sexta-feira, 27 de novembro de 2015

MEUS CAMINHOS PELA UNIVERSIDADE – ENTRE A EXPERIÊNCIA E AS NOVAS EXIGÊNCIAS

No final de 2015 o Programa de Pós-Graduação em Geografia finalizou o prazo constante em seu edital para novos cadastramentos de professores. Eu aguardei esse momento, embora estivesse em dúvidas quanto a me credenciar, pelas críticas que tenho em relação aos critérios adotados pela Capes, para avaliar aqueles que atuam nesses programas, ou que desejam deles participar. Não é algo que nos motive por questões salariais, muito pelo contrário, além de não propiciar nenhum aumento em nossos salários, eleva, consideravelmente, nossa carga de trabalho, na medida em que se ampliam nossas atividades ligadas à acompanhamento e pesquisa dos alunos que orientamos e das aulas a mais que teremos que ministrar. Mas é necessário e fundamental em nossa formação acadêmica, numa Universidade que requer atividades no ensino, na extensão e na pesquisa. Muito embora não seja preciso estar numa pós-graduação para ser um pesquisador. Mas a pós-graduação é um fator importante de fortalecimento da pesquisa, indubitavelmente, bem como pela necessária qualificação a jovens recém-saídos da graduação.
Como os critérios são estabelecidos pela Capes, não cabe muito aos professores que coordenam o Programa, acrescer outros critérios que garantam à inserção de novos doutores, principalmente os oriundos de áreas, ou de subáreas, que não estejam contempladas no corpo de professores. Mas é preciso haver flexibilidade, e uma preocupação com a abrangência de áreas que são importantes à Geografia. Este é o meu caso, haja vista não haver dentre os docentes que compõem a pós-graduação em Geografia nenhum que atue com a Geopolítica. Evidente que reconheço a dificuldade da flexibilidade, decorrente de critérios rígidos, mas creio haver certa burocratização, e também pouca preocupação na identificação desse profissional, que possa vir a completar o conhecimento geográfico, absolutamente frágil sem a inserção da política, da geopolítica ou da geografia política, como queiram. Discuto esse problema com meus alunos, no âmbito da disciplina Geopolítica, com base no livro de Yves Lacoste, “A Geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, atualizado em 1985.
Evidentemente, sem cair no anacronismo, percebe-se que pouco se alterou, de lá para cá, em termos dessa preocupação. Até porque, seguimos sendo dirigidos por critérios que não foram criados aqui no Brasil, mas são frutos da inserção da universidade brasileira na lógica de uma nova forma de liberalismo, que atendesse às necessidades de um mundo que se globalizava. Tanto quanto este mundo, a universidade também entrou no processo de identificação dos melhores, não pela experiência ou pela qualidade do que se produz, mas pela quantidade, tido como necessário para forçar a produção. Ademais, era preciso fragmentar o conhecimento, menosprezando nele determinados conteúdos por demais questionadores desse modelo. Que, embora desgastado e fragilizado por seus erros em todo o mundo, se mantém nas formulações das políticas educacionais brasileiras. Principalmente no campo das pesquisas. Seus formuladores, e seus seguidores, naturalmente, são frutos dessas mudanças, em curso desde o começo dos anos 1990, portanto, tempo suficiente para que surgisse uma grande quantidade de novos doutores, formados e adequados para implementar esses critérios, sem muitos questionamentos. Principalmente, porque tudo isso é imposto com formas bem elaboradas, e crenças inabaláveis, nesses métodos quantitativistas de medir quem são os melhores.
Compreendo que essa seja uma condição de chegar-se à qualidade, através da quantidade, algo afirmado pelo primado da dialética. Só que pela dialética, a alteração qualitativa, a partir da mudança da quantidade, pode ocorrer também na redução dos elementos que compõem uma dada matéria. No que se propõe em termos da política de investimento na pesquisa e na pós-graduação, com tais critérios, desperdiça-se muito e cria-se pouco, porque há um enrijecimento da capacidade criativa, presa à burocratização e rigidez do sistema.
