quinta-feira, 15 de maio de 2014

FAKES, FALSÁRIOS E FASCISTAS: COMO DESPERTAR O LADO SOMBRIO DAS PESSOAS

Algo de podre está acontecendo nas redes sociais diretamente, e na grande mídia de forma dissimulada. Com a proximidade das eleições, estão despertando um lado perverso e canalha de algumas pessoas. Um comportamento que não se manifesta no contato interpessoal, mas encontra no mundo virtual a coragem de expor comentários virulentos, ofensivos e desrespeitosos. Além de acusações contra desafetos políticos sem que se apresente qualquer tipo de provas. Aliado a isso, o pessimismo, a descrença, o medo, vão sendo alardeados de tal forma que as pessoas se sentem vivendo dentro daquilo que está sendo construído por essas intervenções virtuais. As condições reais de nossas existências são tridimensionadas e elevadas a um patamar muito mais exagerado do que a própria realidade se apresenta. O sentimento de impotência e revolta surge naturalmente e torna as pessoas alvos fáceis das manipulações.
Esse sentimento tem sido despertado mediante uma estratégia que já foi adotada em outros países. Estou lendo o livro “A Segunda Guerra Fria”, de Moniz Bandeira, e os relatos são impressionantes. Recheados de dados e referências, o autor demonstra como a maioria das “revoluções”, ou revoltas, que derrubaram governos em várias partes do mundo, alguns eleitos legitimamente, iniciaram através de ações desenvolvidas por ONGs estadunidenses, e até mesmo órgãos oficiais daquele país, como a CIA  e  a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional  - United States Agency for International Development).
Uma citação, à página 96, demonstra claramente isso:
“Intervir em eleições estrangeiras sob a máscara de interesse imparcial de ajudar a sociedade civil tornou-se o precedente do pós-moderno coup d’etat patrocinado pela CIA, no Terceiro Mundo, adaptado às condições pós-soviéticas”. Johathan Steele, do The Guardian de Londres, em novembro de 2004.
Dessa data para cá se intensificaram as ações que possibilitaram as chamadas “resistências pacíficas”, inspiradas nos ensinamentos de Gene Sharp, através de seu livro “Da ditadura à democracia”, todas elas devidamente apoiadas politicamente por uma infinidade de ONGs, todas elas financiadas pelo governo dos EUA ou por grandes financistas, como George Soros.
A situação vivida pela Venezuela é consequência dessa estratégia. Como também o foi na Ucrânia, na Síria, em Honduras etc. Seguramente, isso irá acontecer aqui no Brasil até as eleições e, acredito, se intensificará na eminência de continuidade do governo atual, com a reeleição da presidenta Dilma Roussef.
As análises sobre esses processos demonstra que ao não obter sucesso no processo eleitoral democrático, essas forças ampliam as pressões e instigam revoltas no intuito de desestabilizar os governos eleitos até o limite da repressão ocasionada pelas forças militares internas. Para isso é preciso construir uma sensação de desesperança e crença que a desordem e o caos estão imperando. Retira-se, assim, qualquer ímpeto de resistência a uma possível ação desestabilizadora.
O que estamos assistindo é um reposicionamento das forças geopolíticas mundiais em consequência do agravamento da crise econômica, escondida pela grande mídia e só divulgado en passant, quando no limite e com escassos comentários. Essa situação de crise tem gerado enormes dificuldades para os governos de países centrais, tanto os EUA como os principais países europeus, que nesse primeiro trimestre de 2014 não chegaram a 1% no crescimento de seus PIBs, com a maioria deles atingindo decrescimento. E o maior índice foi da Alemanha, com 0,8% (http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/05/zona-do-euro-cresce-02-no-primeiro-trimestre-de-2014.html)
Isso força essas potências a ampliarem seus negócios, mediante o controle político dos países que estão fora de suas zonas de influência, de forma a pressionarem por mais abertura nos mercados e o controle de setores estratégicos, para que assim suas corporações possam agir mais livremente de acordo com seus interesses.
A desinformação, a preguiça de ir atrás da veracidade daquilo que está sendo divulgado, aliado à alienação peculiar, facilita a adoção desses mecanismos manipuladores, que repetidos à exaustão assume ares de verdades insofismáveis. Quando, em verdade, e realmente, são situações determinadas e localizadas, sem representar, como se apregoa, o declínio da civilização contemporânea, ou algo que o valha. Prato cheio para oportunistas, fascistas e para aqueles que desejam convencer as pessoas a ingressarem no mundo da ficção religiosa, de seitas que se deleitam com a desesperança e com o medo das pessoas.
Repercuti em minha página pessoal no Facebook essa percepção, e aqui a reproduzo.
Estou impressionado com a quantidade de pessoas que estão compartilhando postagens produzidas por páginas organizadas por "fakes". Matérias falsas, ou propagandas subliminares, são repercutidas sem que haja um mínimo de averiguação sobre a origem das notícias, em sua maioria, falsas. Algumas são boatos, e boa parte deturpações de notícias antigas. E o que é pior, muitos que repercutem isso estão na universidade ou tem curso superior. Por causa desse comportamento uma dona de casa foi linchada e assassinada em Guarujá, SP. Fico em dúvida se é desinformação, alienação, oportunismo ou má fé mesmo.
Vivemos, um tempo, de potencialidades de práticas antigas, mescladas com ares de modernidade tecnológica. O boato se dissemina virtualmente, e organiza em júbilo antros de acusadores odiosos, mas seu prólogo acontece nas formas tradicionais, da violência estúpida em grupo, nos justiceiros que assumem o papel de juízes, júri e carrascos. Sob os argumentos de ausências de autoridades, mas diante de situações que são reais, como o descontrole do aparato repressivo e a agressividade de um setor cada vez mais sob pressão: as polícias militares. Sob o medo, seduzido por ele e manipulado por outros, a multidão torna-se instrumento daqueles interesses que não se apresentam perceptivelmente.
Nas sombras, escondem-se os reais interesses, de grupos que disputam avidamente o poder político e desejam concentrar cada vez mais o poder econômico. Instigam e aproveitam-se dessas situações, para afinal dar o bote sobre as carcaças de uma sociedade onde as pessoas não se veem nela, mas apenas os outros. Nesse momento surgem os reformadores do caos, os mesmos, aqueles que por décadas e séculos controlam as riquezas, concentram rendas e constroem mundos partidos, sectarizados, mas que vivem protegidos em muralhas repetindo-se, sob novas conformações, mundos antigos e medievais. E as massas, como sempre, cumprem bem o papel de massa de manobra. Com o perdão da redundância.
Está na hora de construir uma brigada da desconstrução do pessimismo. Mas, como confrontar o grande poder midiático e o financiamento de grandes corporações e governos hostis, que se disseminam disfarçadamente nas redes sociais? This is the question!
Para os que consideram exagero as minhas conclusões, finalizo com a indicação de uma leitura. Um artigo escrito por Glenn Greenwald, baseado em documentos dos EUA, vazados pelo analista de sistema que atuava em uma empresa prestadora de serviços para órgãos de espionagem daquele país, Edward Snowden, atualmente sob proteção da Rússia, que lhe concedeu asilo.

