sábado, 28 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – 5ª PARTE

UMA GUERRA SERIA O CAMINHO PARA TIRAR A ECONOMIA CAPITALISTA DA CRISE?

Qual a alternativa o mundo encontrará para a falência múltipla dos órgãos do sistema capitalista, sua espinha dorsal, a estrutura financeira? Como visto na parte 4ª parte em outros momentos a saída terminou sendo guerras que afetaram todos os continentes, numa dimensão mundial. Poderá ser a guerra a saída para essa crise?
Opera Mundi - Charge:Latuff
Vamos analisar essa possibilidade. Que também pode não acontecer, por suas próprias dificuldades e pelas novas ordenações geopolíticas, com o deslocamento do eixo de importância para Ásia e América do Sul. Pelo menos uma guerra no sentido convencional.
A primeira coisa que devemos fazer quando avaliamos a perspectiva de uma guerra é olhar para um mapa, observar as fronteiras, ver com base nisso a diferença de tratamento que as grandes potências dão para determinados países, em detrimento de outros. Peguemos a situação da Líbia, e indaguemos porque o tratamento foi diferente do Iêmen (Só para recordar, Kadafi foi assassinado com o suporte da OTAN, acusado de cometer crimes contra sua população, levando a morte centenas de pessoas. No Iêmen o ditador, que precisou fugir para a Arábia Saudita, foi acusado dos mesmos crimes, mas obteve apoio da monarquia saudita, fez acordo com os Estados Unidos, obteve imunidade no parlamento iemista para não ser processado, e vai curtir um exílio nesse país). Foi nítida a diferença em relação ao Egito, onde aconteceu um golpe militar, já tratado aqui. E, porque a Arábia Saudita enviou tropas para conter as rebeliões no Bahrein? Porque existe ali uma enorme base militar dos EUA. Porque ainda não houve invasão á Síria?
Há uma série de interesses geopolíticos, que extrapolam em muito os problemas locais. Na Síria, por exemplo, há uma resistência da China e, principalmente, da Rússia em concordar com sanções contra aquele país, que mantém em seu território uma base militar russa, a única que lhe dá acesso ao Mediterrâneo. Há também uma forte influência do Irã e relações estreitas com o Hamaz (palestino) e com o Hesbollah (libanês). Existe, então, toda uma situação complexa ali, mas é exatamente toda essa complexidade que pode gerar uma guerra de repercussão mundial.
Por exemplo, houve no final do ano um contencioso entre EUA e Rússia, com declarações fortes de ambas as partes, logo após o resultado das eleições nesse país. Mas por trás dessa discussão existem outras razões para esse embate. De um lado a influência da Rússia tanto na Síria, como no apoio ao projeto nuclear iraniano, de outro as instalações de sistemas anti-mísseis que os EUA se preparavam para instalar em regiões próximas às fronteiras russas, perto dos Montes Urais, cordilheira que separa a Europa da Ásia, com o objetivo claro de se preparar para um eventual conflito com o Irã, mas que a Rússia entende como ameaça às suas fronteiras. Os russos não somente se contrapõem às instalações dessas bases, como já ameaçaram atacá-las, caso seja concretizada essa intenção.
Ou seja, já existe todo um discurso belicista, e apesar de a diplomacia por enquanto estar contendo os ânimos mais exaltados, tudo isso poderá se agravar com a continuidade e ampliação da crise econômica. Caso ela prossiga por mais um ano, sem perspectiva de saída, a hipótese de uma guerra vai se tornando cada vez mais provável.
Não acredito, contudo, que a dimensão dessa guerra seja suficiente para causar grandes transtornos ao Brasil. Pelo menos no que se refere à ações militares. Claro que uma guerra mexe com a economia mundial, e nesse aspecto o Brasil, como os demais países fora do eixo central do conflito, seriam afetados.
Mas ela deve se concentrar nessa área que é a mais atingida atualmente por diversos conflitos, desde lutas internas como de ocupações por outras nações. Eu diria que ela pode acontecer em territórios asiáticos e no Oriente Médio, em partes da África, e, a depender, atingir a Europa. O Irã, Afeganistão, Paquistão, Síria, Egito, certamente envolvendo também Israel, e, caso a Rússia se envolva em um conflito desse porte, com ações com pudessem atingir a Eurásia, então dificilmente poderíamos prever as conseqüências.

QUAL É O MAIOR PESADELO DOS EUA?

O Irã hoje não é o maior problema dos Estados Unidos, nem a Coréia do Norte (com quem o governo dos EUA tentam uma solução pacífica, negociando apoio econômico em troca de eliminação do potencial nuclear). O grande pesadelo dos EUA, em minha opinião, não é o Irã, sem querer diminuir toda a disputa geopolítica, com o intuito de impedir que esse país detenha hegemonia naquela região. Entendo que o Paquistão é a peça que pode atrapalhar um possível xeque-mate nesse jogo de xadrez que significa uma guerra. Há uma aliança tênue, entre esses dois países, mas a desconfiança é mútua, os paquistaneses não confiam nos estadunidenses, mas o oposto também é verdadeiro. 
Mas essa é uma situação conflituosa que deverá se manter sob controle por algum tempo, mas não tenho dúvidas que em algum momento vai explodir. Por enquanto o alvo é o Irã. Mas caso ocorra uma guerra de maior dimensão, certamente o Paquistão Irá se envolver. Mas não podemos prever o que acontecerá. Porque esse é um dos países que possuem armas nucleares e com uma fronteira completamente instável, com atuações de grupos guerrilheiros talibãs afegãos, mas também aliados paquistaneses desse grupo. E por outro lado uma outra fronteira com parte em litígio, com a Índia, com quem disputa o controle da Caxemira há décadas, inclusive já tendo ocorrido vários conflitos entre os dois exércitos.
Mas nesse momento o que está em jogo é a necessidade de impor limites ao Irã,  a fim de evitar que haja naquela região um país com forte hegemonismo a rivalizar com Israel, eterno aliado dos EUA. Principalmente por se tratar também de um país riquíssimo em petróleo e com um histórico cultural que já o acompanha há milênios, desde o Império Persa, podendo complicar a influência que os estadunidenses sempre tiveram por ali, contando com seu velho aliado, a Arábia Saudita.
Um olhar bem focado em movimentações de guerra, seguindo os interesses de cada país, e forçando uma imaginação com base em estudos de geopolítica e de estratégias, podemos decifrar boa parte dos movimentos que vão acontecendo seguindo-se aos acontecimentos da chamada “Primavera Árabe” (cuja denominação já critiquei aqui na primeira parte).
Vamos listar primeiro as pedras que foram movidas, mas sem serem deslocadas dos lugares. Egito, Baherein, Iemen. Embora com problemas comuns aos demais países, inclusive  tratando-se também de ditaduras as reações populares não foram suficientes para alterar, até agora, o jogo do poder. Manteve-se, de certa maneira, a influência da Arábia Saudita, principal porta-voz dos EUA naquela região. Mas, se olharmos bem as riquezas de todos os países e de suas fronteiras, conseguiremos decifrar alguns enigmas que se escondem por trás dos discursos de combate às ditaduras. A retirada do Kadafi do poder cumpria o objetivo de garantir um mercado de petróleo confiável, na eminência de uma guerra contra o Irã. As medidas adotadas pela Comunidade Européia nesta semana confirma isso. Jamais a Europa tomaria uma decisão de boicotar o petróleo iraniano se o mercado de petróleo líbio não tivesse sob seu controle.
Imagem: orbum.org
Uma primeira peça do xadrez foi movida. A outra é a Síria. Também aliada de Teerã, e com fronteiras com o Iraque, a Síria garante acesso ao Irã, através do Iraque pelo Mediterrâneo, o que permitiria um cerco, fechando-se pelo outro lado por território Saudita e o Golfo Pérsico. Restaria ao Irã somente o fechamento do Estreito de Ormuz, mas a outra ponta desse istmo, no entanto, está sob controle de aliados sauditas, os Emirados Árabes e Omã. Nos últimos dias noticiou-se a intenção dos Estados Unidos em criar uma grande base militar marítima no Golfo Pérsico, aliás, é bom que se diga que não foram cortados recursos financeiros para esses investimentos militares. Há que se considerar também o fato de boa parte do contingente que atua nessa e em outras bases e ações militares estadunidense, ser de empresas militares privadas, uma característica que tem se acentuado nos últimos anos, embora tenha havido também um pequeno corte orçamentário para esse setor.
Portanto, enquanto o povo grita e luta, com toda razão e justamente, na ruas, nos bastidores do tabuleiro geopolítico as peças que são mexidas tem como objetivo a preparação de uma guerra, enfim, do controle do grande Poder.
Assim, a probabilidade de ocorrer uma guerra de dimensão mundial é por ali, pelo Oriente Médio. E o objetivo é conter a crescente influência iraniana, e impedir que esse país adquira capacidade de produzir armas nuclear. Sua influência já envolve Síria, Líbano (Hesbolah), Palestina (Hamaz) e até mesmo o Iraque, que possui uma maioria xiita, embora sem ser seguidora dos Ayotalahs, mas que pode sob determinadas circunstâncias ampliar o circulo de interesses iranianos dentro de seus objetivos de tornar-se uma potência hegemônica no Oriente Médio, disputando essa condição com a Turquia que também tem ampliado sua influência naquela região.
É claro que pelas circunstâncias atuais, de um país destruído por uma guerra absurda e fragilizado em sua capacidade de defesa, o Iraque tenderá inicialmente a permanecer neutro. Mas será submetido a fortes pressões dos EUA para garantir que tropas aliadas cruzem seu território para atingir a fronteira iraniana. Embora essa pressão, e mesmo com o velho sentimento nacionalista que provavelmente seja a única herança de Sadam Hussein, uma parte de seu governo e da população tenderá a apoiar o Irã por suas vinculações religiosas. Não podemos esquecer que o Iraque hoje é um país mais dividido do que era quando da invasão dos Estados Unidos, entre Xiitas, Sunitas e Curdos.
Outra fronteira complexa para se atingir o Irã é pelo lado do Afeganistão. Tem sido por ali que muitos combatentes talibãs fogem das tropas da OTAN e dos EUA, com a cumplicidade do governo iraniano, a fim de dificultar o combate contra os grupos guerrilheiros. Certamente, nas condições de ainda existir uma guerra em curso em território afegão, essa é uma situação extremamente complicada. Os EUA teria que primeiramente estabelecer um acordo de paz com os talibãs, algo que já está ocorrendo sorrateiramente, e em segundo lugar, forçar um outro acordo para que suas tropas possam chegar àquela fronteira. Algo atualmente absolutamente improvável.
Restaria, além da fronteira marítima, através do Golfo Pérsico, o acesso pelo Turcomenistão. Um país que já fez parte da antiga União Soviética, cuja população tem, em sua maioria, adeptos da religião muçulmana. O país se abriu pouco para o Ocidente, e também seria pouco provável que ele pudesse abrir suas fronteiras para dar acesso a tropas ocidentais com intuito de atacar o Irã. Dificilmente a Turquia permitiria que um ataque fosse preparado a partir de seu território, até porque esse país tem também sérios problemas com os curdos, povos apátridas divididos entre seu território e o Iraque. E de outro lado ainda existe uma fronteira complexa para os turcos, com a Síria, à beira de uma guerra civil. Compõe-se assim um quadro de dificuldade para se estabelecer um cerco militar ao Irã.
No meio de tudo isso, fazendo fronteira com a Síria, está o Estado de Israel. Que vive uma situação muito delicada, apesar de possuir um potencial bélico enorme, detendo armas nucleares, mas a cada ampliação das revoltas árabes e das possibilidades de mudanças que ocorrem naquela região, deixam Israel cada vez mais isolado. Isso só aumentou com a decisão da Unesco em aceitar o Estado da Palestina entre seus membros. O que motivou retaliação por parte dos Estados Unidos, com cortes de recursos, e também de Israel e Grã-Bretanha. Isso vai levar a determinada situação para Israel que a melhor saída também seria uma guerra, que pudesse redefinir o quadro geopolítico na região.
Existe nessa região, um verdadeiro arsenal de problemas, confusões e contradições. E do ponto de vista de uma situação de crise, que afeta inclusive as grandes potências, é um teatro, um palco armado, para que aconteça uma guerra e dê uma reoxigenada no sistema capitalista mundial... ou empurrá-lo de vez para o abismo.
Continua...


