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terça-feira, 4 de outubro de 2016

A DERROTA DA POLÍTICA, A ESTUPIDEZ E AINDA A UTOPIA!

O que acontece no mundo? Em qual direção a história nos levará? O que temos visto, em termos de decisões que envolvem amplas massas populares, são adoções de saídas para situações de crises que acentuam cada vez mais as contradições, e apontam para uma direção de ampliação dos conflitos, da intolerância e da estupidez como mecanismos de enfrentamento de uma realidade que condiz com a feição de um sistema em crise.
Infelizmente, os resultados eleitorais no Brasil só são surpreendentes para quem esteve hibernando em um sono intenso nos últimos anos, em um coma que o fez ficar absolutamente descolado da realidade. Mas isso não se reduz ao Brasil. O reacionarismo de um Donald Trump, pode se sagrar vitorioso mesmo com um discurso estúpido e recheado de expressões politicamente incorretas. Mas devidamente incensado por grupos ultra-conservadores, alguns religiosos, outros que carregam em seus DNAs os feitos perversos de associações racistas, como a klu-klux-klan.
Na Europa, os nacionalistas de direita assumem um comportamento cada vez mais raivoso, xenófobo, centrado principalmente no aumento do número de refugiados que invadem aquele continente, empurrados por uma série de equívocos geopolíticos, quando atitudes mesquinhas de países ocidentais, movidos por interesses de grandes corporações, apostaram na destruição de uma série de governos na África e na Ásia. A proliferação de grupos terroristas, movidos por sectarismos religiosos e fundamentalismos tresloucados, são consequências de tais atitudes, e dessas políticas insensatas, mas profundamente conectadas com o Poder econômico e as disputas hegemônicas imperialistas.
O “Brexit”, resultado do plebiscito no Reino Unido, que empurrou seus países para fora da União Européia, já bastante analisado e ainda incompreendido em seu resultado surpreendente, não será a decisão mais estapafúrdia do ano, em termos de escuta popular. Como é possível uma população ser contra um acordo de paz, para botar fim a uma guerrilha que já dura 50 anos e foi responsável, em suas ações e nas formas de lhe combater por parte do Estado, por mais de 200 mil mortos? Pois assim foi mais um plebiscito de resultado surpreendente. O povo colombiano, rejeitou no limite, o acordo de paz entre o Estado colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O destaque, neste caso e o que analisarei a seguir, das eleições brasileiras, foi o número extremamente elevado de abstenção, cerca de 60% da população não compareceu às urnas.
Mas, qual a razão de convocar um plebiscito para decidir sobre algo tão complexo, sabendo-se que há interesses belicistas, inclusive de quem se projetou politicamente combatendo esse conflito, mediante as políticas postas em práticas pelos EUA? O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, cujo favorecimento não foi somente político, mas econômico, tinha interesse em fazer fracassar esse acordo. Ao mesmo tempo, as marcas e cicatrizes de tantos anos de luta e de vítimas desse enfrentamento, naturalmente deveriam servir de alerta ao governo colombiano. Não se fazia necessário tal plebiscito, e ele perde força na medida em que a abstenção chegou a 60%, mas não pode ser negado como mecanismo institucional, o que dá um nó nas articulações para se por fim a esse conflito. Para onde irá a Colômbia?
Mas a estupidez, em todos esses casos citados acima, foi o sentimento motivador dessas atitudes. São decisões políticas, inevitavelmente. Opções encontradas para definir futuros políticos de países e regiões. Mas quem disse que decisões políticas também não podem ser estúpidas? Claro que podem. Em tempos de redes sociais, de informações céleres e fragmentadas, e da manipulação que se faz desses mecanismos de relacionamento, a idiotização das pessoas tem sido uma marca desse tempo. Essa não é uma constatação motivada somente por um olhar ideológico à esquerda. É também por isso, pois não se espere isenção de opiniões e de artigos que analisam decisões de caráter político. Contudo, basta um pouco de equilíbrio e sensatez para se observar que determinadas decisões são um caminho inequívoco para acentuar conflitos e ampliar crises dentro da sociedade. O que temos visto nos últimos anos, é a derrota da política. E a derrota da política traz como consequência a violência, a ampliação dos conflitos, a guerra.
Existem motivações para transformarem as pessoas em um rebanho de gado que segue cegamente em uma direção, quando do estouro da boiada, de forma descontrolada. Há de forma arquitetada e planejada, com objetivos estratégicos definidos, interesses políticos reacionários que visam manter os indivíduos, e a sociedade, como uma massa alienada, estúpida na forma de raciocinar e vingativa na reação ao que para ela é apontada como o que pode ser responsável por seus infortúnios. Mesmo que  isso não seja verdade. Mas uma massa cega, incontrolável, ela pode ser num primeiro momento um instrumento eficaz para destruir sonhos, até mesmo daquilo que só pode ser construído lentamente, e que tenderia a lhe favorecer. Ela pode inclusive vir a apoiar e a endeusar indivíduos perversos, com visão de mundo preconceituosa, que não vacila em eliminar os que segundo eles sejam diferentes e com maneiras de agir com as quais eles discordam. Os governos fascistas se beneficiaram dessa volatilidade das massas populares, e as manipularam de forma a apoiá-los em atitudes odientas e criminosas. Ela pode, mesmo que democraticamente, ser também o instrumento pelo qual decisões estúpidas podem transformar um país num caos.
Por que o processo eleitoral brasileiro também pode ser enquadrado nessa lógica? Ora, basta ver o resultado. As pessoas votaram cegamente – ou não votaram – induzidas por uma guerrilha midiática que fez dessas eleições, uma das mais incompreensíveis, se analisarmos a história recente do país. Um discurso moralista, ético, mas fundamentalmente hipócrita, centrou seus ataques na tentativa de marcar um partido como o responsável pela corrupção que caracteriza todo o sistema eleitoral brasileiro. E as massas assim cumpriram seu destino, como na debandada da boiada. Condenaram um partido, não pelos seus erros, mas pelo que se apontaram de seus erros. E negaram todos os seus acertos e avanços que influenciaram na transformação social brasileira nos últimos 15 anos.
Mas por que há um perverso equívoco nessa vingança? Simplesmente porque não se julgou por completo o sistema político, nem muito menos a perversão que em si representa o sistema capitalista e possibilita esses desvios morais, éticos e de caráter. Se listarmos todos os envolvidos nos casos de corrupção que se tornaram públicos e que estão sendo investigados, e não somente a Lava Jato, veremos que praticamente todos os partidos estão envolvidos. Com algumas honrosas exceções de pequenos partidos ideológicos. No entanto, quando olhamos o resultado eleitoral identificaremos que aqueles grandes partidos responsáveis por casos escabrosos de corrupção, e com lideranças já acusadas e apontadas pela Procuradoria da República como comprovadamente corruptos, veremos que à exceção do Partido dos Trabalhadores, todos os demais ampliaram suas participações no espectro político brasileiro. Ora, onde está, então, a coerência de se negar votar em um partido, carimbado por uma mídia que se envolveu diuturnamente por meses no golpe que destituiu uma presidenta, como corrupto, a pretexto de se “limpar” a política?
Não há coerência. Não se votou com coerência. A motivação para a aversão a um partido é decorrência de uma campanha orquestrada, de caráter nitidamente ideológico, e com objetivos estratégicos também definidos, de retomada do poder por parte de uma elite reacionária que não está absolutamente preocupada com os destinos do povo brasileiro, senão da garantia de manter suas regalias e seus interesses gananciosos.
