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terça-feira, 12 de julho de 2016

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – ATINGIMOS O AUGE DAS CONTRADIÇÕES?

Nunca, em nenhuma época, vivemos acontecimentos de forma tão acelerada e intensa. Milton Santos, que morreu há 15 anos, afirmava em sua obra que analisa o processo da globalização, que vivemos um tempo de transição, que se prolongaria tanto mais quanto se tornasse mais difícil encontrar-se alternativas para superar e substituir um sistema em crise crônica.
Há alguns meses escrevi no Blog um texto, apresentando uma série de artigos em que analisava a atual conjuntura política, e no último parágrafo sintetizei essa situação, de uma transição em lenta agonia, já que as perspectivas de novos caminhos se apresentam numa absoluta incógnita.
“Estamos em meio a uma luta de classes encarniçada, a uma grave crise econômica e, também, em meio a uma transição de um sistema que atingiu seu auge, e consequentemente os limites de suas contradições. Mas, para onde vamos, ainda é uma incógnita, o que só torna a transição mais complexa e mais suscetível a conflitos, enfrentamentos políticos, religiosos e guerras de proporções mundiais. Quando o velho insiste em sobreviver e o novo demora a surgir, em se tratando de formações sociais, temos diante de cada um que vive esses momentos, uma longa, violenta e perigosa transição. Resta-nos a resistência para que dentre os caminhos propostos não nos deparemos com retrocessos, nem nos encaminhemos para um abismo”.
Crise: década de 1970
O século XXI já começou embalado por fatos que deixou a todos inseguros sobre o que aconteceria nos anos seguintes. Percebido que o “bug do milênio” não passava de um temor carregado de tolices, e espetacularizado por uma mídia que se especializou em criar o medo do imponderável de forma estúpida, pior do que as crenças nas divindades vingativas, os atos de 11 de setembro de 2001 demonstrou que algo pior estaria por vir. O que ruiu naquele dia não foi somente duas torres, e a trágica perda de milhares de vidas humana, vítimas do ódio alimentado pela irracionalidade de podres poderes. Ali se sentiu estremecer a estrutura econômica de um sistema que já estava claudicante desde os anos 1980, ainda como consequência de uma crise gestada na recomposição dos preços do petróleo, no bojo da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Se o século XX foi intitulado pelo brilhante historiador Eric Hobsbawm, como o breve século, e um dos mais violentos da história, este tem tudo para ser um longo século, porque será arrastado por uma crise de duração prolongada, e quiçá não seja entremeado também por conflitos de dimensão mundial. Registre-se que outro intelectual, um economista, Giovanni Arrighi, já se referira ao século XX, como um longo século, porque foi buscar no entendimento de como a formação dos impérios foi essencial para a consolidação do sistema capitalista, efetivado exatamente no século anterior. O longo, ou o breve século XX, pela abordagem do historiador ou do economista, ambos marxistas, representam uma análise da formação histórica do capitalismo e dos sobressaltos de uma complexa economia, que só vai tornar esse sistema eficaz e vitorioso na segunda metade daquele século.
Mas há um forte diferencial, a tornar longa essa transição. No começo do século XX, uma parte considerável da humanidade acreditava ter ao seu alcance uma alternativa para substituir o sistema capitalista, embora este só tivesse se espalhado por todo o mundo naquele momento, efeito da expansão imperialista. Mas já era visível, principalmente com a grande depressão, que o capitalismo sobrevivia às custas de contorcionismos cada vez mais mirabolantes, salvo em seu extremo, na década de 1930, por uma teoria que tomou emprestado do socialismo, o planejamento e a forte ação estatal, e por uma guerra que destruiu e fez se tornar necessário a reconstrução de uma Europa devastada, que se tornou o laboratório para o keynesianismo e a sobrevida do capitalismo. Mais do que uma sobrevida, o capitalismo foi turbinado pelas novas possibilidades encontradas com as teorias que garantiram o “welfare state” e transformou os EUA no maior credor do mundo.
No entanto, os anos dourados que impulsionaram a economia mundial até a década de 1970 baseava-se fundamentalmente em princípios liberais tradicionais, cujo foco principal era a produção e a circulação de mercadorias, a curta e longa distância. Muito embora seus fundamentos inspirarem-se no livre mercado, todo o seu impulso contou sempre com a intervenção do estado. Isso se intensificou com o keynesianismo, e, por outro lado, com os movimentos nacionalistas nos processos de lutas anticolonialistas. A existência de uma forte corrente pró-socialismo manteve esse comportamento nas medidas econômicas que vigoraram até o final dos anos 1970. Os anos 80 puseram em xeque a tendência natural do capitalismo: seu caráter marcadamente expansionista.
Com as economias esgotadas, naquela que ficou conhecida como “a década perdida”, restou aos estados hegemônicos apressar a derrubada dos países socialistas, envolvidos internamente com o esgotamento de um modelo que não conseguiu se expandir para garantir condições de vida que se aproximasse das melhorias conquistadas pelas populações dos países europeus, cujas economias foram injetadas pelo Plano Marshall no pós-guerra.
No fim da década, a queda do socialismo e, principalmente, após a dissolução da União Soviética, o caminho abriu-se para uma reestruturação no capitalismo. Seja mediante uma expansão em direção ao leste europeu, e até mesmo penetrando nas fronteiras caucasianas e na Rússia, ou disseminando pelo restante do mundo a necessidade de desregulamentação da economia, reduzindo a intervenção do Estado na economia e derrotando as políticas nacionalistas protecionistas naqueles países periféricos, ou então vistos como subdesenvolvidos. Pela nova lógica que se disseminava, o nacionalismo e o excesso de intervenção do Estado eram fatores para manterem essas economias fragilizadas.
Esse processo tem sido analisado com mais intensidade na última década. No entanto, muito embora as vozes críticas da globalização, e das políticas neoliberais, fossem sistematicamente desqualificadas, desde o início desse processo já se analisavam as terríveis consequências de políticas econômicas cujo foco era tão somente atender os interesses dos que controlavam o dinheiro, e buscavam novas formas de garantir a acumulação, mediante medidas que facilitassem a circulação do capital e sua aplicação ao redor do mundo.
A partir de então, e numa rapidez estonteante, escorados em novas tecnologias, o dinheiro circulou o mundo com mais liberdades, e se multiplicaram as aquisições e fusões de grandes empresas, levando à concentração da riqueza de forma ainda mais visível. Proporcionalmente reduziu-se o percentual daqueles que concentravam a maior parte dessa riqueza. Ou seja, um número cada vez menor de pessoas, passava a controlar uma quantidade cada vez maior de dinheiro. O oligopólio passou a caracterizar essa nova etapa, e o poder das grandes corporações assumiu uma dimensão espantosa.
