terça-feira, 2 de junho de 2015

GEOPOLÍTICA, ESPIONAGEM E CONTRAESPIONAGEM

A Geopolítica foi por muito tempo discriminada na geografia. As consequências da difusão das estratégias geopolíticas de Haushofer e sua assimilação por Hitler, e o expansionismo nazista inspirado em seus ensinamentos, a manteve afastada da academia, só sendo resgatada com a obra de Yves Lacoste, “A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”. Prevaleceu por todo esse tempo, em especial aqui no Brasil que recebeu forte influência da escola geográfica francesa, as idéias de Vidal de La Blache. O estudo da região se impôs sobre o território. Com isso, a visão de estratégia, elemento essencial para compreender as decisões dos Estados-Nações, bem como a maneira como olhamos o mundo e as decisões políticas, ficaram reféns dos aparelhos de Estado. Enquanto isso, nas universidades, pouco se utilizava da geopolítica. O advento da Geografia Crítica possibilitou que essa situação se revertesse, trazendo a necessidade da reinserção da política nas abordagens da Geografia, como forma de entendimento do processo de ocupação do espaço.
A “Globalização” e as transformações pelas quais o mundo passou a partir da década de 1990 impôs mais ainda, com muita força, a importância da análise geopolítica para compreender toda a dinâmica de um mundo que se movia conectado, e a virtualidade das novas tecnologias, via internet, acelerava a importância de se compreendermos essas mudanças, acompanhá-las e nos adequarmos a elas. Nunca a necessidade do conhecimento estratégico se tornou tão importante, não somente para os estados maiores, como falava Lacoste. Nos negócios, nos embates cada vez mais corriqueiros de um mundo multipolar, nas alterações das alianças globais e dos surgimentos dos blocos regionais, nas guerras travadas não somente pelos métodos tradicionais, mas até mesmo no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Planejamento, estratégia, habilidades políticas, domínio do terreno em que se está atuando, capacidade de conhecer o seu adversário, oponente ou concorrente, por tudo isso, e muito mais, o milenar livro de Sun Tsu, “A Arte da Guerra”, constituiu-se em um best-seller. E, assim, no âmbito da Geografia, das Relações Internacionais e da Ciência Política, o entendimento da Geopolítica e das teorias clássicas dos mais importantes geopolíticos, teóricos ou estrategistas, se tornou nos dias atuais essencial.
Por tudo isso, o conhecimento se tornou uma arma vital no mundo contemporâneo. Seguindo-se os ensinamentos de Sun Tsu, se perceberá a importância disso. É preciso conhecer-se a si mesmo, mas isso não será suficiente se não conheceres teu oponente. Isso se aplica nos mundos dos negócios, e, principalmente, na guerra. Por isso, nos últimos anos se têm valorizado tanto aqueles que se destacam com capacidades cognitivas e raciocínios rápidos. Assim, para se destacar uma liderança política, jovens que frequentam escolas com perfis de excelência são visados para serem cooptados com esse objetivo, bem como aqueles que possuem qualidades destacadas na relação com as tecnologias modernas, sejam bons matemáticos e lidem com facilidades com o mundo cibernético. São alvos potenciais de agências de inteligência, mas também do mundo dos negócios, por meio das mais destacadas corretoras que atuam no sistema financeiro.
Vemos hoje que não se busca identificar jovens com capacidade crítica, o conhecimento que se deseja é aquele que se pode adequar aos objetivos estratégicos, devidamente planejado, desses setores listados. Essa é uma nova face do capitalismo, do mundo globalizado, e das disputas no mundo cibernético. Na política, na guerra, nos negócios.
O mundo passou a ser, portanto, um campo de disputa global. E, como numa guerra, e é uma guerra, no entanto, os mesmos mecanismos adotados nos confrontos bélicos, são utilizados no mundo dos negócios e das finanças. E, na arte da guerra, estratégia e tática são fundamentais, mas, especialmente, o conhecimento do seu oponente. E para isso se acentuou no pós-guerra fria, por incrível que pareça, o número de espiões e ações de espionagem, tanto estatais, como terceirizadas, por meio de empresas sofisticadas que agem a serviço de grandes corporações e de países. Vamos abordar alguns elementos do crescimento da espionagem no mundo.
Nunca se espionou tanto no mundo quanto nos dias atuais. Essa característica, da espionagem, se intensificou mais durante a guerra fria, pela própria característica desse tempo, em que duas grandes superpotências disputavam a hegemonia mundial agressivamente, mas sem jamais chegarem a um confronto direto. A espionagem tornou-se o elemento mais forte nessa disputa e levou a embates espetaculares, gerando a partir disso uma literatura farta e amplamente lida. Os maiores Best Sellers tem em suas listas as presenças frequentes de ex-agentes que se dedicaram a relatar em romances eletrizantes o mundo da espionagem. Dentre estes se destacam John Le Carré e Ian Fleming.
A globalização amplia isso em proporções inimagináveis. Não somente em ações que visam obter informações dos Estados Nações, mas tanto nos embates entre as grandes corporações, pela busca de segredos e dados sobre novos produtos em disputas hercúleas pelo mercado, como também na chamada guerra contra o terror, de todos os lados, mesmo dos grupos terroristas, que agem nos dois aspectos, tanto fisicamente quanto por meio de ações cibernéticas. É possível imaginar uma ação como o ataque ao World Trade Center, sem uma ação de espionagem desenvolvida por vários anos de preparação, com informações detalhadas dos alvos e a sistematização de todos os passos a serem dados nos sequestros dos aviões?
Esse é apenas um exemplo, de um mundo que cada vez mais se caracteriza pela obsessão em atingir a privacidade alheia. Em todas as dimensões, somos permanentemente vigiados, e, seguramente, o advento da internet, e a espetacular transformação tecnológica incessante com a criação de aparelhos sofisticados, que se tornam cada vez mais minúsculos, essa bisbilhotagem passou a se constituir em um forte investimento econômico, possibilitando o surgimento de uma verdadeira indústria da espionagem. O ciberespaço, usado cada vez mais por um número crescente de pessoas, com o aumento do numero de usuários das redes sociais, passou a ser também o ambiente de uma verdadeira guerra, não tão fria como no passado, mas que envolve cada vez mais jovens especializados em invadir ambientes virtuais alheios. Sequer as próprias agências de espionagem escapam dessas investidas.
