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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A GUERRA CONTRA O TERRORISMO, AO INFINITO E ALÉM!

Nos últimos dias repercutiu-se intensamente a declaração da Presidenta Dilma Roussef, na 69ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 24 de setembro. Eu pude assistir ao seu pronunciamento ao vivo, e depois ouvi a gravação que foi publicado no Blog Vi o Mundo, que reproduziu o mesmo do Palácio do Planalto. Evidentemente que houve uso político, através de manipulações grosseiras do que ela havia dito. Isso feito não somente por candidatos, como também por meios de comunicação.
O Globonews Painel, da emissora a cabo do mesmo nome, apresentou um debate farsesco, com convidados selecionados a dedo, que demonstravam não só uma evidência de pouco caráter, dado à maneira como abordaram a questão, como deixaram bem claro um completo desconhecimento das posições de outros países, notadamente a Rússia e o Irã. Quanto ao seu apresentador, dispensa comentários, seus posicionamentos conservadores alinhados com os EUA são visíveis desde quando foi repórter internacional e cobriu a crise da União Soviética.
Mas o que disse mesmo a Presidenta Dilma, e que se encontra gravado? [1]
“O uso da força é incapaz de eliminar as causas profundas dos conflitos. Isso está claro na persistência da Questão Palestina; no massacre sistemático do povo sírio; na trágica desestruturação nacional do Iraque; na grave insegurança na Líbia; nos conflitos no Sahel e nos embates na Ucrânia.
“A cada intervenção militar não caminhamos para a Paz mas, sim, assistimos ao acirramento desses conflitos.
“Verifica-se uma trágica multiplicação do número de vítimas civis e de dramas humanitários. Não podemos aceitar que essas manifestações de barbárie recrudesçam, ferindo nossos valores éticos, morais e civilizatórios.

“O Conselho de Segurança tem encontrado dificuldade em promover a solução pacífica desses conflitos. Para vencer esses impasses será necessária uma verdadeira reforma do Conselho de Segurança, processo que se arrasta há muito tempo”.
Analisemos os fatos.
Em 02 de julho de 2014, a capa da revista Carta Capital[2] expunha aquilo que todo estudioso de geopolítica, ou qualquer um que busca informações em conteúdos honestos, sabem: “Iraque, a guerra inventada por Bush cria o mais perigoso estado terrorista do mundo”.
A reação ao discurso da Presidenta Dilma não é somente postura motivada pelo momento eleitoral, é o comportamento daqueles que sempre se alinharam aos interesses dos Estados Unidos. Isso desde quando aquele país apoiou o golpe militar brasileiro, com o apoio da burguesia de lá e daqui. Repete-se nesse momento, uma situação semelhante, quando a geopolítica da guerra fria impunha as escolhas sobre qual dos lados se deveria ficar. Nitidamente, esse alinhamento é a contrapartida dada por tais candidatos à preferência explícita de Washington, tanto a Aécio Neves, quanto, principalmente, a Marina Silva, porque esta, além de mais frágil politicamente, representa melhor o que para eles pode significar a desconstrução dos governos do PT.
Mas o que está por trás dos discursos proferidos na Assembleia Geral das Nações Unidas, tem muito mais abrangência e aborda aquilo que pode vir a ser o estopim de mais uma grande guerra mundial. Assim como, a análise do comportamento dos EUA e países europeus, não pode ser descolada da abordagem da crise econômica que afeta o mundo, e em especial os países mais ricos.
Para simplificar algo complexo, vou começar por estabelecer um parâmetro entre a grande depressão da década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial. Um dos fatores que levou os EUA a sair da crise foi o alto investimento do Estado na indústria bélica, e de lá para cá, acentuou-se a níveis estratosféricos os investimentos nesse setor. Legal, ou ilegalmente.
