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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – PARTE III – GIGANTE COM PÉS DE BARRO.

Recomposto o governo após a reeleição de Lula da Silva em 2006, e com um crescimento num ritmo vertiginoso, bem acima da média mundial, poderia se pensar que no segundo mandato haveria uma preocupação em sanar os problemas gerados por uma sangria apelidada de “mensalão”, que expôs a política e aumentou o descrédito com os que representam a população. Mas, apesar da reeleição, aparentemente tranquila do presidente, a eleição do parlamento continuou sendo um contraponto, com uma maioria conservadora, e repleta de representantes da burguesia, dos latifundiários, do setor financeiro. Seguramente esse quadro levou o governo a não propor ações concretas que pudessem barrar atitudes como as que tinham sido denunciadas e maculavam as instituições políticas brasileiras. Além do mais, havia um clamor progressista por mudanças estruturais em diversos setores, bem como uma necessidade de democratizar os meios de comunicação.
Nada disso foi feito. E o que se via era uma euforia com os índices positivos na economia, que, se por um lado retirava da miséria absoluta boa parte da população brasileira, por outro, ampliava a concentração de riqueza nas mãos de uma burguesia que entrava na onda da globalização e procedia a uma intensa fusão de grandes empresas. Os bancos, jamais ganharam tanto dinheiro com nas duas primeiras décadas do século XXI. Havia incoerências visíveis na maneira como se dava o desenvolvimento brasileiro, e perdia-se a oportunidade de se ampliar as conquistas, num ambiente que era favorável, malgrado a contradição criada com um parlamento conservador e um presidente progressista.
A descoberta do Pré-Sal, uma enorme reserva de petróleo em águas profundas surgiu como uma grande esperança. Diante da capacidade tecnológica da Petrobrás comemorava-se esse potencial e a certeza que o Brasil entraria no grupo dos maiores produtores de petróleo. Mas, e aí a dialética é implacável a identificar as contradições. O petróleo tem sido ao longo da história do capitalismo tal qual foi o ouro no período da exploração colonial. O território que se vê contemplado com essa enorme riqueza, passa também a correr o risco de ser objeto de cobiça dos países imperialistas, notadamente, e isso é absolutamente visível nos últimos tempos, os Estados Unidos. Praticamente toda a instabilidade do Oriente Médio, onde se concentra enormes reservas de petróleo, se deve à disputa desse produto que se constitui na principal fonte energética da civilização industrial a partir do começo do século XX. Mas não somente no Oriente Médio, como também em alguns países do Norte da África, bem como aqui bem perto de nós, na Venezuela.
Para comprovar isso, e não por mera coincidência, poucos meses depois do anúncio da existência dessa enorme reserva petrolífera em costas brasileiras, os EUA deslocaram para próximo do limite das águas territoriais do nosso país sua Quarta Frota, comando naval que tem por objetivo vigiar as águas do Caribe e do Atlântico. Como sempre, o argumento utilizado pelos governos estadunidenses tem sido o de combater o narcotráfico, pretexto que faz com que essa guerra seja uma espécie de “cavalo de Tróia”, para que seus estrategistas e espiões monitorem e tenham informações sobre a capacidade dos países em se desenvolver e vir a tornarem-se oponentes no controle da economia da América.
A partir daí a Petrobrás se tornou, mais do que já era, um alvo prioritário na espionagem estadunidense. Mas, um dos grandes erros dos governos Lula/Dilma foi a negligência em relação a essa questão. Era preciso fortalecer o Estado brasileiro com mecanismos de proteção sobre as ações de espionagens, seja com contraespionagens, seja por meio de fortalecimento dessa estrutura para se proteger das ações rapaces imperialistas.
Ora, um dos erros foi manter uma grande corporação estadunidense como responsável pela segurança da Petrobrás. Uma corporação fortemente envolvida com ações complexas na guerra contra o Iraque, que já fora comandada por ninguém menos do que Dick Cheney, vice-presidente dos EUA durante os governos de George W. Bush. No ano de 2008 a Halliburton esteve envolvida num incidente bastante suspeito no interior do estado do Rio de Janeiro. Um roubo de dados da Petrobrás, contidos em dois discos rígidos de computadores que estavam sendo transportados, juntamente com outros equipamentos, por essa empresa.[1] Poucos detalhes se souberam desse roubo de informações estratégicas, mas o episódio, pouco explorado pela imprensa brasileira, e sem muitos comentários do governo demonstra que já desde o começo as notícias sobre o pré-sal atraíam os interesses estrangeiros.[2] No entanto, não se reforçou a principal agência de espionagem brasileira, substituta do famigerado SNI. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) deveria ter sido colocada na posição de um forte protagonismo na investigação e defesa de questões relevantes para a segurança nacional. Mas o governo optou por investir na Polícia Federal, o que era necessário, mas abdicando de reforçar uma área de segurança num momento em que país se tornava alvo da cobiça internacional. Isso traria consequências nefastas, e seria um dos fatores a desequilibrar e desestabilizar o governo brasileiro mais adiante.