domingo, 4 de maio de 2014

O CORAÇÃO DA TERRA PRESTES A SE INCENDIAR MAIS UMA VEZ


No ano de 1904, mais especificamente no dia 25 de janeiro, um texto, apresentado na Sociedade Geográfica Real, em Londres, transformou o britânico Halford Mackinder em uma figura de destaque na geopolítica moderna. Embora com livros publicados, sendo um deles também de grande importância, “Democratics ideals and Reality: A Study in Politics of Reconstruction” (Washington D.C.: National Defense University, 1919, 1942), foi o texto lido naquela data que o tornaria uma das proeminências na geopolítica. Entre as duas publicações uma grande guerra que alterou a ordem política mundial.
O Artigo em questão foi intitulado como “O Pivô Geográfico da História” (The Geographical Pivot of History), e por ele Mackinder identifica nas estepes asiáticas não somente a origem daqueles povos que foram responsáveis pela constituição da Europa, em toda a sua dimensão territorial e na constituição da maioria dos países que a compõe. Ele busca, pela geografia, identificar historicamente as razões para as dificuldades em se impor àquela região formas de controles que lhes fossem externas. E aponta ser aquela uma região propícia para a consolidação de um poder continental, condição pela qual garantiria a quem a controlasse a possibilidade de dominar o mundo.
            Kaplan[1] (2013, p. 64), diz que
Sua tese é que a Ásia Central, na medida em que é uma das partes constituintes do heartland eurasiano, é o pivô em torno do qual gira o destino dos grandes impérios mundiais, pois a própria disposição natural das artérias da terra, entre cordilheiras e vales, estimula a ascensão de impérios, declarados ou não, em vez de estados.
Para Mackinder, o poderio Russo era inabalável pelas condições geográficas, que lhes possibilitava não somente a proteção dificultando invasões externas, mas porque lhes garantiam com a organização de um poderoso exército, reforçar o poder terrestre, considerado mais apto a manutenção do controle daquelas vastas regiões, bem como expandi-la, em direção à Europa. Esse poder, poderia se reforçar perigosamente, caso se expandisse em direção à África, o que ele identifica como a “Ilha Mundial” (Eurásia e África). Além disso, ele ressaltava a importância do poder terrestre, condição que tornava Rússia mais impenetrável, principalmente depois que vastas extensões de ferrovias ligaram os milhares de quilômetros do seu território.
O Pivô Geográfico, para Mackinder era a Eurásia, identificada por ele como o “Heartland”, o “Coração Continental” ou o “coração do mundo”. E expressou em três pequenas frases o que ele considerava como estratégico, do ponto de vista da disputa pelo controle do poder mundial: “Quem controla o leste europeu, comanda o Heartland. Quem controla o Heartland comanda a Ilha Mundial. Quem controla a Ilha Mundial, comanda o mundo”.
“Fora da área pivô, em um amplo crescente interno, estão Alemanha, Áustria, Turquia, Índia e China, e em um crescente externo, Inglaterra, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Japão. Na condição atual do equilíbrio de poder, o Estado Pivô, a Rússia, não é equivalente a quaisquer outros estados periféricos, e não há espaço para um equilíbrio com a França. (...) A definição do equilíbrio de poder, em favor do Estado Pivô, que resulta em sua expansão sobre as terras marginais da Eurásia, permitiria a utilização dos vastos recursos para a construção da frota continental, e o império do mundo, então, estaria à vista”.[2]
Contudo, um holandês que se radicou nos Estados Unidos, o geógrafo e geoestrategista Nicholas Spykman, que se tornará a principal referência geopolítica para os Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial, partindo desse estudo de Mackinder expõe outra compreensão sobre o domínio do poder mundial.
Sem desconsiderar a principal tese de Mackinder, do Pivô Geográfico, e do Heartland, entendendo essa região como um forte poder estratégico, Spykman considera que a importância maior está no “crescente interior”, uma faixa de terras que se estende da Eurásia à América e inclui o Oriente Médio, que ele vai denominar de “Rimland”. Mais objetivo, e preocupado em definir uma política de contenção que impedisse a ampliação do poder do “heartland”, Spykman define como sendo a então União Soviética essa potência. Por sua teoria dominaria o “coração do mundo” não quem o controla diretamente, mas quem fosse capaz de cercá-lo.
Com base nas teorias de Spykman os Estados Unidos definirão toda a sua estratégia de atuação, tanto no período anterior à grande guerra, como, principalmente, após esse conflito, quando se estabelece a Guerra Fria. A “Estratégia de Contenção”, principal arcabouço teórico-geopolítico de Spykman, permeou todas as relações internacionais da política externa estadunidense. Desde o “Cordão Sanitário” interposto entre as duas grandes guerras, pelo qual se investiu no apoio a governos anti-soviéticos, apoiados pelos EUA, até a Guerra Fria, com a criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Essa estratégia encontrará sua formulação adequada com uma doutrina de segurança nacional, pela qual os EUA imporá sua política intervencionista que vigora até os dias atuais. A identificação do inimigo externo passa a gerar uma reação imediata, antecipando-se a uma possível ação que lhe pudesse ser ameaçadora. Por toda a guerra fria essa política foi adotada, e foi também fundamental na atuação dos órgãos de espionagem, no sentido de desestabilizar os países que compunham a União Soviética, ou que lhes fossem aliados, durante a década de 1980. A Polônia e o Afeganistão, foram os principais alvos dessa estratégia. Com o apoio ao Sindicato Solidariedade na Polônia, reforçado em seguida com a ascensão do papa polonês Carol Wojtyla, ou João Paulo II, as ações surtiram efeito e eliminou um aliado estratégico do regime soviético na Europa. No Afeganistão, o apoio ao Talebã, na guerra para expulsar os soldados soviéticos impôs uma forte derrota e fragilizou uma parte importante da fronteira soviética em um momento já de desestabilização completa da União Soviética. As ideias de Spykman consolidavam uma estratégia que se impôs como vitoriosa, ampliou o poder da OTAN e abriu caminho para as políticas neoliberais e a globalização.
“Contenção” é o nome dado pelo poder marítimo periférico para o que o poder do Heartland chama de “cerco” (encirclement). A defesa da Europa Ocidental, de Israel, dos Estados árabes moderados, do Irã do Xá e as guerras do Afeganistão e do Vietnã giraram todas em torno da ideia de impedir que um império comunista estendesse seu controle do Heartland ao Rimland.[3]
Após o fim da guerra fria, com a decadência do poder soviético, os EUA e aliados reforçam o controle do poder nessa região, com a ampliação da área de influência da OTAN, incorporando antigos países que compunham a União Soviética à essa organização  e mantendo a Rússia numa situação humilhante de dominação, mediante o apoio a governos fracos e instáveis. O foco principal passava a ser o domínio de territórios estratégicos, com potenciais reservas de petróleo, óleo e gás.
 “Com essa perspectiva, o objetivo estratégico dos Estados Unidos consistiu em expandir a influência e o domínio sobre a Ásia Central, região com mais de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, que compreende Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão, países com enormes recursos naturais, e que é rodeado por China, Rússia, Ásia do Sul e Oriente Médio.[4]
O objetivo, segundo o experiente e veterano professor Moniz Bandeira, doutor em Ciência Política e professor aposentado da UnB, atualmente residindo na Alemanha, era integrar os países do Cáucaso/Ásia Central, seja mediante o envolvimento militar ou através de ações de inteligência que possibilitasse a instalação de governos aliados, “que permitissem a economia de livre mercado, liberação do comércio e investimentos ocidentais, de forma que pudessem controlar as fontes de energias e as rotas de transporte do gás e do petróleo”.[5]
A década de 1990, com seus resultados negativos para o mundo socialista, pelo revés gerado pelo declínio e esfacelamento da União Soviética, representou, por outro lado, uma forte agressividade da política externa estadunidense, com influência destacada dos chamados “falcões”, que procuravam impor pela força o domínio ocidental e a expansão dos limites de atuação da OTAN. Reforçavam o controle do Rimland e avançavam em direção às franjas do heartland, trazendo para sua influência países que antigamente compunham a União Soviética.
Esses países outrora membros da República Soviética, partes do heartland euroasiático, tornaram-se alvos da política agressiva e rapace dos EUA.
Eram as repúblicas mais pobres da extinta União Soviética, mas possuíam vastas reservas de petróleo, iguais ou maiores do que as da Arábia Saudita, e as mais ricas reservas de gás natural do mundo, comprovadamente mais de 236 trilhões de metros cúbicos, praticamente fechadas.[6]
Essas ações prosseguiram, célere e agressivamente, visando bloquear qualquer tipo de influência da China, Rússia e Irã, avançando em seus objetivos estratégicos no Sul do Cáucaso e na Ásia Central. Uma série de projetos de gasodutos foram implementados e as rotas seguiam dessas regiões passando por esses territórios, países que se encontravam em tensões como consequência da transição em curso, e que tiveram esse processo acelerado por conta das ações de espionagem e da sedução de novos governantes que se erguiam distanciando-se da Rússia, mediante altos investimentos e atividades de grandes corporações petrolíferas. Moniz Bandeira (2013, pp. 68-69) cita alguns deles: O Consórcio Shah Deniz Production Sharing Agreement (PSA); o gasoduto Shah Deniz FFD: o South Caucasus Pipeline (SCP); o projeto Gasoduto Nabucco; e o Gazprom-Eni South Stream, além da atuação da British Petroleum e da Chevron/Texaco. As rotas tinham o Mar Cáspio como ponto estratético, de onde praticamente a maioria saia em direção à Turquia e daí para a Europa. Mas também partindo de Baku e do Azerbaijão.
Por trás dessas mexidas estratégicas, cujos objetivos eram as reservas energéticas de gás e petróleo, mas também agir com cada vez mais agressividade, seguindo ainda a estratégia de contenção, ampliando o domínio do Rimland, e avançando em direção ao Heartland, de forma a sufocar cada vez mais a Rússia, o centro do coração do mundo. Por todo o mundo, no entanto, a propaganda midiática centrava-se na necessidade de garantir a essa parte do mundo, o acesso à democracia e liberdade, com a ascensão de novos governos que pudessem defender a aproximação da União Européia e da OTAN. A defesa da Segurança Nacional passou a se constituir no pretexto mais forte, internamente, pelo qual tornava-se necessário combater com veemência os governos hostis aos valores ocidentais e estadunidenses. A “guerra ao terror”, motivada pela agressão sofrida pela ousadia de jihadistas da Al Qaeda, com o ataque ao World Trade Center, tornou essas ações fáceis de serem digeridas pela opinião pública. E os EUA saíram a caça dos terroristas, identificando nesses os inimigos externos e internos, menosprezando, sempre, a ordem política internacional.
Enquanto atacava o Iraque e Afeganistão, com armamentos pesados e grande contingente militar, os EUA, por meio de dezenas de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e da presença explícita de assessores militares, iniciou um processo de desestabilização de alguns países extremamente estratégicos para seus objetivos de controlar a produção e distribuição de gás e petróleo da região, e manter o isolamento da Rússia. As chamadas “Revoluções Coloridas”, se apresentavam pela mídia como insatisfações populares contras governos autoritários, escondiam a atuação desses atores externos plantados naqueles países com o intuito de derrubar esses governos. A Revolução Rosa na Geórgia, em 2003; a Revolução Laranja, na Ucrânia em 2004; a Revolução dos Cedros, no Líbano, em 2005; e a Revolução das Tulipas no Quirguistão, em 2005.
Os recursos gastos para promoverem essas crises políticas e a queda desses governos, foram infinitamente menores do que o montante investido no Iraque. Por essa razão, a partir de então, a estratégia a ser adotada será de reforçar esse mecanismo, ampliando o papel dessas organizações e de mais investimentos em espionagem, seja por meio da presença de um número cada vez maior de agentes, ou do controle da mídia e por meio das novas tecnologias que seduziam a juventude e que seria por esses meios facilmente manipulada.
Não é segredo, portanto, que o Pentágono, através da United States Army Civil and Faires e do Psychological Operations Command (USACA-POC), o Departamento de Estado e várias organizações não-governamentais, entre as quais a Freedom House, (...) e a National Endowment for Democracy, investiram milhões de dólares para incentivar as “revoluções coloridas” na região da extinta União Soviética e cercar a Rússia. A Ucrânia configurou uma questão estratégica, não por causa de Moscou, mas por causa dos Estados Unidos, que, conforme o jornalista Jonathan Steele, se recusavam a abandonar a política da Guerra Fria de cercar a Rússia e buscar para o seu lado todas as antigas repúblicas soviéticas. Situada entre a Rússia e os novos membros da OTAN – Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia –, a Ucrânia adquiria realmente enorme significação estratégica para os Estados Unidos. (MONIZ BANDEIRA, 2013, pp. 97-98).