PP (Partido Progressista); PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro); PR (Partido da República); PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira)... estão entre os partidos que mais obtiveram resultados positivos nessas eleições, mas são também os partidos mais citados em casos de corrupção. Se analisarmos o perfil dos candidatos, eleitos ou não, constataremos facilmente que a política medíocre, em toda a sua essência, sagrou-se vitoriosa nos objetivos propostos por quem construiu toda essa perversão. O país marchou para traz, recuou àqueles tempos em que a população votava nos menos piores, com candidatos escolhidos pela ditadura militar dentre aqueles que não importunaria suas decisões. Ou não votou, o número de abstenções é recorde, lavaram as mãos, e esses optaram por deixar que aqueles tomassem decisões estapafúrdias. Mas não se pode condená-los, é uma decisão gerada por decepção e descrença.
Há um objetivo nisso tudo. Desacreditar a política como elemento crucial para definir nossos destinos. Alienar as massas populares a partir da identificação de que seus sonhos fracassaram ao apostar em quem lhes prometiam menos desigualdades e mais melhorias sociais, porque esses buscaram se beneficiar nas estruturas do Estado. É essa uma verdade hipócrita, trágica por ser aceita pela população, porque se volta contra ela própria, e foi construída por quem age de forma vil na manipulação do que é real. E absolutamente direcionada a não permitir que essas mesmas pessoas não identifiquem que do outro lado a corrupção, a malandragem, o banditismo, funciona de forma profissional e cumulativa de riqueza construída sobre o seu trabalho.
Mas o que não se conta é que a cada ação corresponde uma reação em sentido contrário. Se os erros daqueles que ofereceram bonança à população, mas que se corromperam nas estruturas do Estado, lhes foram fatais, tendo sido as massas manipuladas ou não, o mesmo ocorrerá, quando a um certo tempo, essas mesmas pessoas, pelo acentuado da crise, perceber que foram enganadas, ludibriadas e se constituíram em fantoches nas mãos de setores que só olham para seus próprios umbigos. Em momentos de crises econômicas como o que estamos vivendo, as camadas abastadas não tomam atitudes políticas para beneficiar os trabalhadores e os mais pobres. Suas decisões são pragmáticas, calcadas nas necessidades de se manterem sempre numa estrutural social abastada. Portanto, não demorará a essa multidão perceber que o caminho que tomaram seguindo o estouro da boiada a levará para um precipício. Caberá, então, àqueles setores que ideologicamente planejam construir outro tipo de sociedade, saber adotar estratégias que possam direcionar essa multidão para o caminho certo. Tem sido assim os momentos de viradas revolucionárias na história, quando no limite das crises e das contradições, uma população oprimida percebe que só há um caminho apto a livrá-la das submissões e das manipulações das classes dominantes.
Tirá-las do torpor, da indolência, da estupidez e da intolerância não será fácil, mas as dificuldades que virão para elas abrirão possibilidades de conduzi-las, pela política, pela organização popular, pela conscientização e, acima de tudo, pela luta de classes, a construir um projeto revolucionário de uma nova sociedade. A utopia continua no horizonte.

A luta continua!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

AS VÍSCERAS DA CORRUPÇÃO E O MÍTO DE SÍSIFO

Fonte: o Globo
Quando dizemos que está havendo desequilíbrio na maneira que as notícias sobre corrupção são veiculadas, muitas vezes somos criticados por estarmos fazendo defesa dos mal feitos dos últimos governos. Essa planilha,[1] com base na delação de Nestor Cerveró confirma o que dizemos. Enfim, torna-se difícil encobrir tudo o tempo todo. Primeiro deve-se fazer uma crítica contundente à corrupção, sistêmica e endêmica. Sistêmica porque está no DNA do capitalismo, movido à ganância e usura, e endêmica porque ela está encrustrada na estrutura do Estado brasileiro e nos Estados federativos.
Mas os meios de comunicação sempre foram dóceis com governos que lhes beneficiavam, ou com aqueles cujas políticas eram direcionadas somente para os interesses da elite econômica. Eventualmente denunciavam alguma coisa, quando o governo se enfraquecia ou deixava de atender suas pressões por vultosas verbas de propaganda.
Atentem para essa planilha e vejam que a venda de uma refinaria na Argentina gerou seis vezes mais propinas do que a venda da refinaria em Pasadena, nos EUA. Dois crimes de corrupção que devem ser punidos, seguramente, mas quantas vezes a mídia falou dessa venda da refinaria da Argentina, feita no Governo do PSDB-PMDB-DEM? Eu, que lido com análises da política, tinha pouca informação disso. Pois ela representa mais da metade dos recursos destinados pelas mãos do operador Cerveró. Então... dois pesos, duas medidas.
Creio que devemos dar apoio a que essas investigações cheguem até o final, se é que isso vai acontecer. Mas que não se prenda a delações, e busquem formas concretas de punir os que efetivamente se beneficiaram de toda essa maracutaia. E que se estenda aos mesmos mecanismos utilizados para bancar as eleições de parlamentares e governadores em cada Estado. O Caixa 2, funciona aqui nesse país faz muito tempo. Muitas empresas públicas e bancos estatais já foram à falência por desvios de recursos para essas campanhas, com os devidos repasses para as contas particulares de muitos desses agentes.
Enquanto isso a educação vai de mal a pior, com professores mal pagos e escolas pessimamente cuidadas nos Estados e municípios. E a saúde enfrenta um caos no atendimento, gerado pelas dificuldades em manter unidades de saúde com tecnologias modernas, ampliação de seus espaços e melhores salários para os trabalhadores.
Tenho minhas dúvidas se isso chegará até o fim. O golpe patrocinado aqui no país teve como objetivo explícito acobertar uma quadrilha de corruptos, muito embora ela já estivesse agindo sob as barbas do governo anterior, que tem envolvidos muitos nomes que faziam parte da estrutura partidária que lhe dava apoio.
Isso torna mais grave a situação, mas não pode desanimar aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e menos desigual.
De qualquer maneira, já sabíamos como esses esquemas funcionavam, já que esse sistema político está falido faz tempos. Contudo, não devemos também ser complacente com os erros daqueles que porventura apoiamos em algum momento. E repito uma frase que ouvi de Ciro Gomes. "O erro do pecador pode ser admissível, mas do pregador é inaceitável". Em todos os casos, contudo, devem ser punidos. Mas o que escandaliza mais?
O Brasil melhorou, não há dúvidas e isso foi fruto de medidas corretas de inclusão social e investimentos na economia mediante ações do governo. Houve equívocos quando se pretendeu garantir subsídios para setores industriais e grandes produtores, ao invés de se prosseguir investindo com mais vigor em iniciativas de economias solidárias e pequenas cooperativas. E, principalmente por o governo não ter conseguido proteger o país da grave crise econômica mundial. Essa seguramente a tarefa mais difícil, pela dependência nas importações de commodities.
Mas, pelos números que surgem sobre os desvios de recursos públicos, e sabemos que esses montantes podem ser infinitamente maiores se investigações semelhantes forem feitas nos Estados, vamos compreendendo melhor a dimensão do atraso que existe em nosso país, comparando-se com o restante dos países do mundo. Muito embora devamos reconhecer que nunca se teve tanta liberdade para se investigar como nos últimos anos, apesar da leniência do judiciário e da seletividade de algumas operações policiais e do Ministério Público.
A corrupção é uma gangrena que tem impedido o “paciente” de se desenvolver a níveis adequados e a garantir melhores ritmos de inclusão social e do fim das desigualdades. Este paciente é o Brasil, mas a vítima fatal é o povo brasileiro, notadamente os mais pobres, a imensa maioria da população, imersa em uma estrutura social perversa, violenta e desigual.
É preciso romper com essa estrutura, que advém da dominação colonial e criou um caldo de cultura que flerta com esses desvios e faz da corrupção também uma patologia social, a desafiar as pessoas a comportarem-se com dignidade, levando as que agem assim a serem vistas como heróis em um mundo de desonestos. Quando a manifestação de honestidade deve ser uma característica permanente e normal na sociedade.