O governo Lula negligenciou um elemento essencial, o fortalecimento do Estado Nacional. Certamente contaminado pelos problemas gerados a partir de tempos sombrios comandados pelos militares, durante uma ditadura que nos trás terríveis lembranças, não compreendeu a necessidade de proteger o país da cobiça das grandes corporações que comandam os governos das principais potências. Como exemplo disso foi a nomeação para o Ministério da Defesa de um ex-ministro da Justiça no governo FHC, Nelson Jobim, e que foi mantido no cargo por Dilma Roussef após sua eleição, onde permaneceu por um ano. A nomeação de Celso Amorim, no entanto, apesar de sua postura mais progressista e com conhecida competência no trato das relações internacionais, o que naturalmente lhe qualifica como estrategista, não significou mudança necessária para fazer com que as Forças Armadas brasileiras adquirissem uma feição mais preocupada com a defesa nacional e que pudesse estar atenta aos movimentos visando desequilibrar o governo brasileiro, como já vinha ocorrendo em situações parecidas por diversos países que tem no petróleo uma forte riqueza. Vide as “revoluções coloridas” nos países da Eurásia, na Venezuela com as constantes tentativas de golpe de Estado para destituir Hugo Chávez, e, mesmo os rumos tomados com a chamada “primavera árabe”, identificada desde o início com tentativas de desestabilizar países importantes estrategicamente na rota internacional do petróleo e gás.
Nos problemas políticos internos faltou iniciativa e coragem para tratar de reformas que eram cruciais para que determinadas políticas de Estado fossem concluídas e que outras fossem tornadas leis, que pudessem manter com consistência mudanças estruturais necessárias para fortalecer o país e consolidar as ações contra as desigualdades sociais. A incapacidade política da presidenta eleita Dilma Roussef de lidar com um campo político absolutamente conservador, interesseiro e oportunista ficou evidente em seu governo. Mas para a sua eleição faltou ao governo Lula, mesmo que consideremos toda a complexidade da política brasileira, em suas nuances regionais, também capacidade de articulação que pudesse garantir uma maior representatividade progressista na eleição de 2010, formando uma composição parlamentar que pudesse garantir uma maioria adequada às necessárias reformas que não foram feitas: política, tributária e nos meios de comunicação, dentre outras. Os partidos de esquerda foram incapazes de, durante os anos do governo Lula, transmitir à população que as conquistas que estavam projetando o país internamente e internacionalmente, se deviam a decisões que confrontavam os poderes tradicionais. Aqui entra um aspecto elementar numa democracia: a luta ideológica.
Nitidamente a luta ideológica foi perdida pela esquerda, apesar da vitória nas eleições da sucessora de Lula da Silva. A política ampla, conforme a regra necessária para ter aprovadas matérias importantes no parlamento resvalou para os rincões do país que se fortaleciam economicamente devido às medidas do governo de forte aquecimento do mercado interno e valorização do salário mínimo. As concessões feitas a políticos conservadores, a conveniente aliança com partidos fisiológicos e a incapacidade de compreender que se devia levar a cabo a luta ideológica, terminou por manter o desequilíbrio no Congresso, fragilizando as forças progressistas dificultando a consolidação das políticas que estavam mudando a cara do país.
