Mostrando postagens com marcador crise na europa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crise na europa. Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de outubro de 2012

MANIFESTO EM DEFESA DA CIVILIZAÇÃO


Diante do quadro de regressão social que atinge os países ditos desenvolvidos, um grupo de economistas formados pela Unicamp decidiu elaborar um "Manifesto em Defesa da Civilização". "Estamos, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? Quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?" - pergunta o manifesto. As respostas para tais questões, acrescenta, não serão encontradas nos meios de comunicação de massa, "ocupados hoje por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades".

Segue a íntegra do manifesto:
Vivemos hoje um período de profunda regressão social nos países ditos desenvolvidos. A crise atual apenas explicita a regressão e a torna mais dramática. Os exemplos multiplicam-se. Em Madri uma jovem de 33 anos, outrora funcionária dos Correios, vasculha o lixo colocado do lado de fora de um supermercado. Também em Girona, na Espanha, diante do mesmo problema a Prefeitura mandou colocar cadeados nas latas de lixo. O objetivo alegado é preservar a saúde das pessoas. 
Em Atenas, na movimentada Praça Syntagma situada em frente ao Parlamento, Dimitris Christoulas, químico aposentado de 77 anos, atira contra a própria cabeça numa manhã de quarta-feira. Na nota de suicídio ele afirma ser essa a única solução digna possível frente a um Governo que aniquilou todas as chances de uma sobrevivência civilizada. Depois de anos de precários trabalhos temporários o italiano Angelo di Carlo, de 54 anos, ateou fogo a si próprio dentro de um carro estacionado em frente à sede de um órgão público de Bologna. 
Paris, às margens do rio Sena
Em toda zona do euro cresce a prática medieval de anonimamente abandonar bebês dentro de caixas nas portas de hospitais e igrejas. A Inglaterra do Lord Beveridge, um dos inspiradores do Welfare State, vem cortando recorrentemente alguns serviços especializados para idosos e doentes terminais. Cortes substantivos no valor das aposentadorias e pensões constituem uma realidade cada vez mais presente para muitos integrantes da chamada comunidade europeia. Por toda a Europa, museus, teatros, bibliotecas e universidades públicas sofrem cortes sistemáticos em seus orçamentos. Em muitas empresas e órgãos públicos é cada vez mais comum a prática de trabalhar sem receber. Ainda oficialmente empregado é possível, ao menos, manter a esperança de um dia ter seus vencimentos efetivamente pagos. Em pior situação está o desempregado. Grande parte deles são jovens altamente qualificados. 
Acampamento de desempregados -
Nova Jérsey (EUA)
A massa crescente de excluídos não é um fenômeno apenas europeu. O mesmo acontece nos EUA. Ali, mais do que em outros países, a taxa de desemprego tomada isoladamente não sintetiza mais a real situação do mercado de trabalho. A grande maioria daqueles que hoje estão empregados ocupam postos de trabalhos precários e em tempo parcial concentrados no setor de serviços. Grande parte dos postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foram destruídos pela concorrência chinesa. 
Nesse cenário, a classe média vai sendo espremida, a mobilidade social é para baixo e o mercado de trabalho vai ficando cada vez mais polarizado no país das oportunidades. No extremo superior, pouquíssimos executivos bem remunerados que têm sua renda diretamente atrelada ao mercado financeiro. No extremo inferior, uma massa de serviçais pessoais mal pagos sem nenhuma segurança, que vivem uma realidade não muito diferente dos mais de 100 milhões que recebem algum tipo de assistência direta do Estado. O Welfare State, ao invés de se espalhar pelo planeta, encampando as tradicionais hordas de excluídos, encolhe, aumentando a quantidade de deserdados. 
Muitos dirão que essa situação será revertida com a suposta volta do crescimento econômico e a retomada do investimento na indústria de transformação nestes países. Não é verdade. É preciso aceitar rapidamente o seguinte fato: no capitalismo, o inevitável avanço do progresso tecnológico torna o trabalho redundante. O exponencial aumento da produtividade e da produção industrial é acompanhado pela constante redução da necessidade de trabalhadores diretos. Uma vez excluídos, reincorporam-se – aqueles que o conseguem – como serviçais baratos dentro de um circuito de renda comandado pelos detentores da maior parcela da riqueza disponível. Por isso mesmo, a crescente desigualdade de renda é funcional para explicar a dinâmica desse mercado de trabalho polarizado. 
Diante desse quadro, uma pergunta torna-se inevitável: estamos nós, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? E se isso for verdade: quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão? 
A angústia torna-se ainda maior quando constatamos que as possibilidades de conforto material para a grande maioria da população deste planeta são reais. É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc. Numa expressão, escassez de bem estar! 
