quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

ESTADO, AGRONEGÓCIO E MEIO-AMBIENTE – POLÍTICAS TERRITORIAIS E O MODELO DE DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA BRASILEIRO

Nos últimos tempos o mundo tem se deparado com um desafio, muito além das preocupações malthusianas, mas que nos força a relembrar das teorias de Thomas Malthus.  A análise que indicava a impossibilidade da humanidade poder garantir produção de alimentos para uma população que crescia vertiginosamente, praticamente perde força quando passamos a conviver com a capacidade tecnológica que o mundo alcançou ao final do século XX, inclusive na possibilidade de produzir alimentos nas situações mais adversas. 

Técnicas de lidar com o solo, inovações tecnológicas que aceleram o ritmo do plantio e da colheita, insumos que aumentam a capacidade produtiva, e o crescimento da indústria química utilizada no combate às pragas (para o bem ou para o mal), colocaram por terra boa parte das questões postas por Malthus.

Mas, por outro lado, há uma lógica que impede essa capacidade tecnológica de vir suprir a contento a necessidade que existe em quase todos os continentes, principalmente África e Ásia, de reduzir o número de indivíduos que vivem na mais absoluta miséria e com boa parte deles, principalmente crianças, morrendo de desnutrição. Não tem acesso aos alimentos básicos que possam garantir suas sobrevivências.

Essa lógica é a maneira como o capitalismo transforma toda essa capacidade tecnológica em potencial produtivo visando exclusivamente a ampliação dos lucros. Assim, existe sim, uma enorme potencialidade decorrente de todas as inovações que revolucionaram incessantemente os meios de produção, mas toda essa capacidade termina servindo aos interesses mais gananciosos de acumulação e concentração de rendas.

Produzir alimentos, principalmente as chamadas commodities, mercadorias que tem os seus preços fixados no mercado internacional tem atraído muitos investidores. Traduzindo em miúdos, são mercadorias, principalmente minerais e produtos agrícolas, com pouca ou nenhuma industrialização, consequentemente com baixíssima agregação de valor, permanentemente monitoradas pelas bolsas de valores.

Esses produtos agrícolas têm seus preços fixados em dólares em nível internacional, com uma produção de larga escala, como característica principal o fato de serem produzidos em grandes propriedades e quase sempre monoculturas. Seus preços são, portanto, variáveis não somente em função da cotação do dólar, moeda padrão de referência internacional, mas também porque termina também sendo submetidas às oscilações das bolsas de valores, e, consequentemente, estão sujeitas às manipulações tradicionais que ocorrem no mercado financeiro. O Brasil tem se destacado nesse setor, como um dos maiores produtores de Soja, superando os EUA em 2017. A soja, assim, soma-se ao café, suco de laranja, açúcar e carne bovina.[1] Embora essas produções oscilem de acordo com as condições climáticas.

Obviamente, esses mecanismos que movem o sistema capitalista global, não possuem a menor preocupação em transformar toda a capacidade tecnológica em investimentos para conter o aumento da fome em várias partes do mundo, notadamente nessas que citei anteriormente. Em alguns lugares, como na região da Somália e todo o seu entorno, no chamado “Chifre da África”, a situação aproxima-se de uma enorme catástrofe, com milhões de pessoas deslocando-se para outras regiões e boa parte delas sucumbindo à fome e perdendo suas vidas nesses trajetos.

Portanto, o interesse é meramente especulativo, com base na ganância e na garantia de lucros crescentes, como de resto é a maneira como o sistema funciona. Isso significa dizer que os investimentos possíveis de serem feitos obedecem à lógica do mercado mundial, e, portanto, se a crise econômica já estava alterando os rumos do capital, isso tende a ser mais determinante no pós-pandemia, até mesmo por conta da intensificação da necropolítica, termo elaborado por Achille Mbembe, inspirado nas formulações de Michel Foucault com a biopolítica e biopoder. Uma atitude de negligência e de negação de um racismo estrutural contido nas instâncias do Estado e reforçado por uma política governamental que despreza a vida, principalmente das camadas mais pobres e desassistidas da sociedade.

Mas é sempre bom considerar que o mercado de alimentos é potencialmente lucrativo, ou, melhor dizendo, das commodities agrícolas, já não mais somente como produtos que visem atender apenas às necessidades alimentares da população, mas também porque boa parte deles passa a se constituir em matéria-prima para produção de energia, como no caso da cana-de-açúcar (embora o etanol não seja ainda uma commoditie, o açúcar o é), o milho e outros que podem passar também a serem produzidos com esse objetivo. Além de boa parte da produção de soja atender ao mercado de ração para alimentar o gado que em boa parte do mundo, principalmente Europa é criado em confinamento.

A crise econômica, que segundo a ONU levará o mundo em 2021 a maior crise humanitária desde a segunda guerra mundial,  tende a ampliar a crise alimentar em algumas partes do mundo, mas a tendência deve se manter, de os investimentos continuarem sendo feitos naqueles produtos marcados como commodities porque são os que garantem mais divisas para os países como o Brasil e possibilitam maiores lucros a quem investe no mercado de produtos agrícolas. Mesmo que isso signifique uma crescente concentração de rendas, por serem produtos de baixo valor agregado. Para o Estado Brasileiro o que mais importa é o fato de essa atividade ser a principal responsável pelo superávit na balança comercial. Além do poder político que possui esse setor do grande agronegócio, de grandes latifúndios, sustentados no Congresso Nacional por uma forte banca ultra conservadora, empoderados pelas bancadas do boi e da bala.

