terça-feira, 12 de julho de 2016

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – ATINGIMOS O AUGE DAS CONTRADIÇÕES?

Nunca, em nenhuma época, vivemos acontecimentos de forma tão acelerada e intensa. Milton Santos, que morreu há 15 anos, afirmava em sua obra que analisa o processo da globalização, que vivemos um tempo de transição, que se prolongaria tanto mais quanto se tornasse mais difícil encontrar-se alternativas para superar e substituir um sistema em crise crônica.
Há alguns meses escrevi no Blog um texto, apresentando uma série de artigos em que analisava a atual conjuntura política, e no último parágrafo sintetizei essa situação, de uma transição em lenta agonia, já que as perspectivas de novos caminhos se apresentam numa absoluta incógnita.
“Estamos em meio a uma luta de classes encarniçada, a uma grave crise econômica e, também, em meio a uma transição de um sistema que atingiu seu auge, e consequentemente os limites de suas contradições. Mas, para onde vamos, ainda é uma incógnita, o que só torna a transição mais complexa e mais suscetível a conflitos, enfrentamentos políticos, religiosos e guerras de proporções mundiais. Quando o velho insiste em sobreviver e o novo demora a surgir, em se tratando de formações sociais, temos diante de cada um que vive esses momentos, uma longa, violenta e perigosa transição. Resta-nos a resistência para que dentre os caminhos propostos não nos deparemos com retrocessos, nem nos encaminhemos para um abismo”.
Crise: década de 1970
O século XXI já começou embalado por fatos que deixou a todos inseguros sobre o que aconteceria nos anos seguintes. Percebido que o “bug do milênio” não passava de um temor carregado de tolices, e espetacularizado por uma mídia que se especializou em criar o medo do imponderável de forma estúpida, pior do que as crenças nas divindades vingativas, os atos de 11 de setembro de 2001 demonstrou que algo pior estaria por vir. O que ruiu naquele dia não foi somente duas torres, e a trágica perda de milhares de vidas humana, vítimas do ódio alimentado pela irracionalidade de podres poderes. Ali se sentiu estremecer a estrutura econômica de um sistema que já estava claudicante desde os anos 1980, ainda como consequência de uma crise gestada na recomposição dos preços do petróleo, no bojo da criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Se o século XX foi intitulado pelo brilhante historiador Eric Hobsbawm, como o breve século, e um dos mais violentos da história, este tem tudo para ser um longo século, porque será arrastado por uma crise de duração prolongada, e quiçá não seja entremeado também por conflitos de dimensão mundial. Registre-se que outro intelectual, um economista, Giovanni Arrighi, já se referira ao século XX, como um longo século, porque foi buscar no entendimento de como a formação dos impérios foi essencial para a consolidação do sistema capitalista, efetivado exatamente no século anterior. O longo, ou o breve século XX, pela abordagem do historiador ou do economista, ambos marxistas, representam uma análise da formação histórica do capitalismo e dos sobressaltos de uma complexa economia, que só vai tornar esse sistema eficaz e vitorioso na segunda metade daquele século.
Mas há um forte diferencial, a tornar longa essa transição. No começo do século XX, uma parte considerável da humanidade acreditava ter ao seu alcance uma alternativa para substituir o sistema capitalista, embora este só tivesse se espalhado por todo o mundo naquele momento, efeito da expansão imperialista. Mas já era visível, principalmente com a grande depressão, que o capitalismo sobrevivia às custas de contorcionismos cada vez mais mirabolantes, salvo em seu extremo, na década de 1930, por uma teoria que tomou emprestado do socialismo, o planejamento e a forte ação estatal, e por uma guerra que destruiu e fez se tornar necessário a reconstrução de uma Europa devastada, que se tornou o laboratório para o keynesianismo e a sobrevida do capitalismo. Mais do que uma sobrevida, o capitalismo foi turbinado pelas novas possibilidades encontradas com as teorias que garantiram o “welfare state” e transformou os EUA no maior credor do mundo.
No entanto, os anos dourados que impulsionaram a economia mundial até a década de 1970 baseava-se fundamentalmente em princípios liberais tradicionais, cujo foco principal era a produção e a circulação de mercadorias, a curta e longa distância. Muito embora seus fundamentos inspirarem-se no livre mercado, todo o seu impulso contou sempre com a intervenção do estado. Isso se intensificou com o keynesianismo, e, por outro lado, com os movimentos nacionalistas nos processos de lutas anticolonialistas. A existência de uma forte corrente pró-socialismo manteve esse comportamento nas medidas econômicas que vigoraram até o final dos anos 1970. Os anos 80 puseram em xeque a tendência natural do capitalismo: seu caráter marcadamente expansionista.
Com as economias esgotadas, naquela que ficou conhecida como “a década perdida”, restou aos estados hegemônicos apressar a derrubada dos países socialistas, envolvidos internamente com o esgotamento de um modelo que não conseguiu se expandir para garantir condições de vida que se aproximasse das melhorias conquistadas pelas populações dos países europeus, cujas economias foram injetadas pelo Plano Marshall no pós-guerra.
No fim da década, a queda do socialismo e, principalmente, após a dissolução da União Soviética, o caminho abriu-se para uma reestruturação no capitalismo. Seja mediante uma expansão em direção ao leste europeu, e até mesmo penetrando nas fronteiras caucasianas e na Rússia, ou disseminando pelo restante do mundo a necessidade de desregulamentação da economia, reduzindo a intervenção do Estado na economia e derrotando as políticas nacionalistas protecionistas naqueles países periféricos, ou então vistos como subdesenvolvidos. Pela nova lógica que se disseminava, o nacionalismo e o excesso de intervenção do Estado eram fatores para manterem essas economias fragilizadas.
Esse processo tem sido analisado com mais intensidade na última década. No entanto, muito embora as vozes críticas da globalização, e das políticas neoliberais, fossem sistematicamente desqualificadas, desde o início desse processo já se analisavam as terríveis consequências de políticas econômicas cujo foco era tão somente atender os interesses dos que controlavam o dinheiro, e buscavam novas formas de garantir a acumulação, mediante medidas que facilitassem a circulação do capital e sua aplicação ao redor do mundo.