Um bem estar que marcou os conhecidos “anos dourados” do capitalismo. A dolorosa experiência de duas grandes guerras e da depressão pós 1929, nos ensinou que deveríamos limitar e controlar as livres forças do mercado. Os grilhões colocados pela sociedade na economia explicam quase 30 anos de pleno emprego, aumento de salários e lucros e, principalmente, a consolidação e a expansão do chamado Estado de Bem Estar Social. Os direitos garantidos pelo Estado não deveriam ser apenas individuais, mas também coletivos. Vale dizer: sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o direito à saúde, à previdência, à habitação, à assistência, à educação e ao trabalho eram universalizados, milhares de empregos públicos de médicos, enfermeiras, professores e tantos outros eram criados. 
O Welfare State não pode ser interpretado como uma mera reforma do capitalismo, mas sim como uma grande transformação econômica, social e política. Ele é, nesse sentido, revolucionário. Não foi um presente de governos ou empresas, mas a consequência de potentes lutas sociais que conseguiram negociar a repartição da riqueza. Isso fica sintetizado na emergência de um Estado que institucionalizou a ética da solidariedade. O individuo cedeu lugar ao cidadão portador de direitos. No entanto, as gerações que cresceram sob o manto generoso da proteção social e do pleno emprego acabaram por naturalizar tais conquistas. As novas e prósperas classes médias esqueceram que seus pais e avós lutaram e morreram por isso. Um esquecimento que custa e custará muito caro às gerações atuais e futuras. Caminhamos para um Estado de Mal Estar Social! 
Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho. É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor. Ainda que a grande maioria das pessoas seja perdedora e não concorra em condições de igualdade, não existem outras classificações possíveis. Não por acaso o principal slogan do movimento Occupy Wall Street é “somos os 99%”. Não por acaso, grande parte da população espanhola está indignada. 
Mesmo em um país como o Brasil, a despeito dos importantes avanços econômicos e sociais recentes, a outrora chamada “dívida social” ainda é enorme e se expressa na precariedade que assola todos os níveis da vida nacional. Não se pode ignorar que esses caminhos tomados nos países centrais terão impactos sob essa jovem democracia que busca, ainda, universalizar os direitos de cidadania estabelecidos nos meados do século passado nas nações desenvolvidas.
Como então acreditar que precisamos escolher entre o caos e austeridade fiscal dos Estados, se essa austeridade é o próprio caos? Como aceitar que grande parte da carga tributária seja diretamente direcionada para as mãos do 1% detentor de carteiras de títulos financeiros? Por que a posse de tais papéis que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza gerada pela totalidade da sociedade ganham preeminência diante das necessidades da vida dos cidadãos? Por que os homens do século XXI submetem aos ditames do ganho financeiro estéril o direito ao conforto, à educação e à cultura? 
As respostas para tais questões não serão encontradas nos meios de comunicação de massa. Os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva foram ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades. É mais importante perguntar o que o sujeito comeu no café da manhã do que promover reflexões sobre os rumos da humanidade. 
A civilização precisa ser defendida! As promessas da modernidade ainda não foram entregues. A autonomia do indivíduo significa a liberdade de se auto-realizar. Algo impensável para o homem que precisa preocupar-se cotidianamente com sua sobrevivência física e material. Isso implica numa selvageria que deveria ficar restrita, por exemplo, a uma alcateia de lobos ferozes. Ao longo dos últimos de 200 anos de história do capitalismo, o homem controlou a natureza e criou um nível de riqueza capaz de garantir a sobrevivência e o bem estar de toda a população do planeta. Isso não pode ficar restrito para uma ínfima parte. Mesmo porque, o bem estar de um só é possível quando os demais à sua volta encontram-se na mesma situação. Caso contrário, a reação é inevitável, violenta e incontrolável. A liberdade só é possível com igualdade e respeito ao outro. É preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização. 


Os interessados em assinar o manifesto, ou conhecer a lista das pessoas que o assinam, podem acessar o link de Petição Pública:

domingo, 1 de janeiro de 2012

CRÔNICA DE UM MUNDO EM TRANSE – 1ª PARTE

A CRISE ECONÔMICA E AS REVOLTAS NO MUNDO – EUA, EUROPA E PAÍSES ÁRABES

Crises sempre acontecem em nossa vida, na sociedade, na natureza. Mas o capitalismo vive das crise. Aliás, ele depende das crises. Ele se retroalimenta delas, a expressão correta é essa, pois as crises são criadas pelas próprias e inevitáveis contradições do sistema, mas na maioria das vezes são nelas que são buscadas a sua salvação. Eu costumo citar muito o livro de uma jovem economista canadense, conhecida ativista contra as desigualdades sociais, chama-se Naomi Klein. O título é “A Doutrina do Choque – A ascensão do capitalismo de desastre”. Neste livro ela mostra como em determinadas circunstâncias a crise, que normalmente acontece no capitalismo, é potencializada para, a partir de determinada desgraça, ou um acontecimento muito complexo, as forças que agem no sistema, as grandes corporações e/ou os conglomerados financeiros, possam usufruir daquele desastre e obter dividendos financeiros e econômicos. Vamos pegar o exemplo do Iraque, havia um problema ali possível de ser resolvido politicamente, mas a opção foi de invadi-lo. Destrói-se por completo aquele país – e essa invasão foi decorrente da perda de espaços para investimentos econômicos –, então se arrasa um país e logo em seguida as corporações vem e o reconstrói. Elas estão todas lá reconstruindo o Iraque. Assim como no caso de desastres naturais, como aconteceu em Nova Orleans, que é um dos capítulos do livro de Naomi Klein. A crise, essa é uma grande contradição, termina sendo um instrumento de tentativa de reerguer essas potencias falidas. E é exatamente por isso que quando uma crise chega a um ponto quase que de difícil retorno, vem logo em seguida uma guerra. Então a guerra destrói por completo a economia de um país, e assim logo em seguida, após se encerrá-la é preciso recompor tudo. E tem sido sempre assim. Se nós analisarmos todas as grandes guerras, veremos que elas sempre foram antecedidas de uma grande crise de repercussão mundial.