Repercussão na imprensa
do escândalo Irã-Gate
Basta pegar o exemplo do caso Irã-Contras, também conhecido como Irã-Gate. Creio que poucos se lembram desse fato, ocorrido em 1986. Em plena guerra Irã x Iraque, com os EUA apoiando o Iraque de Sadam Hussein (é isso aí mesmo que está escrito), estabeleceu-se uma relação promíscua, sorrateira, com o contrabando de armas, coordenado pelo assessor do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, coronel Oliver North. A venda de armas para o Irã, resultaria em mais uma ligação perniciosa expondo os tentáculos da política externa desse país. Segundo as investigações desse escândalo os lucros desse negócio foram enviados para os “Contras”, grupo direitista que combatia os Sandinistas na Nicarágua. [3]
Logo em seguida, embora em um affair construído no início dos anos 1980, quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, as ações de parlamentares, da CIA e depois envolvendo diretamente o governo dos Estados Unidos, também durante o governo Ronald Reagan, possibilitou uma aliança que traria futuras dores de cabeça. Determinados a derrotar os soviéticos, principais inimigos na guerra fria, os EUA não vacilaram em dar apoio à Osama Bin Laden e aos seus seguidores Talibãs. Chamados por Reagan de “guerrilheiros da Liberdade”.[4]
Ronald Reagan se encontra com os talibans (1985)
“Estes senhores são os equivalentes morais
 dos pais fundadores da América”. (Reagan)
Seguindo-se a máxima de que “o inimigo do meu inimigo é o meu amigo”, a política externa dos EUA desde há muito se baseava no pragmatismo oportunista, de derrotar adversários financiando e armando os inimigos destes.[5] Com isso, alimentava a indústria da guerra, aquela mesma que ajudou na alavancagem da economia na grande depressão da década de 1930 e se tornou desde então base da economia estadunidense. Listamos assim dois casos, de fortalecimento de governos ou governantes que seriam depois alvos de acusações por possíveis apoios a grupos terroristas, o Sadam Hussein, na guerra contra o Irã, e os Talibãs, na guerra contra os Soviéticos. Mas tem mais.
O ano de 2001 representa um divisor de águas. O ataque ao Word Trade Center redefiniria os alvos do império. Serem atacados em pleno coração econômico e político deixaram cegos os dirigentes estadunidenses, e uma tragédia de erros foi desencadeada quando a vingança desejada, mas a guerra já de antemão planejada, levou os EUA a abrirem uma nova caixa de Pandora. O que se seguiu em termos de política externa não fugiu à regra das estratégias gerais geopolíticas definidas desde Nicholas Spykman e sua teoria da contenção. 
Contudo, erros grosseiros na forma da guerra, com uma estratégia equivocada que mirava um inimigo invisível, ou, quando visível, rapidamente substituído quando eliminado. A guerra ao terror, uma nova modalidade de combate que mirava em inimigos por todas as partes, e identificava em qualquer opositor um demônio terrorista a ser eliminado. O problema é que esse é um inimigo imprevisível, muito embora possa ser identificado, e que se reproduz na medida em que se reage a ele com o mesmo grau de estupidez e semelhança. Combater o terror sectário religioso com o terrorismo de Estado, fere por completo a civilidade definida em tratados internacionais e abre caminho para o fim dos valores criados quando da criação da Organização das Nações Unidas.
Tão grave quanto isso, e como efeito colateral, é a proliferação de grupos terroristas, criaturas que se reproduzem em meio à absoluta falta de regras nos combates das coalizões formadas à revelia da ONU. Estados organizados, verdadeiras potências econômicas e militares, são forçadas pelos erros estratégicos assumidos na origem, a adotarem os mesmos comportamentos dos grupos terroristas. São engolidos pela “guerra santa” dos jihadistas e adotam um tipo de guerra que não envolvem combates em terra, mas explodem vidas indistintamente, e colaboram diretamente para a explosão de acampamentos de refugiados espalhados por todas as fronteiras do Oriente Médio, acentuando uma crise humanitária que se reflete não somente lá, mas por todo o mundo. Principalmente na Europa, que vê seus países serem invadidos por povos de todas as partes do mundo fugindo das desgraças que lhes atormentam.
