quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

COMO SOBREVIVER A UM SISTEMA EXPANSIVO E DESTRUTIVO?*

Creio que entender as contradições que movem essas discussões nos leva exatamente para o ambiente que deve ser comum a todos aqueles que cursam relações internacionais. Sem a compreensão do que há por trás dos discursos, das estratégias adotadas por cada país, é impossível se fazer uma leitura adequada sobre as proposições que resultam de dias de discussões entre chefes de estados, antecedidas por outras significativas reuniões realizadas ao longo de meses de preparação desses grandes eventos. O que se discute em relação às questões ambientais impactará no desenvolvimento econômico de todos esses países, que, pela primeira vez chegaram a estabelecerem um acordo vinculante, ou seja, que passa a agir como força de lei, podendo levar os países signatários a sofrerem sanções caso descumpram o que foi acordado. Isso é importante, naturalmente. Mas o que foi acordado, e que impacto isso terá a partir de sua implementação daqui a quatro anos?
O que se debateu na COP21, em todo o seu processo de preparação, e não somente na semana da reunião em Paris no mês de dezembro de 2015, precisa ser visto a partir dos atores que estão envolvidos, desde chefes de estados, auxiliares diretos dessas autoridades, diplomatas e, em paralelo, por milhares de organizações não governamentais que, na maioria dos casos contrapõem-se às limitações nesses acordos, porque o viés que cada uma das partes analisa é diferente. Para entender isso a geopolítica é um instrumento adequado, na medida em que o seu estudo possibilita que analisemos todas essas questões envolvidas na pauta da COP-21, sob um olhar estratégico, e que, portanto, difere de país para país nos seus objetivos nacionais, embora o foco seja único: os efeitos da ação humana na responsabilidade sobre o aquecimento global e o futuro da humanidade. O acordo visa, enfim, impedir que a temperatura da terra não suba, em média, mais do que 1,5º, cabendo a cada país assumir o compromisso de adotar práticas sustentáveis e impedir desmatamentos a fim de cumprir as responsabilidades individuais, e, ainda segundo o acordado, considerando-se os diferentes graus de desenvolvimentos entre eles, com as exigências maiores cabendo aos países mais desenvolvidos, mas não isentando nenhum da obrigação de tomar também suas medidas.
Claro que foi um evento importante, e chegar ao acordo envolvendo todos os países é algo inédito, nesses anos todos em que se repetiu esse mesmo encontro por outras vinte vezes, sob a denominação de Conferencia das Partes (COP), mas abrigada na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (do original em inglês United Nations Framework Convention on Climate Change - UNFCCC), tornou-se um feito histórico.
Contudo, e aqui eu passo a explicar o meu ceticismo, considero ser absolutamente difícil, para não falar impossível, que esses acordos venham a ser cumpridos, ou que sejam suas razões apresentadas as verdadeiras a motivar as mudanças que, certamente, irão acontecer. Eu diria que elas já estão acontecendo.
Minha abordagem é fruto de estudos que tenho feito ao longo de alguns anos, desde quando comecei a abordar os problemas ambientais e a biodiversidade dentro dos interesses geopolíticos das nações. Baseio-me para isso em algumas trabalhos que tem sido fundamental na formação dessa visão, um ceticismo misturado com a crença de que a humanidade pode superar esses desafios. Expresso essa crença na frase de Marx: “a humanidade só se coloca tarefas que pode resolver, pois (...) a própria tarefa surge apenas quando as condições materiais para a sua resolução já existem ou ao menos estão em vias de se constituir”.
A CIVILIZAÇÃO CAPITALISTA
Parto do princípio de que mais do que propriamente uma crise ambiental, estamos diante de uma crise sistêmica. Vivemos um período de transição, onde as forças produtivas precisam, dentro da própria lógica capitalista, se transformar e atingir outro patamar. Ao capitalismo está posto a tarefa de se reinventar, diante de uma crise ambiental causada pelo esgotamento dos recursos naturais, não somente pela forma predatória de destruição dos ambientes de onde se extraem matérias primas imprescindíveis no processo produtivo, mas principalmente pela celeridade como isso vem ocorrendo.
É inegável que a capacidade do planeta de prover recursos para servirem a ganancia produtivista/consumista é a causa maior dos desastres ambientais e da escassez de recursos, dentre eles o mais importante, a água.
Mas me recuso a ver isso como uma saída para conter o chamado aquecimento global. Sei que muitos setores conservadores, inclusive dentre os do Partido Republicano dos EUA, atacam a ideia de aquecimento global. Contudo, minha abordagem vai na contramão do que pensam esses conservadores. Embora leigo no assunto, pois não é a minha área de especialização, compreendo que há forte aquecimento causado pela ação humana, tanto no desenvolvimento industrial desenfreado, com a queima de combustíveis fósseis, mas que isso se reflete mais localmente do que globalmente.
Compreendo, inclusive, a opção feita pela lógica capitalista, com a realização desse tipo de desenvolvimento ocorrer com a acumulo de centenas de milhares de pessoas vivendo aglomeradas em metrópoles completamente impermeabilizadas. Pois é nelas que o capitalismo se realiza.
Analiso todo o discurso do aquecimento global como uma estratégia que atende a interesses geoeconômicos. Partindo de uma premissa aceita amplamente, porque já foi difundida massivamente pela grande mídia e por setores postos a campo com esse intuito, inclusive cientistas, sejam pagos pelas empresas ou até mesmo, de alguns bem-intencionados dentro da Academia, de que a humanidade está a perigo em função do descontrole causado pela emissão de gases de efeitos nocivos à camada de ozônio (embora haja setores que divergem de sua existência) e do aumento da temperatura média global da terra. Um dos pontos do acordo da COP-21, o principal, visa limitar esse aumento conforme já me referi anteriormente.
É evidente que há um quadro alarmante condicionado pela celeridade como se dá o desenvolvimento das sociedades capitalistas nas últimas décadas. Apesar da crise que abate o mundo desde meados da primeira década deste século, não houve redução significativa do consumo, porque há uma substituição acelerada de novas mercadorias e do surgimento de inovações que deslumbram os consumidores, endividados ou não. Nem as questões ambientais tornaram-se a preocupação principal dos grandes investidores. No estudo apresentado por Marques (2015, p 18), ele faz referencia a uma pesquisa realizado no Fórum Social Mundial de 2015, em Davos. “A PricewaterhouseCoopers sabatinou 1.322 dirigentes de empresas (...) A pesquisa mostra que a principal preocupação dos entrevistados é a regulamentação da atividade conômica (78%). Ao avaliarem quais devem ser as prioridades dos governos, apenas 6% deles apontam o combate às mudanças climáticas”.
No entanto, e observando com um olhar estratégico, com o entendimento de como funciona o sistema capitalista, a conclusão que chego é que há uma necessidade sistêmica de alterar a matriz energética, por conta de diversos fatores, e de encontrar outras formas de produzir novas mercadorias que possam driblar o esgotamento dos recursos que até aqui foram a base da revolução industrial e tecnológica que marcaram o século XXI. Esse para mim é o “X” da questão, a evidencia de que os recursos estão se esgotando e alguns deles tornaram-se muito perigosos pela disputa geopolítica que os envolvem.
Até o advento do capitalismo, todas as civilizações que se sucederam na história mantiveram-se estreitamente ligadas a um determinado espaço geoeconômico. A civilização capitalista, no entanto, desenvolveu-se desde suas origens, sem vínculos naturais com um território delimitado, e procurou expandir-se além de qualquer limite geográfico, acabando por ocupar o mundo inteiro. Nesse sentido, ela foi a demonstração mais cabal da grande ruptura na longa linha da evolução biológica: as forças naturais que haviam engendrado a espécie humana passaram, desde então, a ser dominadas por ela. A criatura assumiu o controle do processo criador. (COMPARATO, 2013, p. 19)
Portanto, muito mais do que a preocupação com a capacidade do planeta em suportar o desenvolvimento conforme implementado até agora, está a necessidade do sistema capitalista se expandir permanentemente. Ora, não precisamos ser muito argutos para identificar a forma de pressão que existe no mundo capitalista. Tanto se observarmos o universo das grandes empresas, megacorporações que concentram investimentos bilionários, como as políticas dos estados-nações e os mecanismos que fiscalizam suas condições e capacidades de receberem investimentos.
Há uma pressão, natural, isso está dentro da lógica, por exemplo, de quem adquire ações de uma grande empresa, para que esta se expanda ano a ano, e que seus lucros obtidos em um ano sejam superados no ano seguinte. Não há a mínima possibilidade de um acionista ficar satisfeito com a manutenção de ganhos, e pior ainda, com a redução deles. Essa forma de sempre expandir e buscar lucros incessantemente é a matriz que faz do sistema capitalista absolutamente destrutivo.