Vemos isso acontecer nos dias de hoje com os fatos que estão sendo chamados de “Primavera Árabe”. Essa expressão tem sido usada para fazer uma comparação com a chamada “Primavera dos Povos”, no século XIX, na Europa, que foi a retomada do poder pela burguesia, com várias revoluções que aconteceram por quase toda a Europa. Não tem muito parâmetro de comparação, porque não estamos vendo nenhuma revolução ali. Mas isso se tornou uma expressão muito usada pela mídia, e por tanto ouvi-la faz com que até mesmo nós, que temos uma análise mais crítica, terminemos por repeti-la.
Mas se nós pegarmos esses acontecimentos que estão ocorrendo ali no Norte da África e Oriente Médio, vamos perceber que o pano de fundo deles também é a crise econômica. Porque esses países, e essas ditaduras, com algumas exceções, talvez da Síria e do Irã, o restante daqueles países sempre tiveram boas relações com o Ocidente, eram aliados, inclusive. Até mesmo o Kadafi. O Wikileaks recentemente divulgou que houve termos de cooperação entre a Líbia e os Estados Unidos, e a CIA usou prisões da Líbia para torturar presos suspeitos de participarem da Al Qaeda. Então houve uma reaproximação de Kadafi nos últimos anos com os Estados Unidos. Até mesmo o Iêmen. Mas o Iêmen tinha uma característica um pouco diferente, ao mesmo tempo que os EUA tinha uma relação forte ali, mas o governo era tão fraco que não conseguia impedir que a Al Qaeda mantivesse centro de treinamentos naquela país. Mas aqueles governos quase todos sempre tiveram boas relações com os EUA e com os países europeus. Ocorre que a crise econômica fez com que Estados Unidos e Europa reduzissem os investimentos que sempre fizeram. O Egito sempre recebeu milhões de dólares dos EUA. E vice-versa. Por exemplo, a Arábia Saudita, se não me engano no ano passado, assinou um acordo com os EUA para renovar por completo todo seu aparato bélico, uma forma de ajudar aquele país com a crise na qual ele está envolvido até o pescoço.
Quando veio essa crise, que já se estende desde 2006, 2007, e estourou em 2008, e aí travou por completo a economia de alguns países, e foi repercutir na Europa, trouxe enormes dificuldades. Esses não estão resolvendo nem seus problemas internos, de equilíbrio fiscal. Quanto mais garantir o nível de cooperação que eles tinham com outros países. E isso afeta alguns programas nesses países, e a escolha que eles fazem, claro, é sempre manter a sua elite bem protegida. As camadas populares, principalmente a juventude, são as mais atingidas. Boa parte, como conseqüência da crise, perde o emprego, e a parcela da juventude que está entrando naquela faixa economicamente ativa, e que vai precisar de emprego, não consegue. Assim vai aumentando o percentual de jovens desempregados, sem perspectivas, numa economia que não incentiva o consumo permanentemente. Um verdadeiro barril de pólvora.
Os governos perderam a capacidade de dar respostas a essas reclamações. Imediatamente, logo que começou a sequência de crises no Oriente Médio, a Arábia Saudita, por ter muito recurso do petróleo,  elevou alguns programas econômicos. Ou seja, Arábia, ampliou os benefícios, aumentou salários, para que? Para evitar que lá, pelo menos nesse momento, ocorressem rebeliões. Então, o que está acontecendo ali, na Europa, e já há muito tempo nos Estados Unidos, é resultado de uma mesma crise. É uma crise sistêmica. Ela afeta todo o mundo. O Japão está do outro lado, mas ele também está sofrendo as conseqüências da crise. É um país em desaceleração econômica, com uma crise ampliada pelos problemas ambientais. O que nós estamos vivendo, na verdade, é uma situação de crise sistêmica.
Essa situação potencializa outros tipos de crises, de natureza política, na sociedade. Por exemplo, na medida em que não resolve o problema do emprego para a juventude, isso a deixará arredia, revoltada, indignada, propensa a ir para o embate nas ruas. Aliás essa é uma característica da juventude, quando ela não faz isso, naqueles países onde existe uma situação de instabilidade na própria estrutura do regime, é cooptada pelo banditismo, pelo tráfico, pelas drogas. Então existem esses dois elementos que envolvem a juventude.
