segunda-feira, 4 de agosto de 2014

DECIFRANDO O SISTEMA CAPITALISTA (II) – CRISES ECONÔMICAS E O PODER DAS GRANDES CORPORAÇÕES

DECIFRANDO O SISTEMA CAPITALISTA, é um MINI-CURSO que irá acontecer durante todas as quintas-feiras do mês de outubro (02, 09, 16, 23, 30). É a segunda edição de uma ideia que foi alimentada desde que as notícias sobre a crise econômica se espalharam pelo mundo a partir de 2008, muito embora ela já estivesse ocorrendo pelo menos desde 2006. E tudo isso começou devido às angústias de se trabalhar com um tema cuja profundidade nunca foi devidamente noticiada, falseia-se naqueles elementos basilares para se compreendê-la. Ou seja, de que é uma crise estrutural, decorrente da lógica natural do sistema capitalista, que se fundamenta na busca obsessiva pelo lucro e tem a ganância como seu motor principal. Em 2010 realizamos a primeira edição, concluído com a apresentação do filme Wall Street 2 - O dinheiro nunca dorme. Naquele mesmo ano o documentário Inside Job (Trabalho Interno) foi ganhador do Oscar de melhor documentário, mas não o tínhamos ainda em DVD. Mesmo Wall Street 2 também ainda não estava disponível, mas terminamos o curso em parceria com o Cinema Lumiére (Shopping Bouganville) que realizou uma sessão especial para os participantes do mini-curso, em um sábado pela manhã.

A crise econômica não arrefeceu, ao contrário, está mais acentuada (e globalizada) do que naquele ano, e de lá para cá o mundo passou por grandes ebulições em todos os continentes e uma onda de manifestações varreu a Europa e o Oriente Médio acentuando a crise em vários países, destruindo governos e fragilizando Estados. Mas a grande mídia esconde a dimensão da crise, e, especificamente aqui no Brasil isso se deve às disputas eleitorais, dentro do jogo pela conquista do poder, com o intuito de criar no meio da opinião pública a ideia de que a crise que começa a mexer com a economia brasileira é consequência das políticas econômicas do atual governo. Assim, pouco se fala da falência de estados europeus, do desemprego crescente e do banditismo que toma conta de boa parte das estruturas financeiras e ameaça levar a falência todo o sistema econômico mundial. E de que o baixo crescimento, não só no Brasil, mas em todo o mundo, ainda é consequência de uma crise que não tem previsão para acabar.

Aproveito o blog Gramática do Mundo, como instrumento importante para difundir idéias que possam se contrapor ao monopólio da informação tradicionalmente repassada pela mídia, quase sempre distorcida, para apresentar aos que nos acompanham o conteúdo deste curso, e convidar os que se interessarem a participar do mesmo. Ao mesmo tempo deixamos exposto aqui essa ideía para que possa ser posta em prática em outros Estados por aqueles que também se preocupam em estudar, entender e difundir as origens das crises do sistema capitalista e como elas nos afetam direta e indiretamente.