Da mesma forma há uma pressão, igualmente natural, para que a cada ano o Produto Interno Bruto de um país seja superior ao anterior. É a condição para que se possa garantir o aumento de emprego, melhoria das condições de vida das pessoas e o atrativo do capital externo, e, principalmente, a ampliação das riquezas, condições que podem fazer com que esse país se coloque na lista dos mais bem-sucedidos e possa assim conviver sem crises recessivas.
Vejamos, portanto, o quanto é contraditório a situação em que nos encontramos, todos nós, cidadãos do mundo. Ao mesmo tempo em que acontecia esse grande debate sobre o esgotamento dos recursos do planeta e o iminente colapso ambiental, exageros à parte, a grande mídia, e os setores empresariais, se desesperavam com os parcos índices de crescimento econômico contido nos Produtos Internos Brutos da maioria dos países. Alguns, o Brasil incluído, e longe de ser o único, afinal exceção são os que conseguiram manter PIB superiores, sofrem crises políticas e econômicas por não conseguirem manter o ritmo de crescimento que vinham tendo nos últimos anos. E, mesmo diante dessa realidade, e com uma forte pressão internacional para conter os desmatamentos, o setor que apresenta um pequeno superávit é justamente aquele sobre o qual recai pesadas críticas em relação à degradação ambiental: o agronegócio. Principalmente na destruição de nascentes que afetam drasticamente os recursos hídricos e nos colocam numa condição de alerta absoluto em relação à escassez e estresse hídrico.
Mas, contradições é o que mais existe, em meio a essa realidade que buscamos analisar. Insisto em procurar detalhes que nos mostrem o outro lado das observações costumeiras e corriqueiras nas mídias tradicionais.
A preocupação com o crescimento do PIB, em realidades como a nossa é justa, em razão das desigualdades que nos cercam. E é esse crescimento que possibilita uma política de estado voltado para solucionar gargalos em áreas que impactam, inclusive, na própria questão ambiental, e que está diretamente relacionado com as condições de vida da população mais pobre.
Diante do totem da taxa de crescimento do PIB, que adquiriu foros de dogma religioso, a degradação dos ecossistemas (quando reconhecida) é ainda considerada um “custo” ou efeito colateral inevitável e um problema contornável graças a inovação tecnológica contínua, ganhos de eficiência, aperfeiçoamento de protocolos de segurança e melhor gestão de risco. Embora ilusória, essa crença na possibilidade de um crescimento econômico contínuo é compreensível para os 91,6% da humanidade adulta desprovida de tudo e sedenta de um mínimo de conforto material, posto que esses mais de 90% da humanidade adulta detêm apenas 16,7% da riqueza global (...). Mas, definitivamente, o problema não está aqui: satisfazer as carências básicas desses 91,6% da humanidade adulta aumentaria de modo irrelevante o impacto humano sobre os ecossistemas ou mesmo o diminuiria. Por exemplo, fornecer energia elétrica a 1,3 bilhão de pessoas, mesmo a partir de usinas movidas a combustíveis fósseis, implicaria, segundo a AIE, um aumento de apenas 0,8% do consumo desses combustíveis e um aumento de apenas 0,7% nas emissões de dióxido de carbono. Até o final de 2015, haverá 2,7 bilhões de pessoas sem acesso à infraestrutura sanitária básica. Provê-las dessa infraestrutura implicaria diminuição e não aumento, de seu impacto ambiental. (MARQUES, p.17)
Como se vê, todo o alarido e o pandemônio criado em torno de uma crise ambiental, que imporia por necessidade o controle do desenvolvimento, omite números que desconstrói a razão principal que se esconde, inclusive, por trás de propostas apresentadas como solução ao problema, como a de decrescimento.
O que existe por trás de todos esses acordos, na medida em que se ampliam pressões disseminadas pela mídia, em certos casos como uma espécie de guerrilha midiática no sentido de criar condições que favoreçam investimentos de corporações em determinados setores, são interesses econômicos, que se manifestam até mesmo nas alternativas criadas às crises apresentadas. A tentativa de se transformar o carbono em mercadoria segue com outras nuances. Num primeiro momento tratou-se de se estabelecer um mercado para os créditos de carbono, pelo qual potenciais poluidores, grandes corporações transnacionais, poderiam adquiri-lo em ambientes ainda não degradados, possibilitando dessa forma manter seus investimentos mesmo que altamente poluidores. Agora trata-se de fazer com que o próprio carbono seja uma mercadoria. Isso nos confirma, mesmo que sendo apresentado de maneira dissimulada, que por trás de toda a saída para a crise exista uma estratégia de se ganhar mais dinheiro. É o que se pretende com o acordo da COP-21. Eis aí a razão do consenso.
É possível ainda apresentar mais números que demonstram onde se encontra o epicentro de toda essa crise e de um provável colapso ambiental, por essa razão vista aqui como sistêmica. Ainda buscando no trabalho de MARQUES (2015, p,17) essas informações, bem atualizadas porque sua publicação é do segundo semestre de 2015, é possível verificar que onde se concentra a riqueza se encontra também os responsáveis por um estilo de vida altamente degradante, seja do ponto de vista ambiental, como também moral e social:
A riqueza da humanidade adulta (cerca de 4,7 bilhões de pessoas) é de 240,8 trilhões de dólares (2013). Mais de dois terços (68,7%) dos indivíduos adultos situados na base da pirâmide da riqueza, possuem 3% (7,3 trilhões de dólares) da riqueza global, com ativos de no máximo 10 mil dólares. No topo da pirâmide, 0,7% de adultos possui 41% da riqueza mundial (98,7% trilhões de dólares). Somados os dois estratos superiores da pirâmide – 393 milhões de indivíduos ou 8,4% da população adulta – detêm 83,3% da riqueza mundial.
(...)
Para satisfazer a avidez de 393 milhões de indivíduos – os 8,4% da população mundial adulta detentora de 83,3% da riqueza mundial –, move-se a economia do planeta, máquina produtora de crises ambientais, a começar pelas mudanças climáticas: “os 500 milhões de pessoas mais ricas do mundo produzem metade das emissões de CO2, enquanto os 3 bilhões mais pobres emitem apenas 7%.
As corporações dominam o mundo. E os Estados agem de acordo com os interesses dessas corporações. Seus dirigentes são obrigados a isso como decorrência da submissão tanto pelo poder que elas representam, como pela relação espúria gerada por financiamentos de campanhas políticas, e isso não somente no Brasil, mas em qualquer país do mundo regido por essa lógica.
CONCLUSÃO
O caminho que vemos ser pavimentado nesse momento, consolidado no acordo da COP-21, é consequência de um período de crise sistêmica intensa e da necessidade do capitalismo tomar outros rumos, da mesma forma que ocorreu em tempos anteriores, indicados na história como primeira, segunda e terceira revolução industrial. Considero que todas elas fazem parte de um mesmo processo, sendo, portanto, uma. Consequência da necessidade de transformação tecnológica incessante dos meios de produção capitalista.
As discussões em torno de energias alternativas direcionam o novo desenvolvimento tecnológico em buscas de outras matrizes energéticas, principalmente solar e eólica, mas não se prendendo somente a essas. Da mesma maneira, o discurso ecológico tende a representar um novo filão de mercado, com a inserção de novos aparatos tecnológicos, leiam-se mercadorias, adequadas a um “novo tempo”. Isso significará uma substituição dos produtos atuais pelos novos, fazendo, dessa forma, com que as pessoas sintam a “necessidade” de se tornarem ecologicamente corretas, adquirindo novos produtos e garantindo uma retomada consumista com outro discurso. Algo parecido, mas com menor dimensão, do que aconteceu com os produtos que continham CFC (clorofluorcarboneto) levando a surgir novas linhas de mercadorias para substituir aqueles, tornados obsoletos. Atualmente alguns cientistas já discordam que existissem tais riscos.
Não se trata de negar as evidencias, e a própria realidade, que demonstram uma degradação da natureza a partir do estilo de vida das sociedades capitalistas. Mas é necessário mensurar bem e estabelecer uma diferença entre as condições em que vive uma pequena parcela da população, que consome praticamente dois terços do que a outra parcela consome. Esta, majoritária, mas cujas condições econômicas a levam a consumir apenas um terço na comparação do total daquilo que é consumido pelos mais ricos.
Qualquer política a ser desenvolvida pelos países, principalmente aqueles submetidos por muito tempo à dominação colonialista, e depois pela dependência econômica e sob controle das grandes corporações transnacionais, deve necessariamente, considerar esses aspectos demonstrados em números que apresentam uma desigualdade absurda. A crise que vivemos, muito antes de ser ambiental é política, sistêmica, e representa a falência de um modelo que não cabe mais nas condições de existência do planeta terra. Precisa ser substituído, não basta somente ser mudado para manter o poder de consumo sob novas formas, no agrado daquela pequena parcela que controla, comanda e destrói o ecossistema.


