segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A DEMOCRACIA, O ANDAR DO CARANGUEJO E A REALEZA NA TERRA DE CEGOS

Uma rápida análise sobre o resultado eleitoral do primeiro turno das eleições deste ano, confirma as preocupações e receios que manifestei em vários artigos desde o famoso junho de 2013. Insisti por várias vezes que a multidão na rua não significava melhoria nos níveis de consciência política. A falta de organização, a violência que se seguiu e a captura do discurso inconformista difuso, por questões muito variadas e sem foco, pela grande mídia, além da repetida política do medo, sustentada por uma estratégia de amplificar o sentimento de insegurança, indicava que o voto conservador prevaleceria nessas eleições. As condições criadas pela presença maciça das pessoas nas ruas, “indignadas”, principalmente jovens, favoreceu aos setores reacionários, desejosos de retroceder em políticas sociais e de retomar o controle do Estado no interesse de uma minoria desejosa por mais lucros e menos investimentos nas camadas pobres. Isso não é análise sociológica, é fato, real, esteve presente nos embates nesse processo eleitoral, muito embora negado para esconder a roupagem conservadora embutida nos programas de governos e indicado nas mentes pouco brilhantes daqueles que coordenaram as campanhas que se opunham às políticas efetivadas pelo governo federal.
Ainda é tempo para mudar. Mas a opção à direita não conduz o nosso país adiante. Ao contrário, imporá um retrocesso para a adoção de políticas do interesse da elite econômica. Essa é a razão das constantes oscilações negativas da bolsa de valores cada vez que a candidata Dilma Roussef ampliava sua diferença dos demais. É a aposta que o “mercado” faz. Mas esse ente abstrato, se concretiza no capital financeiro, que por sua vez, traduz-se nos investidores, especuladores, na burguesia empresarial, financeira e latifundiária.
Diante de um mundo em crise, resultado de políticas neoliberais, e de ações do Estado para salvar grandes investidores e impedir falências de grandes empresas e corporações financeiras, seria um enorme contrassenso, e andar na contramão dos que desejam mudanças positivas, eleger no Brasil um candidato que represente os equívocos de tais políticas, causadoras da grave crise econômica que afeta todo o mundo.
Mas, o que se vê até aqui, com a composição do parlamento brasileiro, é que o voto conservador, escorado no medo, na apologia da violência, na manipulação dos desejos do povo pela grande mídia, foi em parte vitorioso. Não significou, em absoluto, melhorias nos níveis de consciência política do eleitor. Basta proceder a uma radiografia do processo eleitoral, a elaboração de uma geografia do voto, e se terá uma análise concreta disso que concluo nesse texto. E, isso nos mostrará, independente de quem se eleger no segundo turno, que se tornará muito mais difícil a articulação com esse Congresso, mais conservador e reacionário do que antes. E igualmente fisiológico. E será mais improvável aprovar a realização de um plebiscito que venha a propor uma reforma política, que reveja as condições pelas quais o processo político gera distorções na representação parlamentar, comparando-se com a composição da sociedade brasileira.
O povo brasileiro queria mudar. Mudou o parlamento para pior. Como sempre ocorre quando a organização política fracassa e cede espaço para a multidão cega se manifestar. Mas pode ficar pior ainda. Enfim, essa é a democracia capitalista, e ela prevalecerá porquanto o seu processo não significar um questionamento real e contundente das mazelas que esse sistema produz na vida da maioria daqueles que estão inconformados. Mas esses são cegos, porque sem consciência política, tornam-se incapazes de identificar por quais caminhos as mudanças realmente podem acontecer. E, na encruzilhada, e tomados pela cegueira, seguem rumos que os levarão de volta para o passado.
É evidente que nem todos são cegos, mas esses poucos, disfarçados, adotam o discurso da mudança. Confundem a multidão alienada e fazem valer o velho ditado, que diz, que “em terra de cego quem tem um olho é rei”.
A seguir destaquei alguns trechos de alguns artigos que publiquei desde as famosas “jornadas de junho”. Compare-os com a  realidade das urnas nesse primeiro turno:

CADÊ A MULTIDÃO?

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Junho de 2013, manifestações repentinas levaram multidões às ruas. Se imaginou passar o Brasil por profundas transformações. Em alguns artigos eu alertei que pelo mundo adentro situações semelhantes tinham levado ao poder setores conservadores e da extrema direita. Os resultados de multidões sem direção, cegas e reticentes à aceitarem direções e organização, sempre levaram para rumos opostos ao que se pretendiam. Relembro aqui um artigo que escrevi no auge da febre criada pela multidão. Não mudei uma vírgula. O que se vê hoje? qual o quadro se apresenta nas eleições estaduais e nacional? Mudou a política? Mudou a cabeça da população? Ou a mídia conseguiu manipular a multidão? hoje dispersa e sendo representada por um bando de inconsequentes que só conseguiram criar um ambiente de retrocesso democrático no trato com as manifestações. Qual o quadro político se apresentará ao final dessas eleições?

A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO?

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
sábado, 22 de junho de 2013
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 