A partir de então, e numa rapidez estonteante, escorados em novas tecnologias, o dinheiro circulou o mundo com mais liberdades, e se multiplicaram as aquisições e fusões de grandes empresas, levando à concentração da riqueza de forma ainda mais visível. Proporcionalmente reduziu-se o percentual daqueles que concentravam a maior parte dessa riqueza. Ou seja, um número cada vez menor de pessoas, passava a controlar uma quantidade cada vez maior de dinheiro. O oligopólio passou a caracterizar essa nova etapa, e o poder das grandes corporações assumiu uma dimensão espantosa.
A ganância atingiu todos os recantos do planeta numa força impressionante. Ideologicamente houve uma mudança na maneira de entender o liberalismo, mas isso foi facilmente disseminado com um marketing violento, por meio da imprensa, do cinema, das propagandas. Tornou-se uma verdade absoluta render homenagem ao sucesso da globalização. Praticamente não se falava mais de outras alternativas ao capitalismo, e os que ousavam enfrentar o “pensamento único” eram vistos como vozes que pregavam teorias ultrapassadas, e, aproveitando o sucesso dos “blackbusters” de Spielberg, apelidados de “jurássicos” e afrontados ironicamente.
Mas os protagonistas do sistema tomaram um rumo semelhante ao jogador viciado que não consegue abandonar a banca de jogo, presos pela cobiça. Tão rápido quanto os avanços tecnológicos, foram os mecanismos inovadores nas formas de se ganhar dinheiro fácil, através das oportunidades com que se podia investir em empresas por meio de bolsas de valores 24 horas por dia, em todos os cantos do planeta. Principalmente naqueles países mais frágeis, cujas pressões das organizações globais encarregadas de padronizar as políticas econômicas, se davam mais facilmente, como decorrência dos comportamentos submissos das elites locais. Os juros extremamente elevados criaram portos seguros para investidores usuráveis, e eram garantidos pelas pressões exercidas pelas governanças globais, que impediam qualquer tipo de controle sobre os recursos investidos e dificultavam a adoção de medidas que taxassem seus investimentos no mercado especulativo, sem nenhuma preocupação com as condições econômicas desses países. O “rentismo” passou a se constituir na mais nova forma de se acumular dinheiro, uma nova característica do capitalismo, e criou um novo tipo de burguesia, mais preocupada com as oscilações das bolsas de valores do que com a capacidade de consumo para investimentos produtivos.
No entanto, o sistema não se recuperara por completo da crise iniciada na década de 1970. Muito embora a globalização se apresentasse como a consolidação definitiva do capitalismo, o rumo que o mundo tomou, com o crescimento da ganância e a redução do controle sobre a economia, abriu rombos que deixou incertezas e muitas dúvidas sobre a capacidade de recuperação. Mas isso só era visto por um grupo pequeno de economistas, ou de ativistas políticos ideologicamente avesso ao capitalismo, suas credibilidades eram postas em xeques e suas críticas não eram repercutidas pela grande imprensa.
Tudo se tornou visível, após esse período de inebriamento e crescente ganância, quando em 2008, rendendo-se aos fatos a grande mídia noticiou ao mundo o que alguns economistas já alertavam, sem serem ouvidos: o sistema financeiro estava à beira do “crash”. A quebradeira acontecia e arrastava a economia em meio a escombros de um tsunami econômico e social, de proporções imprevisíveis.
O ponto fora da curva teria sido as especulações feitas por meio de hipotecas no mercado imobiliário estadunidense. Mas esse foi apenas um fator, outros já vinham causando fissuras na estrutura do capitalismo. Desde os ataques ao World Trade Center, aos gastos milionários com as invasões do Iraque e Afeganistão, e a desastrosa “guerra ao terror”, além dos vai-e-vem no preço dos barris de petróleo, tudo isso e mais outros motivos, se juntaram a absoluta falta de controle de um sistema que perdeu a capacidade de  se contentar com os lucros obtidos a partir de investimentos produtivos, e se transformou em um verdadeiro cassino global, e, como em todas situações que envolvem jogo, somente os donos das bancas lucram, ou um ou outro afortunado que aposta quantias elevadas e conhecem os mecanismos de burlar o sistema.
Segue-se a esse absoluto descontrole da forma de funcionamento do sistema capitalista, toda uma série de acontecimentos que acompanha um novo modelo posto em prática nas últimas décadas, de maior intensidade nos mecanismos perversos de gerar desigualdades. O vale tudo, causado pela intensidade de um comportamento individualista, gerado pela onda da oportunidade e da competência, consolidada na meritocracia, tornou a sociedade adepta de um comportamento mais frio, pragmático e focada no sucesso a qualquer preço. Os exemplos pinçados numa realidade absolutamente diferente, são apresentados como sinônimo de dedicação e esforço do trabalho e da inteligência.
Antecedeu-se a toda uma nova formulação de comportamentos um receituário ideológico, adredemente vinculado ao caminho para o bem-estar individual e familiar, que se disseminou via ideologia neoliberal, cujos discursos se fundamentava nas questões postas no parágrafo anterior, e se espalhou pela grande mídia e nas igrejas neopentecostais. Nestas, a “teologia da prosperidade” procurou inculcar nos indivíduos a crença secular, pregada por alguns setores do protestantismo, notadamente os de origem estadunidenses, de que pela dedicação à fé e aceitação da ordem, se atingiria o sucesso, sendo este a recompensa da fidelidade como uma resposta divina, a prova de ser Deus fiel a quem lhe é fiel. O oposto às pregações do cristianismo primitivo, surgido como questionador das injustiças, da cobiça e da usura.
Por todos esses anos, deste novo século, escandalosamente acontecia o contrário do que se propagandeava com a globalização. A concentração de riqueza atingiu um patamar escandaloso diante de uma realidade desigual e ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. E a pobreza, em larga escala, que se concentrava nos países pobres, espalhou-se pelos países mais desenvolvidos, como consequência do deslocamento de fábricas, a extinção de empregos e o aumento do número de moradores de ruas, ou da favelização.
