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sábado, 17 de março de 2012

A GEOGRAFIA SERVE NÃO SOMENTE PARA FAZER A GUERRA

ensinodegeografiauesb.blogspot.com
Para o meu orgulho e enorme satisfação recebo, mais uma vez, homenagem de uma turma de formandos da Geografia. Há dezesseis anos leciono para jovens que escolheram para sua profissão tornar-se Geógrafos(as). Para mim, historiador que se apaixonou pelo conhecimento geográfico através das obras instigantes de um conterrâneo, Milton Santos, sempre foi um desafio utilizar de minha formação para contribuir com a ampliação do horizonte geográfico, estabelecendo uma necessária relação entre o tempo e o espaço.
Como o rito da formatura não inclui o uso da palavra pelo homenageado, resolvi transmitir através do Blog Gramática do Mundo, meu canal de expressão nos últimos anos, o que eu falaria caso me fosse permitido. Uma retribuição a essa elogiosa deferência que me é feita por ex-alunos.
Geografia, em sua significação literal compreende o Estudo da Terra, advém das palavras gregas “geo”, significando terra e “graphia”, estudo ou leitura. Mas a amplitude dessa palavra combina com a dimensão que tomou nossa vida na terra. Mais do que o simples estudo de um complexo planeta, ou do que o cerca e da enorme biodiversidade que reside nele, a Geografia se depara com a imensa responsabilidade de compreender a complexidade em que ele se transformou pela ação humana.
Formandos de Geografia 2012
Não que ele fosse, ou seja, estático, muito pelo contrário. Independente do papel que o homem tem desempenhado, ao longo de um pequeno tempo da sua existência, a Terra, por si só é pleno movimento. A vida sempre pulsou e evoluiu dialeticamente, ao longo de milhões de anos. Certamente, nossa espécie não pode ser responsabilizada pelas constantes idas e vindas, de aquecimentos e esfriamentos, choques térmicos e tectônicos, desertificação e inundações, terremotos e tsunamis, aparecimento e desaparecimento - vida e morte - de milhares de espécies que vivem em luta contínua pela sobrevivência. Uns sobrevivem, preservam seus genes e os aperfeiçoam. Outros, pelas dificuldades de adaptações sucumbem. Alguns porque suas próprias vidas decorrem da necessidade de sobrevivência de outras. Muito embora nos últimos cinquenta anos, nós, seres humanos, tenhamos acelerado muitas dessas mudanças naturais.
Nesse maravilhoso mundo, vasto mundo, como dizia o poeta, nos destacamos pela capacidade de produzir socialmente, pela habilidade com as mãos e o desenvolvimento do cérebro. Homens e mulheres, ao longo da história de vida desse imenso planeta Terra passaram a intervir diferentemente dos demais animais, e pelo uso racional construiram maravilhas que tornaram possíveis a vida humana prolongar-se cada vez mais. E transferiu para as cidades, imensas selvas de concretos e de estressantes veículos, toda a nossa lógica e estilo de viver.
Construímos pela razão e pela lógica uma forma de vida irracional e ilógica, quando olhamos para o depósito que nos fornecem as matérias primas utilizadas para nos tornar, aparentemente, senhores e condutores dos destinos do mundo. Transformamos-nos em escravos de uma cultura do desperdício, da destruição, dos objetos tornados sofisticados por nós próprios, da mercadoria.
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Extraímos e destruímos o ambiente em que vivemos, a natureza, para construir um estilo de vida cada vez mais dominado pela técnica, pela tecnologia, pela virtualidade. O poder do dinheiro, instrumento a atiçar a cobiça e tornado indispensável no cotidiano das cidades, passou a conduzir nossos destinos, a determinar quem pode ou não se considerar cidadão, e eleito para desfrutar desse banquete fantástico. Poucos usufruem, se considerarmos a imensa população de 7 bilhões de pessoas que atualmente vivem em nosso planeta. Em sua imensa maioria, travam uma batalha desigual pela sobrevivência, e o objetivo primeiro nessa guerra é obter dinheiro.
E assim somos motivados a nos especializar, a especialização é tudo, para podermos nos inserir em meio aquela camada que tem acesso ao que a nossa capacidade e inteligência possibilitou construir. Alguns conseguem pelas oportunidades chegar a cursos cujos profissionais são mais “disputados” pelo Mercado, esse ente invisível, abstrato, onipotente e onipresente, um verdadeiro deus, segundo a lógica que conduz o sistema no qual estamos forçados a viver.
Pelo dinheiro, a usura e a ganância se tornaram elementos motivadores que definiram a cultura da nossa sociedade. Para possuí-lo, e não bastava somente o suficiente para sobrevivermos, todos os golpes, astúcias e disputas ferozes, no âmbito de uma empresa ou entre Estados-Nações, foram tentados, testados e aplicados. Disso resultou um mundo em agonia, em meio a uma complexidade que é ideologicamente partilhada, pelos que defendem esse estilo de vida, e por aqueles que já percebem termos chegado ao limite dessas contradições.
Por séculos ampliaram-se os conflitos e guerras de todos os tipos, conduzidas com o intuito de garantir o poder crescente para dominar os mercados e difundir mercadorias pelo mundo, hoje dominado por grandes corporações, imensos conglomerados financeiros, industriais e comerciais, de tentáculos enormes, mas que pouco conhecemos, por se tornarem sociedades anônimas e imensos paquidermes difíceis de serem investigados. São eles, e os senhores que os controlam, que dominam o mundo.
Para isso, a Geografia constituiu-se em um instrumento importante. Sem ela seria impossível o conhecimento em larga escala e a localização das riquezas que definiriam a capacidade de poder das Nações. Da mesma forma, se era preciso dominar pela força territórios donde se pudessem extrair matérias-primas necessárias para construir impérios, também se fazia imprescindível conhecer os espaços a serem conquistados, os territórios e suas riquezas a serem possuídos, mas também as características de cada lugar. Principalmente, para a utilização de táticas de dominação e para a construção de estratégias que permitissem o controle desses territórios pela guerra. Assim como era também necessário saber que tipo de população existe ali, suas condições de vida, cultura e hábitos religiosos e familiares. Pela Geografia, tornou-se possível a um Estado poderoso, exercer o domínio, o controle e forçar outras nações à submissão e a aceitação do poder imperial. A Geografia tornou-se um instrumento para a guerra.