Referências
COMPARATO. Fábio Konder. A Civilização Capitalista. São Paulo: Saraiva, 2013
DIAMONDS, Jared. Armas, Germes e Aço. São Paulo: Record, 2001.
________________. Colapso - Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. São Paulo: Record, 2005.
FOLADORI, Guilhermo. Limites do desenvolvimento sustentável. São Paulo: Ed. Unicamp, 2001
MARQUES, Luis. Capitalismo e Colapso ambiental. São Paulo: Ed. Unicamp, 2015
MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Martins Fontes, 2011
SMITH, Laurence C. O mundo em 2050 - Como a demografia, a demanda de recursos naturais, a globalização, a mudança climática e a tecnologia moldarão o futuro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.


* Texto fruto de palestra intitulada “Desenvolvimento sustentável e as limitações do acordo sobre o clima – COP 21, Paris 2015”, apresentada na 2ª Semana de Assuntos Internacionais, realizada pelo Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFG, em 29 de janeiro de 2016.
** Publicado originalmente em “Territorial – Caderno eletrônico de textos”. ISSN: 2238.5525.
Link - http://www.cadernoterritorial.com/news/como-sobreviver-a-um-sistema-expansivo-e-destrutivo-meu-ceticismo-em-relacao-ao-aquecimento-global-desenvolvimento-sustentavel-e-o-acordo-da-cop-21-romualdo-pessoa-campos-filho/