SOBRE MÁSCARAS, VIOLÊNCIAS E O DIREITO DE SE MANIFESTAR

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Aliás, já escrevi a respeito da inversão que se faz ao filme “V, de Vingança”. Ali, o personagem se revolta exatamente contra a manipulação feita por quem pretendia um poder forte. A violência se tornou constante, o regime refluiu no combate e o medo, ao tomar conta da população, a jogou para os braços de um ditador, que militarizou o poder estatal. Foi contra isso que “V” se insurgiu.
O que se vê pelos meios de comunicação, destacadamente nas grandes redes é uma ênfase às notícias sobre fatos violentos, e um clamor crescente da população por mais “segurança”, significando isso mais polícia nas ruas. Ou seja, enquanto nas ruas os manifestantes clamam por desmilitarização da polícia, nos bairros, principalmente os periféricos, a população exige mais polícia, para combater o que a mídia aponta como um descontrole do Estado para conter a violência. No que eu identifico como uma “geopolítica do medo” sendo maquiavelicamente implantada.
Embora a violência exista, e esteja vinculada principalmente ao tráfico de drogas, ela não é combatida em sua essência. Nem as críticas que se fazem a ela dão ênfase às contradições que fazem do capitalismo um sistema profundamente injusto e desigual.
Ao não desejarem participar de organizações de caráter político, e abominarem os partidos políticos, mesmo os que se intitulam revolucionários e socialistas ou comunistas, esses manifestantes deixam de analisar a conjuntura política com base em fatos concretos e na realidade objetiva. Novas "realidades" são perversamente construídas por outros setores da política, que se beneficiam com esses comportamentos, o que leva a fortalecer a indústria do medo, e a exigência de governos fortes, militarizados e com uma base de parlamentares mais conservadores.
Não há dúvidas de que há infiltração nessas manifestações. Tanto por organizações políticas, que temem se apresentar abertamente por medo das reações dos “Black blocs” e visam também “recrutar” novos militantes entre aquela juventude, como por setores fascistas, tipos provocadores que desde aquele momento por mim citado anteriormente, na década de 1980, já se infiltravam em nosso meio. Policiais ou não. Por motivos diferentes esses setores objetivam criar os confrontos para gerar desgaste nos governos, de tal forma que os possam debilitar. O uso da violência, no caso, como mecanismo de se contrapor à repressão policial assume um verniz diferente nos dois casos, mas o resultado é desastroso de qualquer jeito. Principalmente quando o personagem culpado desse tipo de ato não é um indivíduo vinculado às forças repressoras, porventura infiltrado. O que dá margem para a mídia conservadora enfatizar no seu discurso de um ambiente dominado pela insegurança e anarquia.
Não tenham dúvidas de que o principal discurso nas próximas campanhas eleitorais será esse. Dominados pelo medo, que cotidianamente entra em suas casas pelos canais de TV, ou pela própria realidade que as cercam, as pessoas tendem a sucumbir à repetição constante desse discurso, e corremos o risco de ver a eleição de um parlamento muito mais conservador do que o atual.
Esse poderá ser o resultado de atos inconsequentes e irresponsáveis, movidos por um voluntarismo tolo, e a demonstração de atos de estupidez como se fossem atitudes libertárias e revolucionárias. Em um novo tipo de ludismo pós-moderno que está mais para os atos de cegueira atestado por José Saramago.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A GUERRA CONTRA O TERRORISMO, AO INFINITO E ALÉM!

Nos últimos dias repercutiu-se intensamente a declaração da Presidenta Dilma Roussef, na 69ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 24 de setembro. Eu pude assistir ao seu pronunciamento ao vivo, e depois ouvi a gravação que foi publicado no Blog Vi o Mundo, que reproduziu o mesmo do Palácio do Planalto. Evidentemente que houve uso político, através de manipulações grosseiras do que ela havia dito. Isso feito não somente por candidatos, como também por meios de comunicação.
O Globonews Painel, da emissora a cabo do mesmo nome, apresentou um debate farsesco, com convidados selecionados a dedo, que demonstravam não só uma evidência de pouco caráter, dado à maneira como abordaram a questão, como deixaram bem claro um completo desconhecimento das posições de outros países, notadamente a Rússia e o Irã. Quanto ao seu apresentador, dispensa comentários, seus posicionamentos conservadores alinhados com os EUA são visíveis desde quando foi repórter internacional e cobriu a crise da União Soviética.
Mas o que disse mesmo a Presidenta Dilma, e que se encontra gravado? [1]
“O uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas dos conflitos. Isso está claro na persistência da Questão Palestina; no massacre sistemático do povo sírio; na trágica desestruturação nacional do Iraque; na grave insegurança na Líbia; nos conflitos no Sahel e nos embates na Ucrânia.
“A cada intervenção militar não caminhamos para a Paz mas, sim, assistimos ao acirramento desses conflitos.
“Verifica-se uma trágica multiplicação do número de vítimas civis e de dramas humanitários. Não podemos aceitar que essas manifestações de barbárie recrudesçam, ferindo nossos valores éticos, morais e civilizatórios.

