Tenho debatido com alguns colegas, velhos amigos de longas e prazerosas jornadas de lutas, aquilo que nos dias atuais tem chamado as atenções no mundo, a par de uma infinidade de outros problemas sociais que nos cercam: as questões ambientais.

Na medida em que a polêmica cresce, e sinto uma angústia diante de algumas ambiguidades – visto que tenho plena noção dos problemas ambientais, mas que não dizem respeito somente à natureza em si, mas à sociedade também (pois o ambiente comporta a natureza e seu entorno construído) – procuro questionar as razões que levaram alguns antigos defensores do socialismo a enveredarem pelos caminhos do radicalismo ambiental. Como se nada mais importasse no mundo senão o discurso verde, politicamente correto porque definido assim pela mídia, em detrimento de questões mais urgentes de serem resolvidas, para salvar os vivos que já nasceram e não conseguem viver condignamente.
Questiono, por exemplo, se vale a pena lutar pela natureza com tanta radicalidade, semelhante aos xiitas islâmicos, ou os fundamentalistas cristãos, se a vida humana concentrada em bolsões de misérias em cidades com milhões de habitantes, em sua maioria pobres e vivendo em periferias mal-cuidadas ou favelas, passam por um processo crescente de degradação moral, seja individual ou coletiva.
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No caso da classe média e da elite rica, essa degradação moral se dá como necessidade de se buscar, ou manter, uma vida marcada pelo individualismo, ganância e orgias, que se define como “hábitos modernos”, adequados ao novo século em que vivemos.
É a modernidade, cercada de aparatos sofisticados e tecnologias permanentemente superáveis, e por isso necessariamente supérfluas, pois precisam ser constantemente substituídas a fim de garantir a ostentação do luxo e dos prazeres modernos. E o lucro, claro!
No primeiro caso, romper com a miséria pressupõe ampliar o desenvolvimento econômico, garantir à população acesso a emprego e renda que possibilitem a essas pessoas viverem com o mínimo de dignidade possível. Mas não são poucos os investimentos que precisam ser feitos para atingir um patamar minimamente aceitável. O país, no caso específico, o Brasil, precisa produzir muito, ampliar sua capacidade industrial, avançar em conquistas tecnológicas e agregar valores aos produtos fabricados. Esse é somente o começo para diminuir as diferenças sociais gritantes.
No segundo caso, reduzir a lógica insana consumista, e a obsessão doentia pela riqueza a qualquer custo. O que pressupõe, naturalmente, uma alteração no estilo de vida e uma mudança dos hábitos culturais que implique rever valores que consideram natural as abissais diferenças sociais.

Em um caso e no outro, não há a mínima hipótese de considerar “salvação”, considerando-se inclusive a necessidade de “salvar” a natureza, dentro dos limites que nos impõe a lógica do mundo capitalista.
Portanto, considero nula, hipócrita, oportunista e outros adjetivos semelhantes que encontrarmos, levantar bandeiras de defesa ambiental que não venham acompanhadas dos questionamentos sobre a maneira como funciona o modo de produção capitalista. Em miúdo: o que se faz é o puro discurso político (carregado de oportunismo e hipocrisia), sem aplicabilidade prática, porque no final sobrepõe-se os interesses das grandes corporações. Aos pequenos sobram as migalhas, embora muitos digam falar em seus nomes.
Não são os indivíduos, em si mesmos, responsáveis pelo quadro que o mundo vive. E não é somente a destruição da natureza. Listamos uma infinidade de outros problemas que afetam nossa vida, a começar pelo caos urbano, com os traçados de cidades definidos para atender à indústria automotiva e da construção civil. Grandes corporações que lucram absurdamente. E continuam lucrando com o discurso ecológico, “sustentável”.
A responsabilidade maior está nas condições de vida criadas a partir dos mecanismos que movem o sistema capitalismo. Ou superamos isso, e consequentemente alteramos nosso estilo de vida (do qual, ressalve-se, ninguém parece abrir mão), ou tentamos nos salvar do pântano puxando nossos próprios cabelos, ao estilo do nobre mentiroso Barão de Munchausen. Este, como se sabe, conta-se em suas memórias, salvou-se de um pântano trançando as pernas na barriga de seu cavalo e puxando com suas próprias mãos seus cabelos fortemente ao alto conseguiu içar a ambos.

Não se trata de menosprezar a destruição à natureza, que realmente acontece. Nem sobrepujar aqueles que honestamente preocupam-se com o ambiente em que vivemos, principalmente em prol da existência humana com dignidade. Mas de ressaltar as enormes contradições que cercam esse discurso, a necessidade de termos uma visão de totalidade e compreendermos o mundo complexo que construímos não em bilhões de anos, mas nos dois últimos séculos, principalmente. E para o bem, ou para o mal, há por trás de todos os problemas um nome: CAPITALISMO!
E na lógica que esse sistema nos impôs, é lícito lutar para que aqueles que vivem na miséria em decorrência das injustiças geradas pelo capitalismo, possam também superar suas dificuldades e ter acesso às tecnologias e produtos sofisticados, e a renda para poderem viver bem, se alimentar três vezes ao dia, ter saúde e dinheiro para divertirem-se, mesmo que seja nos shopíngs centers, templos do consumismo capitalista. Onde sempre nos encontramos, verdes ou vermelhos. É a contradição.
Ou, se não for assim, que sejamos honestos e lutemos pelo fim do capitalismo e pela construção de um sistema em que seja possível falar de equilíbrio ambiental a partir de um equilíbrio social. Precisamos reinventar o socialismo.
Continuarei a tratar desse tema, sem necessariamente ser preciso citar novamente o ilustre Barão.
Continuarei a tratar desse tema, sem necessariamente ser preciso citar novamente o ilustre Barão.
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