimar aqueles que ainda não sucumbiram a ela e que carregam consigo a utopia de um outro mundo, mais justo e solidário. Apesar das evidências apontarem para o contrário, no coração da maioria prevalece esse sentimento que embalou a vida dos que aqui homenageamos. Inclusive minha filha, que como canta Gonzaguinha, carregava essa certeza na pureza de ser criança. A vida, ela segue, a não ser para aqueles que já passaram por ela e nos esperam em algum lugar.

(*) Este artigo foi escrito no mês de junho de 2001, duas semanas após a morte de meu pai e de Milton Santos, um ano de perdas pessoais e de abalos geopolíticos mundiais com o ataque terrorista ao World Trade Center. Foi publicado nesse mesmo ano no Jornal Opção, de Goiânia, no Jornal A Tarde, de Salvador em um suplemento cultural especial sobre Milton Santos. Depois inseri o texto, com alguns reparos no Boletim Goiano de Geografia, Vol. 21, n. 1. Em 2010 postei um resumo dele neste Blog. Agora resolvi publicá-lo na íntegra para lembrar os 10 anos da morte desses dois baianos que de maneiras diferentes foram personagens importantes em minha vida. Um me fez gente como sou, o outro me aproximou da Geografia para sempre. 
(**) 24 de junho de 2015. Volto a publicar este artigo, quatorze anos depois da morte de meu pai, e de Milton Santos. O que está dito  aí não pode ser apagado. Eu relembrarei sempre nesta data.

[1] Santos, Milton. Território e Sociedade. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2000. Pág. 26
[2] Santos, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Ed. Hucitec, 1994. Pág. 67
[3] Idem, Pág. 39
[4] Idem, Pág. 56
[5] Santos, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000. Pág. 18
[6] Idem, Pág. 172
[7] Santos, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996. Pág. 252
[8] Idem, Pág. 261
[9] Correio Braziliense, 03 de junho de 2001
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Postado por Romualdo Pessoa às 10:19 