O Mini-curso será realizado no Auditório do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA-UFG) e no Auditório/Cinema da Faculdade de Letras, e faz parte da programação do Laboratório de Estudos e Dinâmicas Territoriais – Laboter e do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Geopolítica – Nupeg. Serão cinco dias de curso: 02, 09, 16, 23, e 30 de outubro, sempre das 13:30 às 18:00 horas. As Pré-inscrições deverão ser feitas através do email: contatonupeg@gmail.com, até o dia 01.10 . O número de vagas é limitado. Será preciso que o(a) aluno(a) esteja devidamente matriculado em algum curso de graduação ou pós-graduação da UFG. (Na hipótese de as vagas não serem preenchidas, serão aceitas outras inscrições). A condução do curso estará a cargo do Prof. Dr. Romualdo Pessoa.
Logo a seguir o conteúdo do programa e a metodologia aplicada ao mini-curso Decifrando o sistema capitalista – crises econômicas e o poder das grandes corporações.
A estrutura do curso
Procuraremos, mesmo que de maneira sucinta, analisar o processo histórico que levou à consolidação do sistema capitalista e a partir disso explicar didaticamente como funciona o modo de produção capitalista. Para isso é necessário, antes de tudo, saber como se deu a ascensão da burguesia, as revoluções que ela fez e os mecanismos que adotou para revolucionar uma época e o que viria daí em diante. Também é preciso analisar as principais transformações estruturais que aconteceram, principalmente a partir do século XIX e, já no século XX, a consolidação de um modelo de vida que impulsionou o capitalismo. As transições do poder mercantil – industrial – financeiro e o ápice do sistema capitalista, quando o seu controle passa para as mãos das grandes corporações. E, as crises econômicas, como elementos que alteram mecanismos de controle do capitalismo e acentuam as desigualdades sociais, mas tornam-se elas próprias, novos elementos propulsores de um sistema que se aproveita também das desgraças, sejam sociais, causadas por guerras ou provocadas por catástrofes naturais.
Para entender as crises.
Muito se fala das crises econômicas do capitalismo. Algo que passa a acontecer de forma cada vez mais constante, conforme já dizia Lênin, ciclicamente, uma vez que se encurtam as distâncias entre elas. Mas o que pouco se diz é que elas fazem parte da própria dinâmica de funcionamento do sistema, ou seja, o capitalismo se retroalimenta dessas crises.
É para analisar esse processo, e a maneira como o capitalismo encontra saídas para as crises econômicas que ao longo da história definiram a maneira como ele evoluiu, que apresentamos alguns elementos para sua compreensão.
O objetivo é entender o mecanismo de funcionamento do sistema capitalista e encontrar respostas para a sua acelerada ascensão, mesmo que à custa de enormes contradições, como inúmeras guerras, catástrofes, disputas hegemônicas pelo controle do poder mundial, concentração de riqueza paripasso com o crescimento da miséria, definindo como uma de suas características básicas a forte desigualdade social. Paradoxalmente essa desigualdade se dá na contraposição de um enorme sucesso da descoberta de mecanismos cada vez mais sofisticados para produzir mercadorias tecnologicamente avançadas e agregadoras de renda.
O Deus Mercado potencializando divindades menores, mas necessárias para fazer o sistema seguir mantendo sua lógica, o mito do consumo, e a sensação de felicidade que ele carrega, elevado a isso pelas forças ideológicas dominantes, passam a se constituir na base mais importante para a superação de crises econômicas. Renascendo o keynesianismo o Estado surge, em momentos de crise, como a salvação para amenizar seus impactos, mas, fundamentalmente para manter erguida toda a estrutura do modo de produção capitalista, potencializando investimentos que garantem às grandes corporações seguir concentrando renda e riquezas.
Até onde pode ir o poder dessas grandes corporações? E em que medida o Estado, no capitalismo, pode resolver os problemas da distribuição de rendas, da miséria, das desigualdades sociais? É compatível uma lógica concentracionista, em crescimento, do poder das grandes corporações, com a necessidade de impor um freio à usura e ganância a fim de reduzir as desigualdades sociais?
Queremos por meio deste mini-curso, senão encontrar as respostas para essas indagações, reforçar aquelas dúvidas sobre o que fazer, para frear o ímpeto ganancioso dessas corporações e se é possível encontrar saídas, sustentáveis, a um ritmo de desenvolvimento desigual, injusto e concentrador de riquezas.
Objetivo do curso:
O objetivo do curso é identificar como o sistema capitalista se robustece a cada crise. Quais os mecanismos que são responsáveis por essa aparente contradição. E ao mesmo tempo demonstrar como esse sistema vem se transformando ao longo do tempo, no sentido contrário daquele expresso nas primeiras idéias sobre o liberalismo comercial, quando a burguesia combateu o monopólio exercido pelas grandes companhias controladas pelo Estado Absolutista. O que se vê nos dias atuais é um aumento do poder concentrado nas mãos de poucas grandes corporações, a ponto das pessoas não perceberem que se deparam nas gôndolas de supermercados com produtos aparentemente concorrentes, mas que são fabricados pela mesma corporação. Além do controle que elas exercem sobre os Estados, inclusive na definição de determinadas políticas, na medida em que algumas delas possuem valores patrimoniais maiores do que os PIBs de muitos países.
A globalização abriu caminho para essa concentração de poder, presente em todos os setores que lidam com negócios, desde a religião até a mídia, passando pelo controle de marcas, do mercado, e do sistema financeiro. Para onde vai o capitalismo, pós-globalização, com o neoliberalismo desmoralizado, mas mantendo-se ainda de pé esse poder econômico fortemente centralizado nas mãos de poucas corporações que definem, inclusive, nosso modo de viver? Existem saídas ao final desse túnel? São questões que este mini-curso pretende abordar.
Programa e metodologia:
O programa do curso seguirá uma metodologia que visa buscar em filmes e documentários os bastidores de funcionamento do sistema. Serão apresentados cinco filmes/documentários em que esses elementos são postos; a seguir, numa segunda parte da aula serão feitas análises com base naquilo que foi apresentado com o conteúdo de alguns textos que serão deixados à disposição dos inscritos.
1) Na primeira aula o FILME será WALL STREET, PODER E COBIÇA, do diretor Oliver Stone. É interessante começar por esse filme porque ele retrata os Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan, momento de crise econômica, mas de retomada do capitalismo seguindo um novo modelo, o neoliberalismo. O filme foi finalizado no ano de 1985, bem no final do primeiro mandato de Reagan. A partir desta época e daquela que ficou conhecida como a década perdida, o mundo entra em uma nova era, conhecida como GLOBALIZAÇÃO. Com o neoliberalismo o capitalismo retoma sua lógica original e escancara sua opção pela concentração de riqueza, buscando na liberdade de mercado o argumento para desmontar toda a rede de apoio social construída pelo welfare state, de viés keynesiano. Nesta semana entrou em cartaz nos circuitos comerciais a continuação deste filme, abordando agora a crise de 2008, do mesmo diretor, Oliver Stone e estrelado por Michael Douglas.
2) Na segunda aula o documentário a ser exibido é ENRON – OS MAIS ESPERTOS DA SALA. A lógica que impulsionou o capitalismo pós era Reagan, foi a mesma que possibilitou um crescimento meteórico desta grande corporação, que em pouco tempo, devido principalmente pelas relações perniciosas com a família Bush se tornou uma das maiores do mundo no ramo de exploração de energia. Acontece que, segundo o crescente processo de especulação financeira, boa parte daquilo tudo que se apresentava como uma mega-empresa correspondia simplesmente à atividades fraudulentas, inclusive com criação de empresas virtuais encarregadas de vender ações no mercado das bolsas de valores sem nenhum tipo de atividade produtiva.
3) No terceiro dia será apresentado o documentário CORPORATION, dirigido por Jennifer Abbott e Mark Achbar, amplia muito o universo que é representado pelo documentário ENRON. Mostra como as corporações tornaram-se mais poderosas do que o próprio Estado, bem como todo o processo de exploração que leva à uma acumulação espantosa e a um poder incontrolável. O documentário parte de uma decisão judicial nos Estados Unidos que deu às corporações os mesmos direitos que os indivíduos, baseando-se na 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ao Estado que este negue, a qualquer pessoa sob sua jurisdição, igual proteção perante a lei. Com base nisso os diretores constroem uma crítica bem humorada ao mundo corporativo e ao poder que ele carrega.
4) No quarto dia assistiremos a continuação do filme de Oliver Stone, apresentado no início do curso. Aproveitando as repercussões da grave crise econômica que abalou, e ainda segue abalando a economia estadunidense, Stone liberta Gordon Gekko - o megaespeculador do primeiro filme – da cadeia e o introduz em um novo mundo do dinheiro fácil e virtual, mas sempre escorado na usura e ganância. WALL STREET 2 – O DINHEIRO NUNCA DORME.
5) No último dia, fechando o curso, nada melhor do que um documentário que disseca todo o mecanismo de funcionamento do mercado financeiro no capitalismo, e retrata com competência os bastidores da crise capitalista, ainda em curso, e apresenta fortes denúncias sobre o envolvimento do establishment, na condução das medidas fortemente recessivas, beneficiadoras dos grandes burocratas responsáveis pelo caos econômico e salvadoras das grandes corporações financeiras. O documentário TRABALHO INTERNO, premiado no Oscar de 2010, expõe de forma crua todas as responsabilidades de políticos, CEOs, e até mesmo de professores de economia de importantes universidades estadunidenses, na implementação de medidas que fizeram ampliar a crise e o endividamento dos Estados. 
Seguiremos uma nova metodologia, bastante utilizada nos últimos tempos, e expresso em inúmeros artigos que incluiremos na bibliografia. CINEMA E GEOGRAFIA compõem esse novo caminho metodológico, onde exploraremos a capacidade que diretores, produtores e atores encontram para retratar o cotidiano de nossas relações, e buscar em fatos e acontecimentos reais a expressão que transforma em arte nossos cotidianos.
Não necessariamente procuraremos tecer críticas às qualidades artísticas, na medida em que somos leigos neste assunto, mas queremos extrair da capacidade que o cinema possui de nos envolver, para buscar produções cujos temas além de sérios são retratados com competência e qualidade. E que nos servem para irmos construindo o retrato do mundo em que vivemos, a geopolítica mundial, também para nos perguntarmos sempre: para onde iremos? Há vida após o capitalismo?