A UCRÂNIA FORA DE CONTROLE
Por esse tempo, contudo, nesse começo de século XXI, a Rússia aos poucos foi retomando seu papel estratégico nessa região e o protagonismo político em âmbito internacional, através de uma política agressiva de uma nova liderança nascida dos escombros da antiga polícia secreta soviética, a temida KGB (Komitet gosudarstvennoi bezopasnosti, Comité de Segurança do Estado): Vladimir Putin.
Demonstrando segurança e capacidade de lidar com situações adversas, Putin passou a se constituir em um perigoso estrategista, cercando os objetivos europeus e dos EUA nos avanços sobre as antigas repúblicas soviéticas, e agindo com firmeza para conter as lutas separatistas em países estratégicos, fomentadas e financiadas pelas potências ocidentais, destacadamente os EUA.
Como um Czar moderno, Putin passou a governar com punhos de ferro, reprimindo implacavelmente esses movimentos, passando a considerá-los também “terroristas”, além de realizar uma limpeza interna, perseguindo opositores, muitos dos quais novos ricos que amealharam suas riquezas em golpes de corrupção no processo de desestatização com fortes vínculos com alguns países europeus, para onde fugiram alguns daqueles que não foram presos nesse processo.
Dessa forma, algumas mexidas no tabuleiro de xadrez que representa essa região, fez com que Putin reagisse e obtivesse algumas vitórias sobre as políticas estadunidenses. Primeiro em relação às lutas separatistas na região, tanto na Geórgia, como na Ossétia do Sul, e uma reviravolta na revolução laranja na Ucrânia, retomando a influência nas eleições de 2010, com o retorno de Viktor Yanukovych à presidência, resultando em uma verdadeira queda de braço entre a Rússia e a União Européia, instigada pelos Estados Unidos, que disputavam a assinatura de acordos que pudessem tirar a Ucrânia de enormes dificuldades financeiras. Por fora da região Putin deu uma tacada de mestre na questão da Síria, quando negociou a destruição das armas químicas e eliminou o principal pretexto para uma ação militar da OTAN naquele país, onde se situa a única base militar russa na região do mediterrâneo.
Mas a Ucrânia era a situação mais emblemática, pelos motivos já citados acima, além da sua extensão territorial e sua dimensão populacional. Assim, nos últimos anos iniciou-se uma luta intensa pelo controle ucraniano, ora nos bastidores, ora nos embates políticos internos, mas, principalmente, nas ações executadas por grupos ultranacionalistas fascistas, organizações não-governamentais e agentes secretos infiltrados por todos os lados e de todos os lados, seja dos EUA ou da Rússia.
Euromaindan - revoltas em Kiev
Fragilizado politicamente como consequência de um governo fraco e marcado pela corrupção, Yanukovych terminou por ceder à pressão russa e recusou os acordos com a União Européia. Essa atitude se constituiu no estopim que levou às ruas centenas de milhares de manifestantes, em um movimento que, como todos os demais que marcaram as “revoluções coloridas”, começou despretensiosamente, até atingir seu ápice com a invasão de prédios públicos e o controle de setores importantes do governo, forçando o presidente à fugir para a Rússia. Nitidamente ocorreu ali um golpe de Estado, principalmente porque através de alguns acordos já se iniciava um processo de transição que atendia boa parte daquilo que era reivindicado nas ruas. Mas as ações agressivas de grupos radicais de direita prevaleceram levando a destituição de Viktor Yanukovych. Desta feita, os interesses russos foram contrariados, em uma região de importância estratégica fundamental já que aproximava a União Européia e as políticas estadunidenses perigosamente das fronteiras russas.
A primeira reação russa foi instigar o plebiscito na região da Criméia, pelo histórico de vinculação com aquele país de população majoritariamente de origem russa, mas, também, por se constituir em uma importante ligação da Rússia com o Mar Negro, através do Mar de Azov pelo Estreito de Kerch. Esse é um caminho estratégico que a Rússia tem para atingir o Mar Mediterrâneo, pelos Estreitos de Bósforo e Dardanelos (que dividem a Turquia da Europa). Outro elemento importante é o fato de ali situar-se uma base militar russa, incrustada na cidade de Sebastopol.
Por essas razões, e com o agravamento da crise ucarania, a República Autônoma da Criméia, após o plebiscito que contou com o apoio de 95,5% dos votantes, passou em março deste ano a fazer parte da Federação Russa.
Contudo as populações do leste ucraniano, também em sua maioria de origem russa, e inspirando-se na iniciativa da Criméia, passaram a se mobilizar de maneira ostensiva, opondo-se ao governo provisório da Ucrânia e reivindicando também plebiscito que as incorporem à Rússia. Duas das maiores cidades ucranianas também se inserem nesses protestos: Odessa e Donetsk. Historicamente são cidades que já compuseram o Império Russo, assim como todo o território ucraniano. Após a revolução bolchevique, em 1917, toda essa região compunha a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Manifestantes pró-Rússia em
Donestsk
O que tem se seguido à incorporação da Criméia pela Rússia e à aproximação do governo da Ucrânia aos governos ocidentais e aos EUA é uma reação em cadeia por parte de praticamente todas as cidades do leste ucraniano, situadas no litoral do mar negro e na fronteira com a Rússia. Os levantes assumiram características de guerra civil, e as manifestações, com ocupação de prédios públicos e a destituição de autoridades que se opunham ao separatismo, assemelham-se ao que aconteceu no início deste ano que levou à deposição pela força do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.
Mas, as informações que os chegam, transmitidas em larga escala por poucas agências de notícias ocidentais, tomam um outro enfoque, diferente da maneira como as primeiras manifestações foram noticiadas. Apresentadas agora como revoltas conduzidas pro grupos pró-Rússia, com alegações do governo interino ucraniano que tratam-se de ações de grupos terroristas alimentados pelo governo russo, e assim reproduzido para todo o mundo e presente nos discursos das autoridades estadunidenses, embora guardem semelhanças com aquelas anteriores são distinguidas propositadamente a fim de justificar possíveis ações militares e intervenções da OTAN.
Presença de grupos nazi-fascistas
em Kiev. Fortes protagonistas
nas revoltas euromaidan
Os primeiros choques, naquilo que ficou conhecido como o Euromaidan (europraça), que tem ocupado a praça central de Kiev até os dias atuais, assumiram características semelhantes das atuais revoltas do Leste. Pior, porque foram comandadas por grupos neo-nazistas, que ascenderam depois ao governo, assumindo dois ministérios. Mas nem por isso foram noticiadas por essas agências de comunicações, como pró-europeias, muito embora estivessem presentes, infiltrados, centenas de agentes estadunidenses, interessados em destituir o então presidente, a fim de atrair a Ucrânia para sua zona de influência, aproximá-la da União Europeia e incluí-la na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O objetivo, naturalmente, era reforçar o cerco ao Heartland russo, e, a meu ver, vingar-se das derrotas impostas pela diplomacia russa tanto nas ações da Síria, como na concessão de asilo a Eduard Snowden.
A solução para o problema ucraniano não é simples. A Rússia não abrirá mão de manter sob sua influência toda a região que lhes faz fronteira, não somente por ser constituída de uma enorme população de origem russa, mas pela necessidade de proteção dessas fronteiras, de forma a afastar possíveis ameaças ocidentais ao seu território.
A crise econômica mundial, que afeta duramente as principais potências europeias e os Estados Unidos, é um ingrediente a mais a preocupar os analistas políticos, em vista da necessidade de artificializar crises como estratégias de não somente desviar as atenções a esses problemas, mas porque historicamente as guerras têm se constituídos em saídas para crises que aconteceram em diversos momentos e que afetaram a economia mundial, ameaçando o equilíbrio geopolítico, e até mesmo efetivando mudanças consideráveis na hegemonia do poder mundial.
Odessa, começo do século XX,
retratada na revolta do Couraçado
Potenkim, no clássico filme de Eiseinstein
Mas, essa região, sempre disputada, desejada e jamais conquistada por forças externas a ela, tem na sua geografia o elemento mais forte a protegê-la. Dois grandes impérios, em duas guerras violentas, viram seus exércitos padecerem nas dificuldades enfrentadas pelo ambiente e pela reação fortemente nacionalista do povo russo. Tanto na tentativa de invasão durante as guerras napoleônicas, no começo do século XIX, como do exército alemão durante a segunda guerra mundial. Em seus momentos, o poderio francês, bem como no século XX o poderio alemão, eram infinitamente superior ao russo e soviético. Mas esbarraram nas dificuldades geográficas e na determinação desses povos.
É impossível fazer um prognóstico para o final dessa crise. O certo, no entanto, é que isso só se acalmará se ao fim, e ao cabo, puder se chegar a um acordo que leve a constituição de um governo na Ucrânia que possa manter o país fora da União Europeia e também livre da influência russa. Uma federação de estados autônomos independentes seria, portanto, o caminho adequado para pacificar a região, embora não se saiba até quando.
A extensão desse artigo se deve à necessidade de se mostrar com clareza, para além das manipulações dos meios de comunicação, e dos comunicados piegas de autoridades ocidentais, principalmente estadunidenses, como se fossem eles xerifes do mundo, a importância estratégica que toda essa região possui no contexto de uma disputa geopolítica pela manutenção do poder hegemônico mundial e na tentativa de cercar e impedir que outros atores possam vir a se constituir em ameaças a esse poder.
Odessa hoje. Com manifestantes
em lutas separatistas pró-Rússia
Criticar a maneira como essa crise está sendo apresentada não significa, necessariamente, defender o comportamento político do presidente russo Vladimir Putin, claramente aliado de uma forte oligarquia local que enriqueceu às custas da decadência do antigo regime soviético. Mas não se podem admitir as distorções nos enfoques que são dados a esses movimentos, levando a um claro desequilíbrio nas notícias e omitindo situações históricas e geográficas que explicam as dificuldades de se compreender todos esses conflitos.
O “pivô geográfico da história”, ou o heartland mackinderiano, pode explodir em novas guerras, incendiando mais uma vez coração do mundo. A população mundial assiste, impassível, a esses acontecimentos, impotentes diante de um embate que sempre opôs forças poderosas da geopolítica mundial. Seguiremos acompanhando, com um olhar geopolítico, procurando ser o mais isento possível, mas seguramente opondo-se à maneira rapace e dominadora, disfarçada em defesa de democracia e liberdade, com que EUA, Europa e OTAN tem avançado por toda a região euro-asiática, com intuito de expandir suas influências, ampliar seus mercados e derrubar governos hostis na linha da estratégia da contenção, de controle do rimland e de cerco aos povos das estepes asiáticas.
* Já quando eu estava finalizando este texto me deparei com um artigo no blog do jornalista Mauro Santayana, que tem elementos já das questões geopolíticas que estão em jogo nessa disputa. A proibição, por parte da Rússia, da exportação de alimentos que contenham modificações genéticas, ou, os chamados transgênicos. Ainda segundo Santayana, isso se dá no momento em que praticamente metade da produção agrícola da Ucrânia passa a ser controlada por duas grandes corporações, a Cargill e a Monsanto.[7]