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – 4ª PARTE

TERÁ O CAPITALISMO ATINGIDO O LIMITE DE SUAS CONTRADIÇÕES?

Nós sabemos que o corpo humano pode sobreviver por tempo indeterminado pela medicina, com a falência de seus órgãos, ligado a aparelhos que o mantém em estado vegetativo. Ou, na melhor das hipóteses, um coma profundo, do qual de alguma maneira poderá ser despertado. O capitalismo não morreu, está em crise, podemos até dizer que está em coma, tal qual um corpo humano, à beira do seu limite, mas do qual pode se recuperar. Ir, além disso, talvez seja um otimismo exagerado, para aqueles que a ele se opõem. Mas isso faz parte de sua própria condição existencial, conforme já abordei na primeira parte. Poderá – ou não – sucumbir a mais essa crise. E dentre as várias alternativas possíveis, sempre se poderá contar com a possibilidade de uma guerra de dimensão mundial. Não seria a primeira, nem a segunda vez que isso ocorreria. A guerra, sim, é uma saída, embora já não tanto como fora no século XX, em função de novas ordenações da geopolítica mundial. Mas, vamos analisar sob essa perspectiva.
Embora historiador, com as atenções voltadas para o passado, mas com os olhos atentos para o presente, não temos, nem ninguém, nenhuma capacidade de prevermos o que pode acontecer. Mas, como estudioso da geopolítica, utilizando conhecimentos de história e geografia, e navegando ligeiramente pela economia, principalmente a partir de bases marxistas e focando nessa relação tempo-espaço, o que identificamos é com base na experiência, naquilo que os fatos históricos nos ensinam. Façamos então uma rápida viagem pela história para assim tentarmos compreender quais as saídas que o capitalismo pode encontrar.
O mundo passou por uma grande crise no final do século XIX, em função da necessidade de uma repartição do mercado mundial, dominado por grandes impérios, mas sendo ameaçado pela influência de novos Estados-nações que sugiram, se fortaleceram e se colocaram como concorrentes na disputa pelo controle colonial. Isso gerou a primeira grande guerra mundial, o fim dos impérios, novas divisões territoriais com a criação de novos países. O acerto final foi conseqüência do resultado da guerra, logicamente beneficiando mais um dos lados, aquele que saiu vitorioso. Deixou mágoas e marcas profundas.
Houve um impulso na economia, logo após o final da guerra. Os EUA surgiram como uma nova potência econômica, e se tornou o grande financiador e comprador, ao mesmo tempo, do mundo. A economia capitalista mundial passou a ter nos Estados Unidos a sua grande força impulsionadora. Até que no final da década de 1920 e por duas décadas seguintes uma nova grande crise colocou o mundo novamente em pé de guerra. A ganância nesse período ganhou um grande impulso e o que se produzia ia muito além das necessidades de consumo, travando a economia mundial.
Quando ocorreu esse travamento, naquilo que ficou conhecido como o grande crack da bolsa de Nova Iorque, numa fatídica quinta-feira do mês de outubro de 1929,  sem perspectiva de saída – a não ser o socialismo, já que a crise não atingiu a União Soviética, fora da economia de mercado – a alternativa foi mesclar o liberalismo econômico com o planejamento estatal, a partir das teorias econômicas keynesianas, de John Maynard Keynes.
Mas em algumas situações, sob determinadas circunstâncias, a crise tomou um rumo inesperado e fez surgir uma liderança inusitada, um país que tinha sido humilhado ao final da primeira guerra mundial. A Alemanha era reféns de créditos dos Estados Unidos, empréstimos, para ao final depender da sua economia, adquirindo produtos com os próprios empréstimos que conseguia. Algo que aconteceu também depois da segunda guerra mundial.
Quando aconteceu a grande depressão econômica, quebrou a economia dos Estados Unidos, e a Alemanha ficou à míngua. Nessa situação ou o país se submetia à influência soviética, ou a burguesia precisaria encontrar uma saída, uma liderança, que pudesse tirá-la das mãos do comunismo. E o poder, diante desse dilema, foi entregue nas mãos de Hitler. As condições que estavam criadas ali não apontavam nenhuma outra alternativa. E diante desse quadro, de uma crise mundial, o que foi feito na Alemanha foi um forte investimento interno, protagonizado pelo Estado. E isso foi possível, em boa parte, seqüestrando o dinheiro dos judeus, direcionando esses investimentos para gerar uma demanda por crescimento, garantindo emprego, além de aplicar fortemente em infra-estrutura, criando uma forte indústria de guerra. Sem dar muita importância para a crise que afetava os demais países. Ou seja, Alemanha nazista, com Hitler à frente, utilizou da mesma receita keynesiana, excedendo-se somente no controle fortemente centralizado do Estado, em todos os sentidos.
A economia alemã foi recuperada, com forte investimento militar, isso tem que ser ressaltado, construindo as condições para torná-la uma potência com um forte sentimento nacionalista, acirrando ressentimentos que permaneciam ainda como conseqüência dos tratados que impuseram humilhação ao país depois da primeira guerra mundial. Esse período, de crescimento do poder da Alemanha paralelo à crise que afetava a economia mundial, passou a ser conhecido na história como o da “paz armada”. Os países, mesmo em crise, procuravam se armar, cientes da eminência de uma nova guerra.
Aí veio a segunda guerra mundial, e as conseqüências disso são sobejamente conhecidas. Como decorrência houve uma forte expansão da influência comunista, com a União Soviética à frente, mas foi preciso dar uma maquiada no capitalismo, mudando sua feição, alterando o liberalismo clássico e inserindo uma forte participação do Estado, como forma de garantir a recuperação dos países e promover pleno emprego para a população. A guerra fria, que surge também como conseqüência do resultado dessa guerra, levou a planos econômicos cujo objetivo era não somente recuperar a Europa, devastada pela guerra, mas também se contrapor ao socialismo.
Isso se deu com um investimento estatal muito forte, baseando-se nas teorias de Keynes, fazendo com que o capitalismo adquirisse uma feição menos individualista, amenizando os problemas sociais e dando garantias de emprego às pessoas. Planos sociais, seguros desempregos, aposentadorias, tudo isso passou a se constituir o que ficou conhecido como “welfare state”, ou “estado de bem-estar social”.
Uma nova crise, contudo, sacudiu o mundo na década de 1970, e aí as razões foram várias. Houve inicialmente uma mudança na forma como se comercializava a principal fonte de energia no mundo, o petróleo, através da criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que passou a controlar o fluxo desse produto garantindo-se um controle entre oferta e demanda, a fim de ter os preços elevados no mercado internacional.
Por outro lado, a estrutura capitalista criada com o keynesianismo, ou o estado de bem-estar social, era incompatível com a lógica de funcionamento do capitalismo, que se baseia na permanente busca pelo lucro, cujo motor é acionado pela ganância e a usura. Alógica do capitalismo não é distribuir riqueza, mas concentrá-la, numa disputa louca pelo controle da economia mediante a centralização dos meios de produção. Esse foi outra razão que começou a fazer a economia travar mais uma vez. Pois aliava-se a crise do petróleo, que atingiu as economias do terceiro mundo, principalmente, e impediu que as grandes empresas sediadas na Europa continuassem extraindo enormes lucros nos países de economias dependentes e de fracos parques industriais. Consequência do controle que era exercido pelas multinacionais.
Diante de uma nova crise que ameaçava o capitalismo era necessário encontrar uma nova saída. Os altos salários, o pleno emprego, os gastos sociais estatais, se tornaram empecilhos para as grandes corporações continuarem ampliando seus lucros. A economia de mercado capitalista emperrada, encontrou na falência dos modelos socialistas o pretexto para realizar transformações profundas, omitindo a natureza real de sua crise, e apontando para o fracasso do modelo socialista, baseado no planejamento estatal e no controle da economia.

A GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL – QUANDO A GANÂNCIA E A USURA TORNAM-SE UMA OBSESSÃO

Com a crise dos países socialistas, e o efeito cascata que foi derrubando uma a uma todas aquelas estruturas, até atingir a União Soviética, abriu-se um enorme mercado e uma louca corrida por parte de grandes empresas, com o intuito de controlarem a economia desses países e de uma estrutura baseada no forte domínio do Estado. Empresas estatais, que controlavam setores estratégicos, passaram a ser privatizadas, transformadas em economias mistas, inicialmente, para em seguida ficarem sob o pleno domínio de grandes corporações dos Estados Unidos e Europa. O nome dado a tudo isso foi, desregulamentação da economia.
Não só novos mercados, mas a privatização de empresas de enorme potenciais estratégicos, com garantias de crescimento diante de uma economia travada pela impossibilidade de liberdade econômica, em virtude do controle que os Estados impunham. Setores como  o petrolífero, de siderurgia, de energia, das telecomunicações, passaram para as mãos de grandes corporações, aliadas a setores internos desses países, muitos dos quais tornaram-se testas-de-ferro na medida em que no começo as mudanças nas legislações não permitiam maioria das ações nas mãos das multinacionais. Isso se tornou uma febre na União Soviética e Leste europeu, mas também seguiu celeremente o rumo das economias dos países do chamado terceiro mundo, criando uma onda que passou a ser conhecida, dentro de um discurso ideológico, como “globalização”.
Mas isso não aconteceu na China, e vemos hoje que essa foi uma das razões pelo elevado impulso da economia chinesa. Que, ao não abrir mão dos investimentos estatais, começou o século XXI como a grande beneficiária pelo descontrole da economia que se seguiu à essa onda e às políticas neoliberais de abertura escancaradas dos mercados, com a redução cada vez maior do controle pelos Estados-nações.
Ocorre que o capitalismo é incontrolável. A obsessão que esse sistema gera pelo consumo cada vez mais intenso de mercadorias, e a ganância que leva a usura aos patamares de uma verdadeira sociopatia, carrega, inevitavelmente, esse mercado caótico para a beira do abismo. Marx dizia que o capitalismo é um sistema anárquico, ele não combina com o planejamento, porque as ações dos que controlam os meios de produção é de sempre criar produtos que sejam garantias de lucros, independente das necessidades reais.
Essa anarquia na produção capitalista, gera um descontrole, porque a ganância fala mais alto. Até que, diante da facilidade de deslocamento do dinheiro pelo mundo, os capitalistas perceberam que podiam ganhar mais dinheiro apostando. Investindo em bolsas de valores nos quatros cantos do planeta, aproveitando-se das novas tecnologias, principalmente da internet, mas também dos meios de comunicação em geral e dos transportes. E qual o tipo de jogo vai ser jogado? Principalmente com o controle da informação, no domínio dos meios de comunicação e nas boatarias e notícias fabricadas com o intuito de derrubar ou elevar preços de ações.
Os preços das ações nos mercados financeiros acompanham os boatos que circulam nas grandes empresas de investimentos. Quando uma grande corporação começa a enfrentar dificuldades e não consegue segurar a notícia de seus problemas de caixa, de imediato suas ações caem de preço, elas se desvalorizam e vão aos níveis mais baixos possíveis. Essa situação decorre do fato de não haver procura por elas, seguindo a lógica natural do sistema.
Peguemos um exemplo atual. No mês de dezembro noticiou-se uma crise pré-falimentar de uma das maiores companhias aéreas dos Estados Unidos, a América Airlines. Acompanhando as notícias pudemos perceber que suas ações tão logo estouraram essas notícias, caíram 84% em relação ao seu valor de mercado. É o momento em que investidores gananciosos, especuladores, adquirem essas ações quando elas atingem seu grau mais baixo. Ninguém em sã consciência vai investir em empresas que não lhe dará lucro. Nessas situações quem ganham são os mega-investidores, que as compram a preços de banana, dividem-a em áreas de negócios diferentes, reduz o número de empregados com demissão em massa de trabalhadores e realizam um processo de recuperação ganhando lucros absurdos nesse processo.
Existem equipes de recursos humanos especializadas nessas ondas de demissões, enquanto outras retomam o controle da empresa e recompõem seu valor de mercado agora a partir do fortalecimento em áreas diversificadas, jogam mais uma vez com a manipulação da informação, e fazem aparecer em jornais econômicos a plena recuperação dessas “novas empresas”, e lucram absurdos em cima dessas estratégias. Tudo isso, aliás, muito bem mostrado no filme Wall Street – Poder e Cobiça, de Oliver Stone.
O sistema financeiro mundial criou artifícios de valorização mediante várias estratégias que tornam difícil a compreensão sobre o real valor das ações. Além desse artifício citado anteriormente, toda essa engenharia financeira feita para ganhar dinheiro fácil à custa de falências e especulação, o mercado financeiro adota outros, quase todos eles bem distantes da realidade. O valor da maior parte das empresas que existem atualmente comercializando ações nas bolsas de valores do mundo todo é fruto de especulação, é um valor fictício. A maioria dela usa o artifício de apresentar possibilidades de ganhos futuros, e bom base nisso vêem seus valores acionários elevar-se. É um investimento de risco, mas é com esses capitais que as empresas expandem seu poder de mercado, ampliam seus negócios e produzem novos lucros. Mas nem sempre isso acontece, e o tombo além de muito grande, cria um efeito cascata, porque por trás da maioria desses investimentos existem muitos bancos envolvidos e outras empresas, que desejam controlar parte de suas concorrentes e adquirem ações muitas vezes utilizando de testas-de-ferro. Hoje mais conhecidos como “laranjas”.
Essa anarquia, e toda a confusão propiciada pela ganância que movimenta o sistema capitalista, é a própria geradora de todas as crises que acontecem, e que analisamos aqui, bem como também essa que o mundo está atravessando atualmente. A diferença desta das demais é que ela está atingindo muito fortemente todo o sistema financeiro, e assim afeta perigosamente a espinha dorsal do sistema. Porque ela foi gerada internamente e ele não encontra mecanismos de refinanciar os bancos que estão envolvidos. A situação difere de 2008, quando ela estourou. Porque naquele momento o Estado bancou os rombos dos bancos e seguradoras, obviamente ampliando seus endividamentos internos, já que necessariamente precisavam produzir créditos, “cash”, suficientes para evitar uma quebradeira que derrubaria todo o sistema financeiro mundial. 
Como essas medidas não foram suficientes para conter a crise a situação de insolvência dos bancos, agravada com o endividamento das pessoas, impossibilitou que a economia pudesse se recompor, dificultando ao Estado arrecadar recursos suficientes para reequilibrar a economia. Chegou-se assim ao fim da linha, pois quem poderá salvar o Estado? Restaram para isso medidas impopulares, arrocho salarial, desemprego, redução de investimentos em obras públicas e em setores sociais. Dessa maneira ampliam-se mais ainda as dificuldades porque causam impactos mais negativos na economia, na medida em que se reduz a capacidade de consumo da população e surte um efeito contrário àquelas medidas adotadas para retirar o mundo da crise durante a grande depressão da década de 1930.
Diante de tudo que analisamos até aqui, e, como disse anteriormente, baseando-me na experiência do passado, do que a história nos conta como transcorreram os dois últimos séculos, é que podemos acreditar na hipótese de que é possível, sim, estourar mais uma grande guerra de âmbito mundial, como conseqüência da crise e como alternativa ao sistema para contornar o seu mais sério dilema. Acredito que essa guerra já está sendo preparada e o alvo do momento, sem nenhuma dúvida, é o Irã.
Continua...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – 3ª PARTE