A ganância atingiu todos os recantos do planeta numa força impressionante. Ideologicamente houve uma mudança na maneira de entender o liberalismo, mas isso foi facilmente disseminado com um marketing violento, por meio da imprensa, do cinema, das propagandas. Tornou-se uma verdade absoluta render homenagem ao sucesso da globalização. Praticamente não se falava mais de outras alternativas ao capitalismo, e os que ousavam enfrentar o “pensamento único” eram vistos como vozes que pregavam teorias ultrapassadas, e, aproveitando o sucesso dos “blackbusters” de Spielberg, apelidados de “jurássicos” e afrontados ironicamente.
Mas os protagonistas do sistema tomaram um rumo semelhante ao jogador viciado que não consegue abandonar a banca de jogo, presos pela cobiça. Tão rápido quanto os avanços tecnológicos, foram os mecanismos inovadores nas formas de se ganhar dinheiro fácil, através das oportunidades com que se podia investir em empresas por meio de bolsas de valores 24 horas por dia, em todos os cantos do planeta. Principalmente naqueles países mais frágeis, cujas pressões das organizações globais encarregadas de padronizar as políticas econômicas, se davam mais facilmente, como decorrência dos comportamentos submissos das elites locais. Os juros extremamente elevados criaram portos seguros para investidores usuráveis, e eram garantidos pelas pressões exercidas pelas governanças globais, que impediam qualquer tipo de controle sobre os recursos investidos e dificultavam a adoção de medidas que taxassem seus investimentos no mercado especulativo, sem nenhuma preocupação com as condições econômicas desses países. O “rentismo” passou a se constituir na mais nova forma de se acumular dinheiro, uma nova característica do capitalismo, e criou um novo tipo de burguesia, mais preocupada com as oscilações das bolsas de valores do que com a capacidade de consumo para investimentos produtivos.
No entanto, o sistema não se recuperara por completo da crise iniciada na década de 1970. Muito embora a globalização se apresentasse como a consolidação definitiva do capitalismo, o rumo que o mundo tomou, com o crescimento da ganância e a redução do controle sobre a economia, abriu rombos que deixou incertezas e muitas dúvidas sobre a capacidade de recuperação. Mas isso só era visto por um grupo pequeno de economistas, ou de ativistas políticos ideologicamente avesso ao capitalismo, suas credibilidades eram postas em xeques e suas críticas não eram repercutidas pela grande imprensa.
Tudo se tornou visível, após esse período de inebriamento e crescente ganância, quando em 2008, rendendo-se aos fatos a grande mídia noticiou ao mundo o que alguns economistas já alertavam, sem serem ouvidos: o sistema financeiro estava à beira do “crash”. A quebradeira acontecia e arrastava a economia em meio a escombros de um tsunami econômico e social, de proporções imprevisíveis.
O ponto fora da curva teria sido as especulações feitas por meio de hipotecas no mercado imobiliário estadunidense. Mas esse foi apenas um fator, outros já vinham causando fissuras na estrutura do capitalismo. Desde os ataques ao World Trade Center, aos gastos milionários com as invasões do Iraque e Afeganistão, e a desastrosa “guerra ao terror”, além dos vai-e-vem no preço dos barris de petróleo, tudo isso e mais outros motivos, se juntaram a absoluta falta de controle de um sistema que perdeu a capacidade de  se contentar com os lucros obtidos a partir de investimentos produtivos, e se transformou em um verdadeiro cassino global, e, como em todas situações que envolvem jogo, somente os donos das bancas lucram, ou um ou outro afortunado que aposta quantias elevadas e conhecem os mecanismos de burlar o sistema.
Segue-se a esse absoluto descontrole da forma de funcionamento do sistema capitalista, toda uma série de acontecimentos que acompanha um novo modelo posto em prática nas últimas décadas, de maior intensidade nos mecanismos perversos de gerar desigualdades. O vale tudo, causado pela intensidade de um comportamento individualista, gerado pela onda da oportunidade e da competência, consolidada na meritocracia, tornou a sociedade adepta de um comportamento mais frio, pragmático e focada no sucesso a qualquer preço. Os exemplos pinçados numa realidade absolutamente diferente, são apresentados como sinônimo de dedicação e esforço do trabalho e da inteligência.
Antecedeu-se a toda uma nova formulação de comportamentos um receituário ideológico, adredemente vinculado ao caminho para o bem-estar individual e familiar, que se disseminou via ideologia neoliberal, cujos discursos se fundamentava nas questões postas no parágrafo anterior, e se espalhou pela grande mídia e nas igrejas neopentecostais. Nestas, a “teologia da prosperidade” procurou inculcar nos indivíduos a crença secular, pregada por alguns setores do protestantismo, notadamente os de origem estadunidenses, de que pela dedicação à fé e aceitação da ordem, se atingiria o sucesso, sendo este a recompensa da fidelidade como uma resposta divina, a prova de ser Deus fiel a quem lhe é fiel. O oposto às pregações do cristianismo primitivo, surgido como questionador das injustiças, da cobiça e da usura.
Por todos esses anos, deste novo século, escandalosamente acontecia o contrário do que se propagandeava com a globalização. A concentração de riqueza atingiu um patamar escandaloso diante de uma realidade desigual e ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. E a pobreza, em larga escala, que se concentrava nos países pobres, espalhou-se pelos países mais desenvolvidos, como consequência do deslocamento de fábricas, a extinção de empregos e o aumento do número de moradores de ruas, ou da favelização.
Embora tenha havido uma pequena recuperação, nos dois últimos anos, ela está longe de representar uma saída para a crise, e em muitos casos, a retomada do nível de empregos está relacionado à busca de novas alternativas individuais, formal ou informal, ou a reabsorção de muitos desempregados em um mercado de trabalho cujo valor da mão de obra decaiu consideravelmente. Boa parte dos que retornaram à atividade laboral, o fizeram em outras funções, sendo forçados a aceitarem salários bem inferiores aos que possuíam anteriormente.
Mas, com a financeirização do sistema capitalista, e uma nova classe de novos ricos decorrente do deslocamento do centro gerador de lucros, já não tanto no setor produtivo, mas principalmente em negócios especulativos do mercado de ações, as condições econômicas acentuaram a concentração de rendas, e quanto mais lucravam, mais essa nova burguesia se tornava insensível e mais gananciosa.
Os Estados tornaram-se, então, reféns de um número cada vez menor de empresas, concentradas em processos inexplicáveis de fusões, consolidando um novo ciclo econômico, baseado nos oligopólios, no poder concentrado de grandes corporações e de poucas famílias de bilionários.