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

APOIO À LUTA DA JUVENTUDE SECUNDARISTA

Não somente pelo meu histórico de participação política, muita intensa no movimento estudantil, à frente da nossa entidade de professores na UFG e como Secretário Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por duas vezes, mas também pelo conteúdo das disciplinas que leciono na Universidade, no âmbito da geopolítica, tenho sido instado por estudantes a me posicionar em relação às lutas que tem sido travadas em várias escolas pela juventude secundarista de Goiás.
Manifesto então publicamente, meu apoio á luta dos estudantes e professores, principalmente contra a militarização de escolas. Aliás, sou pela desmilitarização da polícia, que dirá ver essa instituição como responsável pela preparação educacional de jovens. Não é função da polícia cuidar da educação, isso pode trazer como efeito uma formação autoritária.
Quanto as OS, penso que os modelos de gestão das instituições educacionais particulares não devem servir como parâmetros para as melhorias que nosso sistema de ensino está precisando. Embora lentamente, a educação tem melhorado no país. Muita coisa precisa ser feita. Mas não será enrijecendo a disciplina e voltando atrás nos avanços pedagógicos que os problemas serão superados. Ao contrário, precisamos sair das imposições neoliberais que nosso sistema educacional se vê amarrado há duas décadas. Simplesmente porque elas não deram certo. E não me refiro especificamente só a Goiás. Embora as escolas não moldem o caráter dos indivíduos, e que portanto jamais substituirá a educação familiar, ela deve, sim, se constituir em espaços de respeito, tolerância e liberdade, sem abrir mão de preceitos educativos que exigem a valorização do trabalho dos professores: deve-se manter o princípio da autoridade, como diria Che, “Sin perder la ternura jamás”
Vivemos uma crise de valores, porque também nos encontramos em meio a uma transição de modelo de sociedade, mas que por enquanto não sabemos para onde isso nos levará. Mas não é desejável retornar ao tempo dos colégios internos, de disciplinas religiosas rígidas e autoritárias, para onde os pais enviavam seus filhos, a fim de se livrarem dos conflitos comuns a todos adolescentes. No entanto, compreendo que as mudanças desejadas só serão possíveis de ser solucionadas com o envolvimento da comunidade e a participação efetiva dos pais e alunos de cada escola, procurando envolvê-los em discussão de forma também a encontrar nessas participações alternativas que melhorem, inclusive, a relação entre alunos e professores.
A valorização do magistério, com melhores salários e uma política de requalificação dos professores, é o primeiro passo. Mas também será a saída para intensos embates que levam a greves prolongadas e prejudicam o aprendizado da juventude. Tais paralisações, e, principalmente, radicalizações de todos os lados que impedem acordos, terminam por se constituir em pretexto do Estado para medidas autoritárias, e também dos pais dos alunos, que desejam vê-los em instituições que possam cumprir com seus objetivos e optam, erroneamente, por buscar escolas geridas por militares.
O Estado precisa encontrar alternativas que façam avançar a relação institucional, democraticamente, pois qualquer outra saída levará, sempre, a confrontos desgastantes e prejudiciais à formação da juventude.
A Universidade também pode dar a sua contribuição, efetivamente, não por meio de notas curtas e vazias, mas buscando elaborar sugestões, de forma permanente, que contribuam para encontrar caminhos que possam qualificar melhor os jovens que em algum momento estarão buscando seu espaço em algum curso superior. Cuidar mais dos cursos de graduação, principalmente os de licenciatura, e ter preocupações que extrapolem as políticas de cotas. A mesma universidade que tem avançado nas pesquisas tem também sido negligente com a formação de professores. E me refiro aqui como política educacional geral, e não somente especifica das instituições federais de Goiás, para além de números e estatísticas que, em muitos casos criam uma cortina de fumaça.
Pensar na qualidade da formação secundária dos alunos das escolas públicas, é a condição para que no futuro não seja mais necessário à universidade a adoção de políticas de inclusão e de cotas. Até lá, só haverá a possibilidade de selecionar pelo mérito, quando o ensino público, fundamental e médio, superar crises que são recorrentes.
Portanto, é, sim, uma preocupação que nos diz respeito, a luta travada nesse momento em Goiás, e assim também o foi no Estado de São Paulo, e por outros cantos, em busca de alternativas que não retrocedam às conquistas. Mas que melhorem as condições das escolas, a qualificação e o salário dos professores, a gestão administrativa e que valorize os aspectos pedagógicos que focam na formação de jovens com espíritos de cidadania, respeito à democracia e uma disciplina que garanta os princípios da autoridade na relação professor-aluno, mas que não incorra no erro de imposições autoritárias a fim de moldar jovens cordatos e alienados, distanciados das condições reais e objetivas que lhes cercam.
·  QUE AS ESCOLAS SEJAM ESPAÇOS DE FORMAÇÕES SOLIDÁRIAS, HUMANAS, DE TOLERÂNCIA E RESPEITO.
·  QUE OS PROFESSORES SEJAM VALORIZADOS PELO QUE REPRESENTAM E NÃO SEJAM HOSTILIZADOS EM SEUS AMBIENTES DE TRABALHO.
·    QUE SE ESTABELEÇA UM AMBIENTE DEMOCRÁTICO, MAS QUE OS MESTRES NÃO PERCAM A AUTORIDADE EM SUA SALA DE AULA.
·    QUE OS PAIS NÃO VEJAM NA ESCOLA UM ESPAÇO A SUBSTITUIR O AMBIENTE FAMILIAR.
·    QUE O ESTADO NÃO ENCARE AS DIVERGÊNCIAS COMO UMA DECLARAÇÃO DE GUERRA
·   QUE OS PROFESSORES E DEMAIS SERVIDORES BUSQUEM ALTERNATIVAS DE LUTAS QUE NÃO CAUSEM PREJUÍZOS À FORMAÇÃO DA JUVENTUDE.
·   QUE A GESTÃO SEJA PARTICIPATIVA, EM CORRESPONSABILIDADE, ENVOLVENDO ESTADO-ESCOLA-COMUNIDADE.

· PELO FORTALECIMENTO E O RESPEITO ÀS ENTIDADES ESTUDANTIS SECUNDARISTAS.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