UM MUNDO DOMINADO PELAS CORPORAÇÕES

As Corporações nos dias de hoje comandam o capitalismo, em todo o mundo. Então, aquilo que nós chamávamos antes de multinacionais, hoje com aquisições e fusões de todos os tipos o que existem são megas corporações, ou conglomerados que ainda envolvem bancos. E são tão poderosas que algumas delas possuem riquezas maiores do que o PIB da grande maioria dos países. Assim, quando elas entram em um determinado país e investem alto, torna difícil para esse país depois agir, se tiver interesse em ver-se livre delas ou caso queiram impor algum tipo de restrições, porque passa a depender dos seus lucros para sua arrecadação.
Cria-se uma dependência já que existe a necessidade de atrair investimentos. O capitalismo funciona dessa forma: as pessoas estão desempregadas, precisam de emprego, e quem pode oferecer? O Estado não tem condições de garantir emprego para todos, então que medida ele adota? Ele cria mecanismos para atrair empresas, benefícios como isenções fiscais ou garantia de infra-estruturas para as instalações de suas dependências, para que elas possam gerar empregos, fazer a roda da economia girar. Claro que isso cria dependência. Vamos pegar um exemplo menor, da relação de um município ou uma região com uma grande empresa. Veja o caso da Perdigão, em Rio Verde, Goiás. Muito embora seja uma cidade que já atingiu um grau de desenvolvimento de padrão médio, mesmo assim, o impacto de uma saída da Perdigão é muito forte, com grandes conseqüências para a economia da região. Foi o que aconteceu na cidade de Santa Helena, quando a Parmalat abriu concordata e fechou uma unidade de beneficiamento de leite naquela cidade. Gerou uma crise muito grande e um elevado índice de desemprego na cidade. Bom, isso hoje já foi resolvido, mas o impacto foi real.
Ou seja, atrair grandes empresas para esses municípios, garante emprego, reforça suas economias e ainda  ajuda na eleição, mas se é uma grande empresa cria-se essa dependência. A não ser que haja um gestor público ousado, criativo, esperto e inteligente, e ele passa a atuar no sentido de ativar as outras atividades econômicas que são características do lugar, buscando parcerias com o Estado e com o Governo Federal. Se existe um potencial de produzir melancias, devem-se garantir as condições para isso, mesmo se tem uma empresa como a Perdigão, então que se busque incentivar os pequenos agricultores a produzir condimentos, para que eles possam ser adquiridos ali no município, ao invés de serem comprados em São Paulo, por exemplo. Assim, dessa maneira, reforça a economia por outros meios, fecha toda a cadeia produtiva de um determinado produto.
Embrapa
Tudo isso cabe ao gestor público, prefeitos e todo o seu staff. Se ele consegue fechar a cadeia produtiva investindo em pequenos agricultores, agricultura familiar, em produzir aquilo que o município tenha capacidade de oferecer, que seja de sua vocação – para usar um termo bem popular – ele consegue diminuir a dependência do lugar a essas grandes empresas. E inverte uma tendência, o município passa a ser objeto de disputa por aquelas empresas que atuam nesse setor, na medida em que a sua fixação ali reduzirá custos, já que os produtos que são necessários para fabricar uma determinada mercadoria estão bem ali, próximos, diminuindo gastos com transportes.
Se nós pegarmos alguns desses municípios que seguiram por esse caminho, vamos ver o quanto eles se tornaram atrativos para essas empresas. Eu estou começando a fazer uma pesquisa sobre Cristalina, e esse município goiano vive hoje um “boom” na produção para agroindústria aqui em nosso Estado. Surpreendeu-me uma informação, o IBGE divulgou recentemente o Censo Agropecuário, que identificou municípios com maiores PIBs, e o maior de Goiás é o de Cristalina, superando Rio Verde, Itumbiara, Jataí. E é o segundo maior do Brasil, perdendo apenas para São Desidério no Oeste da Bahia.
Por que isso? Há ali uma topografia favorável, uma característica hidrológica que beneficia e facilita a capacidade de irrigação, e isso tem atraído uma série de empresas, inclusive estrangeiras, grandes corporações, como a Boundelle, francesa. E com uma produção, ao contrário das características do agronegócio no centro-oeste brasileiro, completamente diversificada. Produz milho, algodão, alho, soja, ervilha, tomate, leite, ou seja uma produção diversa porque tem água em abundância. As propriedades são em sua maioria grandes fazendas, mas fora do perfil dos grandes latifúndios de monocultura. E agora, por todo esse potencial, vai se destacando e essas propriedades vão se tornando maiores pelos investimentos que passa a ser feito por grandes produtores. 
Mas isso é natural numa economia capitalista, principalmente nos tempos atuais marcado pela concentração e pelo monopólio nas mãos de grandes corporações, como já discutimos anteriormente. Mas sempre se consegue manter forte, se houver interesse do gestor público, uma economia propriamente do lugar, para não se criar uma dependência inversa. E eu acho que isso está sendo feito em Cristalina, muito embora a preocupação maior, e é o que eu pretendo me aprofundar na pesquisa, seja com a capacidade desses recursos hídricos suportar uma aceleração da produção, de acordo com o aumento das empresas que se dirigem para aquele lugar, bem como outros efeito sobre o ambiente, tal como possível desertificação futura como conseqüência do excesso de salinização do solo, e os problemas que são gerados pela penetração de resíduos químicos no lençol freático, causado pelo excesso de uso dos agrotóxicos.
É preciso dizer, também, que o Estado de Goiás está sendo alvo de uma enorme especulação imobiliária rural, principalmente por investidores de outros países. Isso está acontecendo no Cerrado como um todo, e vai avançando pelo Tocantins em direção ao Piauí e o Maranhão. Isso sem contar que o Oeste baiano já praticamente atingiu o auge, com grandes empresas multinacionais ampliando o controle sobre a produção agrícola naquela região. Isso trás um enorme desenvolvimento, modifica a paisagem, enriquece os municípios, mas à custa de uma enorme degradação ambiental, de destruição da biodiversidade desse bioma e das mudanças climáticas que podem afetar profundamente a nossa capacidade hídrica, que faz do cerrado um dos biomas com maior quantidade de nascentes de rios que abastecem as principais bacias hidrográficas brasileiras.
Tudo isso, claro, acompanha a lógica de funcionamento do sistema capitalista. Ele criou um modelo de funcionamento que se baseia no monopólio e na crescente concentração da riqueza. Isso faz com que um pequeno setor controle a economia, o mercado, estabeleça regras, fixe preços, aí não há dúvidas, de fato o Estado termina por ficar refém dessas grandes corporações. E com esse aumento de poder, fica muito difícil combatê-las, porque elas possuem muita força política, uma capacidade por causa disso de formar lobbies poderosíssimos e ter sempre em suas mãos um grupo forte de políticos que atendem seus interesses, principalmente porque nosso sistema político garante essa possibilidade com um financiamento aberto de campanha que faz das eleições o maior negócio para quem tem dinheiro. E tornam esse processo extremamente caro, por onde nasce a corrupção e cria uma cultura que faz com que os candidatos lucrem com esses financiamentos através dos mecanismos de utilização de dinheiro não contabilizado, os chamados Caixas 2. Que, em tempos de baixa inflação, inflam os colchões ou recheiam as paredes de grandes mansões.
Abordemos, então, esse assunto. O país vive um momento de mobilizações, ainda pequenas e motivadas por interesses da mídia, contra a corrupção. Ela só irá acabar, ou melhor, diminuir – porque dificilmente acabaria dentro do sistema capitalista – se houver financiamento público de campanha. Porque pelo sistema atual, o indivíduo que quer ser candidato precisa fazer “caixa” prá campanha e começa a ceder aos “incentivos” que passam a ser dados pelas empresas e por aí se constrói um duto de corrupção. Elas retornam após as eleições para buscar a fatura. E isso se tornou comum no sistema político brasileiro, e não mudou com as transformações políticas que o país passou, trazendo a esquerda para o poder.
Também isso não faz do Brasil o único país onde essa corrupção seja sistêmica, e endêmica. Podemos usar os EUA como exemplo. Ali a corrupção é institucionalizada, e obedece determinadas regras, o lobbie é permitido e legalizado, portanto as representações dessas corporações atuam livremente no parlamento daquele país. (Quem puder assista ao filme “O Superlobbista”, com Kefin Spacey, baseado em uma história real). A eleição de Barack Obama é um claro exemplo disso. Ele surgiu como uma esperança de transformação de uma potência em grave crise financeira, causada pela ganância crescente dos grandes bancos. Sua arrecadação não encontra paralelo em nenhuma outra eleição, embora boa parte, segundo se diz, oriunda de pequenas doações feitas pela internet. Mas o resultado de quem tem poder nesse mundo de financiamento de campanhas se vê após sua posse. Grandes executivos de bancos responsáveis pela crise no sistema financeiro, iniciada no ano de 2008 e que já tratamos no artigo anterior, tornaram-se peças chaves na área de finanças da sua administração. Isso está demonstrado no excelente documentário “Inside Job”, que eu já comentei aqui no Blog (http://www.gramaticadomundo.com/2011/03/inside-job-perversao-do-capitalismo.html) Embora Obama e o Partido Democrata, tenham ensaiado apoio às manifestações dos “Indignados”, que foram às ruas protestarem contra o sistema, eles também são reféns dessas corporações, desses conglomerados financeiros. E agora mais ainda, à medida que se aproxima uma nova eleição, em 2012.
Essa onda de indignação com a corrupção pode terminar na legalização dos lobbies Já existe projeto no Congresso Nacional à espera de ser votado no plenário, e é aí que os honestos terão dificuldades de atuar. Não vai beneficiar a honestidade, nem os governos mais sérios, eles se tornarão reféns dos lobbies. Vai favorecer os mais conservadores, pois impedirá que se veja o que de fato acontece. É diferente, porque hoje o país tem uma controladoria, que fiscaliza, e uma mídia que é livre e que mostra, aliás, mais do que devia, porque age como um partido político. O que pode acontecer é piorar, porque os lobbies agem não somente no Congresso Nacional, mas em todas outras áreas em que eles precisam de apoio para satisfazer os interesses de suas corporações, inclusive na mídia e no judiciário.
Mas essa é uma característica do sistema, a maneira como ocorrem as eleições possibilita isso, e a própria estrutura do Estado e os interesses que existem seguindo a lógica gananciosa e usurária que fundamenta o capitalismo impele sempre isso para adiante. Ele muda sua forma, altera suas características, aplica um verniz de moralidade, como nos EUA e em países europeus, mas não a essência, e essa se baseia sempre na busca permanente pelo controle do poder, para dominar cada vez mais fortemente a economia e o sistema financeiro.
Claro que o financiamento público de campanha não será suficiente para eliminar toda essa podridão, ele só põe um freio e dificulta, mas o sistema sempre deixa as brechas para que essas corporações burlem as legislações. Como no caso citado dos EUA. Este é um Estado totalmente dominado pelas corporações. Assistimos a toda aquela euforia com as eleições de Obama, um candidato que tinha um bom discurso, oriundo de classe média baixa, de cor negra, de origem africana, então se criou toda uma expectativa em torno de sua eleição. Mas quem é Barack Obama diante do poder dessas grandes corporações? Qual a saída? Nenhuma, a não ser colocar Wall Street para comandar seu governo. E ainda formaram um enorme círculo dentro da economia, criando uma escola que formou quadros que hoje estão à frente do poder em vários países europeus. Entregaram o galinheiro para as raposas tomarem conta. Isso é o poder dos lobbies corporativos.
Voltemos à ação dos indignados. Qual tem sido o resultado? A Espanha, por exemplo, que caminho trilhou? Elegeu um governo conservador. E a Itália?  Claro que é difícil se dizer que alguém consiga ser pior do que Berlusconi, mas quem assumiu o poder lá segue essa mesma linha, é um governo do Goldman Sachs, ou seja da mesma escola responsável por levar a economia mundial para o abismo. Na Grécia, da mesma maneira, e os que estão à frente do Banco Central Europeu seguem a mesma cartilha de quem comanda o sistema financeiro nos EUA. E qual o remédio que eles aplicam? Arrocho e recessão sobre os trabalhadores, redução dos investimentos do Estado, para poder equilibrar suas finanças simplesmente para cobrir os rombos criminosos de uma estrutura financeira gananciosa e usurária, que causou toda essa crise que ameaça todo o mundo.
Então não houve, por conta da indignação, transformações na política que possam mudar essa situação em todo o mundo. Muito pelo contrário, eles estão fazendo mudanças políticas para salvar o sistema financeiro e não para resolver os problemas das pessoas.
Continua...
***



