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sexta-feira, 31 de maio de 2024

O TEMPO ANACRÔNICO DO ANDES – Ou, me inspirando em Saramago, “O espetáculo da cegueira”

Fiquei feliz ao ler no site A Terra é Redonda, o artigo do prof. Valter Lúcio de Oliveira, “Andes x Proifes – a disputa no sindicalismo docente”. Me identifiquei com a maior parte do escrito, embora possa discordar de alguns poucos elementos contidos na sua análise. Mas no geral, creio que ele foi bastante feliz ao identificar os problemas existentes na luta sindical, e nas questões relacionadas às disputas entre essas duas representações docentes.

O que me surpreendeu foi com a dita surpresa que seu artigo proporcionou a outro colega. Me refiro à réplica, ou algo parecido com isso, em texto produzido por Lucas Trentin Rech, “Assembleias docentes” publicado nesse mesmo site. Economista, me parece que ele lê os números ao seu bel prazer, na tentativa de dar explicação filosófica ao que na democracia se compreende como desejo da maioria real, factual, mas não necessariamente presencial. Caso contrário teríamos que abolir o sistema eleitoral pelo qual são eleitas as representações parlamentares e os gestores municipais, estaduais e federal. Ora, pois que senão após debates restritos, sem a participação popular, televisionado, segue-se a escolha, pelo voto, daqueles que irão nos representar. Como negar o direito de tantos, que não participam desses debates, à suas escolhas, feitas ao longe, mas cientes de suas responsabilidades e, acreditamos, formuladas a partir de suas próprias compreensões, no dito e no contradito.

Negando a possibilidade de plebiscito, para que se possa aferir o desejo de fato da maioria dos docentes às suas escolhas, este colega se aproxima da incongruência bolsonarista que repele a todo custo a ampliação da democracia, e nega os resultados que lhes são contrários, quando a aplicação desta aponta para uma maioria que não lhe favorece. Assim, visam destruir o objeto daquela consulta, buscando a todo o custo desacreditar desse mecanismo, inevitável para os dias atuais.

O “assembleísmo” defendido pelo professor Rech, nada mais é do que uma arena, um ringue, onde aquele que se expressa melhor, ou o que fala com mais veemência, consegue agradar um quantitativo que, mesmo minoritário, se apresenta como mais barulhento e impositivo, causando uma reação se não de indiferença, mas de apreensão, com as bravatas e comportamentos agressivos adotados para inibir e “convencer” boa parte de uma plateia que se cansa e se retira à medida em que o tempo favorece ao histrionismo dessa minoria que procura se impor pela virilidade de seus discursos.

Há muito que a Universidade perdeu essa capacidade de debater, de saber conviver com os contrários, de usar da dialética para compreender a necessidade de evoluir nos pensamentos e nas compreensões fechadas da realidade. O embate de ideias foi substituído pela negação da contradição, pela afirmação da pós-verdade, pelo emburrecimento de quem não deseja ser contraditado. Pior do que isso, as redes sociais terminam completando esses comportamentos, e por ali persiste a continuidade de um discurso que não se encerra nas assembleias, porque o contraditório precisa ser destruído, como nos últimos anos a extrema-direita soube muito bem usar desse mecanismo para destruir reputações.

E, se nas assembleias já não é possível o debate, como consequência dessa negação, nas redes sociais a virulência do discurso, a desqualificação do outro, se espalha em meio à difícil identificação dos autores das ofensas e das fake-news, que são usadas para convencer quem seja mais facilmente seduzido pela radicalidade do discurso e pela ilusão das promessas fáceis de representações fajutas e irresponsáveis. Porque sabe entrar numa peleja por essa radicalidade, mas fica encantoada e desorientada na hora de sair, pela incompetência e incapacidade de saber negociar, e buscar um entendimento no confronto de posições que são adversas e contrárias.

Esse mecanismo, e comportamento, defendido pelo professor Rech, se explica pela condição de manipular a maioria. A estrutura de funcionamento do Andes Sindicato, anacrônica, mas que favorece a uma minoria extremista, “esquerdista”, no sentido aplicado por Vladimir Lênin, embora a maioria da universidade não se afine com seus ideais, dificulta a que uma oposição consequente e desejosa de mudança consiga sucesso. Estrutura não somente nessas condições de negar uma participação maior dos colegas docentes, mas também de dificultar que numa votação direta se possa substituir esses agrupamentos que controlam uma máquina milionária.