No entanto, isso não seria possível, apesar da violência como essas transformações se deram, principalmente passando por cima das soberanias dos países mais pobres, e agressivamente controlando suas economias, se não houvesse um processo de verdadeira lavagem cerebral nas pessoas, de convencimento sobre o final definitivo da humanidade nas hordas do capitalismo. Todas as armas foram utilizadas para isso, e naqueles países onde as políticas não atendiam a esses interesses houve uma verdadeira guerrilha midiática, a desacreditar outras alternativas que estivessem sendo construídas, fora da ordem estabelecida pelas governanças globais e pelo Consenso de Washington.
Desestabilizar governos que contraditavam essas verdades absolutas neoliberais, passou a ser uma estratégia a substituir as velhas intervenções militares. Os golpes de estado tornaram-se legitimados pela multidão cega, posta nas ruas pelas propagandas das corporações midiáticas, e, absolutamente alienadas quanto à realidade de uma crise sistêmica e mundial. A cegueira ideológica e o efeito manada constituiu-se em uma nova arma, para impedir que, mesmo em crise, a hegemonia do poder central neoliberal fosse ameaçada. Muito embora esteja em franca decadência, este centro, os EUA, mantém-se ainda como uma forte economia e, principalmente, com um poder bélico inatacável, a não ser por tresloucados militantes sectários a buscarem o paraíso para seus atos de “coragem” explosivas.
Mas, como na expectativa de Marx, considerando-se uma realidade em crise e a ampliação de suas contradições, não pode ser menosprezada a possibilidade de que elas ocorram internamente. Isso já é possível de se verificar no caos em que vivem algumas dessas sociedades, seja pelo constante medo de ações terroristas, ou pelas próprias loucuras gestadas internamente em ações que podem transformar alguns desses países, em especial os EUA, em ambientes de permanente terror, decorrente de confrontos alimentados pela luta de classes e pelo grau crescente de intolerância étnica, de cor, às escolhas sexuais e aos estrangeiros.
Contudo, se essa é uma possibilidade a estremecer os alicerces de alguns desses países, por outro lado a crise desperta antigas rixas, na disputa por espaços que garantam a hegemonia em um tempo fragmentado e de poderes cambaleantes. O temor histórico do avanço do urso em direção à Europa, algo já temido desde o começo dos séculos XX e assim alertado por um dos proeminentes geopolíticos britânicos, Sir Halford Mackinder, reacende agora com uma força ameaçadora, diante das estrepolias estratégicas de um ex integrante do serviço secreto soviético, a temida KGB onde chegou até o posto de coronel: Vladimir Putin.
Como a reportar os períodos que antecederam as duas grandes guerras mundiais, e, sintomaticamente, esses períodos foram marcados por crises econômicas estruturais (1905-1914 e 1930-1937). A primeira de característica expansionista, uma crise gerada pelo crescimento do capitalismo e pela disputa dos grandes impérios pelo mercado mundial. A segunda, de caráter recessivo, que irrompeu numa terrível depressão que afetou quase de morte o sistema capitalista.
Desta feita, diante de uma crise que já se prolonga há mais de uma década, velhas rivalidades retornam, mas o significado dessas estratégias é o mesmo, despertar o caráter destrutivo do sistema, identificado pela economista Naomi Klein, como de “Capitalismo de desastre”, pelo qual as guerras e as catástrofes são colocadas na conta de ótimas oportunidades para reconstruir um mundo devastado e recuperar economias centrais.
Enquanto isso se dissemina pela sociedade os sintomas de um ambiente criado ao sabor dessas grandes disputas, dos podres poderes, das formas de desenvolvimento que definem as relações sociais. Momentos de crises são oportunos para o surgimento de comportamentos radicalizados, a defender ou a defenestrar os governos que comandam os estados. Porque, tal qual argumenta a historiadora estadunidense, Ellen Wood, a burguesia conseguiu gerar uma cultura em meio ao povo que a torna onipresente nos momentos de crises. O povo, em sua revolta contra as condições que o mantém refém de economias recessivas, ou diante de situações em que lhe é negado a mínima dignidade de sobrevivência, com desemprego crescente, ataca de forma violenta os que governam, e o Estado, mas não se volta com a mesma virulência contra a classe que detém o controle da riqueza, dos meios de produção. Falta-lhe consciência para transformar um sentimento de ódio pelas injustiças, em razões que transforme as estruturas sociais.
Violência em larga escala, comportamentos intolerantes contra as liberdades individuais, tentativa de controle dos desejos, criminalidade tratada somente como desvio de caráter e não como uma patologia social, disrupção familiar, ódio étnico e preconceito contra as diferenças, de sexo, cor e formas do corpo, definido por valores e padrões estabelecidos pela classe dominante, tudo isso se choca e explode em tempos de crise.
Sem enxergar alternativas para um sistema cambaleante o sintoma invisível é o de uma longa transição, em que o novo demora a despontar, e o velho, já desgastado, joga as últimas cartadas num jogo viciado, enxergando no caos as poucas possibilidades de reestruturação. Como há milênios, nas longas guerras em que os que morrem são os que não possuem as riquezas, constroem-se impasses a fim de preservar privilégios, ou de ampliá-los, ao fim de destruições perversas.
Mas seja pela guerra, ou pela própria forma injusta de concentrar riquezas e distribuir miséria, a morte é uma frequentadora contumaz nos territórios pobres e periféricos. E, no entanto, como a cegar os que são induzidos ideologicamente a acreditar na crença da fatalidade capitalista, o próprio povo anseia por se ver protegido pela segurança armada a serviço da classe que lhe oprime. E este mesmo povo se distingue esculhambando-se enquanto pobres, e entronizando por meio de deslumbramentos doentios, os que despontam e enriquecem, pelos mecanismos ditos “meritocráticos”. É como concordar com um veredito decidido antes de qualquer crime, pois que senão pela recusa da própria existência, negada como real, e pela aceitação virtual de uma improvável ascensão de uma pirâmide cujo topo se limita pela riqueza, mas, principalmente, pela origem de classe.
Este mundo maravilhoso, assim cantado na magnífica voz de Louis Armstrong, “com o brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite”, só garantirá a efetiva liberdade quando a opressão de classe desaparecer, e as desigualdades abissais não sirvam para definir critérios de caráter entre as pessoas. Só assim podemos acreditar que os bebês que vão nascer, “irão aprender muito mais do que eu jamais vou saber”. E esse algo mais, talvez seja a velha capacidade de poder dividir o que produzimos, mediante o velho altruísmo, qualidade que nos fez sobreviver em nosso processo de adaptação à ambientes inóspitos, e garantiu a sobrevivência, até aqui, da raça humana. Assim, una, etnicamente diversa, somente vista como várias pela capacidade adquirida em sistemas perversos, que impõe a poucos o controle da vida de muitos, tornando-os diferentes embora iguais.
Quando superarmos os milênios que nos separaram da nossa capacidade altruística, voltaremos a ser humanos, e a vivermos no mundo cantado por Armstrong. Aí poderemos dizer: “What a wonderful world”.
Isto é possível!