Embora tenha havido uma pequena recuperação, nos dois últimos anos, ela está longe de representar uma saída para a crise, e em muitos casos, a retomada do nível de empregos está relacionado à busca de novas alternativas individuais, formal ou informal, ou a reabsorção de muitos desempregados em um mercado de trabalho cujo valor da mão de obra decaiu consideravelmente. Boa parte dos que retornaram à atividade laboral, o fizeram em outras funções, sendo forçados a aceitarem salários bem inferiores aos que possuíam anteriormente.
Mas, com a financeirização do sistema capitalista, e uma nova classe de novos ricos decorrente do deslocamento do centro gerador de lucros, já não tanto no setor produtivo, mas principalmente em negócios especulativos do mercado de ações, as condições econômicas acentuaram a concentração de rendas, e quanto mais lucravam, mais essa nova burguesia se tornava insensível e mais gananciosa.
Os Estados tornaram-se, então, reféns de um número cada vez menor de empresas, concentradas em processos inexplicáveis de fusões, consolidando um novo ciclo econômico, baseado nos oligopólios, no poder concentrado de grandes corporações e de poucas famílias de bilionários.
No entanto, isso não seria possível, apesar da violência como essas transformações se deram, principalmente passando por cima das soberanias dos países mais pobres, e agressivamente controlando suas economias, se não houvesse um processo de verdadeira lavagem cerebral nas pessoas, de convencimento sobre o final definitivo da humanidade nas hordas do capitalismo. Todas as armas foram utilizadas para isso, e naqueles países onde as políticas não atendiam a esses interesses houve uma verdadeira guerrilha midiática, a desacreditar outras alternativas que estivessem sendo construídas, fora da ordem estabelecida pelas governanças globais e pelo Consenso de Washington.
Desestabilizar governos que contraditavam essas verdades absolutas neoliberais, passou a ser uma estratégia a substituir as velhas intervenções militares. Os golpes de estado tornaram-se legitimados pela multidão cega, posta nas ruas pelas propagandas das corporações midiáticas, e, absolutamente alienadas quanto à realidade de uma crise sistêmica e mundial. A cegueira ideológica e o efeito manada constituiu-se em uma nova arma, para impedir que, mesmo em crise, a hegemonia do poder central neoliberal fosse ameaçada. Muito embora esteja em franca decadência, este centro, os EUA, mantém-se ainda como uma forte economia e, principalmente, com um poder bélico inatacável, a não ser por tresloucados militantes sectários a buscarem o paraíso para seus atos de “coragem” explosivas.
Mas, como na expectativa de Marx, considerando-se uma realidade em crise e a ampliação de suas contradições, não pode ser menosprezada a possibilidade de que elas ocorram internamente. Isso já é possível de se verificar no caos em que vivem algumas dessas sociedades, seja pelo constante medo de ações terroristas, ou pelas próprias loucuras gestadas internamente em ações que podem transformar alguns desses países, em especial os EUA, em ambientes de permanente terror, decorrente de confrontos alimentados pela luta de classes e pelo grau crescente de intolerância étnica, de cor, às escolhas sexuais e aos estrangeiros.
Contudo, se essa é uma possibilidade a estremecer os alicerces de alguns desses países, por outro lado a crise desperta antigas rixas, na disputa por espaços que garantam a hegemonia em um tempo fragmentado e de poderes cambaleantes. O temor histórico do avanço do urso em direção à Europa, algo já temido desde o começo dos séculos XX e assim alertado por um dos proeminentes geopolíticos britânicos, Sir Halford Mackinder, reacende agora com uma força ameaçadora, diante das estrepolias estratégicas de um ex integrante do serviço secreto soviético, a temida KGB onde chegou até o posto de coronel: Vladimir Putin.
Como a reportar os períodos que antecederam as duas grandes guerras mundiais, e, sintomaticamente, esses períodos foram marcados por crises econômicas estruturais (1905-1914 e 1930-1937). A primeira de característica expansionista, uma crise gerada pelo crescimento do capitalismo e pela disputa dos grandes impérios pelo mercado mundial. A segunda, de caráter recessivo, que irrompeu numa terrível depressão que afetou quase de morte o sistema capitalista.
Desta feita, diante de uma crise que já se prolonga há mais de uma década, velhas rivalidades retornam, mas o significado dessas estratégias é o mesmo, despertar o caráter destrutivo do sistema, identificado pela economista Naomi Klein, como de “Capitalismo de desastre”, pelo qual as guerras e as catástrofes são colocadas na conta de ótimas oportunidades para reconstruir um mundo devastado e recuperar economias centrais.
Enquanto isso se dissemina pela sociedade os sintomas de um ambiente criado ao sabor dessas grandes disputas, dos podres poderes, das formas de desenvolvimento que definem as relações sociais. Momentos de crises são oportunos para o surgimento de comportamentos radicalizados, a defender ou a defenestrar os governos que comandam os estados. Porque, tal qual argumenta a historiadora estadunidense, Ellen Wood, a burguesia conseguiu gerar uma cultura em meio ao povo que a torna onipresente nos momentos de crises. O povo, em sua revolta contra as condições que o mantém refém de economias recessivas, ou diante de situações em que lhe é negado a mínima dignidade de sobrevivência, com desemprego crescente, ataca de forma violenta os que governam, e o Estado, mas não se volta com a mesma virulência contra a classe que detém o controle da riqueza, dos meios de produção. Falta-lhe consciência para transformar um sentimento de ódio pelas injustiças, em razões que transforme as estruturas sociais.
Violência em larga escala, comportamentos intolerantes contra as liberdades individuais, tentativa de controle dos desejos, criminalidade tratada somente como desvio de caráter e não como uma patologia social, disrupção familiar, ódio étnico e preconceito contra as diferenças, de sexo, cor e formas do corpo, definido por valores e padrões estabelecidos pela classe dominante, tudo isso se choca e explode em tempos de crise.
Sem enxergar alternativas para um sistema cambaleante o sintoma invisível é o de uma longa transição, em que o novo demora a despontar, e o velho, já desgastado, joga as últimas cartadas num jogo viciado, enxergando no caos as poucas possibilidades de reestruturação. Como há milênios, nas longas guerras em que os que morrem são os que não possuem as riquezas, constroem-se impasses a fim de preservar privilégios, ou de ampliá-los, ao fim de destruições perversas.