“O Conselho de Segurança tem encontrado dificuldade em promover a solução pacífica desses conflitos. Para vencer esses impasses será necessária uma verdadeira reforma do Conselho de Segurança, processo que se arrasta há muito tempo”.
Analisemos os fatos.
Em 02 de julho de 2014, a capa da revista Carta Capital[2] expunha aquilo que todo estudioso de geopolítica, ou qualquer um que busca informações em conteúdos honestos, sabem: “Iraque, a guerra inventada por Bush cria o mais perigoso estado terrorista do mundo”.
A reação ao discurso da Presidenta Dilma não é somente postura motivada pelo momento eleitoral, é o comportamento daqueles que sempre se alinharam aos interesses dos Estados Unidos. Isso desde quando aquele país apoiou o golpe militar brasileiro, com o apoio da burguesia de lá e daqui. Repete-se nesse momento, uma situação semelhante, quando a geopolítica da guerra fria impunha as escolhas sobre qual dos lados se deveria ficar. Nitidamente, esse alinhamento é a contrapartida dada por tais candidatos à preferência explícita de Washington, tanto a Aécio Neves, quanto, principalmente, a Marina Silva, porque esta, além de mais frágil politicamente, representa melhor o que para eles pode significar a desconstrução dos governos do PT.
Mas o que está por trás dos discursos proferidos na Assembleia Geral das Nações Unidas, tem muito mais abrangência e aborda aquilo que pode vir a ser o estopim de mais uma grande guerra mundial. Assim como, a análise do comportamento dos EUA e países europeus, não pode ser descolada da abordagem da crise econômica que afeta o mundo, e em especial os países mais ricos.
Para simplificar algo complexo, vou começar por estabelecer um parâmetro entre a grande depressão da década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial. Um dos fatores que levou os EUA a sair da crise foi o alto investimento do Estado na indústria bélica, e de lá para cá, acentuou-se a níveis estratosféricos os investimentos nesse setor. Legal, ou ilegalmente.
Repercussão na imprensa
do escândalo Irã-Gate
Basta pegar o exemplo do caso Irã-Contras, também conhecido como Irã-Gate. Creio que poucos se lembram desse fato, ocorrido em 1986. Em plena guerra Irã x Iraque, com os EUA apoiando o Iraque de Sadam Hussein (é isso aí mesmo que está escrito), estabeleceu-se uma relação promíscua, sorrateira, com o contrabando de armas, coordenado pelo assessor do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, coronel Oliver North. A venda de armas para o Irã, resultaria em mais uma ligação perniciosa expondo os tentáculos da política externa desse país. Segundo as investigações desse escândalo os lucros desse negócio foram enviados para os “Contras”, grupo direitista que combatia os Sandinistas na Nicarágua. [3]
Logo em seguida, embora em um affair construído no início dos anos 1980, quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, as ações de parlamentares, da CIA e depois envolvendo diretamente o governo dos Estados Unidos, também durante o governo Ronald Reagan, possibilitou uma aliança que traria futuras dores de cabeça. Determinados a derrotar os soviéticos, principais inimigos na guerra fria, os EUA não vacilaram em dar apoio à Osama Bin Laden e aos seus seguidores Talibãs. Chamados por Reagan de “guerrilheiros da Liberdade”.[4]
Ronald Reagan se encontra com os talibans (1985)
“Estes senhores são os equivalentes morais
 dos pais fundadores da América”. (Reagan)
Seguindo-se a máxima de que “o inimigo do meu inimigo é o meu amigo”, a política externa dos EUA desde há muito se baseava no pragmatismo oportunista, de derrotar adversários financiando e armando os inimigos destes.[5] Com isso, alimentava a indústria da guerra, aquela mesma que ajudou na alavancagem da economia na grande depressão da década de 1930 e se tornou desde então base da economia estadunidense. Listamos assim dois casos, de fortalecimento de governos ou governantes que seriam depois alvos de acusações por possíveis apoios a grupos terroristas, o Sadam Hussein, na guerra contra o Irã, e os Talibãs, na guerra contra os Soviéticos. Mas tem mais.
O ano de 2001 representa um divisor de águas. O ataque ao Word Trade Center redefiniria os alvos do império. Serem atacados em pleno coração econômico e político deixaram cegos os dirigentes estadunidenses, e uma tragédia de erros foi desencadeada quando a vingança desejada, mas a guerra já de antemão planejada, levou os EUA a abrirem uma nova caixa de Pandora. O que se seguiu em termos de política externa não fugiu à regra das estratégias gerais geopolíticas definidas desde Nicholas Spykman e sua teoria da contenção. 
Contudo, erros grosseiros na forma da guerra, com uma estratégia equivocada que mirava um inimigo invisível, ou, quando visível, rapidamente substituído quando eliminado. A guerra ao terror, uma nova modalidade de combate que mirava em inimigos por todas as partes, e identificava em qualquer opositor um demônio terrorista a ser eliminado. O problema é que esse é um inimigo imprevisível, muito embora possa ser identificado, e que se reproduz na medida em que se reage a ele com o mesmo grau de estupidez e semelhança. Combater o terror sectário religioso com o terrorismo de Estado, fere por completo a civilidade definida em tratados internacionais e abre caminho para o fim dos valores criados quando da criação da Organização das Nações Unidas.
Tão grave quanto isso, e como efeito colateral, é a proliferação de grupos terroristas, criaturas que se reproduzem em meio à absoluta falta de regras nos combates das coalizões formadas à revelia da ONU. Estados organizados, verdadeiras potências econômicas e militares, são forçadas pelos erros estratégicos assumidos na origem, a adotarem os mesmos comportamentos dos grupos terroristas. São engolidos pela “guerra santa” dos jihadistas e adotam um tipo de guerra que não envolvem combates em terra, mas explodem vidas indistintamente, e colaboram diretamente para a explosão de acampamentos de refugiados espalhados por todas as fronteiras do Oriente Médio, acentuando uma crise humanitária que se reflete não somente lá, mas por todo o mundo. Principalmente na Europa, que vê seus países serem invadidos por povos de todas as partes do mundo fugindo das desgraças que lhes atormentam.