A contraespionagem, por outro lado, também sempre se fez presente, desde tempos milenares. Infiltrar espiões em meio às tropas inimigas sempre foi uma tática adotada desde os enfrentamentos no mundo antigo. Em uma época em que a comunicação era limitada, somente com a presença de elementos que pudessem repassar informações sobre o poder do inimigo era possível se ter o conhecimento da capacidade do oponente. Mas, quando esse espião era descoberto, nem sempre era eliminado. Procurava-se cooptá-lo, oferecendo-lhe não somente a vida, que seria poupada, como se cobria os valores que ele recebia. Assim, esse espião repassava informações falsas para o seu país, ou seus comandantes, e entregava as medidas adotadas para atacar o adversário, para o qual então ele passava a espionar. O que muda nos tempos atuais são os instrumentos pelos quais esse tipo de guerra nas sombras se desenvolve, com o desenvolvimento de tecnologias que possibilita uma outra guerra ser travada, agora no mundo virtual, cujo objetivo é decifrar códigos e mensagens criptografadas para se conhecer os segredos inimigos.
Tanto quanto a contraespionagem, a contra-inteligência tem o objetivo de atingir o adversário naquilo que se torna fundamental nos dias atuais: o segredo.  E impedir que o inimigo tenha acesso a informações estratégicas importantes. Por isso a adoção de códigos e mensagens criptografada. Contudo, nos dias de hoje, com a disseminação de jovens que se dedicam a uma verdadeira guerrilha virtual, os hackers, boa parte das agencias de espionagem buscam também cooptá-los. Alguns dos hackers mais procurados do mundo, terminaram por se constituírem em elementos chaves na área de contra-inteligência.
As descobertas tecnológicas são irrefreáveis. E, por mais paradoxal que possa parecer, os avanços de novas tecnologias estão diretamente ligadas à indústria da guerra. O que mais alimentou a Guerra Fria foi exatamente a corrida armamentista e a corrida espacial. Ambas propulsoras das sofisticações tecnológicas. Se não no campo dos embates diretos, como numa guerra, acontece também na procura por descobertas que se tornem instrumentos de dominação e de controle. De domínio no âmbito das inovações tecnológicas. A inteligência artificial é uma espécie de caminho natural da sequência do processo de robotização da sociedade, uma eterna jogada de deus que acomete sempre os seres humanos, principalmente quando motivados por questões relacionadas ao Poder.
Os Drones representam uma nova estratégia de combater rebeldes em toda parte do mundo, os inimigos externos, identificados como perigosos ao Estado conforme a Doutrina de Segurança Nacional, na qual Bush se baseou para criar o Patriot Act, derrotado esta semana no Congresso dos EUA devido aos escândalos de espionagem denunciado por Edward Snowden. São utilizados na eliminação direta, ou na espionagem para identificar esses inimigos e eliminá-los de forma menos visível. Mas quase sempre os efeitos colaterais são extremamente perversos, com a morte em larga escala de civis.
Drones chineses
Essas novas descobertas tecnológicas militares, terminam por se tornarem instrumentos de negociação com os Estados e são também adotados em outras áreas, seja na pesquisa, agricultura, etc. Constituem-se em mercadorias sofisticadas disputadas e copiadas por todos os países que possuem condições para tal. Cada vez mais um número maior de países irá adquirindo condições de avançar na criação de novas tecnologias de guerras. O Estado de Israel é um dos mais bem preparados para isso. Além do compartilhamento de tecnologias com os EUA, Israel é um dos países com maior capacidade bélica e com uma estrutura moderna desse campo, além de possuir um dos mais temidos sistemas de espionagem do mundo. O Irã também já consegue produzir drones. Mas, como em quaisquer outras circunstâncias, a cada um fabricado dezenas de outros modelos já estão em processo de pesquisa para serem produzidos de forma mais sofisticada. É uma corrida armamentista disfarçada de “uma enorme revolução tecnológica”. Recentemente um drone palestino, sob controle do Hamas, foi derrubado por armas israelenses(**). Indicando que esse tipo de tecnologia de guerra já se encontra ao alcance de estados menores, e até mesmo de grupos ou organizações que não tem vinculação com Estados. O Irã, por exemplo, começou a produzir drones, a partir de cópia feita após interceptação e apreensão de um modelo estadunidense. Inserem-se também na lista de armas possíveis de serem contrabandeadas pelo comércio clandestino de material bélico. Mas, é preciso ressaltar, as ações dos drones são antecedidas pelas atividades de agentes espiões, que identificam o potencial inimigo e apresentam as condições pelas quais ele possa ser abatido.
Drone da Embrapa
Mas os drones serão usados cada vez mais em todos os tipos de atividades e de missão. Na Universidade Federal de Goiás, no Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento, ele já é usado para mapeamento de solo E tem sido usado no combate às drogas pela Polícia Federal, como também por empresas agrícolas no combate de pragas e monitoramento da produção. Como dito anteriormente, as tecnologias avançam a partir da indústria da guerra.
É possível ver essas situações em muitos filmes escritos por roteiristas que se baseiam em livros elaborados por ex-espiões. Os mais bem sucedidos filmes de ação, com foco na espionagem, ou tem espiões como consultores, ou são escritos por quem já esteve exercendo essas funções, como já citei, Yan Fleming e John Le Carré são bons exemplos. Claro que a ficção sempre amplia na espetacularização dos fatos, bem como dão uma dimensão de super-herói a alguns espiões. O que esses filmes nos mostram, no entanto, é a  capacidade que o Estado tem de agir nas sombras, de perseguir e vigiar permanentemente qualquer cidadão, que, por meio das tecnologias atuais, são facilmente identificados e localizados. Bem como a forma como o poder geoestratégico de alguns recursos e de alguns territórios, tornam as políticas externas verdadeiras jogadas de desconstrução e destruição dos inimigos, ou de governantes que se recusem a jogar o jogo das grandes potências.
A corrida espacial sempre foi vista como um dos alimentos da guerra fria, por onde campeavam espiões em busca de informações que pudessem fazer uma potência superar a outra, ir mais longe na conquista do espaço e assim demonstrar sua superioridade. Mas é mais do que isso, as experiências dessas incursões à lua, ou em outros planetas tem também o objetivo de identificar outros tipos de minérios, comprovar experimentos, e encontrar recursos, principalmente água. Representa, também, é claro, o poderio de um país no âmbito da disputa tecnológica. Mas, seguramente, é no campo da pesquisa que tem o seu maior foco e resultado.