Ayman al-Zawahiri, líder da
Al Qaeda
O assassinato de Osama Bin Laden, representou o momento que seria o auge da vingança em resposta aos atentados de 11 de setembro. Definia-se como o ápice da luta terrorista. Mas, rei morto, rei posto. Bin Laden era apenas o primeiro na hierarquia de uma estrutura já consolidada. E, como tanto em organizações revolucionárias, quanto em criminosas, existe uma ordem de comando, onde as peças são substituídas naturalmente. Era sabido que a forma como Bin Laden foi caçado levaria ao crescimento do número de seus seguidores, na mesma proporção em que se ampliava o ódio aos EUA, aos europeus e aos demais países aliados.
Com isso, as células jihadistas se multiplicaram, e as organizações terroristas se espalharam pela Ásia e pela África. Mas o foco da “guerra contra o terror” era aqueles países de importância estratégica. Iraque, Afeganistão, Irã, Coréia do Norte, Líbia, Síria. E assim, a justificativa de combater “terroristas” encobriam ações que visavam estabelecer o controle de territórios potencialmente ricos em petróleo. A estratégia foi ampliada e passou a visar a derrocada de governos indesejáveis. Tendo destruído as infraestruturas do Iraque e do Afeganistão, deixando-os serem reconstruídos pelas corporações dos países aliados da coalização, os EUA miraram aqueles países que resistiam à chamada “Primavera Árabe”. Passaram então, a insuflar rebeliões com o intuito de enfraquecerem os governos da Líbia e da Síria. Na resistência desses encaminharam para o financiamento de grupos de oposição, armando-os para favorecer o combate aberto, armado, que pudesse por fim aos “ditadores”, agora demonizados, antes aliados.
Pelo tempo em que se deu esse financiamento e armamento, as organizações proliferaram e a Al Qaeda, agora sem Bin Laden, mas com o seu novo líder, Sheikh Abu Muhammad Ayman al-Zawahiri, foi transformada em uma verdadeira franquia, a ponto do mesmo ter anunciado recentemente uma nova frente de ação desse grupo, na região da Caxemira. Território disputado entre duas potências nucleares, a Índia e o Paquistão.
A Frente al-Nusra/al-Qaeda executa civis 
na região de Aleppo (Síria)
Enquanto produzo esse texto, me deparo com uma entrevista do presidente Obama, reconhecendo ter os EUA se desligado do perigo que esses grupos, citando especificamente o ISIS (da sigla em inglês, Exército Islâmico do Iraque e da Síria), representavam.[6] Ora, foram os Estados Unidos e países europeus que os fortaleceram. Tanto na guerra da Líbia, que deixou um país completamente devastado e entregue a grupos sectários armados e com governo fraco, como na Síria, onde sabidamente os grupos não somente eram armados como também recebiam voluntários islâmicos jihadistas, ou mercenários, europeus, aos milhares.  O objetivo era derrubar o governo de Bashar Al Assad, aliado da Rússia e do Irã. Transformaram, assim, o território sírio, em um campo minado, com um poder crescente nas mãos desses grupos. [7]
Ao mesmo tempo, em meio aos sectarismo fomentado por um governo xiita, opressor dos sunitas, antigos aliados de Sadam Hussein, e a um Iraque igualmente devastado por anos de guerras, de perseguições e de centenas de milhares de mortos, esses grupos foram agindo dos dois lados da fronteira e avançando sobre cidades mal defendidas e com governos frágeis e corruptos, vinculados a grupos tribais.
Os degoladores da Frente al-Nusra/al Qaeda
 (financiados e armados pelos EUA
 via Arabia Saudita, Jordânia e Turquia) 
distribuem fotos e vídeos
 de seus "feitos e conquistas"
  na internet (2013, na Síria)
Ora, como tais organizações, segundo reportagem publicada no Jornal O Popular[8] em número de quinze (as mais importantes), sendo nove delas surgidas depois dos ataques ao Word Trade Center, se armaram a ponto de se constituir num primeiro momento nos “rebeldes sírios”?