Ayman al-Zawahiri, líder da
Al Qaeda
O assassinato de Osama Bin Laden, representou o momento que seria o auge da vingança em resposta aos atentados de 11 de setembro. Definia-se como o ápice da luta terrorista. Mas, rei morto, rei posto. Bin Laden era apenas o primeiro na hierarquia de uma estrutura já consolidada. E, como tanto em organizações revolucionárias, quanto em criminosas, existe uma ordem de comando, onde as peças são substituídas naturalmente. Era sabido que a forma como Bin Laden foi caçado levaria ao crescimento do número de seus seguidores, na mesma proporção em que se ampliava o ódio aos EUA, aos europeus e aos demais países aliados.
Com isso, as células jihadistas se multiplicaram, e as organizações terroristas se espalharam pela Ásia e pela África. Mas o foco da “guerra contra o terror” era aqueles países de importância estratégica. Iraque, Afeganistão, Irã, Coréia do Norte, Líbia, Síria. E assim, a justificativa de combater “terroristas” encobriam ações que visavam estabelecer o controle de territórios potencialmente ricos em petróleo. A estratégia foi ampliada e passou a visar a derrocada de governos indesejáveis. Tendo destruído as infraestruturas do Iraque e do Afeganistão, deixando-os serem reconstruídos pelas corporações dos países aliados da coalização, os EUA miraram aqueles países que resistiam à chamada “Primavera Árabe”. Passaram então, a insuflar rebeliões com o intuito de enfraquecerem os governos da Líbia e da Síria. Na resistência desses encaminharam para o financiamento de grupos de oposição, armando-os para favorecer o combate aberto, armado, que pudesse por fim aos “ditadores”, agora demonizados, antes aliados.
Pelo tempo em que se deu esse financiamento e armamento, as organizações proliferaram e a Al Qaeda, agora sem Bin Laden, mas com o seu novo líder, Sheikh Abu Muhammad Ayman al-Zawahiri, foi transformada em uma verdadeira franquia, a ponto do mesmo ter anunciado recentemente uma nova frente de ação desse grupo, na região da Caxemira. Território disputado entre duas potências nucleares, a Índia e o Paquistão.
A Frente al-Nusra/al-Qaeda executa civis 
na região de Aleppo (Síria)
Enquanto produzo esse texto, me deparo com uma entrevista do presidente Obama, reconhecendo ter os EUA se desligado do perigo que esses grupos, citando especificamente o ISIS (da sigla em inglês, Exército Islâmico do Iraque e da Síria), representavam.[6] Ora, foram os Estados Unidos e países europeus que os fortaleceram. Tanto na guerra da Líbia, que deixou um país completamente devastado e entregue a grupos sectários armados e com governo fraco, como na Síria, onde sabidamente os grupos não somente eram armados como também recebiam voluntários islâmicos jihadistas, ou mercenários, europeus, aos milhares.  O objetivo era derrubar o governo de Bashar Al Assad, aliado da Rússia e do Irã. Transformaram, assim, o território sírio, em um campo minado, com um poder crescente nas mãos desses grupos. [7]
Ao mesmo tempo, em meio aos sectarismo fomentado por um governo xiita, opressor dos sunitas, antigos aliados de Sadam Hussein, e a um Iraque igualmente devastado por anos de guerras, de perseguições e de centenas de milhares de mortos, esses grupos foram agindo dos dois lados da fronteira e avançando sobre cidades mal defendidas e com governos frágeis e corruptos, vinculados a grupos tribais.
Os degoladores da Frente al-Nusra/al Qaeda
 (financiados e armados pelos EUA
 via Arabia Saudita, Jordânia e Turquia) 
distribuem fotos e vídeos
 de seus "feitos e conquistas"
  na internet (2013, na Síria)
Ora, como tais organizações, segundo reportagem publicada no Jornal O Popular[8] em número de quinze (as mais importantes), sendo nove delas surgidas depois dos ataques ao Word Trade Center, se armaram a ponto de se constituir num primeiro momento nos “rebeldes sírios”?
1) Os armamentos adquiridos pelos grupos sectários que usam da barbárie e do terror não são de tudo roubados. Boa parte foram conseguidos pelo financiamento dos países ocidentais (inclusive os EUA) aos grupos que lutavam (e ainda lutam) contra o governo sírio, entre esses a Al Qaeda e o Estado Islâmico;
2) Esses recursos foram enviados (e continuam sendo) através das monarquias árabes aliadas (Arábia Saudita, Qatar etc. );
3) Por todo esse tempo ouvimos que o trabalho dos jornalistas estavam sendo impedidos por ação do ditador sírio. Na verdade eram esses grupos sectários que estavam sequestrando jornalistas, muito embora alguns tenham, de fato, tido dificuldades causadas pelo governo sírio. Sabe-se que pelo menos mais vinte jornalistas estão desaparecidos. Por uma estranha intervenção do governo do Qatar um desses jornalistas foi solto, demonstrando uma influência desse país com os grupos terroristas que agem na Síria.
Brzezinski é um geoestrategista que
assessorou vários presidentes dos EUA,
na foto durante o governo Reagan
Todo esse crescimento de ações de barbáries, assassinatos e execuções em massa, e o fortalecimento desses grupos sectários, são efeitos colaterais das guerras promovidas pelos EUA, seja diretamente por meio de intervenções (Iraque e afeganistão), ou indiretamente, por meio do apoio a esses agrupamentos (Líbia e Síria). O Estado islâmico, assim como os Talibâs, são criaturas pérfidas criadas para se constituírem em instrumentos a serviço de interesses estratégicos dos EUA no oriente Médio desde o período da guerra fria. Para melhor conhecimento dessas estratégias estúpidas aconselho a leitura do livro de Moniz Bandeira, "A Segunda Guerra Fria".
A Coalizão agora formada (mais uma vez, repetindo as ações do governo Bush em 2002) atuará de duas maneiras. Garantindo o envio de armas para o Iraque, a fim de ajudar no combate ao grupo sectário do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (o comércio de armamentos bélicos é sempre uma boa saída para a crise econômica). Ou seja, depois de armá-los para derrotar o governo sírio, pretendem agora armar os que se opõem a eles para derrotá-os(?). Talvez não haja mesmo outra coisa a fazer, já que enviar tropas incorreria na morte de soldados, impactando na opinião pública.