É preciso observar, como uma necessária compreensão do que aconteceu no país que culminou nas “jornadas de junho” em 2013, e na sequente desestabilização da política brasileira, o crescimento do movimento evangélico brasileiro, notadamente os de feição neopentecostal. Seguramente esse é um elemento a considerar que comprova a absoluta ausência de um necessário debate que criasse na população a compreensão sobre as razões que transformaram suas vidas e que levaram a uma grande mobilidade social, tirando milhões da pobreza absoluta e transferindo centenas de milhares de famílias da classe C para a B, criando o chamado grupo dos “emergentes”. A obsessão pelo consumo crescente, a propaganda das maravilhas tecnológicas ao fácil alcance, a possibilidade de acesso ao ensino superior, e aquisição da casa própria, todas essas conquistas foram adequadamente capturadas por segmentos religiosos, e vistas como consequência da fé. Ao mesmo tempo, e beneficiado por esse discurso, se ampliou consideravelmente a bancada evangélica, fortalecendo uma visão conservadora que contribuiu para o enfraquecimento da presidenta num momento crucial da disputa política. A disputa ideológica foi travada com furor por esse setor.
Mas esse aspecto da luta ideológica não se resume à captura pela religião, dos elementos da ação política. Faltou também a necessária proteção, aos que participam dessa luta e concebem  com clareza as disputas que existem, consolidando por meio do fortalecimento da organização popular mecanismos que protegesse o governo quando se tornasse necessário. Para isso, era preciso jamais se afastar da velha concepção histórica inserida nos estudos sociológicos por Marx e Engels, da existência de uma luta de classes renhida nas sociedades que se constituíram desde a antiguidade pelos diversos modos de produção que vigoraram desde há dois milênios.
A ideia do fim da luta de classes foi inserida no imaginário político pós-globalização, com a destruição dos regimes existentes em diversos países, liderados pela União Soviética, que enfraqueceu o socialismo. Juntamente com a teoria do fim da história, rapidamente desmoralizada pela intensificação dos conflitos após o ataque ao World Center, em 11 de setembro de 2001, a crença no fim da luta de classes tomou corpo e não foi devidamente rebatida pela esquerda que assumiu o poder e o comando dos governos de países importantes, como o Brasil.
Mas isso não foi regra, e principalmente diversos países latino-americanos, como Venezuela, Bolívia e Equador, conseguiram criar condições para demonstrar a necessidade da organização popular diante de uma luta de classes que permanecia, e, evidentemente, permanece enquanto houver desigualdades sociais aos níveis do que existem atualmente no mundo. Principalmente num mundo de crescente centralização de poder nas mãos de poucas corporações financeiras e industriais, e de controle da riqueza por poucos grupos familiares que se perpetua por meio de heranças. Esse aspecto, da fragilização ideológica e da negligência diante da luta de classes, seria também mais um elemento a jogar por terra todo o esforço feito para consolidar uma política focada na melhoria das condições da população mais pobre. E permitiu que essas pessoas, num momento de crise do governo que lhes garantiu importantes conquistas, lhes dessem as costas, e sucumbisse ao discurso reacionário que desconstruía todos os avanços inegavelmente transformadores da realidade brasileira por 12 anos.
Uma das ações fragilizadas pela negligência de considerar a necessidade de fortalecer segmentos da população que precisavam das políticas do Estado, e que permitiriam segurança na vida econômica e possibilitaria um reforço na defesa ideológica do governo, foi a Economia Solidária. Surgido no governo FHC e fortalecido no primeiro governo Lula, principalmente com a indicação do economista Paul Singer para a sua coordenação, terminou por ficar restrito às sombras, e não teve o destaque merecido, que garantia microcréditos a populações de baixa renda. Ao mesmo tempo faltou compreender a importância de investir no cooperativismo e no associativismo, como condição para garantir que houvesse um desenvolvimento com sustentabilidade para as camadas mais pobres por todo o interior brasileiro. Essa seria uma das condições de forjar um segmento fortemente convencido da necessidade de manter governos populares, além de não alimentar ilusões sobre as derrotas para as camadas baixas, caso governos liberais voltassem a assumir o poder.
A luta de classes, disfarçada da luta política, seria, então, o elemento fundamental que garantiu aos setores conservadores, por meio do poder da grande mídia, sequestrar os desejos de multidões que por vários meses ocuparam as ruas em enormes manifestações que demonstravam a insatisfação com diversas atitudes políticas, embora a maioria fosse de cunhos locais e regionais. As “jornadas de junho” representavam a guinada destruidora da política, da democracia, das esperanças, e desarticulou o governo da presidenta Dilma, indeciso sobre quais medidas a serem tomadas para fazer com que as vozes das ruas não afetassem a governabilidade. Mas a proposta mais lúcida da presidenta naquele momento foi combatida por alguns setores da esquerda, e solenemente ignorada por outros: a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para proceder a reformas essenciais na política e no Estado brasileiro.