Como esse é um espaço com enorme potencial produtivo e com ainda uma área cultivável imensa a ser explorada, se for desconsiderado, como tem sido, a importância da biodiversidade, provavelmente poucas alterações acontecerão em relação ao crescente interesse pela aquisição de terras em áreas desse bioma, como também na Amazônia e na região de transição entre o Cerrado e a Caatinga. Essa nova fronteira agrícola já atende pelo nome de MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí, e Bahia), que tende a se acelerar quando a ferrovia Norte-Sul entrar em funcionamento integralmente. Algum dia isso deve acontecer.

A delineação desse quadro, já em curso, tem levado à aquisição de grandes quantidades de terras por empresas, e suspeita-se que até mesmo governos estrangeiros através de “laranjas”, ou como chamávamos nos anos 1980, “testas-de-ferros”, e passa a se constituir em um excelente investimento, principalmente em regiões de expansão agrícola como o Cerrado.[2]

Consequentemente os impactos que decorrerão de tudo isso tende a ampliar o processo de degradação ambiental e de aceleração da devastação desse bioma. Por mais que as pesquisas desenvolvidas nas Universidades e por algumas ONGs e institutos focados na sustentabilidade ambiental, indiquem a existência de um rico potencial da biodiversidade do Cerrado, a resposta para investimentos e o quantitativo de lucro que advirá em atividades exploradas pelas populações tradicionais, não são suficientes para se contrapor a essa lógica gananciosa e destrutiva. Especulação, grilagem de terras e violência, tendem a aumentar, seguindo uma lógica perversa que afeta há décadas a população da Amazônia.

Nos dias de hoje assistimos estarrecidos aos desmatamentos impunes na Floresta Amazônica, avançando sobre áreas de proteção ambientais e reservas onde vivem populações indígenas, com o objetivo de espalhar gado por toda aquela região. À custa de um genocídio ambiental.

Cabe a todos aqueles que vivem nesses biomas sob perversos ataques criminosos e os que estudam sua riqueza natural e importância da sua biodiversidade, insistir em apontar os riscos que isso causa e a possibilidade de futuramente boa parte desses biomas se tornarem improdutivos e desertificados. O uso excessivo da água para irrigação, por exemplo, com a utilização de grandes pivôs centrais, a esgotarem rios, córregos e lençóis freáticos, é um bom exemplo dos desatinos que se cometem sem levar em conta os desgastes inevitáveis desses excessos, como por exemplo, a salinização do solo.

Acrescente-se a isso outros interesses que estão por trás desse modelo de produção agrícola. Refiro-me agora às  disputas exercidas por corporações gananciosas, e criminosas, que inundam o campo com produtos químicos responsáveis pela ampliação dos casos de câncer, e outras doenças que causam deformidades, no Brasil e no mundo. São os agrotóxicos, venenos que eliminam pragas, mas que trazem junto um efeito perverso e profundamente destrutivo para as pessoas e toda a biodiversidade.[3] Agora que os representantes latifundiários tomaram o Congresso de assalto, já se realizam mudanças da legislação para facilitar a comercialização desses venenos.[4]

Essas corporações, a maioria multinacionais, ou transnacionais (porque o mercado de ações se globalizou), usam de todos os tipos de práticas delinquentes para burlar legislações e buscar apoio em setores políticos conservadores com o intuito de conter proibições – como ocorre em outros países – mesmo para certos produtos claramente comprovados como extremamente nocivos à vida humana. Calcula-se que cada brasileiro, em média, por ano consuma em torno de 5,2 litros de agrotóxicos, embora existam estudos que apontem para uma maior quantidade.[5]

E essas Corporações atuam não somente na área de alimentos, como é de suas características, mas em outros setores geradores de disputas internacionais e guerras como o petróleo, indústria farmacêutica e de produtos veterinários. São gigantes que possuem fortes influências em poderosos Estados-Nações, principalmente os de suas origens, como os Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha etc. Muitas delas tem seus produtos também fabricados aqui no Brasil, como Basf, Bayer, Syngenta, DuPont e Monsanto.

Como defender o Cerrado e a Amazônia em um tempo em que todos os olhares gananciosos e geopolíticos estão voltados para esses imensos chapadões de uma paisagem que dá uma impressão de pobreza, mas que esconde uma enorme riqueza? Se todas as transformações que são visíveis nos Estados centrais, ou do imenso sertão brasileiro, se deram às custas de grandes investimentos agrícolas, e com isso possibilitou um forte crescimento econômico, como frear nos dias de hoje a continuidade de um processo que se agigantou e ameaça a riqueza natural de um importante bioma? Pois se foi exatamente isso que aconteceu com a Mata Atlântica, em toda sua extensão, desde o Nordeste brasileiro até o Sudeste? A diferença é somente temporal, pois enquanto a destruição da Mata Atlântica levou séculos para atingir esse percentual ínfimo de menos de 15% do remanescente original, o ímpeto e a celeridade com que se dá a destruição do Cerrado e da Amazônia é muito mais acentuado, decorrente de todos os avanços tecnológicos e levará apenas décadas para atingir esses mesmos índices.

Esse é um desafio que se apresenta para todos aqueles que são estudiosos do Cerrado e da Amazônia, mas que compreendem também todo o processo de desenvolvimento socioeconômico desse enorme sertão brasileiro, até a metade do século XX pouco valorizado. O progresso que se vê é conseguido às custas de uma enorme concentração de riqueza, como decorrência do modelo agrícola utilizado, que causa outros efeitos colaterais. Um deles, a expulsão de quase toda uma população rural para as cidades, potencializando um crescimento desordenado das mesmas e um cinturão de miséria em suas periferias responsáveis em grande parte pelo aumento da criminalidade e do consumo de drogas que destrói o futuro de boa parte da sua juventude e mantém as pessoas reféns da violência e do medo.