E, principalmente, por via aérea, com utilização de caças e de drones, com a sequência de bombardeios em áreas estratégicas, de possíveis alvos identificados como importantes para o Estado Islâmico. Medida ineficaz para derrotar a organização Estado Islâmico, embora possa destruir parte de sua capacidade bélica. Não se ganha nenhuma guerra somente com bombardeios, sem a ação de tropas de infantarias. Mas, seguramente ampliará os problemas que afetam as populações. E se milhares de moradores de cidades ocupadas pelos jihadistas já se deslocaram para as fronteiras com outros países, os bombardeios da coalizão levará a mais deslocamento, ampliando a crise humanitária e os conflitos que já levaram a confrontos com tropas turcas na fronteira da Síria com a Turquia.
Não se sabe até quando se insistirá em uma guerra cara e ineficaz. Mas o bombardeio em território sírio, sem autorização da ONU e à revelia do governo daquele país, já motivou o protesto da Rússia e do Irã. Desde último, pelo fato de ter sido excluído da coalização, já que o governo iraquiano, xiita, é aliado dos iranianos, e por ser essa corrente islâmica a principal vítima das ações criminosas, com execuções em massa, dos ataques do ISIS.
Armar os inimigos de seus inimigos corresponde a uma trágica e estúpida estratégia de luta de contenção, utilizada pelos Estados Unidos e aliados, que por todo esse tempo tem transformado o Oriente Médio em um verdadeiro inferno. Mas que se estende também para a Ásia, Europa Oriental (Ucrânia) e alimentou também os rebeldes islâmicos na região autônoma chinesa de Xinjiang.[9]
Ora, voltando ao começo, vemos que os argumentos da presidenta estão corretísimos. E são óbvios, embora deturpados pela grande mídia, e por candidatos conservadores, no intuito de atacá-la pelo momento político e pelo alinhamento com os EUA que esses setores possuem.
Por todos esses anos, mesmo anteriormente a 2001, mas piorando a partir daí, a política externa dos EUA tem sido desastrosa, e responsável pela disseminação de grupos terroristas com financiamento de armamentos e com a dissolução das estruturas de governos, fragilizando os estados e facilitando o controle de partes de territórios nacionais por organizações extremistas, sectárias, pregadoras da “jihad”, a guerra santa. Alimentaram, assim, os próprios terroristas que agora eles combatem.
É nítido, portanto, o fracasso da estratégia adotada pelos EUA, muito embora sirva aos interesses de grandes corporações, sejam das que atuam no suporte às tropas militares, sejam às que, como abutres, aproveitam-se da destruição para lucrarem com a reconstrução dos países destruídos pelos bombardeios dessas coalizões.
Não se sabem bem como sair dessa enrascada. O fato é que o uso da mesma estratégia poderá fazer a guerra se estender por todo o Oriente Médio, atingindo a Ásia e deixando a Europa insegura quanto à possibilidade de atentados terroristas. Assim como, tende a acentuar a neurose em torno daqueles que professam o islamismo, principalmente nos países europeus, levando ao aumento das restrições das liberdades individuais com a suspeição indiscriminada e as prisões escoradas em atos de exceções.
O que se propõe, e a presidenta foi clara nesse ponto, é a necessária reforma do Conselho de Segurança da ONU, de forma a criar novas condições para se sair de um comportamento submisso perante os EUA e alterar as formas de lidar com os vários governos, mesmo aqueles que se opõem às ações imperialistas, e os daqueles países cuja maioria de seu povo professa o islã. Além de conter as ações criminosas de agentes espalhados por todo o mundo, principalmente de governos não alinhados às grandes potências que espalham crises e intervêm nos países visando gerar instabilidades e derrubá-los,[10] financiando opositores que, quando não conseguem atingir seus intentos pela via democrática agem no sentido de fomentar grupos terroristas, gerando criaturas que depois voltam-se contra os seus criadores.
Tudo isso são fatores geradores da instabilidade que afeta algumas regiões do mundo, principalmente o Oriente Médio e grande parte da Ásia, atingindo áreas extremamente complexas, como aquela definida por Halford Mackinder – antigo geopolítico britânico –  como o Heartland, ou o “coração da terra”[11]. Me refiro à Ucrânia, explosiva fronteira com a Rússia, e onde as ações dos EUA e da OTAN visam, seguindo a estratégia de contenção, citada anteriormente, imprensar a Rússia em seu território e limitar suas ações que ampliem seus poderes regionais.
O mundo vive um dos seus momentos mais inseguros. A possibilidade desses conflitos regionais envolverem mais países e espalharem-se por outros continentes não é improvável. A necessidade de uma estratégia que vise a paz, torna-se essencial, substituindo a agressividade que tem gerado mais inseguranças e ampliado o poder dos grupos sectários, gerado mais terrorismo e ampliado o número de pessoas deslocadas de seus territórios vivendo em condições sub-humanas em campos de refugiados ou arriscando-se em travessias perigosas por meio de embarcações que em muitos casos não chegam aos destinos. E quando chegam, ampliam nos países que escolhem a xenofobia e os problemas sociais, já potencializados por uma crise econômica que afetam boa parte dos países do mundo, principalmente a Europa.
É inegável que os EUA fracassaram em sua lunática guerra contra o terrorismo. E a frase que usei para intitular esse artigo foi apropriada de um personagem de animação, do filme Toy Store. Buzz Lightyear, um astronauta de brinquedo que se julga um “super-herói”, cujo poder era superestimado, e repetia sempre o mesmo bordão: “ao infinito... e além”. Assim me parece ser a tentativa dos EUA de declarar guerra a um inimigo difuso e invisível, criado por suas próprias ações.