QUANDO CHEGA DEZEMBRO*

Há uma música, cantada por Geraldo Azevedo, feita em parceria com Fausto Nilo, que incluo entre as mais belas da MPB, e ela faz me lembrar de tempos agitados em meu período de militância política estudantil e das odisseias nas quais me envolvia, aos finais de semana, percorrendo bares onde amigos musicais cantavam. Essa era, seguramente, uma das músicas mais pedidas: Chorando e Cantando. “Quando Fevereiro chegar/ Saudade já não mata a gente/ A chama continua/ No ar/ O fogo vai deixar semente/ A gente ri a gente chora...”. Some-se a isso o fato de eu ter nascido no mês de fevereiro, e eu me deparava com a música que mexia comigo, sob vários aspectos. O tempo passou, e essa música permanece, mais ainda, a mexer com meus sentimentos, e acentua as minhas lembranças. Consequentemente a saudade de um tempo que, naturalmente, não volta mais. A não ser em nossa memória.
Desde há oito anos, quando perdi minha filha, num fatídico dia 13 de dezembro, muita coisa mudou. Por mais de três anos, a dor profunda gerou angústia, depressão, tristeza, um enorme vazio como se um pedaço de mim tivesse se separado – e foi –, me manteve anestesiado. A perda de uma filha gera uma dor que não tem cura. Carregamos para o resto da vida.
Foram dez anos que não se apagam, o tempo em que ela viveu, e se manifestam de formas diferentes em uma infinidade de lembranças. As músicas, os programas de TV, as fotografias, o quarto, a casa como um todo por onde a alegria, e a bagunça, sempre são marcas de crianças, tudo isso são situações, objetos e instantes que agem como flashes em nossa memória.
Nada, contudo se compara ao se aproximar do mês de dezembro. Daí a relação com a música de Fausto Nilo e Geraldo Azevedo. Parafraseio, inverto a letra, e aplico-a na realidade que vivemos todos os anos: “quando dezembro chegar, saudade já não mata a gente, a gente ri, a gente chora, a chama continua, no ar”.
Dezembro é um mês torturante para mim. Para nós, que perdemos Carol nessa data, mas, creio, para todos que passam por situação semelhante a nossa. Porque dezembro não é um mês comum, como fevereiro, embora tenha sido esse o mês que nasci, e que tem um simbolismo pessoal presente nele. Até porque nasci no dia em que meu pai fazia aniversário.
Mas o mês de dezembro carrega todo um simbolismo, reforçado por uma cultura consumista, mas cujos valores e tradição já vêm de outros séculos, ou milênios. O capitalismo potencializa isso, e mexe estressantemente com os desejos, criados pela necessidade do mercado em fazer explodir a explosão de consumo. Um frenesi toma conta das pessoas, liberando uma alegria naqueles que conseguem se enquadrar nessa lógica e fazer realizar seus desejos de gastança. Mas, por outro lado, gera um enorme desconforto, e causa depressão, quando esse sentimento é tolhido impossibilidade de gastar, ou, mesmo que movido por um sentimento honesto, compartilhar presentes entre as pessoas das quais se gostam.
Essa realidade presente nesse mês transformou-se em um imenso vazio. Dezembro não desaparece, seria impossível isso, mesmo se o desejássemos, mas ele tornou-se torturante em nossas vidas, e para mim ele não se faz, se desfaz. A cada dia que se aproxima da data em que minha filha morreu, sinto aumentar minha tristeza. O dia 13 deixou de existir por todos os anos que se seguem à sua morte. Ele sempre será aquele 13 de dezembro de 2007, quando de forma brutal pudemos observar pela última vez, materialmente, nossa pequena Carol. A sua última imagem, em vida, a qual não gostaria jamais de lembrar, e por muito tempo apaguei de minha memória, embora ela sempre volte à minha lembrança, foi em seus últimos momentos e suspiros, num leito da UTI do Hospital da Criança. A leucemia ceifara sua vida, sem que lhe fosse dado tempo para lutar e tentar reverter uma situação pela qual muitas crianças passam e conseguem superar. Mas, no caso dela, foi fulminante. E apagou para sempre o dia 13.
Eu já não me empolgava muito com as festividades deste mês, embora me envolvesse em comemorações com familiares e amigos. Depois da morte da Carol dezembro tornou-se um mês chato, insuportável, triste e depressivo. Nos três anos em que me vi tolhido por uma depressão, meu comportamento era sofrível, e me via acuado pelos cantos a chorar, revoltava-me com a vida e com a insuportável inversão de ter visto minha filha ser sepultada. Superei isso, me recuperei da depressão, mas não da tristeza que me invade o coração nessa época, mais do que nos demais meses do ano. Talvez mais próximo da tristeza que sinto no mês de março, quando ela nasceu.
O que mudou foi a forma de explicitar isso. Com o tempo, as lembranças vão ficando somente nossas, alguns parentes, amigos e amigas, que naturalmente vivem suas rotinas e realidades pessoais e familiares, já não compartilham como antes esses momentos tristes que sentimos. Isso torna mais silenciosa a nossa dor. Mas ela não é menor, apenas sabemos melhor controlá-la, por entender que nossa vida continua. Contudo, a tristeza, que não pode ser confundida com depressão, é um sentimento que carregamos sempre que perdemos alguém que amamos muito. Mas a dor de perder um filho ou uma filha é muito profunda, somente quem passa por um trauma desses tem a noção de tamanha dor. E isso é algo que não imaginamos para ninguém.
Por isso a contradição presente nesse mês torna-o muito amargo. Se não posso apagá-lo, não desejo sua proximidade, e desejaria que o tempo que o faz passar fosse mais acelerado do que para os demais. E se o dia 13 é tão somente uma repetição de um único, que não se apagará jamais de nossa memória, o dezembro e suas festas consumistas capitalistas, é torturante. Não há alegria para mim, por esses dias. Sinto-me mal quando circulo pelas ruas, repletas de correrias das pessoas ávidas por consumirem. Sou tomado por mais contradições, pois sinto ser um pouco egoísta na minha dor. É como se eu invejasse a alegria desses momentos que tomam conta delas.
Mas não é o que eu desejo. Cada um vive a sua vida, a sua maneira, com seus valores culturais, impulsionados pela religiosidade, ou pela lógica que o sistema capitalista impõe. E é preciso vivê-la, intensamente, malgrado as circunstâncias e a lógica que nos move. A minha dor não pode ser sentida por outros, não posso desejar isso, e não desejo. Apenas preciso desabafar. A proximidade com a data da morte de minha filha me angustia e me entristece. Conviver com isso, em meio a uma data que resplandece, por qualquer que seja a razão, alegria e outros sentimentos positivos, só faz aumentar esse dilema e tornar dezembro um mês insuportável.
Por isso digo sempre aos amigos, que o ano acaba para mim, sempre, quando começa dezembro. Desejo que ele se encerre o mais rápido possível, embora isso não resolva o problema das lembranças, das saudades, e da falta que sinto da Carol. Só é algo irrefreável em meus sentimentos. Por mais que em determinados momentos eu procure me cercar de amigos, e demonstrar alegrias, o recolhimento em minha casa, onde por todos os cantos suas lembranças estão presente, faz com que em me transporte para aquele mês de 2007, quando em seu começo os dias de minha filha foram se encurtando, até desaparecer definitivamente no dia 13.
Foi sozinho em minha casa em um domingo chuvoso e escuro, quando escrevi essas palavras,  e isso era o que me povoava a mente. Vejo em minha frente o retrato de minha filha, mas a reforma em minha casa impede que uma árvore de natal que ela ajudava a montar desde quando meu pai era vivo, até 2001, possa nos animar um pouco. Sempre seguimos a tradição de montar a velha árvore mesmo depois da morte dele, e jamais desejei substituí-la. E, em seguida, após a morte dela mantivemos o hábito. Procuro ainda algum canto para colocá-la. Porque, mais do que a mística que cerca esse objeto, e com todas as minhas objeções, para mim ela representa a alegria que minha filhinha sentia ao montá-la. Por isso ela esteve sempre enfeitando nossa casa, nesse mês que não mais acontece, mas existe, por quanto tempo for isso possível.
2ª Edição, lançada em 13/12/2014
Essa crônica, como tantas que escrevi ao longo desses anos, está incluída no livro que escrevi para minha filha e que reeditei e lancei no dia 13 de dezembro 2014, “Depois que você partiu”, durante o Bazar do Instituto Ana Carol. Neste ano de 2015, no dia 12, véspera de se falecimento, estaremos mais uma vez realizando esse evento, para o qual convidamos a todos(as). Como sempre, o Bazar do IAC será na Associação dos Moradores do Conjunto Caiçara, a partir das 9 horas da manhã, até às 17 horas.

Finalizo me lembrando de mais uma música:
“Oh, pedaço de mim/ Oh, metade adorada de mim/ Lava os olhos meus/ Que a saudade é o pior castigo/ E eu não quero levar comigo/ A mortalha do amor/ Adeus” (Chico Buarque, “Pedaço de mim”).



Ao final, acrescento um dos poucos vídeo que tenho gravado, de minha filha, em um momento descontraído ao lado de uma tia, também já falecida, na cidade de Salvador, no verão de 2006, em nossa última viagem antes de sua morte. É a primeira vez que compartilho esse vídeo. Por muito tempo, custava-me assisti-lo. E sempre lamentei não ter outros que pudesse me fazer aplacar a saudade que sentimos da pequena Carol.