NOTAS:
[1] Robert Kaplan, autor do livro citado, “A Vingança da Geografia”, é o principal analista geopolítico da Stratfor, uma empresa de inteligência privada global. No seu livro ele procura descrever as dificuldades impostas pela geografia àquelas ações imperialistas executadas pelos Estados Unidos nas últimas décadas. Percebe-se que o conteúdo exposto visa obter uma análise cuidadosa dos erros cometidos, e, a meu ver, com o intuito de alterar as estratégias adotadas, não mais de intervenções militares baseadas em enormes contingentes militares e bélicos, mas partindo para ações de inteligências, de desestabilizações de governos hostis e operações tecnologicamente sofisticadas. O objetivo, “ser (os EUA) um poder equilibrador na Eurásia e um poder unificador na América do Norte”
[2] MACKINDER, Halford. O Pivô Geográfico da História. In: Revista de Geopolítica. Natal-RN, v.2, n.2, pp. 17-18. Jul/dez de 2011.
[3] KAPLAN, Robert D. A Vingança da Geografia. A construção do mundo geopolítico a partir da perspectiva geográfica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
[4] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. P. 65
[5] Idem, ibidem.
[6] Idem. P. 66
[7] Leia o artigo acessando o link: http://www.maurosantayana.com/2014/05/os-ogm-cobica-e-morte.html

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A SERVIDÃO HUMANA MODERNA

“A desgraça deste mundo reside no fato de ser muito mais fácil abandonar os bons hábitos do que os maus”.
William Maugham

