terça-feira, 12 de abril de 2016

O QUE AFETA O BRASIL? A LUTA DE CLASSES, A DISPUTA PELO PODER E INTERESSES GEOPOLÍTICOS

Desde o ano passado procurei, através do Blog Gramática do Mundo, emitir minhas opiniões e analisar à luz de meus estudos geopolíticos, e, naturalmente, mediado por minhas convicções ideológicas, toda a construção da crise brasileira. Desde os erros cometidos pelos sucessivos governos da coalizão de centro-esquerda, inclusive nos governos Lula, por suas indecisões em tomar posições firmes em relação a algumas reformas estruturantes, no aparato político e também judiciário, e, principalmente, pela ausência de coragem em estabelecer limites a uma mídia historicamente golpista e reacionária. Além de ceder, excessivamente aos setores empresariais e do mundo das finanças, na ilusão de que esses setores se contentariam com meras medidas econômicas que lhes assegurariam as benesses conquistadas secularmente por meio dos estamentos medievais adaptados à uma estrutura colonial, neocolonial e neoliberal, algo bastante estudado por intelectuais respeitados nas universidades brasileiras – eu destacaria Darcy Ribeiro, injustamente execrado pelo corporativismo estreito e sectário – mas que foi menosprezado na construção das políticas públicas. Equívocos que se repetiram no primeiro governo Dilma, com desonerações que afetaram de forma fatal as finanças brasileiras, mas que asseguraram a esses setores a manutenção de seus lucros e a ampliação de suas riquezas.
Critiquei também o fato de ter se permitido a manutenção de um esquema de usurpação de recursos públicos, desviados por mecanismos de corrupção e propinas, para abastecer caixas 2 de campanhas de partidos que davam sustentação ao governo. Prática naturalmente utilizada há décadas na política brasileira, portanto somente escondida da população desinformada sobre a forma como está estruturada a política brasileira. E critiquei também o fato de o Caixa 2 não ser considerado crime, e a maneira conivente como a justiça brasileira sempre se comportou nesses casos.
Minha análise também extrapola os limites das fronteiras brasileiras. Há uma crise em curso por todo o mundo, ainda consequência da quebradeira que atingiu os EUA em 2008, afetou o sistema financeiro e consequentemente levou os Estados à falência, por terem sido eles os salvadores de muitos bancos falidos ou em situação pré-falimentar. O que não se esgotou, e vivemos ainda as consequências dessa crise, que não tem data para acabar, uma vez que atinge todo o sistema capitalista e se espalha em rede. O Brasil, por não ser uma ilha isolada neste mundo globalizado, foi afetado também por esta crise, embora tempos depois do seu epicentro. Agreguei a isso os interesses geopolíticos, pelo fato de o governo brasileiro ser protagonista na criação dos BRICs e isso ter levado a um novo equilíbrio na hegemonia mundial. Há interesses bem claros, externos, para uma possível derrubada do governo Dilma, e isso pode ser contabilizado na conta de grandes corporações que exploram mundialmente as riquezas do petróleo e de países que se viram afetados pelo protagonismo de um novo grupo fora do eixo EUA-Europa-OTAN.
Bem como fui crítico também à pouca coragem em atacar mais ostensivamente os fantasmas escondidos em velhos armários, símbolos de setores fascistas, remanescentes da ditadura militar, que se escoraram em uma justiça covarde e conservadora, mas também na falta de convicções do governo em jogar duro com esses setores, a fim de evitar, definitivamente, uma possível volta de desejos fascistas incontroláveis que vociferavam na catacumbas dos ditadores.
Entre os erros dos governos e os acertos, sobressaíram para a sociedade os acertos. E houve avanços consideráveis nesses anos. Contudo, os erros cometidos foram cruciais para deixar expostos caminhos que poderiam ser (e foram) explorados para repetir, como no passado, atos intoleráveis de rompimentos da legalidade constitucional. Isso faz parte da história brasileira, jamais poderia ter sido esquecido, e por isso todos os mecanismos que poderiam levar a essas possibilidades deveriam ter sido atacados. Ademais, e aqui a junção com os interesses externos, já de há muito se delineava pelo mundo movimentos estranhos, com vernizes “democráticos” a espalhar ódio e intolerância e a derrubar governos. A cartografia desses conflitos internos, por diversos países, davam nitidamente a indicação que aconteciam, principalmente, em países cujos governos não se curvavam às imposições do império. Refiro-me, naturalmente, aos EUA, e seus aliados. Faltou vigilância, a defesa da democracia e o aperfeiçoamento dos mecanismos que a sustentam. Ao contrário, deixaram-se brechas, e cometeram-se erros, que fizeram com que os setores reacionários se aproveitassem para, também por aqui pelo Brasil, repetisse o que já estava ocorrendo em diversas partes do mundo, inclusive na América Latina.
Para lembrar de cada uma dessas análises, insiro abaixo os links para esses artigos. Repito, são análises construídas por meus estudos geopolíticos e por minhas convicções ideológicas. Certamente não expressam uma verdade absoluta. Mas espero que possam servir de balizamento para entendermos todo esse processo e contribua na formulação de uma compreensão de que, ao contrário do que se pretendeu afirmar no final do século XX, a luta de classes não acabou. Ela permanece, com toda a sua radicalidade, e se expõe de forma muito mais visível em momentos de graves crises econômicas. Estamos em meio a uma luta de classes encarniçada, a uma grave crise econômica e, também, em meio a uma transição de um sistema que atingiu seu auge, e consequentemente os limites de suas contradições. Mas, para onde vamos, ainda é uma incógnita, o que só torna a transição mais complexa e mais suscetível a conflitos, enfrentamentos políticos, religiosos e guerras de proporções mundiais. Quando o velho insiste em sobreviver e o novo demora a surgir, em se tratando de formações sociais, temos diante de cada um que vive esses momentos, uma longa, violenta e perigosa transição. Resta-nos a resistência para que dentre os caminhos propostos não nos deparemos com retrocessos, nem nos encaminhemos para um abismo.
Eis os links para os artigos:
2 – A SANHA GOLPISTA E A HISTÓRIA COMO TRAGÉDIA. ASSISTIMOS AGORA A UMA FARSA: http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/04/a-sanha-golpista-e-historia-como.html
3 – O BRASIL DIANTE DO ENIGMA DA ESFINGE: DECIFRA-ME OU TE DEVORO: http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/07/o-brasil-diante-do-enigma-da-esfinge.html
4 – CRISE: O BRASIL NO OLHO DO FURACÃO – DA CRISE ECONÔMICA MUNDIA A UMA DISPUTA ENCARNIÇADA PELO PODER E Á QUEBRA DO ESTADO DE DIREITO: http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/03/crise-o-brasil-no-olho-do-furacao-da.html
5 – O BRASIL DIANTE DE UMA ENCRUZILHADA - NÃO HÁ MEIA ALTERNATIVA: http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2016/04/o-brasil-diante-de-uma-encruzilhada-nao.html