* Esse artigo foi publicado no final de novembro de 2014. Reedito agora, em dezembro de 2015, com algumas pequenas atualizações.




sexta-feira, 27 de novembro de 2015

MEUS CAMINHOS PELA UNIVERSIDADE – ENTRE A EXPERIÊNCIA E AS NOVAS EXIGÊNCIAS

No final de 2015 o Programa de Pós-Graduação em Geografia finalizou o prazo constante em seu edital para novos cadastramentos de professores. Eu aguardei esse momento, embora estivesse em dúvidas quanto a me credenciar, pelas críticas que tenho em relação aos critérios adotados pela Capes, para avaliar aqueles que atuam nesses programas, ou que desejam deles participar. Não é algo que nos motive por questões salariais, muito pelo contrário, além de não propiciar nenhum aumento em nossos salários, eleva, consideravelmente, nossa carga de trabalho, na medida em que se ampliam nossas atividades ligadas à acompanhamento e pesquisa dos alunos que orientamos e das aulas a mais que teremos que ministrar. Mas é necessário e fundamental em nossa formação acadêmica, numa Universidade que requer atividades no ensino, na extensão e na pesquisa. Muito embora não seja preciso estar numa pós-graduação para ser um pesquisador. Mas a pós-graduação é um fator importante de fortalecimento da pesquisa, indubitavelmente, bem como pela necessária qualificação a jovens recém-saídos da graduação.
Como os critérios são estabelecidos pela Capes, não cabe muito aos professores que coordenam o Programa, acrescer outros critérios que garantam à inserção de novos doutores, principalmente os oriundos de áreas, ou de subáreas, que não estejam contempladas no corpo de professores. Mas é preciso haver flexibilidade, e uma preocupação com a abrangência de áreas que são importantes à Geografia. Este é o meu caso, haja vista não haver dentre os docentes que compõem a pós-graduação em Geografia nenhum que atue com a Geopolítica. Evidente que reconheço a dificuldade da flexibilidade, decorrente de critérios rígidos, mas creio haver certa burocratização, e também pouca preocupação na identificação desse profissional, que possa vir a completar o conhecimento geográfico, absolutamente frágil sem a inserção da política, da geopolítica ou da geografia política, como queiram. Discuto esse problema com meus alunos, no âmbito da disciplina Geopolítica, com base no livro de Yves Lacoste, “A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, atualizado em 1985.
Evidentemente, sem cair no anacronismo, percebe-se que pouco se alterou, de lá para cá, em termos dessa preocupação. Até porque, seguimos sendo dirigidos por critérios que não foram criados aqui no Brasil, mas são frutos da inserção da universidade brasileira na lógica de uma nova forma de liberalismo, que atendesse às necessidades de um mundo que se globalizava. Tanto quanto este mundo, a universidade também entrou no processo de identificação dos melhores, não pela experiência ou pela qualidade do que se produz, mas pela quantidade, tido como necessário para forçar a produção. Ademais, era preciso fragmentar o conhecimento, menosprezando nele determinados conteúdos por demais questionadores desse modelo. Que, embora desgastado e fragilizado por seus erros em todo o mundo, se mantém nas formulações das políticas educacionais brasileiras. Principalmente no campo das pesquisas. Seus formuladores, e seus seguidores, naturalmente, são frutos dessas mudanças, em curso desde o começo dos anos 1990, portanto, tempo suficiente para que surgisse uma grande quantidade de novos doutores, formados e adequados para implementar esses critérios, sem muitos questionamentos. Principalmente, porque tudo isso é imposto com formas bem elaboradas, e crenças inabaláveis, nesses métodos quantitativistas de medir quem são os melhores.
Compreendo que essa seja uma condição de chegar-se à qualidade, através da quantidade, algo afirmado pelo primado da dialética. Só que pela dialética, a alteração qualitativa, a partir da mudança da quantidade, pode ocorrer também na redução dos elementos que compõem uma dada matéria. No que se propõe em termos da política de investimento na pesquisa e na pós-graduação, com tais critérios, desperdiça-se muito e cria-se pouco, porque há um enrijecimento da capacidade criativa, presa à burocratização e rigidez do sistema.
Dedico-me a analisar um caso específico, embora isso seja apenas um mote para que eu possa, mais uma vez,[1] estabelecer novos argumentos críticos ao tipo de universidade no qual nós estamos metidos, uma redoma aparentemente bem protegida de novas alternativas em um tempo de pouca criatividade e de ausência de debates e discussões sobre outras possibilidades, e a necessidade de transformarmos muito do que produzimos em conteúdos críticos quanto à realidade deste mundo e desse modelo em vias falimentar. O caminho que seguimos é o da alienação, reforçado pela fragmentação de conhecimentos, que perde em essência, quando o conteúdo apresentado limita-se a dar respostas a um modelo que deseja ver resultados imediatos em termos de quantidade, e pouco se valoriza, na qualidade daquilo que se pesquisa e se produz. Embora haja diferenças quanto às áreas,[2] naturalmente, esse formato faz escoar pelo ralo uma boa parte dos recursos que se investe, na medida em que, muitas das pesquisas não terão visibilidade, não serão publicadas em sua totalidade, pois o que importa é dividi-las em partes para publicação em artigos, em revistas eletrônicas que tem pouca divulgação. Salva-se de importante, na maioria dos casos, somente a validade da qualificação, principalmente em nível de doutorado, o que mais importa a quem está se qualificando.
Seguindo-se esses critérios rígidos, impostos pela Capes, que por sua vez os copia de agências internacionais, mas que são impositivos também nesse âmbito, e, repito, seguem um modelo tornado necessário para acompanhar as transformações de um mundo que se globalizava, a pós-graduação brasileira cresceu celeremente. Embora ainda não tanto quanto o necessário, para atingir os números proporcionais a países que se encontram em condições de desenvolvimento econômico bem inferior a nós. E nisso, inclui-se também, a pesquisa. Portanto, não desconsidero a necessidade de que haja um forte incentivo a esse crescimento. Mas critico a forma como isso se dá, e até mesmo a desqualificação de áreas importantes para capacitar criticamente quem está se qualificando (com perdão do trocadilho), de forma, inclusive, a dar-lhe liberdade para que possa exercer a criatividade, apresentar algo de novo, além de meras repetições baseadas em infinitas citações já conhecidas por séquitos de especialistas naquela área. Pouco se cria, muito se reproduz. Muitos diagnósticos e poucas proposições que sejam alternativas aos modelos que se está investigando e criticando. Mas essas também são exigências que se baseiam muito mais no argumento da autoridade, do que na autoridade do argumento, na problematização, na busca pela identificação de contradições que possibilitem questionar o que já foi apresentado e encontre o caminho para identificar o que é novo. Por isso, outros critérios são acrescidos, sempre quantitativos, do número de citações de seu trabalho. Isso se tornou uma indústria, foge do objetivo central, garantir uma produção, em alta escala, de pesquisas e trabalhos científicos que dê ao país visibilidade, do ponto de vista da inovação, da capacidade crítica e da criatividade. Embora os critérios de avaliação nesse ranking não fujam desses padrões, seria o caso de se perguntar: se isso está dando certo, porque as universidades brasileiras caíram no ranking dos países que compõem os BRICS?[3]
Aprofundei-me nesses comentários sobre o modelo, porque ele está no cerne da crítica que faço aqui ao edital da pós-graduação da unidade em que trabalho. Porque não é exclusivo dela. Mas ele resultou, em larga medida, na minha exclusão e impossibilidade de entrar no programa. Abriu-se uma vaga para a área de humanas, que deveria contemplar a geopolítica, mas éramos dois recém-doutores no Instituto. Abdiquei de concorrer, deixei caminho aberto para um colega, bem mais novo, de idade e de universidade, mas com capacidade para se destacar e com mais tempo a percorrer.
Tornei-me doutor recentemente, há três anos. Depois de circunstâncias extremamente complicadas do ponto de vista pessoal. No primeiro momento, no começo da primeira década deste século, tentei ingressar na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Também em Geografia. Busquei como orientador o Prof. Dr. Antonio Carlos Robert Moraes, falecido recentemente, seguindo uma linha de pesquisa que procurava identificar os caminhos da ocupação do centro-oeste, no rastro das tropas e boiadas. No entanto, a vida me impôs o primeiro sacrifício nesse caminho: interrompi esse meu intento devido à doença de meu pai, que passou a sofrer e a se debilitar celeremente com um câncer que o levou à morte. O fato de morarmos juntos, e pela própria necessidade de, enquanto filho, acompanhá-lo nesse longo sofrimento, me fez desistir naquele momento da pós-graduação.