Vivemos nesses tempos turbulentos como no dilema de Sísifo[2]. Na mitologia grega Sísifo seria um rei de uma pequena província que, espertamente, ousou desafiar os deuses em uma trama que nos lembra os bastidores da nossa política, sofrendo punição por isso. Sua pena foi ter que, para o resto da vida, empurrar uma enorme pedra montanha acima. Ao chegar lá cansado ele não conseguia impedir que a pedra rolasse montanha abaixo, fazendo com que ele tivesse que recomeçar o seu calvário, eternamente.
Acabar com isso que nos escandaliza, requer muito mais do que combater e punir os corruptos. Mas passa também por reeducar a sociedade brasileira a ter a capacidade de discernimento sobre esse mal que acomete o Estado brasileiro há séculos. E que, para corrigir isso se exige um fortalecimento da educação, da capacidade de reflexão crítica, do fim da impunidade e na crença de que somente com medidas altruístas, solidárias, mais coletivas e menos individualistas, e por comportamentos marcados pelo respeito ao outro, é que conseguiremos adquirir uma nova cultura de rompimento com essa estrutura política perversa.
Daí o mito de Sísifo. Quando imaginamos ter encontrado a direção para isso, um revés nos empurra montanha abaixo, e precisamos recomeçar a luta para recompormos uma sociedade fragmentada e mais intolerante, onde se destacam os oportunistas que se aproveitam da desesperança que se dissemina entre o povo.
Persistir na luta, num ambiente de descrédito, não é tarefa fácil. Mas não há outro caminho. É preciso que a sociedade não internalize a crença de que nada pode mudar. Porque a mudança é permanente, só que ela se dará na direção em que as forças políticas apontarem. Tomar a condução desse processo é a condição para fugirmos da punição imposta a Sísifo. Se outras sociedades conseguiram, porque nós não haveremos?
E, para começar, reforcemos a luta pela necessária antecipação das eleições gerais. Para presidente, deputados e senadores. Que isso possa ser decidido em plebiscito juntamente com as eleições de prefeito para dessa maneira se estabelecer um pacto político que garanta ao país corrigir esses desatinos.
Mas, sem jamais esquecer que a nossa sociedade é marcada por uma luta de classes, e que, portanto, as camadas mais pobres devem estar protegidas por meio de suas organizações e sindicatos, e lutarem para que nas próximas representações parlamentares possam estar mais presentes no Senado e na Câmara dos Deputados. No entanto, não se pode esquecer, que não é só lutando contra o Estado que se obterá sucesso, mas entendendo que a crise é gerada por uma situação estrutural, de um sistema comandado por uma minoria de ricos que controla os meios de produção e que gera essas crises recorrentes. A revolta deve ser também contra isso, pois o Estado é somente um instrumento para manter a situação sobre o controle desses senhores que dominam a economia e os faz cada vez mais ricos.
O povo não pode ficar condenado a eternamente rolar rochas montanhas acima e a correr desembestado montanha abaixo, em crises permanentes que só afetam os mais fracos economicamente. É preciso romper com essa lógica perversa.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

AS CRISES E A DESCONSTRUÇÃO DA POLÍTICA


O objetivo desse artigo é fazer duas comparações, entre uma situação crítica porque passa a economia mundial, notadamente na Europa e Estados Unidos, e, mais uma vez, como no Brasil as denúncias de corrupção afloram um discurso moralista e de denuncismo exacerbado, que se antecipa às ações judiciais e condena indiscriminadamente, de lado a lado, desafetos políticos. Nos dois casos, por meios diferentes, a desesperança e a perda da razão pela revolta das circunstâncias, atinge duramente a política, os políticos e leva à escolha das massas pelos comportamentos e atitudes mais radicais. As consequências disso são sobejamente conhecidas na história, e não foram favoráveis ao bem-estar e à vida humana.
Na maior crise econômica do pós-guerra, a Europa se vê no meio de um longo labirinto. Agora unificada e com a maioria de seus países utilizando uma moeda única, o Euro, o chamado velho continente não consegue vislumbrar uma saída para a forte decadência de sua economia, e se perde em meio a esse labirinto criado pelos próprios Estados, quando insistiram em cobrir rombos de grandes instituições financeiras afetadas pela crise que estourou em 2008 nos Estados Unidos e contaminou todo o sistema financeiro mundial.
A multidão indignada
O impasse em meio a alternativas para mudar os rumos da crise tem levado a população às ruas, e na sequência das agendas institucionais o povo tem escolhido votar em partidos extremistas, à direita e à esquerda, à semelhança (guardando-se as devidas proporções) do que ocorreu durante a crise que antecedeu a instalação de regimes totalitários no século XX (Alemanha, Itália e Espanha). Mas, as diferenças estão nas escolhas democráticas da população, e não mais na concessão do poder à tirania de um só indivíduo. A situação da Espanha foi diferente, pois a ascensão do franquismo se deu após uma guerra civil, que terminou por contar com o apoio externo de Hitler e Mussolini.
Contudo, as razões para a aceitação dos discursos mais radicais são as mesmas, dificuldades profundas na economia, desemprego em alta e adoção de medidas antipopulares, em que se preserva a riqueza e impõe aos trabalhadores os maiores ônus, de uma crise que não foi causada por eles. A xenofobia, ou a escolha de culpas em meio às pessoas de origens estrangeiras, e a intolerância, marcada por uma situação que tolhe a todos a possibilidade de exercer o consumismo, a “religião” principal do sistema capitalista, cegam as massas e as impedem de racionalizar a maneira como se dissemina facilmente o oportunismo político. Tornando-as reféns de suas próprias escolhas.
A zona do Euro sob risco
de desintegração
Vê-se o resultado disso na Grécia, com um impasse gerado pela formação de um governo que seja antípoda às medidas de restrições aos gastos e de forte arrocho salarial. Isso porque dois partidos de extrema-esquerda e de extrema-direita se destacaram nas eleições e conseguiram uma bancada parlamentar como nunca tinha acontecido. Mas não conseguem formar um governo, já que se diferenciam em seus objetivos, apesar de se unirem na proposta de retirar aquele país da zona do Euro.
Nessas eleições o Partido Neo-Nazista conseguiu um feito inédito, eleger uma banca de 21 parlamentares, agindo abertamente com o comportamento típico desses setores. A ponto de em uma entrevista com o líder partidário, os jornalistas terem sido obrigados a se levantarem no momento em que ele adentrou o recinto, sob os olhares agressivos de “trogloditas” tatuados com suas marcas tradicionais.
Na França, a extrema-direita obteve sua maior votação em toda a história francesa, também com o discurso maniqueísta e tendo como alvos prioritários cidadãos de origens estrangeiras. Na Holanda, Espanha, Itália e outros países europeus, a crise segue derrubando governos e possibilitando a eleição de partidos cujos discursos são carregados de sentimentos nacionalistas e intolerantes, na medida em que aqueles que estiveram na condução dos governos de seus países foram inoperantes e incompetentes para solucionar problemas que estão perigosamente tornando aquelas sociedades deprimidas, impacientes e à beira de aceitarem lideranças cujos discursos reacendam mesmo que uma pequena luz de esperança de encontrarem uma saída do labirinto capitalista.
O público x privado
Mas no Brasil, muito embora a crise econômica traga preocupações, já que diante de uma economia global as consequências sejam inevitáveis, o que tem afetado a população e criado constrangimentos nos meios políticos é a eterna relação promíscua entre os interesses privados e republicanos. A estrutura do Estado, tradicionalmente usurpada por mecanismos corruptores, parece ter levado ao limite a paciência de uma população que já percebe com clareza que os ralos por onde escorrem recursos públicos abrem-se também para consumir parte de seus salários, que vão, assim, carregados pelo banditismo de grupos organizados que desfilam até então impunemente pelas altas rodas da sociedade, enriquecendo-se à custa de assaltos milionários e mediante a utilização de uma rede sofisticada que envolve representantes de todos os setores que compõem a organização do Estado: executivo, legislativo e judiciário. Confunde-se, vergonhosamente, o público e o privado.
