segunda-feira, 10 de setembro de 2012

UMA ANÁLISE DA GREVE NAS UNIVERSIDADES: SE NÃO APRENDEMOS COM O PASSADO, O QUE PODEMOS ESPERAR DO FUTURO?


COMO PEQUENOS GRUPOS SECTÁRIOS PODEM COMANDAR MULTIDÕES
Eu já escrevi dois textos aqui neste blog, descrevendo comportamentos sectários e intolerantes, e analisando a maneira como pequenos grupos radicalizam em seus discursos e nos comportamentos agressivos.
No primeiro deles (http://www.gramaticadomundo.com/2012/03/as-origens-da-intolerancia-e-o-fascismo.html), sobre a intolerância religiosa, o meu foco é como a visão dogmática transmitida pela maioria das religiões, impõe certos comportamentos que desqualificam o outro e desrespeitam os que pensam e agem diferente daquilo que é ditado em suas igrejas.
No segundo (http://www.gramaticadomundo.com/2012/07/o-ovo-da-serpente.html) analiso a intolerância sob outro viés, e abordo a maneira como esse comportamento está presente nas redes sociais, principalmente em grupos que são criados para aglutinar um grande número de seguidores em uma comunidade específica. Fiz uma junção disso com as manifestações que têm reunido multidões por vários continentes, mas que carregam consigo uma característica interessante: abdicam da presença de partidos ou de entidades sociais. Nas redes e na multidão, cada um imagina ser todos, e, assim, tentam pela força impor sua concepção, sua visão de mundo, sua “verdade absoluta”. A maneira agressiva e desrespeitosa torna-se uma marca, porque assim se consegue intimidar seus opositores, ou silenciam aqueles que não têm por hábito ir para um enfrentamento político. O silêncio transforma-se em aceitação de comportamentos violentos e intolerantes.
Nos dois casos minha intenção era fazer uma relação com o surgimento do fascismo, e ir mais além. Na verdade esses comportamentos que analiso são responsáveis por levarem eventualmente ao comando segmentos que carregam um forte traço de autoritarismo, se impõe pela agressividade e, consequentemente pelo medo, e pela desinformação que é comum na maioria das pessoas. Quando em determinado momento a insatisfação se espalha em um lugarejo, cidade, ou em uma comunidade, o discurso radical, sectário e a criação de expectativas falsas, mediantes propostas mirabolantes, se impõe. O controle será mantido a partir de alguns elementos comuns a sociedades que se guiam por esses padrões autoritários: manipulação da informação, desqualificação das propostas alternativas, reduzindo-as a meras tentativas conciliatórias; agressão a adversários de forma a intimidá-los e fazê-los desistir de prosseguir no embate. E acima de tudo, a virulência nos seus comportamentos.
Mas há um elemento principal a conduzir tudo isso, a necessidade de convencer as pessoas de que tudo está sendo feito seguindo-se a ordem democrática. A democracia, desde que a burguesia soube encontrar nesse mecanismo um instrumento de controle da sociedade, passou também a servir pequenos grupos. Dessa maneira, em nome da democracia, uma multidão, ou uma sociedade, torna-se refém daqueles que dizem conduzi-los em nome da maioria (quanto a isso escrevi outro artigo: http://www.gramaticadomundo.com/2012/07/como-iludir-o-povo-com-slogan-de.html). Para isso, constrói-se uma estrutura uniforme, coesa, verticalizada, e elegem-se representantes mediante uma ordem estatutária, pela qual a maioria que se visa não é a da totalidade representada, mas dos que se apresentam em determinados momentos, nas chamadas assembleias “representativas”.
Paquidermicamente, a comunidade queda-se parcimoniosa, e aceita ser representada por “lideranças” eleitas pela maioria em meio a uma minoria, em nome de todos e de todas. Melhor não querer entender toda essa matemática “democrática”. Mas o certo é que isso é consequência da abdicação que cada um faz, nessa comunidade, em participar. Aceita-se o jogo, embora dele não participe, senão na condição de um mero espectador. À distância, realizando outros afazeres, além daqueles que a “greve” não permite.
Há uma esperança, vã, de que a radicalidade seja o caminho para aumentos mais robustos. Como todos querem, naturalmente, e, em alguns casos, como dos professores, o que é plenamente justo. Assim, entregues à boutade de in-trépidos e virulentos “comandantes”, o destino passa a ser conduzido de forma dirigida, por essas pessoas “combativas”. São os senhores absolutos do destino, e ai dos que divergirem de seus “encaminhamentos revolucionários”. Agem como Dom Quixotes, a dilacerar os dragões em uma guerra que é vista somente aos seus olhos. São moinhos, estúpidos!