Mas a complexa transformação que o mundo foi passando, de forma acelerada para atender à ganância dos que o dominam, trouxe em si contradições que constroem situações, aleatórias ou não, que possibilitam a uma mesma ciência tornar-se instrumento de dominação, mas também de libertação.
A Geografia não serve só para fazer a guerra.
A possibilidade de conhecimento do Geógrafo, mesmo numa época em que a multidisciplinaridade tornou-se uma obrigação, é infinitamente superior a de diversas outras áreas. O Geógrafo, se não se especializar precocemente, um equívoco que se comete nos dias atuais, tem a chance de acumular um conhecimento diverso do mundo, como nenhum outro profissional. A Geografia é a ciência do mundo, embora seja essa uma polêmica interminável, quanto ao seu caráter científico. Mas não somente do mundo, e aqui eu me refiro à terra, enquanto seus aspectos físicos, mas de um mundo tornado humano por essa ação espetacular da espécie mais vitoriosa da natureza. Embora não se saiba até quando.
Se é correto afirmar, como dizia Ratzel, que o ambiente define as condições de vida do indivíduo, também se deve considerar que ele adquire, pela sua relação com o meio, a possibilidade de transformá-lo, como dizia La Blache. E a História confirma essas duas concepções, e nos mostram ao longo do tempo de existência, adaptação e transformação do ser humano, como o nosso habitat foi sendo gradativamente mudado, sempre numa espiral superior, suplantando adversidades e adquirindo novas capacidades de dominação das demais espécies da natureza. Mas, paradoxalmente, destruindo-a, como forma de colocar em prática suas ambições, desde as mais idílicas às mais perversas.
Para ser herdeiro daqueles geógrafos que se preocuparam em entender o papel definidor da geografia, e a importância que a profissão possui em um mundo desigual e perverso socialmente, somente com uma capacidade crítica, só possível de ser obtida com o conhecimento da política, e dos artifícios utilizados para se conquistar o poder, o grande Poder. Refutar a política é reforçar um erro que transformou a Geografia num mero instrumento decoratório de aspectos físicos, pouco relevantes se não houver a preocupação em saber o significado que eles possuem em um mundo complexo cujo motor principal está regulado para identificar riquezas e torná-las mercadorias. E também porque esse conhecimento é adquirido e serve ao próprio ser humano.
Mas o conhecimento da política pressupõe também identificar as contradições que cercam as cidades, ambientes diversos repletos de significados, mas ao mesmo tempo de profundas injustiças e de espaços construídos de forma segregadora, discriminatória, e que se repetem ao longo das administrações públicas, sem planejamentos ou feitos de forma a atender somente a espaços privilegiados dos que possuem riquezas. Todos aqueles que se formam em Geografia, por todo o tempo de suas vidas, convivem cotidianamente com essa realidade. Mas, infelizmente, parece que elas tornam-se distantes quando do exercício profissional que se dispõe a atender aos interesses que o mercado exige.
Planejar virou sinônimo de construir ambiente agradáveis aos possuidores do dinheiro. Os pobres convivem em estruturas frágeis, insalubres, sem saneamento, quando muito com construções de praças que terminam se constituindo num único espaço de prazer em suas vidas. Apartados e apertados em habitações distantes dos centros vivos das metrópoles, em bairros que se assemelham a pequenas e pobres cidades interioranas. Sobram-lhes a alienação dos templos e da televisão.
O geógrafo deve saber usar seu conhecimento para contribuir com as transformações sociais. Deve tornar a Geografia um instrumento que sirva para corrigir distorções em um mundo construído com valores individualistas, gananciosos e egoístas. Ela pode tornar visível uma população que não usufrui das enormes conquistas que a espécie humana obteve, não somente no Brasil, mas no mundo, em regiões desprovidas de condições dignas de vida. A Geografia, que serve para fazer a guerra, deve também servir para combater as desigualdades sociais. Tornar visível o que o sistema procura esconder.
Aziz Ab'Sáber  (1924-2012)
Essa é a essência da mensagem que passo aos formandos em Geografia, inspirado em Yves Lacoste, Milton Santos, David Harvey, e, em uma homenagem especial, a esse que considero um dos maiores geógrafos brasileiros, falecido no dia 16 deste mês, Aziz Ab’Sáber.
Sejam bons profissionais, mestres ou bacharéis, mas imbuídos de um espírito de justiça que lhes possibilitem resistir às idolatrias de uma sociedade egoísta, em que se finge estar bem em meio a situações caóticas, preconceituosas e de uma violência gerada em seu próprio seio, pela cultura individualista da sobrevivência dos mais capazes, num perverso sistema meritocrático mas com oportunidades para poucos.
Mas não sejam amargos por isso, encarem a vida com a serenidade dos sábios, e não esqueçam jamais que o saber nós conquistamos com os mestres, mas a sabedoria advém da experiência de vida e da humildade.
Carpe Diem!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

