terça-feira, 26 de março de 2013

25 DE MARÇO DE 1922 - PCB e PCdoB: A DISPUTA PELA HERANÇA DA TRADIÇÃO


Breve histórico da situação internacional: a guerra fria (1945-1960)
Embora o pós-guerra, em função do papel desempenhado pela URSS na vitória contra o nazi-fascismo, tenha ampliado de maneira significativa a influência do socialismo no Ocidente, os reflexos da guerra fria e da política implementada pelos Estados Unidos em vários países da Europa tiveram conseqüências diretas no processo de desenvolvimento da URSS e nos demais países do bloco socialista.
Estabeleceu-se um novo período de conflitos, disfarçado por determinadas medidas econômicas e militares. Os Estados Unidos da América procuraram formas de conter a crescente influência soviética, que espalhava-se pelo mundo, e a pretexto de prestar ajuda militar à Turquia e à Grécia (1947), supostamente ameaçadas pelos países so­cialistas, investiram milhões de dólares num programa que foi denomi­nado ‘doutrina Truman’. O objetivo final seria a preparação para um iminente confronto com a URSS; o programa “previa uma ampla intervenção dos Estados Unidos nos assuntos internos de outros países”.1
O Plano Marshall (...) proporcionou recursos para a reconstrução da indústria na Europa ocidental. (...) Ao mesmo tempo, os Estados Unidos tomavam medidas para fortalecer as defesas militares do ocidente. Em abril de 1949, um grupo de representantes dos Estados do Atlântico Norte, juntamente com o Canadá e os Estados Unidos, assinou um acordo criando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). (...) Segundo os termos do pacto, um ataque armado contra qualquer um dos países signatários seria considerado como um ataque a todos, os quais combinariam suas forças armadas na medida necessária para repelir o agressor.2
As dificuldades internas e as hostilidades visíveis das grandes potências capitalistas levaram o governo soviético a adotar medidas que garantissem a segurança contra os ataques externos e evitassem um isolamento semelhante ao que ocorreu anteriormente à década de 1940. Por um lado, procurou consolidar as repúblicas populares nas áreas em que permaneceu como força de ocupação logo após a guerra, como conseqüência do Tratado de Ialta. Por outro, reprimiu internamente toda e qualquer manifestação de oposição ao regime, num momento crítico de reconstrução de um país semidestruído pela guerra e sem possibilida­de de contar com recursos econômicos externos.
O mundo dividiu-se, assim, em dois blocos ideologicamente homogêneos e radicalmente antagônicos, cujo controle das idéias se dava à base de perseguições políticas e intolerância na aceitação das concepções e teorias divergentes. Nos Estados Unidos, a intransigência e o anticomunismo culminaram no macarthismo.3
Na União Soviética, a pressão do mundo ocidental, capitalista, criou a síndrome da traição. A defesa da segurança interna acabou se transformando em intolerância política, que culminou, muitas vezes, em expurgos e perseguições. E, do ponto de vista ideológico, envolveu o marxismo numa camisa-de-força. A opinião do partido e a conseqüente vinculação com os interesses do Estado colocavam um ponto final nas discussões, procurando influir até mesmo nos rumos da ciência, através de um antagonismo artificial — “ciência burguesa x ciência proletária”.4
Uma nova realidade passou a ser vivida pela União Soviética e pelo movimento comunista internacional a partir da morte de Stalin, em 1953. Seu ponto determinante foi o XX Congresso do PCUS, quando Nikita Kruschev e outros antigos dirigentes, membros do bureau político do Partido Comunista, denunciaram os crimes de Stalin, que por tanto tempo dirigiu a União Soviética.
As denúncias de Kruschev, perante um plenário composto por comunistas do mundo inteiro, trouxeram graves conseqüências para o movimento comunista. As mudanças que vieram a partir desse congres­so não se limitaram a tais denúncias, mas apontaram para uma nova revisão do marxismo e uma nova interpretação dessa doutrina: a da convivência amistosa entre campos antagônicos e da transição pacífica para se alcançar o socialismo.
A partir de então, os partidos comunistas entraram num processo de autofagia, de divisão profunda e de um inevitável enfraquecimento de suas forças. No Brasil, o Partido Comunista do Brasil (PCB) também foi atingido por esse vendaval de mudanças. A tese da transição pacífica se disseminou entre uma parcela significativa de seus membros, notadamente de sua direção, causando uma grande cisão e levando ao surgimento do Partido Comunista Brasileiro.
Saudação à Internacional Comunista
em nome do Partido Comunista
do Brasil
O Partido Comunista do Brasil, cuja sigla era PCB, fundado em 25 de março de 1922, surgiu como conseqüência do avanço do movi­mento operário, mas também pelos fracassos obtidos nas manifestações operárias, devido à desunião existente entre anarquistas, anarco-sindicalistas, socialistas e outras correntes. Nasceu marcado pela influência dessas correntes, herdada principalmente dos imigrantes italianos, e no auge das repercussões geradas pela Revolução Soviética de 1917. Embora as informações demorassem a chegar por aqui, e muitas vezes chegassem já distorcidas pelas agências telegráficas, o conhecimento de tal feito era inevitável. Aliado a isso, começavam a difundir-se no Brasil as obras de Marx, Engels e Lenin.
O I Congresso – realizado nos dias 25, 26 e 27 de março de 1922 –  teve também como “principal objetivo o exame das 21 condições para o ingresso na Internacional Comunista, também conhecida como 3.a Internacional ou Comintern”.5 Destacaram-se entre seus fundadores Astrogildo Pereira, Hermogênio Silva, Manoel Cedon, Cristiano Cordeiro e José Elias.
A trajetória do Partido Comunista do Brasil registra uma intensa participação nas lutas políticas no país, em algumas delas como agente ativo e determinante, como na Insurreição de 1935. Até 1945, permane­ceu na clandestinidade, à exceção de alguns meses, após o fim do Estado de Sítio, em 1927. Sua influência foi marcante na política brasileira. A presença de Luís Carlos Prestes, figura lendária marcada pelo feito histórico de percorrer cerca de 30 mil quilômetros combatendo as tropas governistas na década de 1920, na chamada Coluna Prestes-Miguel Costa, serviu para dar uma maior representatividade ao partido. A sua votação em 1945, quando se elegeu senador, foi uma prova inconteste disso. Mas Prestes se tornou uma liderança controvertida e contestada em vários momentos de luta partidária interna pelas posições que tomou a partir de 1945.