(*) Não será permitido utilização de celular nem durante os filmes nem nas aulas. A insistência levará ao cancelamento imediato da inscrição. 
(**) Independente de alguém já ter eventualmente assistido algum dos filmes ou documentários, é obrigatório assisti-lo durante o curso. A presença só será considerada se o(a) aluno(a) permanecer também após o filme para o período de exposição e debate dos temas apresentados.
(***) Será concedido certificado de participação correspondendo a 20 horas/aulas, desde que o percentual de presença não seja inferior a 80%. Ou seja, só poderá haver uma ausência nos quatro dias do mini-curso.
(****) Haverá cobrança de inscrição no valor de $10,00, que será revertido para despesas eventuais e, principalmente, para aquisição de lanche a ser servido no intervalo entre a exibição dos filmes e o início das discussões.

BIBLIOGRAFIA:
BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria. São paulo: Civilização Brasileira, 2013.
CAMPOS, Rui Ribeiro de. Cinema, Geografia e Sala de Aula, in Estudos Geográficos, nº 4 (1). Rio Claro(SP): Unesp, 2006
CHOMSKY, Noam. O lucro ou as pessoas – Neoliberalismo e ordem global. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
FILHO, Antonio Carlos Queiroz. Geografias de Cinema> A espaciaidade dentro e fora do filme. In, Estudos Geográficos, nº 5(2). Rio Claro (SP): Unesp, 2007
HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004
___________. O Neoliberalismo. Histórias e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2005
___________. O Enigma do Capital, e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011
KLEIN, Naomi. A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
NEVES, Alexandre Aldo, e FERRAZ, Cláudio Benito Oliveira. Cinema e Geografia: em busca de aproximações. In Espaço Plural, Anoo VIII, 2007
PERKINS, John. A História Secreta do Império Americano. São Paulo: Editora Cultrix, 2008
WALLERSTEIN, Immanuel. O Declínio do Poder Americano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004
___________________. O Neoliberalismo, história e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2008