1) Os armamentos adquiridos pelos grupos sectários que usam da barbárie e do terror não são de tudo roubados. Boa parte foram conseguidos pelo financiamento dos países ocidentais (inclusive os EUA) aos grupos que lutavam (e ainda lutam) contra o governo sírio, entre esses a Al Qaeda e o Estado Islâmico;
2) Esses recursos foram enviados (e continuam sendo) através das monarquias árabes aliadas (Arábia Saudita, Qatar etc. );
3) Por todo esse tempo ouvimos que o trabalho dos jornalistas estavam sendo impedidos por ação do ditador sírio. Na verdade eram esses grupos sectários que estavam sequestrando jornalistas, muito embora alguns tenham, de fato, tido dificuldades causadas pelo governo sírio. Sabe-se que pelo menos mais vinte jornalistas estão desaparecidos. Por uma estranha intervenção do governo do Qatar um desses jornalistas foi solto, demonstrando uma influência desse país com os grupos terroristas que agem na Síria.
Brzezinski é um geoestrategista que
assessorou vários presidentes dos EUA,
na foto durante o governo Reagan
Todo esse crescimento de ações de barbáries, assassinatos e execuções em massa, e o fortalecimento desses grupos sectários, são efeitos colaterais das guerras promovidas pelos EUA, seja diretamente por meio de intervenções (Iraque e afeganistão), ou indiretamente, por meio do apoio a esses agrupamentos (Líbia e Síria). O Estado islâmico, assim como os Talibâs, são criaturas pérfidas criadas para se constituírem em instrumentos a serviço de interesses estratégicos dos EUA no oriente Médio desde o período da guerra fria. Para melhor conhecimento dessas estratégias estúpidas aconselho a leitura do livro de Moniz Bandeira, "A Segunda Guerra Fria".
A Coalizão agora formada (mais uma vez, repetindo as ações do governo Bush em 2002) atuará de duas maneiras. Garantindo o envio de armas para o Iraque, a fim de ajudar no combate ao grupo sectário do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (o comércio de armamentos bélicos é sempre uma boa saída para a crise econômica). Ou seja, depois de armá-los para derrotar o governo sírio, pretendem agora armar os que se opõem a eles para derrotá-os(?). Talvez não haja mesmo outra coisa a fazer, já que enviar tropas incorreria na morte de soldados, impactando na opinião pública.
E, principalmente, por via aérea, com utilização de caças e de drones, com a sequência de bombardeios em áreas estratégicas, de possíveis alvos identificados como importantes para o Estado Islâmico. Medida ineficaz para derrotar a organização Estado Islâmico, embora possa destruir parte de sua capacidade bélica. Não se ganha nenhuma guerra somente com bombardeios, sem a ação de tropas de infantarias. Mas, seguramente ampliará os problemas que afetam as populações. E se milhares de moradores de cidades ocupadas pelos jihadistas já se deslocaram para as fronteiras com outros países, os bombardeios da coalizão levará a mais deslocamento, ampliando a crise humanitária e os conflitos que já levaram a confrontos com tropas turcas na fronteira da Síria com a Turquia.
Não se sabe até quando se insistirá em uma guerra cara e ineficaz. Mas o bombardeio em território sírio, sem autorização da ONU e à revelia do governo daquele país, já motivou o protesto da Rússia e do Irã. Desde último, pelo fato de ter sido excluído da coalização, já que o governo iraquiano, xiita, é aliado dos iranianos, e por ser essa corrente islâmica a principal vítima das ações criminosas, com execuções em massa, dos ataques do ISIS.
Armar os inimigos de seus inimigos corresponde a uma trágica e estúpida estratégia de luta de contenção, utilizada pelos Estados Unidos e aliados, que por todo esse tempo tem transformado o Oriente Médio em um verdadeiro inferno. Mas que se estende também para a Ásia, Europa Oriental (Ucrânia) e alimentou também os rebeldes islâmicos na região autônoma chinesa de Xinjiang.[9]
Ora, voltando ao começo, vemos que os argumentos da presidenta estão corretísimos. E são óbvios, embora deturpados pela grande mídia, e por candidatos conservadores, no intuito de atacá-la pelo momento político e pelo alinhamento com os EUA que esses setores possuem.