Dedico-me a analisar um caso específico, embora isso seja apenas um mote para que eu possa, mais uma vez,[1] estabelecer novos argumentos críticos ao tipo de universidade no qual nós estamos metidos, uma redoma aparentemente bem protegida de novas alternativas em um tempo de pouca criatividade e de ausência de debates e discussões sobre outras possibilidades, e a necessidade de transformarmos muito do que produzimos em conteúdos críticos quanto à realidade deste mundo e desse modelo em vias falimentar. O caminho que seguimos é o da alienação, reforçado pela fragmentação de conhecimentos, que perde em essência, quando o conteúdo apresentado limita-se a dar respostas a um modelo que deseja ver resultados imediatos em termos de quantidade, e pouco se valoriza, na qualidade daquilo que se pesquisa e se produz. Embora haja diferenças quanto às áreas,[2] naturalmente, esse formato faz escoar pelo ralo uma boa parte dos recursos que se investe, na medida em que, muitas das pesquisas não terão visibilidade, não serão publicadas em sua totalidade, pois o que importa é dividi-las em partes para publicação em artigos, em revistas eletrônicas que tem pouca divulgação. Salva-se de importante, na maioria dos casos, somente a validade da qualificação, principalmente em nível de doutorado, o que mais importa a quem está se qualificando.
Seguindo-se esses critérios rígidos, impostos pela Capes, que por sua vez os copia de agências internacionais, mas que são impositivos também nesse âmbito, e, repito, seguem um modelo tornado necessário para acompanhar as transformações de um mundo que se globalizava, a pós-graduação brasileira cresceu celeremente. Embora ainda não tanto quanto o necessário, para atingir os números proporcionais a países que se encontram em condições de desenvolvimento econômico bem inferior a nós. E nisso, inclui-se também, a pesquisa. Portanto, não desconsidero a necessidade de que haja um forte incentivo a esse crescimento. Mas critico a forma como isso se dá, e até mesmo a desqualificação de áreas importantes para capacitar criticamente quem está se qualificando (com perdão do trocadilho), de forma, inclusive, a dar-lhe liberdade para que possa exercer a criatividade, apresentar algo de novo, além de meras repetições baseadas em infinitas citações já conhecidas por séquitos de especialistas naquela área. Pouco se cria, muito se reproduz. Muitos diagnósticos e poucas proposições que sejam alternativas aos modelos que se está investigando e criticando. Mas essas também são exigências que se baseiam muito mais no argumento da autoridade, do que na autoridade do argumento, na problematização, na busca pela identificação de contradições que possibilitem questionar o que já foi apresentado e encontre o caminho para identificar o que é novo. Por isso, outros critérios são acrescidos, sempre quantitativos, do número de citações de seu trabalho. Isso se tornou uma indústria, foge do objetivo central, garantir uma produção, em alta escala, de pesquisas e trabalhos científicos que dê ao país visibilidade, do ponto de vista da inovação, da capacidade crítica e da criatividade. Embora os critérios de avaliação nesse ranking não fujam desses padrões, seria o caso de se perguntar: se isso está dando certo, porque as universidades brasileiras caíram no ranking dos países que compõem os BRICS?[3]
Aprofundei-me nesses comentários sobre o modelo, porque ele está no cerne da crítica que faço aqui ao edital da pós-graduação da unidade em que trabalho. Porque não é exclusivo dela. Mas ele resultou, em larga medida, na minha exclusão e impossibilidade de entrar no programa. Abriu-se uma vaga para a área de humanas, que deveria contemplar a geopolítica, mas éramos dois recém-doutores no Instituto. Abdiquei de concorrer, deixei caminho aberto para um colega, bem mais novo, de idade e de universidade, mas com capacidade para se destacar e com mais tempo a percorrer.
Tornei-me doutor recentemente, há três anos. Depois de circunstâncias extremamente complicadas do ponto de vista pessoal. No primeiro momento, no começo da primeira década deste século, tentei ingressar na pós-graduação da Universidade de São Paulo. Também em Geografia. Busquei como orientador o Prof. Dr. Antonio Carlos Robert Moraes, falecido recentemente, seguindo uma linha de pesquisa que procurava identificar os caminhos da ocupação do centro-oeste, no rastro das tropas e boiadas. No entanto, a vida me impôs o primeiro sacrifício nesse caminho: interrompi esse meu intento devido à doença de meu pai, que passou a sofrer e a se debilitar celeremente com um câncer que o levou à morte. O fato de morarmos juntos, e pela própria necessidade de, enquanto filho, acompanhá-lo nesse longo sofrimento, me fez desistir naquele momento da pós-graduação.