REFERÊNCIAS:
ARMSTRONG, Louis. What a wonderful world. https://www.youtube.com/watch?v=oGmRKWJdwBc
ARRIGUI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2012
HOBSBAWM, Eric. O breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 2008
MACKINDER, Halford. O Pivô geográfico da história. São Paulo: Geousp, Espaço e tempo, nº 29, pág. 87-100, 2011.
SANTOS, Milton Santos. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2011.
PIKETTI, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014
WOOD, Ellen Meiksins. O Império do Capital. São Paulo: Boitempo Edtorial, 2014.
http://www.defesanet.com.br/otan/noticia/22863/OTAN-determina-reforco-militar-no-leste/
http://informacionaldesnudo.com/mapa-cuales-son-los-paises-mas-endeudados-del-mundo/

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

DECIFRANDO O SISTEMA CAPITALISTA (II) – CRISES ECONÔMICAS E O PODER DAS GRANDES CORPORAÇÕES

DECIFRANDO O SISTEMA CAPITALISTA, é um MINI-CURSO que irá acontecer durante todas as quintas-feiras do mês de outubro (02, 09, 16, 23, 30). É a segunda edição de uma ideia que foi alimentada desde que as notícias sobre a crise econômica se espalharam pelo mundo a partir de 2008, muito embora ela já estivesse ocorrendo pelo menos desde 2006. E tudo isso começou devido às angústias de se trabalhar com um tema cuja profundidade nunca foi devidamente noticiada, falseia-se naqueles elementos basilares para se compreendê-la. Ou seja, de que é uma crise estrutural, decorrente da lógica natural do sistema capitalista, que se fundamenta na busca obsessiva pelo lucro e tem a ganância como seu motor principal. Em 2010 realizamos a primeira edição, concluído com a apresentação do filme Wall Street 2 - O dinheiro nunca dorme. Naquele mesmo ano o documentário Inside Job (Trabalho Interno) foi ganhador do Oscar de melhor documentário, mas não o tínhamos ainda em DVD. Mesmo Wall Street 2 também ainda não estava disponível, mas terminamos o curso em parceria com o Cinema Lumiére (Shopping Bouganville) que realizou uma sessão especial para os participantes do mini-curso, em um sábado pela manhã.