Por todos esses anos, mesmo anteriormente a 2001, mas piorando a partir daí, a política externa dos EUA tem sido desastrosa, e responsável pela disseminação de grupos terroristas com financiamento de armamentos e com a dissolução das estruturas de governos, fragilizando os estados e facilitando o controle de partes de territórios nacionais por organizações extremistas, sectárias, pregadoras da “jihad”, a guerra santa. Alimentaram, assim, os próprios terroristas que agora eles combatem.
É nítido, portanto, o fracasso da estratégia adotada pelos EUA, muito embora sirva aos interesses de grandes corporações, sejam das que atuam no suporte às tropas militares, sejam às que, como abutres, aproveitam-se da destruição para lucrarem com a reconstrução dos países destruídos pelos bombardeios dessas coalizões.
Não se sabem bem como sair dessa enrascada. O fato é que o uso da mesma estratégia poderá fazer a guerra se estender por todo o Oriente Médio, atingindo a Ásia e deixando a Europa insegura quanto à possibilidade de atentados terroristas. Assim como, tende a acentuar a neurose em torno daqueles que professam o islamismo, principalmente nos países europeus, levando ao aumento das restrições das liberdades individuais com a suspeição indiscriminada e as prisões escoradas em atos de exceções.
O que se propõe, e a presidenta foi clara nesse ponto, é a necessária reforma do Conselho de Segurança da ONU, de forma a criar novas condições para se sair de um comportamento submisso perante os EUA e alterar as formas de lidar com os vários governos, mesmo aqueles que se opõem às ações imperialistas, e os daqueles países cuja maioria de seu povo professa o islã. Além de conter as ações criminosas de agentes espalhados por todo o mundo, principalmente de governos não alinhados às grandes potências que espalham crises e intervêm nos países visando gerar instabilidades e derrubá-los,[10] financiando opositores que, quando não conseguem atingir seus intentos pela via democrática agem no sentido de fomentar grupos terroristas, gerando criaturas que depois voltam-se contra os seus criadores.
Tudo isso são fatores geradores da instabilidade que afeta algumas regiões do mundo, principalmente o Oriente Médio e grande parte da Ásia, atingindo áreas extremamente complexas, como aquela definida por Halford Mackinder – antigo geopolítico britânico –  como o Heartland, ou o “coração da terra”[11]. Me refiro à Ucrânia, explosiva fronteira com a Rússia, e onde as ações dos EUA e da OTAN visam, seguindo a estratégia de contenção, citada anteriormente, imprensar a Rússia em seu território e limitar suas ações que ampliem seus poderes regionais.
O mundo vive um dos seus momentos mais inseguros. A possibilidade desses conflitos regionais envolverem mais países e espalharem-se por outros continentes não é improvável. A necessidade de uma estratégia que vise a paz, torna-se essencial, substituindo a agressividade que tem gerado mais inseguranças e ampliado o poder dos grupos sectários, gerado mais terrorismo e ampliado o número de pessoas deslocadas de seus territórios vivendo em condições sub-humanas em campos de refugiados ou arriscando-se em travessias perigosas por meio de embarcações que em muitos casos não chegam aos destinos. E quando chegam, ampliam nos países que escolhem a xenofobia e os problemas sociais, já potencializados por uma crise econômica que afetam boa parte dos países do mundo, principalmente a Europa.
É inegável que os EUA fracassaram em sua lunática guerra contra o terrorismo. E a frase que usei para intitular esse artigo foi apropriada de um personagem de animação, do filme Toy Store. Buzz Lightyear, um astronauta de brinquedo que se julga um “super-herói”, cujo poder era superestimado, e repetia sempre o mesmo bordão: “ao infinito... e além”. Assim me parece ser a tentativa dos EUA de declarar guerra a um inimigo difuso e invisível, criado por suas próprias ações.