Quando analisamos uma ditadura, de qualquer um desses países árabes que abordei anteriormente, primeiro precisamos compreender que são sociedades diferentes, com características bem distintas das nossas, de estilos de vida que ainda mantém os vínculos tribais, e tem que ser bem entendido como historicamente elas sempre funcionaram, e muitas vezes, para manter o país unificado, sob um certo “manto nacionalista”, só através de um governo forte. De um governo bem impositivo, ditatorial. E não somente por esses valores carregados de tradição. Mas também pela maneira como se deu o processo de descolonização, de divisão territorial. A criação das nações, daqueles países, foi forçada, abrigou debaixo de um mesmo teto, tribos ou etnias completamente distintas e rivais entre elas. Essas diferenças se acentuaram após a descolonização, gerando caos e ampliando suas dificuldades na medida em que os países colonizadores, principalmente depois da segunda guerra mundial, abandonaram forçosamente pelas dificuldades econômicas, praticamente todos aqueles países que eles tinham explorados durante séculos. Deixaram-nos à beira da falência, sem condições para que eles pudessem seguir adiante com suas próprias forças.
As lutas étnicas se ampliaram a partir de então, até porque os colonizadores sempre usaram das etnias minoritárias para governarem, levando a duas situações: ou uma absoluta falta de um poder centralizado, com as guerras tribais se sucedendo ao longo de décadas, ou a instalação de governos ditatoriais. Ou então de monarquias, cujas características eram semelhantes, mas baseadas em determinados valores e costumes que tornavam normal a sucessão monárquica dentro de uma mesma linhagem, indefinidamente. Embora tenha também as características de um governo autoritário, torna-se mais aceitável, pela tradição. Aos poucos foi se impondo em alguns desses países um poder clerical, em certos casos com o livro sagrado do Islã sendo colocado até mesmo acima da Constituição que rege a Nação.
Enquanto a economia se mantém estável essas ditaduras não são incomodadas, mas quando ocorre uma crise e as condições econômicas começam a degringolar e eles perdem a capacidade de oferecer aquilo que a população se habituou a receber, se tornam incapazes de suportar a reação popular, o apoio anteriormente dado se esfumaça e a queda desse tipo de governo torna-se inevitável. Mas não somente desses, como de todos os outros que não garantirem estabilidade econômica e perspectiva de melhorias permanentemente para a população. Exceções existem, mas sob condições ideológicas firmes e que envolvam toda a população, como no caso de Cuba e da Coréia do Norte.
Na maioria, essas ditaduras demonstram forças sob as circunstâncias detalhadas anteriormente, mas transformam-se a qualquer momento em gigantes de pés de barros. E se porventura – mas quase sempre isso acontece quando a crise se intensifica – esses países perdem o apoio das grandes potências, que até então eles apoiavam, aí a tendência é que eles caiam muito rapidamente. A economia, a estabilidade econômica, independente de ser democracia ou não, termina por definir a durabilidade de um governo por mais tempo.
Há uma frase de muito repetida historicamente de um ex-governador mineiro, se não me engano Antonio Carlos de Andrada por época da Revolução de 1930: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Com ela eu quero fazer um paralelo com essa situação descrita, guardando-se as devidas proporções. Quando os Estados Unidos percebem que há um descontrole total em um país onde eles apóiam determinado tirano eles se apresentam como um país que tem sua democracia consolidada e apóia o povo em suas manifestações de democracia e sacrifica aquele ditador que eles apoiavam, que era seu aliado. Articulam estrategicamente as mudanças, para que tudo continue como está.
Nas novas circunstâncias eles se movimentam sorrateiramente para que quem assuma o poder mantenha as relações políticas com eles. Foi o que aconteceu recentemente no Egito, na Líbia, e eu poderia citar dezenas de outros exemplos.  Se nós pegarmos quem está no poder na Líbia atualmente nós vamos encontrar vários ex-ministros do Kadafi. No Egito, na verdade houve um golpe branco, um golpe militar silencioso, a mídia, inclusive, não apresentou os fatos como foi o acontecido. Os militares sempre foram muito fortes no Egito, mesmo sob o domínio de Mubarak, e controlam importantes setores da economia. Eles usaram de uma estratégia inteligente, enquanto Mubarak estava com força o apoio lhe era garantido, e quando perceberam que ou faziam um massacre na praça, ou cruzavam os braços, esperavam Mubarak cair e tomavam o controle do poder com o apoio dos Estados Unidos. E foi isto o que aconteceu. 