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE - 2ª PARTE

O BRASIL, EM MEIO À CRISE ECONÔMICA MUNDIAL

Vimos na primeira parte desse artigo, como a crise econômica tem afetado os países centrais da economia capitalista, como conseqüência dos fracassos causados por um sistema financeiro que atingiu seu limite especulativo e ganancioso. Mas, na contramão dessa situação, países cujas economias emergiram na última década se deparam com situações diferentes, e atingem níveis satisfatórios de crescimento.

Vamos analisar a situação do Brasil, ela está equilibrada do ponto de vista econômico. Nos últimos anos, por questões relacionadas a programas sociais, bolsa família, e até mesmo pelo aumento do salário mínimo (cujo salto foi de uma média de 56 dólares no último ano do governo FHC, para 345 dólares atualmente, e,pasmem, a economia não quebrou, como se atemorizava na época), uma série de ações do Estado, de incentivo que tem sido concedido objetivando transferir rendas, elevou algumas pessoas das camadas sociais mais de baixo e as inseriu acima da linha da pobreza, com capacidade de consumo.


Podemos identificar algumas medidas interessantes, pouco analisadas pela mídia. Por exemplo, desde o governo Lula, esses programas sociais tiveram atenção especial. Como medidas principais foram aglutinados todos os programas que existiam anteriormente em um só, que é o bolsa família, mas ele trouxe junto a obrigatoriedade de quem tem filho mantê-lo na escola, sob pena de ser descadastrado do programa. E, ao invés de se oferecer cestas básicas, como se fazia antes, o pagamento é feito em dinheiro e o consumo passa a ser realizado ali mesmo, no comércio do lugar. Aquece a economia local, e amplia a perspectiva de novos negócios surgirem.

A partir dessas mudanças nessas pequenas economias, empresas do eixo sul-sudeste começaram a se deslocarem para o interior do país. E claro, na medida em que essas empresas se instalam em um município gera empregos, e com o conseqüente aumento do consumo das pessoas, torna-se necessário produzir cada vez mais. Esse círculo, chamado “círculo virtuoso” na economia, interno, é um fator diferencial aqui no Brasil. Não somente aqui no Brasil, mas também na China, que tem um potencial de crescimento interno enorme. E o que a gente sabe é que a crise na política decorre da crise nas condições econômicas da população. Então, se há uma situação equilibrada economicamente, dificilmente se tem uma crise política com repercussão que vá afetar socialmente. É o fato de essas manifestações que ocorrem também aqui no Brasil, marcha de indignado disso, indignado daquilo, não se reproduzem, não atraem multidões, não surte o efeito desejado, como ocorre no Oriente Médio, na Europa e nos Estados Unidos. Limita-se a um número muito restrito de jovens da classe média, ou de estudantes, ainda tentando encontrar novas bandeiras diante das dificuldades de mobilização.

Façamos uma comparação com a situação da Espanha, na Europa, onde aconteceu muito isso. O movimento dos indignados europeus começou pela Espanha, nos chamados países desenvolvidos, mas lá, cerca de 40% da juventude está desempregada, e mais de 20% do total da população não consegue emprego. Aqui no Brasil, chegou-se ao nível mais baixo na história da pesquisa que o IBGE faz para medir o índice de desemprego. Os dados apresentados pelo IBGE em novembro indicam taxa menor que 5% em algumas localidades, como Porto Alegre e Belo Horizonte. O maior índice apontado foi em Salvador, com 9%. Na média nacional o percentual foi de 5,8%, um dos menores índices de desemprego da história do país. Isso num momento em que se acentua a crise econômica na Europa e nos EUA.

Mesmo que nos últimos meses de 2011, por conta de uma política conservadora adotada pelo Banco Central, receoso de uma disparada inflacionária, esses índices tenham estacionados, contudo isso a situação do Brasil é bem melhor do que os países europeus e os Estados Unidos. Claro que são países que tem PIBs bem maiores do que o nosso, mas as condições econômicas do momento nos são muito mais satisfatórias. Tanto isso é verdade que as agências de classificação de riscos de investimentos financeiros rebaixam as notas dos países europeus, e de seus bancos, enquanto as do Brasil são aumentadas. E no mês de dezembro, uma notícia confirmou essa situação.

A CEBR, uma empresa de consultoria britânica, anunciou, após estudos feitos sobre os Produtos Internos Brutos de vários países, que o Brasil havia superado a Grã-Bretanha, tornando-se a sexta maior economia do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Na segunda semana de fevereiro, com o agravamento da crise, o FMI cogitou a idéia, muito mais uma necessidade, de ter que recorrer aos países do BRIC, entre os quais o Brasil, em busca de dinheiro que possam ser emprestados a países europeus endividados.

Essa estabilidade que atravessamos afeta os movimentos sociais faz mudar o perfil das lutas, e das reivindicações. São outros tipos de reclamações, o que se vê nesse momento é a população lutando por melhoria nos atendimentos públicos, há, portanto um diferencial na maneira como são feitas as reivindicações. Já não são mais contra um governo, por não garantir condições sociais dignas para a sociedade. São reclamações porque ele não investe adequadamente em determinada área e as pessoas querem melhorias, por exemplo, na saúde, na educação. Por isso todas essas confusões que acontecem, denúncias de corrupção, substituição de ministros acusados de malversação dos recursos públicos (às vezes injustamente), a demonização da política e a maneira como a mídia trata a relação com o governo ideologicamente, termina por não afetar a popularidade da presidenta, que mantém níveis recordes de aceitação, segundo as últimas pesquisas.