terça-feira, 2 de junho de 2015

GEOPOLÍTICA, ESPIONAGEM E CONTRAESPIONAGEM

A Geopolítica foi por muito tempo discriminada na geografia. As consequências da difusão das estratégias geopolíticas de Haushofer e sua assimilação por Hitler, e o expansionismo nazista inspirado em seus ensinamentos, a manteve afastada da academia, só sendo resgatada com a obra de Yves Lacoste, “A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”. Prevaleceu por todo esse tempo, em especial aqui no Brasil que recebeu forte influência da escola geográfica francesa, as idéias de Vidal de La Blache. O estudo da região se impôs sobre o território. Com isso, a visão de estratégia, elemento essencial para compreender as decisões dos Estados-Nações, bem como a maneira como olhamos o mundo e as decisões políticas, ficaram reféns dos aparelhos de Estado. Enquanto isso, nas universidades, pouco se utilizava da geopolítica. O advento da Geografia Crítica possibilitou que essa situação se revertesse, trazendo a necessidade da reinserção da política nas abordagens da Geografia, como forma de entendimento do processo de ocupação do espaço.
A “Globalização” e as transformações pelas quais o mundo passou a partir da década de 1990 impôs mais ainda, com muita força, a importância da análise geopolítica para compreender toda a dinâmica de um mundo que se movia conectado, e a virtualidade das novas tecnologias, via internet, acelerava a importância de se compreendermos essas mudanças, acompanhá-las e nos adequarmos a elas. Nunca a necessidade do conhecimento estratégico se tornou tão importante, não somente para os estados maiores, como falava Lacoste. Nos negócios, nos embates cada vez mais corriqueiros de um mundo multipolar, nas alterações das alianças globais e dos surgimentos dos blocos regionais, nas guerras travadas não somente pelos métodos tradicionais, mas até mesmo no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Planejamento, estratégia, habilidades políticas, domínio do terreno em que se está atuando, capacidade de conhecer o seu adversário, oponente ou concorrente, por tudo isso, e muito mais, o milenar livro de Sun Tsu, “A Arte da Guerra”, constituiu-se em um best-seller. E, assim, no âmbito da Geografia, das Relações Internacionais e da Ciência Política, o entendimento da Geopolítica e das teorias clássicas dos mais importantes geopolíticos, teóricos ou estrategistas, se tornou nos dias atuais essencial.
Por tudo isso, o conhecimento se tornou uma arma vital no mundo contemporâneo. Seguindo-se os ensinamentos de Sun Tsu, se perceberá a importância disso. É preciso conhecer-se a si mesmo, mas isso não será suficiente se não conheceres teu oponente. Isso se aplica nos mundos dos negócios, e, principalmente, na guerra. Por isso, nos últimos anos se têm valorizado tanto aqueles que se destacam com capacidades cognitivas e raciocínios rápidos. Assim, para se destacar uma liderança política, jovens que frequentam escolas com perfis de excelência são visados para serem cooptados com esse objetivo, bem como aqueles que possuem qualidades destacadas na relação com as tecnologias modernas, sejam bons matemáticos e lidem com facilidades com o mundo cibernético. São alvos potenciais de agências de inteligência, mas também do mundo dos negócios, por meio das mais destacadas corretoras que atuam no sistema financeiro.
Vemos hoje que não se busca identificar jovens com capacidade crítica, o conhecimento que se deseja é aquele que se pode adequar aos objetivos estratégicos, devidamente planejado, desses setores listados. Essa é uma nova face do capitalismo, do mundo globalizado, e das disputas no mundo cibernético. Na política, na guerra, nos negócios.
O mundo passou a ser, portanto, um campo de disputa global. E, como numa guerra, e é uma guerra, no entanto, os mesmos mecanismos adotados nos confrontos bélicos, são utilizados no mundo dos negócios e das finanças. E, na arte da guerra, estratégia e tática são fundamentais, mas, especialmente, o conhecimento do seu oponente. E para isso se acentuou no pós-guerra fria, por incrível que pareça, o número de espiões e ações de espionagem, tanto estatais, como terceirizadas, por meio de empresas sofisticadas que agem a serviço de grandes corporações e de países. Vamos abordar alguns elementos do crescimento da espionagem no mundo.
Nunca se espionou tanto no mundo quanto nos dias atuais. Essa característica, da espionagem, se intensificou mais durante a guerra fria, pela própria característica desse tempo, em que duas grandes superpotências disputavam a hegemonia mundial agressivamente, mas sem jamais chegarem a um confronto direto. A espionagem tornou-se o elemento mais forte nessa disputa e levou a embates espetaculares, gerando a partir disso uma literatura farta e amplamente lida. Os maiores Best Sellers tem em suas listas as presenças frequentes de ex-agentes que se dedicaram a relatar em romances eletrizantes o mundo da espionagem. Dentre estes se destacam John Le Carré e Ian Fleming.
A globalização amplia isso em proporções inimagináveis. Não somente em ações que visam obter informações dos Estados Nações, mas tanto nos embates entre as grandes corporações, pela busca de segredos e dados sobre novos produtos em disputas hercúleas pelo mercado, como também na chamada guerra contra o terror, de todos os lados, mesmo dos grupos terroristas, que agem nos dois aspectos, tanto fisicamente quanto por meio de ações cibernéticas. É possível imaginar uma ação como o ataque ao World Trade Center, sem uma ação de espionagem desenvolvida por vários anos de preparação, com informações detalhadas dos alvos e a sistematização de todos os passos a serem dados nos sequestros dos aviões?
Esse é apenas um exemplo, de um mundo que cada vez mais se caracteriza pela obsessão em atingir a privacidade alheia. Em todas as dimensões, somos permanentemente vigiados, e, seguramente, o advento da internet, e a espetacular transformação tecnológica incessante com a criação de aparelhos sofisticados, que se tornam cada vez mais minúsculos, essa bisbilhotagem passou a se constituir em um forte investimento econômico, possibilitando o surgimento de uma verdadeira indústria da espionagem. O ciberespaço, usado cada vez mais por um número crescente de pessoas, com o aumento do numero de usuários das redes sociais, passou a ser também o ambiente de uma verdadeira guerra, não tão fria como no passado, mas que envolve cada vez mais jovens especializados em invadir ambientes virtuais alheios. Sequer as próprias agências de espionagem escapam dessas investidas.