[2] QUEIROZ, Antonio Luiz M. C. Costa. O caos será tua herança. Iraque: o resultado da “guerra ao terror”iniciada por Bush é a criação do mais cruel e perigoso estado terrorista do mundo moderno. Revista Carta Capital, nº 806, 02.07.2004. Pp, 22-27.
[7] Pepe Escobar: Como os EUA estão criando o “Siriastão”: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/09/pepe-escobar-como-os-eua-estao-criando.html
[8] Jornal O Popular. Edição de 28.09.2014. Pág. 15
[9] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. Cap. 6, Pag.  119.
[10] PERKINS, John. Confissões de um assassino econômico. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.
[11] MACKINDER, Halford. O pivô geográfico da História. In: Revista de Geopolítica, v. 2, nº 2, p. 3 – 27. Natal-RN, Jul/dez. 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

BIN LADEN ESTÁ MORTO! MAS E OSAMA?

Não. O título não está errado. Eu não quis dizer Obama, e sim Osama.
A notícia da morte do líder terrorista mais procurado do mundo chegou neste domingo pelos meios de comunicação. Pela TV e internet foi divulgado a operação que eliminou o chefe da rede Al Qaeda a pouco mais de cem quilômetros de Islamabad, capital do Paquistão. Segundo as informações Bin Laden escondia-se em uma fortaleza na cidade de Abottabad. A cidade tem cerca de 130.000 habitantes e é considerada uma das mais limpas e organizadas do Paquistão. Já entra para História com esse fato.
Mas qual a razão do trocadilho do título? Porque longe da euforia com que a notícia foi veiculada, e até que do ponto de vista simbólico, principalmente para os EUA, faça algum sentido, devemos compreender que a dimensão dos conflitos que se espalham pelo mundo, e do qual o terrorismo é apenas uma tática, vai muito além de Bin Laden.
Não há dúvida que os atos terroristas cometidos pela Al Qaeda são abomináveis. Dentre eles a destruição do World Trade Center. Por mais justas que sejam as razões que motivam seus membros, o assassinato de milhares de pessoas inocentes é inconcebível, até porque são insuficientes para fazer modificar a política também criminosa das potencias imperialistas, notadamente os EUA.
 Ações terroristas fazem parte da história de inúmeros conflitos, e chegou a ser defendida abertamente por Trotsky, na Rússia pré-revolucionária, de forma indiscriminada, e até mesmo por Lênin, aí já de maneira criteriosa, desde que os alvos fossem personagens destacados e lideranças importantes da classe dominante.
Elas são justificadas, por quem a utilizam, pelo fato de o inimigo ser muito mais poderoso e bem armado, não restando outros artifícios capazes de trazer a vitória do que o fustigamento surpreso de ataques a pontos estratégicos. De forma a gerar o terror, o medo, e fragilizar o lado psicológico principalmente da multidão. E assim desnortear o comando militar adversário, muito bem armado, mas impotente diante de inimigo praticamente invisível e que pode estar em qualquer lugar.
Mas ao longo da história os atentados terroristas, principalmente no século XX, terminaram por causar um número extremamente elevado de vítimas inocentes, de forma aleatória, transformando seus responsáveis em bandidos comuns, e não surtindo o efeito desejado de alterar a política, ou até mesmo de derrubar governos.
Contudo, há um outro lado dessa história. O banditismo, principalmente aquele que carrega em sua origem elementos de desigualdades e de injustiças sociais, se causa medo também gera outra expectativa, de ver o lado mais forte ser derrotado. Esse lado é identificado como o causador das injustiças que geraram aqueles atos de banditismo. Isso possibilita que a figura do indivíduo caçado, procurado por atos criminosos cometidos contra um possível opressor, seja transformado em um mito. Essa é a razão de, ao longo da história, serem muitos os casos de indivíduos, acusados de crimes, tornarem-se perante o povo, verdadeiros heróis. Spartacus, Robin Hood, Lampião, são alguns desses exemplos. Sem medo de criar polêmica, cito o mais importante destes, cuja morte transformou suas idéias na maior religião do mundo: Jesus Cristo. E a morte não mata os mitos. Muito ao contrário, potencializa-o, torna-o inquebrantável.