É inegável que os constantes casos descobertos demonstram que nos últimos tempos tem aumentado o grau de fiscalização dos órgãos responsáveis por isso na mesma estrutura do Estado. Isso feito tanto pela Controladoria da União como pela Polícia Federal, e mesmo pelo Ministério Público, muito embora essas duas últimas instituições tenham que cortar em sua própria carne, em função do envolvimento de membros dessas duas corporações em casos de ilícitos, como demonstrado na Operação Las Vegas. A quantidade de operações feitas por esses órgãos não tem similar na história do país, principalmente envolvendo políticos de destaques, no parlamento e no executivo em seus vários níveis, e até mesmo membros do primeiro escalão dos governos estaduais e federal.
Isso demonstra que o país, republicanamente, tem buscado soluções através de seus órgãos investigativos, em que pese a forma como a mídia trata a questão, dando a impressão para a população que esse é o momento da história com maior grau de corrupção. Quando na verdade estamos diante de um momento inédito, já que nunca se investigou tanto como agora. Isso é o que dá a sensação de aumento da corrupção.
Combater a cultura da corrupção
Mas os que conhecem a história do Brasil, desde suas origens e de como a grande política era disputada por grupos rivais regionalmente, sabem perfeitamente que as relações espúrias, o compadrio e a apropriação privada dos recursos públicos sempre ocorreram em nosso país. Mas quase nunca investigado, e quase sempre aceito pela população, que cruzava os braços aos poderes coronelistas e buscavam se beneficiar com o apadrinhamento dos poderosos políticos para resolverem suas situações particulares.
Isso gerou uma cultura da corrupção em vários níveis, da famosa filosofia oportunista do “rouba, mas faz”, e do famoso “jeitinho” que o povo encontrava de se beneficiar das ilicitudes transmitidas pelos que detinham o poder. Tornou-se uma cumplicidade consentida. Isso é visível mesmo nos dias atuais de crescente indignação e se espalha pelo cotidiano da vida na sociedade, desde atos pequenos como separar-se em filas diferentes para ver qual a que anda mais rápido; das filas duplas nos sinaleiros; das desordenadas entradas em ônibus para se sagrarem vitoriosos sentando-se nas primeiras cadeiras; da privatização dos espaços em vias públicas, e de tantos outros males culturais.
Aparentemente inofensivos esses atos são essenciais para criar uma cultura de aceitação de ilícitos maiores, dentre eles o que mais se destaca e que a sociedade finge que não existe, o famoso “Caixa 2” das campanhas políticas. Origem da maioria das quadrilhas formadas para usurpar o patrimônio público, desde as que conseguem cair nas malhas da justiça e da ira popular, como a do contraventor Carlos Cachoeira, até aquelas que envolvem maiores recursos e gente da “mais alta estirpe”, grandes empresários e banqueiros, como provado na Operação Satiagraha, que indiciou o banqueiro Daniel Dantas, salvo por duas liminares relâmpagos concedidas por um juiz do Supremo que houvera sido advogado da união na época em que os rombos aos cofres públicos ocorreram.
Veja fala de um grampo
e de um áudio que nunca foi
mostrado
É bom acrescentar que essa operação foi abortada espetacularmente. Primeiro pela apreensão “perpétua” do disco rígido de um dos computadores do contraventor-banqueiro, que permaneceu em posse de uma ex-ministra do Supremo até que a Satiagraha fosse defenestrada. E isso aconteceu com a participação de um outro ministro do supremo, já citado, aliado ao “mosqueteiro da ética” Demóstenes Torres e ao principal instrumento que essa quadrilha utilizou, as páginas de uma das revistas mais vendidas no Brasil, não tanto por suas qualidades, a Veja. A denúncia sobre suposto grampos a ouvir conversas dessas duas autoridades serviu de pretexto para defenestrar o então principal nome da Polícia Federal, Delegado Paulo Lacerda, que havia apoiado a Operação Satiagraha, contra o banqueiro Daniel Dantas. Jogo sujo, pesado, a limpar a barra de um dos maiores esquemas de apropriação de dinheiro público do país.
Esta operação sabe-se lá por quais razões, talvez somente um apego espiritual para nos fazer entender, foi arquivada e o investigador tornou-se investigado. Todas as provas, com perdão da redundância, que comprovavam o roubo de recursos públicos no processo de privatização de grandes empresas e outras falcatruas, foram simplesmente consideradas nulas, pois teriam sido obtidas de forma ilegais. Ora, mas elas não provavam que o roubo acontecera?
No entanto, apesar de tudo ter sido provado, a nulidade do processo não teve na opinião pública nenhuma reação. Muito embora os valores envolvidos sejam infinitamente superiores ao que leva agora ao banco dos réus mais de uma dezena de suspeitos em vários crimes comandado por um contraventor do jogo do bicho, fachada para toda a roubalheira investigada. Para conter a indignação popular, tal qual ocorre no momento, teve papel fundamental as capas da revista citada, que se descobre agora ter uma estreita relação com os dois chefões investigados.
A operação Satiagraha não foi adiante
como a Monte Carlo. Porquê?
Talvez seja crível dizer que somente Freud possa explicar o comportamento distinto das pessoas em situações que são semelhantes. Mas a explicação aí deve ser mais política do que psicanalista, além da sabida manipulação midiática. Tanto essas, quanto a maioria das denúncias, infelizmente, transformam-se muito mais em instrumentos nas mãos de desafetos políticos, a exercerem suas vinganças não conseguidas pelo voto. Percebe-se muito mais a vontade de derrubar o oponente político, do que se buscar mecanismo de punição e de contenção de uma prática que está impregnada na estrutura do Estado brasileiro. Praticada, aliás, pela maioria dos que se dedicam a candidatar-se a um processo eleitoral, em disputas milionárias que envolvem contribuições de campanhas com boa parte delas não contabilizadas, constituindo-se no bem conhecido, mas fragilmente combatido, Caixa 2. É visível os gastos milionários nas campanhas políticas, quando o que se investe em um determinado candidato é centenas de vezes além daquilo que ele conseguirá ganhar honestamente com o seu mandato. Evidente, pela lógica de funcionamento do sistema, a conta da fatura virá depois, e será bancada por esses meios ilícitos que essas operações policiais estão a comprovar.
Aí entra outro elemento que se evita referir, pois que não há a intenção de romper com essa estrutura que garante privilégios aos que detém o poder. A evidência, clara, de que toda essa sujeira, jogada no final das contas para debaixo dos tapetes, corresponde a um vício de origem da forma como funcionam as estruturas do sistema capitalista. São problemas sistêmicos, possíveis somente de serem corrigidos com a própria superação de uma lógica política cotidiana que tem como objetivo beneficiar aqueles que detém as riquezas e controlam os meios de produção e o sistema financeiro.
As razões da crise econômica, política
e ética devem ser buscadas nas
estruturas do sistema capitalista
Mas não se vê, em meio aos indignados que se espalham ao sabor da maneira como as notícias são difundidas e ao tamanho do ódio que comportam por seus adversários políticos, nenhuma frase, faixa ou manifestações onde se aponte de forma certeira o sistema capitalista como sendo o mal de onde se originam todos esses pecados. E, muitos, de forma alienada, julgam ser esse um mal do nosso país, quando se sabe, por exemplo, que nunca foi tão grande o envolvimento em corrupção de políticos, empresários e banqueiros, nos Estados Unidos e em muitos outros países, sejam desenvolvidos ou em desenvolvimentos.