A crise econômica não arrefeceu, ao contrário, está mais acentuada (e globalizada) do que naquele ano, e de lá para cá o mundo passou por grandes ebulições em todos os continentes e uma onda de manifestações varreu a Europa e o Oriente Médio acentuando a crise em vários países, destruindo governos e fragilizando Estados. Mas a grande mídia esconde a dimensão da crise, e, especificamente aqui no Brasil isso se deve às disputas eleitorais, dentro do jogo pela conquista do poder, com o intuito de criar no meio da opinião pública a ideia de que a crise que começa a mexer com a economia brasileira é consequência das políticas econômicas do atual governo. Assim, pouco se fala da falência de estados europeus, do desemprego crescente e do banditismo que toma conta de boa parte das estruturas financeiras e ameaça levar a falência todo o sistema econômico mundial. E de que o baixo crescimento, não só no Brasil, mas em todo o mundo, ainda é consequência de uma crise que não tem previsão para acabar.

Aproveito o blog Gramática do Mundo, como instrumento importante para difundir idéias que possam se contrapor ao monopólio da informação tradicionalmente repassada pela mídia, quase sempre distorcida, para apresentar aos que nos acompanham o conteúdo deste curso, e convidar os que se interessarem a participar do mesmo. Ao mesmo tempo deixamos exposto aqui essa ideía para que possa ser posta em prática em outros Estados por aqueles que também se preocupam em estudar, entender e difundir as origens das crises do sistema capitalista e como elas nos afetam direta e indiretamente.