6 – O DESPERTAR DA BESTA... E O RESGATE DA UTOPIA.









sábado, 2 de abril de 2016

O BRASIL DIANTE DE UMA ENCRUZILHADA. NÃO HÁ MEIA ALTERNATIVA

DE DOIS CAMINHOS: UM DELES PODE SER A REDENÇÃO DO FASCISMO.

Na semana que passou participei de um debate sobre a crise brasileira. O evento aconteceu na Universidade Federal de Goiás, convocado pelas entidades que representam professores, servidores técnicos administrativos e pós-graduandos. É evidente a necessidade de discutirmos a situação em que o Brasil está vivendo, a Universidade não pode se omitir diante de uma realidade que é absolutamente crítica e preocupante para os rumos democráticos e garantia das conquistas sociais. Mas, o que poderíamos esperar de uma discussão a essa altura da crise? Aí entra minha divergência quanto ao que seria essencial ser discutido e ao que foi priorizado nas intervenções, com poucas exceções.
De antemão digo que me senti contemplado por boa parte do que foi dito em termos de análise sobre as origens da crise e os erros cometidos pelos governos do PT, principalmente nos últimos anos do governo Dilma. Mas o que me preocupa e me angustia é o tempo. A ausência da perspectiva sobre o que estamos, de fato, precisando abordar, diante das circunstâncias em que vivemos, e uma certa ingenuidade de alguns “críticos éticos”, que não tem a percepção de compreender que estamos diante de um ambiente fértil para o fortalecimento de uma direita fascista aqui no Brasil, como nunca aconteceu antes.
Analisar as condições pelas quais chegamos ao ponto em que estamos é absolutamente necessário. Somente assim os erros serão evitados mais adiante. Mas a minha crítica é exatamente ao fato de não estarmos fazendo isso há muito tempo. A Universidade entrou numa rotina onde as discussões estão quase completamente vinculadas a abordagens relativas aos projetos e grupos de pesquisas nos quais os professores estão envolvidos. Fizemos da universidade um ambiente absolutamente burocrático, cordato e apegado às exigências capesianas. E, além de tudo, firmemente ancorado pelas regras neoliberais impostas pelas agências de avaliação, ou de rankings, internacionais. Contudo, não vou entrar aqui nessa polêmica. Não é esse o objetivo do artigo.
Mas, o que desejo é provocar uma discussão que seja mais centrada na realidade concreta, sem abstrações ou diletantismos. Conhecemos o passado, nossos presságios não são meros devaneios, estão fundamentados na nossa história. Estamos diante de uma realidade em que só nos restam duas opções, no que se fere à escolha; e duas alternativas quanto às consequências das decisões que estão prestes a ser tomadas.
Em primeiro lugar, e o maniqueísmo não foi criado pelos que defendem a democracia e a legalidade, mas sim por quem deseja aplicar um golpe de estado, só há dois lados nessa história desse tempo presente. Buscar nos erros do governo uma justificativa para dizer que tudo isso que estamos vivendo é consequência desses equívocos, é de um absoluto erro estratégico. E não garante a esse analista a condição de isento, mas de confundir toda a confusão já armada por uma mídia que há anos, em sintonia com o que acontece em outros países, procurara desgastar ao máximo os governos Lula e Dilma, e, mais do que isso, a criminaliza-los. Como se procurou fazer com Hugo Chavez, Cristina Kischner e Evo Morales, aqui na América Latina. A direita sempre seguiu a reboque de uma estrutura midiática que se constituiu na mais forte organização direitista a fazer oposição aqui e alhures.
Em segundo lugar, somente duas alternativas estão postas neste momento: a defesa dos preceitos democráticos e legais nos respeitos constitucionais e nas garantias do Estado de direito; ou a ânsia de derrubar um governo legitimamente eleito, por mecanismos casuísticos, muito comum no ocaso da ditadura militar. O mesmo que inventou os “senadores biônicos” para não perder maioria no Senado, depois de uma eleição em que levou uma surra homérica.
É, portanto, com base nesses dois cenários que devemos, neste momento, travar nossas discussões e pensar em estratégias que nos garantam a defesa de nossas conquistas garantidas a partir do começo deste século, desde o primeiro governo Lula. Me refiro, especificamente, ao que as universidades brasileiras conseguiram acumular por esses anos, após uma situação de mendicância como decorrência da absoluta falta de recursos nos governos anteriores nos malfadados tempos dos governos de FHC.
Não se trata, simplesmente de salvar um governo ou um partido, como de forma manipulatória a grande mídia tem procurado transmitir. A nossa preocupação e luta deve ser no sentido de preservarmos o que conquistamos em termos de melhorias, expansão e investimentos, tanto nas universidades como nos Institutos Federais. Mas, é evidente, e democrático, que devemos também, após isso, cobrar uma correção nos rumos do atual governo, e exigir que o Congresso Nacional garanta a governabilidade, ao invés de ficar obcecado em aplicar golpes para alavancar personagens que estão, esses sim, à beira de serem cassados por crimes de corrupção.
Não há dúvidas quanto aos avanços obtidos por todos esses anos. A Universidade brasileira avançou muitos degraus nesses 14 anos, e é incomparavelmente melhor do que estava nos finais dos anos 1990, praticamente à beira da privatização.
No cenário de um possível impeachment, não precisamos ter nenhuma dúvida sobre qual será a política adotada nas universidades brasileiras, absolutamente oposta ao que tem sido feito nos últimos anos, tanto nas questões da expansão, do financiamento e nas políticas de inclusão social. Sabemos muito bem o perfil daqueles que estão por trás do impeachment da presidenta Dilma e de seus projetos, não somente em intenções, mas em práticas aplicadas nos governos FHC e em diversos governos estaduais.