PARA SEMPRE NA MEMÓRIA (II)

 24 de junho de 2013. Completaram-se 12 anos da morte de meu pai (2001). Foi em seu velório, entre meio à dor que eu sentia, que fiquei sabendo da morte de outro baiano ilustre, na mesma data. Este um conhecido cidadão do mundo: Milton Santos. Com esse artigo homenageio Milton Santos, por sua dimensão histórica-geográfica mundial, e por extensão, meu pai, cujo papel político se restringiu ao seu Estado e a sua sempre querida cidade natal, Alagoinhas, onde foi vereador por quatro mandatos(*).

MILTON SANTOS: DA BAHIA PARA O MUNDO

CIDADÃO DO MUNDO


Conheci Milton Santos, em 1996 no Simpósio realizado na USP em sua homenagem: “O mundo do cidadão - cidadão do mundo”. Tempo suficiente para aprender a respeitá-lo e admirá-lo, e a me tornar leitor ardoroso de seus textos e livros.
Também baiano, como ele, formado em História, com pós-graduação nessa mesma área, entrei na Universidade Federal de Goiás em um concurso realizado no curso de Geografia, em 1995 para ministrar aulas de Formação Econômica e Social, também dentro da minha área de formação. Ao final do primeiro ano eu tinha uma firme convicção da importância dessa disciplina, por ser ela fundamental para o entendimento da relação tempo-espaço. Afinal, nada se dá fora do tempo, nem ocorre no vazio, senão num determinado espaço. Além da fundamental compreensão de que nada acontece isoladamente, somente este ou aquele fato podendo ser explicado dentro de um processo que aponte as causas e nos dê a dimensão de um presente que nada mais é do que a somatória de tempos passados. A junção e conjunção de espaços que se transformam num acumulo incessante de novos objetos, gerados por outros, que, outrora novos, foram envelhecidos pelo tempo.
Milton Santos passou a ser um referencial para um redirecionamento das minhas dimensões intelectuais. Primeiro, por uma iniciativa própria, senti a necessidade de buscar nas leituras da Geografia a condição necessária para me dar a compreensão de que eu estava ali para ajudar na formação de Geógrafos. Nada mais justo, e coerente, que procurasse aliar os meus conhecimentos historiográficos, à noção e dimensão do pensar geográfico. Senão me perderia num emaranhado de conceitos e categorias, vendo-os de maneira formal, como se vê habitualmente no senso comum, e banalizando a importância do conhecimento geográfico para o entendimento das relações humanas. É preciso bem mais do que uma mera análise da superfície terrestre; dos cursos dos rios; dos afluentes das margens esquerdas e das margens direitas; da localização cartográfica; das capitais e de seus estados; dos tipos de solo e da qualidade da água. Questões importantíssimas para entender o todo que abrange o nosso planeta, mas insuficientes se desconsiderarmos o principal elemento de ligação: o ser humano, razão primeira e última da existência de todo conhecimento, pois é por ele que todo o saber é gerado.
GEOGRAFANDO O HUMANO
O viés humano da Geografia transportava-a, do sentido estrategicamente imposto por séculos, desde os seus primórdios, que visava facilitar (e guardar) a localização de fronteiras dos nascentes Estados absolutistas, ou desde já o desenvolvimento cartográfico para tal fim, objetivando encontrar mercadorias e mercados, para uma visão mais ampla e racional, no entendimento de que era preciso inseri-la como uma ciência humana.
O lugar, o território, o espaço, a paisagem, as cidades, o urbano e o rural; a cultura, as tradições, enfim a busca de conhecimentos não mecanicamente estabelecidos, mas numa interação dialética que aponta claramente as relações entre o planeta e a sociedade, visualizando as “heranças sociais materiais e o presente social”[1]. Sem se limitar, contudo, à simples constatação de uma determinada realidade, mas procurando soluções que dêem conta de resolver os problemas da imensa maioria da população.
A Geografia mudou, num percurso oposto àquele tomado pela História. Enquanto aquela buscava abranger o todo numa abordagem dialética, encontrando no marxismo os elementos basilares para o entendimento da racionalidade e das contradições que moviam as sociedades humanas, o conhecimento histórico tomava outro rumo, caracterizando-se pela fragmentação. A História fragmentara-se e aprofundara-se no localismo, no cotidiano e nas mentalidades, e à medida que aprofundava-se em suas especificidades, afastava-se do presente e da noção de totalidade, mesmo procurando evitar os riscos do anacronismo.