quinta-feira, 31 de julho de 2014

MAIS UM MASSACRE EM GAZA(*), O OCASO DA "PRIMAVERA ÁRABE" E A TRANSIÇÃO PARA UMA NOVA ORDEM MUNDIAL

O que está ocorrendo na Faixa de Gaza é uma verdadeira limpeza étnica, e o que parece ser acidental em alguns ataques, cujo alvos são escolas, inclusive sob direção da ONU, onde estão abrigados centenas de palestinos, pode ser a tentativa proposital de eliminar as crianças, futuros rebeldes a lutarem contra o despotismo sionista do estado israelense. Pouco a pouco Israel pretende aniquilar a população de Gaza, sob a cumplicidade dos Estados Unidos, único país do Conselho de Segurança a votar contra resolução (com abstenção de seus aliados) que considera essas ações crimes de guerra.
A Faixa de Gaza é um enorme campo de concentração, completamente cercado pelo Estado israelense de um lado e pelo Egito de outro. Nada entra ou sai desse território sem o crivo do governo de Israel. Os palestinos reagem a uma ocupação criminosa, que se estende há décadas. Irônica e cinicamente enviam comunicados para que a população saia de seus bairros. Sair para onde, se estão cercados? E quando buscam escolas, mesmo da ONU, para se refugiarem, são atingidos por mísseis ou disparos de tanques em assassinatos em massa, como a desejarem eliminar desde cedo futuros combatentes palestinos. É um massacre de vidas humanas, civis, crianças e mulheres. Uma limpeza étnica que acontece diante da covardia e hipocrisia da ONU e dos governos ocidentais que se limitam a falar, sem tomar medidas concretas, como o faz em relação à Rússia no conflito com a Ucrânia. O que Israel deseja, e põe em pratica gradativamente, é eliminar os palestinos da Faixa de Gaza e posteriormente da Cisjordânia, onde já ocupam boa parte do território palestino em colônias construídas em assentamentos ilegais em terras palestinas.
Isso é um verdadeiro massacre. Assassinato de civis deliberadamente não é guerra, é terrorismo. Na guerra os civis, principalmente crianças e mulheres, devem ser preservados. Há tratados internacionais sobre isso. O que está sendo cometido é uma barbárie, um crime monstruoso.
Os alvos neste caso tem sido os civis, e, absurdamente, crianças, que não se apresentam para guerra. Na guerra os alvos são soldados inimigos. Aceitar esse comportamento nazi-fascista é conviver com a banalização de vidas humanas, civis, que não fazem parte de nenhum "pacote", como desejam friamente os que apoiam assassinatos cirúrgicos de um governo ideologicamente perverso, inspirado na ideologia sionista, para quem a vida desses povos não vale nada, mas que tudo se justifica como forma de combater o grupo Hamas. Os argumentos são sofismas, pois esse radicalismo é o que fomenta a política israelense, numa espiral sem fim.
A “GUERRA” COMO CONTINUIDADE DA POLÍTICA
Esses ataques são recorrentes, e procuram se justificar no radicalismo sectário do Hamas. Na verdade o extremismo é alimentado de lado a lado, em ações que servem aos setores mais reacionários. Neste e em outros governos israelenses, sempre que uma crise política cria dificuldades para unificar a base política e quando se aproxima o processo eleitoral, os palestinos pagam com suas vidas. Nesses momentos de crise política do governo sionista, os ataques como resposta ao radicalismo do Hamas culmina no crescimento do apoio do governo e na aproximação dos setores divergentes. É uma trágica, maquiavélica e diabólica diplomacia armada, que visa sustentar governos direitistas inspirados na ideologia sionista, pela qual não há espaços para o povo palestino naquela região, a não ser que aceitem submissamente a condição de colonizados, sem autonomia e sem Estado que garanta a existência de uma nação. Se é verdade que o Hamas não aceita o Estado Judeu, também é certo que o Israel não admite a existência de um Estado Palestino, principalmente quando isso só seria possível com o traçado original, visto que boa parte do território palestino já está ocupado por Israel.
Essa situação absurda, degradante e criminosa parece não ter fim. Mas encerra nessa violência estúpida as vidas de milhares de civis, principalmente mulheres, crianças e idosos. Enquanto a hipocrisia diplomática dos países ocidentais, liderados pelos EUA, desviam o foco dessa crise humanitária para as ações na Ucrânia, geopoliticamente mais importante do que as vidas dos palestinos.
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
É odioso ver medidas de retaliações contra a Rússia, por dar apoio a rebeldes ucranianos e não serem tomadas medidas semelhantes contra Israel, quando o total de mortes é muito maior e a desproporcionalidade entre as forças é escandalosa. E o pior, quando os EUA exigem que a Rússia pare de enviar armas para os rebeldes separatistas na região de Donestk, quando as armas usadas em Israel em boa parte são fornecidas por esse país.
Exército Islâmico do Iraque e do
Levante domina territórios. O que restou
da "primavera".
Na verdade Israel e EUA são sócios no financiamento de corporações que produzem armas sofisticadas, que são distribuídas no mundo inteiro, e inclusive a grupos rebeldes por todo o Oriente Médio, inclusive aos que lutam na Síria e pelos países onde seus governantes se recusam a aceitarem as imposições imperiais. Tanto a Al Qaeda, quanto o Exército Islâmico do Iraque e do Levante, foram armados via monarquias árabes, principalmente a saudita, por armamentos oriundos desses países. E não só esses, mas outros grupos, que nesse momento se levantam em guerras contra o que sobrou dos estados na Líbia e no Iraque.
No entanto, apesar dessa flagrante hipocrisia, a grande imprensa, aliada aos interesses de corporações que lucram com essas guerras, não dá destaque a isso, e manipula as informações demonizando aqueles que enfrentam os interesses dos EUA e articulam novos mecanismos que visam criar uma nova ordem mundial.
Vivemos uma escalada de violências e embates de velhas rivalidades que encontram também suas origens na crise econômica que afeta o mundo desde o começo desse século. Em crônicas que escrevi no começo de 2012 analisei a situação daquele momento e entendi que o mundo poderia caminhar para uma guerra de proporção mundial. Naquele mesmo ano Israel desfechou uma forte ofensiva contra o povo palestino. De lá para cá a situação só piorou e a ascensão de outras nações articulando novas formas de poderes globais tem feito acentuar a radicalidade das medidas. E aquilo que foi visto como uma “primavera” dos povos árabes se constituiu num verdadeiro inverno, cujas tempestades vem varrendo as estruturas de vários estados, levando a falência formas de organização que se diziam ditatorial, mas que no presente momento situam-se na condição de caos, levando ao poder grupos sectários, e fatiando territórios nas mãos de fundamentalistas que se erguem sobre os escombros do que foi destruído com o apoio das armas, do dinheiro e dos interesses rapaces das potências ocidentais.
Embaixador dos EUA assassinado
na Líbia
O ataque virulento e odioso à Gaza é parte desse processo. Mais do que combater o Hamas, Israel tenta evitar que o vírus que se espalha por todo o Oriente Médio, disseminado pelos EUA e aliados, se volte contra o seu território. Mas a estupidez e covardia dos ataques levarão inevitavelmente a uma reação contra essas ações. Seguramente o governo israelense não viverá tranquilamente, e constrói com esses crimes um futuro de medo e de permanente obsessão pela segurança e temor de ataques, que virão de todos os lados, na medida em que sua própria localização o situa em meio a territórios árabes que estão em permanentes conflitos. Poderá a um tempo ter de conviver com a situação de terror que eles criam para os palestinos, numa resposta que fará com que o povo israelense sofra as consequências desse comportamento sectário e fascista. A história está recheada de exemplos que nos mostram que esses comportamentos não são duradouros, e o próprio povo judeu é mais do que testemunha, é vítima desse comportamento. Infelizmente, seus governantes não aprenderam com a história.


(*) Em novembro de 2012 escrevi um artigo que poderia ser transposto para os dias de hoje. Pouco mudou na abordagem que não se enquadrasse na barbárie que acontece atualmente. O que há de diferente é o caminho que tomou as chamadas revoltas árabes e a guerra na Síria, gerando novas tensões. E, por outro lado, o que analiso no texto acima, a configuração de uma nova ordem mundial sendo construída a partir das articulações em torno dos BRICS.
Acesse o link e leia o artigo:

quarta-feira, 23 de julho de 2014

CADÊ A MULTIDÃO?

Junho de 2013, manifestações repentinas levaram multidões às ruas. Se imaginou passar o Brasil por profundas transformações. Em alguns artigos eu alertei que pelo mundo adentro situações semelhantes tinham levado ao poder setores conservadores e da extrema direita. Os resultados de multidões sem direção, cegas e reticentes à aceitarem direções e organização, sempre levaram para rumos opostos ao que se pretendiam. Relembro aqui um artigo que escrevi no auge da febre criada pela multidão. Não mudei uma vírgula. O que se vê hoje? qual o quadro se apresenta nas eleições estaduais e nacional? Mudou a política? Mudou a cabeça da população? Ou a mídia conseguiu manipular a multidão? hoje dispersa e sendo representada por um bando de inconsequentes que só conseguiram criar um ambiente de retrocesso democrático no trato com as manifestações. Qual o quadro político se apresentará ao final dessas eleições?