Retomei o projeto de fazer o doutorado em 2007, logo no primeiro semestre, quando eu finalizava minha gestão como presidente da ADUFG (2005-2007). Desta feita em outra área da geopolítica, o estudo dos conflitos pela água. Mas outra fatalidade, desta vez mais terrível, porque alterava a ordem natural da vida: a doença de minha filha, desde meados daquele ano, e o seu falecimento em dezembro, num fatídico dia 13, há oito anos. Por muito tempo sucumbi a dor, e, afetado por depressão e enorme tristeza, fiquei sem nenhuma projeção de porvir. Não havia ânimo para tocar nenhum projeto.
Em 2010, estimulado por colegas retomei o projeto de geopolítica das águas e entrei como doutorando na pós-graduação da Geografia na UFG. Mas, outros percalços me fariam mudar de projeto de pesquisa. Meu envolvimento com a equipe multiministerial, encarregada de identificar os locais onde possivelmente estariam enterrados os guerrilheiros do Araguaia, levou-me de volta à temática que eu havia trabalhado no mestrado, e que originara um livro que se tornou referência na área, por ter sido o primeiro fruto de uma pesquisa acadêmica sobre o assunto: a Guerrilha do Araguaia.
Participação no Grupo de Trabalho
Araguaia
Mantive-me firme no doutorado, embora com outro projeto de pesquisa, em acerto prévio com minha orientadora, a prof. Drª. Celene Barreira. E, já por esses anos, o meu ânimo começava a retornar, me dando mais estímulo para produzir. Aliás, produzir foi o caminho que encontrei pra empurrar a depressão para um canto distante de mim. Criei um blog, que denominei “Gramática do Mundo”, inspirado na obra de Fernand Braudel, “Gramática das Civilizações” e comecei a produzir artigos relativos à geopolítica, à política, à economia, e também como forma de catarse, crônicas sobre minha filha. Já são mais de duzentos artigos e quase três centenas de milhares de acessos.[4] Nada disso, naturalmente, por essa lógica criticada, tem validade enquanto produção apta a ser considerada em nossas pontuações. Muito embora o acesso ao meu blog, em muitos artigos, seja amplamente em maior quantidade do acesso a alguns artigos publicados em revistas indexadas. E, por esses artigos, faço discussão com meus alunos em sala de aula, e tenho sido convidado a debater em escolas onde os estudantes estão sendo preparados para entrarem na universidade.
Nesse período, entre a minha entrada no doutorado e a conclusão, pude reeditar meu livro que já estava esgotado, ampliando-o e atualizando-o; tornei-me membro da Comissão de Altos Estudos do Centro de Referência das Lutas Políticas (1964-1985) – Memórias Reveladas, vinculado ao Arquivo Nacional; participei das expedições do Grupo de Trabalho Araguaia, à região da Guerrilha e de diversos documentários sobre o movimento guerrilheiro, alguns disputando com destaque mostra de cinema, como no caso de “Camponeses do Araguaia. A Guerrilha vista por dentro”.[5] Outro, "Araguaia" foi lançado após ter sido apresentado na Mostra de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA 2015).[6] E, o documentário “Osvaldão”, já exibido nos cinemas.[7] Isso pouco importa, em termos de “pontuação” nos critérios adotados. Muito menos a experiência adquirida por longos anos de atividade e de pesquisa, com amplo reconhecimento fora da universidade.
Como resultado desse meu envolvimento, pude, já no decorrer da minha pesquisa, negociar a publicação do meu trabalho em livro, o que se concretizou rapidamente, seis meses depois da defesa da tese. Ter prosseguido na mesma temática deu mais visibilidade à minha pesquisa e projeção ao meu livro. Mas aí entra outro elemento nesse formato de pontuação exigida pela Capes, relacionado ao que publicamos. Inexplicavelmente, livro perdeu a importância dentro desses critérios. Isso, ao meu ver, segue o menosprezo à noção de totalidade, prevalecendo a fragmentação também do que se é produzido, compartimentando-se uma tese para que a mesma possa ser publicada em partes, garantindo número de publicação que possam ser devidamente pontuadas, em um mecanismo que concede a um livro a mesma quantidade de pontos concedida a um artigo Qualis A-1, ou dois artigos em periódico Qualis B-1.
O entendimento do todo, resultado da pesquisa que partiu de uma tese e seguiu por caminhos complexos de comprovação e/ou negação das hipóteses levantadas, quando há, naturalmente (ou pelo menos deveria haver), fica evidentemente prejudicado.
Optei por publicar o livro, pois sempre alimentei o desejo de ter livros publicados, influenciado pelo aprendizado que tive com meu pai, que assinava seus livros com a frase “o amigo dos livros”. Não quis dividir o resultado de minha pesquisa e isso resultou no livro “Araguaia: depois da guerrilha, outra guerra – A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia da Segurança Nacional (1975-2000)”.
No final de 2014, após dois anos da 2ª edição do livro “A Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas” este livro mais uma vez se esgotou. Sua reedição foi finalizada no segundo semestre de 2015 e comprova o sucesso do trabalho, que embora publicado por editoras de pouca penetração no mercado, conseguiu ser reconhecido como pioneiro no tema e sempre procurado pelos que desejam conhecer a história de um fato por muito tempo omitido oficialmente.
Receio que esses critérios estejam condenando ao ostracismo as publicações completas, dando mais importância a livros organizados com diversos autores, semelhantes às revistas ou aos artigos em periódicos. Mantém-se interessados em publicar livros aqueles que sempre sonharam com isso, já que pelos critérios capesianos o melhor é fatiar em diversos artigos o resultado de seu mestrado ou doutorado.
São questões polêmicas, mas que devem ser debatidas, embora deva se considerar as diferenças de produção e de trabalhos científicos entre as diversas áreas. Até por ser a universidade um ambiente que deve necessariamente ser marcado pela polêmica, pelo debate, pelas contradições, enfrentadas de forma civilizada e de maneira a possibilitar, sempre, os questionamentos, de forma a tirá-la da mesmice que a tem caracterizado nos últimos anos.
Essa rotina de permanentemente ter que nos reinventarmos, já que nossa produção só tem validade por três anos, leva ao esquecimento do passado, ou apenas a referências ocasionais em citações de pé de página. Talvez por essa razão valha menos a experiência acumulada após anos de atividades docentes, de conhecimento e participação nos destinos da Universidade, do que a dedicação em se produzir artigos, que tem sua importância a depender da relevância do trabalho que está por trás, mas que não deveria, jamais, apagar o que o tempo consolidou na somatória de conhecimentos adquiridos na junção de nossa vida acadêmica e de nossa vivência social.
Se precisamos a cada três anos nos reinventarmos em novas produções, e isso deve fazer parte da renovação do conhecimento, naturalmente, faz-se necessário também resgatarmos nosso passado, pois ele é essencial para identificarmos nos tempos atuais mecanismos que possam nos levar a evitar erros que porventura tenhamos cometidos. Ou a corrigir rumos na Universidade, resgatando princípios e valores pelos quais tanto lutamos. E que nos fez, sempre, repetir por todos os momentos de embates e lutas que travamos: “UFG para que? E para quem?” (Ou, Universidade Pública para que? e para quem?).
Não sei se terei tempo para novo cadastramento no Programa de Pós-Graduação em Geografia, mas já comuniquei meu interesse. Mas, embora com trinta anos de UFG não estou me afastando da rotina desta Universidade, pretendo encarar outros projetos, que possam, de maneira ativa e contundente, contribuir com as transformações que a Universidade está precisando, não somente em termos de seu crescimento físico, mas da necessidade de reviver dentro dela elementos que são fundamentais para a formação de profissionais com visão crítica, focados na abrangência e complexidade do mundo, e não somente nas exigências perversas do mercado. Mesmo que esse seja um destino inevitável. Mas o mundo está a exigir muito mais criatividade, inovação e discussão sobre os rumos que a humanidade tem pela frente, e a Universidade deve ser um ponto de referência que possa nos fazer acreditar que outro mundo é possível, ao invés de referendarmos uma lógica pautada em consensos que nos impõem a aceitação de regras cujos valores já foram negados em suas aplicações práticas. O conhecimento da Universidade, e a experiência vivida, são fatores importantes para atingir esses objetivos.