Mas, essa aventura surreal chegou a um fim. Esperado, por quem estava vivendo no mundo real. Sem querer ser mais realista do que o rei, mas reconhecendo que nesse caso, um esforço pequeno em nossos neurônios seria suficiente para perceber a estupidez que estava a nos dirigir, escrevi também um texto criticando a estratégia “burra”, a teimosia latente e o aparelhamento de uma vontade, em benefício de uma “birra” política em meio a uma disputa sindical:  http://www.gramaticadomundo.com/2012/08/a-greve-nas-universidades-nenhuma.html.
ROMPENDO COM A ANDES, CONSTRUINDO UMA NOVA ALTERNATIVA
Por causa desses comportamentos, que já se estendem por décadas, foi que houve um rompimento dentro do movimento docente. Era impossível conviver com o sectarismo da direção da Associação Nacional dos Docentes, Andes, muito mais preparada para fazer greves que tinham objetivos de derrubar governos e reproduzir programas partidários em suas teses, de grupos cujas propostas caem em descrédito entre aqueles que as leem, mas tornam-se bandeiras aceitas entre professores universitários. Parece um paradoxo, já que a maioria da comunidade universitária está bem distante de adotar a defesa de alguma bandeira esquerdista. Nesse ponto retorno ao que já escrevi parágrafos acima. Essas teses e propostas não são lidas, e os professores se limitam a acreditar que a radicalização será o caminho para “dobrar” o governo, e abdicam de questionar o comportamento adotado pelos grupos que estão na condução do movimento.
Assim, vários professores que faziam parte de muitas Associações de Docentes, deram um basta a essa situação. A máquina construída em torno da Andes, para manter essa política em vigor era difícil de ser vencida. Começando pela quantidade de professores necessários para compor uma chapa que pudesse concorrer às eleições: mais de 60. Além do controle exercido sobre a maioria das associações, cujo poder sempre foi segurado à custa desse “cheque em branco” concedido pela ausência dos professores dos órgãos decisórios, e do forte aparelhamento a uma única linha ideológica.
A consequência foi a criação do Fórum de Professores das Instituições Federais de Ensino Superior (PROIFES), surgida como um embrião de uma futura federação dos professores, vista como o mecanismo ideal e mais democrático de estruturação de uma entidade que nos representasse de forma mais plural, abrangendo professores com concepções diversas, refletindo assim a composição da própria universidade.
A ênfase principal se daria sobre a necessidade de se buscar por todos os caminhos, desde a pressão até a articulação política via parlamentares, uma mesa de negociação com ministérios responsáveis por definir nossos destinos enquanto servidores públicos federais: o Ministério da Educação e o Ministério do Planejamento e Gestão.
Partia-se do pressuposto que somente dessa forma seria possível corrigir as distorções em nossas carreiras, e que os embates sectários e de radicalidade artificializada somente atrapalhavam as nossas negociações. Afinal, pudemos viver nos últimos anos com governos que, se não cedem em tudo que reivindicamos pelo menos se abrem a negociação e mantém canais de diálogos que têm sido explorados. Foi assim que conquistamos mais degraus em nossa carreira. Embora nem tudo seja perfeito, e alguns comportamentos mais excessivamente conciliatórios devam ser contidos.
Foi possível ver, com a criação do Proifes, e mais recentemente da Federação dos Professores nas IFES, o quanto as propostas apresentadas pela Andes eram, além de irreais, profundamente nocivas para uma carreira docente que deve se pautar, principalmente, pela valorização daqueles que se dedicam permanentemente por sua qualificação.
Porcentuais mirabolantes, claramente inaceitáveis pelos governos, vistos que os impactos momentâneos nas leis de diretrizes orçamentários seriam extremamente elevados, e propostas de carreiras absolutamente retrógradas, mirando na valorização maior das camadas de menor qualificação e nos que não se dedicam exclusivamente à universidade. Numa completa inversão da lógica que tem conduzido a universidade brasileira nos últimos anos, e tudo que se espera em uma instituição que aposte cada vez mais na qualificação de seus profissionais. Essa sempre foi a proposta da Andes para a universidade brasileira.
Professores em Brasília. A UFG está mesmo
morta, como faz crer alguns? (Foto publicada
na revista Veja, para atacar a Universidade)
É natural imaginar que em uma universidade, cuja maioria de seus professores atualmente encontra-se na condição de adjunto e associado, portanto já com doutorados, rejeitasse essas propostas. Mais é surpreendente ver que isso não acontece. Pelas razões já expostas, a meu ver. Entrega-se em mãos de quem tem comportamentos mais radicais o destino da categoria, além de, e talvez isso seja a razão principal, desconhecer completamente as propostas tais como elas são escritas e apresentadas nas pautas junto às mesas de negociações.