Mas, apesar da tentativa em ludibriar a população a evidência de um malogro ficou logo clara. Aconteceram novas revoltas, mas desta vez não somente com a participação dos “jovens indignados”, como também de grupos organizados, armados, mais sectários e dispostos ao enfrentamento com as forças repressivas militares. Aí a mídia não teve como não mostrar até porque as imagens de espancamentos e testemunhos de assassinatos passaram a ser mostradas por mídias sociais na internet. Mas as notícias mesmo com os fatos apresentados eram e são mostradas de forma diferente de quando Mubarak estava próximo a cair. Elas são mais amenas, basta fazer uma análise de como essas notícias são difundidas, tem uma diferença muito grande, para que não se demonize agora a junta militar. Mas eles não têm muita saída, e vão ter que entregar o poder e provavelmente quem vai fazer maioria no processo eleitoral que já segue para sua segunda etapa será a Irmandade Muçulmana, da mesma maneira que também na Líbia, provavelmente vai ser um poder vinculado ao Islã. Isso pode acontecer também na Síria, caso o governo ali também caia. Por todos os países em revolta no Oriente Médio e Norte da África a tendência é o fortalecimento do Islã na relação com o poder.
O SENTIDO DAS REVOLTAS
Essa discussão não deve girar em torno do que o ocidente propaga como sendo revoltas por democracia. Isso tem mais a ver com o sentido que se queira dar a palavra democracia, pois não podemos desconsiderar as diferenças que existem entre sociedades que são fundadas sobre valores completamente diferentes. Não vejo democracia como um valor universal, mas sim, histórico. Ela é determinada pelas circunstâncias criadas no tempo e no espaço, e obedecem ao sentido que a cultura de cada povo constrói ao longo de sua história.
Não se pode querer que as coisas aconteçam do mesmo jeito na Ásia, na África, na Europa, em qualquer lugar do mundo, de modo semelhante. Suas características são completamente diferentes e jamais reproduzirão a “democracia” e os valores ocidentais. Elas serão democráticas à suas maneiras. Pode até ser que algum dia isso venha a acontecer, mas irá demorar muito e não são esses movimentos que trarão essa aproximação entre os valores ocidentais e orientais.
No Oriente, especificamente por toda a região dos países árabes, incluindo o Norte da África, a divergência não é meramente política ou tão somente a disputa entre grupos pelo poder de controlar um Estado. Há também a questão religiosa, que potencializa as rivalidades, principalmente pelo comportamento de grupos sectários que entendem o Islã de forma mais dogmática do que normalmente se compreende os livros sagrados. O poder religioso é muito forte, é tradicional e histórico. Então é muito difícil que ali haja uma estabilidade política por meio de uma democracia, por exemplo, como nós vivemos aqui no Brasil ou como se imagina no Ocidente. Mas isso não os tornam necessariamente nem pior, nem melhor do que os países ocidentais, nem se deve estigmatizar os seus povos por essas escolhas.
Mas, é bom que se diga também que os Estados Unidos estão se enveredando por um fundamentalismo religioso, muito estimulado por Bush Jr. – que também se dizia um iluminado por Deus – e ampliado com a organização do Tea Party, uma facção do Partido Republicano que passa quase que a ter mais força do que o próprio partido.
Esse é outro aspecto que temos que analisar. Tanto nos EUA, Europa e Oriente Médio, toda essa crise não nos dá a mínima confiança de que as mudanças ocorrerão no sentido que se espera de mais democracia, distribuição de riquezas e de paz entre as nações. Ao contrário, a crise econômica empurra o mundo para atitudes mais conservadoras e intolerantes. E nos Estados Unidos uma vitória do Tea Party, caso consiga eleger uma bancada razoável de parlamentares, vai representar atitudes mais fundamentalistas do que durante o governo Bush. Na Europa, tanto na Grécia, como na Espanha, a crise guindou ao comando político do Estado governos conservadores. E na Itália se abomina a política para se buscar entre os técnicos burocratas e/ou economistas a saída para a crise. Mas o resultado é de um cinismo inacreditável, o primeiro-ministro escolhido faz parte da mesma escola daqueles que levaram os EUA à incrível bancarrota. A tentativa, portanto, não é de livrar as pessoas da crise, mas impedir a falência de grandes corporações financeiras. O resultado, portanto, é arrocho econômico para a população a fim de garantir que a elite econômica mantenha seus privilégios, como sempre, às custas do Estado, mediante planos econômicos que visam reduzir drasticamente os investimentos estatais, a fim de sobrar dinheiro para bancar os rombos gerados por ações especulativas e gananciosas de banqueiros e grandes financistas.
O PASSADO É QUE NOS ENSINA, O PRESENTE É REAL, O FUTURO UMA UTOPIA.