Isso faz, inclusive, com que o tratamento que o governo dá aos movimentos sociais seja mais inflexível. A presidenta se sente muito segura, pois tem uma base parlamentar muito forte, tem o controle da economia e da inflação, então isso dá condições para agir de forma mais dura, menos maleável em relação a algumas reivindicações, notadamente dos servidores públicos, que estão sob ameaças de não ter nem um por cento de aumento nesse ano de 2012, segundo o relator do orçamento. A não ser que a presidenta use desse poder que a DRU (Desvinculação de Receita da União) lhe possibilita, de manusear a receita da União livremente em até 20%. Caso contrário será um ano de muitas dificuldades para os servidores públicos. O que pode significar muitos transtornos porque a ocorrência de greves será inevitável. E dependendo da situação de equilíbrio do governo – como acontece até aqui – será uma queda de braço, com este mantendo a inflexibilidade e se recusando a atender as reivindicações. Se fossem outras as circunstâncias, provavelmente o governo cedesse mais, caso tivesse fragilizado. Isso faz parte da política.

BRASIL – IMPERIALISMO, SUB-IMPERIALISMO...

O Brasil é um país de vasta extensão territorial, ocupa a maior parte da América do Sul, possui uma biodiversidade muito grande, a maior do planeta, muita riqueza, cada vez se descobre mais um potencial petrolífero enorme, riquezas minerais em larga escala, minérios pouco explorados mas de farta utilidade em produtos tecnológicos que ganham o mercado, que estão contidos nas “terras raras” e que têm sido muito explorados pela China, além de possuirmos o maior potencial hídrico do mundo. Então, o Brasil tem uma capacidade enorme, em todas as áreas que fazem de um país uma grande potência.

No século XIX um dos geógrafos clássicos, que foi fundamental no surgimento da Geopolítica, Friedrich Ratzel, falava com toda clareza e convicção, e comprovado desde então até os dias de hoje, que um país precisa ter uma grande dimensão territorial, e muita riqueza em seu subsolo, isso é que o faz se tornar uma grande potência. Ele tem que conservar e cuidar de suas fronteiras em função disso, e se não tiver essas riquezas ele tem que expandir suas fronteiras para ter o controle de tudo isso.
O Brasil não precisa expandir suas fronteiras para ter essas riquezas, pois ele já possui tudo isso em seu território. Então, comparado com os demais países da América Latina, pelo tamanho, pela população, por essas riquezas todas, naturalmente ele se impõe. Agora, por isso, e pelo auto-crescimento econômico, com a estabilidade que o país tem estabelecido nos últimos dez anos, isso faz do Brasil um país imperialista? Absolutamente, não. O imperialismo tem outras características. Ele se caracteriza pela exportação de capitais que passam a controlar as economias dos outros países. Capitais aqui não quer dizer somente dinheiro, mas grandes empresas, grandes corporações, que agem no sentido de ter o controle econômico e político de outro país. Esse não é o comportamento do Brasil. O nosso país tem estabelecido parcerias importantes com os demais países da América Latina como um todo, e não só com os países do cone sul.

Por exemplo, está em andamento um projeto de integração, que é polêmico pelas ações que ele desenvolve, que é o IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana), que tem por objetivo abrir saídas, tanto para o Brasil, quanto os demais países envolvidos, como o Peru, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai, parte da Argentina, e visa abrir um corredor de exportação em direção ao Oriente, à China, através do Oceano Pacífico. Então é um projeto de integração, e o Brasil é o principal responsável, porque ele tem o maior banco da América Latina criado para investir no desenvolvimento regional, e que financia o projeto, que é o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Recentemente houve um conflito na Bolívia, com a construção de uma estrada. O problema não era a estrada em si, mas porque pelo projeto ela cortaria ao meio terras indígenas e afetaria as populações tradicionais daquele país. E isso mexe com alguns valores culturais dessa população, então aconteceu uma rebelião muito grande, e que não foi muito bem tratada. Houve uma repressão muito violenta e desnecessária. Tanto é que Evo Morales terminou depois aceitando uma alteração no percurso da rodovia. Fica mais caro, a distância é mais longa, mas se evita um sério problema. Isso não foi feito antecipadamente então gerou todo um conflito, manifestações, confrontos violentos com tropas militares, e de certa maneira desgastou o governo. E essa estrada está inserida no projeto IIRSA, e é apenas um sub-projeto, que atinge a parte de baixo da Bolívia, que atinge o Peru, mas tem outros também na parte de cima que abrange a Amazônia, o Acre, Rondônia, ou seja, abrange toda aquela enorme região.

O IIRSA é um projeto antigo, que já vem do governo Fernando Henrique, mas ele teve sua consolidação mesmo foi no governo Lula, vai de vento em popa, e significa um crescimento importantíssimo para uma região que esteve por muito tempo abandonada. E é exatamente por isso que ouvimos uma série de  gritarias de ONGs estrangeiras, mas que na verdade, por trás existe todo um interesse geopolítico, de não querer que haja esse desenvolvimento naquela região. A preocupação não é ambiental, mas somente o discurso, com raríssimas exceções. Em essência, os interesses são outros, e as reações só não estão vindo com mais força atendendo-se  a influência desses países de onde se originam essas ONGS, principalmente da América do Norte, porque os EUA estão preocupados com o Norte da África e com o Oriente Médio. Senão já teriam transferidos suas principais atenções para cá. E esse será um ponto de conflito futuramente. O próprio Bill Clinton esteve proferindo palestras em Manaus e criticou os projetos de desenvolvimento do Brasil para aquela região, mais especificamente a construção da Usina de Belo Monte. Justo ele que, quando presidente dos EUA, se recusou a assinar o Protocolo de Quioto, sob o argumento que prejudicava os interesses econômicos dos Estados Unidos. Vejam só, uma mescla de ironia e hipocrisia.

Mas, contudo isso, não significa – e já ouvimos falar a esse respeito, inclusive em palestras que ocorreram aqui em Goiânia, durante a SBPC – que o Brasil estaria se tornando um país imperialista, ou sub-imperialista. Até esse termo já inventaram. Mas isso é diferente, o que se faz, através do BNDES, é abrir uma linha de financiamento para ajudar o desenvolvimento desses outros países. Mas isso não o torna imperialista, porque não há exigência de se querer em troca o controle político ou econômico de nenhum país. Há todo um respeito pela soberania desses países e os acordos e projetos elaborados em parceria em nenhum momento deixam dúvidas quanto a isso. E o interesse é comum, pois é objetivo do Estado brasileiro reverter uma situação de abandono de uma região esquecida política e economicamente, mas de uma enorme importância estratégica geopolítica, no sentido de abrir um corredor de exportações, principalmente para Ásia, ligando o centro-norte do Brasil com o Oceano Pacífico.

É certo que existem ações da Petrobrás, que é, sim, uma grande empresa que age e atua, não só na America, mas na África, no Oriente Médio, e inclusive nos Estados Unidos. A Petrobrás é hoje a grande empresa brasileira que tem forte atividade nesses lugares e, principalmente, na América Latina. E claro, com o forte crescimento da economia, estão surgindo outras grandes empresas brasileiras, não estatais. Aqui, inclusive no Estado de Goiás, existe uma grande corporação com braço internacional, grande exportadora, que é a Friboi, a JBS, que já adquiriu e se fundiu com varias outras empresas em diversos países, como a Swift, a Anglo e a Bordon, só para ficar com as marcas mais conhecidas internacionalmente. Destaca-se também a EBX, grupo do milionário Eike Batista, que atua nas áreas de petróleo, minérios, energia e logística. São apenas exemplos dos poderes corporativos que a economia brasileira está gerando, mesmo com um crescimento regular, ainda longe dos patamares da China.

É claro que essas corporações atuam em vários países, e cabe a esses, se sentirem afetados adotarem uma política de controle. E cada país deveria fazer isso, não cabe ao Brasil exercer um controle sobre suas empresas de forma a impedi-las de atuar livremente nos outros mercados. Isso não quer dizer que essas corporações controlam o governo brasileiro e este estaria agindo para beneficiá-las. Não é essa a política que está sendo desenvolvida, muito embora o BNDES abra linhas de financiamento também para elas, mas isso é da sua natureza, desde que foi criado.