Na impossibilidade de o golpe não se concretizar, viveremos sob dois fogos. De um lado, a necessidade de aproveitar uma necessária mobilização para barrar os cortes que estão sendo implementados no governo Dilma, como consequência de um real endividamento do estado, e garantir que os investimentos sejam suficientes para manter os avanços obtidos. De outro lado, a verdadeira queda de braço que se seguirá em um ambiente político fraturado, que exigirá um esforço para garantir que a ordem democrática e institucional não seja quebrada, por meio de tentativas de desestabilizar o país e impedir qualquer recuperação de nossa economia, a fim de manter o governo Dilma nas cordas.
Por isso, antes de tudo, o que devemos estar discutindo é o processo político em que estamos vivendo, em muito similar à situação pré-1964, com a diferença de que não existe mobilização de tropas, mas temos, muito mais do que naquela época, o surgimento de setores civis fortemente sectarizados e abertamente defensores de práticas intolerantes e comportamentos fascistas, com ataques e agressões aos que divergem ou que representam partidos de esquerda, bem ao estilo do que aconteceu nas origens do nazi-fascismo.
Não é admissível que na universidade, neste momento, setores progressistas percam tempo com atitudes de julgadores dos equívocos cometidos pelo governo Dilma, a fim de demonstrar uma pretensa isenção, e fechem os olhos à uma realidade que está diante de nossos olhos, porque é absolutamente escancarado, a tentativa golpista de implementar um golpe de estado manipulando a massa levando-a a acreditar que se trata de depor a presidenta como consequência de apurações de corrupção, e não por razões fúteis sem consistências jurídicas, das chamadas “pedaladas fiscais”, pelas quais cerca de 16 governadores deveriam, então, ser também depostos. Sem contar que se trata de uma prática cometida por, pelo menos três outros presidentes anteriores à Dilma.
Tem sido comum ouvir de gente séria, e absolutamente opostas às ideias direitistas, a dificuldade que sentem em defender o governo, e, na linha do que tem dito alguns dos que debatem esse tema, julgam que essa situação foi causada pelo próprio governo, em função de suas incompetências ou de adotar políticas que o afastaram da linha programática apresentada durante a campanha eleitoral.
Ora, isso, por mais que seja uma leitura correta das circunstâncias que nos trouxeram até este momento, significa lavar as mãos para as consequências que advirão de uma possível quebra de normalidade democrática, e uma conivência com toda a guerrilha midiática em curso, pela qual já se formou juízos, sem julgamentos, sobre comportamentos de diversas personalidades políticas, inclusive da presidenta, embora sobre ela não pese nenhuma acusação que a pudesse transformar ré em qualquer processo que justificasse sua cassação.
Nesse momento, não se pode fechar os olhos a um movimento de radicalização das posições ideológicas, numa cruenta luta de classes, mas que joga setores da população mais pobres nessa onda, em decorrência de uma crise econômica que é sistêmica e da manipulação das informações. O que virá, e que já tem sido visto, embora ainda em pequena escala, será uma exacerbação da intolerância e a tentativa de destruir partidos e agredir quem ouse pensar diferente daquilo que está se tornando uma doutrina moralista, que pune não pelo fato de se cometer crime, mas por se pensar contra os preceitos elitistas e reacionários.
As “verdades”, que assim se tornaram repetidamente entoadas pela mídia, são cortinas de fumaça para encobrir o real objetivo em curso, da tomada de poder por meios outros que não aquele determinado constitucionalmente, dentro de processos eleitorais legítimos. Para que isso seja feito com o apoio das massas populares requer a construção de verdadeiras ladainhas, de massificação fascista de informações confusas direcionadas para, pela dúvida, exprimir julgamentos coletivos, e seletivos, em meio a uma cegueira que impede as pessoas de saberem distinguir o que é denúncia, muitas vezes não comprovadas e condenações, advindas de apresentações de provas e de finalização do devido processo legal.
Mas o que se vê é a repetição de práticas nazi-fascistas com os mesmos instrumentos propagandísticos adotados para dominar e controlar a multidão. Ora, o que fez com que Adolf Hitler tivesse uma ascensão tão poderosa, ancorada na aceitação popular da necessidade de um justiceiro a julgar e condenar impiedosamente aqueles que supostamente conspiravam contra a Alemanha? Nada mais do que a massificação de informações deturpadas, escoradas em preconceitos, xenofobia e intolerância política e religiosa. Tudo isso com um suporte ideológico com pilares éticos e morais pelos quais boa parte das pessoas seguiam cegamente, conduzidos por dogmas e valores questionáveis racionalmente, mas premidos pela agressividade do comportamento condenatório e do efeito “manada” que essas ações conduzem e intimidam.
Assistimos a história não ser repetida, porque vivemos uma época temporalmente diferente, mas transformada em uma tragédia farsesca, com personagens bufões, que se julgam líderes de uma época moralmente questionável, porque estamos diante de uma transição onde o sistema cujas redes estão entrelaçadas simplesmente faliu, tornou-se insuportável até mesmo pelos próprios regimes políticos que lhes dão sustentação. A classe economicamente dominante não tem saída, diante da tragédia que se tornou a estrutura capitalista. Só pode tentar se manter com o poder mediante a destruição de valores que lhes são antagônicos, e procura, pelos erros cometidos por quem deveria seguir por outro caminho, aniquilar uma alternativa a uma ausência de direção de uma forma de produção que não consegue se desvencilhar de suas próprias armadilhas.
Estamos, pois, em uma encruzilhada, onde não é possível seguir por dois caminhos. Somente um deve ser a escolha que nos conduzirá para encontrar novos mecanismos de transformações sociais e de resgatar heranças usurpadas por conquistadores, colonizadores e formadores de uma elite perversa e gananciosa. O outro caminho, nos leva de volta para o passado, e, consequentemente, em direção ao abismo. Significará a redenção do fascismo.