Por fim, mas não para finalizar, já que essa história seguirá despertando ódios, rancores, decepções e frustrações,há também o oportunismo que desponta em meio a essas denúncias. Junto à onda de indignação que, compreensivamente, tomada conta das pessoas, esconde-se alguns oportunistas, individualmente ou em grupelhos, que visam atacar não as causas, ou os próprios envolvidos, mas buscam manipular o sentimento da população para atacar até mesmo setores que não estão envolvidos nas falcatruas.
Como a tentarem se apropriar da bandeira da ética, como, aliás, fez espertamente o senador Demóstenes Torres, se julgam no direito de atacarem indistintamente todos aqueles que estão envolvidos na política. Trata-se não simplesmente de pessoas simples do povo, cuja desesperança afasta-as naturalmente da política. Mas de grupos (muitas vezes organizados politicamente, mas que assim não se assumem) que se escondem em meio à multidão e nas sombras das redes sociais, para alimentarem o ódio pela política e a tal qual se deu na década de 20 do século passado, instigar a intolerância, a caça às bruxas e a generalizar as acusações.
Filme que mostra como
surge o fascismo
Esses grupelhos, que não aparecem de forma organizada, ou alguns se assumem como adeptos do anarquismo, mas não da forma como os teóricos dessa tendência se preocuparam em combater os sistemas econômicos, e não somente a política, terminam por agirem da mesma maneira como procederam, principalmente na Itália, os grupos fascistas que levaram Mussolini ao poder. Seus alvos, além da política e dos partidos generalizadamente, são também os comunistas. E apostam na despolitização das massas para tentarem criar um ambiente que possibilite, a partir das desesperanças, levarem-nas a apoiarem qualquer aventureiro cujo discurso ultra-radical contemple suas frustrações. Quase sempre esses grupos se apresentam com um discurso de extrema-esquerda, e não obtém sucessos no âmbito das disputas democráticas.
Vivemos, assim, um momento de profundas contradições. Crise econômica nos Estados Unidos e Europa que potencializa situações em que a intolerância desperta as frustrações e o desespero pela falta de emprego e de perspectivas futuras, e aqui no Brasil, onde economicamente passamos por um período de expansão e crescimento, mas cujas deliquências políticas, tradicionalmente ainda vigorando, nos mantém tensos e incertos quanto ao nosso futuro. Ou a dúvida sobre quem será beneficiado com todo esse crescimento.
Documentário com imagens
que mostram as mudanças
no mundo no século XX
E, no meio de tudo isso, a necessidade de estarmos vigilante, principalmente aqueles que conhecem o processo histórico e os exemplos de situações parecidas que levaram a humanidade para rumos indigestos, e buscarmos o convencimento das pessoas de que não é banindo a política que esses problemas serão corrigidos.
Só haverá saída no âmbito da própria política. E é sempre assim, mesmo que no advento de um processo revolucionário. Sair dele será também um exercício de apaziguamento das diferenças e de acordos selados pela política. O que as pessoas não podem abdicar é da capacidade de discernir o joio do trigo na escolha de quem irá lhe representar nos parlamentos ou na condução das administrações públicas.
Recusar-se a essas escolhas, motivado pela desesperança e incentivados por quem queira se aproveitar desse momento em aventuras abstratas, só irá beneficiar quem tem a riqueza, afasta mais ainda os trabalhadores da vida política e nos mantém reféns de nossos próprios vícios.
Ao mesmo tempo, é essencial compreender que a solução definitiva para esses males passa necessariamente pelo combate a um sistema que tem na ganância e na usura a base de suas transformações. Enquanto a cultura que prevalecer na sociedade for aquela onde o consumismo é o motor a motivar as pessoas, a individualmente buscarem formas de serem felizes tentando alcançar um estilo de vida individualista, egoísta e que sempre exige o esforço em busca de cada vez mais dinheiro, dificilmente poderemos acreditar que as gerações futuras terão um ambiente mais saudável e honesto para viverem.
Jornal da época repercutem
o golme militar de 1964
O problema maior da sociedade contemporânea, e que se espalha pelo mundo desde os condomínios fechados luxuosos às mais modestas habitações, é a vontade de ampliar sua riqueza ou de enriquecer, fortalecendo a lógica que nos impõe essa busca desenfreada por mecanismos lícitos e ilícitos de acumular dinheiro. As crises políticas são consequências e não as causas de todos esses crimes e tentativas de burlarem os mecanismos – frágeis – do aparato jurídico do próprio sistema.
O desafio é saber como combater, em meio não somente à frustração popular, mas ao oportunismo político que desponta, quando certos acusadores escondem entre seus desejos a vontade de ocupar o lugar daquele acusado. O discurso moralista, ou a tentativa de apontar a era do caos, aumentando o medo e a desesperança nas pessoas, também deve ser visto cuidadosamente, pois pode induzir a multidão a cometer injustiças com acusações fabricadas, ou potencializar a ascensão de lideranças fascistas cuja prática distancia-se da democracia e visa impor a centralização de um poder conservador, ditatorial com base na intolerância política.
Enfim, o discurso moralista, anticorrupção sempre foi instrumentalizado e o povo manipulado, vide o golpe militar de 1964. É fundamental nos indignarmos com os desmandos na política, e principalmente com a perversidade da lógica sistêmica capitalista, mas é essencial mantermos nossa memória viva, e não esquecermos o que aconteceu no passado, porque ele nos ensina.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A REVISTA VEJA, O BARÃO DE MUNCHAUSEN E A ANENCEFALIA

Peter Pan, da “terra do nunca”; Alice, do “país das maravilhas”; Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro da triste figura com o seu leal Sancho Pança e o fiel cavalo Rocinante. Desses quase todos nós temos um mínimo conhecimento, já que em algum momento de nossas infâncias esses personagens fizeram parte do universo juvenil. Mas o que dizer do exagerado Barão de Münchhausen? Poucos o conhecem, mas suas fantásticas aventuras seguramente encontram forte concorrência quando no final de semana buscamos jornais e revistas para nos informarmos. Registre-se que isso se torna cada vez mais difícil.
Para os que ainda não conhecem, Karl Hieronymus, um ex-oficial alemão, o famoso Barão de Münchhausen teve suas fantásticas aventuras, fantásticas e terrivelmente exageradas, retratadas por Rudolph Erich Raspe, e publicadas em Londres no ano de 1785. Também o cinema o imortalizou com o filme “As aventuras do Barão de Münchhausen”, por sinal uma comédia no estilo Monte Pyton, bastante divertida. Um de seus feitos mais hilários, e escandalosamente mentiroso, contados sempre a partir dos relatos de suas aventuras, se deu quando ele inadvertidamente se viu, juntamente com o seu cavalo, preso a um banco de areia movediça; sem se desesperar, apesar de estar afundando lentamente e sem perspectiva de ajuda próxima, só lhe restou um aguçado estado de espírito bastante equilibrado e uma esperteza inédita. Sem vacilar, quando já próximo de ser coberto pela areia, trançou suas pernas na barriga do cavalo, ergueu as mãos sobre a cabeça, puxou o cabelo em forma de trança para cima, e usou de toda a sua força, para não se sabe como, ir sendo içado lentamente até se ver livre do infortúnio movediço.
Seguramente não dá para acreditar, mas o famoso Barão fez um enorme sucesso entre o público juvenil contando essas suas histórias. Claro, uma platéia sempre receptiva às fantasias, sendo uma época de nossas vidas que imaginamos uma vastidão de mundos, todos construídos virtualmente. Ninguém pretendia investigar as lorotas do Barão, mas ouvi-las era um divertimento.