Mas seja pela guerra, ou pela própria forma injusta de concentrar riquezas e distribuir miséria, a morte é uma frequentadora contumaz nos territórios pobres e periféricos. E, no entanto, como a cegar os que são induzidos ideologicamente a acreditar na crença da fatalidade capitalista, o próprio povo anseia por se ver protegido pela segurança armada a serviço da classe que lhe oprime. E este mesmo povo se distingue esculhambando-se enquanto pobres, e entronizando por meio de deslumbramentos doentios, os que despontam e enriquecem, pelos mecanismos ditos “meritocráticos”. É como concordar com um veredito decidido antes de qualquer crime, pois que senão pela recusa da própria existência, negada como real, e pela aceitação virtual de uma improvável ascensão de uma pirâmide cujo topo se limita pela riqueza, mas, principalmente, pela origem de classe.
Este mundo maravilhoso, assim cantado na magnífica voz de Louis Armstrong, “com o brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite”, só garantirá a efetiva liberdade quando a opressão de classe desaparecer, e as desigualdades abissais não sirvam para definir critérios de caráter entre as pessoas. Só assim podemos acreditar que os bebês que vão nascer, “irão aprender muito mais do que eu jamais vou saber”. E esse algo mais, talvez seja a velha capacidade de poder dividir o que produzimos, mediante o velho altruísmo, qualidade que nos fez sobreviver em nosso processo de adaptação à ambientes inóspitos, e garantiu a sobrevivência, até aqui, da raça humana. Assim, una, etnicamente diversa, somente vista como várias pela capacidade adquirida em sistemas perversos, que impõe a poucos o controle da vida de muitos, tornando-os diferentes embora iguais.
Quando superarmos os milênios que nos separaram da nossa capacidade altruística, voltaremos a ser humanos, e a vivermos no mundo cantado por Armstrong. Aí poderemos dizer: “What a wonderful world”.
Isto é possível!


REFERÊNCIAS:
ARMSTRONG, Louis. What a wonderful world. https://www.youtube.com/watch?v=oGmRKWJdwBc
ARRIGUI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2012
HOBSBAWM, Eric. O breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 2008
MACKINDER, Halford. O Pivô geográfico da história. São Paulo: Geousp, Espaço e tempo, nº 29, pág. 87-100, 2011.
SANTOS, Milton Santos. Por uma Outra Globalização. Rio de Janeiro: Record, 2011.
PIKETTI, Thomas. O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014
WOOD, Ellen Meiksins. O Império do Capital. São Paulo: Boitempo Edtorial, 2014.
http://www.defesanet.com.br/otan/noticia/22863/OTAN-determina-reforco-militar-no-leste/
http://informacionaldesnudo.com/mapa-cuales-son-los-paises-mas-endeudados-del-mundo/

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A DIALÉTICA DA NATUREZA E A SOBREVIVÊNCIA HUMANA

O otimista é um tolo.
O pessimista, um chato.
Bom mesmo é ser um realista esperançoso.
(Ariano Suassuna)

Tenho abordado de forma recorrente as discussões propostas para essa mesa redonda, nas disciplinas de geopolítica, com foco direcionado para as questões ambientais: biodiversidade, água e alimentos. Me guio pela dialética como elemento essencial para que possamos entender toda a situação que nos envolve.
Parece que há na sociedade um medo do contraditório, como a tentar impedir aquilo que é incontrolável: nossa vida transforma-se dialeticamente, e o seu impulso, o que possibilita essas transformações são as contradições. Negar-se, e afirmar-se, no choque das forças que se opõem. Não há, na vida, nada que se construa, sem que isso implique algum tipo de destruição. Ao que Engels chamava de “negação da negação”.
O maniqueísmo presente nos argumentos ambientalistas e o discurso do medo, que têm sido a tônica no mundo nas últimas décadas, transformam um tema que deveria ser conduzido pela racionalidade em uma espécie de dogma fundamentalista, para o qual todos que vierem a defender o progresso social deveriam ser queimados no fogo do inferno. Muito embora tenhamos também consciência que o significado dessa palavra, “progresso”, pode ter vários sentidos. Mais uma vez a contradição.
Tenho plena noção dos problemas ambientais, e procuro ampliar meu conhecimento acompanhando pesquisas e informações sobre esse tema. E aqui não confundo a palavra “ambiental” com natureza, como muitos fazem. O ambiente (ou o meio-ambiente) inclui não somente a natureza natural, mas também todo o habitat, o espaço onde se inserem animais, plantas, o ser humano, e tudo que por eles tenha sido construído.
Alguns desses “problemas” decorrem da própria maneira como a vida evolui, e como o espaço vai sendo transformado para se adaptar às necessidades dos seres vivos, e, obviamente às mudanças geradas por eles próprios. Mas também outros fatores abióticos impõem algumas transformações que fazem com que, permanentemente, o nosso planeta, a terra, altere sua configuração, eixo, rotação e outros aspectos aparentemente imutáveis. O espaço transforma-se permanentemente, com ou sem a ação humana. E isso, dialeticamente, reage sobre nós, provocando todos os tipos de alterações e de necessidade de nos readaptarmos. Assim, o organismo vivo se adapta e se altera, como uma condição para sua própria sobrevivência. Ave, Darwin!
A maneira de não transformarmos ideias em dogmas é exatamente partirmos do princípio que a vida é marcada por contradições. E não há contradição maior, no mundo que o ser humano construiu, do que nos depararmos com uma população de 7 bilhões de pessoas, em muitos casos vivendo em cidades que ultrapassam 10 milhões de habitantes. Isso mais do que triplica se incluirmos também no ambiente citadino os demais bichos que nos fazem companhia. Alguns dos quais nos dias atuais são melhores cuidados do que gente.