Para compreender processos semelhantes aos que aconteceram aqui no Brasil e no resto do mundo sugiro que assistam a um documentário chamado THE SQUARE (disponível no Netflix). A diretora acompanhou durante vários anos, três personagens, no Egito, durante a ocupação da Praça Tahrir: um cristão, um muçulmano alauíta e um sunita . A reviravolta política e a manipulação impressiona. São situações diferentes, mas o enredo é o mesmo (esse documentário concorreu ao oscar de melhor documentário).


A FÚRIA: O DESPERTAR DA MULTIDÃO, OU A REVOLTA DE UM INCONSCIENTE COLETIVO? *

FRAGMENTOS DE UM OLHAR SOBRE A MULTIDÃO
Eu acompanho essas manifestações há mais de dez anos. Claro, ao longe, como estudioso de geopolítica. A maior delas, ou uma das mais importantes, foi em 1999, durante uma reunião da OMC e gerou um filme chamado "A batalha de Seattle". Já escrevi sobre isso no meu blog (http://gramaticadomundo.blogspot.com.br/2011/11/indignados-para-qual-direcao-seguem-as.html). Há diversas demandas, revoltas represadas, reivindicações justas. Mas nada disso será possível de ser mudado sem organização. As vozes das ruas, da multidão, criam motivações, e até mesmo uma empolgação exagerada, principalmente na juventude, cuja adrenalina explode e os empurra com força para o embate. É natural e importante que isso aconteça. Mas o que virá depois disso depende da política (ou da guerra, quando fracassa a política, mas aí sabemos as consequências). A multidão tem sido protagonista desde o final do século XX, com grandes protestos antiglobalização, e depois, com a intensificação da crise, na chamada “primavera Árabe”. Os resultados de tudo isso ainda está por vir, mas nos países onde ocorreram houve retrocesso na condução política. Governos mais conservadores e direitistas foram eleitos, Na Grécia, Itália e Espanha. Ou fundamentalistas religiosos, no caso do Oriente Médio, resultando em menos democracia e no fim do Estado laico e o controle de partes dos países por milícias armadas. Devemos refletir sobre esses momentos, mas nada seguirá bem se a política não funcionar, e já há algum tempo uma massificação da ideia de que tudo está ruim. A grande mídia e os setores conservadores têm insistido nisso, e agora os jornalões da Inglaterra e dos Estados Unidos (lembremos-nos de 1964). Existem coisas que precisam ser melhoradas, mas penso que a possibilidade de piorar não é remota. As raposas estão escondidas, prestes a atacar na surdina, como sempre fazem. O melhor que fazemos nesse momento, para saber de fato o que queremos, é, por um lado apoiar as reivindicações que são justas e não sejam pautadas pela mídia, por outro assistir o filme "A dia que virou 21 anos", documentário que está em cartaz sobre o golpe militar de 1964. Para não precisarmos comprovar o que diz Marx, que "a história se repete, da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa".
E CONTRA O CAPITALISMO, NADA? AFINAL, O QUE FAZ VOCÊ FELIZ?
Espero poder morrer tranquilo, mas não em breve, embora a tempo de ver no meio dessa multidão como uma das bandeiras principais "fim ao capitalismo" e "abaixo as grandes corporações que comandam a riqueza no mundo". Porque os problemas principais, em essência, decorrem da lógica que está por trás do funcionamento desse sistema, de um estilo de vida que tem transformado a nossa maneira de ser e de nos relacionarmos, já que tudo decorre das condições que nos permitem consumir. Deixamos de ser cidadãos e aceitamos ser consumidores. Se pudermos consumir, seremos respeitados, senão somos excluídos. Quando essa pauta, que questione o sistema que constrói o abismo que separa ricos e pobres, for colocada como prioritária, aí eu vou acreditar que as consciências acordaram. De qualquer forma é salutar ver a juventude sair da letargia, só espero que os oportunistas não ganhem mais espaço, porque enquanto a juventude tem aversão à política as igrejas mais conservadoras aumentam o número de parlamentares e adotam uma agenda ultra-conservadora.
EM QUAL DIREÇÃO SEGUIR?
As manifestações começaram com um foco específico, o péssimo atendimento nos serviços urbanos, principalmente o transporte coletivo. Muitos problemas que são locais, de responsabilidades dos governos estaduais e municipais. A mídia direcionou as manifestações para outra pauta, incluindo nisso a questão da corrupção e até mesmo o repúdio à PEC 37, mesmo sendo do total desconhecimento da população e isso se espalhou pelas redes sociais. É visível a forma como a mídia regional bloqueia a crítica aos governos locais e estaduais. Dependentes de verbas publicitárias, os órgãos de imprensa submetem-se à pressão, e filtram das imagens os cartazes com críticas a esses governos. Quem não foi nas manifestações não sabem que esses governos são focos das críticas por serem responsáveis pelos setores mais criticados pela multidão. Mas manteve-se superdimensionando, a crítica ao governo federal. Ampliou-se para o ataque à participação de políticos, contra o comportamento oportunista e corrupto de muitos deles, pauta que está já há muito tempo em evidência. Há muitos anos, diga-se de passagem, e por todo esse tempo a mesma população que protesta é a que elege esses mesmos políticos que ela tenta agora “fuzilar”. Mais uma pauta da mídia. Há uma tentativa aqui de criar um sentimento de aversão a política, já que se poderia partir para uma campanha, e a imprensa tem esse poder, de fazer com que a população evitasse repetir o voto naquele político que ela votou. Mas não é isso, o que há por trás é uma clara tentativa de tornar a política algo nefasto. Os reacionários, golpistas de sempre, e os comentaristas pulhas, tipo Jabor, se aproveitaram para tentar induzir o foco. Mas as ações da multidão não são como no período pré-1964. O primeiro a ser sitiado foi o governador de São Paulo, claro, depois a mídia o escondeu. Depois algumas prefeituras viraram alvos. A revolta se deu também contra o Congresso. No Rio de Janeiro e em outras cidades o ataque foi contra a Assembleia Legislativa ou o parlamento municipal. O que é ruim. Mesmo com todos os problemas que existem no parlamento e sua maioria conservadora, esses lugares são sinônimos de democracia. As ditaduras e os fascistas atacam primeiro os parlamentos. É preciso saber escolher os representantes e não destruir a representação. Senão é a anarquia. E aí a população vai clamar pela polícia. Como é contada essa história no filme "V de Vingança", que muitos invertem seu sentido e usam sua máscara com objetivos diferentes. No filme, “V” luta contra o totalitarismo, que foi imposto a partir da manipulação da massa.
NO EMBALO DA MÍDIA
A mídia tentou por todo o tempo, e conseguiu, pautar as reivindicações da multidão. E insistiam a todo o momento que uma das bandeiras é a luta contra a PEC-37.  Perguntei a três jovens que estavam com cartazes na manifestação se conheciam o seu conteúdo, um deles era universitário. Só sabiam dizer que o governo estava tentando impedir que se investigue a corrupção. Não insisti com mais perguntas, sei que 95% desconhecem de que se trata, de fato. Há muita alienação, não conhecem o histórico dessa emenda que está sendo pautada pela Rede Globo. Ela é uma disputa entre as polícias e o ministério público, seu autor é um deputado que é delegado da polícia civil, não tem nada a ver com o governo. É muito relativo dizer que afeta o combate à corrupção, porque é função do Ministério Público oferecer denúncia, esse é o seu papel constitucional. Ademais, o Ministério Público também tem se omitido em investigações importantes sobre a corrupção, como no caso das privatizações e do envolvimento do banqueiro Daniel Dantas, acobertado pelo judiciário, inclusive por um ministro do STF. E quem investigou esse grande corrupto e todo seu esquema, foi a Polícia Federal. Muito embora eu não seja contra o caráter investigativo do Ministério Público, creio que isso deve se dá em conjunto com as Polícias Civil e Federal, caso contrário se dará muito poder a um órgão que tem se pautado pelos refletores. Suas maiores ações são aquelas que garantem uma grande repercussão midiática, e quase sempre expõe suspeitos sem que depois as acusações sejam comprovadas. Mas há por trás disso tudo um nítido objetivo da mídia de direcionar o movimento e incluir na pauta as mesmas questões que estiveram por trás do golpe de 1964.
FUI, VI E VOLTEI... MAIS PREOCUPADO DO QUE ANTES.