Não quero aqui estabelecer nenhum parâmetro comparativo entre esses personagens, até porque seria absurdo fazê-lo e mero artificialismo. Mas dizer que os atos e fatos cometidos por grandes nações, em especial no tocante ao domínio e exploração rapaces das riquezas de países mais frágeis economicamente, embora ricos potencialmente, sempre geraram reações violentas e geradoras de guerras, guerrilhas e pequenos ou grandes atos terroristas para combater o opressor e invasor de seus domínios territoriais. E grandes lideranças, para o “bem” ou para o “mal”, surgiram desses processos.
 Nessa lista de confrontos, a denominação de terrorista será dada a depender do lado da história em que cada um se coloque. A dizimação da população aborígene na América, inclusive no oeste dos Estados Unidos, a invasão do Vietnã, o aculturamento forçado na Austrália, o bloqueio à Gaza na Palestina ocupada e tantos outros casos de domínio colonialista imposto principalmente pelas potencias, sempre criaram e criarão os Bin Ladens.
Esse espaço é extremamente reduzido para listarmos a quantidade de “heróis e bandidos” que tornaram-se mitos no enfrentamento a situações de opressões e injustiças sociais. Muito embora essa mesma história não seja suficiente para ensinar o quanto essas desigualdades são forças potenciais a elevar figuras como Bin Laden a líderes de causas muitas vezes justas, mas combatidas por caminhos tortuosos e criminosos.
Por essa razão, por continuarem a mesma política belicista e agressora, exploradora das riquezas, principalmente as minerais, é que indico no trocadilho do título a criação de mais um mito, visto de uma realidade completamente diferente daquela com que os jovens estadunidenses euforicamente saíram às ruas para comemorar a morte do “terrorista mais procurado do mundo” .
Osama é um nome comum no Afeganistão, como é em outras partes do mundo, John, Joaquim, José, João e até mesmo Ribamar. Está ligado com elementos da cultura e da religiosidade de cada lugar. São esses indivíduos, anônimos, explorados por uma situação de exploração e desigualdade social, que transformam em mitos figuras que são capazes de enfrentar impérios, exércitos poderosos e “coronéis”.
Iludem-se aqueles que se apegam ao simbolismo da morte de Bin Laden e vê isso como uma grande vitória. Como ato simbólico, a demonstrar o poderio do império e da “força da lei” e do “bem”, momentaneamente surtirá efeito. Inclusive eleitoral, para Obama. Sem trocadilho. Mas a Al Qaeda é muito maior do que o seu líder. Transformou-se em uma organização mundial, uma verdadeira “franquia” de grupos que se organizam para combater a política intervencionista e agressora das potencias européias nesse exato momento expresso na tentativa de eliminar Muamar Kadafi. Embora um ditador, há muitos anos no poder, Kadafi é problema dos Líbios, assim como Berlusconi é um problema dos italianos.
A ação agressora, praticada pela OTAN, a serviços das potencias européias e dos EUA, não se difere dos atos terroristas da Al Qaeda, a não ser pela dimensão tecnológica e do aparato bélico. Assim o foi no Iraque, onde centenas de milhares de iraquianos inocentes foram mortos desde a ocupação estadunidense naquele país. Numa quantidade de mortos muito maior do que a que foi atribuída a Sadam Hussein. O mesmo se repete no Afeganistão.
Nessas situações, e de forma aberrante, a terceirização da guerra permite que os grupos de mercenários executem missões aleatoriamente, e os abusos cometidos, atos de selvageria e assassinato em massa, não podem ser julgados pela justiça daquele país que está sob ocupação. É o caso do que cometeu por muito tempo a Blackwater, maior empresa privada de guerra do mundo. Depois de praticarem vários massacres no Iraque e ter sido denunciada em um livro com o mesmo nome ela foi forçada a mudar sua denominação, passando a chamar-se simplesmente XE.