Assim, são as condições criadas pela acelerada penetração em direção ao heartland brasileiro, desde a marcha para o Oeste na época varguista, até a instalação da capital federal, seccionando o território goiano, e todo o projeto de integração nacional visando o controle estratégico da grande Amazônia posto em prática por Juscelino Kubitscheck no final da década de 1950 e consolidada pelos governos da ditadura militar.

Mas foi mesmo a revolução tecnológica na agricultura o principal responsável pela transformação acelerada de um solo seco em terreno de ótimo potencial produtivo. Aliado à característica climática sem muitas alterações, dividida em duas estações, a seca e a chuvosa, propícia à atividade agrícola e à pecuária.

Desfazer essa visão de um território somente adequado à instalação do grande agronegócio, e buscar outros caminhos alternativos de desenvolvimento, que se preocupe com a conservação da biodiversidade e de outros modelos sustentáveis de produção agrícola, é uma enorme tarefa, que cabe à universidade, aos pesquisadores e a todos aqueles que lutam pela exploração democrática e não destrutiva das riquezas que a natureza possui, em benefício da maioria e em prol da construção de um mundo com outra compreensão a respeito da vida.

É evidente que a conjuntura política torna muito difícil essa tarefa. Aliado a uma crise sanitária, decorrente dessa terrível pandemia que nos aprisiona. Infelizmente, a população brasileira, majoritariamente citadina e entregue às promessas divinas de prosperidades farsescas, tem feito escolhas políticas que alimentam políticos insensíveis para essas realidades e que incentivam todo o tipo de perversidades e práticas destrutivas sobre a natureza. O povo pobre das periferias nas metrópoles, e nas pequenas e médias cidades, que empoderam esses indivíduos, são os mesmos que sofrerão as mais perversas consequências, de políticas de estado concentracionistas e tendo como alvo a produção agrícola de commodities.

Ao apostar nesse tipo de investimentos o governo brasileiro, e da maioria dos estados, abdica de uma política econômica que valorize cadeias produtivas que possuam enormes valores agregados, com altos investimentos em ciência e desenvolvimento tecnológico. O incentivo ao grande agronegócio, além de perverso para a natureza e a biodiversidade dos biomas, expulsa do campo o pequeno produtor, não agrega valor aos produtos e alimenta uma desigualdade social criminosa, com a concentração de riqueza cada vez mais nas mãos de um percentual menor de pessoas. Além de enfraquecer o pequeno produtor, a agricultura familiar e o associativismo necessário para a sobrevivência do trabalhador rural e sua permanência no campo.

Isso representa um enorme atraso para o nosso país, para o nosso povo, e já se reflete nas estatísticas que apontam o crescimento da pobreza, do aumento do número daqueles que passarão fome nos próximos anos, mas, conforme tem sido divulgado amplamente, do crescimento da riqueza de um número restrito de bilionários sem nenhum compromisso com o desenvolvimento nacional brasileiro, e certamente possuidores de contas em paraísos fiscais, e de off shores, como denunciado nos escândalos recentes conhecido como “Panamá Papers”.

Nos cabe, conhecedores dessa realidade perversa, prosseguirmos apostando na ciência, no conhecimento, nas universidades, e no fortalecimento de diversas instituições não governamentais que são incansáveis em apontar essas políticas nocivas e defenderem os biomas que estão sendo destruídos e nos levando mais rapidamente, por conta dessas ações antropogênicas, para a sexta extinção, que afetará milhares de espécies em nosso planeta. Não é simples, mas requer disposição, compreensão e determinação para enfrentar esse momento muito complicado para o nosso país, para o planeta, para a natureza e a humanidade de maneira geral.


NOTAS:

(*) Esse texto é uma adaptação e atualização de artigos que já produzi e publiquei, inclusive aqui neste blog, preparado especialmente para o X MAF 2020, evento organizado pelo grupo PET GEO UFPE. A mesa redonda, da qual participei, ao lado da profª. Drª Monica Cox, foi intitulada: ESTADO, AGRONEGÓCIO E MEIO AMBIENTE: POLÍTICAS TERRITORIAIS E DESENVOLVIMENTO DO BRASIL, realizada por via remota em 02/12/2020. Pode ser acessada através do link: https://www.youtube.com/watch?v=kQ4XxWGuKTs


[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/05/brasil-assume-lideranca-mundial-na-producao-de-soja-segundo-eua.shtml?loggedpaywall – Acesso em 10.05.2018

sábado, 21 de novembro de 2020

TODAS AS VIDAS IMPORTAM – O QUE MOSTRA A REALIDADE

Como historiador muitos fatos abomináveis que assistimos na sociedade brasileira não me surpreendem, embora me deixem indignados. Ainda mais quando envolvem etnias fortemente oprimidas, reprimidas e dizimadas de forma a ser possível identificar atos genocidas ao longo da história brasileira. Os fatos, números e repetição dessa barbárie que se repetem, são fáceis de serem identificadas em trabalhos acadêmicos, na literatura e em qualquer busca em sites de notícias. E não me refiro apenas a este século.