Apesar de Braudel, que soube trabalhar brilhantemente as noções de espaço e espacialidade, e via tempo-espaço como inseparável, o enfoque dialético que ligará os restos do passado à inexorabilidade das explicações do presente, transfere-se para a Geografia, aproximando-a cada vez mais da sociologia, da filosofia, da economia e da própria história.
E ninguém melhor do que Milton Santos soube compreender o momento da Geografia, direcionando seus olhares para o fazer, na maneira como o homem no presente constrói o seu futuro sobre os restos do passado. Vendo nas técnicas, e em seus usos, as respostas para o entendimento das complexas relações sociais, como “um dado fundamental da explicação histórica, já que a técnica invadiu todos os aspectos da vida humana, em todos os lugares”.[2] Mas, mesmo com tais considerações, ele via a vida “não como um produto da técnica, mas da política, a ação que dá sentido à materialidade”[3]
Surpreendentemente, se considerarmos os direcionamentos dos fatos históricos das duas últimas décadas do Século XX, a produção intelectual do professor Milton Santos avançou na contramão de idéias hegemônicas que procuravam colocar-se como esclarecedoras e definidoras de um fatalismo, que nos impunha a crença em um fim do qual não poderíamos escapar. A “globalização” colocava-se como inevitável, e a sociedade futura como um deslumbramento da vitória do “livre-mercado” sobre o “leviatã”, inoperante máquina do Estado a entravar o progresso. Não somente o neoliberalismo despontava como o ápice das liberdades, como o pós-modernismo surgia para por fim à uma época que se caracterizou pela consolidação dos Estados-Nações e que alcançou seu auge, e também os limites de suas contradições, com o Welfare-State. A crise do socialismo dava um ar de déjà-vu, de estancamento de uma utopia cujo “fracasso” só confirmava a convicção de ser o capitalismo e a economia de livre-mercado o futuro incontestável da humanidade.
Não foi essa a análise que fez Milton Santos em 1993, momento máximo da euforia neoliberal, no 3° Simpósio Nacional de Geografia Urbana, realizada no Rio de Janeiro, quando apontava as principais tendências dos anos 90:
“Na hora atual, e para a maior parte da humanidade a globalização é sobretudo fábula e perversidade: fábula porque os gigantescos recursos de uma informação globalizada são utilizados mais para confundir do que para esclarecer: a transferência não passa de uma promessa. (...) Perversidade, porque as formas concretas dominantes de realização da globalidade são o vício, a violência, o empobrecimento material, cultural e moral, possibilitados pelo discurso e pela prática da competitividade em todos os níveis. O que se tem buscado não é a união, mas antes a unificação”.[4]
Contudo, apesar da acidez das suas críticas quanto ao processo da globalização, da destruição de valores e do encolhimento do indivíduo à superficialidade de suas relações, gerado pelo enorme poder da massificação midiática, Milton Santos apontava na contradição de ser este mundo três em um só, o elemento motivador da crença de que a globalização não passa de uma percepção enganosa onde se impõe a informação, alicerçada na produção de imagens e do imaginário. “O primeiro é o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização”[5].
Assim, direcionou seus últimos escritos na contraposição do discurso hegemônico, caracterizado como “Consenso de Washington”, e se tornou uma das vozes mais importantes na abordagem do processo que atravessa a humanidade nas últimas duas décadas do século passado. “Ao contrário do que se disse antes, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. (...) O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes”.[6]
Acreditando na força do pobre e do lugar, Milton Santos enfatizava, utilizando-se de uma expressão da professora Maria Adélia de Souza, que “todos os lugares são virtualmente mundiais”,[7] o próprio sentido da globalidade corresponderia a uma maior individualidade, e nessa relação unicidade-totalidade acreditava que tornava-se necessário encontrar os novos significados do mundo atual redescobrindo o lugar.
Aos pobres ele concedia a primazia de situar-se num ponto de intersecção com o futuro. Acreditava que o distanciamento ao totalitarismo da racionalidade transformava as imagens do conforto, da modernidade tecnológica, em miragens para aqueles que por não estarem inseridos nessa aceleração contemporânea, nesse mundo da profusão de sempre novos objetos, eram por ele caracterizados como “homens lentos”. E por assim ser, por escaparem dessa ventura vedada aos ricos e às classes médias, é que os pobres podem esquadrinhar as cidades e ver na diversidade a necessidade de transformação.