A contraespionagem, por outro lado, também sempre se fez presente, desde tempos milenares. Infiltrar espiões em meio às tropas inimigas sempre foi uma tática adotada desde os enfrentamentos no mundo antigo. Em uma época em que a comunicação era limitada, somente com a presença de elementos que pudessem repassar informações sobre o poder do inimigo era possível se ter o conhecimento da capacidade do oponente. Mas, quando esse espião era descoberto, nem sempre era eliminado. Procurava-se cooptá-lo, oferecendo-lhe não somente a vida, que seria poupada, como se cobria os valores que ele recebia. Assim, esse espião repassava informações falsas para o seu país, ou seus comandantes, e entregava as medidas adotadas para atacar o adversário, para o qual então ele passava a espionar. O que muda nos tempos atuais são os instrumentos pelos quais esse tipo de guerra nas sombras se desenvolve, com o desenvolvimento de tecnologias que possibilita uma outra guerra ser travada, agora no mundo virtual, cujo objetivo é decifrar códigos e mensagens criptografadas para se conhecer os segredos inimigos.
Tanto quanto a contraespionagem, a contra-inteligência tem o objetivo de atingir o adversário naquilo que se torna fundamental nos dias atuais: o segredo.  E impedir que o inimigo tenha acesso a informações estratégicas importantes. Por isso a adoção de códigos e mensagens criptografada. Contudo, nos dias de hoje, com a disseminação de jovens que se dedicam a uma verdadeira guerrilha virtual, os hackers, boa parte das agencias de espionagem buscam também cooptá-los. Alguns dos hackers mais procurados do mundo, terminaram por se constituírem em elementos chaves na área de contra-inteligência.
As descobertas tecnológicas são irrefreáveis. E, por mais paradoxal que possa parecer, os avanços de novas tecnologias estão diretamente ligadas à indústria da guerra. O que mais alimentou a Guerra Fria foi exatamente a corrida armamentista e a corrida espacial. Ambas propulsoras das sofisticações tecnológicas. Se não no campo dos embates diretos, como numa guerra, acontece também na procura por descobertas que se tornem instrumentos de dominação e de controle. De domínio no âmbito das inovações tecnológicas. A inteligência artificial é uma espécie de caminho natural da sequência do processo de robotização da sociedade, uma eterna jogada de deus que acomete sempre os seres humanos, principalmente quando motivados por questões relacionadas ao Poder.
Os Drones representam uma nova estratégia de combater rebeldes em toda parte do mundo, os inimigos externos, identificados como perigosos ao Estado conforme a Doutrina de Segurança Nacional, na qual Bush se baseou para criar o Patriot Act, derrotado esta semana no Congresso dos EUA devido aos escândalos de espionagem denunciado por Edward Snowden. São utilizados na eliminação direta, ou na espionagem para identificar esses inimigos e eliminá-los de forma menos visível. Mas quase sempre os efeitos colaterais são extremamente perversos, com a morte em larga escala de civis.
Drones chineses
Essas novas descobertas tecnológicas militares, terminam por se tornarem instrumentos de negociação com os Estados e são também adotados em outras áreas, seja na pesquisa, agricultura, etc. Constituem-se em mercadorias sofisticadas disputadas e copiadas por todos os países que possuem condições para tal. Cada vez mais um número maior de países irá adquirindo condições de avançar na criação de novas tecnologias de guerras. O Estado de Israel é um dos mais bem preparados para isso. Além do compartilhamento de tecnologias com os EUA, Israel é um dos países com maior capacidade bélica e com uma estrutura moderna desse campo, além de possuir um dos mais temidos sistemas de espionagem do mundo. O Irã também já consegue produzir drones. Mas, como em quaisquer outras circunstâncias, a cada um fabricado dezenas de outros modelos já estão em processo de pesquisa para serem produzidos de forma mais sofisticada. É uma corrida armamentista disfarçada de “uma enorme revolução tecnológica”. Recentemente um drone palestino, sob controle do Hamas, foi derrubado por armas israelenses(**). Indicando que esse tipo de tecnologia de guerra já se encontra ao alcance de estados menores, e até mesmo de grupos ou organizações que não tem vinculação com Estados. O Irã, por exemplo, começou a produzir drones, a partir de cópia feita após interceptação e apreensão de um modelo estadunidense. Inserem-se também na lista de armas possíveis de serem contrabandeadas pelo comércio clandestino de material bélico. Mas, é preciso ressaltar, as ações dos drones são antecedidas pelas atividades de agentes espiões, que identificam o potencial inimigo e apresentam as condições pelas quais ele possa ser abatido.
Drone da Embrapa
Mas os drones serão usados cada vez mais em todos os tipos de atividades e de missão. Na Universidade Federal de Goiás, no Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento, ele já é usado para mapeamento de solo E tem sido usado no combate às drogas pela Polícia Federal, como também por empresas agrícolas no combate de pragas e monitoramento da produção. Como dito anteriormente, as tecnologias avançam a partir da indústria da guerra.
É possível ver essas situações em muitos filmes escritos por roteiristas que se baseiam em livros elaborados por ex-espiões. Os mais bem sucedidos filmes de ação, com foco na espionagem, ou tem espiões como consultores, ou são escritos por quem já esteve exercendo essas funções, como já citei, Yan Fleming e John Le Carré são bons exemplos. Claro que a ficção sempre amplia na espetacularização dos fatos, bem como dão uma dimensão de super-herói a alguns espiões. O que esses filmes nos mostram, no entanto, é a  capacidade que o Estado tem de agir nas sombras, de perseguir e vigiar permanentemente qualquer cidadão, que, por meio das tecnologias atuais, são facilmente identificados e localizados. Bem como a forma como o poder geoestratégico de alguns recursos e de alguns territórios, tornam as políticas externas verdadeiras jogadas de desconstrução e destruição dos inimigos, ou de governantes que se recusem a jogar o jogo das grandes potências.
A corrida espacial sempre foi vista como um dos alimentos da guerra fria, por onde campeavam espiões em busca de informações que pudessem fazer uma potência superar a outra, ir mais longe na conquista do espaço e assim demonstrar sua superioridade. Mas é mais do que isso, as experiências dessas incursões à lua, ou em outros planetas tem também o objetivo de identificar outros tipos de minérios, comprovar experimentos, e encontrar recursos, principalmente água. Representa, também, é claro, o poderio de um país no âmbito da disputa tecnológica. Mas, seguramente, é no campo da pesquisa que tem o seu maior foco e resultado.