Essa situação deve sim ser tratada como estrutural, porque está incorporada nas estruturas sociais brasileiras historicamente. Se explica a partir das análises de como se deu nossa colonização; depois como internamente foram sendo incorporados negros trazidos da África para suprirem uma mão de obra inexistente na colônia; como essa população passou a viver marginalizada e estigmatizada, sendo vista meramente como instrumento de trabalho; e como no processo de finalização do ciclo escravagista as classes dominantes fecharam as portas para qualquer possibilidade de inserção dos negros na sociedade, na economia e na condição de proprietários de terras.

Tudo isso foi adredemente preparado, implementado, consolidado e transformado em ações políticas a fim de beneficiar os tradicionais senhores de terras e depois uma burguesia entreguista e submissa originada de todo esse comportamento e mentalidade colonialista que formou o estado brasileiro.

Mas vocês devem estar se perguntando por que adotei esse título acima? De fato, todas as vidas importam. E principalmente se considerarmos que a imensa maioria da população, pobre, sente diversos tipos de preconceitos e opressões, principalmente as mulheres, mas também as populações indígenas. Além de viverem em condições de vidas deprimentes, sub-humanas.

Mas quem é maioria dentre essa população pobre e oprimida? Naturalmente, em se tratando de Brasil as estatísticas estão aí, até mesmo para qualquer “daltônico” ver. Essa condição de pobreza e miséria, desemprego e vítima constante de violências física e psicológica, afeta principalmente o indivíduo, homem e mulher, de cor negra. Os pretos e pretas, como corretamente estão se assumindo, como forma de se colocar com altivez e auto-estima elevada, e a resgatar o valor de suas existências.

Então, sim, o importante aqui, nesses momentos de uma conjuntura que explicita essas diferenças, e de governantes perversos que expõe cínica e abertamente suas posturas racistas, elitistas e preconceituosas, é dizer que VIDAS NEGRAS IMPORTAM.

Mas até aqui eu não respondi ainda a minha própria indagação, do porquê ter adotado um título mais genérico.

Pois bem. Direi. A minha intenção é atrair a atenção dessa narrativa, e para a leitura desse texto, aquelas pessoas, em sua maioria brancas, que se sentem incomodadas com a virulência da reação das pessoas pretas, e dos segmentos que os apoiam, e usam como argumento para minimizar essas violências, que esses fatos acontecem indiscriminadamente na sociedade, afetando todos os segmentos. E justificam isso argumentando ser consequência das desigualdades sociais, mas que elas aceitam e se beneficiam.

Isso foi dito pelo presidente desse país, que se diz daltônico, mas mais do que isso, é insensível, insuportavelmente preconceituoso, e absolutamente descolado de nossa realidade. Com o olhar mais focado nos EUA e em seu guru supremacista branco, assim como seus seguidores, simplesmente fecha os olhos para uma realidade insofismável. As estatísticas estão aí para quem quiser ver. São estudos acadêmicos, de diversas entidades, do próprio IBGE, e organizações que se debruçam há décadas sobre esse mecanismo disfarçado de separação étnico-racial que existe em nosso país, um apartheid perfeitamente visível que afeta majoritariamente a população negra.

E isso serve também para o vice-presidente, um general que não consegue enxergar que no comando militar brasileiro, em seu estado-maior, não iremos encontrar nenhum oficial de pele negra, mas que ele considera não haver racismo aqui no Brasil.

O título que dei a essa minha fala, e texto que produzi para desabafar e botar pra fora toda a minha indignação e revolta, que não é só de agora, mas de 40 anos de militância, de estudos acadêmicos e pesquisas, é para atrair aquelas pessoas que minimizam essas violências, as vê como afetando também aos brancos, e negam a existência de um racismo estrutural no Brasil. Racismo e machismo estruturais, eu ampliaria. E o que dizer da condição das mulheres negras nessas situações? São duplamente oprimidas, maltratadas e violentadas. Sim, pelo que historicamente se construiu nesse modelo de sociedade hipócrita.

Nesse país portentoso em riquezas, e perverso nas relações sociais e no tratamento do seu povo pobre, por séculos têm sido mantidas essas condições por meio de políticas destinadas somente a beneficiar os mais ricos, aqueles que sempre se utilizaram de suas condições sociais para hipocritamente se julgarem diferentes com o argumento falacioso, perverso e hipócrita de “meritocracia”. Mas também utilizando-se de mecanismos culturais e ideológicos, para por muito tempo manter passivas essas pessoas, de forma a que elas se sentissem culpadas por suas próprias condições de opressão e miséria.

As classes dominantes desse país, tão logo se aproximava o fim da escravidão, pela pressão que existia fora e dentro do país, se apressaram para criar uma lei de terras, com o objetivo claro de impedir que os negros se tornassem proprietários, impedindo-os de conseguirem um pedaço de terras para viverem. Assim, foram jogados ao relento, nas periferias das cidades, fazendo surgir as favelas e os ambientes inóspitos e sem estruturas urbanas dignas. De lá para cá essas condições só se ampliaram, e a violência assume um patamar insuportável.

O título que adotei, não corresponde ao que eu quis aqui falar. Mas assim o fiz para que não atraísse somente os que naturalmente já concordariam comigo e reconhecem a existência desse racismo estrutural, e que, portanto, devemos gritar com todos os pulmões progressistas e sensíveis que existem: VIDAS NEGRAS IMPORTAM!

Como não concordar com a letra bem objetiva e direta contida na música de Elza Soares? “A carne mais barata do mercado é a minha carne negra. Que fez e faz história. Segurando esse país no braço” (Elza Soares – A Carne [negra]).[1]

Os daltônicos, insensíveis, racistas e preconceituosos, fecham os olhos à realidade que é mostrada todos os dias por meio de estudos publicados em revistas, sites e na grande mídia. Além do que basta acompanhar os noticiários policiais e identificar a cor da pele da grande maioria daqueles que são aprisionados, ou abatidos pela polícia. São suspeitos pelo simples fato de serem pretos.