Nós nos habituamos a ficar sempre mirando o futuro, essa é uma característica das sociedades modernas, por questões religiosas, culturais, nós idealizamos algo inexistente. Mas o futuro não existe, o que existe é o presente construído no passado. O que se diz de futuro nada mais é do que a somatória do que fazemos no presente. Então é difícil prever o que pode acontecer. O que nós temos condições é de poder analisar o que acontece hoje e fundamentalmente o que nós conhecemos do passado. Porque não existe isso, de se dizer que aconteceu lá para trás e que pode vir a acontecer de novo. O passado nos ensina muita coisa, mas ele nunca se repete. A não ser como Marx dizia, exatamente para criticar aqueles que afirmavam poder os fatos históricos se repetirem. Ele dizia que a história se repete da primeira vez como tragédia e na segunda como farsa. Isso ele afirmou para criticar o comportamento do sobrinho de Napoleão, no livro “O Dezoito de Brumário de Luiz Bonaparte”. E o levou como exemplo para construir sua noção de história, permanentemente em transformação, dialeticamente. Cujas mudanças se dão com base nas contradições, tanto na natureza como na sociedade.
Claro então que existem algumas possibilidades de haver semelhanças entre os fatos, ou seja, se nós não aprendemos com os erros eles se repetem, mas naturalmente em circunstâncias completamente diferente, porque como dizia Cazuza, para citar um poeta contemporâneo, “o tempo não pára”, e as mudanças são permanentes. Tentar imaginá-lo como algo de uma repetição mecânica é não compreender de maneira real que o tempo passa, como dizia Heráclito, dialeticamente, como as águas de um rio, que embora sendo o mesmo renova-se a todo instante, porque ele flui. Quando se insiste em afirmar que determinado acontecimento repete o passado é construir uma farsa para negar a própria história.
Assim devemos compreender os acontecimentos do mundo em 2011. Eles são parte de uma história de limites atingidos pela forma de funcionamento do sistema capitalista mundial. Não podem ser analisados isoladamente, estão todos enredados num processo gerado pelo auge de contradições motivadas pelas condições de uma escalada gananciosa de um mundo onde os donos do capital se deslumbraram com as facilidades de fabricarem dinheiro, não somente real, mas numa virtualidade de um jogo financeiro que não mede conseqüências. A usura os joga numa tarefa de produzirem ganhos cada vez mais ambiciosos, à custa do sacrifício da maioria população cada vez mais excluída do sistema, embora em algumas partes ainda seduzidas pelo vírus do consumismo e do estilo de vida construído pela ambição capitalista. Mas nada disso esconde a concentração absurda da riqueza e deixa a cada dia mais claro a impossibilidade de essa lógica representar a perspectiva do futuro da humanidade.

Continua...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ – A EUROPA GRITA CONTRA O FMI, E NO BRASIL OS MOVIMENTOS RECLAMAM DIREITOS CIVIS


Estive, pela semana que passou, a observar com um olhar curioso as inversões sociais trazidas pelo século XXI. Lembro-me de quando passei a me envolver com o movimento social, através das entidades estudantis, no começo dos anos 1980. Por todas as duas décadas seguintes, quando mantive minha militância ativamente o Brasil e América Latina se encontravam em um momento de transição. Tanto por aqui, quanto em outros países a luta contra os regimes ditatoriais se dirigia para um desfecho favorável às pressões populares.
 As condições sociais nesses países eram as piores possíveis, talvez só possam ser comparadas à da maioria dos países africanos. Dívidas internas e externas absurdamente altas, desemprego elevado, inflação galopante, aumento crescente nas condições de miséria da população, repressão violenta aos opositores, e na contraposição à tudo isso, partidos de esquerda e movimentos sociais, quase todos eles dirigidos por uma militância ativa, envolvida diretamente com esses partidos.
O anti-imperialismo era uma marca em comum e o grito de guerra “Fora FMI” era entoado por praticamente todos os que se opunham à estrutura econômica que estrangulava a vida das pessoas e encurtavam os salários, que mal chegavam à metade do mês. Muito embora a guerra fria tivesse sido congelada a partir do final dos anos 80, como conseqüência da crise que afetou o bloco soviético e os antigos países socialistas, isso prevaleceu ainda pela última década do século passado com a ascensão do neoliberalismo.
A indignação tomou outro rumo, e o embate passou a se dar contra a globalização e o furacão liberal que forçou a abertura das fronteiras para o capital, reforçando o poder das grandes corporações em praticamente todo o mundo. Inclusive naquele outro mundo, outrora objeto de admiração da esquerda, que passou a se constituir em um ambiente extremamente disputado pelas empresas multinacionais. A chamada economia de mercado se impunha sobre a economia estatal e apresentava como sendo definitivo o admirável mundo capitalista. Tentavam vender a idéia de que o capitalismo seria a última etapa de desenvolvimento da humanidade.
No Brasil, em relação às liberdades democráticas a situação foi mudando mais lentamente do que a abertura das fronteiras para as mercadorias. Num primeiro momento toda uma luta de milhões de pessoas foi barrada por um poder parlamentar ainda conservador e suporte político do antigo regime militar. Mas as divisões existentes, conseqüência da própria crise que afetou o antigo regime possibilitou a mudança conservadora, embora importante historicamente, com a eleição de Tancredo Neves.