[2] QUEIROZ, Antonio Luiz M. C. Costa. O caos será tua herança. Iraque: o resultado da “guerra ao terror”iniciada por Bush é a criação do mais cruel e perigoso estado terrorista do mundo moderno. Revista Carta Capital, nº 806, 02.07.2004. Pp, 22-27.
[7] Pepe Escobar: Como os EUA estão criando o “Siriastão”: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/09/pepe-escobar-como-os-eua-estao-criando.html
[8] Jornal O Popular. Edição de 28.09.2014. Pág. 15
[9] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. Cap. 6, Pag.  119.
[10] PERKINS, John. Confissões de um assassino econômico. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.
[11] MACKINDER, Halford. O pivô geográfico da História. In: Revista de Geopolítica, v. 2, nº 2, p. 3 – 27. Natal-RN, Jul/dez. 2011

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

DEPOIS DE UMA TRAGÉDIA COMO CONTER A DESTEMPERANÇA E O MESSIANISMO?

O messianismo
acompanha o fatídico.
A mídia incensa.
Quero acrescentar algo a essa nebulosa conjuntura política brasileira. Ultimamente o discurso dos defensores do governo tem sido de resgatar as conquistas, comparando-as com o período do governo FHC. Mas há um problema. São 12 anos desde o fim daquele fatídico. O que significa dizer que o jovem que irá dar o seu primeiro voto tinha naquela época 4 anos de idade. Mesmo que esse jovem tivesse dez anos então, e hoje tem 22, pouco ou quase nada se inteirou da realidade social brasileira. Primeiro porque é característica da juventude, se alienar priorizando seus momentos de lazer; segundo porque a história, enquanto currículo escolar, abdica de analisar os fatos contemporâneos, focando quase exclusivamente no passado distante; e em terceiro, porque a grande mídia tem nos últimos anos oferecido uma overdose de más notícias em relação ao país, mesmo sendo na maioria dos casos manipulação das informações, escondendo, inclusive a grave crise que afeta todo o mundo, levando países europeus (inclusive a Alemanha) a terem resultados de PIBs abaixo de zero. E a uma estagnação da economia dos EUA, que não consegue se recuperar dos desastres de suas guerras. 
Por tudo isso, uma faixa da população não consegue estabelecer parâmetros de comparação entre governos do PT e do PSDB, porque para esse setor a comparação é entre o governo Lula e o governo Dilma. E esta, conviveu muito mais com o agravamento da crise econômica mundial para os países fora do eixo central (europa, Japão e EUA), afetando nos últimos anos os BRICs. Apesar desses manterem um crescimento acima da média mundial, esses resultados tem sido menosprezados pela grande mídia, dominada pelos setores conservadores, que desejam dar um novo rumo ao país e refazer as alianças geopolíticas internacionais.
O sonho deve vir acompanhado da crença
de que é possível mudar. A ilusão não
pode prevalecer
Outro fator tem sido as alianças programáticas, e pragmáticas, necessárias para a dita governabilidade. Os setores conservadores, aliados de momento, bandearão de lado na primeira oportunidade. E suas companhias amarram o governo, impedindo um discurso mais à esquerda. Já os que fazem oposição, embora igualmente (ou piores) conservadores, se apresentam como novidades e usam no discurso uma radicalidade artificial, visto que seus projetos apresentam um retrocesso diante do que o país conquistou na última década e das relações que construiu no âmbito das relações internacionais.
O que faltou, portanto, ao governo brasileiro foi apresentar para a população, e à juventude, durante todos esses anos, principalmente depois das jornadas populares de junho de 2013, as distinções entre os projetos políticos que estão em disputa. E encarar com mais determinação as contradições que lhes cercam. Temo que isso sendo feito agora possa dar a impressão de que é devido à disputa eleitoral.
Poema de Brecht usado nas manifestações.
Como fazer a juventude acreditar
que as mudanças estão em curso?
Ademais, como já tenho inserido em alguns artigos, mesmo com um ímpeto oposicionista, tentando algo mais à esquerda do que o governo atual, essa juventude se encaminha para uma armadilha, na escolha de uma, ou duas, candidaturas que escondem seus objetivos, definidos seja pelas opções liberais, ou pelo fundamentalismo religioso conservador. A ilusão do discurso eleitoral, a ânsia de transformação por não conseguir enxergar a continuidade das mudanças, ou porque ficaram refratários a elas pela massificação ideológica midiática, fará com que essa juventude, e aqueles que se encontravam na posição de indefinição, seja levado pela comoção de um trágico acidente, pela ineficiência da propaganda governamental e pelo discurso messiânico. Situação que seja aqui no Brasil, seja em qualquer parte do mundo, sempre trás futuros dissabores quando da descoberta da fraude eleitoral (como foi no caso Collor; ou no Egito recente), causando crises de proporções desconhecidas, levando o país ao caos e ao retrocesso econômico. Nessas condições, as camadas mais pobres, percentual maior da população, e principal beneficiada pelas conquistas dos últimos 12 anos, será a mais afetada, retroagindo aos tempos em que a política brasileira privilegiava somente medidas do agrado das elites econômicas das camadas sociais abastadas.
O discurso não pode se parecer com
demagogia.
O país tem dois meses para se recompor de uma tragédia que pode ter consequências desagradáveis para a sociedade brasileira, de forma a que a racionalidade se imponha sobre o messianismo e a destemperança. E, impõe aos setores progressistas a necessária clarividência de que as condições conjunturais desse momento são bem mais difíceis do que há duas semanas, e requer muito mais do que palavras de ordem e comparações com o trágico legado do governo FHC. É preciso argumentos convincentes, dados relevantes e uma forte dose de coragem ideológica, para estabelecer as diferenças que possam fazer com que a população, principalmente a juventude, consiga separar o joio do trigo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

DECIFRANDO O SISTEMA CAPITALISTA (II) – CRISES ECONÔMICAS E O PODER DAS GRANDES CORPORAÇÕES

DECIFRANDO O SISTEMA CAPITALISTA, é um MINI-CURSO que irá acontecer durante todas as quintas-feiras do mês de outubro (02, 09, 16, 23, 30). É a segunda edição de uma ideia que foi alimentada desde que as notícias sobre a crise econômica se espalharam pelo mundo a partir de 2008, muito embora ela já estivesse ocorrendo pelo menos desde 2006. E tudo isso começou devido às angústias de se trabalhar com um tema cuja profundidade nunca foi devidamente noticiada, falseia-se naqueles elementos basilares para se compreendê-la. Ou seja, de que é uma crise estrutural, decorrente da lógica natural do sistema capitalista, que se fundamenta na busca obsessiva pelo lucro e tem a ganância como seu motor principal. Em 2010 realizamos a primeira edição, concluído com a apresentação do filme Wall Street 2 - O dinheiro nunca dorme. Naquele mesmo ano o documentário Inside Job (Trabalho Interno) foi ganhador do Oscar de melhor documentário, mas não o tínhamos ainda em DVD. Mesmo Wall Street 2 também ainda não estava disponível, mas terminamos o curso em parceria com o Cinema Lumiére (Shopping Bouganville) que realizou uma sessão especial para os participantes do mini-curso, em um sábado pela manhã.

A crise econômica não arrefeceu, ao contrário, está mais acentuada (e globalizada) do que naquele ano, e de lá para cá o mundo passou por grandes ebulições em todos os continentes e uma onda de manifestações varreu a Europa e o Oriente Médio acentuando a crise em vários países, destruindo governos e fragilizando Estados. Mas a grande mídia esconde a dimensão da crise, e, especificamente aqui no Brasil isso se deve às disputas eleitorais, dentro do jogo pela conquista do poder, com o intuito de criar no meio da opinião pública a ideia de que a crise que começa a mexer com a economia brasileira é consequência das políticas econômicas do atual governo. Assim, pouco se fala da falência de estados europeus, do desemprego crescente e do banditismo que toma conta de boa parte das estruturas financeiras e ameaça levar a falência todo o sistema econômico mundial. E de que o baixo crescimento, não só no Brasil, mas em todo o mundo, ainda é consequência de uma crise que não tem previsão para acabar.

Aproveito o blog Gramática do Mundo, como instrumento importante para difundir idéias que possam se contrapor ao monopólio da informação tradicionalmente repassada pela mídia, quase sempre distorcida, para apresentar aos que nos acompanham o conteúdo deste curso, e convidar os que se interessarem a participar do mesmo. Ao mesmo tempo deixamos exposto aqui essa ideía para que possa ser posta em prática em outros Estados por aqueles que também se preocupam em estudar, entender e difundir as origens das crises do sistema capitalista e como elas nos afetam direta e indiretamente.