(*) Artigo adaptado de uma entrevista concedida para um trabalho de pesquisa e produção de um livro sobre Espionagem, Inteligência Cibernética e Artificial. 
Fontes:
Para ler:
LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra. São Paulo: Papirus, 2001
TSU, Sun. A Arte da Guerra. Várias edições e editoras
PERKINS, John. Confissões de um assassino econômico. São Paulo: Cultrix, 2004

WOLOSZIN, André Luis. Guerra nas sombras. Os bastidores dos serviços secretos  internacionais. São Paulo: Contexto, 2013

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O MAL DA UNIVERSIDADE: A NORMOSE


“Com esse artigo pretendo demonstrar como o ambiente universitário é marcado por uma certa perversão, onde a competição impõe restrições para a existência de um ambiente fraterno e como, pelos critérios utilizados para avaliação dos docentes, a história daqueles que estão há mais tempo na universidade é relegada a uma nulidade. Sucumbimos diante de um produtivismo exacerbado e deixamos escapar oportunidades de debater temas cruciais para a melhoria da sociedade. Vivemos ensimesmados, metidos em uma redoma e preocupados com o nosso sucesso pessoal, onde a vaidade permeia e somos forçados a seguir regras rígidas que impedem que esse ambiente fuja da normalidade impositiva e nos permita ser criativos, críticos e inovadores. Não avançamos, paramos num tempo que já passou, comandados por uma ideologia neoliberal fracassada”