Assim, a maior parte dos colegas desconhece a real profundidade das propostas que, indiretamente, pela abstenção e concessão de suas vontades, eles estão apoiando. Se as lessem, certamente rejeitariam. Porque são bizarras, diante daquilo que temos construído nos últimos anos em nossas universidades, e na UFG, em particular. São retrógradas, se comparadas às necessidades de valorização das qualificações, conforme dito, mas que deve ser repetido.
Mas a ênfase nessas propostas, pois se sabe que elas não são conhecidas, segue uma estratégia adotada nessas assembleias em comunicados histriônicos dos comandos locais e nacional de greve. Para o “convencimento” ser mais convincente, com perdão da redundância, eleva-se os porcentuais de reajustes a níveis estratosféricos. Mais de cem por cento. Que beleza! Quem sabe pode ser, afinal, sempre desejamos tocar a lua.
COMO CONSTRUÍMOS NOSSOS DESTINOS?
Alguns poderão dizer que essa é uma opinião. Naturalmente, de quem está escrevendo. Mas desafio a discordarem do que está dito aqui, após analisarem todo o comportamento que guiou essa greve desde o seu começo até a última assembleia. O não esquecimento é o melhor remédio para o combate aos comportamentos mais pervertidos. E, principalmente, lerem a proposta de mudança em nossa carreira elaborada pela Andes e compará-la com aquela que foi negociada entre o governo e o Proifes. Se depois que isso for feito a opinião for diferente da minha, humildemente acatarei, mas me reservo também no direito de incluir o eminente “sábio” no grupo dos que precisam deixar de lado o surrealismo e se deparar rapidamente com o mundo real.
É uma característica da universidade, templo do conhecimento e da ciência, a busca permanente pela verdade – embora ela jamais seja absoluta –, através do caminho da ciência, da lógica, do método comparativo entre o que construímos em hipótese e aquilo que a realidade empírica nos impõe.
Então é isso que deve ser feito. Encerrada esse movimento que intitulei de “a greve dos maias” (já que se imaginava chegar a dezembro, a fim de ver comprovada a profecia dos povos Maias, do caos absoluto e do fim do mundo, para em seguida vir à redenção), é importante que cada professor tome conhecimento das propostas que foram apresentadas e, de per si, possam firmar uma compreensão equilibrada a respeito do que estávamos lutando, o que conquistamos, e o que nos faziam crer ser o começo de uma proposta de “universidade popular”.
Nenhum problema que isso seja feito lá pelo mês de janeiro ou fevereiro. Assim, em meio a um período em que deveríamos estar descansando, possa cada colega ver se valeu a pena a insistência por uma proposta previamente derrotada, porque jamais seria aceita em uma mesa de negociação com o governo, pelo próprio caráter antagônico ao projeto de universidade que foi construído nos últimos anos. E que possa se perguntar, em sendo assim, porque essa greve não acabou antes?
Espera-se então, depois de mais um ensinamento prático, que continuemos fortalecendo o nosso sindicato (em Goiás, a ADUFG), para que este possa cumprir o seu destino. Na linha daquilo que acreditamos ser mais apenso à realidade do que o que se pretendeu alguns aventureiros que buscaram aplicar um golpe, com uma radicalidade que beirou ao comportamento fascista, desde agressões a professores, intolerâncias e digressões psicológicas, à aceitação da condução infantilizada por séquitos de “radicalóides”, uma chusma para a qual o grupo Ultraje a Rigor já havia, na década de 1980 criado a sua trilha sonora, com a música “Rebelde sem causa”. Não generalizo. Mas isso que relato foi fato no começo dessa greve. E não somente em Goiás.
A lição é que a Universidade não pode abdicar de seus princípios e valores, em um ambiente que se caracterize pelo respeito à diversidade de ideias, mas que o debate consiga fluir de forma respeitosa e baseada em uma disciplina que respeite o papel que nela desempenha quem produz e transmite conhecimento. Ou despertamos para isso imediatamente, ou em breve nos depararemos com os mesmos problemas que enfrentam escolas de periferia (mas não somente elas), onde o desrespeito e a agressividade têm afastado muitos professores. Se prosseguirmos aceitando comportamentos como o que vimos no decorrer dessa greve, corremos o risco de nos tornarmos um grande escolão, sem disciplina, com inversões de valores e com a estupidez a nos comandar.
As coisas não ocorrem aleatoriamente, tudo está ligado por situações que determinam como será o nosso futuro. Ele é construído agora, a partir das decisões, ou vacilações, que definem o caminho por onde vamos seguir. É assim que construímos nossos destinos. Tudo decorre das escolhas que fazemos, e nada acontece por acaso. Então, fica a seguinte questão: que universidade queremos? Sua resposta, e o grau de engajamento para concretizá-la, definirá como poderemos ser amanhã.