Na base social de sustentação do governo, os sindicatos e as centrais de trabalhadores e trabalhadoras agiam por um lado corretamente, ao tentar por meio de negociações obter melhorias para as categorias. Por outro, se esfacelavam numa divisão pela hegemonia na condução das lutas e, em alguns casos, se caracterizavam como uma espécie de peleguismo oficial, ao não confrontar ideologicamente os interesses empresariais que vigoravam e prevaleciam nas decisões do parlamento e também em algumas medidas tomadas pelo próprio governo, embora com impactos reduzidos, mas que iam pouco a pouco retirando direitos trabalhistas. Nitidamente o governo dava com uma mão e tirava com outra, realizando reformas que não resolviam os problemas fiscais do Estado, mas afetavam os trabalhadores, principalmente nas questões de aposentadorias. Essa ambiguidade ajudaria a fragilizar a defesa da presidenta no momento de forte pressão no período posterior à eleição de 2014. Mas o pior estaria por vir.
O governo Dilma Roussef, que sucedeu Lula da Silva manteve políticas sociais importantes, que garantiram empoderamento de setores por muito tempo marginalizados na sociedade brasileira. No entanto, a crise que rondava o país e já estava disseminada por todo o mundo adentrou fortemente em nossa economia. Os investimentos feitos por programas que dependiam fortemente de recursos do Estado, na saúde, na educação, no combate à pobreza, na aquisição de casa própria, seriam fortemente impactados com a redução drástica da arrecadação, como consequência do desequilíbrio na balança comercial. A dependência do país em uma economia baseada na exportação de commodities (minérios, agronegócio) terminou por ser fatal na queda da economia, reduzindo a capacidade de arrecadação fiscal.
Na tentativa de garantir que o nível de emprego não seria afetado, o governo isentou uma série de produtos, de carros a máquinas de uso doméstico, focando em cadeias produtivas que eram fundamentais para isso. Ledo engano, imaginar que a burguesia industrial, principalmente com a crise batendo às portas, estaria preocupada com a situação dos trabalhadores. A consequência disso foi uma queda maior na redução da arrecadação, tornando praticamente impossível escapar da crise. Os gastos do governo, situados num patamar elevado, seriam drasticamente afetados pela queda nas receitas, agravando a crise fiscal, somente possível de ser solucionada mediante a adoção de medidas que aumentassem os impostos. A saída se apresentava por meio de um imposto que já vigorara antes, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Mas somente a perspectiva disso acontecer, gerou uma forte reação no setor empresarial e, agregado aos interesses externos, dos EUA, que desejavam desestabilizar o governo e impedir o retorno de Lula da Silva, levou a oposição a uma forte reação, impulsionada pela derrota nas eleições que garantiu a reeleição de Dilma Roussef. A CPMF age também como um elemento fiscalizador, e praticamente não permite que nenhum cidadão escape da receita federal e da sonegação, talvez o elemento principal no rombo das contas públicas por muito tempo. Os empresários, do campo e da cidade, já sabiam desde sempre quem deve pagar o pato. Isso se veria nos anos seguintes.
Na política e na economia a marolinha se transformaria num tsunami e o país passaria a conviver com um quadro político instável, que mudaria por completo a rota que estávamos seguindo. O Brasil entrava num caminho perigoso, mas que não se diferia do que acontecia no resto do mundo. Apesar da melhoria na vida dos brasileiros, das ações afirmativas, da redução da pobreza, do investimento na educação e na saúde, de política de governo focada no combate às desigualdades sociais, faltou consistência nos alicerces do país que se estava construindo. Os erros foram capitais nesse sentido. Nosso sonho se transformava em pesadelo.
A seguir, na última parte dessa análise, abordaremos as razões por trás do impeachment da presidenta Dilma, as denúncias de corrupção e o caos político que abalou nossas melhores esperanças.


NOTAS:
[1]Polícia Federal investiga furto de dados sigilosos da Petrobras - https://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/02/14/ult23u1166.jhtm
[2] Estrategista militar vê 4ª Frota como ameaça real ao pré-sal - http://www.contee.org.br/noticias/msoc/nmsoc387.asp
(*) LEIA TAMBÉM:
1 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA: A LUTA DE CLASSES REDIVIVA – PARTE I
2 - BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA – PARTE II – NA SOMBRA DA LUA CHEIA.