Ocorre, também, que nos movemos por interesses. O jogo desses interesses transformou-se ao longo de nossa história na base política que construiu a nossa sociedade, a cultura, a idiossincrasia, a religião etc. A disputa econômica pelo controle dos meios de produção, da riqueza, da terra, e.... do Poder! Assim, como nos ensina Raffestin,[1] inspirado em Michel Foucault,[2] com “P” maiúsculo, para se diferenciar de outros poderes, com “p” minúsculo. Aqueles pequenos poderes que nos acompanham em nossas relações cotidianas, desde a família, até a escola, o trabalho etc.
Então, para entendermos que por trás dos discursos existe “muito mais coisas do que imagina nossa vã filosofia” (parafraseando um personagem de Shakespeare), precisamos ir além das palavras e frases, muitas delas com forte impacto, como das orações que afetam a fé e faz com que as pessoas as tomem por verdades absolutas, porque são carregadas de simbolismos e, pela repetição, tornam-se dogmas inquebrantáveis. Os que discordarem são transformados em entes do mal, seguindo-se o princípio maniqueísta do gnosticismo primitivo do filósofo persa Mani: a luz e as trevas, o bem e o mal.
Assim, melhor inspirar-se nas ideias de Voltaire e lembrar-se de uma frase a ele atribuída: “discordo do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo”. Dessa forma nos aproximamos daquele sentido dado pelos filósofos antigos, pelo qual somente pelo embate das ideias e das contradições que as mesmas carregam, é possível se atingir o conhecimento em plenitude. Evidentemente jamais como uma verdade tida como absoluta.
Todo esse rodeio filosófico que fiz decorre das dificuldades em se analisar os problemas ambientais do mundo contemporâneo, sem ser rotulado pelos mais engajados ativistas ecológicos como um ente do mal, preparando-se para tocar fogo sobre a terra e transformá-la em um deserto, pela hecatombe que se aproxima em razão das ações maléficas causadas por nós mesmos.
Tudo pode acontecer, ou vai acontecer, pois também a terra não é eterna. Mas precisamos entender que isso que está sendo citado como uma possibilidade, de uma aceleração no processo de destruição de nosso meio-ambiente, decorre na maneira como nós, seres humanos, construímos o nosso habitat. E todos nós, mesmo os mais ácidos críticos ecologistas, não abrimos mão de usufruir das regalias construídas por nossa imensa capacidade criativa. E tudo isso às custas da natureza.
Principalmente a partir do século XIX, quando se consolida o sistema capitalista, fundado na irrefreável sofreguidão em produzir mercadorias a uma velocidade cada vez maior, e transformar as nossas necessidades em ânsia de consumo. Transformamos-nos ao longo dos séculos seguintes em animais consumistas. Consumir e curtir as novidades mercadológicas e os novos produtos cada vez mais sofisticados tornou-se mais do que uma vaidade, passou a representar um vício que em alguns casos atingem a condição de uma verdadeira dependência. Em outras situações, essa lógica baseada no consumo empurrou aquelas pessoas deprimidas, doentes pelo stress causado pelas loucuras da vida moderna, a ir com sofreguidão aos shoppings, templos que passam também a ser uma espécie de depositório da catarse coletiva da cidade grande.
Claro, além disso, o estilo de vida construído dentro dessa lógica de consumo, inspirado naquilo que nos Estados Unidos passou a se chamar “american way of life”, acentuou a obsessão nos indivíduos em buscar permanentemente a ascensão social. De forma a atingir um padrão de vida que se caracterizasse pela garantia de possuir, sempre, os produtos que surgem como novidades no mercado. Acontece que o mecanismo que faz girar o capitalismo impede que isso tenha um limite, é preciso ter cada vez mais para não somente usufruir desses produtos sofisticados, mas também se apresentar na sociedade como vitorioso, porque capaz de poder comprar o que existe de melhor e mais sofisticado.
Tudo nos empurrava para as cidades, e foi nelas que o capitalismo se realizou. Enquanto ali se aglomeravam exércitos cada vez maiores de pessoas, em sua maioria pobre, com condições econômicas sofríveis, mas que precisavam tornarem-se consumidoras, fora delas consolidou-se um sistema concentrador baseado no latifúndio, na posse da grande propriedade e na utilização dessas terras para produção de monocultura. Principalmente de commodities, cujo preço vem a ser determinado pela moeda de referência internacional nos mercados mundiais.
Sem subsídios do Estado, que a lógica da globalização neoliberal proíbe, e com financiamentos parcos também concentrados nas grandes propriedades, os pequenos agricultores abandonaram gradativamente suas terras, seguindo os passos dos filhos que em muitos casos já se dirigira para as cidades em busca de melhores oportunidades.
Assim, enquanto nas cidades concentravam-se uma enorme população de despossuídos, no campo uma quantidade pequena de proprietários concentrava infindáveis hectares de terras, produzindo não somente o que é necessário – como na antiga produção agrícola – mas fundamentalmente aquilo que vai possibilitar um lucro maior. Nas cidades, os milhões de citadinos vão a busca de empregos, conseguem salários, tentam ganhar cada vez mais para consumir as mercadorias que lhes seduzem, e, logicamente precisam para se alimentar. Já não mais produzem para si, mas para aqueles que possuem os meios de produção e determinam o que deve ser produzido.
As cidades modificaram-se espetacularmente em formas e linhas que comprovam a capacidade ilimitada do ser humano em transformar objetos e criar maravilhas tecnológicas. Só que para alimentar esses bilhões de pessoas, e saciar a necessidade de consumir mercadorias, o sistema capitalista acelerou de forma monumental a sua capacidade de inovar, de forma a tornar obsoleta o mais rapidamente possível a sua última invenção.
Ora, mas porque nos espantamos? Ao analisarmos as condições de vida nas sociedades em volta do mundo, e em nosso país particularmente, veremos que há um percentual ainda muito elevado de pessoas que estão fora desse mercado consumidor. No entanto, quando somamos a população daqueles países que somente agora estão acelerando seu desenvolvimento, apesar da crise, chegamos a um número que corresponde a mais da metade da população mundial.
Estaremos próximo do limite dessas contradições? Essa é uma pergunta de difícil resposta, já que enquanto há vida a tendência é de sempre ampliarmos nosso grau de contradição. Mas o que fazer se na humanidade mais da metade de sua população ambiciona atingir a condição de vida semelhante à daqueles que vivem nos chamados países desenvolvidos? Porque todo esse alarmismo catastrófico, e ameaças de hecatombes, se intensificaram nos últimos anos, no momento em que os países ricos entraram em uma grave crise econômica e quando outros que estavam fora do "clube" iniciam uma escalada de crescimento e de desenvolvimento social?