O Mini-curso será realizado no Auditório do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA-UFG) e no Auditório/Cinema da Faculdade de Letras, e faz parte da programação do Laboratório de Estudos e Dinâmicas Territoriais – Laboter e do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Geopolítica – Nupeg. Serão cinco dias de curso: 02, 09, 16, 23, e 30 de outubro, sempre das 13:30 às 18:00 horas. As Pré-inscrições deverão ser feitas através do email: contatonupeg@gmail.com, até o dia 01.10 . O número de vagas é limitado. Será preciso que o(a) aluno(a) esteja devidamente matriculado em algum curso de graduação ou pós-graduação da UFG. (Na hipótese de as vagas não serem preenchidas, serão aceitas outras inscrições). A condução do curso estará a cargo do Prof. Dr. Romualdo Pessoa.
Logo a seguir o conteúdo do programa e a metodologia aplicada ao mini-curso Decifrando o sistema capitalista – crises econômicas e o poder das grandes corporações.
A estrutura do curso
Procuraremos, mesmo que de maneira sucinta, analisar o processo histórico que levou à consolidação do sistema capitalista e a partir disso explicar didaticamente como funciona o modo de produção capitalista. Para isso é necessário, antes de tudo, saber como se deu a ascensão da burguesia, as revoluções que ela fez e os mecanismos que adotou para revolucionar uma época e o que viria daí em diante. Também é preciso analisar as principais transformações estruturais que aconteceram, principalmente a partir do século XIX e, já no século XX, a consolidação de um modelo de vida que impulsionou o capitalismo. As transições do poder mercantil – industrial – financeiro e o ápice do sistema capitalista, quando o seu controle passa para as mãos das grandes corporações. E, as crises econômicas, como elementos que alteram mecanismos de controle do capitalismo e acentuam as desigualdades sociais, mas tornam-se elas próprias, novos elementos propulsores de um sistema que se aproveita também das desgraças, sejam sociais, causadas por guerras ou provocadas por catástrofes naturais.
Para entender as crises.
Muito se fala das crises econômicas do capitalismo. Algo que passa a acontecer de forma cada vez mais constante, conforme já dizia Lênin, ciclicamente, uma vez que se encurtam as distâncias entre elas. Mas o que pouco se diz é que elas fazem parte da própria dinâmica de funcionamento do sistema, ou seja, o capitalismo se retroalimenta dessas crises.
É para analisar esse processo, e a maneira como o capitalismo encontra saídas para as crises econômicas que ao longo da história definiram a maneira como ele evoluiu, que apresentamos alguns elementos para sua compreensão.
O objetivo é entender o mecanismo de funcionamento do sistema capitalista e encontrar respostas para a sua acelerada ascensão, mesmo que à custa de enormes contradições, como inúmeras guerras, catástrofes, disputas hegemônicas pelo controle do poder mundial, concentração de riqueza paripasso com o crescimento da miséria, definindo como uma de suas características básicas a forte desigualdade social. Paradoxalmente essa desigualdade se dá na contraposição de um enorme sucesso da descoberta de mecanismos cada vez mais sofisticados para produzir mercadorias tecnologicamente avançadas e agregadoras de renda.
O Deus Mercado potencializando divindades menores, mas necessárias para fazer o sistema seguir mantendo sua lógica, o mito do consumo, e a sensação de felicidade que ele carrega, elevado a isso pelas forças ideológicas dominantes, passam a se constituir na base mais importante para a superação de crises econômicas. Renascendo o keynesianismo o Estado surge, em momentos de crise, como a salvação para amenizar seus impactos, mas, fundamentalmente para manter erguida toda a estrutura do modo de produção capitalista, potencializando investimentos que garantem às grandes corporações seguir concentrando renda e riquezas.
Até onde pode ir o poder dessas grandes corporações? E em que medida o Estado, no capitalismo, pode resolver os problemas da distribuição de rendas, da miséria, das desigualdades sociais? É compatível uma lógica concentracionista, em crescimento, do poder das grandes corporações, com a necessidade de impor um freio à usura e ganância a fim de reduzir as desigualdades sociais?
Queremos por meio deste mini-curso, senão encontrar as respostas para essas indagações, reforçar aquelas dúvidas sobre o que fazer, para frear o ímpeto ganancioso dessas corporações e se é possível encontrar saídas, sustentáveis, a um ritmo de desenvolvimento desigual, injusto e concentrador de riquezas.
Objetivo do curso:
O objetivo do curso é identificar como o sistema capitalista se robustece a cada crise. Quais os mecanismos que são responsáveis por essa aparente contradição. E ao mesmo tempo demonstrar como esse sistema vem se transformando ao longo do tempo, no sentido contrário daquele expresso nas primeiras idéias sobre o liberalismo comercial, quando a burguesia combateu o monopólio exercido pelas grandes companhias controladas pelo Estado Absolutista. O que se vê nos dias atuais é um aumento do poder concentrado nas mãos de poucas grandes corporações, a ponto das pessoas não perceberem que se deparam nas gôndolas de supermercados com produtos aparentemente concorrentes, mas que são fabricados pela mesma corporação. Além do controle que elas exercem sobre os Estados, inclusive na definição de determinadas políticas, na medida em que algumas delas possuem valores patrimoniais maiores do que os PIBs de muitos países.
A globalização abriu caminho para essa concentração de poder, presente em todos os setores que lidam com negócios, desde a religião até a mídia, passando pelo controle de marcas, do mercado, e do sistema financeiro. Para onde vai o capitalismo, pós-globalização, com o neoliberalismo desmoralizado, mas mantendo-se ainda de pé esse poder econômico fortemente centralizado nas mãos de poucas corporações que definem, inclusive, nosso modo de viver? Existem saídas ao final desse túnel? São questões que este mini-curso pretende abordar.
Programa e metodologia:
O programa do curso seguirá uma metodologia que visa buscar em filmes e documentários os bastidores de funcionamento do sistema. Serão apresentados cinco filmes/documentários em que esses elementos são postos; a seguir, numa segunda parte da aula serão feitas análises com base naquilo que foi apresentado com o conteúdo de alguns textos que serão deixados à disposição dos inscritos.
1) Na primeira aula o FILME será WALL STREET, PODER E COBIÇA, do diretor Oliver Stone. É interessante começar por esse filme porque ele retrata os Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan, momento de crise econômica, mas de retomada do capitalismo seguindo um novo modelo, o neoliberalismo. O filme foi finalizado no ano de 1985, bem no final do primeiro mandato de Reagan. A partir desta época e daquela que ficou conhecida como a década perdida, o mundo entra em uma nova era, conhecida como GLOBALIZAÇÃO. Com o neoliberalismo o capitalismo retoma sua lógica original e escancara sua opção pela concentração de riqueza, buscando na liberdade de mercado o argumento para desmontar toda a rede de apoio social construída pelo welfare state, de viés keynesiano. Nesta semana entrou em cartaz nos circuitos comerciais a continuação deste filme, abordando agora a crise de 2008, do mesmo diretor, Oliver Stone e estrelado por Michael Douglas.
2) Na segunda aula o documentário a ser exibido é ENRON – OS MAIS ESPERTOS DA SALA. A lógica que impulsionou o capitalismo pós era Reagan, foi a mesma que possibilitou um crescimento meteórico desta grande corporação, que em pouco tempo, devido principalmente pelas relações perniciosas com a família Bush se tornou uma das maiores do mundo no ramo de exploração de energia. Acontece que, segundo o crescente processo de especulação financeira, boa parte daquilo tudo que se apresentava como uma mega-empresa correspondia simplesmente à atividades fraudulentas, inclusive com criação de empresas virtuais encarregadas de vender ações no mercado das bolsas de valores sem nenhum tipo de atividade produtiva.
3) No terceiro dia será apresentado o documentário CORPORATION, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, amplia muito o universo que é representado pelo documentário ENRON. Mostra como as corporações tornaram-se mais poderosas do que o próprio Estado, bem como todo o processo de exploração que leva à uma acumulação espantosa e a um poder incontrolável. O documentário parte de uma decisão judicial nos Estados Unidos que deu às corporações os mesmos direitos que os indivíduos, baseando-se na 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ao Estado que este negue, a qualquer pessoa sob sua jurisdição, igual proteção perante a lei. Com base nisso os diretores constroem uma crítica bem humorada ao mundo corporativo e ao poder que ele carrega.
4) No quarto dia assistiremos a continuação do filme de Oliver Stone, apresentado no início do curso. Aproveitando as repercussões da grave crise econômica que abalou, e ainda segue abalando a economia estadunidense, Stone liberta Gordon Gekko - o megaespeculador do primeiro filme – da cadeia e o introduz em um novo mundo do dinheiro fácil e virtual, mas sempre escorado na usura e ganância. WALL STREET 2 – O DINHEIRO NUNCA DORME.
5) No último dia, fechando o curso, nada melhor do que um documentário que disseca todo o mecanismo de funcionamento do mercado financeiro no capitalismo, e retrata com competência os bastidores da crise capitalista, ainda em curso, e apresenta fortes denúncias sobre o envolvimento do establishment, na condução das medidas fortemente recessivas, beneficiadoras dos grandes burocratas responsáveis pelo caos econômico e salvadoras das grandes corporações financeiras. O documentário TRABALHO INTERNO, premiado no Oscar de 2010, expõe de forma crua todas as responsabilidades de políticos, CEOs, e até mesmo de professores de economia de importantes universidades estadunidenses, na implementação de medidas que fizeram ampliar a crise e o endividamento dos Estados. 
Seguiremos uma nova metodologia, bastante utilizada nos últimos tempos, e expresso em inúmeros artigos que incluiremos na bibliografia. CINEMA E GEOGRAFIA compõem esse novo caminho metodológico, onde exploraremos a capacidade que diretores, produtores e atores encontram para retratar o cotidiano de nossas relações, e buscar em fatos e acontecimentos reais a expressão que transforma em arte nossos cotidianos.
Não necessariamente procuraremos tecer críticas às qualidades artísticas, na medida em que somos leigos neste assunto, mas queremos extrair da capacidade que o cinema possui de nos envolver, para buscar produções cujos temas além de sérios são retratados com competência e qualidade. E que nos servem para irmos construindo o retrato do mundo em que vivemos, a geopolítica mundial, também para nos perguntarmos sempre: para onde iremos? Há vida após o capitalismo?