Mas a política externa brasileira, ao contrário, tem sido de fortalecer os laços de integração. O Mercosul, por exemplo, se consolidou a partir exatamente  das ações da política externa brasileira. Então, o que o Brasil tem feito é ampliar o seu protagonismo, e isso não somente na América, mas também na África. Haja vista a maneira como o povo africano recebe os brasileiros, o governo brasileiro, o ex-presidente Lula, a presidenta Dilma Rouseff, a seleção brasileira. Há uma relação de afetividade muito forte que em parte é resultado desse protagonismo que o Brasil criou a partir do governo Lula, de estar permanentemente defendendo os interesses brasileiros, mas também de fortalecer os países dessas regiões e fortalecer parcerias políticas e econômicas. Oferecendo condições, que o nosso país hoje pode garantir, de investimentos nesses países. Mas isso está muito longe de ser caracterizado como uma ação imperialista.
Continua...

domingo, 1 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – 1ª PARTE

A CRISE ECONÔMICA E AS REVOLTAS NO MUNDO – EUA, EUROPA E PAÍSES ÁRABES

Crises sempre acontecem em nossa vida, na sociedade, na natureza. Mas o capitalismo vive das crise. Aliás, ele depende das crises. Ele se retroalimenta delas, a expressão correta é essa, pois as crises são criadas pelas próprias e inevitáveis contradições do sistema, mas na maioria das vezes são nelas que são buscadas a sua salvação. Eu costumo citar muito o livro de uma jovem economista canadense, conhecida ativista contra as desigualdades sociais, chama-se Naomi Klein. O título é “A Doutrina do Choque – A ascensão do capitalismo de desastre”. Neste livro ela mostra como em determinadas circunstâncias a crise, que normalmente acontece no capitalismo, é potencializada para, a partir de determinada desgraça, ou um acontecimento muito complexo, as forças que agem no sistema, as grandes corporações e/ou os conglomerados financeiros, possam usufruir daquele desastre e obter dividendos financeiros e econômicos. Vamos pegar o exemplo do Iraque, havia um problema ali possível de ser resolvido politicamente, mas a opção foi de invadi-lo. Destrói-se por completo aquele país – e essa invasão foi decorrente da perda de espaços para investimentos econômicos –, então se arrasa um país e logo em seguida as corporações vem e o reconstrói. Elas estão todas lá reconstruindo o Iraque. Assim como no caso de desastres naturais, como aconteceu em Nova Orleans, que é um dos capítulos do livro de Naomi Klein. A crise, essa é uma grande contradição, termina sendo um instrumento de tentativa de reerguer essas potencias falidas. E é exatamente por isso que quando uma crise chega a um ponto quase que de difícil retorno, vem logo em seguida uma guerra. Então a guerra destrói por completo a economia de um país, e assim logo em seguida, após se encerrá-la é preciso recompor tudo. E tem sido sempre assim. Se nós analisarmos todas as grandes guerras, veremos que elas sempre foram antecedidas de uma grande crise de repercussão mundial.
Vemos isso acontecer nos dias de hoje com os fatos que estão sendo chamados de “Primavera Árabe”. Essa expressão tem sido usada para fazer uma comparação com a chamada “Primavera dos Povos”, no século XIX, na Europa, que foi a retomada do poder pela burguesia, com várias revoluções que aconteceram por quase toda a Europa. Não tem muito parâmetro de comparação, porque não estamos vendo nenhuma revolução ali. Mas isso se tornou uma expressão muito usada pela mídia, e por tanto ouvi-la faz com que até mesmo nós, que temos uma análise mais crítica, terminemos por repeti-la.
Mas se nós pegarmos esses acontecimentos que estão ocorrendo ali no Norte da África e Oriente Médio, vamos perceber que o pano de fundo deles também é a crise econômica. Porque esses países, e essas ditaduras, com algumas exceções, talvez da Síria e do Irã, o restante daqueles países sempre tiveram boas relações com o Ocidente, eram aliados, inclusive. Até mesmo o Kadafi. O Wikileaks recentemente divulgou que houve termos de cooperação entre a Líbia e os Estados Unidos, e a CIA usou prisões da Líbia para torturar presos suspeitos de participarem da Al Qaeda. Então houve uma reaproximação de Kadafi nos últimos anos com os Estados Unidos. Até mesmo o Iêmen. Mas o Iêmen tinha uma característica um pouco diferente, ao mesmo tempo que os EUA tinha uma relação forte ali, mas o governo era tão fraco que não conseguia impedir que a Al Qaeda mantivesse centro de treinamentos naquela país. Mas aqueles governos quase todos sempre tiveram boas relações com os EUA e com os países europeus. Ocorre que a crise econômica fez com que Estados Unidos e Europa reduzissem os investimentos que sempre fizeram. O Egito sempre recebeu milhões de dólares dos EUA. E vice-versa. Por exemplo, a Arábia Saudita, se não me engano no ano passado, assinou um acordo com os EUA para renovar por completo todo seu aparato bélico, uma forma de ajudar aquele país com a crise na qual ele está envolvido até o pescoço.
Quando veio essa crise, que já se estende desde 2006, 2007, e estourou em 2008, e aí travou por completo a economia de alguns países, e foi repercutir na Europa, trouxe enormes dificuldades. Esses não estão resolvendo nem seus problemas internos, de equilíbrio fiscal. Quanto mais garantir o nível de cooperação que eles tinham com outros países. E isso afeta alguns programas nesses países, e a escolha que eles fazem, claro, é sempre manter a sua elite bem protegida. As camadas populares, principalmente a juventude, são as mais atingidas. Boa parte, como conseqüência da crise, perde o emprego, e a parcela da juventude que está entrando naquela faixa economicamente ativa, e que vai precisar de emprego, não consegue. Assim vai aumentando o percentual de jovens desempregados, sem perspectivas, numa economia que não incentiva o consumo permanentemente. Um verdadeiro barril de pólvora.
Os governos perderam a capacidade de dar respostas a essas reclamações. Imediatamente, logo que começou a sequência de crises no Oriente Médio, a Arábia Saudita, por ter muito recurso do petróleo,  elevou alguns programas econômicos. Ou seja, Arábia, ampliou os benefícios, aumentou salários, para que? Para evitar que lá, pelo menos nesse momento, ocorressem rebeliões. Então, o que está acontecendo ali, na Europa, e já há muito tempo nos Estados Unidos, é resultado de uma mesma crise. É uma crise sistêmica. Ela afeta todo o mundo. O Japão está do outro lado, mas ele também está sofrendo as conseqüências da crise. É um país em desaceleração econômica, com uma crise ampliada pelos problemas ambientais. O que nós estamos vivendo, na verdade, é uma situação de crise sistêmica.
Essa situação potencializa outros tipos de crises, de natureza política, na sociedade. Por exemplo, na medida em que não resolve o problema do emprego para a juventude, isso a deixará arredia, revoltada, indignada, propensa a ir para o embate nas ruas. Aliás essa é uma característica da juventude, quando ela não faz isso, naqueles países onde existe uma situação de instabilidade na própria estrutura do regime, é cooptada pelo banditismo, pelo tráfico, pelas drogas. Então existem esses dois elementos que envolvem a juventude.
Quando analisamos uma ditadura, de qualquer um desses países árabes que abordei anteriormente, primeiro precisamos compreender que são sociedades diferentes, com características bem distintas das nossas, de estilos de vida que ainda mantém os vínculos tribais, e tem que ser bem entendido como historicamente elas sempre funcionaram, e muitas vezes, para manter o país unificado, sob um certo “manto nacionalista”, só através de um governo forte. De um governo bem impositivo, ditatorial. E não somente por esses valores carregados de tradição. Mas também pela maneira como se deu o processo de descolonização, de divisão territorial. A criação das nações, daqueles países, foi forçada, abrigou debaixo de um mesmo teto, tribos ou etnias completamente distintas e rivais entre elas. Essas diferenças se acentuaram após a descolonização, gerando caos e ampliando suas dificuldades na medida em que os países colonizadores, principalmente depois da segunda guerra mundial, abandonaram forçosamente pelas dificuldades econômicas, praticamente todos aqueles países que eles tinham explorados durante séculos. Deixaram-nos à beira da falência, sem condições para que eles pudessem seguir adiante com suas próprias forças.
As lutas étnicas se ampliaram a partir de então, até porque os colonizadores sempre usaram das etnias minoritárias para governarem, levando a duas situações: ou uma absoluta falta de um poder centralizado, com as guerras tribais se sucedendo ao longo de décadas, ou a instalação de governos ditatoriais. Ou então de monarquias, cujas características eram semelhantes, mas baseadas em determinados valores e costumes que tornavam normal a sucessão monárquica dentro de uma mesma linhagem, indefinidamente. Embora tenha também as características de um governo autoritário, torna-se mais aceitável, pela tradição. Aos poucos foi se impondo em alguns desses países um poder clerical, em certos casos com o livro sagrado do Islã sendo colocado até mesmo acima da Constituição que rege a Nação.
Enquanto a economia se mantém estável essas ditaduras não são incomodadas, mas quando ocorre uma crise e as condições econômicas começam a degringolar e eles perdem a capacidade de oferecer aquilo que a população se habituou a receber, se tornam incapazes de suportar a reação popular, o apoio anteriormente dado se esfumaça e a queda desse tipo de governo torna-se inevitável. Mas não somente desses, como de todos os outros que não garantirem estabilidade econômica e perspectiva de melhorias permanentemente para a população. Exceções existem, mas sob condições ideológicas firmes e que envolvam toda a população, como no caso de Cuba e da Coréia do Norte.