Qual caminho a universidade seguirá nessa encruzilhada?

segunda-feira, 21 de março de 2016

CRISE: O BRASIL NO OLHO DO FURACÃO - DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL A UMA DISPUTA ENCARNIÇADA PELO PODER E À QUEBRA DO ESTADO DE DIREITO.

A ORIGEM DA CRISE
A crise que atinge o Brasil há mais de um ano, e que tomou proporções quase incontroláveis é possível de ser explicada. Mas passa ao largo da maneira subjetiva como é enxergada pela maioria da população. Subjetiva, por um lado, na ausência de entendimento do que realmente acontece a partir das maquinações politicas e geopolíticas. Mas objetiva em função do quadro econômico, do aumento de inflação e de aumento do desemprego. Muito embora as duas questões estejam umbilicalmente ligadas.
Há, naturalmente, uma relação dialética entre crises econômicas e políticas. Obviamente, na disputa pelo controle do Poder, os grupos que se encontram na oposição torcem para que as medidas adotadas por quem o controla, descarrilhem. Essa é a única maneira de retomarem o protagonismo político e controlarem as estruturas do estado, bem como definirem suas políticas que atendam os interesses dos setores que lhes apoiam, ou que sejam adequadas às suas ideologias.
Então, temos uma crise econômica, que é sistêmica, se arrasta paquidermicamente desde o começo deste século e teve o seu epicentro em 2008, com a crise imobiliária nos EUA. Nada mais do que uma consequência do caráter especulativo e ganancioso de como o sistema capitalista se travestira ao longo da expansão neoliberal globalizante.
Ela não nasceu no Brasil, não teve sua maior dimensão nem em nosso país nem na América Latina. Espalhou-se pelo mundo no rastro da facilidade como o sistema financeiro incorporava a tecnologia para facilitar a expansão do crédito e os investimentos em bolsas de valores por todo o mundo. Aliava-se, também, à força de um novo poder corporativo, essencial para a manipulação da informação e o jogo de notícias que tornavam os poderes políticos nacionais mais frágeis: a grande mídia. Mas esse jogo de poder, reforçado pela força da informação, se fortaleceu também nessas estruturas financeiras, e por ele se manipula, falsifica notícia, se especula com base em boatos e se derruba e levanta ações para os mais variados gostos usuráveis e gananciosos. Há, na verdade, uma relação siamesa entre esses poderes corporativos.
Contudo, outros elementos, para além do caráter cada vez mais ganancioso e concentrador da riqueza, bem perceptível nas estruturas do sistema capitalista, mas que o fortalece, estão nas disputas ferrenhas pelo controle do poder político. Ao longo dos últimos séculos, desde o final do século XIX, a burguesia procurou moldar a sociedade para a aceitação da democracia capitalista, pela qual a liberdade garantida a todos seria a condição para que, individualmente, cada um pudesse se tornar rico. E apresentava essa possibilidade escorado em valores religiosos, na crença do sacrifício, na expectativa de, em não sendo possível atingir esse objetivo, “deles seria o reino dos céus”. Claro, a ideologia da prosperidade era fundamentada também na esperança de que, pelo trabalho profícuo e disciplinado, as pessoas boas teriam sucesso nesses objetivos, nesse momento entram as ideias protestantes, hoje representadas no neopentecostalismo. Era preciso demonstrar que tudo deveria ser fruto do afinco, da perseverança e da crença aos valores democráticos, que permitiriam e garantiriam a liberdade individual, pelo trabalho, aceitando-se a exploração, a pobreza e a riqueza, como escolhas divina. Para além disso, mesmo que se visasse repartir com os mais pobres a riqueza adquirida socialmente, soava como algo pernicioso, intentado para roubar a riqueza dos que trabalham e enriquecem honestamente.
Desde então, o sentido de democracia incorporou esses valores, e solidificou ideologicamente na sociedade, principalmente entre os mais esclarecidos, a crença de que qualquer tentativa de, mesmo por meio do Estado, se procurar distribuir a riqueza, significaria expropriar o usufruto do trabalho. Com base nesse discurso, que se construiu em cima de uma ideologia, e se tornou um paradigma, as classes dominantes procuraram de todas as formas impedir qualquer tipo de governos que buscassem justiça social. Isso se fortaleceu após a segunda guerra mundial, quando o mundo se dividiu entre socialismo e capitalismo, período denominado de Guerra Fria, e se estabeleceu rigidamente a necessidade de se tomar uma posição, que seria definidora sobre qual lado se deveria estar: esquerda ou direita; socialismo ou capitalismo.
O neoliberalismo e a onda globalizante do final dos anos 1990, e daí em diante, mesmo que tão rapidamente tivesse despencado abismo abaixo, reforçou esses sentimentos e contrapôs, pelo fracasso dos países socialistas, competência (vinculada à capacidade de se ascender socialmente) à incompetência (rotulando os que se opunham aos mecanismos egoístas neoliberais e acusando-os de serem ineptos e preguiçosos). A referência era, naturalmente, o fracasso dos países socialistas, naquilo que eles pretendiam ser, mais solidários.
E, assim abriu-se uma guerra a todos os governos eleitos democraticamente, jogando o jogo pregado pela burguesia, que se apresentassem com projetos na contramão desses valores tornados dogmas pelas classes dominantes, porque amplamente favorecidas com as mudanças que começaram a serem efetivadas nos anos 1980 em outras partes do mundo, e no interesse dos EUA e alguns países europeus, seus aliados. Aceitava-se a democracia, desde que seus objetivos finais não incomodassem a lógica natural do sistema capitalista e do interesse da burguesia, a liberdade para acumular mais e mais riqueza.