3 - O MUNDO NÃO É PLANO. DESCONSTRUINDO A PÓS-MODERNIDADE
  https://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2017/08/o-mundo-nao-e-plano-desconstruindo-pos.html

terça-feira, 1 de agosto de 2017

BRASIL, DA EUFORIA AO CAOS E À INCERTEZA: A LUTA DE CLASSES REDIVIVA – PARTE I

O que deu errado? Imaginávamos no começo do século XXI estarmos entrando em uma nova era, um novo tempo onde a esquerda poderia botar em prática toda a teoria com a qual esgrimia as palavras de ordem nas lutas políticas e sociais desde o final da ditadura militar.
Vamos por parte. Desde a identificação de nossos sonhos até a realidade objetiva, de como se constitui a estrutura política e burocrática do estado brasileiro. Refaçamos o percurso, resgatemos a história. E, creio, entenderemos o enredo do que está acontecendo e do que virá.
Voltemos no tempo.
Seguramente nossos sonhos foram ameaçados na derrota das eleições diretas, em 1984. E comparando aquele momento, com o que estamos vivendo agora, podemos compreender a capacidade como os setores reacionários e oportunistas fisiológicos se adaptam às circunstâncias, com o intuito de estarem sempre próximos ao Poder. Game of Thrones!
Lembro-me bem de todo o envolvimento dos setores organizados da sociedade brasileira, eu participei desse processo nos últimos anos da ditadura. Acuado, desmoralizado e enfraquecido, o regime militar perdia apoio à medida em que a luta democrática tomava impulso e se fortalecia. As mobilizações foram espetaculares, e a multidão se multiplicava nas ruas a cada comício pró-diretas. Naquele momento houve uma aglutinação dos setores progressistas de todos os partidos, à exceção do PDS, que dava sustentação ao governo militar. Seus membros eram em sua grande maioria oriundos da antiga Arena, partido fundado pelos militares e que lhe dava apoio.
As circunstâncias eram outras, opostas em todos os sentidos à situação que vivenciamos nos dias de hoje. Contudo, há uma similaridade, o que se conta, no final, são os votos. A força das ruas é importante, mas no jogo político o que define é a articulação política. Naquele momento, de grande pressão popular, praticamente funcionando contra o governo militar, a maioria dos parlamentares votaram a favor da emenda das diretas: 298 a 65. Mas, faltaram 22 votos para consagrar, naquele momento, o fim do regime militar.
A derrota da Emenda Dante de Oliveira não botou fim à esperança de derrotá-lo, mas dividiu a esquerda. A partir daquele momento todos os esforços concentraram-se no Plano B: o Colégio Eleitoral. Era por esse instrumento que os presidentes eram eleitos. Ou melhor, tinham suas escolhas formalizadas, já que eram definidos pelos militares. Contudo, o resultado da votação pelas diretas apontava uma possibilidade concreta de escolher o próximo presidente por esse mecanismo. Para dar uma conotação mais democrática constituiu-se toda uma estrutura, aproveitando-se das campanhas das diretas, com a realização de mais atos e comícios por todo o Brasil, agora em torno da candidatura de Tancredo Neves, político tradicional de Minas Gerais, que naquele momento se aliara às forças que desejavam as mudanças.
Por ironia, que o futuro iria contradizer, o Partido dos Trabalhadores recusou-se a apoiar esse caminho. Isso foi levado a tal extremo que alguns parlamentares que se recusaram a seguir essa orientação, ou melhor, decisão partidária, foram expulsos do partido, num momento em que o sectarismo raso era uma marca registrada no PT, naquele momento dominado por tendências esquerdistas, que décadas adiante foram se afastando e fazendo surgir outras organizações, que mantiveram essa característica, de primar por um tipo de política isolacionista focada em princípios que os mantiveram sempre reduzidos. Mas o PT foi na direção oposta, e, à medida em que ganhava novos parlamentares e crescia com vitórias em prefeituras e governos, passou a adotar uma política mais pragmática e conciliatória. Veremos o resultado disso mais adiante.