O Mini-curso será realizado no Auditório do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA-UFG) e no Auditório/Cinema da Faculdade de Letras, e faz parte da programação do Laboratório de Estudos e Dinâmicas Territoriais – Laboter e do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Geopolítica – Nupeg. Serão cinco dias de curso: 02, 09, 16, 23, e 30 de outubro, sempre das 13:30 às 18:00 horas. As Pré-inscrições deverão ser feitas através do email: contatonupeg@gmail.com, até o dia 01.10 . O número de vagas é limitado. Será preciso que o(a) aluno(a) esteja devidamente matriculado em algum curso de graduação ou pós-graduação da UFG. (Na hipótese de as vagas não serem preenchidas, serão aceitas outras inscrições). A condução do curso estará a cargo do Prof. Dr. Romualdo Pessoa.
Logo a seguir o conteúdo do programa e a metodologia aplicada ao mini-curso Decifrando o sistema capitalista – crises econômicas e o poder das grandes corporações.
A estrutura do curso
Procuraremos, mesmo que de maneira sucinta, analisar o processo histórico que levou à consolidação do sistema capitalista e a partir disso explicar didaticamente como funciona o modo de produção capitalista. Para isso é necessário, antes de tudo, saber como se deu a ascensão da burguesia, as revoluções que ela fez e os mecanismos que adotou para revolucionar uma época e o que viria daí em diante. Também é preciso analisar as principais transformações estruturais que aconteceram, principalmente a partir do século XIX e, já no século XX, a consolidação de um modelo de vida que impulsionou o capitalismo. As transições do poder mercantil – industrial – financeiro e o ápice do sistema capitalista, quando o seu controle passa para as mãos das grandes corporações. E, as crises econômicas, como elementos que alteram mecanismos de controle do capitalismo e acentuam as desigualdades sociais, mas tornam-se elas próprias, novos elementos propulsores de um sistema que se aproveita também das desgraças, sejam sociais, causadas por guerras ou provocadas por catástrofes naturais.
Para entender as crises.
Muito se fala das crises econômicas do capitalismo. Algo que passa a acontecer de forma cada vez mais constante, conforme já dizia Lênin, ciclicamente, uma vez que se encurtam as distâncias entre elas. Mas o que pouco se diz é que elas fazem parte da própria dinâmica de funcionamento do sistema, ou seja, o capitalismo se retroalimenta dessas crises.
É para analisar esse processo, e a maneira como o capitalismo encontra saídas para as crises econômicas que ao longo da história definiram a maneira como ele evoluiu, que apresentamos alguns elementos para sua compreensão.
O objetivo é entender o mecanismo de funcionamento do sistema capitalista e encontrar respostas para a sua acelerada ascensão, mesmo que à custa de enormes contradições, como inúmeras guerras, catástrofes, disputas hegemônicas pelo controle do poder mundial, concentração de riqueza paripasso com o crescimento da miséria, definindo como uma de suas características básicas a forte desigualdade social. Paradoxalmente essa desigualdade se dá na contraposição de um enorme sucesso da descoberta de mecanismos cada vez mais sofisticados para produzir mercadorias tecnologicamente avançadas e agregadoras de renda.
O Deus Mercado potencializando divindades menores, mas necessárias para fazer o sistema seguir mantendo sua lógica, o mito do consumo, e a sensação de felicidade que ele carrega, elevado a isso pelas forças ideológicas dominantes, passam a se constituir na base mais importante para a superação de crises econômicas. Renascendo o keynesianismo o Estado surge, em momentos de crise, como a salvação para amenizar seus impactos, mas, fundamentalmente para manter erguida toda a estrutura do modo de produção capitalista, potencializando investimentos que garantem às grandes corporações seguir concentrando renda e riquezas.
Até onde pode ir o poder dessas grandes corporações? E em que medida o Estado, no capitalismo, pode resolver os problemas da distribuição de rendas, da miséria, das desigualdades sociais? É compatível uma lógica concentracionista, em crescimento, do poder das grandes corporações, com a necessidade de impor um freio à usura e ganância a fim de reduzir as desigualdades sociais?
Queremos por meio deste mini-curso, senão encontrar as respostas para essas indagações, reforçar aquelas dúvidas sobre o que fazer, para frear o ímpeto ganancioso dessas corporações e se é possível encontrar saídas, sustentáveis, a um ritmo de desenvolvimento desigual, injusto e concentrador de riquezas.
Objetivo do curso:
O objetivo do curso é identificar como o sistema capitalista se robustece a cada crise. Quais os mecanismos que são responsáveis por essa aparente contradição. E ao mesmo tempo demonstrar como esse sistema vem se transformando ao longo do tempo, no sentido contrário daquele expresso nas primeiras idéias sobre o liberalismo comercial, quando a burguesia combateu o monopólio exercido pelas grandes companhias controladas pelo Estado Absolutista. O que se vê nos dias atuais é um aumento do poder concentrado nas mãos de poucas grandes corporações, a ponto das pessoas não perceberem que se deparam nas gôndolas de supermercados com produtos aparentemente concorrentes, mas que são fabricados pela mesma corporação. Além do controle que elas exercem sobre os Estados, inclusive na definição de determinadas políticas, na medida em que algumas delas possuem valores patrimoniais maiores do que os PIBs de muitos países.
A globalização abriu caminho para essa concentração de poder, presente em todos os setores que lidam com negócios, desde a religião até a mídia, passando pelo controle de marcas, do mercado, e do sistema financeiro. Para onde vai o capitalismo, pós-globalização, com o neoliberalismo desmoralizado, mas mantendo-se ainda de pé esse poder econômico fortemente centralizado nas mãos de poucas corporações que definem, inclusive, nosso modo de viver? Existem saídas ao final desse túnel? São questões que este mini-curso pretende abordar.
Programa e metodologia:
O programa do curso seguirá uma metodologia que visa buscar em filmes e documentários os bastidores de funcionamento do sistema. Serão apresentados cinco filmes/documentários em que esses elementos são postos; a seguir, numa segunda parte da aula serão feitas análises com base naquilo que foi apresentado com o conteúdo de alguns textos que serão deixados à disposição dos inscritos.
1) Na primeira aula o FILME será WALL STREET, PODER E COBIÇA, do diretor Oliver Stone. É interessante começar por esse filme porque ele retrata os Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan, momento de crise econômica, mas de retomada do capitalismo seguindo um novo modelo, o neoliberalismo. O filme foi finalizado no ano de 1985, bem no final do primeiro mandato de Reagan. A partir desta época e daquela que ficou conhecida como a década perdida, o mundo entra em uma nova era, conhecida como GLOBALIZAÇÃO. Com o neoliberalismo o capitalismo retoma sua lógica original e escancara sua opção pela concentração de riqueza, buscando na liberdade de mercado o argumento para desmontar toda a rede de apoio social construída pelo welfare state, de viés keynesiano. Nesta semana entrou em cartaz nos circuitos comerciais a continuação deste filme, abordando agora a crise de 2008, do mesmo diretor, Oliver Stone e estrelado por Michael Douglas.
2) Na segunda aula o documentário a ser exibido é ENRON – OS MAIS ESPERTOS DA SALA. A lógica que impulsionou o capitalismo pós era Reagan, foi a mesma que possibilitou um crescimento meteórico desta grande corporação, que em pouco tempo, devido principalmente pelas relações perniciosas com a família Bush se tornou uma das maiores do mundo no ramo de exploração de energia. Acontece que, segundo o crescente processo de especulação financeira, boa parte daquilo tudo que se apresentava como uma mega-empresa correspondia simplesmente à atividades fraudulentas, inclusive com criação de empresas virtuais encarregadas de vender ações no mercado das bolsas de valores sem nenhum tipo de atividade produtiva.
3) No terceiro dia será apresentado o documentário CORPORATION, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, amplia muito o universo que é representado pelo documentário ENRON. Mostra como as corporações tornaram-se mais poderosas do que o próprio Estado, bem como todo o processo de exploração que leva à uma acumulação espantosa e a um poder incontrolável. O documentário parte de uma decisão judicial nos Estados Unidos que deu às corporações os mesmos direitos que os indivíduos, baseando-se na 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ao Estado que este negue, a qualquer pessoa sob sua jurisdição, igual proteção perante a lei. Com base nisso os diretores constroem uma crítica bem humorada ao mundo corporativo e ao poder que ele carrega.
4) No quarto dia assistiremos a continuação do filme de Oliver Stone, apresentado no início do curso. Aproveitando as repercussões da grave crise econômica que abalou, e ainda segue abalando a economia estadunidense, Stone liberta Gordon Gekko - o megaespeculador do primeiro filme – da cadeia e o introduz em um novo mundo do dinheiro fácil e virtual, mas sempre escorado na usura e ganância. WALL STREET 2 – O DINHEIRO NUNCA DORME.
5) No último dia, fechando o curso, nada melhor do que um documentário que disseca todo o mecanismo de funcionamento do mercado financeiro no capitalismo, e retrata com competência os bastidores da crise capitalista, ainda em curso, e apresenta fortes denúncias sobre o envolvimento do establishment, na condução das medidas fortemente recessivas, beneficiadoras dos grandes burocratas responsáveis pelo caos econômico e salvadoras das grandes corporações financeiras. O documentário TRABALHO INTERNO, premiado no Oscar de 2010, expõe de forma crua todas as responsabilidades de políticos, CEOs, e até mesmo de professores de economia de importantes universidades estadunidenses, na implementação de medidas que fizeram ampliar a crise e o endividamento dos Estados. 
Seguiremos uma nova metodologia, bastante utilizada nos últimos tempos, e expresso em inúmeros artigos que incluiremos na bibliografia. CINEMA E GEOGRAFIA compõem esse novo caminho metodológico, onde exploraremos a capacidade que diretores, produtores e atores encontram para retratar o cotidiano de nossas relações, e buscar em fatos e acontecimentos reais a expressão que transforma em arte nossos cotidianos.
Não necessariamente procuraremos tecer críticas às qualidades artísticas, na medida em que somos leigos neste assunto, mas queremos extrair da capacidade que o cinema possui de nos envolver, para buscar produções cujos temas além de sérios são retratados com competência e qualidade. E que nos servem para irmos construindo o retrato do mundo em que vivemos, a geopolítica mundial, também para nos perguntarmos sempre: para onde iremos? Há vida após o capitalismo?