A vitória de projetos políticos progressistas durante a primeira década do século XXI, em diversos países latino-americanos, inclusive o Brasil, mesmo que alguns deles mantendo partes das políticas neoliberais, mas que significasse um maior protagonismo das forças de esquerda, foi duramente combatido. Os partidos conservadores e de direita viram-se perdidos em meio a essas mudanças. Sentiram o golpe e demoraram a reagir, principalmente porque o suporte tradicional das ações direitistas, o gendarme estadunidense, estava envolvido com sua sanha de caçar terroristas no Oriente Médio.
Os avanços sociais obtidos por esses governos, que se espalharam pela América latina com discursos que ameaçavam a hegemonia dos partidos conservadores, provocou uma reação das camadas ricas e tradicionalmente controladoras das estruturas do Estado, desde os tempos coloniais. Não tardou também a despertar a preocupação dos falcões estadunidenses, preocupados com a ampliação da força crescente, estampada no fortalecimento do Mercosul, depois da Unasul e, principalmente, do surgimento de uma estrutura capaz de colocar em xeque o hegemonismo estadunidense: o BRICS.
Jamais, desde que a partir do século XX os Estados Unidos incorporaram em seus ideários geopolíticos a necessidade de controlar os países do centro e sul do continente americano, houve um período tão extenso de descontrole sobre quais forças políticas comandariam os destinos desses países. Um dos seus principais estrategistas, cujas teorias são aplicadas até hoje nas ações geopolíticas dos Estados Unidos por todo o mundo e na América, Nicholas Spykman, destacara a importância de exercer o controle sobre determinados países, em especial o grupo denominado por ele ABC: Argentina, Brasil e Chile. A Venezuela, não somente por sua enorme reserva petrolífera, segundo alguns a maior do mundo, mas também pela posição estratégica próxima ao Canal de Panamá, juntamente com a Colômbia, que em tempos passados formaram um único território, a Grã-Colombia. E Cuba, igualmente por sua posição estratégica, de um posicionamento que a tornava praticamente controladora dos acessos marítimos para o Golfo do México.
Com a mudança de governo nos EUA, e a decadência da dinastia Bush, obcecada em destruir governos e garantir a retomada dos controles, por suas corporações petrolíferas, na exploração do petróleo no Oriente Médio, sob o manto de caça aos terroristas, ocorrerá uma alteração nas táticas a serem adotadas. Obama modifica a forma de agir, embora mantendo a velha estratégia contida na geopolítica de Spykman, de cercar o Heartland (leia-se Rússia), controlando o Rimland (entenda-se Leste Europeu, Oriente Médio e Norte da África) e a América (os países citados). Além da teoria do Rimland, a de contenção passa a ser aplicada de maneira mais sutil, com a promoção de ações para desestabilizar governos e impedir que grupos inimigos pudessem se fortalecer com o apoio de governantes vistos como hostis e inimigos.
A partir do século XXI, bem em seu começo, uma série de “revoluções” ditas democráticas, denominadas “coloridas”, inaugurou tempos complexos do que seria o entendimento a respeito da defesa de democracia, ou da luta para derrubar governos que não se adequassem à liturgia do Império. A inspiração foi uma obra, tornada best-seller por ação propagandística da Agencia de Inteligencia dos EUA, a CIA. Escrita por Gene Sharp, “Da ditadura à democracia” tornou-se o instrumento e o guia para diversos levantes “populares”. Por trás da “espontaneidade” das massas, contudo, escondia-se uma série de ONGs, embora algumas abertamente financiadas por instituições e corporações estrangeiras, a maioria dos EUA. Dentre esses financiadores se encontrava, e se encontra, o megaespeculador George Soros, que investe altas somas de dinheiro no financiamento de organizações que proporcionassem o estopim dessas rebeliões, e por outro lado ganhava altas somas de dinheiro especulando e adquirindo ações de empresas que se enfraqueciam diante das crises criadas e fomentadas. Tudo isso está detalhadamente demonstrada e fartamente documentada no excelente trabalho de Moniz Bandeira, “A Segunda Guerra Fria”.
Essas ações espalharam-se pelo mundo numa rapidez estonteante, e provocaram uma impressionante alteração na ordem geopolítica mundial, com a derrubada de diversos governos, inicialmente no Leste Europeu, depois espalhando-se pelo Norte da África e Oriente Médio, no Cáucaso de forma provocativa a atingir a Rússia, e na América Latina. Claro que em algumas dessas situações, o feitiço terminou por virar contra o feiticeiro, fazendo surgir uma infinidade de grupos terroristas, e o maior deles, que se transformou em governo num território autodenominado “Califado”: o Estado Islâmico, surgido dos escombros da Síria e do Iraque.
Evidentemente, seguindo-se a estratégia já elaborada por Spykman, antes da segunda guerra mundial, não iria demorar para que essas “revoluções democráticas” atingissem os governos latino americanos naqueles países de maior importância estratégica, e onde, logicamente, estivessem governantes de esquerda que fizeram seus países distanciarem-se das políticas imperiais. E, pior, ousaram ajudar a criar estruturas geopolíticas que seguramente afetariam a hegemonia da maior potência do mundo.