De repente soam os sinos a indicar a hora em que a terra explodirá. E nos propõem, os que vêm dos trópicos, que por aqui devemos manter nossas matas, florestas e rios, para que por lá eles possam produzir mercadorias, agregar valor, vender suas mercadorias para nós, os velhos “subdesenvolvidos” e, assim, continuar enriquecendo a eles mesmos. Agora mediante uma nova forma de dominação: o colonialismo verde.
A palavra é CONSERVAÇÃO. Mas o que mais se fala é preservação. Há uma diferença substancial entre essas duas palavras quando o tema é a natureza. O conservacionismo possibilita que utilizemos da natureza os produtos necessários para a nossa sobrevivência, compreendendo que seu esgotamento impede que a vida humana possa prosseguir por mais tempo adiante. Esse é o desafio diante da contradição em que nos encontramos. São milhões de novas pessoas que adentram o mercado de consumo, ascendem a outras classes sociais e adquirem a capacidade de consumir mais e viver melhor. Não se pode negar a essas pessoas terem acesso a produtos que facilitem suas vidas nas cidades, mas isso implicará em mais e mais degradações à natureza.
Então, quando levantamos uma bandeira, por exemplo, de cuidados com a água, devemos ter em conta que a luta não é somente para manter a água límpida e perene. Mas garantir que mais pessoas possam usufruir de um bem que é condição essencial para a manutenção da vida. Devemos olhar para os dois lados da moeda, e não somente imaginar que o discurso de preservar a natureza encerra-se em si só. A natureza sempre vai servir ao ser humano, como serve a todos os outros seres vivos que a compõe e forma um equilíbrio que se sustenta em contradições.
A REVANCHE DA NATUREZA
E o que dizer dos problemas que nos afligem nas cidades, que produzem e reproduzem tragédias disputadas pela grande mídia sequiosa de criar sensacionalismo em meio às tragédias?
A Natureza não é estática, ela está em permanente mudança e sujeita a intempéries causadas pela dinâmica que a torna dialeticamente contraditória. Independente da ação humana, mas potencializada por ela. É a somatória de todos esses absurdos, entendendo-se essa palavra em seu sentido etimológico (fora da harmonia), que faz da Natureza um eterno ciclo da vida (nascer, crescer, morrer; mesmos compreendendo essas palavras metaforicamente).
O que se pode dizer, sem ser necessariamente profeta, é que muitos eventos complexos continuarão a acontecer, independentemente de qualquer polêmica que veja nisso efeitos de um “aquecimento global”, já que nem mesmo isso é consensual e provoca intensos debates entre cientistas do mundo todo.
Mas, obviamente, entra em discussão aquilo que é da essência do texto de Engels, escrito no século XIX, e também fez parte de uma abordagem de Ab’Saber, quando esteve aqui em Goiânia: o mal ordenamento das cidades.
Há cinco anos, quando estive na presidência da Adufg (Associação dos docentes da UFG), na edição da Mostra Multicultural Milton Santos, simpósio que realizávamos bianualmente, sugeri que o tema fosse A REVANCHE DA NATUREZA. Minha referência, para essa sugestão, foi exatamente a leitura da obra de Engels (A DALÉTICA DA NATUREZA), e uma frase posta ali por ele: “...não nos regozijemos demasiadamente em face dessas vitórias humanas sobre a Natureza. A cada uma dessas vitórias, ela exerce a sua vingança”. Mas foi também em função de vários eventos violentos, em especial o tsunami que varreu o sudeste asiático.
Como sempre acontece, essas catástrofes são acompanhadas de uma repercussão tão, ou mais, espetacular do que o próprio evento. Embora seja logo esquecido. Principalmente porque a mídia tradicional vive disso, da espetacularização da notícia, da dramatização dos acontecimentos, de forma a envolver os espectadores e elevar seus índices de audiência.
Dentre as palestras que realizamos naquela edição da Mostra, uma foi especial. Tivemos a satisfação de contar com a presença do professor e pesquisador renomado da Geografia, Aziz Ab’Saber. Sua palestra foi tão disputada que precisamos colocar um telão do lado de fora do auditório. Tudo isso, consequência do conhecimento que se tem a respeito da excelência dos trabalhados dele, aliado à atração que o tema em si já proporcionava.
Lúcido e apresentando a competência de sempre, apesar de quase centenário, Ab’Saber discorreu com precisão sobre a temática proposta e teceu críticas à maneira como as cidades crescem desordenadamente e às razões que levam a esse tipo de situação.
De lá para cá, em meio a inúmeras tragédias que se repetiram com enormes semelhanças, outros especialistas apontaram as mesmas causas, e a convicção de que as consequências seriam praticamente as mesmas, em tempo e espaços diferentes.
O crescimento das cidades, hoje seguramente o principal problema que afeta a humanidade (alerta repetidamente citado por David Harvey), acontece seguindo uma lógica do sistema capitalista, e o expansionismo urbano ocorre tanto como decorrência do forte deslocamento da população rural, como da necessidade de valorização do uso do solo, a fim de atender à especulação usurária que é a marca do modelo de sociedade em que vivemos. Como já dito, porque é nas cidades que o capitalismo se realiza, com todas as suas contradições.
Nessa equação, são os pobres as principais vítimas desse processo. Porque a procura por terrenos em áreas de riscos decorre da incapacidade dessas pessoas poderem construir habitações em lugares mais seguros, em função da especulação imobiliária. O lucro, acima de qualquer coisa, até mesmo das vidas humanas, é o elemento principal a definir tanto o expansionismo das cidades como o investimento em infraestruturas urbanas. As prioridades, quase sempre, são de aplicação da maior parte dos recursos arrecadados nos setores mais valorizados economicamente. E, lamentavelmente, essa é uma regra geral, independente de quem esteja administrando a cidade, devido aos interesses em jogo e às negociações com as “representações” parlamentares.