Ao contrário da euforia que se espalhou pela multidão nessa semana, o que vi nas ruas me preocupa mais do que me deixa entusiasmado. É inegável que há muita leniência nas ações do governo federal e um engessamento causado pela excessiva burocracia e por ter abdicado de reivindicações históricas. Cito a reforma agrária. E acrescento às concessões feitas às corporações financeiras em isenções de impostos para inchar as cidades de automóveis; cedendo no aumento dos juros para atender à especulação etc. Mas me preocupa, e pude viver isso de perto, de dentro da manifestação, a completa despolitização do movimento. Apesar de concordar com 75%, no mínimo, dos cartazes ali expostos. Saí convencido de que o poder da mídia não pode ser relevado, nem menosprezado. Muitas das reivindicações foram pautadas por ela, logo depois da repressão violenta em São Paulo. Há, sim, em curso, uma tentativa golpista, agora instrumentalizando a multidão, de alterar o jogo político que não tem sido possível fazer com a política tradicional. É claro que essa política tradicional deve ser criticada. E aí entra o grande erro do pragmatismo político de Lula, de buscar repetir os conchavos políticos com setores conservadores, e ceder espaços políticos antes tradicionalmente disputados pelos setores de esquerda, como a área de direitos humanos. É evidente que isso vai se tornando visível, principalmente quando se tinha expectativas diferentes quanto à condução da política. Traduzindo em miúdos: o governo do PT, e aliados, considerou que simplesmente adotar uma política de concessão de benefícios para os setores mais pobres seriam suficientes para agradar politicamente a sociedade, e mais do que isso, para fazer com que fosse sentido que há uma vontade de fazer avançar as mudanças estruturais, pedidas há muitos anos. A camada que se sobrepõe no quesito influência política, é a classe média. E ela arrasta em suas reivindicações, muitas de cunho meramente moralistas (o que não quer dizer que não sejam pertinentes), as demais camadas. 
O que aconteceu este mês no Brasil, foi o estouro de um dique onde estavam represadas expectativas de décadas e insatisfações geradas por comportamentos da classe política, de absoluto desrespeito à sociedade e de repetição de práticas seculares, herdadas do período colonial. Por outro lado, a mídia tem construído um clima de pessimismo desde a posse do Lula, simplesmente negando todo o processo histórico desse país, os avanços obtidos nos últimos anos, e as dificuldades de recompor um estrago nesse país que deve ser compreendido em toda a sua dimensão histórica. Mas considero que erros graves, na postura adotada pelos sucessivos governos pós-FHC, ao não combater as práticas políticas tradicionais, e até mesmo se servirem delas, deram forças a essas insatisfações e revoltas. Não tenho dúvidas. Quem tem o poder nas mãos é que tem a possibilidade de consolidar as mudanças que a sociedade exige. Se não fez isso é porque está completamente fora de sintonia da realidade de seu próprio povo. Não basta maquiar, é preciso mostrar que é diferente, e não ceder às pressões da matilha conservadora. Que essas rebeliões possam servir de exemplo. Mas depois do que vi, e quando cheguei em casa e li as notícias sobre as demais manifestações, me lembrei do livro de José Saramago (e do filme) "Ensaio sobre a cegueira". Os que acharem estranho essa referência vejam o filme.
GARNIZÉS COM COMPLEXOS DE GAVIÕES
Os jornais britânicos se especializaram no Brasil. Naturalmente, o velho e carcomido império colonial, deseja influenciar nas políticas brasileiras, com o claro objetivo de defender suas corporações e gananciosos investidores, o alvo deles, por mais que disfarcem, são os altos juros que lhes garantem um rentismo especulativo, mas que nada favorece ao desenvolvimento brasileiro. Repetem as “vozes do além” estadunidenses, que durante o governo João Goulart atacaram as reformas de base propostas naquele momento, principalmente o controle dos lucros das multinacionais, que deveriam ficar retido no país por, pelo menos, seis meses. Uma pena que o governo Dilma baixou a cabeça e cedeu às pressões, aumentando os juros, para deleite do “The Economist”. Agora, é a vez do "The Guardian" numa abordagem extremamente tendenciosa das manifestações. Eles deveriam se preocupar com a crise econômica que tem transformado a Inglaterra num "garnizé". Não precisamos que aqueles que colonizaram a América e a África venham agora querer ensinar qual o rumo que o Brasil precisa tomar. O desemprego por lá é o dobro do que existe aqui. E a riqueza por eles conseguida decorre de todo esse processo de exploração colonial. A desgraça da África e do Oriente Médio é fruto das ações rapaces do imperialismo britânico.
CEM POR CENTO DOS RECURSOS DO PRÉ-SAL PARA A EDUCAÇÃO
Essa é uma bandeira do movimento estudantil (100% para o pré-sal). Mais investimentos em educação, e se tornou uma das principais reivindicações nas manifestações. Veremos agora quem vai ser contra. Mas é preciso prosseguir atentos, principalmente porque setores da classe média alta se opõem a tudo que venha para atender às necessidades das camadas mais baixas. Há uma batalha no congresso entre parlamentares que desejam que esses recursos vão para seus estados sem que esteja definido para onde.
ESSAS REIVINDICAÇÕES NÃO FAZEM PARTE DA AGENDA CONSERVADORA
Educação, Saúde e Transporte (mobilidade urbana) foram as questões mais reivindicadas nas manifestações. Além da tradicional (e necessária) vigilância e combate à corrupção. Em todos os sentidos, contra corruptor e corrompido. São corruptos e criminosos do mesmo jeito. E em todos os níveis, não somente punição para políticos, mas para o cidadão comum, aos que tem cargos e mandatos políticos e aos grandes empresários e banqueiros. Agora, nada disso se resolve sem uma ação política, e ela se dá por meio dos partidos e do parlamento. Negar isso é pregar um golpe de estado com a cassação de mandatos e fechamento das instituições que simbolizam a democracia tradicional. Essa história nós já conhecemos, e certamente lutaremos com todas as forças para evitar que se repita. Um recado à elite reacionária e àquela parte da classe média que odeiam investimentos do Estado para os mais pobres. Dessa vez não deve ser como em 1964, quando não houve reação contra os golpistas. Já aprendemos. Então, é melhor que seja usado do bom senso.
SOBRE O USO DA VIOLÊNCIA NAS MANIFESTAÇÕES
A mídia está tentando separar as coisas. Não, tudo faz parte de um mesmo movimento. São consequências dele. Há no meio desses grupos gangs e marginais, isso é inegável, mas a maioria dos que foram detidos com esses comportamentos agressivos é composta de jovens sem passagens na polícia, e membros da classe média, como o que foi preso no dia seguinte à depredação da prefeitura de São Paulo, estudante de arquitetura e filho de empresário, e o que foi identificado liderando a quebradeira no Itamaraty, em Brasília. Procura-se transferir para as camadas mais pobres a responsabilidade por atos que visam gerar o caos, e muitos deles são seguramente articulados, mas uma parte vai no embalo da adrenalina. Como sempre criminaliza-se o pobre. A tentativa é mostrar um ambiente de insegurança e de incompetência, e as críticas se voltam contra o governo federal. O comportamento da polícia paulista foi muito estranho, agiu com força desproporcional num primeiro momento, e abdicou de defender os prédios púbicos depois e praticamente desapareceu das ruas no maior protesto. Todas as críticas da mídia passaram a se direcionar para o governo Dilma, quando a principal reivindicação, que diz respeito à mobilidade urbana é de responsabilidade dos demais governos, principalmente. Há uma farsa em curso, é uma tentativa de repetição da forma como foi preparado a estratégia que levou o país a conviver com uma ditadura militar. Se isso se dará como naquele tempo vai depender da maneira como os partidos que apoiam a presidenta, principalmente os de esquerda, que sempre tiveram em suas bandeiras essas reivindicações que estão na rua, irão agir a partir de agora. Não há dúvida que será preciso se reinventarem. E o governo federal precisa deixar de pintar a realidade brasileira com cores que ainda não correspondem aos seus desejos. A realidade é palpável, estamos longe de por fim à pobreza, embora o país tenha avançado bastante. E não adianta ficar olhando para trás, afinal, já se vão dez anos que os neoliberais tucanos foram derrotados. A Nação tem pressa.