Basta ver essa notícia, que extraio do site UOL, publicada neste dia, 21 de novembro, um dia após o Dia Nacional da Consciência Negra: “As mortes de negros causadas por violência física cresceram 59% no Brasil em oito anos, uma incidência 45 vezes maior que a taxa medida em relação a cidadãos brancos no mesmo período, segundo dados disponíveis do DataSUS consultados pelo UOL”. E que o número de vidas negras vitimadas no últimos anos “subiu de 694 em 2011, para 1.104 em 2018. Média de uma morte a cada sete horas”. [2]

A violência brutal que se abateu na véspera de uma data escolhida para comemorar a resistência negra, inspirada na luta liderada por Zumbi dos Palmares, com o assassinato do cidadão brasileiro João Alberto, na porta do hipermercado francês Carrefour, reflete o cotidiano dos milhões de negros e negras neste país, submetidos a um tipo de tratamento que advém do processo de colonização perverso e criminoso que exterminou um percentual enorme de gente, considerados meros instrumentos de trabalho, e submetidos à humilhação que se estende ao longo da história de formação de uma sociedade vergonhosamente desigual.

Todas as vidas importam, isso é uma verdade absoluta. Mas para muitos que repetem essa frase, e se dizem daltônicos ao olhar a realidade, o que desejam é negar o racismo estrutural que persiste, que deve ser combatido e que precisa ser mudado. E, apesar do que diz a música: “O cabra aqui não se sente revoltado, porque o revólver já está engatilhado. E o vingador é lento, mas muito bem intencionado”... Algo começa a mudar.

Mesmo que uma parte dessa sociedade resista em mudar, e eleja para lhes representar um dos seus que esbraveja esses comportamentos racistas, enquanto se escondem em posturas hipócritas, a força das transformações, embora possamos considerar lentas, elas virão. Elas estão vindo. E vem em um crescendo, ampliando o número daquelas pessoas que se indignam e se revoltam com a sucessão de crimes e aberrações que são cometidas.

Para além de sermos negros ou não, a postura silenciosa soa a cumplicidade. Portanto, devemos repetir sempre, não basta dizer que não somos racistas: É PRECISO SER ANTIRRACISTA, e se incorporar à luta por justiça social, pelo fim do racismo estrutural, e contra todo o tipo de discriminação.

Pois é o que diz o Artigo Primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.



[1]    A Carne (Negra) – Compositores: Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Capelleti. Interpretação: Elza Soares. https://www.youtube.com/watch?v=Lkph6yK6rb4

domingo, 8 de novembro de 2020

O QUE MUDA COM A ELEIÇÃO DE BIDEN E A VOLTA DOS DEMOCRATAS AO PODER NOS EUA – AS LIÇÕES QUE PRECISAMOS APRENDER

Como boa parte do mundo, eu também estava atento e acompanhando o processo eleitoral dos EUA. Mas diferente da maioria, toda essa confusão em torno desse formato de escolha do Presidente dos EUA não é para mim, nenhuma novidade. Embora, como tantos, eu também não conheça detalhes do que determina cada Estado internamente, já que cada um deles possui autonomia para definir os critérios eleitorais, assim como também outras definições políticas. Algo que acompanha os EUA desde a sua fundação. Ou seja, em muitas situações os estados possuem autonomia para definirem políticas, independentemente de ser questões que venham a se contrapor a regras nacionais. Essas definições acontecem por meio de plebiscitos, justamente durante esses processos eleitorais, o que torna mais difícil ainda a computação dos votos, já que a população está também se manifestando sobre outros assuntos que porventura possam estar sendo colocados para que as pessoas se manifestem, contra ou a favor. E, ao contrário do que a grande mídia apresenta, não são somente dois candidatos que disputam a presidência. Ocorre que os demais não possuem visibilidade, diante de uma estrutura política desigual.

Mas essas eleições chamaram mais as atenções do mundo, devido a conjuntura política mundial de crise, econômica e sanitária, ou vice e versa. A ascensão de Donald Trump, no poder da nação mais poderosa do mundo até aqui, embora em um processo de crise crescente em sua capacidade de se manter na liderança da hegemonia econômica mundial, empoderou movimentos de extrema direita não somente naquele país, mas por todo o mundo, inclusive no Brasil. Essa ascensão se deu por meio de estratégias absolutamente desonestas, escoradas em fake news, na manipulação grosseira dos fatos e na repetição de mentiras como tática de ação política, para desinformar e iludir as pessoas e destruir reputação de seus opositores.

Essa estratégia tem se disseminado por todo o mundo, em especial na Inglaterra, Brasil, Hungria, Polônia, Itália etc. E vem estimulando um contingente expressivo de seguidores do que se denomina de nova direita, avessa à democracia e disposta a desmoralizar a política como forma de manipular o processo eleitoral e assumirem o poder. A derrota de Donald Trump é um forte golpe nesse movimento, mas não significa a sua destruição. E a insistência em negar o resultado final do processo eleitoral nos EUA, e judicializar a disputa ainda por semanas, cumpre esse objetivo, de fomentar a confusão, a dúvida e acirrar o ódio, como instrumento do embate político, que pode chegar a consequências imprevisíveis.