E o que se vê, nessa onda de hipocrisia que marca a maneira como os problemas são expostos, é ainda, uma forte campanha contra os impostos. Os que se opõem consideram-nos desnecessários, visto que são mal aplicados.
Ora, os ricos não precisam tanto da cobrança de impostos para garantir melhorias urbanas, já que buscam outras alternativas como os condomínios fechados e autossuficientes (pode-se ver, em terrenos planos, e bem localizados); ou em setores valorizados pela especulação e bem atendidos pelo poder público. Se andarmos em Goiânia, por exemplo, veremos não uma, mais várias cidades, com perfis e populações diferentes. A paisagem da cidade vai se modificando, à medida que nos deslocamos de norte a sul e é visível a diferenciação econômica dos lugares e, consequentemente, os benefícios concedidos por quem administra o seu traçado.
A população pobre, sim, precisa que esses impostos sejam cobrados de quem mais pode pagar e os investimentos devem ser feitos onde são mais necessários. Habitações seguras, construídas em terrenos planos, devem ser priorizadas e a ação do Estado, em todas as suas dimensões (municipal, estadual e federal) deve ser a garantia de que os absurdos sejam combatidos com medidas que tenham como objetivo possibilitar às pessoas condições dignas de vida. Inclusive com desapropriação de terrenos desocupados à espera de valorização, para a construção dessas moradias.
Por fim, para não finalizar e reforçando o elemento que me balizou e que enfatizo, a contradição, reproduzo, e concordo com a mesma, uma frase do filósofo esloveno, Slavoj Zizek: “a ecologia é o ópio do povo”. Mas entendo, como uma crítica ao discurso, e não à necessidade de se debruçar sobre os problemas ambientais e à luta necessária para a boa convivência entre o ser humano e a natureza. Nesse sentido, não compreendo a crítica como questionadora da necessidade de termos cursos de graduação e pós-graduação focado nessa temática. Há, contudo, uma forma pela qual o discurso ecológico se impõe de forma ideológica, escondendo objetivos que atendem aos interesses de grandes corporações, na busca por alternativas para a reestruturação capitalista.
Diz ele, numa entrevista à revista Magis[3]: “É precisamente no terreno da ecologia que podemos delinear a demarcação entre a política da emancipação e a política do medo na sua forma mais pura. De longe, a versão predominante da ecologia é a da ecologia do medo – medo da catástrofe, humana ou natural, que pode perturbar profundamente ou mesmo destruir a civilização humana. Essa ecologia do medo tem todas as oportunidades de se converter na forma ideológica predominante do capitalismo global, um novo ópio das massas que sucede o da religião”.
Há, portanto, um descompasso entre necessidade real, a lógica consumista da sociedade capitalista na qual vivemos e as condições objetivas daquilo que a natureza ainda pode oferecer. O diálogo necessário só será possível mediante o enfrentamento dessas contradições, e a procura por alternativas que se contraponha ao estilo de vida gerador de processos destrutivos à natureza e à sociedade. Não é uma tarefa fácil, mas para além do discurso fatalista, é essencial termos a compreensão de que nós, na universidade, temos uma responsabilidade de não só buscarmos os diagnósticos, mas apresentarmos propostas concretas que nos ajude a encontrar os caminhos para uma sustentabilidade real, condição essencial para garantia de sobrevivência das gerações futuras.
Mas há um sentido ideológico nessa luta, e será preciso, aos que desejarem contribuir com o futuro, tomarem posição em relação ao sistema capitalista, absolutamente destrutivo na relação com a natureza. Não acredito em sustentabilidade ambiental dentro da lógica que move o mundo contemporâneo. Mas confio na capacidade do ser humano em encontrar uma solução para problemas criados por ele próprio.


NOTAS:

 (*) Texto adaptado para a Mesa Redonda: Diálogos entre a Sociedade, Natureza e Espaço, na I Jornada do IESA. Os textos bases foram publicados originalmente no Blog Gramática do Mundo. Links:

[1]  RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Editora Ática, 199
[2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. São Paulo: Editora Graal, 2007
[3]  ZIZEK, Slavoj. A Ecologia é o Ópio do Povo. In: Mágis - Revista da Unisinos, no. 05, dez 2009-jan 2010

segunda-feira, 6 de junho de 2016

AS VÍSCERAS DA CORRUPÇÃO E O MÍTO DE SÍSIFO

Fonte: o Globo
Quando dizemos que está havendo desequilíbrio na maneira que as notícias sobre corrupção são veiculadas, muitas vezes somos criticados por estarmos fazendo defesa dos mal feitos dos últimos governos. Essa planilha,[1] com base na delação de Nestor Cerveró confirma o que dizemos. Enfim, torna-se difícil encobrir tudo o tempo todo. Primeiro deve-se fazer uma crítica contundente à corrupção, sistêmica e endêmica. Sistêmica porque está no DNA do capitalismo, movido à ganância e usura, e endêmica porque ela está encrustrada na estrutura do Estado brasileiro e nos Estados federativos.
Mas os meios de comunicação sempre foram dóceis com governos que lhes beneficiavam, ou com aqueles cujas políticas eram direcionadas somente para os interesses da elite econômica. Eventualmente denunciavam alguma coisa, quando o governo se enfraquecia ou deixava de atender suas pressões por vultosas verbas de propaganda.
Atentem para essa planilha e vejam que a venda de uma refinaria na Argentina gerou seis vezes mais propinas do que a venda da refinaria em Pasadena, nos EUA. Dois crimes de corrupção que devem ser punidos, seguramente, mas quantas vezes a mídia falou dessa venda da refinaria da Argentina, feita no Governo do PSDB-PMDB-DEM? Eu, que lido com análises da política, tinha pouca informação disso. Pois ela representa mais da metade dos recursos destinados pelas mãos do operador Cerveró. Então... dois pesos, duas medidas.
Creio que devemos dar apoio a que essas investigações cheguem até o final, se é que isso vai acontecer. Mas que não se prenda a delações, e busquem formas concretas de punir os que efetivamente se beneficiaram de toda essa maracutaia. E que se estenda aos mesmos mecanismos utilizados para bancar as eleições de parlamentares e governadores em cada Estado. O Caixa 2, funciona aqui nesse país faz muito tempo. Muitas empresas públicas e bancos estatais já foram à falência por desvios de recursos para essas campanhas, com os devidos repasses para as contas particulares de muitos desses agentes.