A "CEGUEIRA" DA MÍDIA!
Acho melhor falar "parte da mídia", dos grandes grupos de comunicação (A imprensa regional assume outro comportamento, mais ameno, digamos. Contudo fica mais sujeita às pressões dos governos locais e estaduais, e por isso omitem as críticas aos mesmos). Esses meios de comunicação, de linha editorial direitista (Globo, Veja, Estadão, Folha de São Paulo, Band, principalmente), nos últimos anos tem procurado criar um clima crescente de insatisfação na população, parte do objetivo político de levar ao poder seus aliados conservadores. Agora falam como se eles também não fossem alvos dessas insatisfações. Mostram cenas da multidão vaiando as bandeiras de alguns partidos de esquerda (o que demonstra a cegueira, já que não há outro caminho para as mudanças, que não o institucional, e com a ajuda daqueles partidos que apoiam as reivindicações) mas não mostram quando eles próprios são vaiados e precisam disfarçar-se no meio da multidão.  E dão dimensão pequena às cenas de destruição de seus próprios veículos de comunicação (atitudes extremas, e desnecessárias, aliás, mas é fruto da mesma revolta dos que se sentem enganados). As pessoas também estão fartas da maneira como esses órgãos da imprensa procuram manipular as notícias. Por isso a reação da multidão, fazendo com que alguns repórteres omitam o símbolo de suas emissoras. Pode-se usar, também nesse caso, a velha frase de uma música de Geraldo Vandré: "é a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dá".
AS DIMENSÕES DOS PROBLEMAS URBANOS