(*) Não será permitido utilização de celular nem durante os filmes nem nas aulas. A insistência levará ao cancelamento imediato da inscrição. 
(**) Independente de alguém já ter eventualmente assistido algum dos filmes ou documentários, é obrigatório assisti-lo durante o curso. A presença só será considerada se o(a) aluno(a) permanecer também após o filme para o período de exposição e debate dos temas apresentados.
(***) Será concedido certificado de participação correspondendo a 20 horas/aulas, desde que o percentual de presença não seja inferior a 80%. Ou seja, só poderá haver uma ausência nos quatro dias do mini-curso.
(****) Haverá cobrança de inscrição no valor de $10,00, que será revertido para despesas eventuais e, principalmente, para aquisição de lanche a ser servido no intervalo entre a exibição dos filmes e o início das discussões.

BIBLIOGRAFIA:
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. São paulo: Civilização Brasileira, 2013.
CAMPOS, Rui Ribeiro de. Cinema, Geografia e Sala de Aula, in Estudos Geográficos, nº 4 (1). Rio Claro(SP): Unesp, 2006
CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas – Neoliberalismo e ordem global. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
FILHO, Antonio Carlos Queiroz. Geografias de Cinema> A espaciaidade dentro e fora do filme. In, Estudos Geográficos, nº 5(2). Rio Claro (SP): Unesp, 2007
HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004
___________. O Neoliberalismo. Histórias e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2005
___________. O Enigma do Capital, e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011
KLEIN, Naomi. A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
NEVES, Alexandre Aldo, e FERRAZ, Cláudio Benito Oliveira. Cinema e Geografia: em busca de aproximações. In Espaço Plural, Anoo VIII, 2007
PERKINS, John. A História Secreta do Império Americano. São Paulo: Editora Cultrix, 2008
WALLERSTEIN, Immanuel. O Declínio do Poder Americano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004
___________________. O Neoliberalismo, história e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2008