Enquanto isso a educação vai de mal a pior, com professores mal pagos e escolas pessimamente cuidadas nos Estados e municípios. E a saúde enfrenta um caos no atendimento, gerado pelas dificuldades em manter unidades de saúde com tecnologias modernas, ampliação de seus espaços e melhores salários para os trabalhadores.
Tenho minhas dúvidas se isso chegará até o fim. O golpe patrocinado aqui no país teve como objetivo explícito acobertar uma quadrilha de corruptos, muito embora ela já estivesse agindo sob as barbas do governo anterior, que tem envolvidos muitos nomes que faziam parte da estrutura partidária que lhe dava apoio.
Isso torna mais grave a situação, mas não pode desanimar aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e menos desigual.
De qualquer maneira, já sabíamos como esses esquemas funcionavam, já que esse sistema político está falido faz tempos. Contudo, não devemos também ser complacente com os erros daqueles que porventura apoiamos em algum momento. E repito uma frase que ouvi de Ciro Gomes. "O erro do pecador pode ser admissível, mas do pregador é inaceitável". Em todos os casos, contudo, devem ser punidos. Mas o que escandaliza mais?
O Brasil melhorou, não há dúvidas e isso foi fruto de medidas corretas de inclusão social e investimentos na economia mediante ações do governo. Houve equívocos quando se pretendeu garantir subsídios para setores industriais e grandes produtores, ao invés de se prosseguir investindo com mais vigor em iniciativas de economias solidárias e pequenas cooperativas. E, principalmente por o governo não ter conseguido proteger o país da grave crise econômica mundial. Essa seguramente a tarefa mais difícil, pela dependência nas importações de commodities.
Mas, pelos números que surgem sobre os desvios de recursos públicos, e sabemos que esses montantes podem ser infinitamente maiores se investigações semelhantes forem feitas nos Estados, vamos compreendendo melhor a dimensão do atraso que existe em nosso país, comparando-se com o restante dos países do mundo. Muito embora devamos reconhecer que nunca se teve tanta liberdade para se investigar como nos últimos anos, apesar da leniência do judiciário e da seletividade de algumas operações policiais e do Ministério Público.
A corrupção é uma gangrena que tem impedido o “paciente” de se desenvolver a níveis adequados e a garantir melhores ritmos de inclusão social e do fim das desigualdades. Este paciente é o Brasil, mas a vítima fatal é o povo brasileiro, notadamente os mais pobres, a imensa maioria da população, imersa em uma estrutura social perversa, violenta e desigual.
É preciso romper com essa estrutura, que advém da dominação colonial e criou um caldo de cultura que flerta com esses desvios e faz da corrupção também uma patologia social, a desafiar as pessoas a comportarem-se com dignidade, levando as que agem assim a serem vistas como heróis em um mundo de desonestos. Quando a manifestação de honestidade deve ser uma característica permanente e normal na sociedade.
Vivemos nesses tempos turbulentos como no dilema de Sísifo[2]. Na mitologia grega Sísifo seria um rei de uma pequena província que, espertamente, ousou desafiar os deuses em uma trama que nos lembra os bastidores da nossa política, sofrendo punição por isso. Sua pena foi ter que, para o resto da vida, empurrar uma enorme pedra montanha acima. Ao chegar lá cansado ele não conseguia impedir que a pedra rolasse montanha abaixo, fazendo com que ele tivesse que recomeçar o seu calvário, eternamente.
Acabar com isso que nos escandaliza, requer muito mais do que combater e punir os corruptos. Mas passa também por reeducar a sociedade brasileira a ter a capacidade de discernimento sobre esse mal que acomete o Estado brasileiro há séculos. E que, para corrigir isso se exige um fortalecimento da educação, da capacidade de reflexão crítica, do fim da impunidade e na crença de que somente com medidas altruístas, solidárias, mais coletivas e menos individualistas, e por comportamentos marcados pelo respeito ao outro, é que conseguiremos adquirir uma nova cultura de rompimento com essa estrutura política perversa.
Daí o mito de Sísifo. Quando imaginamos ter encontrado a direção para isso, um revés nos empurra montanha abaixo, e precisamos recomeçar a luta para recompormos uma sociedade fragmentada e mais intolerante, onde se destacam os oportunistas que se aproveitam da desesperança que se dissemina entre o povo.
Persistir na luta, num ambiente de descrédito, não é tarefa fácil. Mas não há outro caminho. É preciso que a sociedade não internalize a crença de que nada pode mudar. Porque a mudança é permanente, só que ela se dará na direção em que as forças políticas apontarem. Tomar a condução desse processo é a condição para fugirmos da punição imposta a Sísifo. Se outras sociedades conseguiram, porque nós não haveremos?
E, para começar, reforcemos a luta pela necessária antecipação das eleições gerais. Para presidente, deputados e senadores. Que isso possa ser decidido em plebiscito juntamente com as eleições de prefeito para dessa maneira se estabelecer um pacto político que garanta ao país corrigir esses desatinos.
Mas, sem jamais esquecer que a nossa sociedade é marcada por uma luta de classes, e que, portanto, as camadas mais pobres devem estar protegidas por meio de suas organizações e sindicatos, e lutarem para que nas próximas representações parlamentares possam estar mais presentes no Senado e na Câmara dos Deputados. No entanto, não se pode esquecer, que não é só lutando contra o Estado que se obterá sucesso, mas entendendo que a crise é gerada por uma situação estrutural, de um sistema comandado por uma minoria de ricos que controla os meios de produção e que gera essas crises recorrentes. A revolta deve ser também contra isso, pois o Estado é somente um instrumento para manter a situação sobre o controle desses senhores que dominam a economia e os faz cada vez mais ricos.
O povo não pode ficar condenado a eternamente rolar rochas montanhas acima e a correr desembestado montanha abaixo, em crises permanentes que só afetam os mais fracos economicamente. É preciso romper com essa lógica perversa.