Na maioria, essas ditaduras demonstram forças sob as circunstâncias detalhadas anteriormente, mas transformam-se a qualquer momento em gigantes de pés de barros. E se porventura – mas quase sempre isso acontece quando a crise se intensifica – esses países perdem o apoio das grandes potências, que até então eles apoiavam, aí a tendência é que eles caiam muito rapidamente. A economia, a estabilidade econômica, independente de ser democracia ou não, termina por definir a durabilidade de um governo por mais tempo.
Há uma frase de muito repetida historicamente de um ex-governador mineiro, se não me engano Antonio Carlos de Andrada por época da Revolução de 1930: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Com ela eu quero fazer um paralelo com essa situação descrita, guardando-se as devidas proporções. Quando os Estados Unidos percebem que há um descontrole total em um país onde eles apóiam determinado tirano eles se apresentam como um país que tem sua democracia consolidada e apóia o povo em suas manifestações de democracia e sacrifica aquele ditador que eles apoiavam, que era seu aliado. Articulam estrategicamente as mudanças, para que tudo continue como está.
Nas novas circunstâncias eles se movimentam sorrateiramente para que quem assuma o poder mantenha as relações políticas com eles. Foi o que aconteceu recentemente no Egito, na Líbia, e eu poderia citar dezenas de outros exemplos.  Se nós pegarmos quem está no poder na Líbia atualmente nós vamos encontrar vários ex-ministros do Kadafi. No Egito, na verdade houve um golpe branco, um golpe militar silencioso, a mídia, inclusive, não apresentou os fatos como foi o acontecido. Os militares sempre foram muito fortes no Egito, mesmo sob o domínio de Mubarak, e controlam importantes setores da economia. Eles usaram de uma estratégia inteligente, enquanto Mubarak estava com força o apoio lhe era garantido, e quando perceberam que ou faziam um massacre na praça, ou cruzavam os braços, esperavam Mubarak cair e tomavam o controle do poder com o apoio dos Estados Unidos. E foi isto o que aconteceu. 
Mas, apesar da tentativa em ludibriar a população a evidência de um malogro ficou logo clara. Aconteceram novas revoltas, mas desta vez não somente com a participação dos “jovens indignados”, como também de grupos organizados, armados, mais sectários e dispostos ao enfrentamento com as forças repressivas militares. Aí a mídia não teve como não mostrar até porque as imagens de espancamentos e testemunhos de assassinatos passaram a ser mostradas por mídias sociais na internet. Mas as notícias mesmo com os fatos apresentados eram e são mostradas de forma diferente de quando Mubarak estava próximo a cair. Elas são mais amenas, basta fazer uma análise de como essas notícias são difundidas, tem uma diferença muito grande, para que não se demonize agora a junta militar. Mas eles não têm muita saída, e vão ter que entregar o poder e provavelmente quem vai fazer maioria no processo eleitoral que já segue para sua segunda etapa será a Irmandade Muçulmana, da mesma maneira que também na Líbia, provavelmente vai ser um poder vinculado ao Islã. Isso pode acontecer também na Síria, caso o governo ali também caia. Por todos os países em revolta no Oriente Médio e Norte da África a tendência é o fortalecimento do Islã na relação com o poder.
O SENTIDO DAS REVOLTAS
Essa discussão não deve girar em torno do que o ocidente propaga como sendo revoltas por democracia. Isso tem mais a ver com o sentido que se queira dar a palavra democracia, pois não podemos desconsiderar as diferenças que existem entre sociedades que são fundadas sobre valores completamente diferentes. Não vejo democracia como um valor universal, mas sim, histórico. Ela é determinada pelas circunstâncias criadas no tempo e no espaço, e obedecem ao sentido que a cultura de cada povo constrói ao longo de sua história.
Não se pode querer que as coisas aconteçam do mesmo jeito na Ásia, na África, na Europa, em qualquer lugar do mundo, de modo semelhante. Suas características são completamente diferentes e jamais reproduzirão a “democracia” e os valores ocidentais. Elas serão democráticas à suas maneiras. Pode até ser que algum dia isso venha a acontecer, mas irá demorar muito e não são esses movimentos que trarão essa aproximação entre os valores ocidentais e orientais.
No Oriente, especificamente por toda a região dos países árabes, incluindo o Norte da África, a divergência não é meramente política ou tão somente a disputa entre grupos pelo poder de controlar um Estado. Há também a questão religiosa, que potencializa as rivalidades, principalmente pelo comportamento de grupos sectários que entendem o Islã de forma mais dogmática do que normalmente se compreende os livros sagrados. O poder religioso é muito forte, é tradicional e histórico. Então é muito difícil que ali haja uma estabilidade política por meio de uma democracia, por exemplo, como nós vivemos aqui no Brasil ou como se imagina no Ocidente. Mas isso não os tornam necessariamente nem pior, nem melhor do que os países ocidentais, nem se deve estigmatizar os seus povos por essas escolhas.
Mas, é bom que se diga também que os Estados Unidos estão se enveredando por um fundamentalismo religioso, muito estimulado por Bush Jr. – que também se dizia um iluminado por Deus – e ampliado com a organização do Tea Party, uma facção do Partido Republicano que passa quase que a ter mais força do que o próprio partido.
Esse é outro aspecto que temos que analisar. Tanto nos EUA, Europa e Oriente Médio, toda essa crise não nos dá a mínima confiança de que as mudanças ocorrerão no sentido que se espera de mais democracia, distribuição de riquezas e de paz entre as nações. Ao contrário, a crise econômica empurra o mundo para atitudes mais conservadoras e intolerantes. E nos Estados Unidos uma vitória do Tea Party, caso consiga eleger uma bancada razoável de parlamentares, vai representar atitudes mais fundamentalistas do que durante o governo Bush. Na Europa, tanto na Grécia, como na Espanha, a crise guindou ao comando político do Estado governos conservadores. E na Itália se abomina a política para se buscar entre os técnicos burocratas e/ou economistas a saída para a crise. Mas o resultado é de um cinismo inacreditável, o primeiro-ministro escolhido faz parte da mesma escola daqueles que levaram os EUA à incrível bancarrota. A tentativa, portanto, não é de livrar as pessoas da crise, mas impedir a falência de grandes corporações financeiras. O resultado, portanto, é arrocho econômico para a população a fim de garantir que a elite econômica mantenha seus privilégios, como sempre, às custas do Estado, mediante planos econômicos que visam reduzir drasticamente os investimentos estatais, a fim de sobrar dinheiro para bancar os rombos gerados por ações especulativas e gananciosas de banqueiros e grandes financistas.
O PASSADO É QUE NOS ENSINA, O PRESENTE É REAL, O FUTURO UMA UTOPIA.
Nós nos habituamos a ficar sempre mirando o futuro, essa é uma característica das sociedades modernas, por questões religiosas, culturais, nós idealizamos algo inexistente. Mas o futuro não existe, o que existe é o presente construído no passado. O que se diz de futuro nada mais é do que a somatória do que fazemos no presente. Então é difícil prever o que pode acontecer. O que nós temos condições é de poder analisar o que acontece hoje e fundamentalmente o que nós conhecemos do passado. Porque não existe isso, de se dizer que aconteceu lá para trás e que pode vir a acontecer de novo. O passado nos ensina muita coisa, mas ele nunca se repete. A não ser como Marx dizia, exatamente para criticar aqueles que afirmavam poder os fatos históricos se repetirem. Ele dizia que a história se repete da primeira vez como tragédia e na segunda como farsa. Isso ele afirmou para criticar o comportamento do sobrinho de Napoleão, no livro “O Dezoito de Brumário de Luiz Bonaparte”. E o levou como exemplo para construir sua noção de história, permanentemente em transformação, dialeticamente. Cujas mudanças se dão com base nas contradições, tanto na natureza como na sociedade.
Claro então que existem algumas possibilidades de haver semelhanças entre os fatos, ou seja, se nós não aprendemos com os erros eles se repetem, mas naturalmente em circunstâncias completamente diferente, porque como dizia Cazuza, para citar um poeta contemporâneo, “o tempo não pára”, e as mudanças são permanentes. Tentar imaginá-lo como algo de uma repetição mecânica é não compreender de maneira real que o tempo passa, como dizia Heráclito, dialeticamente, como as águas de um rio, que embora sendo o mesmo renova-se a todo instante, porque ele flui. Quando se insiste em afirmar que determinado acontecimento repete o passado é construir uma farsa para negar a própria história.
Assim devemos compreender os acontecimentos do mundo em 2011. Eles são parte de uma história de limites atingidos pela forma de funcionamento do sistema capitalista mundial. Não podem ser analisados isoladamente, estão todos enredados num processo gerado pelo auge de contradições motivadas pelas condições de uma escalada gananciosa de um mundo onde os donos do capital se deslumbraram com as facilidades de fabricarem dinheiro, não somente real, mas numa virtualidade de um jogo financeiro que não mede conseqüências. A usura os joga numa tarefa de produzirem ganhos cada vez mais ambiciosos, à custa do sacrifício da maioria população cada vez mais excluída do sistema, embora em algumas partes ainda seduzidas pelo vírus do consumismo e do estilo de vida construído pela ambição capitalista. Mas nada disso esconde a concentração absurda da riqueza e deixa a cada dia mais claro a impossibilidade de essa lógica representar a perspectiva do futuro da humanidade.

Continua...