Retomei o projeto de fazer o doutorado em 2007, logo no primeiro semestre, quando eu finalizava minha gestão como presidente da ADUFG (2005-2007). Desta feita em outra área da geopolítica, o estudo dos conflitos pela água. Mas outra fatalidade, desta vez mais terrível, porque alterava a ordem natural da vida: a doença de minha filha, desde meados daquele ano, e o seu falecimento em dezembro, num fatídico dia 13, há oito anos. Por muito tempo sucumbi a dor, e, afetado por depressão e enorme tristeza, fiquei sem nenhuma projeção de porvir. Não havia ânimo para tocar nenhum projeto.
Em 2010, estimulado por colegas retomei o projeto de geopolítica das águas e entrei como doutorando na pós-graduação da Geografia na UFG. Mas, outros percalços me fariam mudar de projeto de pesquisa. Meu envolvimento com a equipe multiministerial, encarregada de identificar os locais onde possivelmente estariam enterrados os guerrilheiros do Araguaia, levou-me de volta à temática que eu havia trabalhado no mestrado, e que originara um livro que se tornou referência na área, por ter sido o primeiro fruto de uma pesquisa acadêmica sobre o assunto: a Guerrilha do Araguaia.
Participação no Grupo de Trabalho
Araguaia
Mantive-me firme no doutorado, embora com outro projeto de pesquisa, em acerto prévio com minha orientadora, a prof. Drª. Celene Barreira. E, já por esses anos, o meu ânimo começava a retornar, me dando mais estímulo para produzir. Aliás, produzir foi o caminho que encontrei pra empurrar a depressão para um canto distante de mim. Criei um blog, que denominei “Gramática do Mundo”, inspirado na obra de Fernand Braudel, “Gramática das Civilizações” e comecei a produzir artigos relativos à geopolítica, à política, à economia, e também como forma de catarse, crônicas sobre minha filha. Já são mais de duzentos artigos e quase três centenas de milhares de acessos.[4] Nada disso, naturalmente, por essa lógica criticada, tem validade enquanto produção apta a ser considerada em nossas pontuações. Muito embora o acesso ao meu blog, em muitos artigos, seja amplamente em maior quantidade do acesso a alguns artigos publicados em revistas indexadas. E, por esses artigos, faço discussão com meus alunos em sala de aula, e tenho sido convidado a debater em escolas onde os estudantes estão sendo preparados para entrarem na universidade.
Nesse período, entre a minha entrada no doutorado e a conclusão, pude reeditar meu livro que já estava esgotado, ampliando-o e atualizando-o; tornei-me membro da Comissão de Altos Estudos do Centro de Referência das Lutas Políticas (1964-1985) – Memórias Reveladas, vinculado ao Arquivo Nacional; participei das expedições do Grupo de Trabalho Araguaia, à região da Guerrilha e de diversos documentários sobre o movimento guerrilheiro, alguns disputando com destaque mostra de cinema, como no caso de “Camponeses do Araguaia. A Guerrilha vista por dentro”.[5] Outro, "Araguaia" foi lançado após ter sido apresentado na Mostra de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA 2015).[6] E, o documentário “Osvaldão”, já exibido nos cinemas.[7] Isso pouco importa, em termos de “pontuação” nos critérios adotados. Muito menos a experiência adquirida por longos anos de atividade e de pesquisa, com amplo reconhecimento fora da universidade.
Como resultado desse meu envolvimento, pude, já no decorrer da minha pesquisa, negociar a publicação do meu trabalho em livro, o que se concretizou rapidamente, seis meses depois da defesa da tese. Ter prosseguido na mesma temática deu mais visibilidade à minha pesquisa e projeção ao meu livro. Mas aí entra outro elemento nesse formato de pontuação exigida pela Capes, relacionado ao que publicamos. Inexplicavelmente, livro perdeu a importância dentro desses critérios. Isso, ao meu ver, segue o menosprezo à noção de totalidade, prevalecendo a fragmentação também do que se é produzido, compartimentando-se uma tese para que a mesma possa ser publicada em partes, garantindo número de publicação que possam ser devidamente pontuadas, em um mecanismo que concede a um livro a mesma quantidade de pontos concedida a um artigo Qualis A-1, ou dois artigos em periódico Qualis B-1.
O entendimento do todo, resultado da pesquisa que partiu de uma tese e seguiu por caminhos complexos de comprovação e/ou negação das hipóteses levantadas, quando há, naturalmente (ou pelo menos deveria haver), fica evidentemente prejudicado.