Mas as lutas sociais não diminuíram, muito pelo contrário, elas se intensificaram agora com mais liberdades e a legalização de várias entidades e partidos até então proibidos de funcionarem legalmente. Vivemos assim um final de século onde se manifestava intensamente a luta de classes e a ampliação na representação popular de parlamentares vinculados a esses movimentos e àqueles partidos de esquerda que estiveram à frente dessas organizações.
Isso tanto vale para o movimento estudantil, como para as lutas operárias e camponesas. Os estudantes puderam ter as suas representações legalizadas, os sindicatos se reproduziram rapidamente e criaram as Centrais Sindicais, e no campo a luta se intensificou agora com a entrada de mais uma entidade que amplificou as reivindicações dos trabalhadores, já fortalecidas com a CONTAG. Foi a vez de se destacar e crescer o Movimento dos Sem-Terra, entidade que passou a ter uma força que extrapolava as fronteiras e repercutia internacionalmente.
O final do século XX refletia, de certa maneira, os fracassos das políticas imperialistas para os países latino-americanos, e o século XXI se iniciou com um fato marcante de conseqüências econômicas e geopolíticas que viria a trazer mudanças significativas na nova ordem mundial. O atentado às torres gêmeas, o World Trade Center, na cidade de Nova Iorque, Estados Unidos, alterou por completo o panorama político internacional. A partir desse acontecimento a política externa da maior potência econômica e militar do mundo focou suas atenções para a Ásia Central e Oriente Médio. Isso num momento em que na América Latina novos governos assumiam em oposição às políticas neoliberais.
Enquanto a Europa e Estados Unidos investiam grandes somas de dinheiro em sucessivas guerras contra um inimigo invisível, o terrorismo, a América Latina se recompunha com uma virada democrática e a ascensão de dirigentes vinculados aos partidos de esquerda, alguns com forte componente ideológico e batendo de frente com as políticas imperialistas.
Na somatória disso, prevaleceu o fortalecimento de políticas de Estados que buscavam descolar esses países das antigas influências estadunidenses. Ao mesmo tempo, eram incorporados às novas elites políticas antigos líderes e militantes dos partidos de esquerdas. Assim como lideranças populares e antigos sindicalistas assumiam ou a condição de dirigentes do Estado, como ministros, por exemplo, ou elegiam-se ao parlamento, seja como deputados ou senadores. Por todo o país isso se repetiu, invertendo a lógica do poder existente até então. As antigas esquerdas assumiam no começo do século XX a condução das políticas na maioria dos países latino-americanos.
No Brasil isso se deu com uma maior força e repercussão internacional, como conseqüência da eleição de um operário, antigo líder sindicalista e com um forte carisma no Brasil e fora dele: Luís Inácio Lula da Silva. O sucesso dos governos na aplicação de políticas públicas fortemente escoradas em investimentos do Estado coincidiu com uma crise econômica iniciada nos Estados Unidos e que afetou praticamente todos os países desenvolvidos.
A partir daí foi marcante a pujança do crescimento e desenvolvimento, na contramão do que acontecia com os países mais ricos. Altos investimentos em obras públicas, crédito disseminado para todas as camadas, principalmente para os mais pobres, desemprego em queda, auto-estima em elevação, e uma nova realidade que elevou o país a condição de novo emergente e de forte atrativo para o capital financeiro internacional.
Nessas condições, tendo as antigas lideranças agora a comanda o Estado, o movimento popular foi passando por transformações em sua forma de agir e reivindicar. Já não viam mais quem estava no governo como inimigo, mas vislumbravam o caminho da conciliação para verem atendidas antigas reivindicações. A maioria das centrais, embora mantendo suas bandeiras, comportavam-se de forma menos agressivas e buscando as negociações. E assim viam também suas principais reivindicações sendo atendidas e, consequentemente, arrefeciam o ímpeto da luta, que já não se dava mais pelo confronto, mas pela demonstração de força e mobilização para poder extrair do governo as conquistas necessárias.
Enfraquecidas, já que as principais reivindicações eram ou atendidas ou passavam por um processo de negociação, muitas vezes lentas e atendendo a estratégias para desmobilizar o movimento, as entidades estudantis foram gradativamente mudando de comportamento, e algumas de suas lideranças destacavam-se mais com o intuito de tornarem fortes candidatos no processo eleitoral. O parlamento passa a se constituir no palco principal dos embates, ou isso acontecia no âmbito das próprias disputas internas dos governos, seja municipal, estadual ou federal.
Paralelo  a isso, multiplicava-se por todo o país Organizações Não-Governamentais. Organizações sociais de direitos civis, chamadas de Terceiro Setor, porque completavam o papel que faziam o Estado e a iniciativa privada. Nessas organizações vários antigos militantes de esquerda e profissionais oriundos da Universidade, passaram a atuar seja com objetivo financeiro ou de desenvolver atividades de cunho social junto ás camadas mais pobres por todas as cidades brasileiras.