A CRISE ATINGE O BRASIL: A FÚRIA E O GOLPE!

O comportamento adotado externamente, logicamente não daria certo se não contasse internamente com setores que lutam pela tomada do poder. Além das ações de espionagem e de agentes infiltrados em diversos setores, sejam ONG ou grandes corporações. Nenhuma novidade para quem já conhece os mecanismos sórdidos de destruição de governos efetivados há muito tempo. Portanto, identifica-se internamente os setores conservadores e os mais radicalizados ideologicamente, sejam fascistas, direitistas ou liberais, além de antigos esquerdistas convertidos às ideias reacionárias (e esses constituem-se nas vozes mais tonitruantes e carregadas de ódios). Isso ressoa e se espalha pela força de estratégias goelbesianas adotadas pela grande imprensa, atingindo um alvo potencial: ex-eleitores da presidenta da República, inconformados com o acirramento de uma crise econômica que afeta a maioria da população, principalmente a classe média, essa mais adepta do consumismo exacerbado e do sonho para ascender à elite.
Naturalmente a fragilidade do governo é condição sine qua non para que ações golpistas alcancem sucesso. A crise econômica, principalmente, o isolamento político e o distanciamento dos setores populares, notadamente os mais organizados, afetaram significativamente a base de apoio do governo nos últimos anos, abrindo caminho para que as pregações oposcionistas contaminassem uma massa de descontentes. Esse mesmo governo subestimou a capacidade de uma imprensa venal e reacionária perder todo e qualquer senso de respeito às legalidades constitucionais, por todo esse tempo evitou criar uma lei de controle da mídia. Tudo que se conquistou e possibilitou levar o Brasil ao clube das principais potencias do mundo, se desvaneceu rapidamente, substituído por uma sequência de más notícias adredemente repetidas à exaustão. Era preciso isso para abrir o caminho à deposição de uma governante legitimamente eleita.
Mas, se não há mais o poder dos canhões a ajudar na implementação de um golpe de Estado, como fazer isso? Só o desgaste do governo não basta, porquanto se esforçasse a direita para explodi-lo. Era preciso encontrar algum mecanismo que abrisse uma brecha constitucional, que pudesse ser aplicada de acordo com determinadas conveniências e que pudesse. Buscou-se os argumentos de outrora, já utilizados na luta ferrenha para derrubar governantes, como Getúlio Vargas e João Goulart, e se tentara fazer também com Juscelino Kubitscheck. As acusações de corrupção que supostamente corrói todo o governo.
Sabe-se, os mais esclarecidos, que a estrutura do estado que existe para dar sentido a um contrato social, assim definido por Thomas Hobbes em seu livro “Leviatã”, como sendo a condição necessária para conter uma guerra de todos contra todos, traduz uma lógica perversa que acompanha o sentido de existência do sistema capitalista. Embora seus efeitos danosos, da absoluta falta de escrúpulos do uso privado da “res pública” tivesse também atingido os países socialistas, levando ao surgimento de uma burocracia que se corrompeu no processo de crise daqueles países. Ao mesmo tempo em que a corrupção é permanente nessas estruturas do Estado, em qualquer parte do mundo, com gradações diferentes, a aversão à essas práticas, principalmente em momentos de crises levam a indigação às alturas e radicalizam a oposição a essas práticas, absolutamente nocivas à sociedade porque corrói recursos que são do Estado, portanto do povo. Mas, efetivamente, não há ninguém, nem mesmo os mais recorrentes corruptos que seja contra essa maldita praga.
Exatamente por isso, sempre que os argumentos políticos não são suficientes para derrubar o prestígio de alguma liderança com forte penetração entre os mais pobres, surge demoniacamente, a derrubar certezas e convicções sobre o caráter de qualquer um, a acusação de se enriquecer por meio da política, com uso de dinheiro público, pela via da corrução. Agregue-se a isso a repetição ad nauseam pelos meios de comunicação, e, mesmo se porventura nada seja comprovado no final dessas investigações, isso passa em definitivo a compor a biografia de quem esteja na mira, ou seja o alvo, dos seus desafetos. Por uso da massificação, da popularização de uma denúncia vista como uma aberração pelo povo, seja qualquer mentira, ela pode tornar-se uma verdade aos olhos de uma opinião pública manipulada.

