quinta-feira, 15 de novembro de 2012

CORRENDO ATRÁS DA PRÓPRIA SOMBRA (II)


É interessante observar "o problema das drogas", nessas várias discussões que vão surgindo, sociológicas (a violência que se segue a elas) ou geopolíticas (pela dimensão que ela toma para além das fronteiras nacionais). Há uma absoluta ausência de abordagem sobre a forte demanda existente hoje no mercado de drogas. Não se vê uma vírgula, por exemplo, sobre para quem serve todo esse aparato industrial. Pois vou aqui ter a coragem de falar claro e botar o dedo na ferida.
É evidente que isso é um comércio, ele enriquece o traficante e o chefe do tráfico, mas quem é o consumidor desse produto? Para onde vão as drogas que transformam, por exemplo, o México em um verdadeiro inferno? O maior mercado é ali ao lado, os EUA. Quem usufrui dessa droga? Se o crack se espalha por entre a classe média e a periferia das grandes cidades e avança celeremente para as médias e pequenas, no Brasil, nos grandes centros urbanos (São Paulo, Rio de Janeiro... Goiânia, etc.), e em outros países, da Avenida Paulista a Wall Street, é a elite que consome a cocaína, pura e de qualidade, paga a preço de ouro.
É a lógica do sistema capitalista, existe uma mercadoria disputadíssima porque há um mercado consumidor fortíssimo. No meio de muitas manifestações contra os crimes do tráfico existe um enorme contingente de pessoas, de todas as camadas (no uso de drogas baratas) e das classes médias e da elite (no uso de cocaína pura, refinada) que se dedicam em seus horários de "lazer", e até nos intervalos do trabalho, a usar e abusar do consumo dessas drogas que são uma das causas principais do crime organizado. Incluindo as chamadas drogas “sintéticas”. Isso não é só alegoria de filme, é fato.
Nas baladas e nas festinhas "raves", ou em qualquer uma dessas festas, organizadas inclusive por setores engajados, nas torcidas organizadas de futebol, permeia o uso descontrolado de todo o tipo de drogas, contrabandeadas por essas quadrilhas que infernizam a sociedade. Aí se dá a iniciação. Inclusive em baladas em boates ou festas universitárias.
Enfim, a quem serve essas drogas? Quem se beneficia delas? Quem consome esse produto do crime? Acho que seria mais honesto se começássemos a colocar o dedo nessa ferida e parar com hipocrisia de somente atacar o Estado.
Numa paráfrase maldosa, possível de ser criticado por isso, ouçamos o Coronel Nascimento, do filme Tropa de Elite: O Sistema é f...!
Mas aqui eu me refiro a outro sistema, em sua totalidade. Contudo, os viciados, mesmo culpando o sistema, são em última medida os consumidores desse produto. Onde eles estão, enfim?
É preciso usar a acidez na crítica, pois é muito fácil fazer análise sociológica de tal problema e ver o inferno por todos os lados, diabos e demônios. O Estado, a polícia, os políticos. O viciado não é somente vítima. Ele é um agente ativo de uma lógica sistêmica que se fundamenta em drogar e prostituir a juventude, e de uma sociedade hipócrita que faz um discurso e esconde-se em outra prática, onde tudo é permitido porque se faz em nome da liberdade.
O sistema é f...! Ou você serve a ele ou se opõe a ele. Se drogar e ser revolucionário é incompatível. Combater o traficante e santificar o viciado também não dá. É certo que depois de viciado o indivíduo torna-se "doente", mas DOENTE É O SISTEMA! E uma doença crônica, sem cura.
É possível que um colega ao lado possa ser viciado. É lamentável, mas ele financia o tráfico. É tão responsável quanto o Estado que não o combate. Não devemos deixar de apoiá-lo e ajudá-lo se precisar, mas vai continuar sendo culpado até se livrar do vício. E sabemos que isso não é fácil. Mas na medida em que se tornou viciado ele é culpado e vítima ao mesmo tempo.
É uma roda viva. Como romper isso?
Então, deduz-se que, somente combater o traficante não é suficiente. O tráfico jamais vai acabar enquanto houver demanda. Como dentro da lógica capitalista o que acontece depois de uma mega-operação dessas feitas pelas forças de segurança é que o preço desses produtos será alterado, por tornarem-se mais escassos, e terem a quantidade posta no mercado reduzida. A cocaína, pura e de “qualidade” terá o seu preço elevado. É ela quem garante o maior lucro à essa poderosíssima indústria criminosa. Assim como a heroína e as drogas sintéticas que são disputadas nas boates sofisticadas das grandes cidades.
São mercadorias disputadas por um público ávido de sensação de prazer e de liberdade que não consegue obter no seu cotidiano estressante. Que mantêm e banca esse mercado ilícito, como assim ocorre na prostituição e no contrabando de armas, tessituras de uma mesma rede criminosa. Que, é necessário enfatizar, se mantém forte também como decorrência da corrupção que contamina a polícia. E não somente aqui no Brasil, mas no México, Estados Unidos e qualquer outro país que esteja dominado pelo alto consumo de drogas.
Não quero simplesmente culpar as pessoas consumidoras de drogas, mas é inegável que elas são instrumentos dessa lógica que movimenta o sistema capitalista. Nesse submundo juntam-se desde o alto executivo, a mais destacada celebridade, um indivíduo qualquer, ao narcotraficante. Cada um tem a mercadoria que o outro precisa: o dinheiro e a droga!
E assim, ficamos a correr atrás da própria sombra.

(*) Esse artigo foi escrito originalmente em dezembro de 2010, logo após as ações policiais que terminou com a ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, pelas tropas de segurança e deu seguimento ás instalações das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras). Que não foram suficientes para eliminar o comércio de drogas, somente garantiu a retomada de territórios sob controle de quadrilhas de traficantes fortes e bem armadas. Fiz uma adaptação ao texto, já que esse é um assunto recorrente, e agora, mais uma vez, São Paulo é o território onde se desencadeia uma nova guerra com atores semelhantes. Na próxima postagem pretendo fazer uma discussão sobre a violência generalizada e sua relação com  tudo isso.

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