terça-feira, 11 de junho de 2013

REFLEXÕES SOBRE O AMOR

Resolvi sair das postagens irascíveis nesse intervalo de tempo, para uma reflexão bem mais amena, sobre nossa capacidade em compreender a dimensão do amor. O que ele significa. Até porque espero que esse comportamento, mais tolerante, contribua para delinear melhor nosso caminho, do aqui, agora, para sei lá quando. Quero evitar ao máximo os velhos maniqueísmos que a filosofia antiga criou, a religião potencializou e a política consolidou. Enfim, construo aqui neste espaço um diálogo com aqueles que de vez em quando, quero crer, lêem minhas crônicas.
Sempre fui uma pessoa motivada pelo amor. Um eterno apaixonado e por vezes incompreendido. Ou talvez a ilusão de achar que gostar de alguém represente automaticamente a retribuição daquele sentimento. Essa é uma velha ilusão de quem ama. Meu período de militância política nos anos 1980 diminuiu um pouco isso, mas manteve essa verve conservadora, continuei errante por caminhos de paixões tresloucadas.
Bom, nossa sorte é que de repente alguém gosta da gente. Inverte-se, então, o protagonismo. E ao nos sentir amados instintivamente reagimos de maneira contraditória de quando escolhemos nosso amor. Mas terminamos sucumbindo à paixão que passa a nos envolver.
Quase nunca sabemos, nesses casos, de amar, quem é o sujeito e quem é o objeto/adjetivo. De resto é certo que na maioria das vezes ele é transitório, infinito enquanto dura, ou abstrato. Mas no concreto: o que é o amor?
Vamos à história, pois esse é o principal objetivo que quero alcançar com esse texto. Entender, mesmo que de forma sintética, como se deu o percurso do amor ao longo do tempo, e como isso nos afeta.
Imaginamos que os belos contos de amor romanceados, e popularizados pelo cinema, representam a maneira como historicamente as relações entre as pessoas foram marcadas. Pura ilusão. Reflexo da construção de uma cultura inspirada no romantismo moderno, forjado pela burguesia para construir uma sociedade na qual se pudesse ter a crença que a ordem define o comportamento social, ao invés do respeito e a justiça. Os amores cinematográficos são exceções, e às vezes carregados de anacronismos.
Mas... “É debaixo dos panos que a gente esconde tudo, e não se fica mudo, e tudo quer fazer”, diz a música cantada por Ney Matogrosso. Pois essa sempre foi a filosofia da cultura burguesa, construída com valores religiosos judaico-cristãos. O casamento monogâmico consolidou-se como mecanismo de perpetuação da propriedade, do direito de herança, na expectativa que o amor se mantenha a partir da felicidade construída pelo estilo de vida a ser alcançado, inspirado no modelo que a burguesia inventou. Para ser feliz e segurar o seu amor, é fundamental o sucesso na construção de uma comodidade social. Antes disso, casamento era imposição, mas cercado de outros valore$.
Assim se fez. Construímos a noção de amor fundamentada nesses princípios. As histórias de amores repletas de superação que servem de exemplo devem ter como objetivo demonstrar essa capacidade, em se construir a perfeita harmonia, em viver bem com seu “bem”.
Mas, na verdade, exceções à parte, o que se constrói é uma verdadeira prisão, na medida em que se esgota com o tempo, pela sua implacabilidade, aquele amor perfeito, juvenil. Encerra-se na impossibilidade de renovar-se, de retomar o mesmo ímpeto e voluptuosidade que o tempo carregou.
Desta prisão, pelas grades imaginárias que cercam os limites do possível e aceitável, olhares enviesados, seduções, prazeres... e até mesmo novos amores, ou aventuras que podem reacender o velho amor.
Sabe-se que ao longo da existência humana, a liberdade sempre foi a sua essência. A prisão é sempre um lugar de onde se passa todo o tempo imaginando a maneira de libertar-se, de fugir da angústia e do desespero de sentir-se acuado, impelido eternamente a aceitar e conformar-se com um destino traçado no passado. Esse é o desafio a se compreender o verdadeiro sentido do amor. Ele não está determinado pelo tempo, mas pela intensidade de uma relação construída na somatória das diferenças, na infinitude do prazer, no atrativo da paixão. Não se impõe em livros de registros nem em orações ao pé do altar.