O “JUSTICEIRO”! MAS O QUE O MOVE?

Eis que surge então um “destemido” juiz, do Paraná, implacável a caçar corruptos, na condição de herói e justiceiro, exorbitando na função de magistrado, que não é de investigar, mas de julgar, e com isenção. Bem, a história se conta de forma estranha. Esse mesmo personagem já esteve por trás da investigação de um dos maiores escândalos de emissão de divisas ao exterior e lavagem de dinheiro, no episódio que gerou uma CPI até hoje envolta em mistérios: a CPI do Banestado.[i] E, por estranha coincidência, a operação que leva o nome de Lava jato se iniciou prendendo o mesmo doleiro envolvido nesse escândalo de corrupção, sonegação e evasão de divisas da história brasileira, com valores mais de cinco vezes superiores aos que envolvem o escândalo em torno da Petrobrás.
Mas, porque esse doleiro se livrou daquelas investigações e de uma CPI que identificou dezenas de personalidades políticas, empresariais e banqueiros envolvidos no esquema? Por que não se chegou ao fim e se prendeu todos os envolvidos? São perguntas que não encontram respostas num escândalo que aconteceu durante o governo FHC, e teve entre os indiciados o presidente do Banco Central, Gustavo Franco, e entre os nomes citados por envolvimento o atual senador José Serra, do PSDB  o então senador Jorge Bornhausen, do PFL (hoje DEM).[ii] As investigações foram bloqueadas naquela oportunidade pelo Ministério Público. Mas o delegado da Polícia Federal encarregado do processo foi arbitrariamente afastado numa articulação feita para garantir o encerramento da operação e livrar os suspeitos de serem investigados.[iii]
As chamadas CC5, contas pelas quais as operações ilegais enviaram recursos ao exterior, via Banestado, movimentaram cerca de 124 bilhões de dólares em dez anos (alguns falam em 150 bilhões).[iv] Dando nome ao “boi”, o doleiro envolvido nesse mega esquema, comprovadamente, mas que saiu ileso de tal forma que a acusação contra ele se perdeu no tempo chama-se Alberto Youssef. O mesmo pelo qual se deu início à “Operação Lavajato”. Uma estranha coincidência que, tendo-se livrado daquela operação, sabe-se lá por que, vê-se envolvido novamente em um grande caso que guarda algumas semelhanças, e se encontra de novo com o Juiz Moro, com o qual começa agora a colaborar. Mas, desta feita, os setores envolvidos naquele grande esquema, e que escaparam da punição, hoje encontram-se na condição de acusadores, endeusando os que antes foram fracos para os levarem até as devidas punições.
O “destemido’ juiz Moro da Lavajato, sucumbiu às articulações políticas para enterrar tudo que tinha sido investigado pela Operação Macuco. Mas, estranhamente, e equivocadamente, o Partido dos Trabalhadores cedeu às pressões, bem como o governo do próprio presidente Lula, corroborando para que a CPI do Banestado, e toda investigação da Operação Macuco, fosse enterrada. Talvez ali, ao vacilar em jogar duro e punir grandes corruptos, tenha sido demonstrado uma fragilidade que encerraria as possibilidades de livrar o país das verdadeiras saúvas que se alimentam da riqueza do país e do povo brasileiro, e impediriam que personagens frágeis na condução daquele processo, se apresentassem atualmente como heróis na luta contra a corrupção.
No entanto, existem outras relações a gerar interrogações sobre como a operação lava jato chegou ao ponto atual, com, inegavelmente, uma investigação de proporções monumentais. Provavelmente, boa parte das informações obtidas não sejam somente como consequência da prisão daqueles que seriam delatores. Mas a prisão deles pode ter sido consequência de uma série de escutas, que atingiu diversas autoridades e empresas brasileiras, entre elas a própria presidenta Dilma Roussef e a Petrobrás. Coincidência ou não, o juiz Sérgio Moro participou de um curso em 2007, a convite do Departamento de Estado dos Estados Unidos, indicados para “potenciais líderes”.[v]
Em 2013, o ex-analista de informática e técnico da CIA, Edward Snowden, denunciou para o mundo como a Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) obtinha informações estratégicas de vários países, entre os quais o Brasil, através de um sofisticado sistema de vigilância e de espionagem sobre setores importantes e que eram de interesse dos EUA.[vi] Naturalmente, o Brasil sempre foi considerado importante estrategicamente, e seguramente isso adquiriu uma relevância muito maior quando se descobriu nas costas marítimas brasileiras uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o pré-sal.
As ferrenhas disputas sobre qual método de exploração dessa riqueza será adotada, entre indas e vindas, já demonstram que há algo muito poderoso em disputa, que envolve grandes corporações e megainvestidores. Dentre eles a Chevron e o especulador milionário Georges Soros, envolvido também no financiamento de ONGs usadas para desestabilizar o governo ucraniano aliado da Rússia. Soa estranho saber que Soros,[vii] como todo megaespeculador sempre devidamente informado pelo controle de informações seletivas, vendeu todas as ações que adquiriu da Petrobrás, em 2015, e na sequência se desfez também de ações da Embraer e da Tim. [viii]
Às vésperas de analisar um recuro da oposição,
o ministro Gilmar Mendes, se reuniu com
José Serra e Armínio Fraga (ex-assessor de
Georges Soros)