Essas organizações passaram não somente a se preocupar com questões sociais focadas na inclusão dessas pessoas, garantindo-lhes emprego e cidadania. Era também e principalmente isso inicialmente, mas na medida em que enfraquecia o movimento social, e os canais de negociação abriam-se mais facilmente, elas passaram praticamente a substituir as entidades e a disseminarem agora outras formas de lutas, extremamente diversificadas e que até a última década do século XX se concentravam mais nos países europeus e nos Estados Unidos. 
Lutas por direitos civis, pelas questões ambientais, contra os diversos tipos de preconceitos, pela emancipação das mulheres e inúmeros outros, passaram a ser prioridades na agenda desses movimentos, ao ponto de tanto alguns partidos de esquerda aderirem como prioridade, por exemplo à luta por moradia, e de organizações como CUT e MST abraçarem a causa ambientalista e a passar a identificar líderes sindicalistas rurais como ícones da luta ambiental.
Os movimentos que passam a ocupar as ruas são diversificados e alguns alegóricos, embora trazendo em seu bojo questões sociais sérias e complexas. 
A marcha da maconha, marcha das vadias, parada gay, movimentos religiosos contra aborto, movimento das mulheres pelo direito de decidir sobre seus corpos, Movimento dos atingidos por barragens, manifestações ecologistas e tantos outros movimentos potencializados agora pela difusão das redes sociais, transformaram por completo a maneira de se rebelar, se indignar e reivindicar direitos sociais e civis. 
Os demais, que viessem a repetir as tradicionais manifestações da década de 80 do século passado, não conseguem as mesmas mobilizações e, esvaziadas, perdem forças e poder de negociação.
Mudam-se as reivindicações, os objetivos e os agentes que se destacam como mobilizadores sociais. Assim como perdem os movimentos sociais o elã que os vinculavam de maneira mais efetiva aos trabalhadores e as camadas baixas da população, constituindo-se em entidades mais focadas em reivindicações voltadas para o atendimento dos interesses da classe média, e praticamente constituídas por pessoas oriundas dessa camada. Os mais pobres não deixam escapar as oportunidades abertas com a nova modalidade de organização, mas limitam-se a fazer parte de ONGs com atividades direcionadas ao atendimento de questões preocupadas com inclusão social, e de qualificarem-se ao mercado de trabalho.
Enquanto isso, ainda seguindo-se o rastro da crise econômica que estourou em 2008 nos Estados Unidos, tanto este país, quanto a Europa, passam a conviver com manifestações populares massivas, onde milhares de trabalhadores agora enfrentam o fantasma do desemprego e dos baixos salários. E, o que parecia improvável até a década passada, passam a levantar a bandeira de “Fora FMI”, algo comum por nossas bandas outrora. Isso porque a quebradeira nesses países força seus governos a buscar empréstimos no Fundo Monetário Internacional. Para concretizar esses empréstimos, a exemplo de como fazia por aqui, o FMI exige que os governos arrochem os trabalhadores, seja com desemprego ou com aumento de impostos, ampliando mais ainda a crise porque a situação deixa a população insegura e sem perspectiva futura.
Explodem em países como a Espanha, Grécia, Portugal, França, Irlanda, e outros, greves e manifestações que são reprimidas violentamente, ao estilo dos governos ditatoriais latinoamericanos. E por mais impossível que isso pudesse parecer há algum tempo atrás, o Brasil se inclui naqueles países que passam a dispor de dinheiro para emprestar a esses países via FMI.
Não bastasse isso, torna-se recorrente a disseminação de doenças que espalham-se em epidemias que acentuam os problemas sociais e geram um medo coletivo, afetando sobremaneira todo um comportamento altivo que sempre marcou a população européia, principalmente no pós segunda guerra mundial. Embora esse ainda seja também um dos problemas cruciais a ser enfrentado pelos países latino-americanos.
Invertem-se, assim, as características das lutas que atingem os países latinoamericanos e europeus, bem como as reivindicações. E, assim, nos encaminhamos para uma realidade que se aproxima mais daquilo que vigorou na Europa no final da década de XX, e que, embora enfraquecido na caracterização ideológica dos partidos, terminou por se constituir na construção das políticas que se implementaram aqui no Brasil, um misto de social-democracia e neoliberalismo.
Não há dúvidas que isso afetou os movimentos sociais, muito embora certamente esse tipo de afirmação venha a ser repelida com veemência por aqueles que ainda continuam erguendo suas bandeiras trabalhistas. Mas certamente o mais forte elemento a definir a maneira como se constitui a nossa sociedade, as classes sociais, e o embate travado entre elas pelo controle do poder, deixou de ser o motor a embalar a grande maioria das entidades e partidos.
Prevalece o pragmatismo,a busca por colocação nas estruturas do Estado, e o desfraldar de bandeiras fragmentárias e vinculadas a este ou aquele setor, isoladamente, quando muito por trás de seus discursos abrangendo a inclusão social, mas com poucos colocando em xeque as estruturas capitalistas, ou buscando identificar na origem de suas reivindicações, e que se constituem como problemas sociais, as contradições criadas e fomentadas pelo capitalismo.