FILOSÓFO DA GEOGRAFIA
“Trata-se, para eles, da busca do futuro sonhado com carência a satisfazer - carência de todos os tipos de consumo, consumo material e imaterial, também carência do consumo político, carência de participação e de cidadania. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abundância do outro e entrevisto, como contrapartida, nas possibilidades apresentadas pelo Mundo e percebidas no lugar”.[8]
Como afirmou o geógrafo e ex-presidente da SBPC, Aziz  Ab’Saber, Milton Santos foi um filósofo da Geografia. Procurou incorporar a crítica aos seus estudos geográficos num crescente resgate da concepção humanista, fundamentada na dialética marxista e no existencialismo sartriano. E assim, ele se impôs perante a Geografia mundial, e no Brasil se tornou um dos mais citados intelectuais das três últimas décadas. Para confirmar a exceção, numa regra caracterizada pela formação cultural dominada por uma elite branca e “estrangeirizada”, a sua cor negra não foi barreira para que se consolidasse como uma das vozes altissonantes da universidade brasileira, e de nossa cultura de uma maneira geral. Autoridade que lhe permitia, inclusive, cobrar coerência de seus colegas de Academia, e a ser duro nas críticas à apatia em que vivia a universidade.
No seu último escrito, um artigo publicado pelo jornal Correio Braziliense, afirma que “por definição, vida intelectual e recusa a assumir idéias não combinam. Esse, aliás, é um traço distintivo entre os verdadeiros intelectuais e aqueles letrados que não precisam, não podem ou não querem mostrar, à luz do dia, o que pensam. (...) A apatia ainda está presente na maior parte do corpo professoral e estudantil, o que é sinal nada animador do estado de saúde cívico dessa camada social cuja primeira obrigação é constituir, como porta-voz, a vanguarda de uma atitude de inconformismo com os rumos atuais da vida pública”[9].
Milton Santos faleceu no mesmo dia que meu pai, Romualdo Pessoa Campos, também baiano, vereador por 16 anos pelo PTB, na cidade de Alagoinhas, e por várias vezes secretário  da mesa diretora do legislativo daquela cidade, até ser preso em 1964 e ter desistido da política, tornando-se funcionário público do DNER até se aposentar. A altivez e o orgulho pelo seu trabalho alimentavam uma esperança de que o nosso país desse certo pelo esforço de cada um, como ele fazia.
24 de junho, dia de São João, tão lembrado pelos nordestinos. Um dia para ficar para sempre guardado na minha memória.
Um, cidadão do lugar, incorporado na força dos lentos, baiano do interior, embora quase anônimo me alimentou o orgulho de ser seu homônimo. O outro, também baiano, cidadão do mundo (embora ele não gostasse dessa expressão), esgrimindo na força de seus argumentos, de suas criações e elaborações intelectuais a esperança de um outro mundo, de uma outra globalização. E a morte, a igualá-los na eternidade do meu pensamento, na afinidade dos meus sonhos, na consolidação das minhas crenças, e na afirmação das certezas de que embora curta a nossa vida nessa imensidão de tempo que gesta e desenvolve a humanidade, vale a pena lutar, mesmo sendo ela, a morte, a única certeza do porvir. Mas ela não deve nos desanimar, e sim nos reconfortar, na medida em que escapemos da nossa individualidade e possamos transferir nossos sentimentos humanistas para a construção de uma utopia, sem a qual a nossa existência não teria sentido.
***
Quando escrevi esse artigo minha filha ainda estava viva. Em 2007 ela também se foi, para ficar para sempre na memória. Certamente a palavra que usei no parágrafo anterior – reconfortar - passou a ter um peso maior com a morte dela. Sigo tentando, mas é muito difícil, afinal, embora seja mais fácil nos conformarmos com a morte de nossos pais, pela ordem natural quando chegada a velhice - assim imaginamos – é diferente quando perdemos um filho ou uma filha. Mas, sim, a morte não pode desanimar aqueles que ainda não sucumbiram a ela e que carregam consigo a utopia de um outro mundo, mais justo e solidário. Apesar das evidências apontarem para o contrário, no coração da maioria prevalece esse sentimento que embalou a vida dos que aqui homenageamos. Inclusive minha filha, que como canta Gonzaguinha, carregava essa certeza na pureza de ser criança. A vida, ela segue, a não ser para aqueles que já passaram por ela e nos esperam em algum lugar.