Já abordei aqui nesse blog os mecanismos que impõe, por critérios que não aprecia a qualidade, uma camisa de força aos que porventura tentarem optar por fazer da atividade docente um estímulo à criatividade, ou a garantir que, com liberdade de cátedra, possamos sentir o prazer de inovar, criticar e produzir fora das chatices que nos impõe a rigidez das regras capesianas. E mais, podermos lidar com novas formas de conhecimento, que reflita a amplitude que deve ter, em sua totalidade, ao invés da fragmentada “renovação” pós-moderna, que nos enfiaram goela abaixo os neoliberais que deformaram essa instituição. Tornamos-nos “especialistas”, numa sociedade onde a maioria, de forma obtusa, acredita saber de tudo. E, paradoxalmente, essa mesma sociedade não nos vê como doutores. “Doutores” são outros.
Contudo, esses mecanismos não foram introduzidos de forma aleatória. Isso acompanhou toda uma transformação que levou a todos os cantos do mundo – ou a quase todos – a onda da globalização. Era preciso implementar, dentro da estrutura formadora da “inteligência”, elementos ideológicos que criassem uma geração de novos cientistas, adaptados a uma era movida à tecnologias cada vez mais sofisticadas. A técnica passou a ser o suprassumo que justificava principalmente a transformação da sociedade de rural em urbana. Mais do que isso, acompanhado de tecnologias que nos tornassem dependentes cada vez mais dos objetos, e de uma ideologia que não implicasse com esses novos comportamentos.
Ao contrário, os deslumbramentos gerados por essas mudanças viriam a tornar as novas gerações mais do que receptoras das ideias desse “novo mundo”, eles se tornariam preceptores, espécies de vigilantes do sistema. A Universidade não poderia ser local mais adequado para criar esses novos modelos de jovens pesquisadores, adestrados e adequados a uma lógica neoliberal, escorada no tripé: competência, produtividade e dedicação. A vida passava a ser adaptada a um novo modelo, cartesiano, produtivista e quantitativista. Uma vitória do positivismo.
O sucesso seria acompanhado de números e estatísticas comprobatórias do que seria você nos últimos cinco anos. E seria preciso, a partir de então, reinventar-se a cada ciclo, para não ser ultrapassado numa corrida cuja disputa só nos leva a um pódio, o do primeiro lugar. A competição passou a ser o motor desse novo modelo, mas a ausência de conteúdo e os limites da busca pelo novo, já que o sistema engessa a criatividade, afastou gradativamente a universidade da sociedade, tornando-a uma redoma, cada vez mais insensível aos problemas sociais.* A não ser pelo quantitativismo das análises estatísticas, devidamente comprovadas pelos argumentos de autoridades. Passou-se a repetir, por necessário, o que outras eminências já haviam dito, e assim sucessivamente. Criatividade, quase zero. Mas isso se tornou suficiente para criar “escolas” e a servir-se a si mesmo, enquanto grupos que se bastam, e que repetem seus fundamentos, enchiam-se de vaidades e deslocavam-se em trocas de indicações por ambientes em que se tornam repetitivas as suas presenças. Isso, no entanto, infla o ego e os faz imaginarem-se superiores em suas limitações fragmentadoras.
A maior perversidade, no entanto, é a destruição da história. A onda arrebatadora que pretendia uniformizar o mundo culturalmente, ou o consenso que se tentava impor por todos os cantos, precisava negar tudo o que significava a vida em processo. Com começo, meio e fim. E mais, que os fatos não se explicassem por suas causas, mas pela eminência do que eles poderiam representar no futuro. Mesmo que esse seja, como de fato o é, uma ilusão. Mas, por não ser um fato, abolia-se, assim, a sua história.
Nessa confusão pós-modernista pouco valor se passou a dar ao que construía nossa vida, ao que explicava o que somos, e a somatória de valores que conseguimos construir por décadas e séculos. Aqui se junta ao que já abordamos em relação à ciência e a tecnologia, a informação. O conhecimento passou a ser conduzido por aqueles que buscavam impor essa nova ideologia, e a se limitar às fronteiras do específico, abolindo a totalidade. Era satisfatório tornar-se autoridade em um assunto limitado, muitas vezes buscando-se explicá-lo por si próprio, completamente desprovido de dialética, portanto, alheio às contradições. Esse tipo de conhecimento encerra-se em si mesmo, é fragmentado e fragmenta-se cada vez mais na sequência da aderência de novos discípulos, que devem seguir disciplinadamente seus orientadores. Pode até mesmo dialogar com os mesmos, mas jamais contrariá-los, pois serão destruídos com o velho argumento da autoridade.
Desprovidos de memórias, achincalhando a história, nega-se o passado. Afirma-se um presente tênue, como naturalmente ele é em realidade, só que sua passagem significa também a construção do passado. E é este que pode explicar todas as transformações nas quais estamos envolvidos. Nossa vida no presente só se explica pelo que fomos no passado. Negar isso é abdicar de procurar respostas para as contradições que movem o mundo. Relegar nossa história de vida aos últimos cinco anos é impedir que tenhamos uma visão holística do que somos e do que fizemos. E o que fizemos é o que garante a possibilidade de conhecer o que somos.