(*) Não será permitido utilização de celular nem durante os filmes nem nas aulas. A insistência levará ao cancelamento imediato da inscrição. 
(**) Independente de alguém já ter eventualmente assistido algum dos filmes ou documentários, é obrigatório assisti-lo durante o curso. A presença só será considerada se o(a) aluno(a) permanecer também após o filme para o período de exposição e debate dos temas apresentados.
(***) Será concedido certificado de participação correspondendo a 20 horas/aulas, desde que o percentual de presença não seja inferior a 80%. Ou seja, só poderá haver uma ausência nos quatro dias do mini-curso.
(****) Haverá cobrança de inscrição no valor de $10,00, que será revertido para despesas eventuais e, principalmente, para aquisição de lanche a ser servido no intervalo entre a exibição dos filmes e o início das discussões.

BIBLIOGRAFIA:
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. São paulo: Civilização Brasileira, 2013.
CAMPOS, Rui Ribeiro de. Cinema, Geografia e Sala de Aula, in Estudos Geográficos, nº 4 (1). Rio Claro(SP): Unesp, 2006
CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas – Neoliberalismo e ordem global. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
FILHO, Antonio Carlos Queiroz. Geografias de Cinema> A espaciaidade dentro e fora do filme. In, Estudos Geográficos, nº 5(2). Rio Claro (SP): Unesp, 2007
HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004
___________. O Neoliberalismo. Histórias e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2005
___________. O Enigma do Capital, e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011
KLEIN, Naomi. A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
NEVES, Alexandre Aldo, e FERRAZ, Cláudio Benito Oliveira. Cinema e Geografia: em busca de aproximações. In Espaço Plural, Anoo VIII, 2007
PERKINS, John. A História Secreta do Império Americano. São Paulo: Editora Cultrix, 2008
WALLERSTEIN, Immanuel. O Declínio do Poder Americano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004
___________________. O Neoliberalismo, história e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2008

sábado, 12 de março de 2011

INSIDE JOB – A PERVERSÃO DO CAPITALISMO

Sensacional! Eu não poderia encontrar uma palavra que expressasse melhor a minha satisfação pelo que vi. Estou me referindo ao documentário “Inside Job”, premiado com o Oscar 2011, denominado em português Trabalho Interno, sabe-se lá por que.

Segundo Luis Gonzaga Beluzzo(1) Inside Job é uma expressão idiomática e não caberia uma tradução literal. O documentário é dirigido por Charles Ferguson, que não chega a ser um cineasta famoso. Empresário e formado em matemática ele conseguiu realizar um trabalho brilhante que consegue expor com rara clareza todo o processo que culminou com a grave crise econômica de 2008, cujo ápice se deu com a quebradeira de três das principais instituições financeiras dos EUA: Lehman Brothers, Merrill Lynch e AIG, e com o efeito cascata gerado por especulação desenfreada com o uso de hipotecas e empréstimos subprimes.

Aconselho a todas as pessoas, que tem interesse em saber o real funcionamento do sistema capitalista, nessa etapa de financeirização, e inclusive, da mais completa e definitiva relação entre aqueles que controlam o dinheiro e o Estado, a assistirem Inside Job. E também para melhor entender essa relação com o poder político, que determina a maneira como se controlam os mecanismos que garantem a acumulação da riqueza nas mãos de uma ínfima minoria. Tudo isso é mostrado às claras no documentário. As entrevistas, algumas delas feitas com personagens que estiveram no centro do escândalo, chegam a ser hilárias, diante da maneira como Ferguson derruba todos os argumentos que são apresentados a partir de uma competente pesquisa com informações sobre o envolvimento de cada um abertamente ou feito de forma dissimulada.

Tudo começa e gira em torno da chamada “desregulamentação”. Naquele ano de 2008, quando estourou a crise econômica, na primeira aula que dei para uma turma de Geopolítica, após apresentar um outro documentário, igualmente imperdível, “Enron, os mais espertos da sala”, escrevi no quadro este palavrão – desregulamentação – e disse aos alunos que me assistiam que certamente dali em diante eles ouviriam muito essa palavra. Eu já tinha informações, por leituras alternativas na internet em blogs como Carta Maior, Vermelho e acompanhando a revista Carta Capital, que a crise já se avizinhava. Afinal, desde o final de 2007 (e agora se sabe, bem antes, como é mostrado em Inside Job) era perceptível aos analistas independentes, mais críticos do comportamento neoliberal, que se aproximava uma grave crise imobiliária nos EUA. Resolvi começar minhas aulas, então, tratando dessa temática, porque pelas leituras que eu fazia era possível perceber que teríamos pela frente uma crise de uma enorme gravidade, de tal forma que colocaria em xeque toda a política neliberal, de desgulamentação e de evitar que o Estado estabelecesse formas de controle sobre os ganhos de capital e sobre a movimentação financeira mundo afora.

Desregulamentação, enfim, veio a ser todo o processo político e econômico que possibilitou uma enorme virada na economia mundial e deu início ao que passou a se chamar “Globalização”. Partia-se do princípio que era necessário a economia ver-se livre de todas as amarras que eram impostas pelo Estado e garantir ampla liberdade para o comércio mundial. Mas, o que não se percebeu no primeiro momento, era que essa liberdade reivindicada tinha como alvo principal a movimentação do capital financeiro pelo mundo. Claro, também para as mercadorias. Mas a mercadoria mais importante a ser “libertada” era o dinheiro, garantindo-se a especuladores todas as possibiidades de “inventar” fórmulas que garantissem às grandes corporações aumentar de forma espetacular os seus lucros.