Ao ver a capa da revista Veja desta semana veio-me a mente as lembranças das fantasias espetaculares do Barão. Mas, é claro que se podíamos enxergar em suas divertidas histórias contos desprovidos de más intenções, mas somente divertimentos, não podemos dizer o mesmo em relação a essa publicação. Porta-voz do que há de mais reacionário na sociedade brasileira, essa revista se escora no fato de contar com leitores assíduos gente em sua maioria oriunda das classes médias altas e da elite, cujo comportamento é marcado por um discurso moralista e hipócrita, que esconde uma prática oposta, como no caso Cachoeira-Demosthenes Torres.
As escutas da Operação Monte Carlo denunciaram uma articulação entre o chefe da sucursal da Veja em Brasília e Carlinhos Cachoeira, mostrando que praticamente todas as denúncias apontadas por essa revista nos últimos anos teve nesse mafioso a principal fonte. Percebia-se que o objetivo era desestabilizar o governo federal, mas não somente este, como outros governos vinculados a partidos de esquerda. Como no caso de Goiânia, cujas articulações demonstram que era Cachoeira o grande artífice das denúncias de supostas irregularidades no Parque Mutirama. O que se pretendia, logicamente, era fragilizar esses governos e possibilitar a ascensão de políticos ligados a essa máfia.
É histórico, faz parte da memória política no Brasil, a maneira como o discurso moralista impregnou a política brasileira. É fato, contudo, que a corrupção está entranhada nas estruturas do Estado brasileiro, e na verdade é um componente da maneira de funcionamento de todos os estados, principalmente no capitalismo, onde a ganância é um fator estimulante para os desvios éticos e a desonestidade.
Aqui, em particular, origina-se no período colonial, naquilo que Darcy Ribeiro identificou como o compadrio, fortalecido com a maneira como no império o poder político foi dividido, e os interesses do Estado confundia-se com a influência do grande chefe político regional, para quem todos passavam a clamar por favores. Sempre resolvidos mediante a expropriação dos cofres públicos. O povo acostumava-se sempre a buscar esses favores, e entregar seus filhos para o apadrinhamento dos “coronéis”. Historicamente permanece uma cultura em que se procura obter benefícios mediante o assalto ao tesouro público, desviando-se verbas que deveriam ser devidamente aplicadas em áreas extremamente deficitárias, como saúde e educação.
Mas não se imagine que esse discurso moralista tem como objetivo acabar a corrupção. Essa é uma forma hipócrita da mídia conservadora e dos partidos as quais ela apoia enfraquecer seus adversários e atingir o poder, para fazer mais do mesmo. O discurso moralista sempre foi um instrumento de manipulação das massas. Essas despolitizadas, ou completamente alienadas quanto aos conteúdos ideológicos que movimentam a política, são extremamente sensíveis a essa defesa da moral, principalmente devido a formação religiosa. É comum ver algumas pessoas falarem que a sociedade depende da religião para manter os valores da honestidade. Ora, mas essas pessoas flagradas em corrupção e até mesmo em outros crimes mais hediondos têm, todas elas, suas crenças religiosas.
A questão não é essa, da formação da moral religiosa como alternativa, porque foi exatamente o protestantismo que abriu espaços para isso, na tentativa de expandir as possibilidades de enriquecimento que antes do capitalismo era uma espécie de concessão da igreja católica. Abriu-se a ganância mediante a crença de não ser pecado a busca pelo enriquecimento, e aí foi impossível controlar a usura e o oportunismo político para se atingir tal objetivo.
Logicamente os setores reacionários sempre serão beneficiados, na medida em que os partidos políticos são rejeitados, a exemplo de uma frase exposta em uma faixa na manifestação que pedia o afastamento do governador de Goiás: “o povo unido, não precisa de partido”. Aparentemente pode ser visto como anarquismo, mas na essência constitui-se em um comportamento que historicamente possibilitou, no acirramento das crises, condições para o surgimento de regimes totalitários, pois aumentam o desânimo das pessoas. Afinal, os partidos políticos compõem a essência da democracia ocidental, e não parece que, mesmo diante de fatos graves de corrupção endêmica, existam modelos alternativos que possam garantir liberdades individuais e coletivas à população. Sequer há a possibilidade de acontecerem mudanças que não tenham nos partidos políticos o protagonismo necessário. Assim são facilmente iludidas e transformam a política em um ambiente que iguala a todos, mas deixa caminho aberto para a fascistização da sociedade .
Exatamente por isso revistas como a Veja apostam na espetacularização dessas notícias, e utilizam, como a resgatar o velho “lacerdismo”, essas denúncias como fator de desestabilização política. Mais do que isso, no entanto, usa de farsas e das estruturas mafiosas para confundir a opinião pública. O que se vê na matéria da revista é a complementação de uma estratégia que já estava explícita em outros órgãos da mídia conservadora, como o Estadão e O Globo. Uma tentativa de estabelecer uma relação entre o julgamento das denúncias do Caixa 2, apelidado por essa mesma mídia como “mensalão”. Denúncias que, aliás, começaram com uma gravação feita pelo próprio Carlinhos Cachoeira, demonstrando que há anos essa figura passeia fantasmagoricamente pelo submundo da política.
Mas qual a razão, verdadeiramente da estratégia aparentemente ofensiva da Veja? Ora, o fato de o chefe da sucursal de Brasília ter sido flagrado nas conversas com Carlinhos Cachoeira, pois ele era a principal fonte dos “escândalos”, muitos deles fabricados para atender interesses escusos.
Mas se percorrermos os jornais, grandes e micros, dessa última semana, ver-se-á uma reação semelhante. Ocorre que boa parte das “fontes” desses órgãos são, quase todas, suspeitas. A maioria repassam informações porque ou estão sendo investigados, ou porque foram menosprezados em alguma transação política. Alguns são elementos completamente comprometidos com o submundo da política e do crime, como no caso citado. De certa forma agem como fazem os “alcaguetes” da polícia, marginais infiltrados na própria marginalidade. A diferença é que no caso das fontes policiais o marginal sabe que não pode enganar (embora isso aconteça) e a polícia tem dados e provas que podem checar a informação.
No caso de uma mídia mal intencionada, cujo intuito é “detonar” adversários, a “fonte”, omitida sempre, passa a se constituir em personagens insuspeitas, pelo fato de escondê-las sob o argumento de “sigilo da fonte”. A priori ela é “honesta”. Às vezes, mentiras deslavadas, em situações que pequenas informações transformam-se em acusações escandalosas, tornam-se manchetes bombásticas, que após cair no senso comum espalha-se tal qual rastilho de provas, e as deduções assumem forma de provas incontestes. Como nas caças às bruxas, a histeria coletiva assume a proporção de ato condenatório e dissemina-se de maneira descontrolada, saindo de especificidades – em casos em que verdadeiramente há crimes – para condenações não mais dos políticos envolvidos, mas de todos os políticos, e, o que é pior, da própria política. Paradoxalmente, torna-se uma arma política.
A generalização cria uma crescente aversão à atividade política e deixa um vazio que não pode ser preenchido, causando uma situação que abre a possibilidade de ascensão de governos cada vez mais reacionários, “caçadores de marajás”, e indivíduos que se escondem por trás de um discurso que foi construído pela estratégia da desilusão. O povo, revoltado, sai da situação de agente de transformação progressista e constitui-se em massa de manobra, contribuindo para o aparecimento de regimes totalitários e fascistas. O discurso hipócrita pode, dessa forma, sagrar-se vitorioso, muito embora não o seja a população.
Tudo isso é devidamente planejado e tem um objetivo definido, a construção de um país que atenda aos interesses corporativos midiáticos e de uma estrutura de poder conservadora que represente a ganância de grandes corporações, principalmente aquelas vinculadas principalmente aos Estados Unidos. Por isso, sempre, a difusão de um permanente provincianismo, de eterna valorização do estrangeiro e de desmoralização dos valores nacionais.