(*) Artigo adaptado de uma entrevista concedida para um trabalho de pesquisa e produção de um livro sobre Espionagem, Inteligência Cibernética e Artificial. Concedida a Felipe de Castro, professor convidado na Faculdade Impacta De Tecnologia, em Segurança da Informação, MBA Gestão em Segurança Da Informação, cursando Bacharel.  Em Teologia. Autor do livro Cyberwar - A verdade nas sombras que será lançado no ano que vem.
Fontes:
Para ler:
LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra. São Paulo: Papirus, 2001
TSU, Sun. A Arte da Guerra. Várias edições e editoras
PERKINS, John. Confissões de um assassino econômico. São Paulo: Cultrix, 2004

WOLOSZIN, André Luis. Guerra nas sombras. Os bastidores dos serviços secretos  internacionais. São Paulo: Contexto, 2013

Um comentário:

  1. Professor, parabéns por mais esse brilhante texto!!!!!!!
    Essas tecnologias informacionais são fruto da revolução técnico-informacional-cientifica (a chamada terceira revolução industrial).
    Os próprios smartphones são constituídos de dispositivos que localizam seus usuários, o que não é nenhuma novidade...
    Mas, a pergunta é: a guerra fria, um dia, acabou? Ou, somente se reconfigurou? Podemos falar em "segunda guerra fria" ou na continuação dela?
    Obrigado por compartilhar dessas valiosas informações em seu blog!!!!
    Abraços!!!!!

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