[2] Segundo critérios da CAPES: Ciências Exatas e da Terra; Ciências Biológicas; Engenharias; Ciências da Saúde; Ciências Agrárias; Ciências Sociais Aplicadas; Ciências Humanas; Linguística, Letras e Artes.
[3] http://www.valor.com.br/brasil/4126734/universidades-brasileiras-caem-em-ranking-entre-paises-do-brics
[4] http://www.gramaticadomundo.blogspot.com.br/
[5] [5] Disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=UhpO4I2O0zs
[6] Documentário “Araguaia”, será lançado no IX SEMINÁRIO MÍDIA E CIDADANIA e VII SEMINÁRIO MÍDIA E CULTURA -  http://ficufg.blog.br/semic/programacaosemic2015.pdf

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SÍRIA: UM ESTADO FALIDO. MAS POR QUEM?

Por: Matheus Hoffmann Pfrimer[1] 
Há meses atrás, em entrevista para esse jornal, afirmei que a estratégia americana para o combate ao Estado Islâmico de armar os rebeldes na Síria corria grave risco de armar dissidências entre os rebeldes. O que se costuma chamar de rebeldes não se trata de um grupo monolítico que procura derrubar o regime de Bashar Al-Assad, mas sim uma pletora de grupos e movimentos político-religiosos com diversos interesses na luta ao regime.
Passados alguns meses do discurso oficial do presidente estadunidense Barak Obama anunciando a decisão pelo treinamento e armamento dos “rebeldes” na Síria e do exército iraquiano, nos cabe, então, fazer uma nova reflexão das consequências e resultados daquela decisão na conjuntura atual, tendo em vista o desenrolar dos últimos acontecimentos: crise humanitária, intervenção russa na Síria e o mais recente atentado em Paris.
É provável que parte do armamento oferecido pelos Estados Unidos ao exército iraquiano, e especialmente aqueles oferecido aos “rebeldes”, acabou nas mãos das milícias do Estado Islâmico. O documentário “Fugindo do Estado Islâmico”, muito bem apresenta várias evidências de que isso tenha realmente acontecido.  Adicionando a isso o fato de que a crise humanitária vem se aprofundando, o que se pode vislumbrar no horizonte à curto prazo é uma situação em que clérigos radicais islâmicos em países europeus consigam atrair a atenção de migrantes insatisfeitos bem como de nacionais europeus, principalmente aqueles não integrados e discriminados às sociedades europeias.
Para além das armas e intervenções, os estados europeus necessitarão colocar em prática uma enorme força-tarefa com intuito de integrar essa enorme leva de migrantes às suas sociedades. Porém, essa empreitada não será fácil, pois após os últimos atentados em Paris a tendência é que partidos da extrema direita, a exemplo do Front National de Marine Le Pen, ganhem maior influência sobre o eleitorado europeu. Tal acontecimento colocaria em cheque as políticas assistencialistas a imigrantes e estrangeiros e ofereceria oportunidade ao ressurgimento do nacionalismo radical.
Partindo do âmbito da política doméstica para o âmbito internacional, percebe-se que o conflito da Síria que inicialmente poderia ser caracterizado em seu início como uma Guerra Civil, ganha cada vez mais dimensões de um conflito internacionalizado. Cabe ressaltar que os conflitos acontecem com o intuito não apenas de combater um suposto “Estado Islâmico”, que ao final sequer pode ser considerado como Estado, já que não dispõe de reconhecimento oficial e jurídico da comunidade internacional.
O conflito gira em diversas órbitas de interesses. A intervenção russa não apenas combate as milícias do Estado Islâmico, mas em algumas circunstancias atacou postos de outras milícias rebeldes com o intuito de defender o regime de Al-Assad. A Turquia também atacou postos do Estado Islâmico, mas também se aproveitou da situação para atacar os separatistas curdos. As potências europeias e os Estados Unidos vêm apoiando parte dos rebeldes com o intuito de derrubar o regime de Al-Assad e derrotar os fundamentalistas do Estado Islâmico. É certo que há uma convergência em derrocar o Estado Islâmico, porém não há um alinhamento entre essas diversas partes envolvidas no conflito, o que o torna cada vez mais complexo e cheio de nuances.
As intervenções armadas podem ter efeito paliativo em curto prazo, mas estudos comprovam que em longo prazo sem que haja um comprometimento de desarmamento, estabilização e reconstrução, possivelmente a região em conflito continuará sendo assolada por problemas relacionados à ausência de infraestrutura básica à saúde, desnutrição, miséria etc... O que possivelmente ceifará mais vidas do que os enfrentamentos durante o conflito. Nas Relações Internacionais quando um Estado encontra-se em uma situação análoga, utiliza-se o termo Estado Falido... mas por quem?  
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[1] Matheus Hoffmann Pfrimer é Doutor e Pós-doutor em Geografia Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG). Artigo publicado no jornal O Popular, edição de 20.11.2015, pág. 14.