O PCB começou a trilhar um caminho repleto de novas concep­ções que influenciaram a elaboração das políticas implementadas pelos comunistas. As origens dessas concepções estavam na interpretação que se fazia à época, a respeito do período pós-guerra, de que se amenizava a luta de classes, fazendo-se necessário lutar pela paz mundial. As idéias de Earl Browder, dirigente do PC norte-americano, “acreditando que a luta de classes havia sido superada, e que a garantia da paz mundial estava no desaparecimento dos partidos comunistas (...)”,6 começaram a se disseminar dentro do PCB, com vários de seus membros, alguns destacados, argumentando contra a reconstrução do partido, com a alegação de que isso dificultaria a política de união nacional.
Os que defenderam essa visão, que menosprezava a importância do partido, se articularam internamente, na tentativa de estabelecer mudanças nessa direção. Capitaneados por Agildo Barata, posteriormen­te expulso, se aglutinaram em torno de uma autodenominada corrente renovadora e encontraram nas denúncias de Kruschev os argumentos adequados para levar adiante suas concepções.
A corrente renovadora considerava-se o verdadeiro pólo aglutina­dor dos marxistas e socialistas, livre do stalinismo, que, para eles, seria o “grande obstáculo à unidade das esquerdas”; o XX Congresso do PCUS tornara possível essa posição.7
A expulsão da corrente liderada por Agildo Barata não pôs fim às divergências no partido. Ao contrário, estava, em verdade, dando início às profundas discussões que terminaram por levar a uma cisão bem maior no começo da década de 1960. Segundo Gorender, esse processo se iniciou a partir da Declaração política de março de 1958, que re­presentava uma nova linha política. A tarefa dos comunistas passava a ser a de garantir “reformas de estruturas” para que o capitalismo pudesse se desenvolver e tomar um curso “que o aproximaria da revolução nacional e democrática”.
A Declaração introduziu, portanto, outro elemento que também se demonstrou ilusório: a opção pelo caminho pacífico num país em que a burguesia já era a classe dominante e tinha vinculação estreita com o imperialismo.8
É natural que mudanças tão profundas na linha política acarretas­sem também discordâncias radicais. O impacto das denúncias de Kruschev fora bastante forte e as teses saídas do XX Congresso do PCUS, a respeito da coexistência pacífica, deixaram todos perplexos pois surgiram do berço do movimento comunista internacional.
Congresso de reorganização do
Partido Comunista do Brasil,
a partir de então: PCdoB.
Mas o processo vivido anteriormente contra as idéias antico­munistas de Browder e o estudo mais sistemático das teorias de Marx e Lenin, feito durante o IV Congresso do PCB, reforçaram num segmento do partido a defesa das orientações e da linha política adotadas na União Soviética por Stalin. As denúncias eram vistas como um ato de oportunismo e Kruschev era acusado de ser um renegado, que passara a rejeitar os ‘princípios fundamentais do marxismo-leninismo’.
Ao fazer o balanço da história do partido – Cinqüenta anos de luta –, a direção do PCdoB assim avaliou aquele período e as transfor­mações que ocorreram:
O Comitê Central fica perplexo e desarvorado porque as teses errôneas têm sua origem no PCUS, cuja opinião sempre mereceu respeito dos comunistas brasileiros. Encontra por isso dificuldades para combater os elementos antipartidários que se organizam em um grupo de cunho revisionista e liquidacionista, a cuja frente é colocado Agildo Barata. (...) Contudo, firmando-se nos postulados marxistas, o Comitê Central consegue derrotá-lo. Agildo Barata é expulso do partido. Mas vários membros da direção nacional continuam defendendo opiniões revisionistas, entre os quais se salientam Carlos Marighella, Giocondo Dias, Mário Alves, Astrojil­do Pereira, Orestes Timbaúva, João Massena, Jacob Gorender, Zuleika Alambert. Persiste, assim, o surto revisionista que, em 1957, toma novo impulso com a adesão de Prestes àquelas opiniões e com o afastamento de alguns camaradas do Presidium do Comitê Central, entre os quais João Amazonas e Maurício Grabois. A orientação kruschovista é adotada oficialmente pelo partido e o programa de 1954 é posto inteiramente de lado. O caminho revolucionário do partido é, uma vez mais, truncado. Vencem as concepções reformis­tas.9
Essa era uma versão diferente daquela apresentada por Gorender, que fora citado como um dos que defendiam as mudanças da linha política adotada oficialmente no V Congresso, embora tenha ele se insurgido, posteriormente, contra o rumo que seguiria o Partido Comunista Brasileiro (PCB).10
Vamos nos estender mais nessa polêmica porque, do ponto de vista ideológico, ela expressa claramente um divisor de águas, funda­mental para se compreender as idéias e o funcionamento da organização que dirigiu a Guerrilha do Araguaia. Talvez não se deva considerar apenas o V Congresso como o marco divisor dessas duas vertentes –  kruschovistas ou antikruschovistas, reformistas ou revolucionários, revisionistas ou marxistas-leninistas –, mas ele foi, sem dúvida, um elemento importante para delinear claramente, a partir das resoluções então aprovadas, a nova linha política adotada e os fundamentos teóricos que a norteavam, deixando clara a influência das teses do XX Congresso do PCUS.
Bancada do Partido Comunista do Brasil
na época (1945) com a sigla P.C.B.
Pedro Pomar, um dos que romperam mais tarde com esse dire­cionamento político, travou uma forte polêmica com o próprio Goren­der, nas Tribunas de debates editadas no processo preparatório ao V Con­gresso, afirmando serem as teses uma “apologia do capitalismo”, expressa na “maneira unilateral, objetivista e apologética de apreciar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil”, configurando, portanto, na sua essência, uma concepção nacional-reformista.11