A capa da revista Veja desta semana representa, em essência, essa calhordice dos trópicos e o saudosismo de épocas de trevas políticas e de falta de democracia. Na medida em que histrionicamente busca confundir a opinião pública, com o intuito de ver-se livre das investigações que a colocam na mesma cachoeira de lamas que há um mês foi descoberta pela Polícia Federal. É sintomático o fato de essa ter sido uma investigação que não foi antecipada pela mídia, simplesmente porque quem estava sendo investigado era sua própria fonte, e ela própria, essa mídia pode se constituir em ré no processo, na medida em que estabelecia uma relação imoral, amoral, antiético e cúmplice, em um esquema mafioso que se apresenta com tentáculos surpreendentes. E, creiam, não atinge somente a Veja.
Mas as lorotas da Veja deixariam, caso vivesse nos dias de hoje, o nosso personagem citado no início do texto, o Barão de Munchausen, como um reles contador de histórias. Ele próprio, talvez não se desse mais ao ânimo de prosseguir com seus contos fantásticos, se envergonharia de ver como a concorrência se beneficiava de certa falta de massa encefálica em leitores descerebrados e alienados, mas que juram serem dotados de capacidades midiáticas investigativas. Fica a dúvida: será que daqui em diante, com a decisão do STF em permitir o aborto nos casos de anencefalia, diminuirá o número daqueles que acreditam nas lorotas da Veja?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O DOM DE (SE) ILUDIR

Cresceu nos últimos tempos, a partir de uma permanente campanha da mídia, uma forte aversão à política. De tal maneira isso tem sido generalizado que certamente desestimulará muitas pessoas honestas de se colocarem à disposição para uma candidatura, de forma a levar adiante lutas que são travadas no cotidiano de suas categorias e também contra as injustiças sociais. Mas, creio, esse é o objetivo de tal campanha. Criou-se, assim, um senso comum, e a política passou a ser vista como o canal por onde se esvai o dinheiro do povo, devido a inúmeros casos de corrupção
Tornou-se comum em insossos programas de humor, escolher como alvos, políticos, e os tornarem ridículos perante a sociedade. Aqueles com perfis mais conservadores, alguns cuja ascensão a política se deu mediante uma farta conta bancária, por possuir fortes doadores de campanha ou por terem se aproveitado das regalias do poder para enriquecerem escandalosamente, são os principais alvos, cuja imagem passa a ser vendida como se definisse o perfil de todos que atuam na política.
É evidente que tais personagens da política, alguns que já se tornaram folclóricos, e, como se diz popularmente, viraram “sacos de pancadas”, carregam todas essas culpas, e deveriam, se a justiça brasileira não fosse além de cega, extremamente parcimoniosa, pelo menos serem investigados e julgados pelas inúmeras suspeitas que recaem sobre eles.
Mas isso não pode ser generalizado, e muito menos servir como instrumentalização para transformar a política em um ambiente movido pela ambição onde todos, indistintamente, podem ser achincalhados e tidos, aprioristicamente, como contumazes salafrários.
Os que agem dessa forma, empunhando a espada de dâmocles prestes a ser solta sobre a cabeça de todos e todas que optam por assumir uma candidatura em algum parlamento, tornam-se instrumentos de forças conservadoras, para as quais quanto mais fragilizado for o poder legislativo melhor será ele dominado pelos poderosos interesses corporativos. A generalização torna pequenos e frágeis aqueles que movidos por questões ideológicas e preocupados com a defesa de valores humanos e comunitários, engajam-se numa luta extremamente desigual num parlamento dominado por representantes do grande capital, dos latifundiários, das corporações.
Ademais, os políticos não se constituem em uma categoria. Os parlamentos são compostos por representantes de vários setores, e tem em sua maioria empresários, advogados, médicos, engenheiros, fazendeiros, professores – em alguns casos juntam-se várias categorias em um só – e poucos, pouquíssimos, operários e camponeses. Alguns, é certo, assumem o parlamento dispostos a usarem de seu mandato em benefício próprio e/ou corporativo. Mas, nem todos, porém, podem ser condenados por desvios de caráter, mesmo os que detêm um perfil conservador que os afasta dos interesses populares. Nem essa opção os tornam marginais, ou corruptos por natureza. Assim como não faz de quem assume a posição de esquerda um santo, já que no decorrer de sua vida também pode atravessar a linha demarcatória que o difere dos chamados “políticos fisiológicos”, seduzidos pelas benesses do poder e dos dengos que lhes fazem os poderosos.
Digo isso, então, para que saibamos bem discernir o joio do trigo, como no dizer bíblico. A onda antipolítica, que segue a campanha midiática, afasta as novas gerações das atividades políticas e deixa o caminho aberto para as velhas raposas e para os seus herdeiros, que assumem a condição de sucessores de impérios construídos à custa do aproveitamento do cargo e da proximidade com o poder.
Que não se julgue muito esperto quem vive a repetir essas ladainhas, como se fosse o mais experiente eleitor da face da terra, e o indivíduo mais consciente das redes sociais. Não resistirá a um teste de ingenuidade, e se verá como um propagandista de causas conservadoras.
Isso não quer dizer que não se deva apontar as mazelas que são feitas, mas que se dê mediante a indicação que tais indivíduos servem a determinados interesses. Que se aponte quais são esses interesses e avance fundo a identificar que a democracia no capitalismo é uma ilusão, embora não se consiga encontrar um meio mais adequado à estrutura de funcionamento desse sistema e da forma de funcionamento do Estado. Sendo assim, deve-se, ao invés de campanhas negativas da política, identificar quais aquelas lideranças merecem ser consideradas honestas o suficiente para apostar em sua ascensão, e propagandear mediante a escolha de propostas que visem minimizar os problemas que causam enormes desigualdades sociais.
É possível encontrar pessoas com esses perfis. Basta observar a honestidade e o caráter, o histórico de vida, a trajetória de luta e o envolvimento em causas sociais. Alianças políticas não se incluem nessas características, pois elas fazem parte do próprio “jogo democrático” e quase uma imposição no sistema parlamentar legal. Embora nem todos estejam imunes de serem picados pela famosa “mosca azul”, não há outro mecanismo de se fortalecer as lutas populares e escolher políticos mais confiáveis.
É ingênuo também condenar somente os políticos por usufruirem de com o dinheiro do povo. Isso é feito, repetidamente, até mesmo nas redes sociais por meio de um instrumento, por exemplo, o Facebook, que recentemente aderiu ao mercado de ações e tem o seu valor bilionário que suplanta em cinco vezes o que vale uma poderosa corporação, a Ford. Essa é a incrível contradição, usamos de uma arma que facilita a luta contra as mazelas do sistema capitalista, no caso a política tal como é feita (dentre outros combates), e contribuímos para construir duas megas corporações da internet, o Google e o Facebook. Que transformam tudo isso em dinheiro... muito dinheiro. Vejam só como vivem nababescamente os criadores do site Megaupload, recentemente alvo das ações do FBI, a polícia federal dos EUA.
Celebridades e jogadores de futebol ganham fortunas. Quem paga isso tudo? Os que ficam se “divertindo”, mas pagando indiretamente esses salários milionários. Ganhos absurdos, que equivalem a centenas de vezes o que ganha um professor. E muitos dos que abrem baterias contra os políticos ficam extasiados quando se deparam com esses “ídolos”, endeusados pelo mais miserável dos indivíduos, por quem muitos dariam a vida, mas cujos parcos salários sequer é suficiente para chegar à metade do mês.