O movimento Diretas Já! Transformou-se em Tancredo Já!. Como era previsível, devido ao quadro político de isolamento do partido do governo, o PDS, que naquele momento tinha como candidato Paulo Maluf, a eleição de Tancredo Neves, do PMDB, sagrou-se vitoriosa. José Sarney, que havia liderado uma dissidência no PDS e criado a Frente Liberal (PFL), tornou-se o vice mais bem-sucedido da história política brasileira. Uma tragédia demonstrou que nada é fácil na democracia brasileira. Depois de tudo que se fez, e por mais de um ano de mobilizações de milhões de pessoas nas ruas, o presidente eleito, Tancredo Neves, faleceu antes de tomar posse. A tensão que se seguiu à sua morte era natural, imaginava-se poder haver alguma reação dos militares e a imposição de seu candidato. Se a decisão a seguir foi jurídica ou política, pouco importa, mas foi garantida a posse do vice que se tornou presidente. O Brasil se via então rumando para uma nova realidade política, sem o regime militar, mas com um governo conservador, de coalizão ampla, formado para tentar reconstruir o país politicamente.
Pelas circunstâncias, o governo Sarney foi importante para a democracia, principalmente pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Contudo, durante o embate travado pela nova Constituição, em que a luta de classes se elevou a níveis pré-revolucionários, principalmente em decorrência da discussão em torno da reforma agrária, os setores reacionários conseguiram se organizar, e, com a complacência, conivência e cumplicidade do estado brasileiro e suas instituições, principalmente polícia e judiciário, agiram criminosamente contra os setores populares e assassinaram centenas de lideranças sindicais e políticas, especialmente devido à discussão e luta pela reforma agrária.
O desgaste do governo Sarney, incapaz de tirar o país da imobilidade (a década de 1980 foi considerada “a década perdida”, embora não somente em relação ao Brasil) e fazer baixar uma inflação estratosférica, aliado a toda uma campanha feita pela mídia que procurava desgastar a política e o serviço público, servindo-se da velha cantilena de corrupção e ineficiência, projetou um jovem governador de Alagoas. Aliado da poderosa Globo, rede que se formou à sombra dos militares, Fernando Collor se projetou na mídia nacional como o “caçador de marajá”, em alusão ao fato distorcido pela mídia de que os servidores públicos ganhavam muito e eram ineficientes. Isso já fazia parte da estratégia do capitalismo globalizado, em curso a partir da Europa e EUA, que, via políticas neoliberais visavam reduzir o tamanho do Estado, privatizar em larga escala e abrir as fronteiras para o capital financeiro internacional.
Com Collor o país se abria a essas políticas. Sua eleição só foi possível com a ajuda da Globo, que montou desavergonhada farsa em torno do último debate televisionado em cadeia nacional. Seu oponente, naquele momento com maiores chances de vitória era Luiz Inácio Lula da Silva. A montagem feita pela Globo foi decisiva para o resultado, haja vista que as eleições aconteceram três dias depois, tempo insuficiente para reparar os estragos causados. Um golpe midiático. Mais um, que, naturalmente, não seria o último. Mas isso não foi suficiente para alertar o Partido dos Trabalhadores.
Desastrados assessores, em seus contumazes atos de corrupção, principalmente por meio de esquemas mantidos por Caixa 2, e envolto em intrigas familiares, o presidente Collor caiu em desgraça. Depois de vários meses em que a juventude se levantou no movimento que ficou conhecido como “Fora Collor” e a luta dos “caras-pintadas”, e uma CPI que desgastava e minava as bases de seu governo, Collor viu sua cabeça ser entregue numa bandeja. Diante de mobilizações massivas, era preciso aos setores conservadores daquela época e às elites dirigentes empresariais e financeiras, mantê-lo afastado, e mais uma vez tentar uma transição sem receio de embarcar em um governo de esquerda. A saída, foi, mais uma vez, um acordão em torno do PMDB. Collor foi abandonado e uma aliança, envolvendo PMDB, PSDB e PFL (DEM), foi feito para consolidar toda a política neoliberal que já vinha sendo implementada por Collor.
Na sequência, após dois anos do governo do vice Itamar Franco, impulsionado pelo plano econômico que mudou a moeda e estabilizou a economia brasileira, as eleições seguintes elegeu Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Com um governo marcado pela vergonhosa submissão aos interesses dos Estados Unidos o país se viu completamente envolvido pela política neoliberal. Medidas privatizantes foram tomadas, afetando empresas estatais de importância estratégica, em setores imprescindíveis para a economia brasileira, como os de energia e de telecomunicação. Com essas medidas, o país perdia divisas, aumentava sua dívida externa e via se ampliando o desemprego.