Maurício Grabois, num artigo intitulado “Duas concepções, duas orientações políticas”, publicado em 1960, expressou bem aquela contradição:
A declaração embeleza o capitalismo. (...) O exagero na apreciação do papel do desenvolvimento capitalista no processo revolucionário leva a declaração a idealizar a burguesia, que é tratada como se fosse uma força conseqüente, capaz de defender até o fim os interesses nacionais.
As tendências oportunistas de direita da Declaração se manifes­tam mais claramente na questão do poder — problema fundamental da revolução. (...) A declaração considera que as forças revolucioná­rias chegarão ao poder através da acumulação de reformas profundas e conseqüentes na estrutura econômica e nas instituições políticas. (...) Assim, a democracia aparece com inerente ao capitalismo, tese tipicamente revisionista.
No que concerne ao caminho da revolução, a Declaração afirma que o Brasil é um dos países em que se abre a possibilidade real da via pacífica. (...) Os comunistas preferem este caminho. Mas cometeriam erro grave se nele apoiassem toda a sua atuação, porque nada ainda tem comprovado que o caminho da revolução brasileira é o caminho pacífico.12
Estavam, portanto, criadas as condições para o rompimento entre duas concepções que não cabiam mais num mesmo partido, porque o antagonismo existente entre elas evidenciava contradições radicais. Diziam respeito às questões políticas e ideológicas, à análise do marxismo, à sua aplicação ao desenvolvimento das sociedades, ao estudo da realidade brasileira, à polêmica envolvendo as denúncias de Kruschev e à forma de luta para se alcançar o socialismo. Bem posto, portanto, o título do artigo de Maurício Grabois: “Duas concepções, duas orientações políticas”. As consequências dessas divergências teriam como ponto final a elaboração de um novo estatuto e o registro do Partido Comunista Brasileiro.
O Partido Comunista do Brasil e o Partido Comunista Brasileiro
O processo que culminou na separação de duas fortes correntes existentes no interior do PCB é bastante complexo e tem sido analisado de diferentes formas. Essa complexidade é explicável pelo fato de, além das concepções políticas divergentes, haver uma intensa luta pela denominação do partido. A cisão era praticamente irreparável e a nomenclatura partidária passou a constituir o elemento principal da disputa pela hegemonia do movimento comunista no Brasil.
Nos trabalhos desenvolvidos por outros estudiosos, em que essa questão tem sido assim abordada, o enfoque dado muitas vezes não é suficiente para esclarecer se havia sido criado outro partido ou apenas outra denominação partidária. Para Ridenti, “o PCdoB foi a cisão do setor minoritário abertamente stalinista do PCB, setor que no princípio de 1962 criaria um novo partido, retomando o nome tradicional do antigo PC”.13 Os novos programa e estatutos do Partido Comunista Brasileiro foram publicados em 11 de agosto de 1961, no seminário Novos Rumos, junto com uma entrevista de Luís Carlos Prestes que anunciava o encaminhamento de ambos para registro no Tribunal Superior Eleitoral. O setor descontente com essas mudanças reúne-se em fevereiro de 1962, na Conferência Nacional Extraordinária do Partido Comunista do Brasil. “Consumava-se a cisão e formalizava-se a coexistência de dois partidos comunistas em nosso País. O PCdoB se proclamou (e o faz até hoje) o mesmo partido comunista fundado em 1922 e reorganizado em 1962.”14
Após subscrever um documento, que ficou conhecido como a Carta dos 100, esse setor divergente – em seguida expulso do partido em conseqüência desse protesto, sob a acusação de organizar uma fração – aprovou uma resolução, na conferência extraordinária, em que combatia a atitude liquidacionista e aprovava a reorganização do Partido Comunista do Brasil, adotando a sigla PCdoB. Acreditava que fora criado um novo partido por seus oponentes, mantendo-se a sigla PCB, já que o processo não teve a aprovação de um congresso, exigência estabelecida no antigo estatuto. Mantinha-se apenas a tradição na sigla e no fato de ter Luís Carlos Prestes como seu secretário-geral, cargo maior na estrutura partidária. Novos estatutos, novo nome, novo manifesto-programa; um novo partido, portanto.
Os novos documentos, então com o nome de Partido Comunista Brasileiro (mantendo-se a sigla PCB), foram encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral para registro e consequente legalização. Mas a medida, mudando a denominação partidária para fins de legalidade, tornou-se inócua, já que foi negada.
Historicamente, o único momento, até então, em que o Partido Comunista do Brasil conquistou sua legalidade foi através da Resolução n.o 324, de 10 de novembro de 1945, do Tribunal Superior Eleitoral. Mas esse registro foi cassado em 7 de maio de 1947, durante o governo Dutra, conforme Resolução n.o 1.841 do mesmo TSE.15
Portanto, apesar de toda a complexidade do processo, o fato é que foi criado em 1961 o Partido Comunista Brasileiro, embora tivesse como seu secretário-geral Luís Carlos Prestes, cuja dimensão enquanto figura histórica não pode ser negada e que foi, por muito tempo, dirigente maior do Partido Comunista do Brasil.
Os dois partidos tornaram-se adversários radicais, confrontando-se em diversas lutas sociais e travando-as de maneiras diferentes, porque diferentes eram as concepções que os guiavam na luta para alcançar o socialismo.
O PCB, seguindo a linha política de coexistência amistosa e transição pacífica, assumiu uma postura mais amena, mesmo no momento de maior repressão no período pós-64, opondo-se à luta armada e sendo por isso chamado, pelos outros militantes de esquerda, de reformista e revisionista. Nem por isso, entretanto, viu-se livre da violenta repressão que se abateu sobre as organizações de esquerda.
O PCdoB manteve-se numa linha ortodoxa, fiel ao que considera­va “princípios marxistas-leninistas da necessidade da revolução”, só possível, em seu entender, através da luta armada, da ‘guerra popular prolongada’, de influência maoísta,16 para tomar o poder político e alcançar o socialismo.