Portanto, a derrota de Trump não é página virada nesse empoderamento de uma extrema-direita de novo tipo, que se expõe abertamente como assim era feito no período da ascensão do nazifascismo. É importante ainda lembrar que alguns movimentos organizados se fortaleceram nesse período de um presidente bufão, mas que nada tinha de tolo, bem ao contrário. Representou com maestria esse segmento, na linha de uma estratégia de construção do caos, para a partir da dissolução das conquistas sociais e da luta dos direitos humanos dos últimos anos, reconstruir o modelo de sociedade baseado no fundamentalismo cristão, no supremacismo branco e no nacionalismo populista isolacionista, oposto a todas as regras de boas convivências entre os estados-nações.

Tudo isso sendo feito e consolidado com a exacerbação do ódio, da intolerância, da xenofobia, do racismo e da misoginia. Comportamentos sempre presentes nas atitudes de Donald Trump, explicitamente, e disseminadas por outros chefes de estados, como Jair Bolsonaro aqui no Brasil ou Victor Orban, na Hungria. Nesse sentido a derrota de Trump, mesmo sem significar a dissolução desse movimento de extrema-direita, de uma prática disseminadora de ódio e beligerância na política, representa, sem dúvida, uma vitória para as forças progressistas de todo o mundo.

Mas, vamos ao ponto, naquilo que diz respeito a uma análise sobre o comportamento do Império, dos seus interesses e necessidades de fortalecer sua economia e resolver as enormes pendências internas que o tem colocado numa posição subalterna na disputa com o gigante chinês, que tem caminhado a passos largos para assumir a posição de maior potência econômica do mundo. Portanto, como os EUA se posicionarão diante de uma situação de grave crise econômica gerada por uma atuação desastrosa no combate à pandemia? Creio que, independente da palavra de ordem de Trump, “America First”, ter sido derrotada, já que era a base de sua campanha, não me parece que haverá uma mudança no comportamento de um governo democrata que não seja visando a recuperação de sua economia. Assim, as guerras econômicas, os bloqueios contra determinados países considerados hostis ao poder do império, tendem a continuar.

Eu me mantive discreto na observação do processo eleitoral nos EUA. Porque identifico nas políticas estadunidenses, seja com democratas, ou com republicanos, sempre uma forte agressividade em suas políticas externas, seja no tocante às questões econômicas (com os republicanos), como nas questões bélicas-militares (com os democratas), um viés agressivo para os seus interesses enquanto estado-nacional. Isso faz parte da história dos EUA, desde o começo do século XIX. Portanto, para compreender o que acontece naquele país, e que repercute naturalmente, pelo poder que ele representa, na América Latina e no mundo, é necessário conhecer a sua história, e como ela se entrelaça com a economia capitalista por todo o mundo, a partir do século XX, principalmente após a primeira guerra mundial. Se não conhecemos essa história, ficamos a nos deslumbrar com um aparato midiático fortíssimo que nos envolve, como se as decisões ali tomadas por seu eleitorado, fosse algo que influenciasse diretamente nos destinos de nosso país.

Essa é uma visão expandida pela guerra cultural imposta pelos EUA desde o final do século XIX, com o fortalecimento do Destino Manifesto, com a política do Big Stick, com o Plano Marshall, com o advento da guerra fria, a disseminação para o mundo do American Way of Life, e com a exportação dos valores cristãos pentecostais e neopentecostais, principalmente por meio da Teologia da Prosperidade. Mas nada foi mais forte e importante para a difusão desse sentimento de atração pela “democracia imperial” e pelo seu estilo de vida, do que a potente indústria do cinema, que tornou Hollywood num paraíso de deslumbramento da classe média intelectualizada brasileira. Enquanto Miami e a Disney World deslumbrava a classe média que ascendia socialmente, mas de conhecimento intelectual médio, e mais afeito às fantasias infantis ou ingênuas, mas absolutamente despolitizadas. Muito embora também com forte disseminação de seus valores culturais.

Procurei entender esse processo de duas maneiras, além da observação criteriosa das informações passadas pelos meios de comunicação tradicional, a grande mídia televisiva, quase sempre majoritariamente simpática aos valores estadunidenses. Por um lado, acompanhando algumas análises que para mim eram importantes, pela carga de informação e conhecimento que traziam, feitas em diversos canais do Youtube pelo professor Lejeune Mihan, sociólogo e analista internacional, profundo conhecedor da história do Oriente Médio (e, evidentemente, das políticas ali aplicadas pelos interesses rapaces dos EUA); e também procurei acompanhar as análises de Pepe Escobar, para mim um dos maiores analistas de geopolítica, que embora sendo brasileiro, vive na Tailândia, e é um dos principais correspondentes do Ásia Times e de outros veículos importantes de comunicação mundial. Uma das principais “lives” que assisti com sua participação, contou com a presença, não menos importante, de Elias Jabbour, especialista, pesquisador, com doutorado feito sobre a economia chinesa, que pode ser vista ainda pelo canal Duplo Expresso, no YouTube. Uma discussão riquíssima, que nos permite compreender as razões da forte disputa entre China e EUA, as consequências disso para o mundo, e até que ponto isso se refletiria no processo eleitoral estadunidense. Muito embora, pela complexidade embutida nessa discussão, saímos de mais de duas horas de debates com mais dúvidas do que certezas. Certamente essa é a grande riqueza da discussão, porque nos permite ir em busca de mais conhecimentos, para termos a dimensão de um problema que pode gerar, ou poderia, caso Trump se elegesse, muitos estremecimentos na geopolítica mundial. Com Bidem, provavelmente a multilateralidade reduzirá essas tensões. A ver.