2 comentários:

  1. Professor, muito lúcida sua análise. Certo dia no "Saia Justa" do GNT um dos debatedores disse que temos, no Brasil, mais advogados que filósofos, para as mais diversas causas. O seu papel neste blog não tem sido de advogar, mas pensar mais além. Pra mim esta greve comprovou que não nos contempla uma "interlocução" como a que tivemos. A meu ver a marca maior desta greve não foi tanto a virulência de sua condução mas a omissão de uma considerável parcela de docentes (sindicalizados ou não) a determinar seus rumos, sobretudo no âmbito local.

    "... tudo está ligado por situações que determinam como será o nosso futuro. Ele é construído agora, a partir das decisões, ou vacilações, que definem o caminho por onde vamos seguir. É assim que construímos nossos destinos. Tudo decorre das escolhas que fazemos, e nada acontece por acaso."

    Grato, FVS

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  2. Professor Romualdo, congratulações pela análise impecável.
    Concordo com você que o mais importante não é a greve em si, mas sim o que ela revelou: (i) O grupo de pessoas que se dizem professores universitários mas que advogam, com intimidação e violência, pelo pacto da mediocridade é maior do que eu pensava; e (ii) A grande maioria que tem uma visão de universidade como lugar de geração de conhecimento e onde prevalece o mérito acadêmico ficou muito passiva em todo o processo.
    Essas revelações (e outras tantas que foram feitas) me fazem ficar muito preocupado com os rumos da nossa universidade.

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