NOTAS

1.REVUNEKOV, V. G. História dos tempos atuais. Lisboa, Porto: Centro do Livro Brasileiro, p. 232.
2.BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental. 3. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1980. v. 2, p. 739.
3.“É o momento de mais acirrado anticomunismo do segundo pós-guerra. Ele dá lugar a uma série de expurgos políticos em todos os níveis e em todos os campos, sobretudo no campo intelectual, dentro de um clima de caça às bruxas bem mais intenso do que a luta interna, mesmo duríssima, que em outros períodos se travou contra o comunismo”. (BOBBIO, Norberto et alli. Dicionário de política. 4. ed. Brasília: Edunb, 1992, v. 2, p. 725).
4.Eric Hobsbawm, historiador marxista inglês, analisando crítica e autocriticamente esse período, assim diz, num artigo intitulado “Diálogo sobre o marxismo”:
“Íamos eliminando, cada vez mais, os elementos que não fossem de Marx, Engels, Lenin e Stalin ou o que não tivesse sido aceito como ortodoxo na União Soviética: qualquer teoria da arte que não fosse o ‘realismo socialista’, qualquer psicologia que não fosse a de Pavlov, mesmo às vezes, qualquer biologia que não a de Lyssenko. Hegel foi expulso do marxismo, como na Pequena história do PCUS; mesmo Einstein levantava suspeitas, para não mencionar a totalidade das ciências sociais ‘burguesas’. Quanto menos convincentes eram nossas próprias crenças oficiais, menos ainda podíamos sustentar um diálogo, e é significativo observar que falávamos mais freqüentemente da “defesa’ do marxismo do que de seu poder de penetração”. (HOBSBAWM, Eric. Revolucionários. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 117).
5.BASBAUM, Leôncio. História sincera da República. 4. ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 1975-76, v. 1, p. 212.
6.Idem, p. 183.
7.MARTINS, Evaldo, SALUSTIO. “Que é a corrente renovadora?”  Novos Tempos, n. 1, set. 1957, p. 14-8 e 22. Apud CARONE, Edgar. Movimento operário no Brasil (1945-1964) São Paulo: Difel, 1981,  v. 2, p. 92-4.
8.GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. 3. ed. São Paulo: Ática, 1987, p. 30-1.
9.Cinqüenta anos de luta. Lisboa: Edições Maria da Fonte, 1975. p. 50-1. (Coleção Documentos).
10.Após o golpe militar de 1964, novas divergências geraram mais cisões no PCB. A mais importante delas envolveu Mário Alves, Jacob Gorender, Apolônio de Carvalho e Jover Telles (apontado como responsável pelo ato de traição que resultou no “massacre da Lapa”, em 1996), todos acusados de “desvio de esquerda”. Embora essas divergências tivessem se iniciado a partir de 1965, o rompimento definitivo se deu no VI Congresso do PCB, quando uma resolução aprovada expulsou, além desses citados, Joaquim Câmara Ferreira, Miguel Batista dos Santos, Apolônio de Carvalho e Carlos Marighella. A resolução foi oficialmente publicada no n.1 35 da Voz Operária, de janeiro de 1968 (cf. GORENDER, Jacob, op. cit., p. 92). As discordâncias, mais uma vez, giravam em torno das propostas de luta armada, ou de um confronto mais radical contra a ditadura, e a política de moderação, de luta institucional, posição em que se mantinha a maioria da direção do PCB. Em decorrência de mais essa cisão surgiram o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e a ALN (Ação Libertadora Nacional).         
11.Cinquenta anos de luta. Lisboa: Edições Maria da Fonte, 1975, p. 47. (Coleção Documentos).
12.Idem, p. 30-1.
13.RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Ed. da Unesp, 1993, p. 27.
14.GORENDER, Jacob. Combate nas trevas, op. cit., p. 34.
15.Em 1985, no governo Sarney, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB)  conquista sua legalidade, com a publicação no Diário Oficial do Manifesto-Programa e dos Estatutos, em 23 de maio de 1985. Também o Partido Comunista Brasileiro (PCB) torna-se legal, sendo, no entanto, extinto posteriormente e substituído pelo Partido Popular Socialista (PPS), em consequência da crise vivida pelos países socialistas do Leste Europeu e União Soviética, a partir de 1989.
16.Posteriormente (a partir de 1973), o PCdoB rompeu com o maoísmo, em decorrên­cia da mudança de postura do PC chinês, que culminou com a visita do presidente norte-americano Richard Nixon, e também por discordâncias ideológicas quanto às análises da luta de classes. O PCdoB criticou com veemência a Teoria dos Três Mundos defendida por Mao Tsé-Tung.




(*) Texto extraído do livro "Guerrilha do Araguaia, a esquerda em armas". Cap. 2, Pág. 77. Editora Anita, 2012.

sexta-feira, 22 de março de 2013

HÁ UM LIMITE PARA TUDO.

"É mais difícil abalar a fé do que o conhecimento, o amor sujeita-se menos às mudanças do que o respeito, o ódio é mais duradouro do que a aversão, e a fé é absolutamente determinada a crer que dois erros justificam um acerto, e ela não deixará os fatos ou a razão bloquearem seu caminho". Frase atribuída a Adolf Hitler(*).
Retorno rapidamente às publicações do Blog Gramática do mundo para me dirigir àqueles que estão compartilhando mensagens fascistas, disfarçadas de discursos cristãos, e considerando "anticristos" os que combatem os racistas, homofóbicos e preconceituosos. Há um movimento nitidamente medieval, atrasado onde pessoas que são submetidas a lavagem cerebral dispõem-se a se colocar numa verdadeira cruzada. Exemplos assim nos apontam para conflitos raivosos e guerras sectárias por todas as partes do mundo.
Não parem na idade média, naveguem no tempo até os primórdios do cristianismo e busquem o sentido que deu origem a um movimento que aglutinou milhões de pessoas e que não tem absolutamente nada a ver com a canalhice dos que manipulam a fé com objetivos escusos, mentem descaradamente, ofendem a dignidade das pessoas pelo fato de buscarem uma opção diferente, se enriquecem com falcatruas e são submetidos a processos de estelionato.
Mensagem postada no twitter
Estão construindo mentiras para se contrapor a fatos, incontestáveis, assumidos por uma mente abjeta e plenamente anti-humanista. Não tenho nenhum problema com a fé das pessoas, as respeito por suas crenças e pela escolha que fazem em suas vidas, desde que isso não represente um comportamento sectário, intolerante e fascista. E jamais postarei qualquer mensagem que ataque as escolhas religiosas das pessoas, embora possa ser crítico, no debate respeitoso, a questões dogmáticas que ferem o bom senso dos tempos atuais. O combate a atuação de um parlamentar que assume uma Comissão de Direitos Humanos, com discurso homofóbico e racista, não significa atacar a fé daqueles que acompanham a mesma igreja. A crítica é a um indivíduo, com representação parlamentar, que assume um posto onde jamais deveria estar, pelos seus pensamentos e ideias, que se contrapõe a tudo que tem sido construído em nosso país na defesa da liberdades individuais e políticas.
Nas redes sociais cada um de nós escolhe ou aceita as amizades, como de resto em nossa vida cotidiana. Cabe-nos também selecionar os que ultrapassam os limites da civilidade, do respeito às diferenças. Mas não podemos impedir que cada um expresse suas ideias em seus perfis. O que nos cabe, já que não é conveniente atacar essas ideias sectárias em perfis alheios, é excluir de nossa lista os que são inconvenientes e só veem certezas nos dogmas que seguem, desrespeitando outros valores que sejam abraçados por quem pensa de forma diferente.
Essa tem sido a razão do meu comportamento ao longo de décadas, sempre me colocando ao lado de injustiças sociais e lutando pela construção de uma sociedade baseada na comum união das pessoas, fundamentada no respeito mútuo e na solidariedade. Dizem que isso é utopia, mas o que foi senão os sonhos que levaram o ser humano a superar obstáculos e atingir um grau cada vez mais evoluído de vida? Muito embora uma grande parcela da humanidade ainda esteja excluída desse processo. Prezo, muito, a amizade, mesmo que com a característica virtual que as redes sociais possibilitam. Mas minha coerência se dará, sempre, na defesa daquelas ideias que escolhi, porque se baseiam na defesa da liberdade e da tolerância.