Pouco se diz, mas é evidente, que as cidades são verdadeiros vulcões, prestes a explodir. Ou melhor, um vulcão em processo de expelir suas mais incandescentes lavas. A questão é, como solucionar problemas crônicos, na rapidez com que está a exigir a pouca paciência do povo e com uma máquina estatal paquidérmica? Não são problemas de agora, mas que foram se acumulando como decorrência da leniência dos governantes, que priorizam as áreas mais sofisticadas, bairros de ricos e facilitando os acessos aos condomínios fechados. Portanto, são problemas que não dizem respeito diretamente ao governo federal, são de responsabilidades locais e estaduais. Nos últimos tempos, apesar da (pequena) redução da miséria, ampliou-se o fosso entre ricos e pobres. Temos várias “cidades” em um único aglomerado urbano. Bairros que são microcosmos, e funcionam como pequenas cidades interioranas, mas compõem um verdadeiro apartheid social. Agora será preciso pressa, e suplantar a burocracia não é fácil. E precisa de muito mais vigilância, porque quando se exige menos burocracia, abre-se mais brechas para corrupção. Estamos naquela situação de como vemos o cachorro correndo atrás de seu próprio rabo. 
NÃO HÁ MUDANÇA NOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Tenho uma forte suspeita de que há uma geração que desaprendeu da política, e outra que desconhece o que ela significa, a sua importância. E, principalmente, desconhece a história desse país. Embora nada disso esteja sendo dito no sentido de generalizar, mas essa é uma realidade na multidão que tem ido ás ruas. Tenho críticas, muitas críticas, a algumas atitudes do governo, principalmente quando cede às pressões conservadoras e da grande mídia. Mas conheço o passado desse país, e espero que ele não se repita. Nem como tragédia, nem como farsa, como diria Karl Marx.
O melhor que se faz é buscar se informar sobre as batalhas políticas em curso, senão todos vão no embalo da rede globo. E é preciso também saber como funciona o sistema político. Muita gente está indo para as ruas sem saber isso. A multidão vai às ruas no embalo, mas a cegueira ainda continua. É necessário pressionar por uma reforma política e conscientizar os cidadãos de que não se pode votar em candidatos por simples amizade, mas pelo seu histórico de lutas. O que se vê é a repetição de um voto conservador, em que se elegem empresários, latifundiários e profissionais liberais sem tradição de participação nas lutas sociais. É a própria sociedade que compõe esses parlamentos. Além disso, as novas gerações precisam saber melhor de como era esse país. Embora a maioria das pessoas esteja certa na necessidade de que é preciso melhorar, e muito. Mas não podemos permitir que as nossas liberdades democráticas sejam ameaçadas e que essa multidão torne-se massa de manobra dos setores reacionários. 
“V” DE VINGANÇA!
A máscara do filme “V” DE VINGANÇA tem sido muito usado nas manifestações, principalmente por anarquistas e pelo grupo Anonymous. Isso tem acontecido também nos movimentos de "indignados" no mundo inteiro. Alguns usam sem compreenderem a mensagem do filme, que é baseado em uma história de quadrinhos. A revolta do personagem se dá porque um mandatário, com planos para por fim a democracia, permite que a violência assuma uma situação de total descontrole na sociedade, reduz as forças de segurança, a ponto de os cidadãos passarem a exigir um aparato repressivo mais forte. Dessa forma, após um golpe em que impõe o rigor de uma ditadura, ele militariza a sociedade, transforma as pessoas em alienadas e controladas pelo regime fascista. "V", o personagem, então se revolta contra a tirania, e prepara uma vingança para destruir um governo totalitário e fascista. Sua causa, advinha de uma ideia, ou de um ideal, que se contrapunha ao totalitarismo. Completamente diferente do sentido que os "mascarados" atuais tentam dar nas manifestações.
POR UMA NOVA FORMA DE FAZER POLÍTICA
Agora é apostar que surja dessas manifestações, a parte boa, naturalmente, majoritária, novas lideranças dispostas a fazer um novo tipo de política. Isso é tão importante quanto as reivindicações que estão postas, porque as coisas só se resolvem no âmbito da política. Chega de filhos de velhas raposas políticas serem candidatos, de pastores conservadores homofóbicos e de "mauricinhos" lançados por partidos de direita. São dessas manifestações que despontam as melhores lideranças. É uma esperança, mesmo que digam que lideranças de outrora assumiram posturas conservadoras quando chegaram ao poder. Mas se perdermos essas esperanças, aí só o caos, e também não se pode pensar em revolução sem uma vanguarda revolucionária. Só nos resta lutar por mudanças dentro das estruturas que estão aí, revigorando-as com personagens que não estejam viciados pelo eterno compadrismo que caracteriza a política brasileira. Mas não dá para atacar os partidos, eles são os instrumentos pelos quais se farão as mudanças. O que se deve é diferenciá-los, e identificar aqueles que possam erguer essas bandeiras que estão sendo gritadas nas ruas.
Como não creio que os anarquistas tenham razão, de que o caos prevalecerá, me seguro nessas expectativas, pois, ditadura nunca mais. Então, à luta, juventude! Mas com organização. E repito sempre a conhecida frase de Che Guevara: "hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás".
MULTIDÃO!
É preciso também ter a percepção que essa nova forma de fazer política deve também questionar aquelas existentes, tradicionais e fracassadas. São rejeitadas pela multidão e devem ser substituídas. Não se pode mais fechar os olhos, no Brasil e em outras partes do mundo, ao efetivo protagonismo da multidão. Embora ela seja, contraditoriamente, una e extremamente diversa. Como dizem Toni Negri e Michael Hardt, “a multidão é composta de diferenças e singularidades radicais que nunca podem ser sintetizadas numa identidade”. No entanto, ela é facilmente manipulada, a multidão é cega, e o direcionamento para onde ela seguirá dependerá das consequências que serão tiradas desse processo, por quem tem a condução da política.
Depois dessa longa temporada de violência e contradições, de guerra civil global, corrupção do biopoder imperial e infinita labuta da multidão biopolítica, os extraordinários acúmulos de queixas e propostas devem em dado momento ser transformados por um evento de impacto, uma radical exigência insurrecional. Já podemos reconhecer que hoje o tempo se divide em um presente que já está morto e um futuro que já nasceu – e o abismo entre os dois vai se tornando enorme. Com o tempo algum evento haverá de nos impulsionar como uma flecha para esse futuro vivo. Será este o verdadeiro ato de amor político”. (Hardt, Michael e Negri, Antonio.Multidão. São Paulo, Record, 2005)

* Publicado aqui neste Blog em 22 de junho de 2013.