A Andes, ou O Andes, não “representa” somente os professores e professoras do ensino superior federal. Ela abrange universidades estaduais, municipais, faculdades isoladas e fundações, que lhes servem somente nos momentos de processos eleitorais, de definição de suas diretorias. Torna-se assim, pela dimensão do quantitativo de tantas instituições, praticamente impossível mudar os rumos dessa entidade, aprofundando seu anacronismo, mas também, ao contrário do que se expressa seus defensores, um autoritarismo crescente que tenta inviabilizar, em meio a uma legítima pluralidade sindical, a possibilidade de outras alternativas, de outros caminhos, que não seja pela radicalidade do discurso ou da violência e intolerância no tratamento com as divergências.

O PROIFES surgiu exatamente do conflito desses embates e desse comportamento autoritário e esquerdista, avesso às negociações, bem presentes nas diretorias do Andes. Como nos últimos acordos, inclusive em relação à melhoria de nossas carreiras, foi a Federação que se dispôs a sentar com os governos, e buscar atingir o melhor, diante do possível, com a absoluta ausência do Andes. Isso incomodou seus seguidores a um ponto de expressar o grau de intolerância, de imposição e de não aceitação de outra entidade que possa ameaçar esse tempo anacrônico no qual ela está fechada. 

Mas todo ciclo se encerra. Por mais que a Andes tente impedir as transformações no movimento docente, cada vez mais se amplia essa possibilidade, de se forjar alternativas que fuja dessa postura sectária e autoritária, de imaginar que suas proposições devem ser, sempre, enfiadas goelas abaixo nos governos que estiverem de plantão. Claro, desde que sejam governos progressistas. Pois que, calando-se diante dos governos de extrema-direita, como em exemplo recente, em que se passaram seis anos sem que se houvesse mobilização para greves nos governos Temer e Bolsonaro.

Mais do que entrar numa negociação, o que deseja com esse comportamento andesino, é abrir uma luta que vai para além de questões salariais ou de reposição orçamentária para as universidades, mas visa construir um protagonismo radical que dê visibilidade a grupos políticos que não possuem o mínimo de representatividade na sociedade.

Distantes desses debates e dessas discussões, muitos colegas embarcam nos discursos radicais, e são convencidos de que o céu não é tão distante para os seus desejos. No entanto, como já dizia um personagem shakespeariano, numa frase muito conhecida, mas pouco compreendida, “há muito mais coisas entre o céu e a terra, do que imagina nossa vã filosofia”.

domingo, 27 de maio de 2012

A GREVE DOS PROFESSORES NAS UNIVERSIDADES – UM DESABAFO!