O livro “A Servidão Humana”, um clássico da literatura mundial, foi lançado há quase exatos cem anos, em 1915, e o seu autor Wiliam Somerset Maugham, vivia também, pessoalmente, frente a dilemas que ainda nos dias de hoje são corriqueiros. Assumir a sua homossexualidade. Mas o conteúdo dessa obra-prima não está centrada nisso, mas em um forte questionamento sobre as escolhas feitas pelo indivíduo, diante dos problemas que a vida lhe apresenta. O amor, a família, o destino, a riqueza, a morte, as deficiências físicas e morais. E os desejos e angústias que permeiam as nossas decisões, fundamentais para definir nossos destinos. Era o retrato do ser humano em uma época marcada por transformações cruciais. O início da segunda guerra mundial impunha ao mundo novas realidades, marcadas pela brutalidade da guerra, e pelo embate ideológico que redefiniria o mundo. Mas, ainda se discutia sentimentos como bondade, paixão e amor, com sensibilidade, muito embora a hipocrisia, traço de caráter coletivo da sociedade, já se manifestasse em atos e comportamentos.
Cem anos depois, o que me proponho aqui é discutir outro tipo de servidão, que tem definido comportamentos, hábitos e vícios, gerados por uma impressionante dependência tecnológica em um novo tipo de sociedade, onde nos tornamos consumistas compulsivos, e nos consumimos pelo grau de escravidão que nos impõem os objetos cada vez mais sofisticados que nos cercam.
Servidão e escravidão podem carregar elementos conceituais diferentes, quando analisamos as estruturas sociais ao longo de séculos de transformações da história humana. Mas, são palavras que podem tornar-se sinônimas quando procuramos estabelecer as relações construídas pelo sistema capitalista e o grau de dependência criada entre os indivíduos e as mercadorias.
Esse fenômeno foi estudado e identificado por Karl Marx já no século XIX. Segundo ele, nas relações sociais que são estabelecidas na sociedade capitalista o indivíduo ao consumir uma mercadoria desconhece, em absoluto, todo o processo de produção, no qual está embutida a exploração da força de trabalho, principal elemento a acarretar a acumulação de riquezas nas mãos dos poucos que controlam os meios de produção.
As mercadorias foram adquirindo, ao longo da consolidação do sistema capitalista, por sua lógica entranhada, de garantir por ela os lucros aos comerciantes e à burguesia, o caráter de um fetiche. Por um lado, à medida em que cada vez mais ela cria uma vida própria, deixando de ser adquirida simplesmente porque advinda de uma necessidade, tornando-se um objeto de desejo irrefreável pelo qual os indivíduos se tornam dependentes; e por outro lado porque nesse processo perde-se a percepção de que ela é fruto da exploração do trabalho alheio, e por ele se garante o lucro, e o seu valor passa a extrapolar sua significância real, adquirindo um valor artificial ao sabor das manipulações criadas pelo mercado, deixando de ser vista como algo criado pelo trabalho humano e pelo qual devesse ser medido.
Por esse processo, a vontade do ser humano sucumbe ao que Marx denominou como o “fetichismo da mercadoria”, invertendo-se a ordem natural das coisas, com as pessoas sendo subsumidas nessa lógica sistêmica e aceitando serem dominadas pelos objetos. Perde-se, pela dependência criada em relação às coisas, a capacidade de refletir criticamente sobre o processo de exploração na produção da mercadoria e substitui a necessidade real, pelo desejo de consumir, afetando duramente a capacidade do ser humano de controlar de forma consciente a maneira como se dá o processo da produção.
Dessa forma o dilema se nos apresenta como no enigma da esfinge: “decifra-me ou devoro-te”[1]. Na incapacidade do ser humano decifrar todo o processo produtivo, responsável pela ampliação desmedida de mercadorias, e a consequente destruição da natureza, torna-se impossível realizar seus desejos objetivado na frase que já se tornou muito mais o foco de marketing do que de realizações efetivas para sua concretização: o desenvolvimento sustentável.
Essa dependência, contudo, assume nos dias atuais (muito embora perpassando isso por épocas passadas desde o surgimento do capitalismo) um estágio preocupante, porque se aproxima do limite possível de ser tolerado pela natureza, e porque culturalmente consome a juventude, principalmente, transformando-a em zumbis modernos, espécie de seres inanimados cuja capacidade de comunicar-se por vias de tecnologias sofisticadas afasta-a do contato e do convívio natural.
Paradoxalmente, essa escravização aos objetos, notadamente os de forte atração tecnológica, distanciam as pessoas, quando essas estão próximas, e as aproximam quando estão distantes. A proximidade passa a ser um empecilho porque impede de usufruir dos desejos doentios de se comunicar pelos aparelhos sofisticados. Isso pode fazer com que a capacidade de dialogar presentemente torne as novas gerações frias no convívio social e insensíveis aos contatos humanos, que tendem a tornar-se fúteis e passageiros.
Não há dúvidas que a tecnologia facilita a vida humana, reduz as distâncias e coloca as pessoas mais próximas. Mas o preço a pagar por isso tem sido bastante elevado quando se fala das relações humanas. O mesmo objeto de deslumbre que nos lança no mercado em busca de novidades, não necessárias, mas desejáveis, torna-se também alvo da marginalidade, quase sempre oriunda de camadas sociais mais baixa. Cada vez mais aparelhos celulares e tabletes são visados em assaltos e roubos. Repassados e vendidos no mercado paralelo o baixo preço dessas mercadorias faz com que ela seja disputada também por pessoas pobres. Com isso, não somente a classe média e os mais ricos ficam reféns dessas tecnologias, e de mercadorias que não deveriam ser as mais importantes em suas vidas, cujas necessidades mais prementes são relegadas a planos inferiores. Some-se a isso as facilidades de créditos que garantem acesso fácil às mercadorias e instigam o consumo. A alienação gerada por essa lógica consumista e os vícios que dela advém, passam a se fazer presente também entre os mais pobres, que se veem em um mundo distante daquilo que é a realidade vivida.
Por todas as classes sociais a dependência tecnológica assume ares de uma epidemia. E aquilo que deveria ser algo facilitador das relações sociais, torna-se um enorme impedimento para que se tenha a clara noção dos mecanismos reais de produção e do processo de manipulação da realidade a fim de tornar cada jovem um consumista em potencial.
Podemos argumentar que tais tecnologias, e as redes sociais que elas criam, tem ultimamente contribuído para aglutinar milhares de jovens em manifestações que tem azucrinado a vida de governantes. Mas nessas redes sociais vê-se também o lado selvagem, estúpido e odiento de muitas pessoas, que passam a frequentar um ambiente onde podem tudo, ou pensam que podem, e o desrespeito passar a se constituir em uma regra que se dissemina numa velocidade impressionante.
Alimentada pela mídia, estamos construindo via esses mecanismos uma geração marcada pelo ódio. Mas nesse sentimento não há, infelizmente, uma capacidade crítica suficiente para distinguir a origem de suas frustrações. O fetichismo, embutido na mercadoria, espalha-se pela sociedade, e a coragem de se manifestar via redes sociais, bem como a virulência em que essa rebeldia se transforma em alguns casos, não tem objetividade. Esses jovens, em sua maioria, não se disporiam a enfrentar os seus piores demônios, pois são eles que produzem seus objetos de desejos. São alienados e, com esses comportamentos, não causam nenhum medo naqueles que controlam toda a riqueza, os meios de produção e a cada um deles, por intermédio das mercadorias que desejam.
Não defendo nenhum manifesto Ludista, anti-tecnologia. Mas me preocupa o caminho que estamos trilhando em direção ao futuro. Como sempre digo, o futuro não existe. Ele é uma construção idealizada. Quando imaginamos, contudo, aquele tempo que ainda virá, e no qual nos imaginamos nele, a menos que a morte nos tolha a vida, devemos olhar para o presente. Ele é que dirá que tipo de mundo estamos construindo.
Faltando um ano para o prazo estabelecido a fim de se resolver os principais problemas da humanidade, porque é tão difícil se atingir os “objetivos do milênio”?[2] Porque tudo isso depende do rompimento com as estruturas vigentes no sistema capitalista, cuja prioridade é produzir a uma meta lunar (ou lunática), sem limites, cada vez mais mercadorias.
Somos arrastados por um turbilhão midiático, de propaganda, que invade cada casa, indistintamente, a martelar em nossos desejos e a nos impor uma vontade. Sucumbimos a esse fetichismo, agora ampliado pelo marketing, e deixamos para depois a preocupação com os destinos da humanidade. Eles deixam de ser nossos quando atingimos essa capacidade consumista e passamos a querer resolver um problema somente quando ele nos incomoda particularmente. Somente a crítica, a capacidade de identificar as origens desses males, e rompendo com o fetichismo (o que não significa abrir mãos dos desejos, mas ter a consciência crítica de seus limites), pode-se corrigir o rumo que tem nos encaminhado em direção a um abismo.
Certamente essas poucas palavras não surtirão efeito, porque tem alcance limitadíssimo. E muitos daqueles que lerem isso que escrevo, já possuem essa consciência crítica formada, e sentem a mesma impotência diante desses problemas. Mas consigo assim me aliviar das culpas, visto ser um indivíduo do meu tempo, e também algumas vezes cego pelos desejos consumistas.
Exprimo dessa forma um sentimento que demonstra o quão contraditório é o mundo em que vivemos. Contudo, tenho a consciência da necessidade de mudar o mundo não pela cultura, pelos hábitos, mas rompendo com as relações sociais de produção que nos escraviza e limita nossa capacidade de construirmos um mundo mais solidário e menos egoísta. Somente assim, e destruindo essa tradição que está enraizada em nossas entranhas e acompanha a cada nova geração, poderemos criar outros valores que nos levem a consumir aquilo que é estritamente necessário para vivermos bem e com dignidade, com o olhar voltado para o passado, os pés firmes no presente e nossos sonhos utópicos realizáveis a desenhar nossos destinos.
Quem sabe a partir daí possa ser possível falar em desenvolvimento sustentável?
Vejam este vídeo. Fala sobre a maneira como estamos substituindo nossa maneira de interagir, nos submetendo à dominação dos objetos e da tecnologia. 