A história tem sido negada permanentemente desde que o neoliberalismo se espalhou pelo mundo. E a onda tecnológica, de informações rápidas e resumidas, essência da globalização, produziu uma geração de estúpidos com comportamentos de gênios. Vaidosos, pelo domínio de conhecimentos compartimentados, fragmentados, assumem-se como competentes em seguir rigidamente as regras que lhes são impostas. Isso garante a ascensão na carreira e a condução para um novo patamar de melhores salários, tudo isso resumido em impiedosos adjetivos: competitividade e mérito. É a absoluta vitória da essência do sistema capitalista, a meritocracia como condição de nos elevarmos a posições de destaques e de melhorias sociais. Os que assim não agirem, de forma a atingir esses píncaros da glória, amargarão eternamente a pecha de incompetentes e de acomodados – e por aí se justifica as desigualdades sociais. Muito embora alguns desses carreguem em suas histórias trajetórias que valem muito mais do que as estatísticas quantitativas de produções medíocres. Ou até mesmo de alguma validade, mas que não são compreensíveis dentro de uma noção que nega o processo que a torna parte de um mundo muito mais abrangente.
Prosseguirei nessa inabalada posição crítica, sem, contudo querer negar a importância da Universidade como produtora do conhecimento, da pesquisa e da formação profissional. Mas de uma Universidade que não se descole da sociedade, e que contribua com esta na correção de rumos que aponta a humanidade para um futuro de relações frias, cada vez mais individualistas, porque assentadas na competição. Uma universidade que resgate a capacidade de discutir e debater os problemas sociais não somente identificando as causas de seus desvios sociais, econômicos, éticos e morais, mas apontando, concretamente, formas de romper com o que se apresenta como nosso destino, disseminado por um ideólogo conservador, pelo qual estaríamos fadados a ver no capitalismo o fim da história.[i] Por uma Universidade viva, que não tolha a liberdade de pensamento e a criatividade dos que desejem inovar e produzir de acordo com as metodologias que lhes convier, e não somente aquelas apontadas e indicadas por supostas cabeças ilustres e especialistas que buscam uma visão cada vez mais limitada de seus próprios umbigos. Fecham-se em copas e refugam o novo, a novidade, a crítica e a capacidade de compreender a vida como um processo contínuo e dialético. Aliás, até a própria dialética tem sido questionada como um método de produção do conhecimento.
Há alguns anos, pouco tempo atrás, em meio a conflitos causados por abalos emocionais, de perda de motivação para prosseguir na luta política em função da morte de minha filha querida, para sempre lembrada por mim com muitas saudades, mas também para sempre uma companhia que estará ao meu lado eternamente enquanto eu viver, eu escrevi aqui mesmo neste blog que me afastava dos embates políticos. Creio ter superado aquele momento. Reencontro-me com motivos e razões para retomar aquelas forças perdidas. 
Vivemos um momento de desesperanças e diante de uma crise que afeta o sistema capitalista em todo o mundo, sem muitas perspectivas que não as guerras. Saio de minha posição, de um conforto que me causava incômodo e de uma decisão de me dedicar ao trabalho acadêmico. Percebi que não tenho o perfil de um indivíduo acomodado, neoliberal, disputando a bíceps espaços demarcado pelo produtivismo estéril. Retorno ao ambiente que me formou, abdico de me consumir pela neurastenia que tem impregnado a Universidade, cuja patologia já tem até um nome, normose, pela qual os indivíduos aderem de forma doentia aos valores que se apresentam na sociedade, sem questioná-los, e a incorporarem como normais.[ii] Eu diria que esse é o caminho que a sociedade tem tomado, e a adquirir uma enfermidade perversa, que acomete o sistema cerebral dos indivíduos e os fazem esquecer-se de quem é e de seu passado. A isso eu dei um nome: “mal de Alzheimer social”.
Contra esse perfil de Universidade, e a fim de combater a mesmice e os que se julgam suprassumos desse sistema marcado pela perversão, volto a me engajar numa luta que já travo desde os tempos de estudante, em um momento de profunda crise, em que perdemos direitos, redução de verbas e vemos avançar medidas que retroagem no tempo. A Universidade precisa estar atenta a essas transformações, e por isso torna-se necessário quebrarmos a redoma na qual a universidade brasileira se fechou e enfrentarmos o desafio de lutar por mudanças mais uma vez, mesmo que de imediato tenhamos apenas que manter aquilo que conquistamos nos últimos anos.

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NOTAS:
* Universidades ou fábricas? - http://www.cartacapital.com.br/revista/850/universidades-ou-fabricas-253.html
[i] Fukuyama, Francis. O Fim da História. Rio de Janeiro: Rocco, 1992