Mais uma vez voltamos ao começo. Deparamos-nos com mais um movimento grevista nas universidades brasileiras. Mas é preciso entender melhor as razões dessa greve, que, a meu ver, vai além da necessidade de se pressionar o governo para termos uma melhoria em nossas carreiras.
Vou começar expressando claramente a minha opinião. Essa greve é absurda. Puro oportunismo. A Andes, um dos sindicatos de nossa categoria, quis dar o “pulo do gato”. Percebendo que as negociações sobre nossa carreira se direcionava para o final, podendo atender a maior parte de nossas reivindicações, quanto ao início e ao fim da carreira, de forma oportunista iniciou a partir das universidades menores, e em assembleias esvaziadas para a importância do fato, um movimento visando paralisar as atividades naquelas universidades onde ela ainda possui influência, e dessa forma pressionar as demais, que estão vinculadas ao Proifes.
Com essa estratégia, caso o ministro se dispusesse a negociar, a ideia que prevaleceria seria a de que a vitória da construção da carreira deveu-se a esse movimento. Isso é completamente falso, estávamos em meio a uma mesa de negociação, em que a contragosto a Andes foi forçada pelas circunstâncias a também participar, e, pelo seu feitio, de utilizar da greve como instrumento extemporâneo, com objetivos claramente políticos, aproveitou-se da lentidão do governo em cumprir o compromisso firmado no ano passado (somente implementado agora por meio de medida provisória) e deflagrou o tipo de movimento que sempre a caracterizou. A greve.
Ora, não se faz greve em meio a uma negociação. Greve é resultado de um impasse, das dificuldades em se abrir canais de negociações, e da impossibilidade de se obter resultados positivos que atendam às partes em discussão. O que deveríamos, pela experiência da demora do governo em cumprir os compromissos firmados é levar para a mesa de negociação uma data limite para termos nosso plano de carreira, e o compromisso de vigoração do mesmo a partir de 1º de janeiro de 2013. Haja vista que o prazo anterior foi prejudicado pela morte do principal articulador dessa mesa, o secretário executivo do Ministério do Planejamento, Duvanier Costa. E que seja garantida no acordo a equiparação de nossa carreira com a do Ministério de Ciência e Tecnologia. Caso até o final do prazo dado para apresentação do plano não tenha sido cumprido, aí sim, deveríamos radicalizar, a partir do início do próximo semestre. Mas, receio que essa estratégia oportunista, de deflagrar uma greve extemporânea, já tenha jogado por terra essa possibilidade.
Pelas informações passadas pelo nosso sindicato (Adufg), que tem acompanhado as negociações sobre a carreira, vários pontos complicados já haviam sido acordados. Houve um estremecimento nessas relações pela morosidade com que o projeto para incorporação de gratificação e de um reajuste (pífio) tramitava na Câmara dos Deputados. Paralisado nas mãos de um parlamentar inoperante, infelizmente de Goiás, o Deputado Jovair Arantes (PTB). Devido a essa lentidão, e já sabendo da insatisfação no meio universitário, o governo resolveu editar uma medida provisória. Mas um aspecto dessa medida desagradou uma parcela considerável dos colegas professores, aqueles que recebem gratificação por trabalhar em atividades insalubres.
Não que de imediato fosse haver uma diminuição nos ganhos. A redução dessa gratificação à metade, que poderia implicar em redução salarial, foi compensada por outra gratificação, evitando o impacto dessa diferença pelos próximos meses. Mas sua duração é por pouco tempo. Ocorre que essa é uma medida provisória, ainda será submetida à votação no Congresso, e é ali que se deve pressionar para alterá-la. Ademais, esse é também um dos pontos que está em negociação nas reuniões com os representantes sindicais e do governo, que discute a nova carreira, sendo, portanto possível de ser revertida quando da finalização do acordo, que deve ocorrer antes da extinção dessa nova gratificação de insalubridade. Portanto, nada que não possa ser revertido, mas absolutamente não se constitui em um pretexto para deflagrar uma greve cujas consequências são mais nocivas para nós, professores, e, principalmente para os estudantes, do que para o governo. Pelo menos nesse momento.
Assisti a uma entrevista na rede Globo, da representante da Andes, apontando um caos nas universidades, o velho discurso, dizendo que falta até papel higiênico, ridícula. A mídia, obviamente, agora dá vazão a essas críticas. Há interesses políticos. Mas como sempre, a crítica é direcionada para os investimentos nas universidades, quando o pano de fundo é o salário. Dessa forma ilude a opinião pública com mentiras sem ter a coragem de dizer claramente que o problema é sim, o salário. E não devemos ter pruridos em assumir isso, afinal nossos salários são os mais baixos dentre as carreiras públicas. Mas esse é um problema que estamos prestes a resolver, para isso há uma mesa de negociações em funcionamento.
Como a Andes percebeu que as negociações se direcionavam para uma carreira, senão 100% de acordo com o que queremos, pelo menos bem melhor do que atual, acelerou a preparação de uma greve. De tal forma que, se o ministro se dispõe a negociar, passará a idéia de que a vitória da construção da carreira foi dela. Quando isso não é verdade, a Andes sempre buscou o embate e nunca negociação.
Faço qualquer coisa para evitarmos que a greve seja deflagrada na Assembleia do dia 06/06, na UFG. Mas não movo uma palha caso isso seja aprovado. Farei igual à maioria dos indignados professores que não se dispõem a participar de absolutamente nada, reclamam de tudo, mas não tem coragem sequer de paralisar seus projetos de pesquisa e atividades de orientação na pós-graduação. E quando retornam as aulas não são repostas, nunca, da forma como deveria ocorrer em um calendário normal. E no final das contas o prejuízo é somente da graduação e dos planejamentos de nossas férias. Ficamos um, ou dois anos, como já aconteceu em épocas passadas, com um calendário desorganizado prejudicando nossos descansos.