Em meio a uma crise ainda escondida, e através de compras de parlamentares, o governo FHC aprovou o casuístico instrumento da reeleição, possibilitando que ele concorresse mais uma vez. Seu adversário, novamente, foi Luiz Inácio Lula da Silva. A reeleição de FHC serviu para aprofundar a crise econômica, levando o país a recorrer ao Fundo Monetário Internacional que garantia os empréstimos mediante imposições. Como contrapartida o FMI exigia medidas de redução do Estado e mais privatizações. A Petrobrás era cobiçada por interesses internacionais, seu potencial e seu objetivo, naturalmente, atraía a cobiça de grandes corporações. Setores importantes e um volume grande de ações foram repassadas ao setor privado, e navios petroleiros eram produzidos em outros países, afetando perversamente a cadeia produtiva do petróleo. O entreguismo se intensificou, e, claro, piorou a economia, elevando a inflação e o desemprego.
Nesse ambiente, de desgaste de um governo que entregou boa parte da riqueza nacional, e o caso mais emblemático foi a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, as eleições seguintes trariam uma surpresa. Tendo como candidato oficial o senador José Serra e concorrendo pela quarta vez, desta feita sagrou-se vitorioso o ex-metalúrgico e líder operário e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. O ano era 2002 e surpreendia assim todo o mundo, pelo inusitado de, pela primeira vez, um operário e nordestino, além de representar a esquerda, ser eleito presidente da República. Iniciava-se um novo ciclo da política brasileira e pelos anos seguintes diversas medidas e programas de inclusão social renovariam as expectativas em torno das transformações que afetariam o país. Todo o mundo tinha os olhos voltados para o Brasil, enquanto do outro lado as atenções se dariam sobre as guerras comandadas pelos EUA no Oriente Médio, como retaliação ao atentado que assombrou o mundo em setembro de 2001. Esquecido pelo grande Império, o Brasil e os demais países da América Latina inauguraram uma nova era, marcada pela ascensão de diversos governos de esquerda.
Bem ao contrário de se constituir em um presidente com posições esquerdistas, Lula e o seu governo se pautou por aplicar uma política pragmática, principalmente em relação à economia, que em certos aspectos manteve alguns elementos do neoliberalismo. O seu Ministro da Fazenda, eleito deputado federal pelo PSDB, Henrique Meireles, um ex-executivo de um dos maiores bancos do mundo, servia para “acalmar o mercado”. Esse personagem retornará mais adiante.
A composição com o PMDB e as demais alianças com partidos de centro, se deu como condição de garantir governabilidade em um Congresso dominado por políticos de direita, centro, centro-direita e centro-esquerda. A esquerda sempre esteve em minoria, e seus votos insuficientes para aprovar medidas que fossem necessárias aos programas sociais. As concessões, portanto, se deram em forma de propostas neoliberais, e de investimentos em setores produtivos para agradar a burguesia nacional, os latifundiários e os banqueiros.
No plano internacional o comportamento foi mais à esquerda, contrariando interesses dos setores de centro e direita. A aliança com Chavez e Cristina Kischner foram fundamentais para implodir a ALCA e impulsionar o Mercosul e depois a Unasul. Os interesses dos EUA foram claramente contrariados, e, mais ainda quando da criação dos BRICS e de seu consequente fortalecimento, até chegar a proposta da criação do Banco dos BRICS (Bloco reunindo o Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente incorporando a África do Sul) e o que viria a seguir, uma nova moeda. Creio ter sido esse o ponto central, momento em que seguramente acendeu a luz vermelha da vigilância imperial, e acelerou o processo de derrotar os governos desses três países, principalmente, na América Latina e abrir outra frente contra a China e a Rússia. Mas essa é uma outra história.
Apesar de todos os percalços, principalmente como consequência do escândalo denominado “mensalão”, pelo qual se descobriu o repasse para parlamentares da base governista, via mecanismo de caixas paralelos para quitação de campanhas, seja passadas ou futuras, Lula conseguiu se reeleger, às vésperas de uma crise de proporções mundiais, por ele definida como “marolinha”. O país passou a navegar em um mar sereno e internamente a economia explodia em índices inéditos e inundava-se em créditos garantidos pelas políticas econômicas num estilo de desenvolvimentismo mesclado com medidas neoliberais na forma de organização do Estado brasileiro. O forte investimento no setor de produção nacional, e o incentivo para que em determinados setores da economia grandes empresas estatais e/ou privada se destacassem fez surgir fortes corporações brasileiras que passaram a se expandir fortemente, interna e externamente. Por outro lado, medidas sociais focada na necessidade de retirar milhões de brasileiros da pobreza, via um mecanismo importado de antigas políticas estadunidenses, fez surgir um dos mais bem sucedidos planos de combate à miséria do mundo, reconhecido pela eficácia pela Organização das Nações Unidas (ONU).