[1] “Diz uma antiga lenda grega que a deusa Hera enviou a Esfinge (uma besta com cabeça de mulher, asas e corpo de animal) para atormentar os moradores da cidade de Tebas. A Esfinge cruzava o caminho de todos os que se aproximavam da cidade e formulava um enigma para o viajante. Quem errava o enigma era devorado pelo monstro. Um dia, Édipo cruzou com a Esfinge, que lhe propôs o seguinte enigma: “O que durante a manhã tem quatro pernas, ao meio-dia tem duas e à noite tem três”. Édipo respondeu corretamente* e a Esfinge ficou tão furiosa que se lançou num precipício. Graças à façanha de derrotar a Esfinge, Édipo tornou-se rei de Tebas e ganhou a mão da rainha enviuvada, sua própria mãe.”.
(*) Resposta ao enigma: O ser humano. Representado em suas fases de recém-nascido, adulto e na velhice, quando necessita ser apoiado em uma bengala ou cajado.
[2] Em 2000, a ONU – Organização das Nações Unidas, ao analisar os maiores problemas mundiais, estabeleceu 8 Objetivos do Milênio – ODM, que no Brasil são chamados de 8 Jeitos de Mudar o Mundo – que devem (deveriam) ser atingidos por todos os países até 2015. 1. Acabar com a fome; 2. Educação básica de qualidade para todos; 3. Igualdade entre os sexos e valorização da mulher; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde das gestantes; 6. Combaer a Aids, a malária e outras doenças; 7. Qualidade de vida e respeito ao meio-ambiente; 8. Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento. (http://www.objetivosdomilenio.org.br/)


sexta-feira, 28 de março de 2014

A GEOGRAFIA DO MANIFESTO

Por David Harvey(*)
Publicado em (**):