(*) Este artigo foi escrito no mês de junho de 2001, duas semanas após a morte de meu pai e de Milton Santos, um ano de perdas pessoais e de abalos geopolíticos mundiais com o ataque terrorista ao World Trade Center. Foi publicado nesse mesmo ano no Jornal Opção, de Goiânia, no Jornal A Tarde, de Salvador em um suplemento cultural especial sobre Milton Santos. Depois inseri o texto, com alguns reparos no Boletim Goiano de Geografia, Vol. 21, n. 1. Em 2010 postei um resumo dele neste Blog. Agora resolvi publicá-lo na íntegra para lembrar os 10 anos da morte desses dois baianos que de maneiras diferentes foram personagens importantes em minha vida. Um me fez gente como sou, o outro me aproximou da Geografia para sempre.
(**) 24 de junho de 2013. Volto a publicar este artigo, doze anos depois da morte de meu pai, e de Milton Santos. O que está dito  aí não pode ser apagado. Eu relembrarei sempre nesta data.


[1] Santos, Milton. Território e Sociedade. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2000. Pág. 26
[2] Santos, Milton. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Ed. Hucitec, 1994. Pág. 67
[3] Idem, Pág. 39
[4] Idem, Pág. 56
[5] Santos, Milton. Por uma outra globalização. São Paulo: Record, 2000. Pág. 18
[6] Idem, Pág. 172
[7] Santos, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996. Pág. 252
[8] Idem, Pág. 261
[9] Correio Braziliense, 03 de junho de 2001

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