O Brasil se projetava no cenário mundial, não somente na América Latina, mas em todo o mundo. O protagonismo da nossa política externa e a liderança e carisma de Lula da Silva seriam determinantes para levantar preocupações geopolíticas por quem sempre julgara ser essa parte do continente americano, o quintal de seus negócios. Os EUA discretamente, e por meio de intensa espionagem, preparava o bote necessário para desestabilizar a política brasileira. Mas internamente, a “marolinha” se transformava em “tsunami” e a crise que rondava o Brasil e a América Latina como um todo penetrou com força. As medidas a serem adotadas ficariam a cargo da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, que manteve Guido Mantega como ministro, desta vez na Fazenda, mas com um direcionamento da economia em outro patamar, visando reforçar setores produtivos fortes e com alto grau de empregabilidade. Traduzindo, isentou de impostos uma burguesia absolutamente beneficiada nos anos anteriores, na perspectiva de que haveria uma contrapartida para a manutenção desses empregos e estabilidade da economia. O que se viu foi uma sucessão de equívocos e de traições, que era de se esperar, de setores que só pensam em acumular cada vez mais riquezas, pouco se preocupando com as condições de pobreza da população.

A reeleição de Dilma Roussef se deu em meio a uma forte polarização, com a radicalização da luta política por um lado, reflexo de intensas manifestações de rua em 2013, conhecidas como “Jornadas de Junho”, que movimentou multidões insatisfeitas com medidas políticas locais e estaduais, mas que foram direcionadas pela mídia para atingir o governo federal e desgastar Rouseff. O resultado das eleições refletiu essa polarização, com um pequeno percentual de diferença o candidato da oposição, Aécio Neves, do PSDB foi derrotado, mas não aceitou o resultado. Na sequencia do embate político pelo resultado da eleição, os números da economia passaram a ser divulgados demonstrando um descompasso em relação aos que tinham sido apresentados durante o processo eleitoral. Isso serviu de munição para a oposição e foi potencializado por uma série de denúncias de malversações de dinheiro público que se transformou na maior operação de combate à corrupção da história do país.
A “Lavajato” se constituiu no mecanismo pelo qual o Brasil passaria a conviver, mais uma vez, com traições políticas, oportunismos e chicanas jurídicas. O que era tradicional, e jamais combatido como um crime, o caixa 2, comum nos processos eleitorais, se transformou no mecanismo de perseguição e prisão a dezenas de políticos e empresários. A facilidade com que esse processo se iniciou é facilmente explicável, bastando ligar as denúncias de espionagens sobre o governo e suas principais empresas de interesses estratégicos, principalmente a Petrobrás, feitas por Edward Snowden e que demonstrava as ações subreptícias dos EUA para desestabilizar o nosso país, da forma como acontecera em inúmeros outros na África, Ásia, Oriente Médio e na América Latina.
O Brasil entrou assim numa espiral de crise com sucessivas ondas de desestabilização, até atingir o ápice no golpe de estado sofisticado, que levou junto a política e a democracia para o fundo do poço. Difícil imaginar uma situação com tantas reviravoltas, mas impressiona a capacidade das camadas dirigentes, e algumas instituições, em agir cinicamente, demagogicamente e à revelia dos interesses nacionais e da maioria da população, numa mesquinha disputa de poder sem limites éticos, morais e com absoluta ausência de sensibilidade social. Venderam o país, destruíram-se as conquistas sociais, pisotearam os direitos trabalhistas e disseminaram o ódio e a intolerância a níveis pouco vistos em nossa história.
Como foi possível chegar a esse ponto? Tentaremos detalhar segundo uma visão geopolítica, mas, seguramente, procurando clarear o porquê desse furacão que  transformou a realidade política brasileira. O que se imaginava esquecido em antigos manuais da esquerda, se manifesta na sociedade e nos conflitos que tomaram enorme vulto nesses três últimos anos: a luta de classes.
Prosseguiremos na análise no próximo artigo, nos aprofundando na essência dessas transformações e na crise estrutural que afeta o mundo capitalista.