(*) http://www.frasesfamosas.com.br/comments/adolf-hitler/f4m05455058fr4535.html

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

UM BREVE SILÊNCIO EM GRAMÁTICA DO MUNDO


“Ando devagar, porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe.
Só levo a certeza de que muito pouco sei.
Ou nada sei.” (Almir Sáter).

Em meados de junho de 2010 dei início ao meu blog Gramática do Mundo, uma espécie de “catarse”, para expirar minhas angústias em um momento depressivo, pela perda da minha filha. De lá para cá se somam 158 postagens, apenas em torno de uma dezena que não é de minha autoria.
Naveguei nas lembranças que algumas datas instigavam mais fortemente as saudades de minha filha. Os dias de sua chegada, 5 de março (1997), os nossos aniversários, o dia das mães, dos pais e da criança, o dia de sua partida, 13 de dezembro (1997), e, os momentos mais tristes, quando a maioria das pessoas procuram mais se alegrarem, as festas de final de ano. Nesses momentos escrever e postar no Gramática do Mundo tornava-se um alívio, parecia que eu transmitia para o mundo os soluços do meu coração. Isso serviu como um alento e se constituiu em uma espécie de terapia.
Eu sempre gostei de escrever e tive um grande incentivo de minha professora de português, Zilda Diniz, no Colégio Sylvio de Melo, em Morrinhos, quando fiz o segundo grau. Mas com o meu blog esse exercício ia além de uma paixão e de uma vontade, tornava-se uma espécie de divã, e minhas crônicas a respeito de minha filha e da dor e saudade que eu sentia com sua ausência, serviram para que em alguns momentos eu sentisse que conversava com ela. E assim pode ser lido em várias crônicas postadas em algumas das datas citadas acima.
Mas era intenção também transferir para o blog um pouco da minha indignação com as desigualdades sociais que me fez militante por três décadas. Até que a perda de minha filha arrefeceu os meus ânimos e me entreguei muito mais à reflexão do que ao embate costumeiro que fez conhecido pela minha presença marcante na luta política e na militância comunista.
Perdi o ímpeto que me fez um aguerrido agitador e liderança estudantil e depois sindical. Como já expressei em várias crônicas, a morte de minha filha me fez perder a perspectiva do futuro. Lutei contra isso. Em parte superei. Mas mantenho a convicção de que perdemos tempo construindo ilusões, esquecendo passado e nos afastando do presente. Daí a expressão “Carpe Diem”, com a qual passei a assinar o blog.
Mas os desafios do presente, queiramos ou não, nos impõe desafios que traçam os rumos por onde seguiremos em direção ao que chamamos de futuro. Ao chegarmos nesse dito ponto, estaremos no presente novamente. Contudo, mais velhos e submetidos a maiores paciências e momentos reflexivos, do que antes.
Assim, a minha atribuição à qual me dedico com prazer, na função de professor universitário, impõe, hoje mais do que antes, a necessidade de permanentemente nos submetermos a graus de qualificação superiores, de pós... pós... pós-graduação. Mantendo o mecanismo que nos obriga sempre a um constante processo de aprendizagem. Isso é, inegavelmente, algo extremamente importante. Não estou a reclamar.
Só que, depois desses arrodeios, esta é a razão pela qual deixarei, por um breve tempo, de produzir textos para o Gramática do Mundo. Depois de tantas idas e vindas, de dificuldades impostas por decisões políticas, ou por tragédias que marcaram minha vida, estou me afastando de minhas atividades para me dedicar à redação de minha tese de doutorado.
A vida da humanidade, e de cada um de nós mesmos em particular, é caracterizada pelo aumento da complexidade que a cerca. O tempo passa e nossa vida se torna mais complexa. Com isso quero dizer que os temas que tenho tratado aqui no blog estarão sendo pautados no cotidiano da vida com mais frequência e maiores dificuldades do que até aqui. Penso que 2013 será um ano muito mais difícil, com a acentuação da crise econômica que afeta o mundo, e, principalmente, com a radicalização de lutas em regiões que possuem grandes importâncias estratégicas, tanto pela posição geográfica, quanto pela riqueza existente em seus subsolos. E isso não será causa, mas consequência do agravamento de uma crise que já coloca em xeque a própria existência da União Europeía.
Contudo procurarei me manter focado na pesquisa que desenvolvo para o doutorado: “A influência da guerrilha na vida dos camponeses do Araguaia – as transformações de uma região de conflitos (1975-2012). E, certamente, será muito difícil conciliar as duas atividades, porque o Blog me deixa sempre envolvido em pesquisar as situações de conflitos e fatos políticos, para definição do que deverei abordar na postagem da semana. Atividade corriqueira que me envolve como professor de geopolítica. Mas que torna-se difícil no momento já que estou de licença desenvolvendo pesquisa. Não que eu não possa fazer isso, mas prefiro ser fiel ao mecanismo que a universidade me possibilita, de me conceder uma licença das minhas atividades com o intuito de garantir que eu possa me manter concentrado naquilo que é mais importante na minha formação, e na qualificação, que é fundamental também para a instituição.