Quantos novos seguidores da Al Qaeda surgem de situações como essas, de explícitas injustiças, covardias e assassinatos, sem que seja possível punir e condenar os responsáveis? Como surgem os “homens bombas”? Obviamente surgem de situações de crescente revolta contra atos violentos praticados contra uma população frágil e que não permite outro tipo de reação, na medida em que o inimigo é extremamente poderoso. As guerras de guerrilhas e o terrorismo são conseqüência dessa situação. Creio que dois bons filmes podem nos ajudar a entender isso: A Batalha de Argel (recentemente relançado em DVD duplo com bons extras), do diretor Gillo Pontecorvo, que retrata a luta pela libertação do povo argelino contra a dominação colonialista francesa; e Paradise Now, filme mais recente, de 2005, e ganhador de Oscar de melhor filme estrangeiro, que mostra a condição de vida dos jovens palestinos e a sua fragilidade e revolta que os tornam alvos fáceis no processo de recrutamento para tornarem-se “homens bombas”.
Da mesma maneira grupos de bandidos comuns, se aproveitam da situação desses conflitos para dominarem territórios, e quase sempre após essas invasões esses grupos tornam-se um poder paralelo, sendo difícil eliminá-los. Os exemplos podem ser vistos na Somália, no Iêmen, no Sudão, no Afeganistão e em muitos outros lugares. Tornam, eles também, grupos de mercenários fortemente armados, e passam a se constituir entraves para seus antigos aliados: as potencias invasoras. O exemplo mais visível foi do Talibã, armado para combater as antigas tropas soviéticas no Afeganistão. E isso pode estar se repetindo nesse momento na Líbia, e tudo indica que poderá vir a acontecer na Síria.
Bin Laden está morto, mas a situação que o gerou permanece. Isso, certamente, será um motivo para torná-lo um mito muito mais poderoso do que em vida, principalmente nos países onde o radicalismo islâmico se destaca. Embora minoritário, se constitui na força hegemônica de combate as agressões imperialistas. E é bom que o corpo seja apresentado, e devidamente identificado, porque senão se ampliará em muito a dimensão do mito.
E mal se começa a comemorar sua morte e já aparece outro em primeiro lugar, na lista dos dez mais procurados terroristas. A bola da vez agora é o egípcio Ayman Al-Zawahir. Conseguirão ser eliminados? Certamente, o poderio bélico e a capacidade tecnológica e de espionagem é insuperável. Mas assim seguirá a sucessão de novos rebeldes e mitos, porquanto durar as agressões imperialistas e a crescente desigualdade social no mundo.
Por mais que se comemore neste momento a morte de Bin Laden, e que isso sirva para animar o sentimento nacionalista estadunidense, o mundo não estará livre da violência e dos atentados terroristas. E os alvos potenciais continuarão sendo aqueles que em nome do “bem” e da “democracia”, persistem em cometer usurpação, crimes e assassinatos em claro e visível banditismo imperialista.
Para finalizar reporto-me ao livro de Howard Fast, romanceando a vida de Spartacus (que virou roteiro para um filme clássico e ganhador de vários prêmios). Ao ser crucificado na Via Appia – estrada que saía da antiga Roma em direção à Cápua - juntamente com milhares de seus seguidores que, todos eles, teriam assumidos ser também o próprio, ele teria dito no momento em que sua companheira Varínia se aproxima dele com o filho nos braços: “Eu voltarei, e serei milhões”.
Enquanto se ampliar o fosso entre ricos e pobres e a desigualdade se constituir em claro abuso e afronta à humanidade os mitos se multiplicarão, e eles se humanizam na figura daqueles que despontam com coragem de desafiar os mais fortes. E por assim o ser, tornam-se eles mitos maiores do que as dimensões humanas que lhes são atribuídas.
Bin Laden era o alvo, mas o perigo é a miséria e a injustiça social. A Al Qaeda tende a se multiplicar, na medida em que as políticas das grandes potências persistirem em explorar nos países mais pobres as riquezas para salvar suas  ganâncias, usuras e inaceitáveis (para eles) falências.