Há um grande comodismo por parte da maioria dos colegas, que não participam das assembleias e se curvam às decisões de uma minoria que segue movida não pela indignação geral, mas por questões particulares e por motivações políticas. Quando se deflagra uma greve, então, essa maioria limita-se a acompanhar de longe o desenrolar dos fatos, mas permanecem atuantes em outras atividades nos seus laboratórios, principalmente em suas pesquisas, cujo prazo não pode ser prorrogado. Bem como as orientações de pós-graduação, que devem cumprir também prazos determinados.
A decisão do Ministro foi a de não abrir diálogo com os grevistas. Mas isso era esperado. Esse tem sido o comportamento dos governos frente às greves. Principalmente quando já existe uma mesa de negociação fazendo isso, com a participação, inclusive, e principalmente, das entidades sindicais. É claro o caráter oportunista e diversionista do movimento. O resultado vai ser o mesmo da última greve dos servidores e também das últimas que a Andes liderou, e a primeira medida do ministério foi exatamente suspender as reuniões da mesa de negociação.
Neste domingo, na coluna do jornalista Elio Gaspari, já há uma crítica ao movimento, afirmando que o “piquete” realizado pelas lideranças do movimento só foi suficiente para parar algumas unidades da Universidade Federal Fluminense por um dia, com muitos professores seguindo suas atividades normalmente.
A propósito, tenho um salário menor do que da maioria dos professores, muitos já como Associados, mais um degrau de nossa carreira conquistado com negociação. Acho pouco, o que ganho, pela importância da minha profissão. Ao contrário da maioria sempre me integrei na luta, fui presidente da Adufg por duas vezes, sendo que na primeira vez estive também à frente de uma greve, por decisão da categoria. Durante muito tempo me dediquei mais ao movimento docente do que propriamente em cuidar da minha carreira. A demora em ter o meu doutorado não se deve somente a isso, mas foi um dos motivos. Por todo o tempo de minha militância sindical sempre vi mais o coletivo do que as minhas questões particulares. Embora eu faça parte de uma categoria, onde, como as demais de outras áreas de nossa sociedade, a maioria dos que a compõem só se mobiliza por questões que dizem respeito a interesses particulares. Quando muito, aceitam as decisões do movimento.
Mas eu também fico indignado com o fato de receber menos do que acredito ter direito. Mas essa situação decorre também das burrices cometidas pelo movimento docente, principalmente na década passada. Poderíamos ter avançado mais se as estratégias utilizadas fossem mais inteligentes e que pudessem envolver os professores até mesmo com opiniões expostas em grandes jornais e revistas de circulação nacional. A divisão do movimento docente explicitou esse problema, com duas entidades adotando estratégias diferentes, um da radicalização e a outra da negociação.
Mas essa radicalidade caracterizou parte do movimento sempre pela deflagração de greves políticas e a constituição de um grupo de sindicalistas que se aproveitam desse momento para gerar desgastes políticos e fortalecer suas tendências. À custa, sempre, das receitas das entidades, com gastos exorbitantes em pagamentos de diárias, passagens e estadias. Enquanto a maioria, passivamente, permanecia distanciada das comissões criadas para fortalecer o movimento. Ao final, criticava-se o resultado, gerando permanentes desgastes para as entidades. E isso se tornou também uma arma política, por quem, no momento, faz oposição à diretoria do sindicato.
É que se repete agora, a meu ver como uma farsa, da qual não tenho mais ânimo nem de fomentar, e muito menos de combater. Faço desse texto um instrumento de dupla indignação, às diatribes de um tipo de movimento docente que nos desqualificam enquanto professores universitários que possuem outras capacidades de embates e pressões perante os governos; e à condição em que permanece nossa categoria, cujo reconhecimento é falado nos discursos – inclusive de nossa presidenta - com pouco efeito na prática, com péssimos salários, incompatíveis com nossa importância, dando margem para reações desse tipo.
Mas sou convencido de que as duas situações são resultados de uma relação dialética, de causa e efeito. Nacionalmente ainda estamos aquém de termos uma representação forte e com perfil mais respeitado, que nos qualifiquem, e que saibam adotar estratégias inteligentes compatíveis com nossa condição de mestres e pesquisadores. Por isso tenho defendido nos últimos anos a necessidade de construirmos sindicatos locais fortes e uma Federação Nacional de Sindicatos que tenha um perfil diferente e que seja respeitada pela estrutura do estado brasileiro, no executivo, no legislativo e no judiciário.
Saberei ser solidário com qualquer movimento, como sempre tenho sido ao longo de anos de atividades desde o movimento estudantil até o sindical.  Até porque eu também serei beneficiado com os resultados que dele advierem. Sejam negativos ou positivos. Mas não exijam mais de mim, além do que eu já consegui oferecer até então. Não me disponho mais a entrar em aventuras, me oporei à proposta de greve na UFG e tomarei a decisão sobre o que fazer, pelo foro íntimo que me é de direito, após o resultado da Assembleia Geral dos professores, no dia 06 de junho. Espero que os demais colegas participem, e não fiquem ao longe esperando para serem informados dos resultados.
Até lá!