Mas, como estarei vivo, pelo menos pretendo estar, e não vou me esconder em uma caverna, estarei atento aos acontecimentos geopolíticos do mundo e do Brasil. Já pensando nisso criei uma página no facebook, onde copio os links de reportagens interessantes de blogs e sites de notícias, confiáveis, que possam esclarecer melhor as pessoas das confusões que transmitem as mídias convencionais (https://www.facebook.com/gramaticadomundo). Não garanto que estarei a ler todas, mas confiarei na fonte, na origem dos blogs de onde as retiro, e também na atenção dos leitores, que poderão fazer comentários e até mesmo críticas sobre o conteúdo exposto.
No final de 2011, ano que além das saudades permanentes de minha filha, me deparei com constantes problemas de saúde, me afastei também por uns tempos do Blog, e deixei como mensagem uma postagem com o mesmo título acima (http://www.gramaticadomundo.com/2011/12/um-breve-silencio.html). O momento era outro, as circunstancias naturalmente, também, e principalmente o motivo. Mas o retorno foi rápido. Mais rápido do que será aqui. Só não prometo que não terei uma recaída, isso dependerá da gravidade da situação geopolítica, ou da eminência de um fato marcante da política brasileira.
Contudo, a publicização das razões do meu afastamento, me impõe a responsabilidade de cumprir os prazos determinados, pela licença e pelo meu doutorado. Deixo, assim, aos leitores do meu blog, a tarefa também de monitorar nesse “big brother” cotidiano que é as nossas vidas na contemporaneidade, o andamento desse meu compromisso intelectual e profissional. E, espero poder, assim, retornar no segundo semestre à regularidade das postagens do Blog Gramática do Mundo, com a característica marcante de instigar o debate, a provocação intelectual e a permanente crítica ás manipulações das corporações midiáticas e do jornalismo de baixo nível, dos tabloides que se vendem a quem paga melhor.
Nesse ínterim, contudo, estarei encaminhando para uma editora, os textos que considero relevante, principalmente os mais lidos, para publicação de um livro que terá como título principal GRAMÁTICA DO MUNDO. Um projeto que alimento há cerca de um ano, e que, em função da quantidade de textos escritos me possibilita agora concretizá-lo.
Por fim, aos que começaram a ler o blog já no transcurso de inúmeras publicações, quero direcioná-los para a primeira publicação, onde eu explico o sentido e a razão de tê-lo criado:  http://www.gramaticadomundo.com/2010/06/carpe-diem-aproveite-o-dia-confia-o.html. Não modifiquei nada, ele está integralmente tal como foi publicado pela primeira vez. É para mim um texto marcante, pois com ele dei início a um embate que para mim será eterno. Eterno enquanto eu possa durar. Entre a razão – de seguir em frente, tocando a vida – e a emoção – de porquanto eu viver, prosseguir lembrando com dolorosas (pela perda) e alegres (pelo tempo vivido) saudades e declarando meu eterno amor pela minha para sempre pequena Carol.
E escrevo essas palavras finais, em um momento de dor, que em mim, em minha esposa, e seguramente em todos aqueles que já perderam um filho ou filha, reproduz situações angustiantes e doloridas presentes em nossas memórias, em que pais e mães se veem na terrível tarefa de sepultá-los. Refiro-me à tragédia que já vitimou 235 jovens na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul. Número que deverá se ampliar em função da gravidade de muitos que estão feridos e hospitalizados. De longe, só nos resta a solidariedade no sentimento humanitário e na torcida para que pais e mães consigam encontrar cada um a forma mais adequada de procurar superar essas perdas. Além de nos unirmos nos apelos por justiça para que tais situações não continuem a se repetir.
Se busquei isso nas páginas do blog Gramática do Mundo, minha companheira Celma Grace tem se dedicado com afinco à consolidação do Instituto Ana Carol, e da já consolidada Bordana, Cooperativa de Bordadeiras, projetos que tiveram na nossa pequena Carol a fonte de inspiração. A solidariedade se reproduz, nos alivia e nos dá alento para ir “tocando em frente”, e depois de tudo isso que passamos, me inspiro nos versos de Almir Sáter: “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir seguindo em frente”. (http://letras.mus.br/almir-sater/44082/).
Até breve aqui nas páginas do blog Gramática do Mundo. A qualquer instante posso voltar. Me aguardem e prossigam acessando e lendo os textos que porventura ainda não tenham lido.
“Todo mundo ama um dia, todo mundo chora. Um dia a gente chega, no outro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz.” (Almir Sáter).