Optei por publicar o livro, pois sempre alimentei o desejo de ter livros publicados, influenciado pelo aprendizado que tive com meu pai, que assinava seus livros com a frase “o amigo dos livros”. Não quis dividir o resultado de minha pesquisa e isso resultou no livro “Araguaia: depois da guerrilha, outra guerra – A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia da Segurança Nacional (1975-2000)”.
No final de 2014, após dois anos da 2ª edição do livro “A Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas” este livro mais uma vez se esgotou. Sua reedição foi finalizada no segundo semestre de 2015 e comprova o sucesso do trabalho, que embora publicado por editoras de pouca penetração no mercado, conseguiu ser reconhecido como pioneiro no tema e sempre procurado pelos que desejam conhecer a história de um fato por muito tempo omitido oficialmente.
Receio que esses critérios estejam condenando ao ostracismo as publicações completas, dando mais importância a livros organizados com diversos autores, semelhantes às revistas ou aos artigos em periódicos. Mantém-se interessados em publicar livros aqueles que sempre sonharam com isso, já que pelos critérios capesianos o melhor é fatiar em diversos artigos o resultado de seu mestrado ou doutorado.
São questões polêmicas, mas que devem ser debatidas, embora deva se considerar as diferenças de produção e de trabalhos científicos entre as diversas áreas. Até por ser a universidade um ambiente que deve necessariamente ser marcado pela polêmica, pelo debate, pelas contradições, enfrentadas de forma civilizada e de maneira a possibilitar, sempre, os questionamentos, de forma a tirá-la da mesmice que a tem caracterizado nos últimos anos.
Essa rotina de permanentemente ter que nos reinventarmos, já que nossa produção só tem validade por três anos, leva ao esquecimento do passado, ou apenas a referências ocasionais em citações de pé de página. Talvez por essa razão valha menos a experiência acumulada após anos de atividades docentes, de conhecimento e participação nos destinos da Universidade, do que a dedicação em se produzir artigos, que tem sua importância a depender da relevância do trabalho que está por trás, mas que não deveria, jamais, apagar o que o tempo consolidou na somatória de conhecimentos adquiridos na junção de nossa vida acadêmica e de nossa vivência social.
Se precisamos a cada três anos nos reinventarmos em novas produções, e isso deve fazer parte da renovação do conhecimento, naturalmente, faz-se necessário também resgatarmos nosso passado, pois ele é essencial para identificarmos nos tempos atuais mecanismos que possam nos levar a evitar erros que porventura tenhamos cometidos. Ou a corrigir rumos na Universidade, resgatando princípios e valores pelos quais tanto lutamos. E que nos fez, sempre, repetir por todos os momentos de embates e lutas que travamos: “UFG para que? E para quem?” (Ou, Universidade Pública para que? e para quem?).
Não sei se terei tempo para novo cadastramento no Programa de Pós-Graduação em Geografia, mas já comuniquei meu interesse. Mas, embora com vinte anos de UFG não estou me afastando da rotina desta Universidade, pretendo encarar outros projetos, que possam, de maneira ativa e contundente, contribuir com as transformações que a Universidade está precisando, não somente em termos de seu crescimento físico, mas da necessidade de reviver dentro dela elementos que são fundamentais para a formação de profissionais com visão crítica, focados na abrangência e complexidade do mundo, e não somente nas exigências perversas do mercado. Mesmo que esse seja um destino inevitável. Mas o mundo está a exigir muito mais criatividade, inovação e discussão sobre os rumos que a humanidade tem pela frente, e a Universidade deve ser um ponto de referência que possa nos fazer acreditar que outro mundo é possível, ao invés de referendarmos uma lógica pautada em consensos que nos impõem a aceitação de regras cujos valores já foram negados em suas aplicações práticas. O conhecimento da Universidade, e a experiência vivida, são fatores importantes para atingir esses objetivos.




[2] Segundo critérios da CAPES: Ciências Exatas e da Terra; Ciências Biológicas; Engenharias; Ciências da Saúde; Ciências Agrárias; Ciências Sociais Aplicadas; Ciências Humanas; Linguística, Letras e Artes.
[3] http://www.valor.com.br/brasil/4126734/universidades-brasileiras-caem-em-ranking-entre-paises-do-brics
[4] http://www.gramaticadomundo.blogspot.com.br/
[5] [5] Disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=UhpO4I2O0zs
[6] Documentário “Araguaia”, será lançado no IX SEMINÁRIO MÍDIA E CIDADANIA e VII SEMINÁRIO MÍDIA E CULTURA -  http://ficufg.blog.br/semic/programacaosemic2015.pdf

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