É imperativo reacender as paixões políticas presentes no Manifesto. Eis um documento extraordinário, cheio de insights, rico em sentidos e explodindo em possibilidades políticas. Embora não tenhamos o direito de o alterar, temos a obrigação de interpretá-lo à luz das condições contemporâneas. Marx e Engels escreveram, no prefácio à edição alemã de 1872, que a aplicação dos princípios do Manifesto dependeria, “em todos os lugares e em todas as épocas, das condições históricas vigentes” (p.71).
Sem expansão geográfica, reorganização espacial e desenvolvimento geográfico desigual, o capitalismo teria parado de funcionar há muito tempo. A procura contínua de um “ajustamento espacial” para as contradições internas do capitalismo, junto com a inserção desigual dos diferentes territórios e formações sociais no mercado mundial capitalista, tem criado uma geografia histórica mundial da acumulação capitalista, cuja natureza precisa ser bem compreendida. Vale a pena examinar como Marx e Engels conceituaram o problema no Manifesto Comunista.
*
A abordagem que fazem é profundamente ambivalente. Por um lado, as questões da urbanização, da transformação geográfica e da “globalização” ocupam um lugar importante na exposição. Mas, por outro, as ramificações potenciais das restruturações globais tendem a se perder em uma retórica que privilegiam o tempo e a historia em detrimento do espaço e da geografia.
O Manifesto é, sem dúvida, eurocêntrico. Mas a importância do contexto global não é ignorada. O surgimento da burguesia é intimamente ligado a suas atividades e estratégias:
“A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial acelerou enormemente o desenvolvimento do comércio, da navegação, dos meios de comunicação. Este desenvolvimento reagiu por sua vez sobre a expansão da indústria; e à medida que a indústria, o comércio, a navegação, as vias férreas se desenvolviam, crescia a burguesia, multiplicando seus capitais e colocando num segundo plano todas as classes legadas pela Idade Média.” (p.41)
A burguesia ultrapassou os poderes feudais e transformou o Estado (com os seus poderes militares, organizacionais e financeiros) no executivo das suas próprias ambições. Uma vez instalada no poder, continuou sua missão revolucionária em boa parte através de transformações geográficas. Internamente, a rápida urbanização levou à dominação da cidade sobre o campo, simultaneamente salvando-o da “estupidez” da vida rural e reduzindo o campesinato a uma classe subordinada. A urbanização concentrou espacialmente tanto as forças produtivas quanto a força de trabalho, transformando populações espalhadas e sistemas descentralizados de direitos à propriedade em concentrações maciças de poder político e econômico. E depois:
“Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte.
Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reacionários, ela roubou da indústria sua base nacional. As velhas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser destruídas diariamente. São suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas — indústrias que já não empregam matérias-primas nacionais, mas sim matérias-primas vindas das regiões mais distantes, e cujos produtos se consomem não somente no próprio país mas em todas as partes do mundo.  Ao invés das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, surgem novas demandas, que reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e de climas os mais diversos.
No lugar do antigo isolamento de regiões e nações auto-suficientes, desenvolvem-se um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se patrimônio comum. A estreiteza e a unilateralidade nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; das numerosas literaturas nacionais e locais nasce uma literatura universal.” (p.43)
Aliás, a burguesia:
“Sob pena de ruína total [...] obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção, constrange-as a abraçar a chamada civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem e semelhança.” (p.44)
A temática da globalização e da “missão civilizadora” da burguesia é explicada, embora com um toque irônico. Mas, se a missão geográfica da burguesia é a reprodução das relações de classe e de produção numa escala geográfica de progressiva expansão, então as bases para as contradições internas do capitalismo e a revolução socialista também se expandem geograficamente. A conquista de mercados abre o caminho para “crises mais extensivas e mais destrutivas,” enquanto simultaneamente “diminuem os meios de prevenir as crises”. A luta de classes começa a ser global; trabalhadores de todos os países tem que se unir numa luta revolucionária anticapitalista e pró-socialista.
Existem vários problemas nesta explicação. Eles precisam ser resolvidos se quisermos desenvolver uma compreensão politicamente útil de como a geografia da acumulação do capital ajuda a perpetuar o poder da burguesia e suprimir os direitos e aspirações dos trabalhadores.
1.
A divisão do mundo em nações “civilizadas” e “bárbaras” é anacrônica, senão positivamente ofensiva, ainda que possa ser perdoada como típica da época. O modelo centro-periferia de acumulação que a acompanha é, na melhor hipótese, uma simplificação excessiva e, na pior, enganoso. Ele faz parecer que o capital se origina em um lugar (a Inglaterra ou a Europa) e depois se difunde para fora, atingindo o restante do mundo. Embora, às vezes tenha sido o caso, tal explicação é contrária ao que aconteceu no Japão depois da restauração Meiji ou o que está acontecendo hoje em dia em países como Coréia do Sul e a China, que internalizam a acumulação primitiva e inserem as suas forças de trabalho e produtos nos mercados globais. A geografia da acumulação de capital merece um tratamento muito mais elaborado do que o esboço rápido provido pelo Manifesto. A falta de uma teoria geográfica do desenvolvimento desigual (com frequência envolvendo acumulação primitiva desigual) impede a compreensão da dinâmica da formação da classe operária e da luta de classes no espaço global.
O mundo não se apresenta como um tabuleiro sobre o qual a acumulação do capital jogou o seu destino. É uma superfície muito variada, diferenciada ecológica, política, social e culturalmente. Os fluxos do capital encontram alguns terrenos mais fáceis de ocupar do que outros, em diferentes fases de desenvolvimento. O contato com o mercado global capitalista levou algumas formações sociais a se inserirem agressivamente, enquanto outras não o conseguiram, com efeitos extremamente importantes. A acumulação primitiva ou “original” pode acontecer e tem acontecido em lugares e tempos diferenciados. Como e onde acontece depende das condições locais, ainda que os efeitos sejam globais. Hoje é crença generalizada no Japão, por exemplo, que o sucesso comercial do país após 1960 deveu-se, em grande parte, à posição isolada e não competitiva da China depois da revolução e que a inserção contemporânea do poder chinês no mundo capitalista significa o fim para o Japão como um país produtor, ao contrário de uma economia rentista. Uma contingência geográfica deste tipo tem um papel importante na história do mundo capitalista. Aliás, o caráter global da acumulação do capital cria o problema de um poder burguês disperso que pode ser muito mais difícil de controlar geopoliticamente precisamente por causa de sua multiplicidade geográfica. O próprio Marx se preocupava com esta possibilidade. Em 1858, escreveu:
“Para nós a pergunta difícil é a seguinte: a revolução no continente é iminente e o seu caráter será socialista; não será necessariamente esmagada neste pequeno canto do mundo, sendo que em um terreno muito maior o desenvolvimento da sociedade burguesa é ainda ascendente”. [Correspondência com Engels, 8 de outubro de 1858]
É instrutivo refletir sobre o número de revoluções socialistas que foram cercadas e esmagadas pelas estratégias geopolíticas de um poder burguês em ascendência.
2.
O Manifesto corretamente destaca a importância de reduzir as barreiras espaciais através de inovações e investimentos em transporte e comunicação. Neste sentido, o Manifesto é de uma extraordinária presciência. “A aniquilação do espaço através do tempo”, como Marx o chamou posteriormente [Grundrisse], enfatiza a relatividade das relações espaciais e vantagens geográficas, fazendo da vantagem comparativa no comércio um assunto muito dinâmico, em vez de estável.
3.
Uma das maiores lacunas do Manifesto é a sua falta de atenção para a organização territorial. Se, por exemplo, o Estado é “o braço executivo da burguesia”, então ele tem que ser definido, organizado e administrado territorialmente. O século dezenove foi um grande período de definições territoriais (com o estabelecimento da maioria das fronteiras do mundo entre 1870 e 1925 pelos poderes coloniais). Mas a formação e a consolidação do Estado envolve mais do que a definição territorial e tem se mostrado uma tarefa longa e muitas vezes instável (em particular, por exemplo, na África). Foi só depois de 1945 que a descolonização tornou a formação mundial do Estado um pouco mais próxima do modelo altamente simplificado do Manifesto.
4.
O Estado é só uma das muitas instituições mediadoras que influi na dinâmica da luta mundial de classes. O dinheiro e as finanças também têm que ser consideradas. Mas o Manifesto não se pronuncia a este respeito. Temos duas maneiras de aprofundar a questão. O dinheiro mundial (world money) pode ser visto como uma representação universal com a qual os territórios se relacionam (através das suas próprias moedas) e os capitalistas se conformam. Este é um ponto de vista muito funcionalista (é a concepção dominante na ideologia neoclássica contemporânea da globalização). Ou o dinheiro pode ser visto como uma representação do valor que surge de uma relação dialética entre trabalhos concretos feitos em lugares e tempos específicos e a universalidade de valores (trabalho abstrato) conseguida na medida que a troca de mercadorias se efetua como um ato social corriqueiro no mercado mundial. Bancos centrais e outras instituições financeiras mediam esta relação. Muitas vezes são instáveis (e baseadas territorialmente), sugerindo uma relação problemática entre condições locais e os valores universais. Mas estas instituições também afetam trabalhos concretos e relações de classe formam padrões de desenvolvimento geográfico desigual através de seu comando sobre a formação e os fluxos de capital.
5.
O argumento de que a revolução burguesa plantou a semente de uma maior unidade política da classe operária através da urbanização e a concentração da indústria é importante. Diz que a produção da organização espacial não é neutra com respeito à luta de classes. Este é um princípio vital, não importa quanto sejamos críticos com respeito ao modelo de três etapas desenhado no Manifesto. Estas etapas são
1    a luta individual que começa a se coletivizar ao redor de fábricas, profissões e lugares específicos;
2    a unificação de muitas destas lutas através da concentração de atividades e a formação de sindicatos que começam a se comunicar um com o outro;
3    a emergência da luta de classes ao nível nacional.
Durante a maior parte do século dezenove, este modelo descreve um caminho bastante comum do desenvolvimento da luta de classes. E trajetórias parecidas podem ser percebidas no século vinte (por exemplo, Coréia do Sul). Mas uma coisa é retratar isto como um modelo descritivo útil e outra é argumentar que estas são etapas necessárias através das quais a luta tem que evoluir rumo à construção do socialismo. Aliás, a burguesia pode desenvolver estratégias espaciais próprias de oposição de classe.
O ataque atual contra o poder sindical através da dispersão e fragmentação espacial de processos de produção (muitos deles, está claro, indo para os assim chamados países em desenvolvimento, onde a classe operária é mais fraca) tem se mostrado uma arma poderosa para a burguesia. O estímulo ativo à concorrência entre os trabalhadores através do espaço também tem ajudado aos capitalistas, sem falar do problema do regionalismo e do nacionalismo nos movimentos operários.
Em geral, os movimentos operários têm tido mais sucesso controlando poder em lugares e territórios do que controlando espacialidades. A classe capitalista tem usado os seus poderes de manobra para derrotar as revoluções proletárias/socialistas, que sempre estiveram ligadas a um lugar (conforme a preocupação de Marx em 1858, citada acima). Nada disso é incompatível com o argumento básico do Manifesto. Mas também é claro que se trata de algo muito diferente do retrato que ele constrói sobre a dinâmica da luta de classes.
6.
Embora a unidade global da classe operária ainda fique como a única resposta apropriada às estratégias globalizantes de acumulação de capital, a maneira de conceituar esta resposta merece um estudo crítico. No núcleo do argumento do Manifesto está a crença que a indústria moderna e o trabalho assalariado têm tirado dos trabalhadores “todo traço de caráter nacional”, com o resultado de que “os trabalhadores não têm pátria”.