domingo, 20 de janeiro de 2013

DEZ MACROTENDÊNCIAS GLOBAIS PARA OS PRÓXIMOS ANOS

Imagem: edufin.com.br

Recebi da jornalista Carla Guimarães, do jornal Tribuna do Planalto uma série de questionamentos sobre um estudo da Euromonitor Internacional: “Dez macro tendências globais para os próximos cinco anos”. São citados: Um futuro incerto, devido a incerteza econômica; A classe média emergente; A juventude descontente; A desigualdade entre ricos e pobres crescente; O desafio climático; Um mundo em envelhecimento; Urbanização crescente; Pessoas em movimento (mais viagens para viver, estudar ou trabalhar no exterior); Um mundo mais conectado (crescente uso da internet) e China se torna global(*).
A seguir respondo aos questionamentos (ampliado para a postagem) que em parte já os tenho abordados em alguns artigos postados aqui no Blog. No começo do ano passado, em uma crônica dividida em seis partes (http://www.gramaticadomundo.com/2012/01/cronica-de-um-mundo-em-transe-1-parte.html) procurei fazer uma análise geopolítica sobre as transformações em curso no mundo, e acredito que ela se mantém atual. Sem querer fazer previsões, minha análise baseia-se na realidade concreta, naquilo que está acontecendo no momento presente. O que virá dependerá das circunstâncias e das respostas que a humanidade dará para buscar solucionar seus problemas.
"Indignados", na maioria jovens,
protestam na Espanha
1- O senhor avalia que esses dez itens de fato são tendências mundiais? Acrescentaria algo mais como macro tendência não citada no estudo?
R – Todas as questões colocadas nesse estudo são reflexos da própria realidade que o mundo está vivendo. O futuro, em qualquer circunstância é incerto, já que é uma construção idealizada. Ele se explica pelas tendências do presente, e podemos projetá-lo com base na própria experiência, de situações parecidas. E isso é muito comum desde que o sistema capitalista se consolidou. Mas não necessariamente essas previsões podem se concretizar, muito embora eu concorde que a situação atual aponta para a direção que o estudo está indicando.
2- Como o Brasil, Goiás/Goiânia, se insere nesse contexto previsto? Impactos locais, por exemplo.
R – O Brasil não pode ficar imune a, por exemplo, uma situação de agravamento da crise econômica mundial. Já podemos sentir isso com um lento processo de industrialização, ou como alguns economistas preferem chamar, de desindustrialização. Isso ocorre porque o país passa a produzir menos para exportação, consequência do desaquecimento do mercado mundial em decorrência da quebradeira da economia de muitos países, principalmente os europeus e os EUA, que sempre foram os principais mercados para os produtos brasileiros.
Mas há um fator diferencial no caso brasileiro. Primeiro há um forte aquecimento econômico nas camadas populares, e boa parte delas estão ascendendo à classe média, embora essa classe já esteja dividida em três. Mas houve nos últimos dez anos uma melhoria das condições de vida das pessoas mais pobres, como decorrência de programas sociais e do aumento do salário mínimo sempre acima da inflação. Isso possibilitou um aquecimento na economia inferior, aquela que não está necessariamente submetida às oscilações do mercado internacional(**). Havia, e ainda há, uma forte demanda por crescimento nessas camadas, o que manterá a economia brasileira aquecida ainda por muito tempo e o nível de desemprego em patamares baixíssimos. A despeito de o crescimento do PIB não ser muito elevado, e isso se explica pelo que eu disse no primeiro parágrafo, já que a economia superior se manterá estagnada como decorrência da crise econômica mundial. O capitalismo deverá se reinventar, em decorrência disso.
Outra particularidade – que afeta fortemente o Estado de Goiás – é a crescente demanda por alimentos no mundo. Fatores diversos, como situação climática, guerras e recessão em algumas economias, tornarão alguns países dependentes da produção de alimentos em países da América Latina e África. O Brasil se destacará por isso, o que agravará os problemas ambientais. Mas dará um forte impulso ao agronegócio e ampliará a fronteira agrícola em direção aos estados do centro-norte. A exportação de produtos agrícolas e pecuários continuará a ser nos próximos anos a base da economia brasileira. Esses Estados, como já vem acontecendo, crescerão acima da média nacional, mas manterá uma forte tendência, histórica, de má distribuição da riqueza, aumentando a concentração de rendas nas mãos de grandes produtores latifundiários e corporações transnacionais.
3- A maior presença da China no mercado econômico mundial pode prejudicar atividades regionais, como agronegócio, fabricação de carros (já que temos fábricas instaladas no Estado), confecção...?
Inevitavelmente a China seguirá ocupando o primeiro lugar dentre os países que mais venderá ao Brasil e mais comprará produtos brasileiros, não somente pelo seu grandioso crescimento e pelo seu imenso mercado, mas também pela crise que afeta as economias centrais e, principalmente, os Estados Unidos, que sempre se destacou como o país com maior relacionamento comercial com o Brasil. E a tendência é que essa crise persista por mais de uma década. Mais uma vez a relação com Goiás estará relacionada a questão analisada no item anterior, já que a economia do nosso Estado baseia-se na produção de alimentos. Outra tendência que estará relacionada á China, embora também a outros países, será a busca por adquirir grandes quantidades de terras em Estados propícios à produção agrícola, e Goiás estará nessa lista. Por essa razão o governo federal já está preparando uma lei que limitará a aquisição de terras por estrangeiros. Já que essa será uma questão de segurança nacional em pouco tempo.
É claro que mesmo se ressentindo da crise capitalista global, a China seguirá com forte crescimento econômico, e gradativamente assumirá a liderança em diversos setores industriais e de novas tecnologias. Pela dimensão de seu mercado, provavelmente ela irá definir preços em diversas áreas, como tecnologia (informática), confecção, minério e automobilístico. A China ditará os rumos da economia global em boa parte deste século.
4- Pode avaliar em especial os itens sobre o envelhecimento, juventude e mundo mais conectado? Como o Brasil/Goiás, vive esse momento e o que podemos esperar para os próximos cinco anos (mão de obra, qualificação, manifestos, entre outros...)
O envelhecimento da população é consequência de um estilo de vida conduzido pelos mecanismos capitalistas. As pessoas passaram a optar por uma família menor a fim de possibilitar uma vida mais confortável e com condições de garantir a aquisição de produtos e mercadorias que satisfizesse uma lógica que impõe uma forte relação entre consumo e felicidade. Além da preocupação obsessiva com o futuro e a necessidade de sempre melhorar as condições financeiras de forma a garantir uma boa herança para os seus filhos. A vida demonstraria uma dificuldade maior para os que tivessem maior quantidade de filhos. A vivência nas cidades difere substancialmente do tempo em que a população concentrava-se majoritariamente na zona rural. Naquelas condições ter uma família grande era condição de reforçar a capacidade produtiva. Nas cidades, muitos filhos constitui-se em obstáculo à conquista de um estilo de vida farto e à garantia de que os filhos prossigam com sucesso no futuro.