Como se percebe, já estava em curso todo um trabalho de desestabilização do Brasil, e, essas informações estratégicas, seguramente já davam conta de que poderosos interesses levariam a situação brasileira ao limite do desgaste.[ix] Mas, além de desestabilizar o governo, essas ações tinham outro alvo, focado mais no futuro do que no presente: o ex-presidente Lula e seu forte carisma. A possibilidade de ele vir a ser candidato nas próximas eleições elevou o termômetro político ao limite da insensatez, gerando um vale-tudo que desconsidera todo o desequilíbrio econômico comum em momentos de crises políticas. Principalmente quando já existe internacionalmente uma crise sistêmica de difícil solução e que afeta todo o sistema financeiro internacional.
Mas, para além de tudo isso, a conjuntura é moldada pela velha e conhecida luta de classes. O que se disputa é quem controlará o Poder, já por tanto tempo, e inaceitavelmente na mão do Partido dos Trabalhadores, com forte aliança com o Partido Comunista do Brasil, e os tendões de Aquiles, expresso em frágeis apoios de parlamentares oportunistas dispersos por outros partidos, que neste momento, abandonam o barco em busca de outras alianças que satisfaçam seus interesses mesquinhos particularistas. Estes flutuam entre um e outro governo em busca de cargos e proximidade com o Poder.
O atual momento político é absolutamente imprevisível. Uma guerra está aberta e o objetivo é destituir a presidenta da República, e, principalmente, impedir que o ex-presidente Lula venha a se constituir em um nome imbatível nas próximas eleições presidenciais. Se isso não ocorrer, garantir a governabilidade será um desafio hercúleo, em função dos interesses políticos em jogo. Seguramente entraríamos imediatamente já no processo político visando as eleições de 2018, demarcando campos e prosseguindo a tática de fustigamento de forma a impedir que o governo se recupere.
Caso aconteça o impeachment o país poderá atravessar um período mais turbulento ainda, com fortes mobilizações populares e possível enfrentamentos de entidades e organizações que neste momento se articulam para barrar o ímpeto golpista conservador. Não parece que o resultado do golpe de estado institucional que se pretende aplicar tenha paralelo com a inanição que acometeu as organizações de esquerda em 1964. O que se espera, dado a radicalidade expostas nas ruas, é que haja forte reação, tornando o ambiente político e social absolutamente indefinido quanto a uma estabilidade institucional.
Outros elementos, no entanto, deixam o quadro institucional brasileiro fraturado. O protagonismo político apresentado pelo Ministério Público e pelo Judiciário, além da insistente quebra de hierarquia de segmentos da Polícia Federal, fere de morte a democracia brasileira e o Estado de Direito, essencial em um regime republicano. Nitidamente, esses setores ressoam as vozes conservadoras e demonstram não saberem distinguir suas origens de classes com um comportamento isento que deve ser, sempre, condição sine qua non para que não haja perseguições infundadas a quem não tem condenações, nem para que se condene alguém simplesmente porque ele pode ser ameaça aos interesses políticos conservadores.
Há de ser preciso nos próximos dias muita firmeza por parte daqueles que defendem a legalidade constitucional. Não se pode simplesmente aceitar, como normal, uma votação absolutamente de cartas marcadas no Congresso Nacional, com parlamentares que compõe a comissão do impeachment envolvidos em processos de corrupção, muitos apontados pela própria Operação Lava Jato e sob investigação da Procuradoria da República. Além desse processo estar sendo conduzido por um indivíduo, que se sustenta na Presidência da Câmara por sucessivas manobras, e que, esse sim, já é réu por determinação do Supremo Tribunal Federal. Mais bizarro ainda é o fato desse crápula ser um dos mais próximos na linha sucessória, depois do vice-presidente, também citado em deleções como envolvido na indicação de diretores envolvidos até o pescoço na corrupção da Petrobrás.
É diante desse quadro bizarro, e de um ódio e estupidez que se espalha na inconsequência do juiz que comanda a Lavajato e de uma mídia que se assusta agora com o seu futuro e manipula descaradamente a verdade dos fatos, que se torna imprevisível saber o que pode acontecer nos próximos meses. Seguramente, tudo vai depender da força e determinação dos movimentos sociais, de entidades e organizações que ajudaram nas duas últimas décadas a mudar os rumos da história política brasileira.  O desafio está posto, ou retrocedemos a um passado que se imaginava enterrado nos escombros de tempos intolerantes e ditatoriais, ou avançamos para um futuro que consolide as transformações democráticas e assegure a continuidade da inclusão e justiça social para as camadas pobres, e secularmente excluídas, da sociedade brasileira.

LEITURAS COMPLEMENTARES (artigos escritos em 2015)
4.   http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2015/07/o-brasil-diante-do-enigma-da-esfinge.html

[ii] http://horia.com.br/noticia/o-que-diferencia-o-caso-banestado-da-operacao-lava-jato
[iii] VALENTE, Rubens. Operação Banqueiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013. Pp. 119-139
[vii] http://www.debatesculturais.com.br/george-soros-com-fhc-no-brasil-somente-drogas/