A sociedade moderna, burguesa, seguindo os valores religiosos, determinou que isso deveria ser feito pelo casamento, a fim de, repito, manter o sentido da propriedade privada agora mediante novos valores, e consumou o amor em uma redoma.
Aos poucos se rompe esse invólucro. Mas paira ainda uma sombra de desconfiança e de olhares fundamentalistas sobre as alternativas que as pessoas vão buscando na sociedade contemporânea. Agora conservadores, esses mesmos valores que romperam com a devassidão medieval, prende-se a uma única lógica: construir o futuro.
Esse foi o mecanismo ideal, posto em funcionamento pela burguesia, a fim de construir um modo de vida calcado na construção de valores materiais e de permanente consumo que possibilitasse atingir a fantasia da modernidade. Isso que no século XX consolidou-se como o “american way of life”.
Mas voltamos ao começo.
Afinal, o que é o amor? Como ele persiste ao tempo, se é que isso acontece? Não sei se é uma resposta, mas encontrei uma formulação interessante, com a qual tendo a concordar, em Luc Ferry, no livro “Aprender a Viver – filosofia para os novos tempos” (Ed. Objetiva, 2007, pp. 292-293).
Ele afirma que “só a singularidade, que ultrapassa ao mesmo tempo o particular e o universal, pode ser objeto de amor”. Segundo ele, “se nos prendemos apenas às qualidades particulares/gerais, nunca amamos verdadeiramente ninguém. (...) O que faz com que um ser seja amável, o que dá a impressão de que poderíamos continuar a amá-lo mesmo que a doença o tivesse desfigurado, não é redutível a uma qualidade, por mais importante que seja. O que amamos nele (e que ele ama em nós eventualmente) e que, consequentemente, devemos alimentar tanto em relação ao outro quanto em nós mesmos, não é nem a particularidade nem as qualidades abstratas (o universal), mas a singularidadeque o distingue e o torna sem igual”.
Assim, propõe reinvestir no que ele diz ser o “instante eterno”, herdado do ideal grego, que seria o “presente que, por sua singularidade, justamente porque o consideramos insubstituível e cuja espessura medimos, em vez de anulá-lo em nome da nostalgia do que o precede ou da esperança do que poderia suceder a ele, liberta-se das angústias da morte ligadas à finitude do tempo”.
Mas vamos à minha particularidade, já que estou emitindo uma opinião, mesmo que fundamentado na história e na filosofia. Poder-se-á dizer, depois desse percurso, que me encontro desvairado, arrependido dos amores vividos e vivente. Um tanto quanto envolvido num estoicismo disfarçado, com pitadas de um cristianismo arrependido, muito embora este já distanciado no tempo, mas ainda encorpado no costume. Não, ao contrário. Me vejo diante dessa singularidade dita por Ferry, e a construir esse sentido de amor, que me motiva até hoje. Embora crítico da hipocrisia que existe por trás da história do casamento monogâmico, me rendi a ele. Mas devo reconhecer que fui agraciado pela sorte, e sorteado pelo acaso. Isso só acontece no amor. Mas não é a regra, infelizmente.
Assim, mais uma vez dialeticamente - quando chego perto do fim, retorno ao começo - devo dizer que o tempo, outro tempo, aquele em que objetivamente amadurecemos, facilita esse olhar da singularidade, e no reencontrar dessa diferença que torna um ser sem igual reafirmo o meu amor, reaquecendo de desejos e paixões, por quem escolhi viver por toda a vida, sem ser imortal, "posto que é chama", mas na infinitude do seu tempo. Pois não só a singularidade, mas o permanente afeto, o desejo, a vontade de se realizar sexualmente e o ardor da paixão de amar e se sentir amado, é que pode garantir que o amor sobreviva ao tempo e que seja “eterno enquanto dure”. E assim, essa "prisão" por nós escolhida, passa a representar momentos sublimes de cumplicidade e de um permanente redescobrimento do outro. Amar pode ser um verbo transitivo, mas o amor, não é para ser transitório, deve ser definitivo e infinito. É melhor, e mais feliz, ser assim.
Mas, como diz Vinícius de Morais, “tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor”. As mulheres lerão a poesia com outro olhar, e procurarão um bem amado, para viver um grande amor. Tanto eu, quanto certamente faria Vinícius, não nos opomos a essa liberdade poética.

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