Não se deve alimentar ilusões, pagamos não somente o que os políticos ganham, mas tudo o mais que gira na sociedade capitalista. E muitos pagam, inclusive, pelas mordomias e riquezas, algumas delas ostentadas em condomínios luxuosos, de vários chefes do tráfico de droga. Que não se resume às miseráveis pedras de craks, mas, principalmente, pelas disputadas gramas de cocaínas, nas classes médias e alta burguesia. É óbvio, quem consome essas drogas, pagam esses marginais que usufruem desses luxos.
E a cultura que esse tipo de sociedade cria faz reforçar cada vez mais a alienação e a hipocrisia. Apesar da graça em piadas que “esculhambam” os políticos, elas alienam e só reforçam estigmas e preconceitos.
Sarney, por exemplo (um desses que construiu um império na política) já virou saco de pancada. Mas continua, do alto de sua experiência octogenária, a comandar o Senado da República. Um sinal de que essa campanha não atinge o objetivo que se imagina ter. Outro alvo conhecido, Jáder Barbalho, acaba de ser reentronizado no Senado, onde permanecerá por mais sete anos, apesar de ser um dos alvos da lei ficha limpa, mas que mesmo assim foi o mais votado no seu Estado.
Enquanto isso cresce o número de milionários aqui no Brasil, muito embora não representem nem mesmo 1% da população. A maioria não produz nada, explora com competência o trabalho alheio. Inclusive pastores, que acumulam enormes riquezas. Não é preciso apontar nomes. Cada um dos leitores seguramente tem um exemplo para citar e isso já foi divulgado amplamente. Mas de onde é que sai o dinheiro que tornam esses indivíduos, novos empresários, banqueiros, jogadores, todos os tipos de celebridades e negociantes da fé, milionários?
É evidente que tudo isso é pago pelo dinheiro que circula nas mãos de todos que compõem a sociedade. Não há riqueza que não tenha sido construída através da exploração, escravista, servil e capitalista, das pessoas. Elas surgem e crescem mediante negócios de várias formas, inclusive dos escusos, tráfico de drogas, contrabandos, prostituição, crimes de todo tipo, mas, principalmente sobre o trabalho alheio. O enriquecimento se dá para quem comanda esses negócios.
Recentemente criou-se uma febre de crítica sobre o BBB, nefasto programa que deveria chamar-se “zoológico humano”. Mas pouco se disse a respeito de outro desses “reality shows”, uma outra aberração que mostra o “cotidiano(?)” de ricas “peruas”: “Mulheres Ricas”. Algo que deveria agredir e indignar os que se dispõem a construir uma visão crítica. Mas porque a reação foi diferente? Porque se construiu uma cultura de que isso é normal. É aceitável. E o que torna essas pessoas ricas decorre de “trabalho duro”, dos pais e avós, etc... etc... etc... Então não incomoda. Por isso a revista Caras é uma das mais vendidas, porque vende (desculpem a redundância) as imagens de personalidades “bem sucedidas”. E que ganham dinheiro também ao se exporem. E quem paga isso?
Ora, existem políticos salafrários, que constroem riquezas às custas do poder que lhe é concedido pelo povo? É evidente que sim. Mas que não se fechem os olhos a essas outras aberrações e não transformem a política numa espécie de “Geni”. Onde a todos é permitido jogar pedras. E se esqueçam que o mal maior é a cultura criada por uma lógica sistêmica que manipula, aprisiona e aliena a todos. Os abusos gananciosos cometidos pelos grandes financistas, banqueiros e CEOs de grandes corporações, é que tem levado milhares de jovens às ruas em várias partes do mundo, ao contrário do que acontece no Brasil cujo alvo, tem sido exclusivamente, os que atuam na política.
Mesmo num momento em que acontece a maior crise no judiciário, onde o corporativismo tentava impedir as apurações de profundas irregularidades cometidas por juízes e servidores de um poder que se pretende ser inatingível. Não se viu manifestações nas ruas contra esses abusos, bem como contra muitos outros que deveriam causar indignação, mas que não geram as mesmas comoções porque são simplesmente omitidos pela mídia. Fraudes financeiras, por exemplo, que produzem rombos enormes nas finanças brasileiras.
Orgias, roubos, manipulações, ocorrem em todos os setores que formam os pilares das estruturas capitalistas. Corporações, igrejas, bancos, mídia, tem seus escândalos escondidos, mas são rotinas por todos os cantos do Brasil e de qualquer país do mundo. Recentemente um desses escândalos, envolvendo, mais uma vez, o Banco do Vaticano, sequer foi divulgado. 
Há pouco tempo o colunista da revista Carta Capital, Walter Maiorovitch,  (http://www.cartacapital.com.br/internacional/outro-escandalo-no-vaticano/), fez uma lista de crimes envolvendo pessoas que manipulavam grandes somas de dinheiro no Vaticano, inclusive assassinatos. E relata a forma como dezenas de milhões de dólares foram transferidos para bancos nos Estados Unidos e Europa, inclusive para o J. P. Morgan, muito conhecido por ser um dos centros da crise econômica de 2008 que se estende até os dias de hoje. Mas não houve repercussão, sequer foi divulgado por outros meios de comunicação. A crise, que se diz de 2008, começou a ser gestada bem antes, já tinha os sintomas claros em 2006, mas só começou a ser notícia quando o caldo entornou.
Assim, sem saber informações sobre esquemas poderosos, altos roubos e corrupção, que afetam vários outros setores, a turba revolta-se sempre contra aquilo que é massificado pela mídia. E duas razões são para mim óbvias: esconder a podridão que sustenta essas estruturas, e reforçar uma campanha contra a política, de forma a ter em mãos dos que as controlam um parlamento fraco, dócil, e submetido aos seus interesses. De boa fé, indignados levantam-se no Brasil fazendo eco com essa campanha, e não tendo a noção exata do que comanda tudo isso, agem como alienados, pois que focam numa parte, esquecendo-se que a realidade que compõem a totalidade capitalista é muito mais cruel do que aquilo pelo qual eles se mobilizam.
Não deixemos de exigir decência na política e prisão de corruptos em casos devidamente provados, mas que não se perca o foco de onde se encontram as raízes de práticas perniciosas, de como se dá a exploração da fé e da boa vontade das pessoas, e fundamentalmente, que consigamos construir uma visão crítica de mundo que permita a todos perceberem que não são somente os políticos que usufruem e enriquecem às custas do dinheiro do povo, mas todos aqueles que conseguiram de alguma maneira construir fortunas ou situar-se financeiramente acima dos outros.
Toda riqueza é construída a partir da exploração do trabalho e da fé alheios. E não há pobreza que não seja conseqüência das desigualdades surgidas como decorrência do controle dos meios de produção, do capital financeiro e das formas de conquistar e manipular o poder em benefício de uma diminuta parcela da população. A humanidade não conseguirá solucionar todos os seus problemas demonizando a política, ela é necessária para que a força não suplante a capacidade de diálogo e de permanente busca por consensos, só precisa deixar de ser um odioso instrumento para beneficiar uns poucos em detrimento da maioria das pessoas.
A luta, portanto, deve mirar também, e principalmente, nos alicerces que sustentam uma estrutura social falida. Só assim, será possível construir um outro mundo.
Foto: Meirene Souza
* A propósito, quando eu finalizava esse artigo me deparei com as notícias sobre uma ação do Ministério Público do Estado de Goiás que deflagrou, juntamente com a Polícia Civil, a Operação Biópsia. Descobriu-se o desvio de milhões de reais por alguns diretores, de uma instituição filantrópica que foi criada com o objetivo de realizar um trabalho de atendimento à pessoas que não tem recursos e precisam de tratamento no combate ao câncer. Eis um dos motivos pelo qual insisto que a questão é sistêmica e o seu combate não pode ser reduzido a apenas um setor da sociedade.