Por outro lado, procurei ter uma compreensão mais aprofundada, indo além dos conflitos externos, ou até mesmo da dimensão que possui o processo eleitoral dos EUA para o mundo. Para isso organizei dois grupos de discussão em Geopolítica, cujo foco foi debater, discutir e compreender as razões da crise política que atravessa o mundo, não de agora com a pandemia, mas desde a primeira eleição de Barack Obama, com o crescente fortalecimento de setores de extrema direita, que passaram a se organizar mundialmente e a influenciar em diversas eleições, por meios de práticas pouco comum na democracia tradicional. Mas era contra essa democracia tradicional, e a chamada “velha política”, que essa guerra ideológica passara a ser travada, utilizando-se do aparato tecnológico permitido pela internet e a importância nas comunicações que as redes sociais passaram a ter. Plataformas como Facebook, Youtube, twitter, passaram a ser utilizadas com agressividade para desconstruir esse modelo de democracia tradicional ocidental, e desacreditar a política.

Escolhi três livros que nos pudessem dar a dimensão desse processo: “Como as Democracias Morrem”, “Os Engenheiros do Caos”, e “O Capitalismo se Desloca” (deixarei ao final a referência a essas obras, já citadas por mim em outros artigos e vídeos). Claro, dentre tantos outros que existem, alguns dos quais se tornaram referências para mim nesses estudos, como os trabalhos de Luis Alberto Moniz Bandeira: “Formação do Império Americano”; “A Segunda Guerra Fria”, e o mais recente, publicado dois anos antes de sua morte, “A Desordem Mundial”. São obras que nos dão a dimensão geopolítica dos interesses em jogo, na disputa do grande tabuleiro de xadrez que é o mundo.

Vivemos em um planeta onde cada vez mais as pessoas se conectam por meio de redes sociais e de sites de informação que trazem as notícias em tempo real. São uma infinidade de informações que são filtradas, e lidas superficialmente, com o intuito meramente de nos tornarmos atualizados nos acontecimentos. Mas pouco se lê, estuda e analisa o processo histórico. Por essa onda de informações rápidas e curtas as pessoas primeiramente se julgam muito informadas, e em certo sentido são; e por outro lado acumulam um arsenal de confusões ideológicas, de misturas de vieses capciosos, que não são lidos nas entrelinhas, e portanto não dão a dimensão real dos problemas, e as conexões que existem com as disputas pelo Poder, seja local, regional, nacional ou global.

O que quero dizer é que as coisas quando acontecem e passam a ter visibilidade pelo impacto que causam, elas já advêm de processos anteriores. E suas causas só podem ser entendidas com a compreensão do processo em curso desde o seu surgimento, ou seja, do conhecimento histórico.

Vejam, eu não estou me desviando do foco da discussão central: as eleições nos EUA e sua consequência para o mundo e a América Latina em especial. A questão é que a eleição de Donald Trump, e o fortalecimento dessa nova direita, que atacou fortemente a democracia tradicional e a política, com uma estratégia de disseminar o caos, aprofundar as divisões na sociedade e gerar o ódio e a intolerância, teve seu caminho pavimentado por meio de um processo que surge ainda durante o governo Obama.

Mas, para complicar essa análise, vou antecipar que o governo Barack Obama foi mais agressivo no tratamento com quem o império identificava como inimigo, e os eliminava por meio de drones; e com a destruição de governos hostis, por meio de guerras híbridas, do que o governo Trump. Ocorre que muito das políticas domésticas, na questão econômica, por exemplo, mantiveram-se alheias aos problemas cruciais que afetavam a população estadunidense, principalmente com aqueles segmentos que ficaram deslumbrados e confiantes na eleição do primeiro negro para presidente dos EUA.

As consequências de uma política externa agressiva, e de uma política interna desastrosa naquilo que era de interesse do cidadão estadunidense, possibilitou que se desenvolvesse no Estado profundo, uma desesperança com o que acreditavam que aconteceria. Por outro lado, e isso é inegável, o governo Obama correspondia mais nas questões raciais e da diversidade de gênero na sociedade. O que despertou, com muita força e ira, os preconceitos e os valores conservadores, reacionários, de uma grande parcela da população que sempre manteve o racismo presente, e a defesa conservadora de valores estabelecidos por suas crenças religiosas.

Nesse ambiente, de ampliação dos conflitos sociais, raciais e de gênero, se organizou grupos de extrema-direita que passaram a explorar esses sentimentos preconceituosos, e as frustrações pelo não alcance de suas expectativas. A explosão de revoltas e ampliação dos grupos de fundamentalistas religiosos e de supremacistas brancos, inclusive com o retorno da Ku Klux Klan, foi explorado por esses segmentos durante todo o governo Obama, e se expandiu para outras partes do mundo, até influenciando no Brexit, movimento que levou à separação do Reino Unido da União Europeia.

Esses livros que citei, usados como parte dos estudos do meu grupo de Geopolítica, nos dão a dimensão de todo esse movimento. E nos permite dizer, que, apesar da derrota de Donald Trump, a democracia liberal, ou tradicional, capitalista, não será mais a mesma. Até se olharmos o quantitativo de votos que ele obteve, que se ampliou em relação à primeira eleição, superando, inclusive, a quantidade de votos obtida por Barack Obama, até então o presidente que havia sido eleito com a maior quantidade de votos nos EUA.

A elevação da votação em Donald Trump demonstra também um crescimento e fortalecimento nessas crenças, negacionistas, e nesses valores impulsionados pela política do ódio e da intolerância e desrespeito com as diversidades.