“Os isolamentos e os antagonismos nacionais entre os povos desaparecem cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade de comércio, com o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e com as condições de existência a ela correspondentes. A supremacia do proletariado fará com que desapareçam ainda mais depressa. A ação comum do proletariado, pelo menos nos países civilizados, é uma das primeiras condições para sua emancipação. À medida que for suprimida a exploração do homem pelo homem será suprimida a exploração de uma nação por outra.”
A visão condutora é bastante nobre, mas existe muito de pensamento desejo aqui. No melhor dos casos, o Manifesto concede que a estratégia socialista vai “ser diferente em países diferentes” e que problemas podem surgir na tradução de ideais políticos de um contexto a outro — os alemães adaptaram ideias socialistas francesas às suas próprias circunstâncias, criando um tipo de socialismo alemão que Marx criticou de forma contundente.
Existe uma sensibilidade limitada com respeito às condições materiais desiguais e às circunstâncias locais. Mas a tarefa dos comunistas é conferir unidade a estas lutas, definir os pontos comuns dentro das diferenças e criar um movimento onde os trabalhadores do mundo possam se unir.
O Manifesto insiste, com toda razão, que a única maneira de resistir ao capitalismo e construir o socialismo é através da formação global da classe operária, o que talvez possa ser alcançado por meio de uma progressão que passa de uma etapa local a uma nacional e global. Os comunistas têm de encontrar maneiras de incorporar os movimentos locais e particulares, direcionando-os para algum tipo de objetivo comum. Mas também existe uma leitura mais mecanicista que vê a eliminação automática de diferenças nacionais através do avanço burguês, da des-localização e des-nacionalização de populações operárias e portanto das suas aspirações e movimentos. Os comunistas, em seguida, têm que se preparar para apressar o final desta revolução burguesa. Têm que educar os trabalhadores acerca da verdadeira natureza da sua situação e organizar seu potencial revolucionário. Tal leitura mecanicista é, do meu ponto de vista, errada, embora o Manifesto tenha um argumento bastante forte a favor dela.
A dificuldade central aqui se encontra na presunção que a indústria capitalista e a mercantilização vão levar à homogeneização da população trabalhadora. Em certo sentido isto é verdade, mas não consideram como o capitalismo simultaneamente se diferencia, às vezes se alimentando de antigas diferenças culturais, relações de gênero, predileções étnicas e crenças religiosas. O capitalismo faz isto em parte através de estratégias burguesas de divisão e controle, mas também converte a escolha de mercado num mecanismo para a diferenciação de grupos. O resultado é a implantação de divisões de gênero e classe, juntamente com muitas outras divisões sociais, na paisagem geográfica do capitalismo. Divisões como as que existem entre cidades e subúrbios, entre regiões e entre nações não podem ser compreendidas como resíduos de alguma ordem cultural antiga.
Não são automaticamente descartáveis. São produzidas ativamente por meio dos poderes diferenciadores da acumulação de capital e das estruturas de mercado. Lealdades ligadas a lugares proliferam e, em alguns aspectos, se fortalecem, em vez de se desintegrarem através dos mecanismos da luta de classes e através da atuação tanto do capital quanto do trabalho, cada um atuando a favor de si mesmo. A luta de classes facilmente se dissolve em uma série de interesses comunitários geograficamente fragmentados, facilmente cooptados ou explorados pelos mecanismos da penetração neoliberal do mercado.
Existe no Manifesto uma subestimação potencialmente perigosa da capacidade do capital para fragmentar, dividir e diferenciar, absorver, transformar e até exacerbar divisões culturais antigas, produzir diferenciações espaciais e mobilizar geopoliticamente. Do mesmo modo, há uma subestimação de como o movimento operário mobiliza através de formas territoriais de organização, construindo, no caminho, lealdades ligadas a lugares. A dialética da comunidade e da diferença não está desenvolvida do modo implicado no esboço fornecido pelo Manifesto, embora sua lógica subjacente e sua tendência à articulação estejam corretas.
As condições para que os trabalhadores se unam globalmente através da luta de classes não tem diminuído. O Banco Mundial avalia que a força de trabalho global dobrou em tamanho entre 1966 e 1995. Hoje ela é estimada em 2,5 bilhões de homens e mulheres e mais de um bilhão de indivíduos vivem de um dólar ou menos por dia. Em muitos países, “os trabalhadores não têm representação e trabalham em condições insalubres, perigosas ou humilhantes. Ao mesmo tempo, 120 milhões ou mais estão desempregados e mais alguns milhões já desistiram de procurar emprego”. Isto existe em uma época de crescimento acelerado dos níveis médios de produtividade (que também parecem ter dobrado, em escala mundial, desde 1965) e do comércio mundial, alimentado por reduções nos custos de transporte e uma onda de liberalização comercial. Como consequência, afirma a OIT:
“o número de trabalhadores empregados em indústrias que operam com exportações e importações tem crescido de maneira significativa. Pode-se dizer que os mercados de trabalho no mundo inteiro estão se tornando mais interligados. Alguns observadores vêem nestes acontecimentos a emergência de um mercado global de trabalho, onde o mundo tem se tornado uma enorme feira com nações competindo pela venda de suas forças de trabalho, oferecendo-as ao menor preço possível. A preocupação central é que a intensificação da concorrência global vai gerar pressões para baixar salários e padrões de trabalho no mundo inteiro”.
Movimentos massivos rumo à constituição de uma força global de trabalho também têm ocorrido (por exemplo na China, Indonésia e Bangladesh). Cidades como Jakarta, Bangkok e Bombaim têm se tornado polos de formação duma classe operária transnacionalizada — com elevada composição feminina — sob condições de pobreza, violência, poluição e repressão feroz.
Do mesmo modo, a desigualdade está fora de controle. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas informa que, “entre 1960 e 1991, a parte da renda global detida pelos 20% mais ricos da população cresceu de 70% para 85%, enquanto a dos mais pobres diminuiu de 2,3% para 1,4%”.
Até 1991, “mais de 85% da população do mundo recebia apenas 15% da renda” e “o valor possuído pelas 358 pessoas mais ricas, os bilionários em dólares, é igual à renda combinada dos 45% mais pobres da população mundial — 2,3 bilhões de pessoas”. Esta polarização de riqueza e poder é tão obscena quanto surpreendente:
“A Indonésia, em nome do sistema de mercado livre, promove as violações mais flagrantes dos direitos humanos e mina o direito à subsistência de quem a vantagem competitiva do país depende”.
Muitas multinacionais estão subcontratando aqui: Levi Strauss, Nike, Reebok. Muitas subcontratadoras pertencem a coreanos. Todas tendem a exercer uma administração brutal e pagar salários baixos. Nike e Levi estipulam um código de conduta como critério de investimento, mas, na realidade, sempre procuram obter o menor custo de produção. Alguns subcontratadores saem de Jakarta para cidades menores, onde os trabalhadores tem ainda menor capacidade de se articularem para melhorar suas condições de vida”.
Em O capital, Marx conta a estória de uma trabalhadora, Mary Anne Walkely, com vinte anos de idade, que muitas vezes trabalhava 30 horas sem parar (embora ressuscitada de vez em quando por xerez, porto ou café) até que, depois de um esforço particularmente duro requerido pela preparação de “vestidos maravilhosos para as senhoras nobres convidadas ao baile em honra ao novo Príncipe de Gales,” morreu, segundo o depoimento de um médico, “de longas horas de trabalho numa oficina superlotada e um quarto pequeno demais e mal ventilado”. Compare-se isso com a descrição contemporânea das condições de trabalho nas fábricas de Nike, no Vietnã:
“[O Sr. Nguyen] constatou que o tratamento dos operários pela administração da fábrica no Vietnã [normalmente cidadãos da Coréia ou Taiwan] é uma ‘fonte constante de humilhação’, que o abuso verbal e o assédio sexual acontecem com freqüência e que a ‘punição corporal’ também é freqüente. Ele descobriu que quantidades extremas de trabalho extraordinário são impostas aos trabalhadores vietnamitas. O Sr. Nguyen escreveu em seu relatório que ‘é comum’ que vários trabalhadores desmaiem de esgotamento, calor e má nutrição durante o turno. Fomos informados de que vários trabalhadores até tossiram sangue antes de desmaiar”.
As condições materiais que motivaram o ultraje moral no Manifesto não desapareceram. Estão personificadas em tudo, nos tênis Nike, nos produtos de Disney, nas roupas do GAP, nos produtos de Liz Claiborne. O contexto básico do Manifesto, portanto, não tem mudado radicalmente. O proletariado global é maior do que nunca. A necessidade de os trabalhadores se unirem é maior do que nunca. Mas as barreiras à unidade são muito mais formidáveis do que eram no já complicado contexto Europeu de 1848. A força de trabalho é hoje muito mais espalhada geograficamente, culturalmente heterogênea, etnicamente e religiosamente diversificada, racialmente estratificada e linguisticamente fragmentada. Os modos de resistência ao capitalismo e a definição de alternativas são muito diferentes.
E, embora seja verdade que os meios de comunicação e as oportunidades de tradução tenham melhorado muito, isto tem pouco significado para o bilhão ou mais de trabalhadores que vivem com menos de um dólar por dia, possuindo histórias culturais, literaturas e compreensões muito diferenciadas (comparados aos banqueiros internacionais e às multinacionais, que sempre os usam). Diferenças (tanto geográficas como sociais) em salários e cláusulas sociais dentro da classe operária global também são maiores do que nunca. A brecha política e econômica entre os trabalhadores mais ricos na, por exemplo, Alemanha e Estados Unidos, e os trabalhadores mais pobres, na Indonésia e Mali, é muito maior do que a brecha entre a assim chamada aristocracia do trabalho européia e suas contrapartidas não qualificadas no século dezenove. Isto significa que certo segmento da classe operária (na maior parte, mas não exclusivamente, dos países capitalistas avançados e que, muitas vezes, possuem uma voz politicamente mais forte) tem muito a perder além dos seus grilhões. E, embora as mulheres sempre tenham sido um componente importante da força de trabalho nos primeiros anos do desenvolvimento capitalista, sua participação tem se generalizado, ao mesmo tempo em que se concentra em certas categorias ocupacionais (normalmente chamadas “não-qualificadas”), de modo a gerar questões agudas sobre a política operária que com grande freqüência foram varridas, no passado, para baixo do tapete. Junto a tudo isto as problemáticas da urbanização massiva, os transtornos ecológicos graves, os movimentos migratórios transnacionais e o terreno para a construção de uma alternativa socialista aparece tão diferenciado e desigual como complicado.
O movimento socialista precisa compreender estas transformações geográficas extraordinárias e desenvolver táticas para lidar com elas. Isto não dilui a importância da palavra de ordem final do Manifesto (união dos proletários). As condições que hoje enfrentamos fazem esse chamado mais imperativo do que nunca. Mas não podemos fazer nem nossa história nem nossa geografia sob condições histórico-geográficas de nossa própria escolha.
Uma leitura geográfica do Manifesto enfatiza a não-neutralidade das estruturas e poderes espaciais na complexa dinâmica espacial da luta de classes. Revela como a burguesia adquiriu seus poderes vis-à-vis de todos os modos precedentes de produção, mobilizando o comando sobre o espaço como uma força produtiva peculiar a ela mesma. Mostra como a burguesia tem aumentado e protegido continuamente seu poder através desse mesmo mecanismo. Portanto, até que a classe operária aprenda como enfrentar esse poder burguês de comandar e produzir espaço, sempre vai jogar em uma posição de fraqueza não de força. Do mesmo modo, até esse movimento compreender as condições e diversidades geográficas de sua própria existência, vai ser incapaz de definir, articular e lutar por uma alternativa socialista realística à dominação capitalista.


*David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes são O enigma do capital e Para entender O capital, livro I.
** Publicado originalmente, em português, na revista Lutas Sociais, do Neils-PUC.