BBC Brasil
Essa concepção se espalhou pelo mundo a partir da Europa e Estados Unidos. Na China há, forçosamente um controle de natalidade, imposto pelo Estado, em decorrência de um número elevado de habitantes. Nos países onde isso não acontece deve-se à questões religiosas, como na Índia, mas deverá ser uma tendência, à medida em que também aquele país vê sua economia crescer, situação parecida com a do Brasil.
Esse controle populacional, planejado ou não, trará efeitos colaterais. O envelhecimento da população é um deles, e o principal, já que afetará a economia na medida em que o Estado terá como obrigação manter um número crescente de aposentados. Na outra ponta, em alguns países o baixo crescimento populacional tem trazido dificuldades na absorção de mão de obra para alguns setores, principalmente os de baixa qualificação. Havendo necessidade de contar com a presença de imigrantes, que passavam a realizar esse tipo de atividade. Mas a crise econômica está mudando essa  realidade, e é difícil prever o que acontecerá caso a crise persista por mais de uma década.
A juventude é a primeira a sentir essa dificuldade, já que as empresas buscam sempre pessoas com experiências, tornando difícil o primeiro emprego. Por essa razão países como a Espanha, Grécia, Portugal e Itália, dentre outros, alcançaram um percentual de dois dígitos de desemprego entre os jovens. Na Espanha isso atinge quase 50%. A qualificação deixa de ter tanta importância como antes, já que os salários caem gradativamente, à medida em que a economia vai se enfraquecendo e pessoas com boas qualificações são obrigadas a aceitar trabalhos antes desempenhados pelos imigrantes. Resta aos jovens que saem da universidade mudarem-se para outros países, invertendo a situação que existia até então. E isso já está acontecendo. Países como o Brasil passam a receber um número cada vez maior de jovens qualificados, ou recém-formados, ou em busca de salários maiores. Na contramão, aumenta o número de jovens brasileiros que se deslocam para o exterior a fim de fazer cursos de melhores qualidades, com o objetivo de garantir qualificações que os façam competir com um mercado de trabalho que se torna mais exigente nesse quesito.
BBC Brasil
O mundo mais conectado seguirá também essa tendência, de deslocamento da importância econômica para outras regiões do mundo, levando a alteração na hegemonia mundial. Os investimentos em novas tecnologias seguem, além de um padrão, a necessidade de atingir um número considerável de pessoas, principalmente nos países com forte crescimento econômico, que ascendem socialmente. Somente nos países conhecidos pela sigla BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) concentra-se mais da metade da população mundial, e dentro deles um grande percentual encontra-se na economia inferior e agora buscam inserir-se no mercado de consumo. Além do que, novas tecnologias e a imposição midiática para os seu consumo, aliado ao setor de produção de alimentos, seguirá sendo a alternativa para se tentar driblar a crise econômica mundial.
5- Outras considerações?
Creio que falta analisar um aspecto que tem tornado as nossas cidades mais perigosas. O aumento do consumo de drogas, do seu comércio ilegal e o consequente fortalecimento de gangs de traficantes e a violência que se acentua na sequência dessa realidade perversa.
O estilo de vida nas cidades, estressante e impositivo na lógica exigente do trabalho, empurra principalmente os mais jovens à procura de mecanismos de escape das angústias e dependência do tempo, sempre em busca de ganhar mais dinheiro e melhor qualificação. O recurso ao uso de drogas consequentemente leva ao aumento do tráfico na comercialização de uma mercadoria que é ilegal. Essa equação trás resultados previsíveis, mas de difícil controle pelo Estado e corre-se o risco de transformar a nossa sociedade em uma redoma baseada na vigilância permanente e no estabelecimento de um Estado policial, com o fim da privacidade e a desconfiança se disseminando como característica principal na relação entre as pessoas.
O neocolonialismo deverá ser uma
tendência, como resposta à crise
econômica nas grandes potências
Outro aspecto a ser destacado é a alternativa sempre encontrada para sair de crises estruturais como a que atualmente atinge as maiores economias mundiais. A ampliação de conflitos regionais poderá levá-los a uma dimensão global e as potencias capitalistas seguirão encontrando pretextos, como no combate ao “terrorismo” para exercer fortes domínios sobre regiões estratégias e fundamentais para não perderem o controle da economia superior. Será corriqueiro a intromissão em disputas locais, e isso se tornará uma tendência principalmente naqueles países que possuem grandes riquezas minerais em seu subsolo e, principalmente enormes reservas de petróleo e gás. O neocolonialismo seguramente retornará á agenda internacional dos países europeus e dos Estados Unidos. É a condição de prosseguirem no jogo geopolítico sem perder suas posições hegemônicas. Líbia, Síria, e agora Mali, e, sempre a Somália, são exemplos presentes (dentre tantos outros) desse comportamento.
As tendências apontadas no estudo são fáceis de serem identificadas, embora faltem nelas essa identificação dos problemas geopolíticos mais determinantes. Mas, enfim, elas não dizem respeito ao futuro, que sequer existe. Elas já fazem parte do presente e a sua consolidação é que nos leva a fazer previsões sobre o que virá.
Claro que os rumos poderão ser diferentes. Mas as pessoas só acreditarão que o que assistimos hoje será diferente no futuro, se as medidas a serem adotadas nos convençam a respeito disso. No entanto, a perdurar a lógica de funcionamento desse sistema no qual estamos inseridos, não haverá mudança no curso dessa nossa história, e as tendências apontadas reafirmarão e consolidarão a realidade atual, da ampliação de uma crise que não dá sinais de arrefecimento e que tende a tornar-se cada vez mais global. Mas o futuro é uma abstração, ele é consequência do que transformamos no presente em realidade.



(*) Um resumo desses dez pontos levantados pelo Euromonitor Internacional pode ser lido no site da BBC Brasil: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/121220_euromonitor_tendencias_pai.shtml . E a reportagem da qual participei, a pedido da jornalista, pode ser encontrado no site: http://tribunadoplanalto.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15999:vida-online-num-universo-com-mais-idosos&catid=64:comunidades&Itemid=6
(**) Conforme o historiador francês, Fernand Braudel, em sua obra “Civilização Material, Economia e Capitalismo” (Ed. Martins Fontes – 3 volumes), a economia capitalista divide-se em duas partes. No patamar inferior, a economia de mercado funciona como na concorrência tradicional, atendendo aos vários circuitos da vida cotidiana; no patamar superior a economia verdadeiramente capitalista, baseada na acumulação da riqueza e no monopólio determinado pelos grandes circuitos da economia-mundo.