Transformou-se, assim, o mundo em um verdadeiro cassino e fez de analistas e acadêmicos das famosas escolas de administração, economia e finanças dos EUA, espertos oportunistas que foram os responsáveis para teorizarem, tornarem-se consultores e até mesmo assumirem cargos elevados da alta administração das finanças estadunidenses. Já nos anos 1980, do século XX, François Chesnais(2) e Perry Anderson(3), críticos da forma como se dava a globalização financeira, acusava ter sido criado nas escolas de administração dos Estados Unidos, tanto o termo “globalização”, assim como a idealização de toda a política neoliberal.

Na esteira da crise do socialismo o caminho abria-se para um discurso que procurava determinar o fracasso de uma política de cunho social a partir da ação do Estado e tentava convencer a todos, e conseguiu transmitir isso à maioria das pessoas, inclusive os mais pobres, que o capitalismo era a única alternativa capaz de solucionar os problemas do mundo. Desde que se garantisse liberdade àqueles que visavam investir seus capitais em rentáveis negócios de forma a espalhar desenvolvimento por toda a parte.

O que não se via, mas que viria a ser a essência das novas políticas econômicas adotadas pelos quatro cantos do mundo, a partir de mecanismos implementados via FMI, Banco Mundial e outras “governanças” globais que se tornaram mais fortes do que os Estados Nacionais. À exceção, claro, daqueles que davam as cartas e fortaleciam seus sistemas financeiros, e ao mesmo tempo criavam leis que davam todas as liberdades para que grandes corporações transgredissem até mesmo os limites da usura e da ganância. Se é que há limite para tais perversões.

Enquanto a grande mídia mundial, deslumbrada pelo papel que a propaganda e/ou marketing passava a ter, manipulava e escondia a verdadeira face do que estava se espalhando pelo mundo, vendendo a idéia de modernização e progresso, poucos, muitos poucos, ganhavam milhões em todo esse processo. Esse é um detalhe a ser observado quando se assiste Inside Job, as cifras citadas são de valores grandiosos, a mostrar que a desgulamentação abriu as portas do “inferno” para todos os tipos de gananciosos e criminosos financeiros (ironicamente Fergusson começa o documentário dizendo que o mesmo teria custado mais de 20 trilhões de dólares, soma gasta para cobrir as quebradeiras do sistema financeiro estadunidense e mundial).

Tudo isso à custa do crescimento da pobreza no mundo, principalmente em países de onde se retirou todos os tipos de investimentos produtivos, principalmente a partir da pressão para que o Estado se afastasse de determinados setores da economia. O resultado disso se assiste hoje também com a crise da produção de alimentos e o encarecimento dos mesmos, afetando principalmente a população mais pobre.

Hoje, com a extensão da crise para todos os continentes, com menor impacto em alguns poucos países que se apoiaram em um mercado interno em expansão, percebe-se com maior clareza todo o estrago feito pelas políticas neoliberais. Mas, isso não significa que os agentes responsáveis pela quebradeira, pela ação gananciosa que ampliou a pobreza inclusive em países como os Estados Unidos, tenham sido punidos por isso. Ao contrário, o próprio documentário mostra que muitos deles ocupam hoje cargos importantes na estrutura administrativa daquele país, indicado por Barack Obama, ilusoriamente visto como a saída para o caos econômico que os atingiu. O documentário explica isso.

Sugiro que antes de verem Inside Job, assistam outros dois documentários, que eu inclusive já citei aqui mesmo neste blog, quando apresentei a proposta do mini-curso que realizei, “Decifrando o sistema capitalista”. O primeiro deles, que falei anteriormente, é “ENRON, os mais espertos da sala”, o outro, CORPORATION, e se tiverem tempo, vejam também, de Michael Moore, Capitalismo, uma história de amor. A partir daí será difícil entender porque tantos defendem que o capitalismo é o melhor sistema para a humanidade.

Seria cômico, se não fosse trágico.

O que deduzimos de Inside Job é que a maioria dos seres humanos não vivem no sistema ali mostrado. Vivem sob ele. Quero dizer que a enorme maioria das pessoas vive no submundo do que se pode caracterizar como Capitalismo. Algo já dito, de outra maneira, pelo historiador francês Fernand Braudel, para quem o capitalismo deveria ser dividido em uma economia superior, onde se faz o capital, e uma economia inferior, onde praticamente as pessoas trabalham e produzem para sobreviverem. Aí se encontra a enorme maioria da população. O impressionante é a quantidade daqueles que, vivendo nesse submundo, são submetidos à uma verdadeira lavagem cerebral e acreditam poder atingir a riqueza daqueles que controlam os meios pelos quais ela é conquistada. Talvez isso explique, pela ganância que caracteriza sempre essa obsessão, porque há tanta corrupção no mundo.

Mas é evidente que creio ser possível superar os abusos do capitalismo. Pode-se mesclar algumas coisas que são positivas, com a necessidade de se distribuir a riqueza de forma mais democrática. E o Estado é essencial para isso, portanto é necessário que o mesmo possa regular os abusos cometidos por verdadeiros psicopatas financeiros (como os apresentam o documentário Corporation). Não sou pessimista. E jogo no time dos que acreditam que um outro mundo é possível!


NOTAS:

(1) Inside Job, documentário imperdível. Artigo de Luis Gonzaga Beluzzo, publicado originalmente no jornal Valor Econômico. (http://fmauriciograbois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=12&id_noticia=4957)

(2) CHESNAIS, François. “A emergência de um regime de acumulação financeira” in Praga, estudos marxistas, número 03. São Paulo: editora hucitec, 1997.

(3) ANDERSON, Perry. “Balanço do neoliberalismo”, in SADER, Emir e GENTILI, Pablo (org.), Pós-neoliberalismo – as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995