Aí entramos no porquê da eleição de Joe Biden. Comecemos por dizer que isso não necessariamente pode acontecer aqui no Brasil. Porque nos EUA, mesmo em meio a pandemia as ruas se encheram em protestos antirracistas, como consequência de uma série de fatos gerados pela brutalidade e ódio racial contido no comportamento de uma política motivada pelo supremacismo branco. Foram cruciais nas mobilizações e no resultado eleitoral, a participação combativa das mulheres, mas, principalmente, na força demonstrada pelo movimento negro, que de forma organizada impulsionaram a participação do eleitorado negro, em regiões importantes dentro do espectro eleitoral confuso das eleições estadunidenses, principalmente na Pensilvânia, onde a cidade da Filadélfia, tradicionalmente marcada por uma forte população negra, possibilitou a virada do candidato democrata.

Por fim, posto que a derrota de Donald Trump foi ampla, vencida tanto no total de votos, quanto no Colégio Eleitoral, e, claro, desejada por todos os segmentos progressistas em todas as partes do mundo, cumpre fazer uma avaliação racional, entendendo como funciona a política e os interesses dos EUA, e não cair na ilusão de imaginar que a vitória de Joe Biden venha a ser comemorada como uma conquista dos segmentos progressistas. Era o que estava em jogo, ou Trump, ou Biden. Nesse sentido, claro, comemorar a derrota de Trump é inevitável, pelo que ele representa nesse espectro politico marcado pela estupidez, pelo negacionismo, pelo ataque à ciência, e pelo apoio às pautas reacionárias, tanto dos valores tradicionais do fundamentalismo cristão, quanto dos supremacistas brancos, misóginos e racistas..

Mas é uma vitória dentro do Império, seguindo-se os seus interesses e não o que deseja os progressistas do mundo, principalmente os que aspiram pelo socialismo. Não comemoro uma saída do império na direção de superar a crise sistêmica que o atinge mortalmente. Comemoro a derrota de uma trupe perversa, estúpida, que tem ampliado suas influências em diversas partes do mundo, e tornado nossas crenças na civilização por um olhar duvidoso do futuro que aguarda as novas gerações.

No entanto, não podemos perder de vista as ações, comportamentos e políticas externas que advém de décadas, protagonizadas por estrategistas estadunidenses, e postas em práticas por governos democratas e republicanos, porque aspiram somente defender os interesses rapaces do império estadunidense, absolutamente avesso às preocupações à autonomia dos povos e à liberdade de cada estado-nação definir qual o caminho que devem seguir.

As guerras híbridas, responsáveis pela instabilidade política em dezenas de países onde os governos não seguem as diretrizes imperiais, tornaram nesses países as condições econômicas e políticas absolutamente incontroláveis, permitindo a ascensão ao poder de governos que seguem essa mesma linha agora derrotada. Porque a estratégia usada pelos seguidores de Trump, e os arquitetos do caos, segue na mesma linha das guerras híbridas patrocinadas pelos bilionários que desejam obter dividendos com a desestabilização desses governos, e, claro, porque seus vieses ideológicos se encaixam nos objetivos de destruir, ou desconstruir, políticas que ataquem os mecanismos de funcionamento do sistema capitalista e possam porventura ampliar suas influências nas sociedades. E isso faz parte, e interessa à política externa dos EUA, como tem sido há décadas, mesmo após o fim da guerra fria, e, aliás, se ampliando justamente após a queda dos países socialistas da Europa oriental e da antiga União Soviética.

Por isso, não nos iludamos. A derrota de Trump significa uma vitória importante e uma conquista de uma batalha crucial contra o neofascismo que cresce no mundo. Mas não representa vitória significativa da classe operária, dos socialistas, e muito menos da comunidade negra e pobre, sempre submetida à opressão e à condição estrutural de um sistema que para garantir os privilégios de uma minoria precisa manter a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras explorada e controlada por seus valores tradicionais conservadores.

Enfim, a luta política no Brasil é outra, e não imaginemos que os democratas estadunidenses demonstram simpatia pelos anseios anti-imperialistas que sempre marcaram a esquerda brasileira, e é uma condição necessária para garantia da autodeterminação dos povos nos países latino-americanos. Tomar as ruas, mobilizar a juventude, despertar os movimentos negros e de mulheres, e pautar uma necessária unidade popular, é condição sine qua non para realizarmos aqui no Brasil os objetivos estratégicos que poderão impor uma derrota aos partidos tradicionais e aos movimentos conservadores, hipócritas e porta-vozes de políticas perversas, misóginas, racistas e preconceituosas. Unidade e luta, é o que nos possibilitará reverter o quadro político brasileiro, e não a ilusão por uma disputa no coração do Império. Não é a democracia deles, muito mais parecida com uma plutocracia, embora semelhante a nossa, que desejamos salvar. Mas uma democracia verdadeiramente popular que precisamos construir.


FONTES:

Links:

Lejeune Mirhan - https://www.brasil247.com/authors/lejeune-mirhan

Pepe Escobar - https://www.brasil247.com/authors/pepe-escobar

Especial: Pepe Escobar & Elias Jabbour respondem: estamos no Séc. da China? - https://www.youtube.com/watch?v=7E0oxYDnHLU

Publicações:

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. 4ª Edição.

­­­_________________________. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

_________________________. A Desordem Mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

DOWBOR, Ladislau. O Capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Edições SESC, 2020.

EMPOLI, Giuliano Da. Os Engenheiros do Caos. São Paulo: Vestígio, 2020.

LEVITSKY, Steven, ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018